Branco-cinza. Cor de rosa

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]á uma cidade submersa por detrás de cada frase. De cada pessoa. De cada paisagem estranha de sonho. Aquela quase brancura do céu nas noites de chuva mansa e monótona e às vezes acabada. Como a pele clara mergulhada na quase escuridão, de quase não pensar. É o quê, o corpo, senão uma imensidão branca e momentânea no resto da noite como o céu no resto da chuva. Um corpo a apagar. A acender, a apagar. A mágoa a apagar o que o corpo acende. Às vezes. Desvendar como aos olhos. Como se uma impossibilidade fosse visível na possibilidade de um corpo. Uma visão completa do que é para além. Dos espasmos. De uma respiração rouca. Gritos. Mesmo. Se mesmo, algo cruzasse nos sentidos todos, a fronteira fina da pele. Mas mesmo assim não há menos do que dois ou três, num. Sentir, olhar, pensar. O outro. E são quatro, já. Ali. Na mesma cama. Na mesma noite branca acinzentada, e de restos de chuva, ainda a escorrer de tudo. Intervalados ruídos frescos. Irritantes e cavos, dependendo do que tocam. Alguns. Outros, devagarinho, a envolver. Em insólitas geometrias secretas. Daqui e dali. A ecoar na noite. Branca, cinzenta, citadina, como só as noites. Sobre paredes, canos e vidros, e tudo ao negro, ou quase. Excepto a noite do céu. Clara e impiedosa a correr sem se dar por ela. A correr lenta. Clara. Clara e lenta e surda como só a noite. Na cidade real e adormecida. Ao lado do corpo.

Cerra-se-me o silêncio como uma banda adesiva em torno de pensamentos e palavras de conclusão. Cerram-se as palavras em torno de pensamentos e penas. E como penas e penugens de asas friorentas sobre o corpo de uma lógica e uma não-lógica. E o frio. E provisório tudo.

As pessoas viram o cérebro do avesso e mobilam a casa. Ou perder-me em auto-estradas de circulação restrita. Marear sem cuidado nem destino e voltar a casa ao Cabo da frustração. Mas é uma coisa perecível sempre. Cada tom e cada lugar e cada passo. Passou. Sei lá, às vezes o que fazer de ti, de mim. Na memória. Beijos. Como a terminar uma carta mas com a polpa de um lábio inferior nítida. Nítida e doce. Depois a flor. Já na almofada. Não sei se minha se no sonho, minha. E falar. Não é que tantas vezes não pense que me desenganei no ficheiro e cliquei no poema errado. Poema, loquema, fonema, criatema, problema. Coisas que nem existem. Abraço a almofada com força.

Todos os dias até à noite, ou sobretudo aí aquela vontade teimosa de que ainda chegue algo consolador. E ao mesmo tempo que rejeitar a ideia de fechar o dia na noite da cama do sono e do fim, e nele, nela, a vontade do outro dia. Do seu desconhecido, do seu desconhecimento absoluto no que traz e no que retira. Fico entre portas na indefinição de querer e não querer ouvir. Ver. Perguntar, esperar. Acabar. Desesperar. De não ver. Sempre. E como se as palavras da escrita pudessem ter as cores de uma aguarela sóbria etérea e deslavada de qualquer colorido rico e definitivo, e dela sobrasse apenas uma memória fresca mas fantasmagórica da cor. Das cores. Das cores suaves de ainda não serem no esplendor do meio-dia. Da fantasmática misteriosa plenitude da meia-noite iluminada de lua, do desconhecido absoluto de uma noite sem luar, ou da misteriosa vida anunciada em declínio pelas cinco da tarde a reverberar como iluminadas por dentro as formas. É já uma madrugada nublosa daquelas em que a maior violência que se pode imaginar, para além de todos os pensamentos pendentes de outros dias, para aquém deles e dos dilemas, mais dúvidas do que dilemas, para além de tudo o que acorre de assalto no primeiro minuto vigilante, é ter que sair do esquecimento morno dos cobertores de lã. Em que há sempre ainda a esperança de retorno ao sono.

Mas que já não volta até outro dia. E o apelo frio incolor da madrugada, ali, como um chamamento indeciso mas persistente. Avanço no campo de vimes e hastes a amarelar sem estação convicta. Rígidos e estaladiços. Discretamente crepitantes, frágeis na forma e espessura, mas que picam. Que arranham, que ferem discretamente a pele sem impedir de avançar, sem se lhe dedicar um pensamento mais do que ténue como as cores. Momentâneo como cada passo. E passo em frente com as árvores ao fundo sem saber porquê. Porque vou. E uma haste perdida no meio de tudo, uma pernada de roseira brava por engano. A diferença entre tudo o que se assemelha. No meio, bem no meio do que se assemelha. E, como por ilusão da vontade, vira uma corola coroada de pétalas frescas de cor suave mas cor. Vira para mim imperceptíveis milímetros das pétalas abraçadas entre si e penso que não são girassóis ali. Pergunto-me porquê. Que nada em mim tem o alo ensolarado e radiante matinal de um sol da terra. Mas avanço deslumbrada. Chego-lhe perto demais. E estendo a mão no encantamento de uma rosa no meio de silvas e outras agruras. E pergunto, recolhendo a mão posso…posso tocar…pergunto sempre e nunca sei a resposta porque é assim que eu sou. Para além dos olhos nada mais sei.

Diria que me olhou ao chegar. Mas talvez não. Era talvez o meu desejo deslumbrado de a ver diferente e bonita. Ali. Talvez até nem estivesse ali ao fundo, mas por detrás dos olhos com que a desejei. Ver. Pressentir ao fundo. Alugar os meus passos até. E chegar. E perguntar posso. E vê-la ainda talvez amuada ou irritada da minha pergunta. Que faço demais. E olhar…Também. E perguntar. E olhar. E perguntar. E nunca saber ver. Sem perguntar sem saber. Quase jurava ver-lhe, se estava ali, um risinho sarcástico ou uma ironia imperscrutável do que diz claro que sim. Ou de quem diz claro que não. Estavas aí…a mesma resposta, claro que sim, a mesma resposta, claro que não. É assim que eu vejo o que vejo. Afasto com a violência desesperada de ter que ser, os lençóis brancos, os cobertores de lã branca quentes e afáveis que me não podem prender mais e por que tem que ser este arrancar brutal, este renascer diário para o mesmo que me espera. E que, brancos, me dão a calma que não tenho, como aquela rosa. E a as nuvens correm como em certos dias, as ventanias assobiam e passam, o mar revolve-se na sua eterna e igual violenta imaterialidade, as coisas nascem crescem e secam ou morrem.

E eu estou aqui, sem voar de pés na terra e sempre com a mesmas dúvidas que me levam às rosas e trazem à matérica textura áspera mas calorosa destes cobertores em que às vezes sonho. E de novo aquela aprisionante sensação desesperada de nadar na espessura viscosa e densa das roupas de cama. Sem conseguir deixar o corpo afundar nelas e avançar na água. Que não podia ser mas se ansiava que fosse. Fecho os olhos ao ver que sonha. Que sonha uma que não sei se sou. Revolve-se nos mesmos rolos viscosos e cinzentos escuros da roupa e no mesmo sonho em que me vejo. Vista ou sonhada. Ou nada. Os olhos fechados não me permitem ver. Ver-me nesse sonho que não conheço. Ver quem sonha o sonho. Quem sonho e a quem sonho o sonho. Entendo sempre os meus sonhos de outros em mim. Nunca em mim me entendo nos sonhos de outros em mim.

É isso. Os olhos fechados que não me veem e sonham. Será a mim. Ou não. Acordo e não está ali quem me sonhou no meu sonho. Ou porque não sonho. Levanto-me de dentro do sonho do sonho. Do sonho. Um acordar penoso e longo como um túnel. De reposteiros pesados e escuros a transpor com os pés fora da cama sobre o abismo. Os chinelos são a aterragem possível. Atamancada e tosca como a de uma ave pouco habituada. E o dia rende a noite em cinzentos também. Mas do céu e por ali abaixo. Que respiro mas percebo suaves. Hoje. E, por momentos não saber nada. E ser bom. E ali, longe, todos os meus anjos voam no céu. Inalcançáveis vigilantes. Tão longe, tão irredutíveis, tão abstractos. Tão dentro de mim. Só me resta olhar para cima. Seguir-lhes os olhos ausentes como um último fio que nos liga. Um grito surdo.

3 Fev 2017

Sentido único

[dropcap style≠circle’]N[/dropcap]ada a reler. Como se sempre uma leitura nova. Quanto muito na música, eternizar na repetição obsessiva uma mesma emoção a distender-se sem querer o abandono. O caminho sempre em frente, afinal mesmo aí. Naquele momento em que a alma se nos cansa de si e segue. A fugir mesmo devagarinho mas em frente. Porque não há outra maneira de enfrentar o tempo. Senão deixá-lo correr para trás, como já visto da janela de um comboio. Sob a forma de casas, ou árvores. E de caminho Kant. Já nem me lembro porquê ao retomar este texto. Mas deixo a referência que fica sempre bem. Um filósofo. Nem sei muito bem já, se ainda aprecio filosofia. Mas não apetece um caminho morto. Um nome morto. Referencial só numa camada. De caminho Husserl. Mas nada disto é válido hoje. A filosofia morreu antes da cidade cibernética se instalar em torno. Exigente à adaptação de uma nova espécie que somos, ainda ancorada na anterior. É a era da linguagem mediatizada ao ponto da entropia total. Nunca tão grande indiferenciação entre os planos do real e da ficção. Nunca tão grande ambiguidade no encontro. No discurso. No desencontro. Nunca tão grande necessidade de rigor face à sua impossibilidade. A cibernética cidade frenética da comunicação. Da fuga. O que é gosto é vida. Em cada Kant, em cada canto, em cada cante. Caminhos são ideias boas de que me cerco com o tempo devido. Vazios como uma solidão expressa, mas a iludir um olhar exterior. Porque nem sempre. Vazio é o aberto e desconhecido. Que, em alguma medida, estrutura a viabilidade de uma existência.

Que seria de quem, lúcido de finitude, não esquecesse todos os dias. Todos os caminhos. Não se esquecesse do ser finito, falível, anódino mesmo para si, preso a determinismos vários e, por mais que adiado sem hora, irremediável. Então vazio e pleno, de imprevisto e indeterminadamente possível, faces de uma moeda consciente de vida. E de existência. Vazio em aberto. Num caminho. Para isso o silêncio. Às vezes. Liberto. A deixar ver o invisível. Seguir o invisível. Nuns dias. Noutros o visível necessário. Pequenas e grandes coisas aqui e ali. Chamar-lhe um nome ou sonho, talvez. A vida move-se, mas no erro de paralaxe. Que se compra em finitude e que se compra em eternidade. Há um erro para tudo e há um preço para tudo. Paradoxal. É o que nos anima numa, para viver como se real fosse a outra. Nos dois sentidos. No sentido alternado de ambas, inimigas inseparáveis, se descobre a hábil eficácia de cada parte. Outra vez a desesperante questão do indominável. No sentido.

Desde há dias fiquei em casa na companhia dos ácaros. São uma boa companhia porque não se veem, não se sentem, não se pressentem. Mas sabe-se que existem.

Uma parte de mim é pobre. Dedica-se a assuntos de limpeza, enquanto reflecte Deleuze, Derrida, Duras, Descartes. Por ordem alfabética e na desordem dos pensamentos atropelados por Caim de cada um, e enquanto se produz ordem na vida material. Ou é isto a vida, e nada suja as mãos na transumância de sentidos distraídos do pó de limpeza como do pó dos tempos. Dos micróbios, mesmo. Não visíveis. Esquecidos. Talvez não existam. Uma parte de mim não mora em mim. Vem e vai todos os dias incerta. Como chamar-lhe obsessão. Obsessão de morte, obsessão de amor, obsessão de me ver espalhada nas palavras que me perseguem por dentro. Não gosto de pontos traumáticos de interrogação. Reticências. E a liberdade no seu curso natural.

Sempre uma ideia fetiche. Do recomeço assinalado de cruz. A cada um o seu visível, a cada um o seu invisível. A não querer olhar para trás. Olhar para além e para longe na cegueira irredutível do vazio que se oferece a preencher. Como uma melodia mas em silenciosa aparência. Já um passo para além da dor. Uma bolha transparente e exterior. Entre mim e a dor sentida. Está ali a dor. A bolha casulo da dor. Em torno. Sangrada à força de mim. Está ali e isola-me de tudo. Fora. Eu também. Como expulsa de casa. Da bolha enorme. Da dor. E de repente vazia. A bolha. Eu. Do lado de fora de uma bolha vazia. Há um caminho depois. Como voltar a ingerir a dor. Para de dentro não obstruir o caminho. Talvez.

E perder o pé. E ficar a flutuar simplesmente num intervalo de dor. Entre a não dor, a dor, e a ausência estranha da dor. Sem saber depois. Mas é como se se me virasse o ser do avesso e não é bom. Há que voltar. Aos sentidos e ao sentir. Mas não àquele apego também estranho à dor como se nela se consolidasse a pessoa que nos falece e falece para não voltar. Excepto, parece, na dor. Por agora. O que é isto de não estar cá mais, é o que nem corpo nem alma admitem de repente. É isso. E de novo e sempre a imagem do caminho que se esconde e que é sem retorno como sempre.

Na infância, era a fuga. No sonho. Dentro do sonho, digo. E o temor dos sonhos da noite. Todas as noites a rezar, como a rezar, que o sonho fosse da morte. Não por a amar, só mesmo pelo branco ecrã vazio em vez de todas as possibilidades de sonhos maus. E na fuga, conduzia um carro. O que era do meu pai. Eu sei o que isso é. Aquela irreprimível necessidade de domínio. Do real. Que escapa tanto a uma criança. E depois. Sempre, também. Eu brincava com bonecas, mas no sonho de sempre conduzia um carro. Em fuga. Sempre de noite. Escadarias da cidade, incluídas. Sem pessoas. Só aquelas de quem fugia.

E depois, há muitos anos quando comecei a conduzir um carro andava como se a pé, com mil cuidados mas pelos caminhos de sempre na cidade. Ao fim de uns tempos não há quase o carro diferente do corpo. Mais uma roupa. Sapatos rápidos para andar e não sofrer do frio. Não era preciso pensar a cidade inscrita a direito num mapa de memória. Ali ao fundo a casa de. Virando à esquerda, o jardim. Um cotovelo de rua entre a mercearia e o terreiro de brincar. O caminho do 50. O do 46. Um dia começou tudo a desarrumar-se em estratégias e percursos indirectos, a cidade a tornar-se desconhecida na sua esquadria natural e a fragmentar-se em percursos. A esconder-se em túneis. A tornar-se misteriosa para além dos novos caminhos de andar. De carro. Saber que para virar à esquerda muito do inverso lhe deve anteceder. E no registo fragmentado de novas memórias, a cidade cada vez mais desconhecida. Em sítios novos sobra a noção de percurso a sobrepor-se a uma lógica de ruas, cruzamentos e curvas. Deixei de reconhecer a cidade inteira mas sim partes dela. Abstractas dentro dela. Como um novo mapa imaginário, desenhado numa teia de sentidos proibidos, ou obrigatórios, grandes curvaturas em hélice para chegar a um plano superior. De estrada. Não poder voltar atrás. Circulares fora do espaço. Uma cidade de estradas ladeadas de um nada superior ou inferior. Quando daqui ali era tão em linha recta. Dantes.

Depois a pensar para trás nos caminhos. Conduzir um carro entre janelas sobre estradas e caminhos. E um dia pensei reconhecer no caminho de sempre, um sinal do caminho inverso. Noutro dia, do mesmo caminho salta um outro sinal, invertido em tudo, e de novo, do caminho inverso. Na cidade alienada por percursos indirectos, e sempre os sentidos obrigatórios e sentidos proibidos, ir não é já o inverso necessário do voltar. Senão no paradigma de destino. Não no percorrer do caminho. Ir e vir na rotina dos dias. No hábito de horas a repetir sem outra semelhança. E um dia, reparar também que mesmo o mesmo caminho de ir e voltar, se apresenta desconhecido de si. O de ir, com as marcas de si e do ir. O de voltar, com as marcas de outras marcas como desconhecidas umas das outras. As marcas do voltar. Uma curva, na frente um letreiro x. Sempre. Voltar naquilo que descia, subindo. E antes, ter ido e ir, naquilo que sobe, descendo. A outra curva irreconhecida na primeira. Um outro letreiro Y na frente. Outro, sim mas que está ali sempre. E um dia, dizia, reconheço no letreiro à direita, o letreiro do lado esquerdo. Esquisito e semelhante. E o que curva à esquerda, invertido na curva à direita de outras horas. É o espanto. Nunca antes se tivera reconhecido no mesmo caminho e da mesma rua e estrada, um na inversão do outro. Talvez a velocidade que não é a dos pés e do olhar coordenado ao tempo desses. Um olhar por detrás de vidros e rápido e atento a outra fatia do real e assaltado de sinais soltos interrompidos na sua sequência geográfica e lógica. Antes. Durante. Depois. O que fica para trás, estranho enquadramento invertido no espelho retrovisor. É o espanto. Como se leva anos a reconhecer um lugar em outro. Alienados num percurso que os afasta de si enquanto lugar único. Preferir caminhar. Também. Como conduzir ou ser-se conduzido. Num carro. Caminhos diferentes sempre. Os olhos.

A pensar nas janelas do comboio, dantes, a realidade a correr para trás. E dia após dia reconhecer no caminho de ir sempre a ausência de sinais do caminho da volta. Mais tarde. Ao entardecer que também era marca de um olhar diferente. Ou porque me sentava do outro lado. Ou porque pensava em outras coisas. E mesmo os poucos sinais reconhecíveis, a parecer outros. Num caminho, No caminho de voltar. Ou, na realidade dois caminhos simétricos de ir. Sempre de ir. Mas fraca e indistinta simetria. Não há cainho de voltar. Dois destinos nas pontas de uma linha. Mas sentido único, de cada vez. E umas vezes segue-se o caminho do visível, outras o do invisível…

Como um fenómeno divertido nos dias, a não pensar. Para ir acontecendo.

Sempre tive um fraquinho pelo fenómeno. O real como se nos apresenta independentemente de tudo o que contrarie essa intuição. Sempre dividida em queda. Uma propensão para a verdade provisória da ciência. Sempre a aguardar a sua substituição por uma cortina nova de tecido fresco. E tudo o que deriva em todas as outras águas. E uma verdade baseada na não contradição. O princípio. Não se abala uma verdade que se ancora nos dados da consciência. Um lugar de conforto a ver bem. Despido dos acidentes próprios de um mundo real. Que realidade, é a questão fugidia a que não podendo fugir, se precisa de ligar a algo. A um plano definido de entre os estratos do real. De todo o real possível de pensar.

E depois pensar se aquilo dos caminhos únicos. Se aquilo dos sentidos únicos. Se é assim com os sentimentos. Os amores quando são caminhos que seguimos pelo dar ou pelo receber. Mas no amor, tudo se mistura depois e antes e não deveria haver esse traçado da geometria, essa matemática de vectores. Caminhei algumas vezes em sentidos contrários entre sentimentos entre impressões. Decisões. E também aí nada num sentido é reconhecível no outro como inverso. Sempre o espanto abrupto de um dos sentidos sem a colagem do outro. Sempre o espanto como se o caminho fosse um. Mas não será. Aí, caminhos talvez sempre outros. O de ida e o de voltar. Outras vezes sim, e a mesma admiração.

A vida exige demais e pela minha voz confusa e equivocada. Do tempo, talvez, desconfio muito e que muito. Não sei é porquê. Não fazer as contas a nada. E estou na hora do post-it amarelo. Caminhos. Dois pontos. Não confundir o papelinho da fantasia com o da ilusão. Post-it a prender no espelho. O da maresia e o da solidão – este no frigorífico. Ou vontade com vocação. Difícil, este. Talvez na janela…Que dá para a rua. Ela própria diferente no ir e no voltar, dela, em sentido contrário ao meu. A ir.

1 Fev 2017

Ora descrente

[dropcap style≠’circle’]C[/dropcap]omo se acreditasse, só porque não faz mal. A inventar uma força para o feitiço. Descrente mas empenhada. À procura de algo que dizer por dentro. Ora. Talvez.

Chorei-lhe no colo pela última vez. A arrefecer, já. Ia dizer que o instante é fundamental no decurso do caminho. Hesitei. E depois pensei: falível. Não fundamental. Aleatório e de tão determinante, absurdo. E depois, de novo, fundamental. No criar de fundamentos. Fundações, alicerces. No colocar lento afinal de uma pequena pedra alinhada num sentido. Na berma. Pedra densa, pequena mas pesada contra o chão. Pesada contra o tempo. E pesada contra um simples sopro. Mas falível se tudo nesse pequeno instante que podia não ser, for apostado sem mais tempo. Quando é assim, coloca-se-nos a vida entre a espada e a parede do inevitável. Sempre dependente de maneira absoluta do instante. Irrelevante. Desprezável e ínfimo para tão grande desígnio. E os instantes não se cruzam facilmente com as intenções. São volácteis. Pequenas plumas à mercê de aragens múltiplas. Desencontradas da meteorologia. Há que ser pedra pequena, o instante. Esperar o tempo. Colocada firme e pesada no seu lugar. À beira do caminho. A desenhar. O.

No intervalo lembrei-me de “Run Lola run”, esse filme em várias versões sucessivas de uma mesma história, em que se vê como um ínfimo detalhe no seu âmago, podia de forma exponencial derivar para desfechos progressivamente mais divergentes. Esse peso do detalhe insignificante e quase sem dimensão, a determinar todo curso de uma história. A ramificação do real possível, encarnado em cada pequena partícula. E depois Oscar Wilde: os nadas. Os pequenos nadas sem relevância de sentido.

Ia dizer prisão, essa, mas não quero esta palavra. A das palavras. Enleio insolúvel de amor e raiva. Enleados nelas como em pedras que se derramam encosta abaixo e penosamente voltamos a emburrar carinhosamente, penosamente, carinhosamente, pela vertente do dia de cada dia. E da noite de cada noite. E do corpo de cada corpo que se revela no espelho de cada espelho, de cada dia. E no estanho cansado de cada noite. Como prática de vodu. Beber num copo bonito de cristal fino, tocar com as pontas dos dedos e fazê-lo tilintar de alegria melódica, e verter sem hesitação o melhor líquido. Bebê-las até que contaminem todo o corpo de torpor bom de calor ígneo e desinfectante. Deixá-las invadir sem defesa todo o espaço imaterial das sensações a recobrir fantasmas de pensamentos oportunistas. Palavras de viajar sempre mesmo que não se possa viajar nunca. Nelas, embarcar de bagagem leve ou nenhuma. De mãos livres para escolher tocar de tacto ligeiro e olhar apurado. Tocar aquelas de que se gosta a perder a razão. Não existe razão que ganhe à desarrazoada ilógica do querer.

Na verdade, penso aqui nelas como em amantes saudosos e desejados. Porque a tudo prestam o seu corpo corrompido. A tudo se vendem alegremente. Mas usar com rigor as tontas. Dar um lanche açucarado às mentirosas convictas e deixá-las para aí a entreter-se gulosamente de outras possibilidades. Já bastam as que dizem sem querer. As que pronunciam bombas num fogo de vista para encantar os olhos. Para empatar o tempo, para iludir umas da realidade que também poderiam ser outras. Eu sofro a tirania às palavras mansas e doem-me mais ainda as palavras tiranas. Sofro da angústia da palavra mas, e da palavra ébria. Mas é delas que se tecem caminhos para fora e para dentro de alguma coisa que se deixa distrair.

Estranhos lugares, os do tempo. O de hoje, por exemplo. Já não bastaria dizer a estranheza de um momento pendurado e periclitante entre outros de igual e furtuita deriva, como sobrepor-lhe o peso imponderável de uma mutação imperceptível que nos abala confunde e desorienta. Como os eixos XYZ a girar sobre si. Diria. Mas em pior. Sem rotação de rotina. O puro caos. Somos os mesmos num mundo outro de outros que nos tornámos na perda. Sem saber. Sem sentir e um dia estamos ali sentadas à mesa a sós, como estranhas que acabaram de se encontrar. A definir uma vida a dois. Uma e a perda da outra. Dela. O meu alguém-raíz. Transportamos a nossa própria gaiola e há que cuidar para que a porta não se feche connosco lá dentro. Lá fora.

Disperso bem, talvez. O da perda. O lugar da perda. Porque ninguém perde o que nunca teve de seu. O que é verdade perdi e não entendo. Às vezes, nada. Já o disse. Do que se enrola em torno dos meus passos. Volutas tresloucadas e espirais barulhentas e é isto vida que fala comigo o tempo inteiro de mim. E eu entendo cada coisa e o seu contrário e, às vezes mesmo, sinto. Como se viesse de um outro planeta e saltasse a escola primária. Uma falha estruturar para sempre na capacidade de leitura e escrita. Nas contas. Como se não pertencesse. Agora mais. Não por estar acima, abaixo. Talvez de lado. Sim aquela pedra. A ver tudo de perfil. Eu que gosto de ver tudo de frente. E não entendo o todo. E aquilo que é maior do que eu tende a sair por todos os poros desta escrita. Mas não saindo continua a intoxicar de dentro.

E depois eu danço. Hei-de dançar. Danço para embalar esta morte oferecida. Danço para a enganar. Porque não a quero mas foi-me presente de quem quero. Alimento-a como a um bicho de estimação. Não a quero mas não a posso devolver a quem ma deu. Alimento-a para não me tornar nela. E danço. Para a enganar. Não lhe procurar o colo interdito e os beijos expirados. Para sempre. A ter que escrever. Preencher o lugar do tacto puro com outras matérias. Esquecer o frio da fronte. A cor doentia e falsa. Pontual no tempo. Quando parou. Ou então só falece quem nunca existiu. Mesmo se todos os corpos voltam ao pó. À existência, não. E a existência nunca volta ao pó. Porque nunca foi.

20 Jan 2017

O coro e o ponto – Aqueles dias normais

 

[dropcap style≠’circle’]A[/dropcap]queles dias. Sim, aqueles que todos temos. Talvez. A cabeça a explodir de incompreensão e erro. Ou será o coração. Talvez. Ou as vísceras mais abaixo na hierarquia de valores dessa sociedade secreta de funções populares do corpo e lirismos emocionais não se sabe de onde. Que se enovelam como agoniadas de si próprias. E caem umas sobre as outras num tumulto espacial que a pele e todos os ligamentos contrariam afinal. Ou em cima aquele nó fechado de faltar o ar e vemos ao espelho e não está lá. Mas não são as sensações algo de realidade inequívoca em reacção a estímulos? Serão ou não. Talvez dependendo da realidade destes. E que realidade seja essa é inquestionável às vezes. Outras não. E dias em que verificamos que nada explode afinal. Que tudo são imagens e figuras de estilo. E que afinal ardemos simplesmente até ao pó. Passando pelas brasas incandescentes de belas mas em final de existência do fogo vital. Nada explode afinal senão ateado um engenho doméstico e mesmo assim. Sempre possível ficar-se vivo mas sem ver, ou sem pernas para andar, ou sem mãos para tactear as linhas. De uma escrita qualquer. Em que penso onde estará o desamparo maior, se na realidade, se no sonho. Se sonho é um roubo adquirido secretamente e sem documentos. Se a realidade alguma vez teria sido visível sem andares de arranha-céus por ali acima até um ponto indefinido que não é, no entanto, o dito mas a desdita de não se alcançar como limite. Sempre como limiar. E a pensar entre parêntesis que sim, que houve. Não porque sempre se terá sido mais jovem, sempre se terá tido menos vida, sempre se terá tido mais caminho para a frente. Na sua indefinida e feliz e inapropriável extensão. Que tudo permite. Sonhar. Imaginar até. Mas não é essa sobre todas as razões. A razão é uma época dividida em duas que nos calhou cruzar sem aprendizagem. Que não a de cada um em si, sem labirintos nem zonas proibidas. É o que pode restar de seguro na líquida impermanência de tudo. E no entanto, não sei. Disfarço bem, talvez, mas não faço a menor ideia do que faço aqui. Tudo o que se evola sem remédio, tudo o que passa por cada um como uma aragem demasiado etérea para, cabendo nos dedos, aí se sentir segura. Aí se saber segurar. Tudo o que é invisível. Tudo o que visível não se consegue ler. E mudamos. Vamos metamorfoseando algo impreciso de nós e olhando de revés ou de frente sem antagonismo mas cuidado. Tende-se a perder mais coisas na complexidade com que se apresentam. E fincar os pés no chão para não se ser arrastado pelo que nos tira de nós, não garante que algo de nós não se funda com o chão como um animal aterrorizado que hiberna para não pensar. Ou se enterra no conforto inóspito da terra para esconder a impotência face à dificuldade do caminho.

O caminhar pesado e sólido pela vida a dentro. Do cante alentejano. Nos momentos de não fazer. Também. Como os outros, momentos de ser. E lembrei-me desse aspecto particular do cante alentejano. Da terra onde me nascem memórias mas em fuga. Donde retirar com rigor as origens não importa. As raízes, especula-se. São múltiplas, de sagrado e profano entrecruzadas de lugares, tradições. Do canto gregoriano ou das raízes árabes. Aspectos primitivos, ainda, parecem remontar mais lá atrás. Tradição de vozes graves. Vem das entranhas do passado e um dia destes passará a coisa leve para turista ver, como uma parede cega e sem densidade para trás. Ou um prédio de janelas vazias sobre o céu e sem mais do que a fachada à espera de demolição. Não posso dizer que me emocione. Coisa culturalmente incorrecta de se dizer, mas que fazer… Talvez intelectualmente, ainda. Dizer que gosto. Mas de uma maneira muito mental. Emoções fortes mas trabalhadas num apreço de recordação. Não oiço. Nunca oiço nem apetece. De que forma gosto para além do admirar, difícil fórmula estética de emoção na ausência. Não sei. Uma emoção teórica. Ou talvez o prefira na memória. Não é a embriaguez de outra música. Mas é pujante como um murro em pleno plexo solar aquela ideia de muralha firme de gente de braço dado a avançar lentamente. As passadas conjuntas, a banda compacta de seres enlaçados pelos braços a avançar inexoráveis e lentos. A balançar ligeiramente nesse avanço gradual e pontuado de vozes. Vozes só. A balançar ligeiramente de um lado para o outro segundo a cadência dos passos. Uma coisa da terra e talvez a vencer a imensidão desértica e sedenta dessa terra. E da musicalidade sóbria das vozes tão particulares que nem os instrumentos lhes chegam, a alternar em coro, ou ponto. Em desafio. Vozes respondem a outras. Umas às outras. Com um alto preenchendo as pausas. E é assim que as lembro. As vozes e depois o que lembrei antes. As avós. E tias avós. E irmãs e primas. Amigas. Nos homens não se usava. Mas nelas sim. Sem pudor, nem receio. Como se fosse mais seguro sempre andar ancorada em alguém. Uma na outra. Como se sempre contra um vento mau. Uma maré perigosa. E namorados. E esposos. Dar a mão é bom. Há o tacto. Mas dar o braço é um laço mais próximo e firme. Um ampara o outro. É belo isso. Era belo.

E um dia destes aconteceu-me. Conheci uma mulher depois de um tempo talvez amplo de correspondência trocada. Virtual. Mas com o calor e a generosidade algo anacrónicos de um outro tempo de cartas em papel. E um dia veio. Primeiro, não vindo. O tempo a passar. Minutos, meia hora. Uma hora. E eu, ferozmente estoica a pé, a fugir às goteiras da chuva intervalada, à frente da Brasileira, no fundo, no fundo, só para ter a certeza de que não vinha e não havia desencontro possível no não vir. Uma coisa muito minha. E o tempo de pensar toda a irrealidade óbvia de um ser que seria talvez um outro completamente diferente do imaginado e expresso. E, quando já e sempre não esperava e quase nem tinha retrospectivamente esperado, surge bem de perto, sem espaço de recuo para a reconhecer, calorosa, igual e tridimensional, a voz cantada do telefone de Lisboa, e agarrou-se-me ao braço assim, à antiga, pujante, forte e alegremente, e seguimos como se combinado pela rua acima. Uma coisa que não se usa, já. Nunca me vou esquecer. Por mais Atlântico que nos separe nos dias todos da vida. Amigas para sempre se nada se desfizer noutras complexidades da distância, do tempo e da falta dele. E recuei uma geração ou duas, a um espaço estranho de conforto e quase receio. E é nesses momentos que aquele lado em mim, que tenta fazer-se ouvir a dizer “don’t look back, don’t look back”, se rebela e pensa, deixa ver se não me esqueci de nada. Essencial. De mim. A chave do lado de dentro. Neste tempo fatiado, fragmentado e líquido. De realidade mais imatérica do que qualquer fantasia. De intocáveis e impermanentes sonhos que só me dão descanso no sono. Quando vem. Se alguém vir por aí um personagem de figura bem apessoada e olhos e aparência de sono, é favor devolver, que deve ser o meu. Não consigo dormir sem ele. Enquanto isso, sonho. Não errar as estações. E nos intervalos, não sei. Nada. E quando não sei nada só queria dizer coisas bonitas a troar-me aos ouvidos, atordoar-me nelas e embalar-me na ausência de sentidos mais sólidos. Embriagar-me de palavras que existem e se existem basta pensar nelas. Dizê-las, e ganham vida própria de palavras. Reais. A meter medo. Entre todas as possíveis guardadas no dicionário surpreendente em si e mais ainda se o imaginasse feito de conjuntos de duas. E de três. Não avanço mais nem me atrevo a pensar nas possibilidades. Quantos volumes para as entender. Para as desbravar. Como floresta complexa e invencível e que afinal o simples Homem pode erradicar. Como num silêncio, árvore a árvore.

13 Jan 2017

O estranho lugar das palavras

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]á dias em que de súbito acordo num momento qualquer do dia como se pela primeira vez. De novo, mas com uma sensação de estranheza desmesurada, e como se desentranhada à força e antes da hora, a um sono tumultuoso e insuficiente. Arrancada do lugar. E quando mergulho nas palavras sei. Que estas são sempre um lugar estranho. Insustentável estranheza ou lugar.

Há lugares tão estranhos. Para lá de qualquer indizível sensação de reconhecimento. Não que a estranheza seja inscrita no lugar. Os lugares são imanentes como as coisas, como a matéria. Como o corpo, até. E há corpos estranhos. Estranhos que ficam para sempre e para lá da intimidade aparente da pele. Irreconhecíveis enquanto lugares familiares, alheios. Há lugares e pessoas e nomes que nos ficam estranhos para sempre. Ou exteriores. Tive um lugar assim. Pessoas. Talvez não tanto porque não estivesse recamado de todos os objectos que me acompanham a vida, a memória, e dos quais me penduro para não soçobrar sem bússola. Perder. Mas porque foi escolhido com mais liberdade do que outros, utilidade e não paixão, por uma vez. E, de repente ali, tive o tempo de ver nos dias esse não reconhecimento. Talvez um lugar de não encontro. Uma ligeira coincidência de passagem. E só.

E, para afundar a sensação bem num âmago completo de estranheza, e a ferir de inevitabilidade, como se uma verdade qualquer acordasse sequiosa de validação, sento-me no lugar destas palavras, dias depois, sem de todo as reconhecer. Uma manta espessa e contínua, de nós e pontos apertados, que tive de desfazer. Desmanchar, em parte. Porque era hoje. A elas, ao lugar delas e ao lugar que me ocupou no tempo delas. Um lugar outro que não vejo ali. A estranheza completa e desconhecida desse lugar perdido na memória e que aqui serve. E que está bem. Assim. Certo nas palavras e estas na sua lonjura, já. Custo a reconhecê-lo e só muito a custo, abrindo parágrafos e afastando ramos estranhos numa confusão de sentidos desorientada, como num lugar entranhado de floresta sem momentaneamente ver de onde vem a luz. E desse lugar abstracto em que de repente acordo, espreito inúmeras possibilidades de significado. Várias estranhezas outras de territórios alternativos ao que, insignificante, moveu as palavras de início. Porque de significante, só deixou a recordação de deixar.

Mas, outras vezes, caio de repente até numa única simples palavra. Simples e familiar, e deparo-me também com uma equívoca e indeterminada sensação de pura estranheza. Não sei porquê. Talvez não esteja nela. E sim no lugar em que me encontro. O mesmo mas, por erro de percepção. De paralaxe, de novo. Eu lia dantes. E relia e retomava o prazer intenso de algumas palavras quase até ao desgaste da sua superfície doce. E relia-as cada vez mais suaves e niveladas dos volumes e texturas da emoção. Quase a tornar-se inócuas. Depois tinha que parar. Deixá-las regenerar todo esse perfume antes de consumi-las de novo. Depois, muito depois foi como se as palavras tivessem enlouquecido. Mutáveis, ambíguas, irónicas e fugidias na sua perversão. De querer seduzir magias e de querer recobri-las de dúvida.

Mas o lugar de que falava. Nem sequer chegado a ser desconfortável. Nem de perto. Apenas uma distância, no conforto, de não ser a minha pele. Uma pele alheia, familiar e anódina. Há lugares assim como pessoas. Esse confronto de múltiplos contornos entre familiaridade e desconhecimento, entre conforto e indiferença, fez-me um dia mudar de casa. Com toda a nitidez. Houve uma música e uma emoção forte. E, de súbito a certeza de ter que mudar e o ânimo para todo um terramoto dos objectos e de tudo. Como mudar de pele. Mais complicado do que de face ou de roupa. E há lugares que se nos colam imediatamente como uma seda fina, uma musselina etérea se quiser vê-la com essa separação do que é o corpo que se transporta, ou simplesmente e invisível ao próprio, a pele. E outras estranhezas. E outros lugares. Igualmente feridos dessa imaterialidade que lhes imprime interrogações e inúmeras sensações dentro do leque do visível aos olhos ou do visível à cegueira dos olhos. E de entre lugares estranhos, o amor. Assim, a dizer de repente.

Há lugares tão estranhos. Lembro-me de quando era pequenina, e mesmo mais tarde, um bocadinho menos de tudo, e agora tudo isso em muito mais. E encantada por uma pedra bonita, e como uma formiga, por isso pensava levá-la para casa. Naqueles gestos lentos de pontinhas dos dedos a tentar fugir aos grãos de terra, de olhos postos e só na pedra de uma cor curiosa, ou de uma textura lisa, lisa e boa de tocar. E, no preciso momento de levantá-la da terra em que repousava há tempo suficiente, uma miríade de vidas de vermes ou de insectos por debaixo. E o susto, a repugnância ante a possibilidade do tacto por engano das expectativas dos sentidos. Essa vida surpreendida escondida e em paz nos seus desígnios. Mais perturbadora, muito mais do que a pedra que por erro ou injustiça me detivera a deslocar do nicho original. A roubar à harmonia. Ainda hoje, o prazer fresco de encher as mãos de punhados de terra, neles construir camas para rebentos, mudas, sementes, ou raízes já feitas, é inquieto por essa possibilidade da vida minúscula e oculta nos seus grãos. A eminência do tacto, arrepiante. Dos vermes. Que se tratará, para além da leitura associada à morte, de uma repugnância estranha, é.  E perante os bichos queridos quando partem de si. Como se com a temperatura do corpo se esvaísse deles a alma que os distancia dos objectos e nessa ausência injustamente tornados menores do que eles. Os objectos que, mesmo frios, agarramos com prazer nas mãos. Não os bichos.

Um dia uma mulher estranha com quem trabalho, e poucas devem ser mais estranhas do que ela,  quando, no entanto, sempre que fala eu reconheço de dentro as palavras que acho bem, e porque lhe toquei no braço no decorrer de um diálogo, afastou-se com agressividade e disse horrorizada não me toques, eu odeio que me toquem…respeito tanto isso que muitas vezes não toco aquilo de que gosto. Tenho medo que mais alguém odeie que eu lhe toque. É odioso fazer isso a alguém. E no entanto faz-se de muitas maneiras cuja escala não intuímos. Coisas de esconder o afecto. De o recobrir de ironia. De agressividade. Eu tenho saudades desse tempo de álbum de fotografias e da parte em mim que pertence a esse tempo. Em que as pessoas se tocavam com o tacto.

Lugares estranhos. Viver com essa outra de mim que não domino. Toda uma vida, vendo bem. Aquela que é fabricada do lado de lá e de que não conheço contornos nítidos. Que sou. Ou pareço. Mas esse é um conflito que imagino que nos tolhe a todos. Esse fantasma instalado em nós pela percepção de quem é exterior e dessa paisagem exterior olha. Resguardado também pela invisibilidade inerente a essa película grossa de que nos recobrimos. Mesmo sem querer. Com aversão, ódio. Ou exterioridade. Só. Mas lugar certo Sem força e sem saber o gesto alógica, a regra. Há sempre o momento a surpreender. Esse olhar extrínseco. Não inerente à essência. Inventado, até. Tantos conflitos se geram nessa gestão descontrolada de representações de nós e em nós de cada um desse que somos.  E, curiosamente é na subjectividade inteira para dentro desse casulo tão inviolado, estanque e translúcido quanto muito, que melhor sinto o que sou.  Nesse conflito triste de um vulto a que falta o perfume daquele calor intenso de sentimentos puros soterrados por mil cuidados e mil cobardias. Se algo em mim quereria ter cura é esse lado externo a mim e que anda pelo mundo como se fosse eu. Um eu que não reconheço ter a competência de me representar. Todo o calor de sentimentos, toda a solidez de que se faz o etéreo, toda a alma em desvelo. Pelo que gosto. Mais ainda pelo que amo. E nada. Quase nada transpira dessa mortalha grossa de que me sinto recoberta. Pelos outros. Alguns. Algumas vezes. Esta insularidade intransposta do ser. Talvez por isso sou só. Não em mim. A solidão não é em nós, mas sempre nos outros. Sou só nos outros. Se me não veem e me não vivem. Nessa representação de nós, que muitas vezes penso como uma peça de roupa oferecida. Raramente a reconhecemos. Raramente acerta em nós com um tiro certeiro de maravilha. Ego contra ego. Com ego.

Arriscava dizer que também os outros sofrem desta distância. De embarcações frágeis enviadas para longe sem ter visto de perto. Temos um problema com intimidade. Temos um problema com confiança. Temos um problema de entrega. E temos problemas por ter problemas. Destes. E dos outros. Dos dos outros. Mundo complicado como uma nave de loucos (em) que somos. Outros lugares estranhos. Alienamos nessa zona etérea do mundo que é a fantasia, o desespero d a realidade. A revelar-se escorregadia como um verme, e impalpável como uma ideia. Ou o ruído dos passos nas pedras do caminho e o intransponível poder de um abraço.

Interrogo muitas vezes as coisas nessa lamela de laboratório científico, debaixo das lentes de microscópio. A incredulidade tem crescido em mim, comigo, a passar a outras idades. Mas não é que os sentimentos me ofereçam dúvidas em mim. Emprestam-me de forma permanente em dúvidas de mim nos outros. Cada vez mais estamos menos sós mas em lugares estranhos de nós. Nos outros. Por isso e sempre voltar ao lugar do silêncio. E não poder querer permanecer. Reduzir por momentos o ruído de dentro e de fora. É no silêncio que melhor me encontro no que de melhor deve haver em mim. Ou baixar os braços. Nesse silêncio onde não se entra nem ninguém facilmente. E de onde falo para dentro destas palavras quando posso. Sim. Quando posso sentir-me recoberta pela casa e pelas roupas sem despir menos que o necessário. Senão, é também aqui que me prendo a esse fantoche que vejo de fora como se fora eu não sendo. Eu que conheço outras camadas que os fios não gerem, os dedos não manipulam, e os olhos não tolhem.

Um dia vivi num lugar pequenino e talvez feio, que nunca foi estranho. E todo um chão em malmequeres. Podia parecer uma metáfora no mosaico da memória. Mas é rigor. Longe. Um lugar longe de tudo. E que nunca foi estranho. Com alguém que nunca foi estranho e até hoje está ali. A uma distância em quilómetros e em meses que nunca foi mais matéria do que isso. Que o tempo tem inexoravelmente diluído do quotidiano e está ainda, mesmo assim ao alcance. Deixou-me e ao lugar, num dia em que o ar e o mundo precisava de estabelecer regras de distância física mas só, um manuscrito. Folhas de uma caligrafia azul, reconhecível e tatuada do gesto, em folhas grandes e pautadas de finas linhas. Azuis. Como eram dantes. Um ensaio sobre a angústia. “A superação da angústia”. Escrito em dias a dois metros de mim porque o lugar não esticava mais de pequenino. Mas com toda a distância entre mim e o segredo das palavras a cair lentamente nas folhas, como gotas, de folhas, muito depois da chuva. Da angústia. Que era necessária verter num espaço curto. Em palavras ditas. Contadas. No espaço curto longitudinal, com o abismo pelo meio. Em si. Escritas, durante anos e anos não li. É esse o lugar estranho do amor. Um. Ou estranheza é o lugar em si. Para além da ética ou da estética. Quando visto do lado de dentro, umas vezes. Ou quando visto de fora e outro. Estranheza é um lugar. Que é um não lugar. Por isso. Não o amor. Lugar entranhado de si. O lugar estranho do amor, de tanto ser estranho não ser lugar nem estranho, mas ser em si.

6 Jan 2017

Dias de Oceania

[dropcap style≠’circle’]P[/dropcap]orque se arruma pelo som, no lugar da melancolia. No lugar escancarado – aqueles dias repentinos – como uma janela. Varrido de uma ventania. Uma pressa. Arrasadora. Que tudo desarruma. Talvez pelo Natal. Que chega sempre depressa demais. E porque ventania rima vagamente com melancolia. Com apatia. Talvez por essa veste de insularidade que se usa mesmo em dias de festa.

Talvez porque um naturalista, médico e farmacêutico naval, empolgado pela anatomia e taxonomia dos beija-flores em longa viagem pelo Pacífico – o naturalista – envolveu numa falsa ideia continental aquilo que eram, afinal e nada mais que conjuntos de ilhas, isoladas e plenas na sua inviolada insularidade. Talvez porque somos assim também. Falsamente aglomerados num conjunto de que mentalmente, e a intervalos irregulares, um se escapa como num voo ansioso pelas águas circundantes. Como um batedor da alma. Só em verificação de segurança e de haver espaço. De haver esperança de espaço. Depois. De silêncio final e vazio de excessos. De gente. De coisas que não são. Porque vendo bem a encontramos na mesma gaveta da rebeldia, discreta e surda rebeldia estoica e subliminar. Na mesma arrumação se junta por acasos insondáveis a nostalgia, o que é menos estranho, a fobia, a alegria, a utopia, a correria e a euforia. Essa sim. Remexendo distraidamente soltou-se, ligeiramente colada de tanto tempo sem uso à utopia e à melancolia, À alquimia. Retirei lentamente e descolei com cuidado umas das outras, sem evitar rasgar um pouco as pontas. Fragilizadas de humidade e seca. A alquimia a que este ano retirei as mãos. Nem um doce delas se desenrolou. Se distraiu. Talvez no receio de estragar de lágrimas ou de não lhe dar o tempo que não tinha. De cozedura. De fritura. Nem um doce fiz neste natal nem nada. Um desenho. Fiz para quem me fez o seu natal há muitos anos. E só. Para lhe levar antes do esbaforido splash no meio da Oceania.

Mas é Oceânia. Gosto tanto deste nome. Topónimo belo e antiquado. Oceano com o sufixo “ia”. Como um vasto desenrolar de vagas numa pradaria volante. Ondulante, a vogar pelo tempo da memória. Qualquer coisa que alarga o conceito inicial e o desfaz do corrente e sólido limite espacial, atirando-o ao vento como se incerto, numa deriva acima da crosta enrugada de continentes outros e terrestre. Essa sim continentalmente ancorada ao planeta como uma pele envelhecida de rugas de expressão. Da Oceânia resta um vago recorte na matéria do mar. Vago e perdido no meio de um Oceano que é de calmaria intemporal. Sons que reúnem em si o eco e o reverberar das cordas de um instrumento musical. Sons possíveis de dizer, muito acima da garganta que grita outros mais crus e cavos, mais a ecoar no céu. Da boca. E daí para cima em toda a zona do pensamento mas com vibração em todo o peito, na barriga. De um insólito corpo – búzio. Ou antes, talvez, caixa de ressonância de uma guitarra clássica. Pleno. Como um fogo a alastrar do centro da palavra. Natal. Também é palavra para se dizer um pouco acima da linha da garganta. Tem outro som de distante eco no tempo e no espaço de fantasia. Outra palavra saída da mesma gaveta do mês de dezembro. E depois, naqueles momentos de olhar em torno, nada mais do que anseio de acalmia. E de novo a rimar com melancolia.

Mas tirando ser como é, Natal é em si um tempo bom. Era para ser. E de espaço e luz de estrela caminhante uma vez de muitos em muitos anos e depois a memória da luz acompanhada pelo fervor de quem nela acreditou. Estrela que não era estrela mas o que importa se era de luz. E foi. E há-de ser de novo quando voltar do espaço para onde foi. Tempo de memória e tempo de história. Mas lembra-me sempre espaço talvez uma imagem da mitologia que encenou presépios a fingir toda uma distância caminhada até ao Menino. O que é que o Natal tem a ver com o amor? Essa outra palavra de tonalidade contrária e som aveludado e sóbrio. Essa palavra a olhar para o interior que rima com ela. E o oposto a tudo o resto. Talvez uma e outra, palavras, faces de um mesmo dinamismo psíquico que nos atira para dentro em amplitude e profundidade e para um espaço amplo como reflexo figurado deste. Invisível, imenso como o outro. Ambas palavras tão falsamente ligadas por nós doridos, frouxos ou equívocos inábeis. Misturadas como num desvario de histeria colectiva. Não existem mais em magia em lugar nenhum do tempo de um ano, do que noutro de outro tempo desse mesmo ou outro ano. Noite de Natal, ou a vida numa câmara escura. Uma família mergulhada numa tina de químicos a tornar-se visível com toda a nitidez progressiva. A revelar-se. Em tudo o que existe nos outros dias. Passou uma estrela. Incidiu no papel emulsionado. Sensibilizou na medida do tempo, da intensidade da luz e da sensibilidade do papel. O revelador reproduz contrastes ou nuances subtis. Lentamente. E há um tempo de paragem. O limite daquilo que se suporta numa noite qualquer de natal. Lava-se profusamente a folha de papel. Lava-se até desaparecer todo o vestígio de qualquer químico. Ou a fotografia continuaria a evoluir em tons cada vez mais escuros. Indiferenciados. Até à noite total. Passou a estrela. Não voltará tão cedo. Não já no imite do possível. Resta a fantasia de cada um. Divergente. O que é pena. É isso o Natal. Depois sair para as ruas as estradas entre ilhas de gente, de súbito, desaparecida. O silêncio em tudo em todos os lugares. Esse silêncio em que era preciso parar tudo antes do Natal. Antes, dois dias antes, parar. A tempo de decidir cada detalhe entre ilhas. Cada ponte. E depois. Depois quando vem afinal o silêncio, é bom e triste. Sempre. E. Parar então para pensar para onde foi o Natal depois de tudo…

30 Dez 2016

Das paisagens vagas como vagas são

[dropcap style≠’circle’]I[/dropcap]maginar que me detenho simplesmente num intervalo do tempo a olhar um destes objectos. Sempre os objectos-cenário. E um ser encenador. Imaginar que qualquer um que seja me diz de momento tudo o que é suficiente nesta paragem. De alinhar números e letras de equações várias. Afastar essa folha da mente, obsessiva e exaustiva sem soluções visíveis. A faltar um detalhe que desenrole a revelação de uma das incógnitas, que seja. Uma só, e, na inércia seguinte, resolver alguma das equações. Que se alinham irresolutas em letras e números e números e letras. Que desenham ao todo e pelas suas partes incompletas, um padrão bonito a negro sobre o branco da folha, antes vazia, e depois com o mesmo sem sentido. Antes vazia. Talvez. Penso, de caminho. Desenvolver uma fórmula, uma chave. Qualquer coisa distinta. Evoluir do círculo perfeito e estanque. Desenhar bigodes nos vês e florzinhas nos pês.

Mas às vezes a distância abismal entre tudo e nada, está na misteriosa definição de um detalhe ínfimo. Um factor esquivo que se furta à absolvição da incógnita. A Matemática é um universo de abstracção quase de fulgor mágico. Talvez porque a vontade e as suas ramificações por inúmeros andares, lhe é desconhecida. Aqui mesmo ao lado, o candeeiro de luz baixa, a apontar rigorosa e permanente essa luz de todos os dias para baixo. Uma mesa de madeira quente e confortável para encostar um cotovelo e o outro a olhar a vida. Eu. Os cotovelos calmos e sólidos em espera de uma irresolução qualquer. Em redor uma penumbra de recorte difuso em gradação quase invisível, em que se encontram e desencontram os objectos de sempre, mas em segundo plano, como domesticados adormecidos até uma nova luz os contemplar. Animar. Um recanto do mundo que parece só por si suficiente. A terra do nunca e o território do ainda não amanhã talvez. Do talvez já não. Do ainda não ontem, do já, do nem assim, do já nem assim, ou do nem sei bem. Derivas indistintas na rota dos ventos e bolinas nas outras navegações de iguais ondas. De devir, do porvir imiscuído nas variáveis do já visto, ou de sombra diluída em liquidez. Sombras, brilhos, fosforescências nocturnas. Instrumentos de navegação obsoletos. Algo a fechar as pétalas púdicas para a noite. As pálpebras a encostar a uma córnea friorenta. Uma mão a procurar o rosto para conforto mútuo.

O candeeiro de todos os dias. A deixar uma penumbra a vogar sobre a outra metade da casa, daí para cima. A delimitar como se uma força terna dentro do seu abraço, um espaço dentro do espaço. Uma figura, uma espécie de figura, retrógrada como tantas coisas de que gosto, que ilumina da esquerda. Como deve ser. Para que a mão que mais voa não lhe distorça o percurso da luz. Não lhe encha a cabeça metálica de sombras e outras ambiguidades.

Mas, pura ilusão. Porque dele, sem culpa nem intensão, emergem factores de definição que se alternam e acrescentam nos dias, como se uma personalidade própria, definida e animada, respondesse a uma qualquer interrogação muda. Não a faço mas destilo-a talvez dos olhos sonolentos e distraídos com que muitas vezes verifico que está ali, e nele digo que estou. Também. Do que não quero falar me responde o que não pergunto. Por vezes mesmo o que não oiço. E sei que não é dele esse reflexo que dali se emite sem curva possível. Directo e devolvido. Claro. Há sempre qualquer coisa de variável ali. A dimensão. A crescer exorbitante até quase sentir a tentação de me encostar a ele na rua. A luz a variar numa temperatura entre o frio e o quente dos ossos e da pele. Nem sempre complementar. O contorno frio ou a calote como um crânio docemente recoberto de uma pele macia e sem pelo. Quase a apetecer passar-lhe uma mão como se de um bicho se tratasse. Aquela calote por momentos uma cabeça. A haver uma síntese química qualquer na evocação de um objecto de afecto, mesmo por uma forma qualquer de similitude, que apela ao tacto. O afecto precisa do tacto como percurso. De se esvair no tacto como a expiração que retorna a si e se distende sem parar. E de tacto. Muito tacto no lidar. Algum pensamento. Mas não concha. Os pensamentos- concha tendem a ser tóxicos se não evaporam por uma válvula qualquer. Ou as palavras. Que até o podem ser. O brilho metálico de uns dias a reabsorver-se num tom aveludado dos outros. E a tomar um carácter quase orgânico. E a lâmpada como uma ideia fixa mas sempre invisível. À espreita, em cada movimento inadvertido que faça. Que dizer se o óbvio é que há sempre qualquer coisa que não é deste meu candeeiro de anos, que se distrai dele dia após dia e diz algo que não lhe pertence, partindo dele e sendo ele…Sempre igual e igualmente inerte na sua imanência. E sempre um outro em resposta às perguntas que não faço.

Inocentes objectos. Mas nada há neles de inocente depois. De serem arrastados de fantasia em fantasia vindo parar a casa. Neutros nessa decisão. Moldam-se. Sem o fazer. Sem que nada na matéria se mova no sentido dessa outra matéria tremenda que é o olhar. Qualquer olhar despido de limpidez. Ou cegueira, quase podia dizer. E um rosto. Um corpo estranho. De paisagens vagas. Como vagas que são. Mas lá, o olhar.

Gostava tanto de ser de uma aldeia longe. Sem relógios para saber as horas do mundo, as minhas para além do daqui a pouco e do há pouco foi. Esta obsessão pelo tempo que me pára e me foge e me prende e me falta. O tempo uma moda e os horários a tirania. Eu queria fugir do tempo ou tê-lo a todo o tempo. Sem medida. Não esta sucessão de tiras e nós. Eu queria ser numa aldeia o acordar sem horas. De relógio. E sem fios, a que me prende uma mímica em que não me reconheço eu. Reconhece-se ele – esse candeeiro – no olhar que lhe deito, é o que quase suo perguntar.

Às vezes olho essa de mim, a perscrutá-la como se de fora, e como se fora o fosse. Mas não lhe sinto perfume, briho. Não lhe sinto calor, nem no calor que sinto, e porque é das sensações. E frio. Mas é resposta. Defesa da pele. E assim vejo essa personagem-pessoa, visível invisível, e desconfio da desconfiança  e  não reconheço nem conheço. E se ninguém entende, nem eu. E se não conheço não existo. Mas entristeço dela. Dessa que não movo. Como marioneta. De fios estragados, menos um. Um fio, e imprimir um gesto. Um fio e mover-me noutro, a estacar noutro. Impedimentos estruturais, fios a menos, ou fios a mais. Emaranhados e partidos e embaraçosos. Nos braços e nas pernas. De pano.

Passo a partir do candeeiro, que não sendo pessoa, se esgota num momento qualquer. E ali num outro sítio da casa e como sempre, aqueles olhos em vários pares, como continhas e com a mesma natureza dura e objectiva. Ou não. E que nunca dormem. Ou dormem sempre. Como se deitam nos dias, assim ficam para toda a eternidade. Olho. Cada boneca agora, de recreios vagos. Como diz o outro. Rosto hermético de porcelana. Olhos revirados de espanto ou impaciência. Sem mãos que componham o vestido. A ter que esperar que alguém se lembre. Desconfortável, hirta e descomposta em cima do psiché. Coisa ridícula. Sempre à espera. Ou então que não se acenda a luz para ninguém lhe ver os culotes empoeirados e o cabelo sintético talvez natural, um pouco descomposto. Visita-se essa descomposição, em fuga. E aquela poeira nos olhos e sem que os dedinhos lhe cheguem a aliviar as cócegas. Jesus…Que impasse, e sem poder fechar os olhos. Nunca. Destino pesado de charme. Depois falam dela e das roupas estilizadas. Mas as roupas, são ela, e por isso furibunda. Conversas e conversas e desconversas e ninguém que lhe diga na face quebrável um mimo directo. A precisar de um banho. É o que é. E pimenta na língua. Mas a boca não abre e os pensamentos não saem. Tudo certo. Então. Por terras de fantasia.

Volto. E, de repente, salta-me Buster Keaton para a página meio cheia, como de um comboio em andamento e. E sim. Tudo aquilo que aquele rosto nunca disse, nunca dizia. Dizia sempre alguém por ele. Simples projecção na plástica receptividade de um rosto neutro, complexa interpenetração de sentidos entre duas realidades que nem tangentes necessitam de ser. Basta agrupá-las. Basta imiscuir uma na outra por proximidade, justaposição. Aleatória. E como um espelho vivo, o que era rosto e inexpressivo passa a reflexo e rico em representações. De quem…Sabe-se, de quem olha. Mais do que do que é contemplado. E depois, saindo do cinema, e como um dia o disse Kafka: “The right understanding of any matter and a misunderstanding of the same matter do not wholly exclude each other”.

Mas, de permeio, o efeito Kuleshov, nessa, até às vezes abusiva atribuição de sentidos diferentes, a um mesmo rosto inexpressivo, consoante as imagens que lhe associamos. Que lhe colamos com a mesma subjectiva intuição ou aleatoriedade, com que o fazemos a um pisa-papéis e nele uma libelinha se encerra no cerne de vidro grosso, e a um livro sobre escravidão infantil contemporânea. Só para empilhar duas realidades soltas e limpar o pó da mesa nos espaços vazios. Produz sentido. Ou o reflexo do contracampo, que enriquece a linguagem cinematográfica. Que entorpece a leitura dos outros numa envolta de significados nossos, que é como uma armadilha. Para quem está no campo e quem se esconde no contracampo. Ou podia dizer o contrário. E quem esconderia o quê de quem. A inexpressividade da máscara, rosto esponja, ou o excesso do outro a submergir o rosto por detrás. O efeito da expectativa. Do desejo. Que age por defeito do objecto a inscrever, talvez. Permeável ou neutro. Inexpressivo ou vazio puro. Como resolver uma equação assim. Nada de grave no reino da fantasia. Esse revelador fotográfico – onírico.

Não é linguagem do cinema, é a expectante natureza humana. A derramar de si. Sobre a paisagem vazia. Ou a terra porosa. O rosto fechado. Em aberto. A natureza de vasos comunicantes a destilar de um lado o que é lapso ou lacuna no outro. Vasos comunicantes, de incomunicabilidade congénita, percorridos de um mesmo líquido. Mas, os sentimentos não oferecem dúvidas. A existência sim. E as pessoas, não têm que ser perfeitas. Os encontros sim. Ou então, dizer de outra maneira. Que os sentimentos não oferecem dúvidas, mas os objectos, sim. E o tempo. De uns com os outros.

16 Dez 2016

Objecto de si

[dropcap style≠’circle’]U[/dropcap]ma pessoa viaja. Viaja-se ao fim do mundo e de si dia após dia. Um desfiar de ritmos registados no relógio meticulosamente e sem parar. Sem encontrar fim. Viaja-se. Eu viajo. Dia colado a outro dia sem distinção que não a da luz. Uma alternância, no fundo, artificial a uma continuidade de busca. Um número abstrato no calendário dos dias. Uma página morta da agenda. Viajo. Viaja-se no passado. No futuro. No imediatamente agora, no ainda há pouco, e no já mesmo a seguir. Em tempos, em espaços, nomes e rostos. Em projectos e sonhos. Sem parar. À procura talvez de um sinal. Mas chega-se ao fim do dia, e a resposta, a única resposta possível e válida está ali. No espelho da casa de banho, com azulejos brancos e sem padrão, meio escondida nessa espécie de sorriso forçado pela escova e enevoado pela pasta de dentes.

Hoje está uma lua nítida, recortada e fresca, quase uma espécie de sorriso no céu limpo de nuvens. Deitada de costas. Como se com uma placidez lunar, diria, se não fosse a lua ela própria. E sorridente, como disse. Ontem não vi. Anteontem nem me lembrei. A semana passada, já não sei, e a próxima também não. Há dias de noites assim, em que tudo é recortado no assombro liso do céu como se nada duvidasse. Estranho. Se bem que as coisas não contêm em si a dúvida. A dúvida é da matéria orgânica em agitação mental. Onde se esconde este redesenho que subjaz a todo o viaduto dos dias por sobre os dias, como vidas por sobre outras vidas, ou ideias de uma coisa e outra, e volta com a ironia de dizer estava ali sempre. Mas era o refazer do desenho original. O que é modelo ancorado por detrás de um olhar que afere escolhas e fere de materialidade depois aquilo que não era palpável. E um desenho não é. Também não é. Mas a dizer que estava ali sempre. Como essa lua reclinada, plácida, e de rosto limpo e luminoso. Ou em que luminosa foice cortante se desata o escuro de um torno de outras marés. Em que agonia imprecisa se desprende o respirar solto, afinal, como bicho manso a escoicear de alegria. Infantil, afinal. Como guizos límpidos e sem intenção. Ecos de uma montanha para outra. Em que recesso da memória se transcendeu para sempre o andar. Como se já não houvesse que haver fim. Mas só caminho. Só caminho. E a lenta lentidão das pedras a avançar de lá para cá. Serenas e brancas. Lavadas de chuva.

Fascina-me o desenho curvilíneo e sobreposto de viadutos sobre viadutos. Braços múltiplos de um ser estranho percorrido de uma circulação ruidosa. Como em vias de agitar todos aqueles tentáculos. Sempre como se à beira desse movimento. Mas tudo isso visto de longe, de cima, numa imagem captada do alto, sem realidade próxima. E só. Gosto de pontes. Das outras. Coisas de imagem frágil que se aventuram em voo entre margens. Lançadas calmamente num movimento único sobre águas serenas e imparáveis. Às vezes entranhadas de um movimento quase imperceptível. E os carros. Sobre as pontes. A fluir sobre o que já é eternamente fluido nos dois sentidos. Pontes. Como uma asa delicada e solícita poisada no ar, e congelada em todo esse momento. Qualquer momento. E no entanto, serenamente prestáveis ao poder das metáforas. Na arte da engenharia como na arte da guerra. Lançadas. Explodidas.

Depois.

Entro na vida pela mão que tem que ser – a pensar que me apetecia hoje viver fora de mão, mas pelo meio de um campo qualquer – e abro uma escrita lenta e mal acordada a ver que palavras se desprendem desta preguiça de ter que escolher. Entre tantas ainda em pijama e sem vontade de competir por uma verdade qualquer. Olho pela janela que diz que vai ser de sol. Para lá de uma luz ainda pálida a escorregar na parede em frente. Ainda muito cedo para a agilidade de cair a pique. Tímida, ou também ainda na lentidão do sono deixado sem vontade. A pensar porque será ser uma palavra tão curtinha e trabalho aquela em que se tem que saltar três amplas sílabas. Um destino que nem todos os animais têm. Porque uns, ocupam a vida em tarefas cíclicas e sem fim que não daquela. E outros, não. E em nós que tanto ocupa já de si o pensamento, acresce ainda essa espécie de natureza de empréstimo, que traz ocupações delirantemente enfileiradas, dia após noite e assim sucessivamente, coisas estranhas que se alimentam a si próprias. Balcões de finanças, caixas de correio, papéis. Sacos de lixo em testemunho de uma complexidade de que sobra tanto desperdício. Abro todos os dias oitenta vezes o contentor antiquado onde se empilham os cúmulos dos restos. E dos restos dos restos, e fico a espreitar, de olhar fixo, perplexa. Penso então que tanto se explica aí. E andar de transportes públicos. Aqueles mais impessoais que são comboios. Por sítios abstratos e subterrâneos como passagens num tempo fora de órbita. Como o tempo do xadrez em Duchamp. E pensar que não me apetece tropeçar em palavras mas e no entanto e talvez.

E depois.

O problema do ruído. Por todo o lado pode até tudo estar calado e nunca está. O problema do estrondo, é que fere os tímpanos de uma dor que impede de ouvir o sussurro que sobra. A reverberar como uma membrana num orgasmo subtil.

A mim, que raiva, tudo me enternece. Tudo me embevece. Tudo me causa impressão. Chego a casa impressa de sinais que nem todas as águas diluem numa frescura de bem- estar.

Tudo me enternece no universo, quando olho para fora de mim. Tudo me embevece, tudo me intriga, tudo me aborrece. À vez. O mar. Grande e lindo porque me transcende e me transporta. Me remete para a escala ínfima que sou e tudo de caminho, implodido nesse instante de verdade entre escalas e sofrimentos. Mas, por me transcender parece reportar-se a mim como referência que não sou, excepto para mim. E na essência do transcendente está, o ultrapassar desse centralismo incontornável. Mas, transcendendo ou ultrapassando, ou sendo maior, ou submergindo, não encontro as palavras que de um modo diferente se abstraiam de um ser a partir do qual tudo se mede. Mesmo na transição para o absolutamente maior. O inalcançável. Será que ninguém se deteve por segundos que fosse a inventar nas palavras a ausência de si, do ser como aparente medida de tudo e de nada, mesmo do nada a que o remeta a transcendência de si por outrem… Tudo me causa algo de alguma sensação de algum sentimento de alguma prostração. E às vezes eu queria simplesmente alguma indiferença algum descanso e alguma superficialidade confortável de ser de sentir e de ver.

Mas tudo me faz qualquer coisa de dizível e pior, algumas vezes, alguma coisa de indizível. Mau estar. Ou bem. Tão bem, tantas vezes, que é encantamento sedimentado e enraizado em algo de mim que também é o resto.

E depois o dizer. Os dilemas do dizer. Desperto em todos os segundos nessa tremenda batalha de luzes e confetis. Todas as coisas se baralham na ânsia de encontrar caminhos de estrelas, mas se arrastam por vezes bem rente ao solo e bem amesquinhadas da dúvida. De que matéria se faz o estigma da liberdade. De que crueldade respirada e oferecida com formas de flores, às vezes, inadvertidas flores nas formas, dores de golpe seco por detrás de uma pétala, só como se fosse. E não é. Não era, ou é como se não fosse. De que rendas se tece esse paradigma de liberdade de que nunca encontramos o ponto final, nunca um parágrafo deixa por estender mais umas linhas de perplexidade – dúvida com método. Cadeias a inibir um sistema linfático de tentativa e erro na delimitação alheia da liberdade própria. Querida e sonhada. Como uma pintura em projecto. Nítida e pertinente. Cores definidas e composição. E depois, a desmultiplicação das vertentes de um caminho montanhoso de que às vezes sobra uma luz, uma intenção imprecisa e nada mais do que a decisão do passo seguinte. Em memória, um fantasma que se dilui na coragem do olhar. Um pouco isso.

Mas tudo me ajoelha a alma, de uma constatação de ser outro e que não parte, e em nenhum outro momento que não de ser assim. Objecto de uma natureza que se rebela à concepção de objecto de si, se não for a mera circunstância de ser olhar. Alvo. De. Passiva pessoa numa definição, por proximidade com outro, olhar de outro. Ou mesmo outro olhar. Simples olhar roubo de alteridade pura. Mesmo essa, remetente ao ser aquém. Farta de mim como ser. Farta de ser sujeito. Compreendo-me na contemplação do objecto. Fora de mim.

E depois.

A falar comigo, assim, diz-me em que matéria se rende a minha solidão quando há. Diz-me em que presas se prende o pequeno golpe de asa quando há. Em que vastidão afogar o olhar mentiroso. Em que grãos subjugar a pele. Castigar tudo o que a não ser. Diz-me, digo. Vamos beber mais vinho. O que ontem não foi nada em depois.

9 Dez 2016

Objecto discreto

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]á dias que são o diabo. Esse cão. Um fim de tarde quase quente a disfarçar a perspectiva de declínio desse Outono de um ano qualquer esquecido de si. As folhas no chão, que, mesmo se não houve uma ventania forte e desarrumada a vencê-las, se deixaram calmamente cair da idade própria. Talvez num voluteio dançante sem pressa. Ou talvez a pique e com um ruído seco quase inaudível. Que não deixa dúvidas de estação. De cor, de dia seguinte. Mas a temperatura da tarde, sim. Não que estivesse calor, não me expliquei bem. Era só que não estava um milímetro de uma sensação de frescura, que fosse, nem um segundo de arrepio ou a vontade de compor melhor o bolero de lã fina. Tão fina como seda. Tarde a querer esquecer o tempo e a poder esquecer a temperatura, lá bem no meio da conversa, só um constatar ligeiro de como estava bom. Ali. Num final de semana de uma liberdade desusual. Horas de conversa mansa e fácil. Numa mesa no coração do jardim, da cidade. Uma estação que como quase todas tem dias que anunciam o seu fim e dias que são como uma quinta estação. Dias sem estação. Aqueles, em que a vida não dá, não tira, nem pesa. É. Simplesmente e com alívio. Mas circulares, estes.

Depois o voltar a casa lento e um pouco triste de voltar. De um esquecimento de toda uma camada do tudo. Que volta a mim, na volta a casa. Por entre as árvores no perímetro máximo do jardim, enquanto possível. O dia baixo. A luz, a já pouca réstia do dia, a esvair-se rápida. Sem frescura de maior. A mesma mansidão de toda a tarde. Foi talvez ao fim dessa linha traçada pelo caminho mais longo e antes de deixar as árvores pelas pestanas dos outdoors publicitários, que comecei a ouvir um som inquietante como uma respiração fantasmagórica a acompanhar-me os passos como um cão. O cão. Porque há dias assim. Como sempre não acredito facilmente em sensações insólitas. Há uma desconfiança atemorizada de entrar nessa porta como a não haver retrocesso possível. Uma hesitação. Uma atenção redobrada e olhar em torno. De mim, dos pés que pararam e com eles a respiração. Uma coisa de outro mundo. Mas eu não acredito. Nem no mal e nem em outro mundo. Em nada, mais. Nem em significados nem em sentidos. Mas nos órgãos dos sentidos, no momento puro de uma sensação. Nítida. Olfativa. Mesmo até presa de matérias da memória. Às vezes o cheiro nítido. Como aquele meio adocicado do alcatrão pastoso em verões de outro tempo. Porque acredito em outro tempo quando regressa em forma de sensações nítidas. Quase tão real ou mais do que o de hoje. Em que não troquei palavra com ninguém, nenhum cheiro me mobilizou a atenção e nenhuma dor a mais me prendeu a uma cadeira. Mas ali, como sempre a ensaiar o andar leve, porque quando os passos são leves, a vida flui. Pensar o contrário é um perigo. Como  nas palavras.

Parei relutante comigo própria por o fazer a partir de uma sensação tão insólita e estranha. Nada. Recomecei os passos com a mesma desenvoltura de sempre. Há que tornar os passos leves e com eles o corpo. E tudo parece perto do voo. E comigo recomeçou à altura dos passos aquela respiração desdenhosa e pesada. Inconfundível. Era. Uma respiração. Bem, uma espécie de respiração, entendi. Sentei-me no banco do final do jardim a fazer contas ao acontecido e mais ainda a toda uma história em potência que imperceptivelmente se insinuara na minha mente receosa de se ter alienado. Era mais isso que me ocupava naquele momento. Rever as sensações, as extensões a partir da perplexidade num primeiro instante, distraída. E que talvez eu tivesse, apesar de tudo a capacidade de acreditar em quase tudo, mas a sorte de pouco me acontecer, na escala do muito estranho.

Fico ali mais um pouco na preguiça de voltar a tudo. Quase noite, entretanto. As luzes a tomar lugar. As sombras no jardim. Olho finalmente com atenção, feitas contas ao sobrenatural,  os sapatos suspeitos. Eles. Afinal. A origem do mal, aquele. E recuei uma vida a partir daí. Os meus sapatos azuis de verão. Com bem mais de quinze anos e rosto sonso de novinhos em folha. De camurça escura e sola compensada. Completamente fora de moda esse ano e outros. Como costumo gostar. Mas como é meu costume, poupados anos a fio no temor de os gastar e na perspectiva de nunca voltar a encontrar uns iguais para sempre. Acontece-me isso com as coisas de que gosto muito. Ficam num museu imaginário de porvir perfeito. Bandidos. Por detrás da sua face impecável, de quem dormiu anos numa caixa, envoltos em papel de seda, escovados e com bolas do mesmo papel a resguardar-lhes os interiores não fossem esmorecer, ganhar dores incómodas, torcicolos. Ali, depois de horas de pouco esforço a ouvir-me a conversa à mesa de uma esplanada no meio de um jardim, no meio da cidade, e sem outros sinais de depressão que aqueles suspiros. Porque eram eles. Mal me levantei a voltar à vida, abateram-se-lhes os interiores da sola espessa e compensada de uma matéria invisível e desconhecida forrada a camurça escura em azul. Qualquer coisa neles, no interior daquelas solas altas, abateu discretamente um centímetro ou dois. E ao sabor dos passos aquele suspiro duplo, emitido por cada um dos sapatos de verão em camurça azul, de que tanto gostava e que ao olhar nada diziam do desastre que lhes comia as entranhas de cada vez que poisavam no chão. Ora um, ora outro. Aquela respiração pesada e desesperada como um suspiro. Alto, audível e sem dúvidas de realidade. Guardo-os, anos, pelas formas anacrónicas. Pelo puro prazer das formas, pelas épocas que evocam, pelos momentos colados a eles como um nome, um dia de um ano. Personagens. Luzes especiais. Como colecionadora que não sou. Odeio colecções mas gosto de formas e de sapatos como registo de vida. Poupo-os demais. E mesmo assim, aparentemente na sua vida própria e resguardada, envelhecem e adoecem. Deprimem. Talvez de falta de luz e existência.

Mais tarde levantei-me com pouca vontade do banco do jardim da cidade, e segui o meu curto caminho para casa, acompanhada agora de dois seres deprimidos, envergonhada daqueles suspiros a acompanhar-me como se torturasse alguém por debaixo dos meus pés. Mas antes, num olhar desprevenido para o lado, ainda a apreciar essa temperatura como ausente, ali mesmo ao meu lado no banco de jardim, como se sempre ali tivesse estado, o objecto. Pequeno, o cano curto e luzidio. A menos de um palmo da minha saia. Jurava pela minha saúde que não estivera ali desde o início. O início da minha pausa para pensar na respiração estoica ou sofrida dos sapatos velhos com ar sonso de novinhos em folha. Como disse.

Reconheci-o sem nunca o ter retirado da bolsa de seda preta, comprada num mercado de rua num outro lugar do mundo, em outro ano. Mas na realidade nunca o tinha visto para além de uma forma imprecisa a avolumar discretamente, por entre o drapeado da seda preta com flores brancas, bordadas. Da bolsa de seda, comprada num mercado de rua. Uma coisa de um contrabando tão implícito que nem o preço negociado o insinuou por instantes que fosse. Mas a bolsa jaz também ela envolta em papel de seda numa gaveta de coisas preciosas e secretas. Algumas. É uma coisa insólita. Esta. Até porque é uma estética de outros tempos também mas que em nada condiz com a dos sapatos. Nessas coisas sou rigorosa. Por isso não a levei comigo. Nem o revólver. Que nunca retirei da bolsa de seda do papel de seda e da gaveta secreta. Olho o revólver pequenino e perigoso e em volta a ver se outros olhos o reconhecem com é. Ou o veem, no mínimo. O que seria, no mínimo, tão embaraçoso como os suspiros a acompanhar-me a casa, pesados e persistentes. A hipótese do invisível, não é melhor. Colho-o nas pontas dos dedos, e no olhar de suspeita, a medo e aninho-o no interior do bolero de lã fininha, como a um pequeno bicho friorento. Sem saber o que lhe fazer. Nem ter nada a ver com ele. Nunca uma palavra o levou ao interior daquela bolsa de seda. À gaveta do roupeiro. Ao caminho. Ao banco de jardim. Caminho pela rua e sem querer algo em mim suspira inadvertidamente como se alguma coisa algures acima dos sapatos num ponto indeterminado, se tivesse abatido aí também Em mim. Para além de um centímetro ou dois de cada vez que poisava um pé no chão. E depois o outro. E sempre o mesmo centímetro ou dois. Talvez a pequena mancha distraída, de um vermelho escuro mesmo por baixo do revólver, no banco de jardim. Inocente. Silenciosa.

No caminho, algo em mim vai esquecendo tudo senão aqueles persistentes suspiros que não param. Afrouxo uma das mãos do peito e do bolero de lã fininha a esconder o insólito e vejo-a colorida de um calor vivo escuro e viscoso. Escondo-a junto ao bicho clandestino e sei de onde, dentro, se verte a cor. De que ponto preciso do meu desconhecimento anatómico desculpado pela pele. Previdência natural mas não infalível. Algo se rompeu dela ali. Não ouvi o som. Não senti a dor. Talvez distraída pela temperatura confortável e ausente. Chego a casa e a chave escapa-me da mão de cansaço. Com o ruído estridente do prédio silencioso por fundo. Percebo que não morri. Pelo ruído. Talvez. Há o som das chaves. De casa. E a casa. Lambo dois dedos para não sujar a chave e o sabor doce, o aroma inconfundível do chocolate. Desconfiava que me corria nas veias. Antes assim, qualquer coisa comestível a partir de um coração de bolacha – ou de suspiro – do que imaginar-me sempre a carregar uma quantidade repugnante de vísceras semi-desconhecidas. Antes um corpo abstrato. A verter chocolate quente. E não houve crime. Mas qualquer coisa.

Se fosse, era passional. O estrondo do estampido do impacto do tiro e o calor de um abraço. Mas a temperatura era ausente. Como disse. Portanto não houve crime. Nem história para contar. Mas houve qualquer coisa. E num dia qualquer começou a doer.

E depois, ela, ali, baixinho, a outra, ela ali baixinho, de frente, em confidência, em desespero, que a morte não pode nunca ser metáfora de nenhum abandono, abandono de si, de nenhuma indiferença, de si, de nenhum outro, de nenhum outro em si ou vice-versa. Que a vida tem um preço maior. Em abismos e seres da natureza deles, em mergulhos e tempos que os relógios param para observar, em perdas e ausências mútuas, ou em trocas de territórios como roupas emprestadas. Existir mental fora de si e existência sentida como habitada em si. E tudo dali, excepto a morte, tem um preço de vida sensível, visível ou invisível de aceitação tácita. Não há morte. Senão a que tem que ser. A única e não amada mas familiar a achegar-se mansa de falas porque o seu dia, ninguém lho tira.

Sentada à mesa da cozinha com aquele caderninho anacrónico das receitas, repensa quantidades e proporções. Um pouco mais de chocolate, mas experimentar com pimenta. Que quantidade arriscar, coisa a pensar muito bem. Talvez por tentativa e erro. Como chegara à receita daquele bolo cremoso, de comer morno, saído do forno. A verter chocolate ao primeiro toque.

2 Dez 2016

Nem pena nem paixão

[dropcap style≠’circle’]Q[/dropcap]uando penso que há tanto lugar no mundo. Que ainda não se estragou tudo. Mas que estamos no bom caminho para isso, enrubescidos de vergonha mas irrascíveis de vontade e intensão egocêntrica. Apetece-me mais que muito mergulhar na micro planície calma de uma distância impossível de conseguir senão na consciência. Na alienação de todas as palavras de uma desconstrução que não tem nada de bem querer, de bem querer fazer. Bolas de bilhar sem olhar definido e permeáveis a um toque seco de uma intensão de jogo. Coloridas mas cegas em si. Reacções em cadeia. Empurrões de gotas do mesmo líquido na inquietação febril de impulsos físicos, na inércia da agitação da matéria de uma individualidade contranatura. De entidades que somos, parte de um todo indivisível.  A tessitura da matéria atómica e social, a rede universal.

O realismo global é a nova corrente. A nova prisão. Diálogo universal a fazer contas às estrelas. Gotas e partículas previdentes na expectativa de assistir a qual evapora, qual congela de um frio maior, qual salta por imperativos de dinâmica das mesmas e cai na margem do todo. Qual se infiltra na terra, vítima de um engano do estado do tempo e pelo mesmo erro alimenta uma partícula seca, engelhada e feia, que era afinal a invisível semente de algo.

Aqueles dias, em que me apetece encolher os ombros, os joelhos, tricotar rapidamente um casulo de lã Mohair desde as pontas dos dedos dos pés pintados, até às pontas dos cabelos lineares e bidimensionais. Espalmar toda a subjetividade num pedaço pequeno papel e fechá-lo num livro bom. De palavras boas. Cantilenas de embalar e de encantar. Já agora, com umas pétalas de flores para não esquecer as sensações e ir cheirando um perfume bom. Ou driblar uma bola rapidamente e atirá-la a uma tabela mal desenhada, vezes sem conta, encestar ou não. Com aquele ruído específico, e aquele ruído e aquele ruído do impacto, e de novo, e repetir até à exaustão. E uns calções compridos e contornados a preto para pintar depois num dia mais contente. Ou atirar pedras ao rio e ouvir o ruído do baque na água. E de novo. E de novo. Ou sentar-me e abanar o tronco para a frente e para trás. E vontade de fugir. Para fora deste circuito viciado de violência a que já nem as palavras me fogem. Vontade de ouvir tudo coado pela imensidão da água sobre mim, à minha volta, à minha frente e atrás de mim. Por todos os lados. Em todos os lados e em todos os sentidos. Fechar qualquer coisa por momentos como um casaco pesado de inverno.

E esses dias em que tudo me aparece da esquina mais negra da realidade, tão real e tão reais como os outros em que se alternam momentos de maior lirismo e apaziguamento, tão real este e tão nítidos esses, mas bem mais construtivos. Dos anjos só os mais negros e ausentes. Há uma arquitectura de destruição de que não gosto. As grandes cidades como os pequenos castelos de areia, de nuvens, ou de saber ir indo com os dias sem exigir nada de ninguém, merecem o mesmo respeito. As construções sociais e as empatias coerentes. As pequenas mortes como os grandes genocídios. Todos me fazem aversão. Os grandes princípios edificantes, os pequenos gestos demolidores. De tudo se fazem palavras e mortes. Que arremessadas ao vento ferem rostos de caminho, de passagem ou de indiferença. Na realidade exijo tão pouco dos outros que sempre sou colhida de surpresa. A raiva. O ódio a fermentar numa matéria estranha em rejeição. Mas a encontrar caminho nas palavras e na lógica dos critérios. Sentir palavras infelizes e forasteiras a invadir espaço que não lhes é destinado a desenvolver diálogos que me cansam e calam. A evocar palavrões de violência a desmedir e a libertar de caixas fechadas para o efeito. De guarda. De não querer. De ferir. De recusar. E da recusa sobra o abalo do abalroar sem ter querido.

Tonalidades, texturas e cores de que não gosto, a invadir-me a forma das palavras. Timbres e cheiros a putrefacção e a biis. Perpectivas militares e explodidas, estratégias. Já bastam as guerras. Deformações como doenças dolorosas da pele, dos dias, a vista de cada janela a enrugar de irascibilidade. E nessas alturas todas as palavras amargas e corrosivas se juntam em meu socorro, ansiando por se escapar do lugar fechado onde vivem e fazem alarido incómodo. Mas não as quero para mim, como não as quero para ninguém. Só que me abandonem reabsorvidas numa matéria inócua qualquer.

Há dias em que o meu mundo me aparece coberto de tons de negro, um vozerio desmesurado e agreste, repleto de palavras que não quero dizer. Uma fractura que não quero sentir, um sentido que não quero medir. Há um corpo. E o meu. Imune às palavras. Último reduto a ignorá-las.

E apago a luz. A paisagem de que preciso. Para sentir de que cor ficam afinal todos os negros. De que espessura se faz afinal o silêncio relativo. De que formas se prende o tacto às coisas. De que temperatura se lembra o corpo nelas. De que memória se desprendem os objectos. Tudo novo em escuro e silêncio. Mesmo as vozes esparsas da rua, parecem ignorar melhor e mais. Mais exteriores. Assim. E há felizmente pequenas réstias de quase não-luz, a entrar pelas frinchas das portadas, tábuas compridas e gonzos empenados dos anos. Pela janela das traseiras sempre aberta para o lado do avesso das coisas da casa e da rua, por debaixo da porta e por trás da qual se desce e sobe em outras vidas que não tenho que saber e não me falam. E aí ando um pouco pelas cadeiras e cadeirões das divisões imprecisas. Nocturnas de vez, mas silenciosas nunca. Sinto a frescura de paredes e o gelo da pedra e de um copo esquecido talvez no tampo de uma mesa. Bebo um resto de um vinho escuro e apalpo as roupas que não lembro de ter despido espalhadas por ali. Algo de formas invisíveis se me enrodilha nos pés -o gato ou a roupa – que devem ser meus sem os ver e o soalho é macio e não demasiado fresco. Devem estar descalços. Todos. Mesmo a roupa indistinta.

Ele é silencioso. Roupas misturadas, minhas, da véspera, de há três dias, dele. Estendo-me na cama feita já noite. Nunca me deito sem a fazer. E há um corpo morno e adormecido. Minto. As costas frescas. Senti ao de leve com a mão. As omoplatas assimétricas da posição. Toco de novo. Não, não cresceram asas. O corpo dorme. Não é meu. O meu não dorme. Vigiante. Cansado. Inquieto. O outro volta-se no seu silêncio completo e a temperatura atinge-me como uma carícia. Boa. O hálito sereno e lento. Não lembro nomes nem factos ali no alo daquela proximidade viva e adormecida sem ausência. Assim. Só a enorme objectividade mesurável em graus centígrados e confortavelmente destituída de sentido. Um sono imperturbável e não perturbador. Não gosto de o acordar. Nem ninguém. Mas também porque me apetece andar por ali e pela casa solitária assim no escuro. Ele, ali. Noutros dias, não. As luzes acesas contra o desconhecido monstro da casa. Apagam-se para tudo dormir. Está quente. São dois calores, agora. Três. Se contar com o da porta fechada da noite. Viro a almofado do outro lado. O que está sempre fresco por um tempo. Não o toco. Não o quero acordar. Quero sentir toda a casa secreta e confortável. Tudo ao negro sem temor. Sem sombras. Sem relógio.

E de repente, lembro-me, e avanço no outro corredor até ao fundo, com a mão na parede para não tropeçar e com uma alegria infantil dou um piparote no pêndulo do relógio do corredor, que acorda como se nada fosse. Como a iniciar o tempo do escuro. Sempre parado e preguiçoso, mas que deixo em paz para não acordar os vizinhos. E o tempo retoma em cinza fechado, fino e muito, muito escuro. E todos os sons ficam abafados lá muito atrás de qualquer realidade, por esse som ritmado que preenche a casa de uma ponta à outra. Como se fosse ela própria o interior dele. Do relógio. Dele, há um coração a reger serenamente um corpo em descanso. E em mim há algo indefinido a instalar-se sem pressa e sem palavras. Abro um livro sem nome e leio com os dedos as páginas lisas. Palavras baralhadas de vez. Tenho uma suave vontade de rir sem ter bem razão para tal. Porque tropecei, talvez no pé de um banco. Talvez o outro lado, o do ridículo daquilo tudo ao negro e assim. Lembro-me do perfume que não tenho usado e vou senti-lo. Sabe bem, também. Assim na frescura da memória meio esquecida. Como acontece com luz acesa. Tudo igual mas mais suave e mais escuro. Na verdade, tudo finalmente invisível mas palpável. Com uma densidade nova. Como uma cegueira. Uma frescura e uma novidade. E toda a subjectividade da não significação de tudo. Ali, aqui, ao negro de todas as cores. Esquecidas por detrás da luz ausente. Da pele glabra camuflada de noite mais escura, tornada escura e secreta mais do que é sentido normal. Existência discretamente apagada das cores. Apagada das horas, apagada do olhar. 36 graus acima do nada  Ou além da solidão. Ou aquém dela. Ai sentada à beira e prestes a cair no sono, também. Sem olhos, sem respiração, sem ruído, sem nada. Acordo sobressaltada pelas badaladas imprevistas e histéricas de alegria, do relógio do corredor, a que nunca me lembro de dar corda. E que mesmo com corda, muitas vezes adormece esquecido de si. Também. E dou mais uma volta hesitante pela casa, a estender a perfeição do momento nocturno embalado pelas badaladas raras e pelo tique taque do relógio, a que nunca me lembro de dar corda e cujas badaladas não quero que acordem os vizinhos e que por isso deve estar quase a parar de novo. E depois a noite esgota-se e tudo volta a sofrer da luz.

Ela dizia daquelas crianças sossegadas, que brincam sozinhas, que não inspiram cuidado nem preocupação: “não dá pena nem paixão”. Não era uma coisa má na voz dela. Mas há uma literalidade estranha e indivisível aí. E ele tem esse sono sossegado, ali.

25 Nov 2016

Variável dominante

[dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] que se é e não o que se faz, se diz. Essa realidade equívoca. Da obra e da representação. De si. Da imitação, de uma camada de sentido, sentida, eventualmente, mas uma segunda instância. De ser, parecer ser. Uma tangência pontual por definição geométrica. O que se é no que se faz, como um mal feito mesmo na perfeição alheia e distanciada do que é feito. Elaboração da mente mas a voar para longe. Do que é afinal anterior, subjacente, íntegro e absoluto. O que se é. Intangível nesse absoluto. Atingível por camadas. Fragmentos de se ser. O que está ao alcance do olhar. E nunca, quase nunca a totalidade no que nos deixamos fazer, ser visível. Revelados por partes.

Como no papel da escrita. Branco, possível. A escurecer depois nuns pontos, pequenos nós, como grãos de terra, presos de letras avulsas de entre as infinitas possibilidades. Aquelas, por uma vez. Não outras. Todas as outras que não caem, presas numa outra página inalcançável. Como caminhos etéreos uns, visíveis outros, na disposição meticulosa das pedras e das ervas naturais. Das confinações físicas a fazer imperceptivelmente modular os passos até sem intensão, e a desembocar num sentido eventualmente imprevisto. Um caminho como texto escrito. Como este, menos óbvio do que se poderia querer ver. Mesmo depois. De onde se parte e onde se chega. Tudo variável. Como um caminho entre as árvores. Numa disposição indisciplinada de arbustos, ramos caóticos ou a viver a alturas imprevistas, a surgir de direcções que contrariam a ordem natural do crescer. Pequenos galhos e grandes braços caídos. Redes de folhagem que escondem depressões inesperadas do terreno, do lugar dos passos que afinal não são nunca a direito. O estalar das folhas secas, essa memória da infância a procurar distinguir ao olhar as que no chão produziam esse ruído, sabe-se lá porquê, apetecível. E aquelas que, menos secas, ou já húmidas frustravam esse ziguezaguear dos passos pela rua outonal, à procura de tão pequenino prazer. Como comer batatas fritas. Coisas talvez improdutivas do ser mas não do prazer. E um, como o outro, de tudo se faz. E no final a imagem. Uma de muitas. Uma pele de várias. E nela existimos? Na prova concreta do fazer, do caminhar, na forma passageira de tudo, o existir. Prévio mas já não palpável. Prova de ser ou de existir, não sei, de momento. Mas ser, é em geral uma existência impalpável embora inequívoca. Não sei onde. Mas ser encerrados nesse território irredutível de que só se manifesta um reflexo. O gesto temporal. Residual. Ser do corpo para dentro. Tem que chegar.

Tudo me perturba às vezes. O olhar límpido e intencional, o olhar turvo e sem lugar. As pessoas que desviam o olhar. As que não ouvem. Os medos dos outros. As suas frágeis matérias desconhecidas e quebráveis. Não saber.

Mais do que momentos. Pequenos, ínfimos mesmo, como rasgos de luz numa cortina-tempo. Por detrás da qual parece ser a realidade a ser. De passagem. Toldado momento-mundo. E passaram as palavras. E porque eram palavras-instante e não duraram, pensava-se que eram pouco verdadeiras mas é a alma que é plástica e o tempo que corre. E dos mesmos sentires se abeira de outros ângulos da mesma visão. Da mesma visão-palavra. De outro olhar-tempo. Prismático mas não oposto. Ou como organismo vivo, o olhar, as sensações, os sentimentos, agarrados a uma essência de núcleo escondido, mas em renovação epidérmica.

Mesmo numa respiração descompassada, numa batida latejante nas têmporas a demonstrar que um órgão a ressentir-se, muito do metabolismo continua a sua rotina microscópica e arrumada. Gosto de arrumação. Gosto mesmo demais, de ordem e rigor. Objectos paralelos entre si. Linhas rectas de verticalidade e horizontalidade. Perturba-me a obliquidade da queda. Da composição. Tento adaptar-me à desarrumação do mundo, das ideias que não têm tempo para se organizar. De palavras e linhas demais para o tempo. Tento. E a tudo o que é maior e não tem arrumação possível. E às brumas que ocultam e desocultam. E a realidade como uma terra de montanha, na secura e humidade específicas. Ou em vasos, e os minerais a alimentar plantas, mesmo nesse pequeno mundo de brincar. Essa terra onde ponho as mãos em dias demasiado etéreos, a compor o que é possível. Percebo porque me dói. São os grãos mais ásperos. Torrões ressequidos. Q uando me viro para esse lado na cama. Dores finas. Dispersas.

Ando a tomar palavras sem prescrição médica. É o que é. Algumas, amargas e amareladas, ou rosadas ou em branco, redondas ou alongadas. Algumas, a cair como pedras no estômago e que não há água que desfaça. Palavras e vitaminas, para fortalecer a insegurança. Mas tiram-me o sono. E associadas ao álcool, então, é melancolia a entornar o vazio instalado. Derramam-se-me na noite e acordam-me sem razão. Crescem, dão-me trabalho e tiram-me o sono preguiçoso. Fica ali a olhá-las exibindo-se nuas e perfeitas, em arabescos de coreografia invejável. Mas antes chamar-lhes pensamentos. Igualmente impróprios e intrometidos mas dentro do seu lugar como ocupantes de visita. Elas, mais convictas e arrogantes dançam exigentes e definitivas. Demais e a mais. Palavras-comprimido. Palavras que me colhem em jejum sem estômago para elas. Ando indisposta de palavras, pessoas e vidas.

Ah…Às vezes eu penso mesmo que vamos todos enlouquecendo. Com aquela crueza com que viro os olhos sempre para tudo, mas para começar e acabar sempre e com a maior veemência para mim própria. Não me poupo e seguramente menos do que a qualquer outro –  que não poupo, eu sei, dentro de mim, eu sei e não poupo – há um canal sempre desimpedido aí. Sempre limpo de máscaras e panos aquecidos. Um estreito que se atravessa a nado sem maior esforço do que o de uma respiração ofegante. E mesmo esta, sabe-se, pode advir de tantas emoções e tantas pequenas inseguranças, que não é de pregar susto de maior. Enlouquecendo de teatralidade, de experimentalismo sensitivo, de verdade no palco, de amoralidade. De imoralidade, de fantasia. De dispersão. De verdade. De cobardia. Enlouquecendo de coragem. De tudo. De desilusão e de ilusão feroz. De palavras demais e de palavras de menos. De não valer a pena. Nada. De tudo valer a pena, se a alma o suportar imaginar. De pensar os pensamentos e de pensar os sentimentos. Dos dilemas. Porque a certa altura tudo parece conduzir aí mesmo na mais escondida parte de cada um dos nossos olhares. Os antagonismos aparentes entre critérios e convicções, entre sintomas e verdadeiras causas profundas. E sempre um outro olhar a esculpir possibilidades de formas em nós. Penso. Penso mesmo. Mesmo naquela pontual euforia instalada no meio da maior perplexidade e impotência existencial. Coisa estranha. Em divergendo. Lírico, talvez. Descobridor. E um dia, abro a porta da rua, saio, e está ali o Batmobile. De certeza. E nos outros dias, alongo os passos para espaço mais amplo. Saio da minha rua–concha, da minha rua casulo e casa e da minha casa-pele, e caminho por lugares indistintamente só para depurar a respiração sem pensamentos de maior, naquela ocupação ligeira e ténue dos passos sobre passos que não dão muito espaço a espaços mentais. E caminho depressa, como sempre gostei de não caminhar devagar. Na rua. A lei das compensações. Deixar que o corpo adquira uma inércia firme e que seja o espaço a percorrer-me ligeiro como a vista numa janela de comboio. Em velocidade. A vertigem de caminhar em frente no tempo para não voltar atrás na memória.

Por isso é vital a urgência do caminhar. Ou construir paisagens vazias. Caminhos de vazio. Daí a serem mortas, mortos, vai todo um apocalipse. Gosto dos vazios e da serenidade do que está vago. Vago para preencher pausadamente de todo o possível. De livros brancos e de páginas em branco. Como todas as horas vagas. Para caminhar.

18 Nov 2016

Piano forte. Piano piano

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]oje é o ir pela escrita adentro, o único lugar. Como mergulhar lentamente, escolher a temperatura e sentir o rumorejar manso e eterno enquanto é. O imergir simplesmente sem violência num silêncio de sentidos múltiplos e distantes. O corpo. Somente o corpo. Palavras como águas sem mais. A única mão a estender para fora do regaço em que um par inerte e serenamente nunca só, pousa sem outra vida própria. Ir por dentro das palavras-pedras ao fundo, e ir por aí fora sobre as palavras-asas, e perder-me o possível nas palavras-gesto, nas palavras-beijo e nas palavras tacto. Varridas do chão de corredores sem fundo e de soalhos sem flor. E sem fim e sem dor. Ir. Ir para o dia que é o outro qualquer que não este que não me quer. Bem. Ir colhendo nas sílabas boas como numa seara de espigas e fenos e ir colhendo em molhos que não importa em que buquê se formam, mas formam. E formam quase a forma de um caminho que é sem fim e sem forma. E de resto mais nada que estas palavras a recobrir a calçada que nem sei se é e está. Como pétalas a disfarçar o que é terreno quando passa o andor. Sobram as ditas. Claro. A secar. A acastanhar. Nelas vou vogando. Nelas como nos dias. E o de hoje como todos na cor e na tonalidade própria, de luz-sombra. De cheio-vazio, de claro-escuro e de saturação pontual. Na indiferenciação da última sílaba da última palavra. E da pontuação. Onde acrescentar um ponto a uma vírgula e obter umas reticências. Onde apagar uma vírgula a um ponto, evidenciar um parágrafo, e observar o precipício abrupto à beira da palavra. A palavra tudo. Que está ali. E a palavra nada que se segue. Era uma história, possível. Mas eu gosto de vírgulas discretas e parágrafos sem exclamação. Escrevo a lápis mas nunca apago. Como um pássaro não seria pássaro se apagasse o vôo. E o lugar não pode deixar de o ser como se o não fosse. Ir pela escrita fora, sim, porque tenho que ir a algum lugar. Lugar marcado e encontro com o que é depois de agora. Sem outro transporte que não uma ânsia que não cessa. Não gosto do fim porque se vai finalizando. O fim que o é tem a hora marcada, registada e sublinhada a nítido fervor. Logo à noite, ver as estrelas. Os meus fins são assim de abrupta definição. Quanto muito esqueço. Quanto muito estrago. Quanto muito reciclo e refaço noutra matéria forma. Mas gosto mais de esquecer. Parar de ouvir vozes de outrora e de agora. Demasiadas vozes. Fazer a apócope de sons como do piano forte. A sobrar o piano, piano. Sem mais perturbação. Esperar a noite. Desligar o telefone dos dias.

Percorro descalça o labirinto dos corredores. Disfórica e cuidadosa comigo que tenho. O que a vida traz e ninguém mandou. Tiro os sapatos e entro na casa. Que mesmo os saltos podem magoar. Ferir de pequenos pontos irrevogáveis a madeira sensível. E que ficam para sempre. A casa é forte. Quanto mais forte, mais frágil. Mas eu tiro. Penso que posso fazê-lo sem querer. Sem saber porquê. Tiro os sapatos para sentir-lhe a realidade. A chuva gelou-me a nuca e não houve carícia posterior. Talvez o sol no outro dia. E dizer bons dias a pessoas para quê…o tempo moído de esperas e desesperos, para quê…e depois aquela euforia avulsa. Um piano forte, de facto vindo dos confins dos séculos e reencontrado em ecos e vozes de natureza digital. Como dedos. A digitar recônditos recantos e bem. A fazer bem. Essa química pura e sem máscara. A música.

Contornar pensamentos tóxicos e os não ditos. Adivinhados no cadinho das possibilidades em menú exponencial. Corrosivos e pela calada do desperdício. Fuga ao circunstancial. Pela escrita adentro como pela noite de todas as noites. A intemporal de sempre e de nunca. De que não sobra nos dias a liberdade. Mas que sempre vem e vai às vezes de exaustão. A noite de já não ser nada do esperado, desesperado ou ressentido. A ponte entre tudo e coisa nenhuma ou talvez. Pela escrita sentidamente e pela frágil e dissonante palavra que é tudo o que tenho. E da máscara digo nada porque é. Digo, só menos a que não quero e  ganha vida para além dos fios e da teia que não quero tecer.

Histeria metabólica em que oscila o amor e o desamor, a vida e a morte em trinta segundos e a rodar sempre a rodar o carrocel à música do tilintar de uma moeda. Ninguém pode invejar sentidos e sentimentos, aparentemente cada um gosta daqueles de que é capaz, vítima, ou roda de moinho. Como os de D. Quixote. Que só ele podia ver, como gigantes. Para quê alucinar as alucinações alheias. Há cogumelos mágicos de sobra para todos. E o mar chão de praias para abrir os braços e maravilhamento de costas ao poente. O lado contrário do mergulho.

O amor é um bicho mamífero. Come mais ou menos de acordo com a indisposição. Entristece e adormece nas noites mais frias. Vigia o dono, espera. Desespera e dorme triste, acorda e dá saltos para desentorpecer as patas dormentes de tanto esperar. Passeia a farejar a vida. Mas não morre e renasce em cada sono. Está por ali nas arritmias e solavancos da vida. Até chegar a sua hora. Não é de modas sentimentais. De teorias estéticas. De uns dias se ser céptico de amor, e dos outros, vítima de fúria e de ardor. Os dias do nunca e nunca mais e os outros do para sempre e demais. Como se é fútil se as coisas não são construção sólida nos alicerces das veias. Sem circunstâncias. As pessoas fazem-se e desfazem-se nas palavras ditas. Nas outras, não se sabe. Sim, talvez mais como o sangue, a circular sem parança, a oxigenar-se quanto pode, sem parar. No seu sistema de vasos e ramificações por todos sem se enganar ou voltar para trás. Mas sempre nesse circuito fechado. De um nome. Um rosto, um corpo. Inconfundível. Esse. Que se vê no escuro. Porque é aí que vive escondido. De modas. Fruto da desnecessidade e mais ainda, sobretudo, infraestruturado na desmesura…e no espanto, de fora, a ver o carrocel com olhos de criança, no susto do ruído atroador. Da velocidade. Da voz que diz vai rodar. Fazem-se e desfazem-se, mas sobram. Umas e outras sem relação nenhuma. Como os dias. Novos ou reaquecidos da véspera. As mãos são a metáfora impossível sem o tacto. Impossível mas não improvável. Talvez pudesse dizer o contrário dependendo dos dias. Mas sobretudo o ar. Ser livre. Ter um espaço amplo. Nada ouvir e nada olhar. Um dia sem circunstâncias sem vozes e sem nada. Para escrever. E escrever ou não. Pela cor. Abstractas e macias como piano piano.

E à noite ali na mesa da cozinha entre sombras, atentas amigas, a mão a um palmo. O olhar desarrumado e sem lugar, e pode ser uma companhia limite. Um ou dois copos. Tanto faz. Encosto a cabeça ao braço porque estou cansada e digo lê. Como quem diz, toca…a luz, baixa. O pano cai. E faz-se silêncio por fim. O de repente, o de sempre e o de nunca. Uma coisa de suave esquecimento. Vem daí.

11 Nov 2016

Pequeno mundo

[dropcap style≠’circle’]D[/dropcap]os bons e dos maus. Passe o maniqueísmo. E os maus somos nós, mas podiam ser as libelinhas. Lindas, pequeninas e esvoaçantes. As abelhinhas, nunca. Pequeninas peludas e a desferir ferroadas defensivas. Obcecados pela expressão. Obcecados pelo amor. Mesmo na ausência deste. Ou na ausência só. Uma coisa que está sempre e a outra por isso mesmo. E também. Sim tudo isso e o erro. Ando tão preocupada lá atrás nos corredores onde circulo, com as abelhas. Ando. Depois de toda a ironia assentar. E que não era mas podia até vestir uma roupa equívoca como muitas máscaras. Mas é a verdade. Aquelas ínfimas e pensadas talvez insignificantes peças da mecânica universal de dependências mútuas. De ajuste e afinação delicada. De cor peluda e listras como nos desenhos animados. Quase só o que se conhece delas e o mel. E a agressão. Mesmo na natureza, auto defensiva há erro. De previsão. Precipitação inesperada por antecipação do que não era para ser por vezes.

Escreveu abelhinhas, Rosalva? Rosalina…diz. Os olhos turvos de incompreensão porque estou a pensar noutra coisa. Sempre a pensar numa outra coisa. Desculpe, estava a pensar na alvorada de sempre. Uma coisa certa. Escreveu…Mas porquê inhas…Não se preocupe com o kitsch. É ternura mesmo.

Mas elas não sabem e ferram uma dor violenta. E morrem dela. Curiosamente. A natureza munindo de uma arma a ser usada uma única vez. E nós. Obcecados pela expressão e em silêncio, obcecados pelo amor e sós. Cobertos de camadas e poalha de cadeias sem devir. E a percorrer os minutos como se a desviar confusamente teias e névoas e tules de cortinados e reposteiros uns sobre os outros, a proteger uma entrada que em si se sabe camuflada, mesmo depois de tudo desviado do olhar. Uma entrada, às vezes e de outras a vida em corredores laterais, coxias sem lugar sentado e acocorados na escuridão a ver mesmo assim. A vida. O espectáculo da vida. Que espectáculo. Pode até chegar a ser maravilhoso. Há que desnudá-la como se submersa em véus. Em camadas sempre. Desvendá-la como a uma amante secreta que se esquiva. E esquiva sempre. Ou amá-la por detrás e para além dos véus para não lhe ofender o pudor. Sei lá eu. E nem sei se mesmo a vida se sabe. Eivada de incompreensão e temerosa de golpes de uma sorte esquiva ela também.

Escreveu camadas, Rosângela? Dou-me de imediato conta do olhar confuso e ligeiramente irritado da criatura. Ros…, qualquer coisa, digo. (Vide texto de 12 de Outubro deste jornal, em que Rosalina se viu Francelina com desprimor para a segunda, embora a ofensa magoada fosse da primeira.). Que importa?..Se as camadas são em parte também das asas dos anjos. Vôo por aí. Não leve a mal. Não é que eu seja difícil com os nomes. Ou com os rostos. Há pessoas assim. É só que as palavras se prendem umas nas outras e as sílabas trocam de lugar como num jogo de cadeiras. Mas são sílabas boas. As que misturam os anjos com as rosas. Sei lá. Coisas do céu sem nuvens e coisas das nuvens leves com camadas sobrepostas de branco a dar para o cinza e a chegar ao chumbo, às vezes, mesmo. E cai depois o que sobra da água condensada como caem lágrimas mas aí do céu. Outros dias limpo como os olhos secos e é tudo natural. Como derramar o que sobra. E desfazer nós. Trovejar.

Há um desenho que sempre pergunto quantas camadas de sentido. Tem. Um livro de página amarelada pelo tempo. Uma. Uma folha colada aí. Duas. Folha pautada de linhas azuis. Impressas para a escrita se equilibrar. E nelas, três. Uma colagem, uma linha a negro a contorná-la, pelo lado de dentro como uma protecção íntima. Dentro de fronteiras. Como convém a ser discreta. A folha destacada de outra realidade física. Quatro. Um desenho a tinta negra da china, figura e fundo. Cinco e seis. Uma página de uns minutos de uma vida. A vida assim. Em camadas.

Mas e as abelhinhas, que têm a ver como todas estas camadas. Aqui, sobre a mesa e indefesas. Que mal fazem ao longo do mundo e da eternidade. Nada. Nenhum. Que camada senão as de interesses privados, megalomanias empresariais, desconhecimentos e indiferenças governamentais. Políticas. Falta de visão global. Falta de sentido de eternidade para o humano, o universal. Por enquanto. De um olhar sobre a pequenina coisa em si e o efeito de libelinha – borboleta, digo – transversal ao tempo que vem. Pequeninas abelhinhas na engrenagem de um tudo a desmoronar em eventualidade. Em extinção visível. E nós, ainda com um frasco de mel na mesa do pequeno almoço. De rosmaninho perfumado e secreto labor imperceptível na viscosa matéria da doçura. Vindo de uma feira, sem assinatura das pequenas, minúsculas criaturas. As que morrem progressivamente mais e em quantida monstruosa, sem darmos por elas nem lhes fazer o luto. Nem sentir a falta nem entender que não há mais um mundo sem elas ali. Pergunto que fazer e não sei. Ou as libélulas, lindas e pequeninas que já tiveram um metro no passado pré-histórico e que calculam coisas estranhíssimas como o lugar onde a presa vai estar no futuro para com ela cruzarem o seu destino predador. Suspiro de alívio ao imaginá-las afinal desviadas de um futuro que nos excluiria talvez. Elas e os seus olhos multifacetados capazes de produzir trinta mil imagens, e os seus cérebros pequeninos mas com neurónios capazes de compilar tudo isso numa figura e mais proteínas capazes de sentir a luz. As facetas da luz. E A menina Rosalina suspira comigo mas por razões diferentes e não vê onde quero chegar nas palavras.

Escreva neurotoxinas e outros venenos, Rosário Rosarium. E ecossistema e extinção em massa. Não seria a primeira vez no mundo, seria talvez a última para a humanidade. Já Einstein dizia mas não parece ser aproveitável. Rosário…suspira revirando os olhos. Significa “coroa de rosas”, não se melindre. Quer dizer que cada vez que alguém reza de modo conveniente o seu rosário, deposita na cabeça de Jesus e de Maria uma coroa formada por 153 rosas brancas e 16 vermelhas do Paraíso, as quais nunca perdem a sua beleza e o seu brilho. O Rosário é o primeiro dos actos de piedade. Ela olha estarrecida e eu sorrio para dentro na dúvida da extensão da ironia. Se era…porque há que rezar de um modo qualquer.

E daí a minha alma divaga para o efeito borboleta, aquela expressão um pouco lírica que expressa os efeitos gigantescos, provocados pelo ínfimo adejar das pequenas asas coloridas e inconsequentes, no seu movimento mecânico em torno das suas pequenas intencionalidades de vida e sobrevivência. E daí para os sistemas abertos, na ciência, dinâmicos, adaptativos a todas as variáveis, em que cada pequena causa, pode despoletar uma granada de explosões imprevistas e consequências imensas. E o mundo fica assustador nesse olhar possível. Estaco paralisada na impressão de que um tão pouco tudo faz depender tanto outro nada qualquer. E apanho o resto do cigarro que por preguiça deixei desleixadamente cair no chão. E de caminho reconduzo a menina Rosalina à máquina de escrever de cor amarela muito pálida. Despende-se mais energia nas teclas duras, mas poupa-se energia eléctrica. E se parto as unhas. Diz com aquele arzinho de catástrofe. Crescem de novo. Mas não pintadas. E reciclo tudo, separo os pequenos e grandes lixos que nem sei como, tanto produzo. E reutilizo o possível. Já não posso deixar de o fazer. Tudo. Pequenas palavras, sentimentos e esboços de ideias para qualquer coisa, que não chega a ser mas está ali. Papéis e mais papéis que iriam para o contentor próprio naquela angústia de fazer perdidas pequenas coisas válidas. Matérias e ideias. Registos da vida pontual. Numa linearidade difícil. Mas reutilizar. Renovar.

Volto a pensar nas abelhas. Que picam para se proteger e mais ainda proteger o seu pequeno mundo e, algumas espécies morrem ao perder o ferrão, libertando feromonas de alerta para as companheiras de colónia. Morrem por uma causa importante. Mas por vezes erram o juízo sobre a eminência do perigo e morrem mesmo assim. E nós, esperamos delas a agressão e antecipamo-nos esmagando o pequeno ser antes que desfira o golpe que não sabemos. Para proteger o seu pequeno mundo. De dependências mútuas. O nosso.

4 Nov 2016

Em lugar de ser

[dropcap style≠’circle’]P[/dropcap]arecer. Não. Nunca, em lugar de ser, parecer. Dizia , lugar. Em lugar de ser, lugar. Em lugar de ser lugar. Passe a repetição e a exaustão. Portanto, lugar. E ser lugar como privilégio de ser e porvir. Equação. Dilema ou possibilidade. Ou simplesmente o vago lugar, confortável, a visitar, a alugar, a habitar. A querer. Sei lá.

Paradigma. Casa. Corpo. Pele ou pêlo a cobrir. Casa ou espelho. De envolver ou ver na passagem. Esta é a diferença. O pé que se tem nas coisas. Mesmo sólidas de estado. Só depois as metáforas. A deriva gasosa e impermanente da Psique. A fuga, as metástases da matemática e dos conceitos a formatar discos e a desfazer e refazer sinapses.

O que está escrito nas estrelas, como destino inalterável, e com uma vaga impressão de transcendência. Um apelo da fé nas coisas ocultas, talvez como consolo para a eterna questão insatisfeita. O que fazemos aqui, de onde viemos e para que desconhecido nos movemos. Ou, pelo contrário, aquele que é o lugar da ciência. O rigor firme que afinal, em cada momento vem a verificar em si próprio a falibilidade e a repôr novas ordens para a concepção do mundo. Estranha deriva no lugar em que menos se poderia esperar encontrá-la. No fundo queremos sempre saber o futuro. Oscilamos entre o temor e a tentação.

Pensando em alguns edifícios conceptuais quase inalcançáveis, ao ponto de se situarem num universo ficcional, intelectual e estranho, em que, para realidades complexas se criam instrumentos intelectuais específicos, instrumentos de medida e localização de ordem tão abstrata para os sentidos, quase sinto a tentação de acreditar no divino. De tão inimaginável, a crença, a fé, quase me parece mais fácil do que abarcar toda a complexidade em que nos perdemos face a uma dimensão física do mundo. A Cosmologia em mutação ao longo da História do humano. A mente a divergir e a complexificar mecanismos de entendimento de si própria. A tentar explicar por palavras e fórmulas dessa imensa construção que é o universo matemático, aquilo que a mente não consegue visualizar ou imaginar facilmente. O antes. O depois. Do nada.

E no meio, um universo a expandir-se afinal aceleradamente. Uma certeza científica com cinco anos. Nada, na ordem de grandeza do espaço-tempo do universo. E até ver. Ao contrário de uma certa esperança científica ou meramente existencial, de que este abrandasse. Sossegasse o futuro incerto numa certa forma de estabilidade. Seria o eterno presente do universo. Talvez. Na realidade não sei de todo de que estou a falar. Talvez da deriva cósmica, a tentar encontrar uma equivalência à deriva existencial em que explodimos do nada para uma infância de também eterno presente, por uns tempos, e daí para um futuro em que a idade e a percepção do tempo, parecem ir-se definindo e sentindo em aceleração constante. O humano em deriva constante, é o que sinto. Uma procura imparável de localização numa métrica de coordenadas ao alcance do próprio humano. Na sua dimensão mista. Pequena, ao alcance da medida dos objectos, ou enorme, vaga e não mensurável, em procura pelo vazio dos espaços cósmico da alma, do espírito ou do intelecto. Sim, às vezes não sei bem de que estou a falar senão de uma sensação enorme de desconforto que me ultrapassa. Ou desta ideia de que um dia destes, começo a acreditar numa origem divina para explicar o universo e tudo nele. Porque é mais fácil. E uma ideia plena de esperança. Sem problemas de tempo ou espaço. Isto, digo eu por preguiça. De continuar a  tentar uma ideia confortável para os dias. A sucessão dos dias.

Comecei a dizer. E depois, nada. E nada. E bem lá no fundo, onde tudo está sepultado – depositado, digo – digo. É ali e dali que tudo vem e vai como refluxo. Mas volta. Vira-se, adormece. Ao de cima, por vezes. Porque lá no fundo, tudo acordado na espertina eterna. Um dia, hei-de ir de mim para fora por exaustão. Um dia qualquer. Esperando encontrar outro em que viver em paz. Não em mim. Isto digo eu. Confinada a mim. E só por dizer.

Diz a ciência, então, que a expansão crescente do universo continua a agigantar o que já era imenso. Que uma força desconhecida e imensa o estica imparável e continuará a esticar até ao fim. Embutida no tecido do espaço, energia escura, afinal predominante. Imensa de tamanho e poder. O maior dos enigmas. Quase uma expressão poética e assustadora no que afinal é só uma descrição de ordem física. A cor do medo.

E pensar que parti do erro de paralaxe. Movemo-nos e pensamos que é o universo que se move independente de nós. Porque parece. Porque é a ilusão do olhar. Ou a paralaxe cognitiva, o eixo da construção teórica a deslocar-se do eixo de experiencia humana real. Como em Kant, a incognoscibilidade da “coisa em si”, do ponto de vista material, e a sua pura existência como fenómeno. Como aparência. Ou que nunca estamos no mesmo lugar, nesta deriva consonante com o universo. E com os sentidos. Em que o que se move, é numa realidade qualquer fervilhante de organismo monstruoso. Podemos não estar de facto nunca no mesmo lugar. Mas há pontes constantes entre tudo e tudo. Rígidas ou flexíveis e ajustáveis. Rupturas, também. Estrelas cadentes como se o fossem, quando, afina, ínfimas poeiras. Movemo-nos. Olhamos o mundo. Parece que se moveu. Uma megalomania planetária de que tudo o mais fossem satélites. Movemo-nos e reclamamos do mundo.

Ou sonho de árvore. Que para cair, precisa de uma doença grave que lhe corroa as raízes entranhadas no lugar, ou dentes afiados do homem, por detrás dos braços, por detrás de uma serra. Ou que a terra se revolva em convulsão de reajuste. Interino. Ou na fúria cega dos elementos sazonais. De resto, fica. Sossegada e acolhedora na sua sombra. Precisar de um lugar. Por isso a casa. Pele da pele.

E precisar de me sentar a uma mesa de madeira sólida, pousar as mãos na memória refeita de uma árvore desconhecida, estender uma toalha branca escrita a bordados suaves por outras mãos, e beber uma chávena de chá. Quente. A pensar no futuro de gelo que a ciência adivinha para o universo. Um depois impreciso mas certo. Mas não agora.

23 Out 2016

Uma demão de rosa, um toque de perfume

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]oje choveu, finalmente. Seria chuva ácida? Como ácidos pensamentos que nos assaltam por vezes, mesmo ante as coisas belas.
Ponha rosas, e ponha flores. Mas não é a mesma coisa? Os olhos em alvo, as unhas em riste. As mãos simétricas suspensas sobre a máquina de escrever pintada de amarelo muito pálido. Não é relevante, penso, digo. Depois eu escrevo outra coisa qualquer. Das rosas. Da rosa de Hiroxima. O mesmo desabrochar irreprimível e inconsciente. A mesma beleza insuportável. O mesmo perfume entranhado para sempre na pele dos sentidos. Na pele de diferentes sentidos, claro. Os sentidos em leque a partir de qualquer botão. Premido quase sem pensar, acredito. Pela ordem das coisas da natureza, intocado. Ou pela ordem fria e cega. Cegamente seguida. E o momento depois. Alguém por detrás do botão sentiu talvez nada. Ainda com o indicador no ar. E a rosa já no ar em crescendo. A desabrochar. E depois, pelos anos fora em erupções cutâneas e sub-cutâneas. Rosas. Depois da rosa. Anti-rosa atómica. Como o disse Vinícios. Sem perfume, sem rosa, sem nada.
A menina Rosalina. Das unhas pontiagudas e trabalhosas em riste. Reciclei-a de um centro de imagiologia onde transcrevia laboriosa e distraidamente relatórios gravados de exames. Em que escrevia indiscriminadamente Não existem sinais de malignidade, em massas opacas ao exame, ou Existem sinais de malignidade. Em massas. Opacas na imagem. Enfim. Mais não, menos não. Era o que pensava. Se pensasse. Pensei, convém-me. Afinal, de sentidos incontornavelmente divergentes já se faz a escrita por si só. Querendo ou não fazendo questão, mais ainda. Convém-me. E ali está. De unhas eventualmente naturais, compridas e pontiagudas em riste, a escrever com as quatro polpas dos dedos muito separados e a dar estalinhos nas teclas por engano do gesto. Ou da palavra esquecida, esse desprezável não, que me deixou durante muitos dias a fazer disposições mentais testamentárias para uma eventualidade. Depois não era nada a mais do que a palavra desprezada, e acrescentada depois ao relatório. O que estava dito e o que não estava escrito na ausência do não. Desculpas, e tal. Enfim. Escreveu rosas, Francelina? Rosalina. Diz de olhos em alvo. Mas não é a mesma coisa? Eu. Prefiro o meu nome. Ela. Ficava-me a ganhar pontos na memória das coisas boas com o outro. Penso, derivando para o prédio.
A empregada de uma vida inteira do senhor e da senhora do lado, ambos do partido, três filhos. Um casal. Antes de se desfazer a coligação, muito cedo. E ficou para sempre o mesmo silêncio insólito, ou talvez por isso, numa casa de três crianças. A senhora a chegar sempre tarde do trabalho do partido. E aquele silêncio insólito. E a Francelina, nortenha de bigodinho leve, muito gordinha, de alcofa de legumes, a subir infalivelmente as escadas do terceiro andar, todas as manhãs, expelindo violentamente o ar, ruidosa e esforçada como uma máquina a vapor. Todos os dias. E aquela casa de três crianças silenciosas, que sempre permaneceu como prestes a habitar, meio vazia de tudo, como se tivessem acabado de se mudar de uma outra vida. Mas não. Ou como se houvesse algo indefinidamente adiado. Convidavam-me a andar de triciclo na casa vazia. E a cozinha, como a nossa, sempre invisível lá muito para o fundo do corredor, teria sempre um cheiro bom e quente de sopa acabada de fazer. E temperada com azeite ao arredar. Era o que me consolava de uma certa tristeza e silêncio que se destilava daqueles meninos. Que pessoas serão, hoje…Margarida, João, Madalena. Ainda me lembro. E a Francelina. Que, podia dizer-se, não desenvolvia muito, mas não falhava uma manhã às pequenas coisas, nem os ingredientes da sopa e era uma locomotiva naqueles dias. Deles.
Está bem. Rosalina. Sempre escreveu rosas, ou onde ficámos? E ela, de olhos em alvo, sempre, olhe faz lembrar o meu nome. Tudo, penso, faz lembrar tudo. Ou tantas coisas. Rosas é sempre bonito, diz. Maravilhosas, penso, mas a tentação de lhe lembrar Hiroxima e Vinícios de Moraes. Mas ia provocar-lhe um brilho pluvioso no olhar inocente de tudo. Porque a canção é linda e fala de rosas em que ela não pensou. Como uma espécie de combate entre cicatrizes. A rosa simbólica de “O Principezinho”, inteligente, sedutora, alma, coração e vida, e a outra.
Esqueço a menina Rosalina, que nunca soube como se chamava, e a máquina de escrever amarelo muito pálido que ficou lá atrás. E penso, como em tantos momentos me apeteceria andar de olhos fechados pela rua do meu dia, dos dias todos da minha rua de andar pelos dias. Para evitar o visível e mais, muito mais do que o invisível. E que quando entendi que não se pode ser feliz deixei de ser infeliz por isso e passei a somente ser infeliz pelas outras coisas. Sobretudo as pequenas coisas que são a célula de outras maiores, e que são teoricamente fáceis. Mais fáceis. De fazer. De não fazer. As que são domináveis, e que são construtivas. Pequenas como anti-corpos. No fundo, as pequenas coisas objectivas e definidas. Visíveis por detrás do invisível. O invisível manto de sentidos, de nuances de um real em mutação. Ou continuar a pensar que o fundamental é invisível aos olhos. O invisível. E de novo, pensar nesse precário equilíbrio sempre a reajustar-se a um novo centro de gravidade. Arredado em cada lufada de vento. Com Partículas. Microrganismos nefastos ou irrelevantes. Tudo o que traz de visível e invisível. E aí como em tudo sobra a certeza de que há que saber abstrair do invisível possível. Como da impermanência existencial. Como a da família, da amizade. Das estruturas sociais. Teorias em que nos afundamos a precisar de oxigénio contínuo. A finitude. Aquilo que não se vê em nós. Como se não existisse para que tudo o resto valha a pena. Estações a suceder-se para sempre. Por exemplo. Alternadas e sucessivas. Como o olhar. Sobre tudo. Excepto um prisma de cristal. Em que ângulo após ângulo, sempre se obtém o mesmo arco-íris. Porque é da natureza da luz, ser branca. E divisível na refracção, numa miríade de cores. Todas. Menos aquelas que estão lá, invisíveis aos olhos humanos. Mas estão lá. Afinal. Infra e ultra coloridas de invisibilidade. Úteis. E nesse olhar múltiplo que não se pode deixar de ter, apesar de tudo, por vezes dar uma demão de rosa e outra de perfume. Girar os olhos sem esquecer. Mas pensar também que, de vez em quando, sempre, algumas vezes mais do que outras, ou bem lá no fundo, afinal, “ l’important c’est la rose, c’est la rose, l’important”. E de repente sinto-me ridícula de tanto que isto soa hippie. Mas eu nasci nos anos deles. É natural. Era a contracultura necessária. E mesmo hoje e de uma forma ainda muito mais complexa. Ban the bomb. A adivinhar qual. E a caminhar de memória de música em música. Passando por Edith Piaf. E depois:

“Uma rosa de vocabulário escolhido
Rosa, onde o preto devia estar
Uma rosa mais ou menos muda…
…de plástico japonês
De Noel, parece mas não é
Denúncia e do medo de me amar
Língua rosa em boca amarela
Desbotada não…fere a vista”
Ivan Lins em “Rose Music” no álbum “Beauty” de Sakamoto. Tantas rosas quantos olhares. Mesmo num dia de chuva como hoje. De outono instalado para ficar. Só até ao inverno.

14 Out 2016

E porque os dias

[dropcap style≠’circle’]E[/dropcap] porque uns dias, isto. E porque outros dias, aquilo. E de aquilo, na imprecisão rústica do que se traça como se fosse caminho a fazer. E porque das roupas sobra o desconhecimento provisório, como o de pessoas estranhas a querer envolver de adjectivos decorativos um corpo que não se fez daquilo. Que não se encontrou ali, e que não se veste de roupa estreia, larga, comprida e curta. Não se veste para a estação. Não se apeia num vestido justo. Não cai de um sapato raso. Não desmaquilha os olhos. Não espreita debaixo da cama. Não lava a loiça da semana. Nem caixas para meias, quanto mais. E molduras e conveniências. E rosas de plástico com vinhos caros à mistura. Há um recreio vago. Menos mal. E um carrocel, um jardim, um cabaret, uma passerelle, uma roda- viva. E a leveza insustentável e o peso imponderável. E tudo muito mexido, muito batido. Como claras. Em castelo. De nuvens, castelos de nuvens. Cúmulos. Ah, Iago.
Porque as nuvens não têm vértices. Vértice é ponto agudo e pico. Não é ângulo nem aresta. Não há poética que valha a falha da geometria. Mesmo existencial. Quando querer fazer de um ponto uma linha, uma junta de planos fracturados é extrapolar. Elaborar é arquitectar. O vértice é o elemento centrado e precário. Acutilante e que fere. O não lugar da geometria. A parte ínfima e desprezável no encontro de planos. Superfícies. Há pessoas feitas de vértices. Os vértices dos dias. E há pessoas feitas de planos. Ou meras superfícies. E outras, feitas de outras coisas.
Eu desço e desço nos dias – ou muitos deles – a hipotenusa. Esperando que o triângulo não esteja invertido para a queda não ser para dentro e para trás. E depois outras definições.
E um dia destes, desprevenidas chegam as primeiras chuvas para ficar. Tem que ser. Mas esta luz já mais baixa, um pouco mais pálida, também é bela. E não há nada tão melódico como alguns daqueles momentos depois da chuva, no meio das árvores, em que indefinidamente se vai continuando a ouvir o gotejar imparável e incerto, Pequenos sons mais harmoniosos do que qualquer sinfonia. É o tempo a desfiar-se sem regra, sem ritmo e sem previsão. É o que fica a ecoar para além do desgoverno desolador do céu a abater-se sobre nós. A sinfonia das gotas que sobram nas fibras resistentes de cada tronco de cada árvore. Como o que sobra de um pensamento de amor. Em lágrimas de despedida ou de não ter sido. O que sobra e escorre para além de qualquer fórmula. Sem emoção. Como do discurso, como dos sentimentos como da vida vivida sem consistência. Uma realidade a ecoar como tempo e como deriva. E os regueiros formados na força da queda. E a melodiosa encaminhada de águas por caminhos recém-abertos. Moldados no acaso da terra, das fragilidades da física da terra. Da disputa de forças, entre o poder de escavar e o de resistir. O de gravar e o de consumir. E como num pensamento de amor, há o que cai, o que molha, o que agride, o que resiste e o que fica. O que fica. Dos sentimentos ficam os sentimentos na sua evolução própria. Aos discursos, reflecte-se-hes a deriva imponderável. Mas os sentimentos são elaborações para além do discurso. Aquém de tudo. Da vontade, da vaidade, da ética. Se falamos de amor, não falamos de gostar ou de critérios de gostar, ou para gostar. Não falamos de gostar, ou de construções, ou de relações. Não se passa entre pessoas. Passa-se em pessoas. Secreto e íntimo, contraditório, inconsequente e vasto como todas as planícies conceptuais deste planeta a expandir-se para dentro e para fora de si, cefaleias à parte, e dos outros. Também.
Não há maneiras melhores ou piores de amar. Não há amores melhores. Só inevitabilidades. O que se ama define um critério para sempre. Específico em si. Único, sem paradigmas, sem necessidade, sem qualidades. Só a necessidade e o paradigma definido em si. E a partir daí as qualidades. Sem comparação a outro. Nem livro de instruções. E as de amar diferentes sempre das de estar com. As qualidades. As instruções. As medidas. As caixas e as arrumações. Há um amar em estado puro. Perfeito ou primordial. As relações do estar, essas imperfeitas. Que dizer do amar. Há um lado de querer bem que é como o reverso da dor. Uma espécie de lado cristão, do lado contrário ao da dor. Em que é quando nos sentimos mais miseráveis que reconhecemos ainda ali a possibilidade de querer bem. Ás vezes acontece assim. Outras vezes querer. Mal. Não saber querer. Não saber sem dor.
E amar é uma catadupa de palavras inscritas no gesto. O gesto de amar que devia ser o único território. Acariciar com todas as palavras dentro. Ou para dentro, talvez. Fazer bem sem deixar rasto de cheiro como no território marcado dos animais. Um gesto de pluma. Ou um peso-pesado invisível. Um fazer bem no momento certo e sair de mansinho para não pesar. Mais do que o suficiente de saber uma vez.
Eu não tenho regras. Tenho inevitabilidades. Não posso ter umas, e não posso deixar de ter as outras. Como ou não como e durmo ou não indiferentemente. Trabalho e cumpro porque faz parte de mim sobreviver. Um pouco cheia de poucas regras, para ser rigorosa. Cheia dos espaços vazios entre definições. E quando me sinto mais miserável em tudo sei que está ali a possibilidade de me apurar na carícia mais doce no desvelo de amar e derramar palavras e gestos de bem, se o meu bem- querer estiver ali. E só não o faço por que não está ali como se estivesse. E não há que invadir. Vou divagando.
Ama-se na circunstância ou ama-se por que não pode deixar de ser. Encontros e desencontros. Então. Os dados são lançados pela ocasionalidade do acaso. O acaso a favor ou o acaso contra. Nada a fazer. Ama-se na facilidade ou então na miséria. É isso. A diferença está aí. Tirar medidas ou não. Uns dias e os outros
Não há uns dias e os outros. Talvez dantes. Vestidos de um colorido nítido de cores puras ou cores difusas, ou, aquelas não-cores do espectro dos neutros mas de impressão decisiva, desalentadora. Uma intermitência conhecida e que oferecia a espectativa de mudança sempre que o abismo ameaçava ser de vez. Mas agora é tudo de uma imprecisão mais dialética, não ao longo dos dias mas de um dia só, no desconhecido dos outros. Instantes de paragem em qualquer das premissas. Clara enquanto lugar de um tempo. Dependente de pequenos farrapos da espuma das coisas. Decisivos. No preciso instante em que se instalam. Precários, contudo. Uma translacção imparável pelas faces das coisas e a permanente escuta às possibilidades do desequilíbrio do corpo. Uma dança, quase. Um solo nos limites das possibilidades de contrariar a gravidade, a apetência do cérebro pelo equilíbrio. Mas esvoaçar nos limites. Expandir os membros nesse limiar e compensar de imediato o centro de gravidade abalado. Um reajuste renovado em ciclos sem descanso. O que sinto. Por isso ter que parar, simbolicamente sentar-me. Reter esta entrada de sinais à porta. Por uma vez. As pessoas morrem e renascem. Partem para sempre e regressam do mesmo modo. Eu sou de uma enorme monotonia. Tenho uma órbita. As coisas é que giram nos seus eixos, apresentando as faces. Equidistante de mim e dos outros. E da qual caio, umas vezes para dentro e outras para fora. E depois volto. A um ponto qualquer que consiga tocar e me devolva à elipse confortável.
Eu acho muitas vezes que temos a alma moldada para encontrar umas coisas e não outras. Não sei se é bom ou mau. Picasso dizia: eu não procuro, acho. Mas é redutor.
Hoje fui ver o mar que vi tão pouco neste verão. O cair da noite no início do outono. The fall. Anyway. E aqueles vultos como fantasmas ali. A transmutar-se um em outro. Ela mais dramática. Ali está, a minha alma moldada para encontros entre mar e terra. Um no outro. Impressos na fronteira. Como pintura. Mas já feita. Só para encontrar. Ver, na matéria plástica e fluida da areia e na matéria mutante e líquida da água. Que ficaram lá. Sem ficar. Figuras. Eu vejo sempre figuras. Acompanham-me, talvez. E também ali, a harmonia e o segredo que equilibra, resume-se ao balanço certos entre brancos e negros. E as paletas de cinza, que encobrem discretamente as cores que lhe deram origem.
De repente pergunto-me o que me deu para estar aqui a falar do amor. Do amar, na realidade. É talvez porque o verão se foi. Como se abruptamente no dia marcado mas só por acaso é assim. Na verdade flui para longe. Lentamente. Visivelmente.
E é agora talvez, que chega o fim do verão. Ou ontem. Ou lá mais para o meio da tarde e da noite. No calendário já foi mas isso não importa. E, talvez porque, quando chega o fim do verão, é quando mais apetece falar do amor. O amor. Chegaria dizê-lo assim. Ou é talvez a vocação nostálgica entre tempos. Entrementes. Ou é talvez o amor que é da família fonética do calor. Ou. Acrescentar ardor e humor e odor. Feromonas distantes. Entre si. Amores efémeros de verão. Mas eu tenho aquela vocação para os amores mortais do acaso e do por engano. Ou mortíferos… Romeu e Julieta na era da tecnologia e de outros venenos, ter-se-iam encontrado e desencontrado de outras formas. Desencontrados no desespero do seu amor proscrito, distraídos por um post, uma mensagem curiosa, um “like” inesperado. Distraídos da vocação dramática do seu amor pelo qual valia a pena morrer, mas não era para ser. Foi simplesmente o erro. E dizer que valia a pena morrer, só depois e porque aconteceu. Hoje seria tudo mais divergente do momento. Do veneno. Do punhal. E teríamos ficado sem ele. Esse amor referencial.
Tudo se arredonda no bom tempo. Do verão. Essa ausência que se avizinha que se adivinha sem se querer como a noite dos sentidos. Hibernação. A norte do imaginário. O polo magnético que aponta para o verão seguinte. Ou o outro. Ou o outro. E apetecer fecharmo-nos numa biblioteca aquecida de memórias e livros mortos. Dizia Borges que a haver paraíso, seria esse no lugar onírico de uma. A demonstrar a incapacidade de tudo ver e viver. O transcendente ramificado em estantes temáticas, geográficas, ou em autorias incontáveis e inapropriáveis. Como o mundo. E dentro do mundo. Ou como um cérebro. Com todas as alturas inacessíveis e todas as escadas a poder subir. Mas esses lugares, tantos feitos maravilhosos de conteúdo e potencialidade. Tantos formulados numa estética luxuosa de acordo com o valor e uma época. Palácios arrumados e herméticos vistos de fora. Dos vidros das estantes. O saber fechado ali. Tanto saber e tanto mistério. Tantas coisas e não coisas. Tantas e tão maravilhosas de maravilhosamente mortas. Caladas. Em bibliotecas. Ou então sussurrantes de apelos e tentações. Lembro aquela, banal, de “As asas do desejo”, de W. Wenders. Repleta de murmúrios e da respiração secreta dos anjos. Mas eu não gostaria de ascender ao paraíso de uma. Viver. Cada vez me rodeio de menos livros. Mortos. Vou-os deixando por aí, porque muitos se calaram. Muitos nunca disseram. Mas os livros são um amor específico com todos. Não se pode obrigar. Acontece porque tem que acontecer. No dia certo.

7 Out 2016

E depois o céu abre-se e caem os anjos

[dropcap style=’circle’]S[/dropcap]ão fases. Como as da lua. Que fazer quando chega esta estação que nos deixa de algum modo indecisos entre o sentido de queda, decadência e melancolia e o de colheita, harvest, outro nome para o mesmo tempo, como uma síntese do labor subterrâneo à consciência atravessando meses suaves e deparando-se com o desafio.
Como, como conseguir manter a esperança do tempo que há-de voltar com os primeiros ventos suaves, prenúncio de mudança. Como, como conseguir esquecer o frio que falta atravessar e corrói a temperatura ainda quente de hoje. O que sobra de Verão todos os anos. Como, mas como resistir ao nocturno a instalar-se como um sem-fim de tempo morto. E pensar que tudo volta e há-de voltar sempre enquanto se fôr possibilidade de gente. Não é mau ser-se lunar. Dou comigo a apreciar madrugadas novas. De novo, só o apreciar. E novas são sempre. Não consigo desfitar por momentos o mistério maravilhoso de subsistir estação após estação numa que é fuga para a frente sempre à espera das melhores. Revirar a sensação pesada de não querer e lembrar que sempre volta a acontecer conseguir. E que os ritmos, como na música, alternam cheios e vazios, cheias e secas, frio e calor na pele. E que é bom. Mas gostava de ser sempre tempo bom. Mesmo eu. É pena. Sempre tempo bom de levar. E chegam estes dias e a queda. Das penas, dos cabelos das árvores. Também. E sabe-se o que vem por aí mas é tempo de colheitas. Não há que ser menor que o natural. Como a síntese do tempo bom no seu labor subterrâneo. E da terra. Também. Talvez a trégua nos sentidos a preparar o desafio. E vem. E vai. E volta o tempo bom. E pelo meio flores de inverno e árvores de folhagem perene. Deve fazer sentido.
Como os dias. A lembrar como comecei a gostar das madrugadas. Talvez amanhã. A limpa transparência de tudo, ainda como antes as noites alongadas, algo entre os dias. Sim, é isso o algo indizível entre dias, a suspender o tempo num remanso que se sabe finito mas é bom fingir não ser. Finito mas a parecer não. O ser. Limpo do sono bom ou mau. Atirado para o silêncio das cores ainda amodorradas em tons quase neutros. Tudo suave e antes de ser. Passada a impressão de já não ser. Nada sobra do dia que foi. Interrompido pelo esquecimento dos lençóis puxados com força sobre o rosto e o silêncio da noite, como o cair do pano. Sem palmas. Ruído já houve demais. A acelerar horas adentro. E numa pressa de acabar com o cansaço inadiável de um dia. Mesmo como os outros. Sinto-lhe o limite. Aprendi a dormir nele. E a levantar-me. Devagarinho. Para o dia em branco a alvorecer. Indefinido mas distinto de tudo antes, muito antes de tudo depois. Assim. Ainda. E é nesse ainda que me suspendo até um momento qualquer em que o dia se revelou, nítido como um animal a sair detrás de uma névoa. E não é possível ignorá-lo. Até à noite. Mas entretanto habita-se a forma da luz leve nas coisas como mais uma velatura sobre velatura sem massa e sem peso ainda. Sem urgência. Sem depois. Ainda. A cidade limpa, os olhos temporariamente tolhidos do sono, extraídos do esquecimento. Lentamente. Para um nada ainda possível. Antes que o verdadeiro colorido se instale numa paleta demasiado veemente.
E dizer verdadeiro é como dizer aparente, irreprimível ou desnecessário. Seria bom um pouco mais mas resta o contraste a apaziguar. Com um silêncio entre notas musicais. Tão necessário como essas ao acontecer. Que é não sair do mesmo círculo, sítio, digo. E contudo não nos encontrarmos nunca no mesmo ponto do universo. Nada, nunca, igual. Outra ilusão como a de só o corpo envelhecer. Mas as ideias também. Algumas morrem até, afundadas na memória. Outras como botões de flor que caiem antes de chegar a abrir. E algumas, escassos instantes após uma passagem rápida pelo fundo dos olhos. E já não estão, como talvez nunca mais tenham estado. Resta por momentos uma perplexidade ante a memória de uma forma imprecisa que se teceu e desfez. Uma reverberação que o é em si e já sem forma. E adiante mesmo essa se distende suavemente noutras percepções. Outras, ideias, são árvores de crescimento lento e imperceptível, de folha persistente ou caduca, mas que acompanham com o fôlego intemporal de viajantes de longo curso. Tanto de subterrâneo como de aéreo a adejar a favor das intempéries. Há de tudo na variedade incontável da natureza. E na sua verdade. Na sua persistência cíclica. Não lhe quero querer ficar atrás. Se não tiver que ser.
Mas entretanto o Outono. Esta realidade temporal de apagamento. Ou de colheita como síntese. Mas, the fall. Em inglês com um sentido ímpar. E o uso. Cair no amar, cair no sono. Cair imparável em espaços amplos e conceptuais. Sem coordenadas. A queda. E o sem fundo abaixo. E “fall down”. Para baixo. Afinal. De algures. Que não sendo tempo nem espaço foi ascensão possível. Ou como retorno de aventuras e dinâmicas psíquicas em que nos aventuramos por imperativos de transcendência. Cair na realidade, na terra a que se pertence. Também. O território do meio, onde pertencem as árvores. E a queda dos anjos. Silenciosos por aí, antes, mas a trovejar no inverno. Nos intervalos das nuvens. Caiem despedidos. A afastá-las do caminho, quase se lhes vê os fios. Ou serão cabos eléctricos. E depois as asas enlameadas. Ou o que resta. As omoplatas, nas costas lisas, para encostar o ouvido.
Cair no tempo zangado e invernoso. Zangado com o corpo. Um tempo que reclama e o zurze violentamente, cortante, uivante, de uma fúria em crescendo de irracionalidade. Como alguém a deixar-se levar por emoções. A carpir, a ondular com veemência uma dor de elementos em desarrumação. Às vezes, temo que o inverno nunca pare de crescer em fúria. Auto alimentada de si, como se pudesse não terminar. Mas de súbito, também nos invernos, depois de uma chuvada violenta e ventosa a perder o norte, tudo pára. E rompe o sol. Assim. Também somos assim. Feitos de desassossegos e reacções físicas, descargas eléctricas que trovejam no silêncio da mente. Mas vertem. Por vezes. No descompasso da respiração das batidas cardíacas e do disparar da voz. Ondas. Elementos em fúria. Palavras. Mas ao contrário destes, que nunca se cansam e somente se reservam para outro crescendo e outra estação, em nós sobra, no esvair do desassossego, um outro. Um cansaço. Do difícil desalojar a alma das correntes do costume. A civilidade e a ética os sentimentos as contradições. Elementos em fúria, repito. Em choque. Mas há uma intensidade que nada deve ao silêncio do verão. O gotejar na folhagem quando serena a chuva. As cores reavivadas e como se a vencer a dificuldade da luz. A turbulência do mar e das marés. Os fios de água a abrir regos na terra, as nuvens bíblicas. Mesmo o assobiar do vento. Mesmo as chuvas a escorrer nos vidros. Aquelas que parecem tender a apagar a realidade da casa se persistirem. E tudo, de caminho. E o cinzento suave e suado de uma ténue tristeza de tudo, em que descansamos.
Mas algo se preparou lentamente como as despensas dos pequenos bichos da terra. Para a travessia. Talvez para o contraste que impede a habituação. A indiferença. E tudo se renova numa generalidade sempre idêntica. Nunca igual. Excepto naquele momento de equilíbrio entre dias e noites que breve se desfaz. E sobrevém a face escura do ano. Na expectativa de uma outra estação que estará sempre num ponto qualquer do percurso dos anos. Como dos dias. E voltamos. Mais fortes ou mais frágeis. Muitas vezes renovados. Nunca mais jovens. Isso não. Mas há ainda o que nos distingue do natural. Poder acontecer tudo sem ordem nem ritmo regular. Fora de tempo e em qualquer momento. Ao contrário dos elementos. Uma chuva a cair para cima. Sem lógica nem predestinação. É bom, o humano. Não há nada de mal em ser lunar e entristecer ainda assim quando chega o Outono. Porque haveria…Como flores que fecham ao entardecer como podem. No seu sono de flores simples guiadas pela luz. Ser lunar na melancolia e solar à luz do dia. Por exemplo. Ou o contrário, porque de humanos, nos queixamos ser.

30 Set 2016

Grande muralha, pequeno papel

[dropcap style≠’circle’]N[/dropcap]os confins do meio. Este meu costume de revirar as pequenas coisas que me ficaram impressas a bold na memória. Sempre à procura da razão de ser assim. Mas sei. Mesmo quando não o sei, que fazem sentido. E que ficam porque cimentam. E como as fibras da memória, umas revivem ciclicamente, umas crescem, outras secam, pulverizam-se ou voam inteiras. Ou sintetizam-se, resumem-se, decrescem em complexidade de detalhes, simplificam-se a um ponto de minimalismo em que ficam para sempre.
Um dia vi-me em Pequim. Sozinha numa aventura como outras de desafio dos limites, como de outras vezes. Aos vinte e poucos. Cumpridora como era em muitas coisas, precisava de equilibrar com intervalos possíveis de liberdade. Sobretudo aquela que se vê de dentro. Quando pode ser a única possível e total. Viajar sempre me foi penoso se não imbuindo o ir, de contornos absolutamente vagos, indefinidos e fora de todos os planos, horários e mapas. Planear, decidir. Diariamente. A pressão de tornar uma viajem, um tempo de eficácia. A produtividade, a ocupação minuciosa do tempo delimitado e finito a absorver o máximo de uma terra estranha. O crime de não chegar a ver um ícone fundamental. De perder tempo com coisas pequenas. De não ter ido. De não ter estado. De não ter visto. O que queria de uma viajem era muito outra coisa que me fazia sentir culpada de tão pouco que era. Lembro-me bem. Ainda sou assim. A história fica para depois, em casa. Uma outra viagem. Ali, só quero ir. E estar. E ir indo. E percorrer espaços que às vezes nem identifico. Perder-me. Não saber necessariamente onde estive. Parar ou não ao sabor de impressões mais veementes. E que ficam. E que chegam. Flanar. E ir por ali sem medir tempo e obrigações. Muitas vezes sem um rumo preciso. Só o do olhar. Ver. Ser atraída pelo desconhecido do ver. Só isso me parece diferente, livremente diferente de tudo o resto. A que me obrigo. Todos os dias. Menos esses.
Aquela minha eterna condição de não querer acordar, de falhar muitas vezes os horários de tudo, de um nascer do sol maravilhoso nas montanhas de Taiwan, a um encontro em Nova Iorque, uma reunião na escola ou um avião. Quando eu viajava. Perdi coisas por atraso, de tanto nervosismo na impaciência da espera. Ou recusa de acordar. Já não sou assim. O desinteresse em acordar parece ter enraizado mesmo dentro do próprio sono, fazendo indiferente a mudança de um estado a outro. Hoje é mais o frio. O do inverno, também. Que me faz encolher no conforto uterino da cama veementemente avessa a deixá-lo. Por isso, quando viajava só, tudo me era permitido sem remorso. Estar em Pequim, por poucos dias que fossem era em si a minha viagem. Estar, era o modelo perfeito. E percorrer a cidade naqueles autocarros a ranger de lataria, pejados de gente que parecia vinda de aldeias remotas ou das estepes frias e secas como a cidade, caras morenas e largas, de sorrisos imensos pejados de dentes metálicos a reluzir no colorido de tudo, e malares proeminentes, roupas de outros tempos e que pareciam de uma vida inteira, e eu ali com aqueles molhinhos de notas do mercado negro, pequeninas e muitas, adquiridas sei lá eu hoje como, que me diziam como usar a rir largamente do meu espanto, autocarros de que saía algures para ver uma coisa qualquer que no momento me prendia, sem saber muito bem onde estava, sem querer preocupar-me em saber.
Um dia lá tentei madrugar. E mesmo assim a fazer-me atrasada numa manhã, sem querer, para vir dos confins do noroeste da cidade, para os confins do meio, a tempo de uma pequena viagem matinal à Grande Muralha. Isso desejava imenso. Atraso irremediável. Calcorreei a homérica avenida transversal à cidade. Uma parte, claro. Quarenta quilómetros de extensão, e muito espaço a distanciar cada hotel e as suas carrinhas de tour de cada outro hotel e as suas carrinhas de tour. E cada um a que chegava já dando por partida e perdida a carrinha. E isso, eu queria muito. Ir. Por fim Tiananmen, alguém explicou. Antes de Tiananmen. Meses. Quando para mim era ainda só a grande praça e não acontecimento. Por ali. É longe, pergunto e um encolher de ombros a pensar na escala da cidade acompanhou um hesitar nos talvez dez quilómetros. Não sei já se dez quilómetros à frente. Se não foram, pareceram. Quilómetros corridos a pé, e, no último minuto uma carrinha com meia dúzia, nem tanto, de turistas de outra China daquela imensa, e eu. Um par de rapazes de confins de outro interior daquela terra vasta, ou de uma outra China do norte e com a mesma curiosidade que eu. Um, calado e ausente. O outro, numa discreta e só depois entendida ânsia de comunicar. Espaçada, tanto, que só muito depois se constituiu em ritmo e padrão. Horas depois.
A solidão espacial imensa das montanhas naquele ponto da grande muralha. Um frio negativo. Uma foto, a única, tirada pelo rapaz chinês alto. Eu ali. Nunca lá voltarei talvez, e a emoção sobra até hoje. Um posto qualquer de apoio a turistas, recordações poucas e de que não precisava, e aqueles chapéus de pele, aquele vocabulário das montanhas, das estepes e do frio. Pele de coelho, talvez, e o muito frio. Pus e voltei a pôr. Não sei a dúvida que foi. E abalámos. Um bilhetinho, laboriosamente escrito ao longo de longos momentos e quilómetros. “Do you whant to buy that hat?”. Assim. Já tentara falar com ele, prestável e atento. Curioso e sóbrio. Mas não falava. Percebi antes que sabia, mas só muito depois, que ele só sabia inglês escrito. Tudo levava horas e a entender também isso. Não sei o que lhe respondi. Aí, já por escrito. Talvez que não tinha dinheiro. Talvez que voltava para um lugar de menos frio. Talvez que não queria nunca viver num sítio de tanto frio. Ou que não era importante. Ou então: como… já que havíamos partido do lugar. Talvez quisesse dizer-lhe simplesmente e para simplificar: Não, obrigada. Ou, de tão grata e surpreendida pelo empenho alongado no tempo por tão pouca coisa, não, obrigada, mesmo. E deixar para sempre a clarificação naquele acrescento, de como me senti desvanecida e grata, pelo seu enorme esforço em mobilizar aquelas poucas palavras mágicas, sinónimo de vontade de ajudar, de vontade de comunicar, de vontade de fazer o seu melhor, mesmo tendo passado o momento. Até hoje. Tão forte como a emoção do lugar em que estive, este pequeno detalhe. Que me vem sempre à memória com aquela fotografia. E um dia escrevi, no espanto da pequenez disto. De voltar a casa com tão poucas memórias. Tão pequenas. Tão grandes. A cidade enorme. O lago gelado. As montanhas. A Grande muralha. O pequeno papel.
A pensar que, onde havia um verbo no presente, talvez um erro tivesse substituído o passado. O tempo passado. Do verbo certo. Talvez. Certo porque o tempo havia passado. O sentido, no momento inverosímil era no fundo indiferente. Se tivesse respondido sim talvez ele soubesse um outro local ou exprimisse a pena de um pequeno desígnio frustrado, o meu. Palavras difíceis. Sofridas mas esmeradas. Pequeninas. Poucas. Demais. Porque sobram até hoje. Desnecessárias, e assim mais valiosas. Por o serem. E o chapéu, esquecido na cor, para sempre aquele chapéu. Como se ainda lá estivesse. Como mágico. Aquele.

23 Set 2016

Caverna de Kafka. Castelo de Platão

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]á sempre aquela vista do castelo. De baixo para cima. O meu olhar esperançoso de que desta vez seja por uns tempos e que depois tudo. O tudo de sempre. Volte ao normal, por uns tempos, o normal de sempre. Avanço na direcção da porta. Do castelo. A porta ali ao lado, o castelo em frente, em cima.
Ai, ai ai, ai ai. Rola despedida curva abaixo. O castelo pelas costas. Casario acima. O calor a insuportar. A bandeira pendente.
Ai. Responde a caverna ao vento. Cidade acima, bandeira a adejar. Adejou e parou. Ai. Com um guincho de travões.
Take I – Travo a cadeira de rodas com um joelho e um canto da barriga, só um canto, para poder agarrar-lhe, para além da cadeira, os cotovelos. Inclinar-me para ela. Erguê-la. A cadeira escorada contra o carro de ladeira acima. Ou abaixo para ser optimista, ou, já não sei. Os cotovelos e deslindar-lhe os pés dos apoios para os pés. Que se levantam mas caem. Não encontro o travão da cadeira. Se calhar já não tem. Há um momento crucial em que, para dar o impulso de a entornar, quase assim, coitadinha da minha paciente sempre e sempre paciente em tudo isto, para o banco dianteiro do carro, me distraio do canto da barriga, do joelho na cadeira, e avanço o outro joelho em que quase sentada, há-de deslizar um pouco abruptamente para o banco. Enquanto a cadeira se solta e desenfreada descreve um curva vertiginosa em rota de colisão com a ambulância que avança entretanto numa correria desatada e uivante. Ao lado uns metros entre mim e o castelo, o segurança e um paramédico conversam da vida encostados a uma outra ambulância em repouso. Olham eles. Olho eu. Olho estarrecida, muda e estática a curva da cadeira. A ambulância que corre. A minha paciente que pesa e quase cai. A cadeira, que no seu desvario curvo, vence as leis normais da gravidade e sobe desvairada numa rota já escondida do olhar por detrás do carro. Os cotovelos da minha paciente, paciente, e o joelho a amparar-lhe as pernas vagas. Aterra no assento meio de lado. A ambulância pára mais à frente. A cadeira louca também. O segurança e o paramédico olham, eu olho. E disparato um pouco, alivio os fígados: pediu ajuda? Não, não pedi…
Sento-me no carro, aperto-lhe o cinto e digo-lhe qualquer coisa carinhosa. Respiro fundo, furiosamente. Eu respiro sempre fundo quando há tempo. Olho-a no seu alheamento paciente com desvelo. Porque é para além de tudo o mais. Mas um outro lado de mim, tem uma enorme vontade de rir com todo aquele potencial fílmico. A cadeira desvairada e a ambulância, em rota de colisão como nos desenhos animados. Mas o riso, fica um pouco lá atrás da melancolia de tudo.
Take II – Mais tarde na semana, o carro de ladeira acima, ou abaixo consoante a perspectiva. Os cotovelos, um joelho discreto a amparar a paciente, paciente, e outro a cadeira destravada, devia ter um travão mas se calhar já não tem, e o canto da barriga a ajudar. A paciente entornada com a delicadeza possível no banco dianteiro do carro. O joelho a prender a cadeira que gira um pouco sobre si própria, teimosa e impaciente, a querer libertar-se. Fechar a porta. Suspirar fundo e olhar em volta a querer exibir um ar triunfante. Talvez mesmo um sorriso. Ninguém. A observar, a ajudar. Isto correu bem. Devolver a cadeira.
Take III – A mesma cena, só que sem paramédicos, ambulância, segurança, cadeira de rodas, paciente. Na verdade a única coisa em comum é o carro de ladeira acima, com a patinha quase a descambar na valeta com sarjeta abismal, porque o segurança diz sempre encoste o mais à esquerda possível, e o nariz bem encostado ao sinal de sentido proibido, porque o segurança diz sempre encoste o mais possível ao sinal. Fecho a porta do carro de ladeira acima e de monco caído. Eu. O carro também por empatia. Não há cadeira tonta, não há paciente, paciente. Nada. Ficou lá. Para ir logo se vê para onde. De resto só aquela figura que diz, monstruosa, o preto, o macaco que está ali, o segurança. Um outro, neste caso. Mais nada. Devia disparatar de dentro para fora, mas estarreci e engoli em seco, como antes, a olhar para a cadeira, e um pouco reduzida a metade de mim, no dia longo. Desculpem-me todos os que leram aquela frase. Sim, não é que me choque mais a cru, é que me sinto morrer mais um pouco. Este humano demasiado humano. O excesso de realidade nos momentos limite. Hospitais devolvem qualquer um ao seu interior nem sempre belo. Mas há momentos feios de morrer. Lá fui de monco caído, como disse. No sentido contrário ao do castelo. Aliviada. Descansada. Ou não. Quase a antever a saga do cobertor azul. O pico anedótico dos episódios seguintes.
Grande plano final – E depois, aquela arrumação provisória de um trecho de vida a recobrir de qualquer outra coisa que distraia, que faça esquecer até amanhã. Fechar uma gaveta e abrir uma outra de onde se evole uma possibilidade de conforto. Voltar a casa. De caminho uma passagem rápida no supermercado. Uma daquelas latas do costume porque tenho a impressão de que ontem ainda não jantei. E num gesto compulsivo agarro com o mesmo desespero que a uma boia de salvação, um pé de orquídea. Minto, dois, na realidade três, pés de orquídeas. Phalaenopsis floridas, delicadas naqueles tons de branco a esverdear e olhos amarelos. E uma, branca mesmo, de olhos purpura, e a imperfeição de um sinal da mesma cor numa única pétala de cada flor. Como um pequenino borrão de tinta. Um sinal curioso e assimétrico de imperfeição. Como aquele sinal do meu pai. Negro e saliente sobre o canto do lábio superior. Não me lembro de que lado. E que os fotógrafos retocavam sempre, a fazê-lo desaparecer como marca de imperfeição. Havia um único retrato dele em que isso não aconteceu. Não lembro qual. Por aí no baú, tenho que o encontrar, mas não agora. E ela rebelava-se tanto. Gostava daquele sinal. Adorava vê-lo inteiro em cada retrato.
Flashback – Durante mais de dez anos nunca lhe falhámos um domingo. A meio da tarde, fizesse o tempo que fizesse. Até quando a ela já lhe custava muito percorrer aqueles passos. Limpar o mármore. Arranjar as flores frescas na jarra. Conversar sucintamente sobre a composição do ramo. Retirar um pé aqui e pôr ali. Ramos de folhagem recém colhida. Sempre variadas e naquela mistura aleatória de que ele gostava. E da quinta, para lhe serem mais próximas. Algumas plantadas por ele. Ainda. Depois ficávamos um pouco em silêncio. Cada uma no seu. Ou a falar com ele, talvez. E íamos. Mais adiante virávamo-nos sempre, mas sempre, para trás a ver como estava. A jarra. Só dizíamos coisas como hoje ficaram bonitas. Estão bem presas, não vão voar com o vento. Está bem. Hoje ficou bem. Quando deixei de poder ir com ela, deixei de ir. É uma dupla mágoa. Ela a limpar com o lencinho o rosto de esmalte da fotografia. Naquele gesto eterno das viúvas. A minha avó fazia o mesmo. Eterna saudade. Escrevemos-lhe. Sim.
E eu levo-as para casa, as orquídeas. Que mesmo em sombras delicadas na parede, me confortam. Junto-as num único vaso branco, na necessidade urgente de afogar os olhos nelas. O desvio. E deixá-las inundar-me com o animismo daqueles olhares benévolos. Encontrar a doçura possível do dia. Como elas, as flores, com uma marca de imperfeição. Mas é assim a vida. Zoom out.
E, pensando em filmes, só me lembro da cena final de “E tudo o vento levou”, com Scarlett O’Hara, personagem talvez por vezes um pouco tonta, mas corajosa, a dizer esse monumental estereotipo: “amanhã é outro dia…” E é… Acordar. Zoom in sobre um copo bonito de sumo de laranja e começar o dia com uma cor veemente…escrever cartas de amor, talvez, sei lá…e o que fôr. E depois.

9 Set 2016

Do real absoluto. Do absoluto ideal

[dropcap style≠’circle’]E[/dropcap]stas coisas dizem-se depois, se houver. A realidade daquela escarpa abissal à beira da cama. À beira do rio de mansidão à beira do travão do carro. Não se dizem. Mas é indiferente ao remorso.
Hoje, no supermercado, comprei uvas com sulfitos. Não sei o que é mas deve ser uma coisa boa. Dizia ali. Provei-as mesmo sem lavar. Eu provo sempre a fruta no supermercado. Enfim, a de menor calibre. Lembro-me sempre de que ela, que aqui dorme ao meu lado no carro, dizia dantes que nos mercados de Tomar, de Tomar dantes, se dava sempre a fruta a provar. A fruta de antigamente. De tamanho variável e sem a alcunha pobre do calibre. De rugosidade variável e de brilho variável. De assimetrias a tornar cada peça uma coisa única da criação. Ela está aqui. Está e não está. Cada vez mais lhe vejo só o prateado do cabelo e menos o rosto. À medida que se vai curvando sobre si própria. Numa curva para dentro de um nada que começou há muito a invadir-lhe o interior. E à mesa, na minha frente, ainda. A minha recusa de a ver doente. Empurra a comida para o garfo com um dedinho infantil, inábil e um pouco trémulo, indeciso do efeito e da intenção. Começámos a comer muito lá atrás. Eu que como devagar, já fumo um cigarro na sua frente e observo-a dando-lhe espaço para alternar os seus estados de consciência. Dando-lhe todo o tempo. Parece uma criança. Cada vez mais. Cada vez mais pequena e próxima do prato por vezes irreconhecível. Às vezes só uma criança muito pequena. Outras vezes, como se com uma síndrome. E criança. De olhos toldados de incompreensão. Ponho-lhe uma taça na frente com um cachinho de uvas que ela adorava. Adorava, quando sabia que adorava. Lavadas agora e frescas. Pega nele, sabe-se lá se com a vaga memória de gostar, e pergunta se pode comer. Sempre. Pergunta sempre, agora. Quando se lembra do que se trata ali. E eu na frente já fumei dois cigarros e agora escrevo. A dar-lhe todo o tempo. A observar e a absorver o que ainda há. A tentar entender. Não há tempo. O tempo do relógio não existe. Nada disto me é estranho porque ela não é uma estranha. É ela. Não sei onde, talvez no corpo, ou em mim. Ainda. É real?
E o gato, há um gato de uma vizinhança de daqui a dois prédios, e que afinal é uma gata, e que passa como se fosse um spot rápido na televisão. Na minha janela. Uma janela no terceiro andar. Ou quinto. Como no outro sítio, o meu vizinho chinês, jovem de idade indefinida, passava de varanda para varanda quando me esquecia da chave dentro de casa. E esquecia tantas vezes. E ele sem vertigens. A passar de varanda para varanda. Como o gato. Que afinal é uma gata. Como eu num outro terceiro andar, miúda. Sem a noção de preço e de morte. A passar de varanda para varanda. Quando me esquecia da chave dentro de casa. E esquecia tantas vezes. É isso. Fragmentos abruptos e efémeros de irrealidade.
Todo aquele céu, todo aquele rio, todo aquele silêncio parado. E nada. Falsamente nada. Porque as águas não param de correr, mansas, inexoráveis a querer dizer. Nada. Mais do que nós ali. Eu, a minha enorme indiferença, ela, a sua enorme anulação. E minha, nela, em mim, sem mim. Passamos no corredor. Ontem. Ao lado do móvel onde estão todas aquelas fotografias já quase impertinentes. Em que não reparo, no temor de cair por ali adentro. Ou ela. Naquela espécie de passo de dança indecisa, esquecida, lenta em que a ajudo. Diz as minhas filhas estão todas ali. Um acesso inusitado e estranho de uma lucidez rara, confusa e quase assustadora. De palavras. De profundidade. Do rio. Todas as idades delas, minhas, dela. Há muito tempo que não lhes vê diferença. De pessoa ou de tempo.
E ela abandonada. Ali abandonada de todas nós, no banco dianteiro do carro, na cadeira, na cama. Abandono-a à única indiferença possível à sua desaparição imparável, por detrás do corpo sólido. Também a diminuir. Abandono-a comigo. Nela. E procuro na imensidão do espaço, a indiferença à indiferença. Na diluição, no espaço, na dor. No vocabulário dentro. Do qual, tudo é possível. Começar, imaginar, cometer. De dentro para fora. Da desconstrução.
Deve haver outra maneira de não olhar para a frente para todos os significados possíveis e aquela sensação delimitada. Do pé.
Como uma louca a andar e janela em janela. Às vezes. Outras vezes. Na casa. A tentar sentir. O sabor do rio e ele ali. Pequenino, seguro, longínquo na janela pequenina. O rio. O mesmo de antes. Que estava ali à beira do carro. Na frente do carro. Não há silêncio maior do que o silêncio denso e insólito do verão. Do rio à beira do que quer que seja, no verão. Naquele local de silêncio que escolho longe de tudo. Menos de algumas pessoas que fazem coisas de tempo e de silêncio. Como pescar. Às vezes à noite. Famílias ou algo no género. Vizinhos, talvez. Várias idades, sem smartphone, vozes esparsas, ali, à beira rio. À pesca. Como noites de há muito, antes da televisão e de tudo. Não há silêncio maior do que o do calor do Verão, mais evocativo da planície se esquecer as cigarras. Mas é o tecido da planície. Do ar. Há um vazio especial no ar parado, na temperatura do calor tórrido, do ar. Na temperatura entorpecente do corpo à beira do abismo do rio como do carro à beira do rio sem barreiras, do carro para o rio, para mim. Onde quer que esteja naquele preciso momento. E a questão é sempre a do lugar. Estar ali, mais longe do que em qualquer país estrangeiro. Como um intervalo de sono.
Ela ali sentada sumida ao meu lado no banco dianteiro. Cada vez menor. Dormita e de repente palra um pouco. Como antes de aprender a falar. E peço-lhe que me deixe calada. Que se deixe calada de novo e dormitar. Que me deixe esquecida. Concentrada na indiferença. O que sobra da dor. Do amor, digo.
E ela passa-me na varanda todos os dias, para lá e depois para cá. Pára sempre e olha. Às vezes eu vejo. Já aconteceu estar dentro de casa e eu não reparar, não saber e ela vem dali. Mas muitas vezes eu vejo. Num repente em que desvio os olhos do que penso ou para o que penso. E vejo. E quando vejo, é porque passou. Ali. Na varanda. E se vejo, suponho que existe. Há outras provas determinantes de realidade. E quando vejo, e porque é mansa, e nunca deixa de me olhar naquele fragmento de tempo em que me passa na janela aberta, fico contente com a vida que me faz caminho. E este gato vizinho, é real. Como aquele momento. A concentrar-me na pressão potencial no pedal, possível, a não fazer. Ainda. O pedal do lado da foz. Uma pequena pressão, só, o travão desengatado, e uma pequena pressão como num gatilho para um tiro surdo. Rápido. Com todo o percurso de eternidade de querer e de não querer e não fazer sentido uma coisa ou a outra. E ser só um momento aleatório de possibilidades. E a diferença entre fazer e não fazer é tanta ou tão pouca como a realidade deste gato. Gata. Eu sei. Cinzenta. Tigrada. Gordinha.
Passou por ali um anjo. Dependendo do exacto momento, se determinável, se definido algures naquela paragem, de morte ou salvação. Mas não houve registo nítido desse fragmento na ordem das coisas. Não saber. Era preciso determinar com absoluto rigor. O imperceptível rumor. Que nem ouvi. E quando. Talvez uma ronda de rotina, afinal. Sem mais intencionalidade.
E não sei porquê. Porque voltei, voltámos. Talvez porque restam os anjos. E se restam os anjos, é com eles que eu posso ser feliz. Há maneiras mais pobres de morrer. Mas restam os anjos. E se restam os anjos eu posso ser feliz. À maneira deles. Se restam os anjos. E, quando abro a janela e olho, e ela passa, sei que ainda me parece um resquício surreal e insólito. Mas é tão real como qualquer outra coisa. E fico contente, não sei porquê. E ali na beira do rio, também não sei porquê. Talvez porque restam os anjos. E, se restam os anjos, é com eles que eu ainda posso ser feliz. Se restam os anjos, eu posso ser feliz. Se restam os anjos.

2 Set 2016

De Saturno a Marte

[dropcap style=’circle’]U[/dropcap]m instante-luz, ínfimo. O logo ali, na curva imensa do espaço. Do tempo até nós é a guerra. Todas as guerras em que o tempo é voragem e nós nele, consumidos. Interrogação de um diário. E ver. Onde e se ali aparece a ferida aberta. A entrada da desarrumação que tomou parte-lugar e não se decide a ficar nem partir. Um indício que remonte ao dantes e faça luz incidir no depois estranho destes dias. A luz medida. A palpar a escrita cuidadosa e cuidada em segredo. Como se não fosse. É assim a preocupação de um escrito, com a surpresa eventual, inoportuna, do olhar. Não é para haver, mas todo o cuidado e espuma perfumada como se fosse. Em vida. Ou depois. Onde vai o tempo. Na ordem certa das páginas e dos dias. Dos gestos e das palavras indeléveis. Fixadas pela matéria prosaica do papel e da tinta, dita permanente. Em caneta grossa e macia, de aparo. A revolver delicadamente ou penosamente os restos de memória nas palavras, e de limar todas as asperezas, irregularidades, imprecisões, ou acarinhar em movimentos redondos os pensamentos mais nítidos como um seixo rolado nas marés infindas dos confins do tempo. Como uma peça de Raku, onde se reúne a essência dos quatro elementos, terra, ar, fogo e água – como as palavras, como as palavras em bruto, a ecoar, a incendiar mais nas emoções e lavadas, depois, dos excessos – a rolar de uma ladeira, a arrefecer como lava, a ver se resiste e como, à abrasão suave da erva. E quebra ou resiste. Ou como uma escultura de H. Moore, que, dizia, devia resumir-se às formas redondas e suavemente niveladas, que resistiriam a todos os percalços da física, do mar, dos elementos todos. Rolar pensamentos até ao estado puro e então escrever. A caneta. Na ordem natural das folhas. Mas antes essa guerra surda e etérea fechada nos pensamentos antes da escrita visível. E depois o tempo a mudar.
E depois, deixa de haver o tempo, a ordem, o fio condutor de um percurso linear. Todas as emendas possíveis na folha digital, todas as emendas ao tempo. Tudo ramifica em árvore e planta labiríntica. Tenho esta obsessão da ordem, da cronologia da linha. Marcar o tempo, pontuar em nós nevrálgicos, as irregularidades. Datar. Entender a consequência e encadear. Como se fosse desenhável. O tempo. Ou a vida, uma sucessão líquida e fluida. Regular como um rio, da nascente à foz.
Precisei de tempo para ver crescer como fungos ou plantas parasitas, irreprimivelmente, a desordem dos papéis. E o tempo desenhou aí um padrão visível. Só o tempo. A decorrer. E um dia entendi a perversidade desses registos tirânicos em que se avolumava a impossibilidade. Eram para ser provisórios, a suportar a memória e nela. Mas ao longo de dias, sempre a desarrumar-se na orientação da folha, no intercalar de diferentes ideias ou simples palavras soltas nos espaços vazios. Quaisquer espaços mesmo entre frases. Como invasão de casa alheia. A misturar tempos, memórias de ideias a percorrer depois, a acusar o declínio do cuidado. Um copo que se entorna, uma queimadura, um rasgão impetuoso numa pressa, um número de telefone sem nome. E as folhas a sair da ordem provisória. E tudo o mais a ficar distante, confuso. Distinguir frases pelo tamanho da letra, nas suas pequenas variações de humor. Uma perturbação que se tornou ânsia de ordem permanente. Ordem naqueles pequenos e variáveis fragmentos de pensar fragmentado em partir de um certo momento passaram a ser múltiplos. Uns para uns humores e outros para outros amores. A dispersão e o abandono. Por anos. Fruto do tempo. Tudo me dispersa, saudosa do tempo em que tinha uma caixa de correio, um diário e um tempo de trás para a frente e daí para trás. Arrumado e penteado. Como a simplicidade dos sapatos. Um par velho e um par novo. Nos anos bons.
E um dia ofereceram-me estes grossos catálogos cartonados. De revestimentos. Também isso fez sentido. As capas e matérias de que se revestem os nossos eus. E deles fazer os meus livros. Destruindo e refazendo no suporte grosso e confortável daquelas capas e folhas de cartão. Fui andando com eles no pensamento e elaborando um caminho. E depois comecei. A destruir, primeiro. Comecei este diário.
Na realidade ando há muito a começá-lo de vários ângulos. A tentar resolvê-lo. Como se um diário não fosse simplesmente para começar num dia qualquer e ir por ali. Na ordem das páginas. Mas há muito, também que não consigo ter qualquer obediência à ordem, ao espaço, à forma à cronologia do tempo ou das folhas. Esta obsessão da cronologia, do encadeamento, da lógica da ordem e do sentido produzido pela ordem, pela análise da ordem. Digo de novo. Mas algo em mim se desarrumou e rebelou. Se fragmentou e desmultiplicou em suportes. Se abespinhou em desarrumar cada vez mais a desarrumação. E aí estou de novo a pegar numa folha de papel, só uma, digo, e depois arrumo, penso, por exemplo. Mas, rapidamente lhe vou acumulando desvios. E de novo escrevo de lado e nos intervalos de parágrafos e de pernas para o ar e rasgo bocadinhos para apontar um número. Mais um número que vou esquecer de quê. Todos os dias esta compulsão em desarrumar o que era à partida para ser registo precário, e me invade os olhos angustiados ao longo dos dias. E a crescer. Uma pilha imunda de palavras provisórias. E nunca mais deixam de ser e é o inferno em forma discurso. Papéis perversamente desiguais e confusos, como a criar voluntariamente dificuldades ao sentido. Que, desmultiplicado nas associações quase livres, cresce. E cresce em angústia o meu olhar ali para a direita. Sempre daquele lado. E limpo neles os pincéis e entorno coisas. E cresce a dificuldade em os olhar e tornar úteis e a impossibilidade de os deitar para um lixo onde já está cada palavra que não digo. Nem é que nada faça falta. É só uma curiosa disposição que se impôs. Como se tivesse deixado de ter ordem na cronologia das coisas e das frases. Ou como algo a querer dizer-me que tivesse deixado de lhe encontrar sentido. Continuando obcecada por ela. No entanto.
E quando entendi que a construção daqueles objectos, com as mãos e com as matérias e com o tempo, podia reproduzir essa desordem, absorvê-la sem critérios word e ilustrar essa aleatória incidência de fatos, pensamentos e questões, resolvi em parte uma ansiedade. E comecei. Com pedaços fragmentados de vida a cair sobre as folhas desdobráveis e tão labirínticas quanto podem ser as folhas em leque de um livro. A abrir em quatro sentidos. Como dias soltos e momentos perdidos da ordem, colados às páginas, em qualquer lugar da história do gesto de abrir. Vida solta. Pedaços torturados de dias, colados, recombinados, livres para outras leituras. Rasgados, fragmentados e sujos. Misturados. Perdidos. Da ordem. Se ela existiu. Mas existiu. E é intangível. E não unicamente a urgência de um pensamento mais rápido do que o momento da vida em que se rebelou e quis ser algo.
Livro, labirinto. Como labirínticos são outros percursos. E assim está bem. O livro. Como retrato sintético de uma fuga à cronologia. E em busca da cronologia perdida. Ou do tempo. Um outro tempo.

26 Ago 2016

Sonho com efeito

[dropcap style=’circle’]S[/dropcap]er criatura e não saber de quê de quem. De que sonho. De que modelo, de que criação, de que mito ou de que lenda. Como uma nostalgia de raízes na terra. No outro. Como o sonho de demiurgia fatal. E o medo, proporcional à grandiosidade do. Medo… Do inteligível ao mundo sensível. O medo. À imagem isso sim sabe-se. Que se é. À imagem de qualquer imagem interior, a qualquer entidade humana ou supra-humana. Ser criatura e não se saber criada. Contornar o mistério da criação divina. Ou será esse mistério, o da expectativa do amor. A eterna nostalgia do olhar. Criador. Modelador. Como uma síndroma de Galateia. O renovar desse olhar inicial que nos edifica enquanto criaturas e esculpe. Sede lugar de um olhar e sede fome de corresponder a um olhar. Descer ao território etéreo como esse e inerente ao humano. Sempre o mistério e misterioso imperfeito, como o é o tempo, com memória e sonho. E que sem tudo, seria eterno. E acabado perfeito.
A criatura e o criador. Ou, a criatura o criador. No diálogo. Ela em frente, a espera do fim. O fim da obra acabada. E todo o momento é aquele em que foge a criatura e duvida o criador. A dúvida é dele a fuga é da obra criada. Ramificada, camada sobre camada. Sobre camada e sobre camada e exponencial. Como ramos, o caminho. Bifurcado e não pensado, não sonhado. Mas é a natureza da obra e do humano. Amplo e humano. A criação é memória e a memória humanidade, olhar, experiência, tacto, vida e morte. Não há outro caminho na criação. Mas na criatura criada sim. Externa ao sonho de si, tornada visível, escapa-se ao primeiro olhar, ao primeiro gesto, e sem que a si se lhe possa atribuir nada. Culpa, decisão ou determinação. Nudez muda abandonada no cavalete do escultor. A partir daí, uma respiração, uma vibração no ar, perguntas, questões. E a criatura passa a espelho e o espelho a criatura no espelho do outro. É depois, a fantasia da obra. Ou antes. Escrita, lavrada, esculpida. Bordada a ponto. Rebelde. A tecer outros tecidos e bordados. Mesmo a pedra. Nem sempre de acordo com o escultor. Terá ele que o desculpar a si próprio. Ou a ela. É indiferente. Está ali com todas as imperfeições de um e de outro. Sente-se a obra frente ao criador. Senta-se, sentada de pedra, obra e em frente, pedra de alquimia, terra de cultivo. Senta-se. Fitando com olhos de amor. E espera o sopro vital. Fitam-se os olhos. Do desconfiar. Rebela-se a obra. Duvida o criador. Deixar à poesia a função de encantar. No seu falar só. Solitário. E formar a obra. Pedra de formas. Sente. O frio que espera. O sopro.
Criatura criada é um mundo. No universo da linguagem, nas suas camadas de sentido em aberto. Obra aberta. E mais o tempo. Senta-se a criatura criada em frente e senta-se o criador na frente e, no confronto, como estranhos. Afinal. Se um é o outro. Até ao toque final. Até ao sopro vital. E a criatura vai. Amante do criador e este, extasiado ou desiludido, ou estupefacto da criatura criada a partir de si. Por si para si no mundo fora de si e para o mundo além de si. A partir. Por outros sentidos. Sem sair do mesmo lugar. Ali. A obra espera serena e passiva a continuação do sonho. Julga. O criador, esse, desfaz-se em indecisão porque vê de fora a criatura criada, meio criada mas já definida, conflituosa. Como uma personalidade a desenvolver-se. E há que entender e comparar e testar o direito de a reconduzir ao sonho inicial de a cercar de uma ideia firme e embrionária. Porque ela foge e noutros sentidos e talvez seja de deixar fluir. No seu caminho livre, agora. Depois do gesto inicial. Deixando de pertencer, ganhando vida própria. Num limbo em que depende do criador para o sopro vital, o rito de passagem. De inacabado a acabado. Familiar ou estranho. Ao criador. E se às vezes houve a paixão pela ideia, outra é a paixão pela pedra esculpida. A estranheza do encantamento. E a obra está pronta e o criador nem sempre para a obra criada. Exterior, autónoma e estranha na sua identidade recente. Mas ela devolve em reflexo. Perfeito ou imperfeito de uma intenção inicial. Ao espelho.
Mas perfeito, é o paradigma do mito. No olhar de Pigmaleão, escultor da pedra à medida do sonho e do imaginado perfeito. Mas falta ao mito a fantasia do olhar sobre si. O olhar da criatura criada sobre o criador amante. O olhar que se fantasia refletido no olhar do outro. O olhar do outro que edifica monstros e anjos e por vezes o outro. Assim. Nunca do natural se pode imitar sem perda. Da natureza a arte deve assumir a competição. Imitar é ficar aquém, reformular é dar vida. Inventar a vida. O escultor, esculpe a figura à medida da sua utopia e a vê-a, como prémio, tornada viva e realidade. O poder da invenção na manifestação de realidade. O sonho a definir os troços do caminho. O de Pigmalião é um mito belo. Porque não se detém na fraqueza humana e no insucesso, mas no poder de uma expectativa positiva, no engendrar da vida. O efeito de Rosenthal. Quanto mais se edifica uma imagem mais ela se concretiza. Ou, noutros termos e noutros estudos, profecia auto-realizável.
E a consciência de si de cada um, já não obra criada, mas mesmo assim. Formulada no outro. Mesmo sem mais desígnio do que o do simples olhar. Espelho. Reflexão. Existência criada ou ignorada. Ou esquecida. Sim, o espelho como raízes estendidas de lado a lado do vidro, do estanho, da prata, da obsidiana negra que transtorna o olhar-raiz. Transtorna de lucidez ou transforma de embriaguez. E de novo, como o sopro vital.
Aqueles em que nos fantasiamos como eles a nós. Uma coincidência mágica de identidade suavemente conseguida reconhecida e grata. O espelho ideal para uns o que retoca e regenera, para outros o que vai às entranhas do eu e as devolve delicadamente. Iguais. Sim a magia dos espelhos como a da criação artística ou de paradigmas. Nelas rever a essência do que somos que não a sós. Essa, quase sempre uma outra imagem e solitária. Criar um olhar que vê ou criar um olhar que não vê nem se mostra no ver e ser visto. Que nem passa pelos olhos, talvez. Como Modigliani deixava os olhares vazios…vazios ou cheios de todas as possibilidades interiores a um olhar. Sem limite. Talvez deixando para mais tarde o desafio de os entender ou talvez deixando-os como abertura franca, um rasgo directo à alma expressa na intimidade dos corpos, essa que lhes transmitia uma entrega de nudez para além da pele. Tudo. Como representação. O sonho com efeito. Ou a arte pela vida.

19 Ago 2016

Curva perfeita

[dropcap style=’circle’]À[/dropcap]s vezes, desenhar uma curva perfeita. Desenhá-la no desafio de o fazer à mão livre. Começar pelo gesto natural. Aquele gesto espontâneo, livre e delimitado à partida, nas possibilidades que lhe são inerentes. O gesto aprende-se com o tempo. Claro. E por tentativa e erro. O olhar poderoso, que aprende com as imperfeições do erro. Mas que precisa, mesmo assim, de truques. Pequenos truques honestos. Desenhar uma curva perfeita é um teste ao olhar. Não se faz com a mão senão no mínimo inultrapassável. Começar pelo natural. E depois inverter e olhar. E depois girar noventa graus. E depois cento e oitenta e de novo noventa. E emendar. Ir emendando a imperfeição do olhar unilateral. De cada olhar. E às vezes o olhar precisa de dias até encontrar os limites da perfeição. Aparente. Às vezes anos. Até se tornar visível aquele detalhe ínfimo do erro. Outra coisa é o corpo. A qualidade específica de uma linha, uma curva um volume particular. Que, dependendo do olhar e de critérios, pode ser simplesmente o lugar perfeito da imperfeição. E dizer o contrário também. O lugar físico e extremo oposto à idealização dos gregos antigos. Ou uma curva do caminho. A que aparece no momento certo do mapa. A curva perfeita. Um exercício de perfeccionismo em que se afasta sempre a perfeição, do frio rigor. O frio cortante de um inverno rigoroso. Traçado a régua e esquadro. Cortado à lâmina. Antes a perfeição dependente de um olhar. Apurada no olhar. Descoberta progressivamente na específica, irremediável imperfeição do que é para ser assim. Apaziguada no olhar. Para dentro dos espaços cristalinos da retina, por detrás dos arcos a proteger o baú-tórax, ou bem entranhado nesse cofre, craniano e inviolável. O olhar da vida à temperatura do corpo.
Saio de casa e está um dia lindo. Quando é para sair de casa não basta nem sobra saber se está um dia lindo. É preciso sair para a vida. Como ela se apresente. E, outras vezes, está um dia lindo e nem assim saio de casa. E fico a regular as portadas em função da luz. Para que não queime as plantas. A regular a troca de aragens entre janelas opostas. A parar a meio do corredor, a sentir, a ver se refrescou um pouco. A lembrar o Alentejo e como também ali, nas tardes de canícula, e quanto mais forte a luz mais se baixavam as pálpebras, as persianas sobre o calor cortante e demolidor. Não há como o verão. Não há outra estação mais natural e próxima da essência do humano, da temperatura da pele. O anseio anual de uma liberdade que, se bem que condicional, é a carícia da pele e da alma que se quer atenta ao existir e não em fuga para a frente. Mas afinal saio e isso eram os dias antes. Hoje, uma espécie de cortina fina e amarelada, subtilmente a sujar o azul intenso do céu destes dias. A lembrar-me Marselha de há uns anos e também Atenas e as suas atmosferas de poluição a danificar a alma com uma qualidade doentia, incomportável aos pulmões em alguns dias. E aqui, não sei. Será dos fogos ou de uma outra conjuntura atmosférica que não adivinho. Ou de mim. Que afinal estava presa à casa nos dias lindos e deixei passar o azul do céu. E lembro-me de Atenas e sempre daquele amigo que conheci em viagem para lá, Angelous, curiosamente. De volta da recruta com o seu efebo clássico e mudo de timidez. Que nos levou a ambos para casa. E que como um anjo de facto, e surpreendido, e desencantado da sua cidade e do que nela se procurava de ideal, me guiou pelo pouco que naquela cidade feia ainda era bonito de ver. Uma cidade corroída pela poluição, enriquecida de história e destruída pela história havia muito. E faz sentido que este amarelado discreto do céu me lembre outros lugares porque hoje é o dia, sem o ser em absoluto, em que começo férias. Quase férias. Enfim, decidi. Lá mais para a tarde. E onde se ligam estas realidades ansiadas de partida, de memória, de liberdade. Essa liberdade que não se dá, não se confere mas simplesmente se deve reconhecer como direito intrínseco. Como o automatismo da respiração registado no cérebro para ir sendo. Ou das batidas cardíacas. E de tantas implicações e a ter que ser gerida por critérios. Éticos. Compromissos. E que parece ser estruturalmente parte e natureza dos seres em geral. Anseio. Expectativa. De perfeição e imperfeição. De ir e de não ir.
E depois volto. Naquela assumida e imperfeita decisão de instituir esse fim de tarde como o início de férias. O calor no limite do suportável. A luz. Entro numa porta a dar para uma frescura discreta e ampla, o lugar envolto na obscuridade interior natural e noto de novo, com uma ténue impressão de frescura ainda dentro dos limites do quente. Mas suave. Eu não gosto de ter frio no verão. Ali, um calor suave sem agressão. A vida à temperatura do corpo. Talvez. Um espaço de muitas mesas e lugares de sentar como possibilidade, desde o canto mais remoto, à imediação da porta. E todas vazias. E com um pequeno cinzeiro branco convidativo. E o som bom. Sentei-me a ouvir, a ausência de pessoas e música variada. Às vezes aquelas palavras de cortar os pulsos mas a embalar os ombros em ritmo ‘disco’. E reggae e um jazz ou outro pelo meio, e à segunda imperial estava a sentir-me capaz de dançar sobre a mesa. Só por me sentir bem, e em troca, aquele barman discreto que inventou generosamente um lugar todo para fumadores e, parecia, só para mim naquele momento, ter um pequeno episódio surreal para contar aos netos. De resto, se tivesse seguido as pedras da calçada até casa seria muito parecido. A obscuridade a cortar o sol ainda excessivo de fora, a frescura no copo. A música. Só que seria outra música, outra cadeira e outra luz. E só por isso valeu a pena a estação de paragem. Essa pequena diferença entre aquela cadeira e a outra, aquela penumbra e a outra. É que ali fora, o sol ainda quente a escorrer nas paredes já em sombra, podia ser na medina, no souk. Ou o lugar perfeito da imperfeição. De não ser, podendo.
E atrás do balcão, num recanto protegido com carinho, um aquário e duas pequenas tartarugas. Não sei se se pode dizer dos bichos – destes – terem uma forte impressão de infelicidade. De outros, sim. Mas só me lembrei de inúmeras outras iguais a esta a nadar na água fresca de um lago, de um jardim, de uma cidade. Tudo longe. E elas iguais. Mas pergunto se serão iguais na alegria com que esbracejam as pequenas patinhas nesta água delimitada por vidros nada amplos, expostas ao olhar ampliado como por uma lente. E não sei. E delas, se bem que de realidade tinham tanta como a medina, o sol e o deserto no fim da tarde, para além da porta, como de cerejas retiradas distraidamente de uma taça, vieram agarrados outros pensamentos. Como sempre gostei destes bichos e de um cágado enorme na sua lentidão e feiura quase ainda pré-histórica, no quintal de uma tia, com tanto chão para percorrer naquela sua mansidão quase intemporal e uma enorme hortência para fugir ao calor do Alentejo. Ou se esconder. E lendas. Mitos. A pensar no mito da tartaruga. Símbolo de lentidão mas também de silêncio. Várias versões como sempre nos mitos. Lenda de que caminhamos num mundo assente sobre a carapaça de uma tartaruga gigante e que é querida a muitas culturas. O mito da tartaruga, ou a condenação por castigo de uma lentidão que pode ser preguiça. A simbologia que a ela associa o silêncio. A ela e à casa carapaça sempre por perto. “Intrame maneo”. Permaneço dentro de mim mesma ou em silêncio o que é a mesma coisa. E que não há maneira de prolongar muito mais este momento e esta sensação. E que, como sempre de maneira imprevisível outra impressão vai voltar. E penso como consolidar este momento para além dele. E penso no paradoxo de Zenão, ilustrado pela corrida entre Aquiles e a tartaruga. E tento medir as possibilidades de eternizar este momento com base na possibilidade de o tempo ser constituído por um número infinito de partes. E de esta, de este momento, poder ser adiada para a metade da parte do próximo momento e depois para a metade da metade dele e abeirando-me sem sair do lugar desse abismo entre tempos, que é o avançar lento, cada vez mais lento e infinitesimal, encontrar aí a forma utópica de, no limite, permanecer nele. Indo, mas não saindo deste limiar. O limiar de outras sensações mais recorrentes.
E, fico a pensar numa forma de explicar ou fundamentar esta nítida e reconhecida redundante sensação de bem-estar. De estar bem apesar de todas as questões de sempre e de nenhuma nova se imiscuir nesta família de preocupações que me obscurecem. Tantas vezes. E de, como tantas outras, haver um momento em que tudo existe e mesmo assim é possível estar bem. E penso que está na hora de pagar, sair para a rua e voltar a casa. Para dentro. E o peso da carapaça como o peso da vida, dos ossos. Ou não. Ela não sente geralmente o peso do que faz parte dela.
Tenho tantas vezes a impressão de que chego muitas vezes tarde. À vida, talvez. Mas é maior o consolo de não ter alguns defeitos , que o desgosto de não ter algumas qualidades. E a pensar no paradoxo. E se se aplica. Se nele encontro a contradição desta conclusão demolidora. Porque onde Aquiles era o mais rápido, nunca alcançava no entanto o pequeno passo do animal, que na sua lentidão nunca estava no mesmo lugar próprio a ser alcançado. E a questão dos referenciais. E depois penso que é só um paradoxo com incoerências demonstradas em outros referenciais teóricos aos quais a consciência ontológica não alcança. A minha. E que, por outro ado, não havendo nunca no paradoxo o encontro, na fugacidade de um e outro, porque possuidores de referenciais diferentes, cada um à beira do seu abismo mental como mental é a figura do tempo, e pensando que eu sou a tartaruga e Aquiles a vida, sei que uma e a outra são reciprocamente o que num dado momento se afigurar como consciente. Que não há distância física entre as duas e sim e sempre no âmbito de coisa mental. E que não há corrida nem competição, nunca haverá uma meta para atingir ou uma corrida para ganhar porque o destino da vida é a anulação da própria vida em termos parciais, pontuais. Que é o que se é. Parte e ponto. De partida, com um avanço determinado em relação ao passado, ou de chegada a um ponto que é descontínuo no desconhecido. O momento de agora, à beira do qual todo o futuro se avizinha perto ou inatingível. Que importa? E que a única coisa que corre é um tempo, esse desmesurado desconhecido. Corre no caminho que é sempre escondido por uma curva. E tentar ver a curva perfeita.

12 Ago 2016

Talvez o tempo

[dropcap style=’circle’]C[/dropcap]omove-me de repente o olhar directo sobre as coisas de um passado remoto. Vindas dessa enorme e esquecida cadeia do tempo e pejadas de humanidade. Há dias um par de sapatos de mil anos. Romanos. Fechar os olhos, e abri-los sobre um vestígio concreto de uma vida. Um corpo. Um pé. E alguém. Como se fosse no momento exacto que passou, alguém trouxe no pé um sapato como de filigrana em couro. Como se fosse hoje ou ontem. Uma memória imaginada e pressentida ali na matéria de um artefacto sem idade estética mas com toda a idade da história. Talvez me comova sobretudo o perfume etéreo de humanidade que se agarra ao objecto do olhar, e se desprende como perfume ténue, se nos concentrarmos bem nessa viagem do tempo de ali até aqui. Talvez o que eu gosto é de sentir as pessoas e essa longa cadeia ininterrupta que vem de lá tão antes e que continua a perder de vista. Talvez o que eu goste mesmo é dessa ideia de pessoas. Ou desta terra planeta cheia de cicatrizes naturais, ou do tempo. Talvez o que eu goste mesmo seja do tempo, um cordão longo desfiado desde o sempre ao para sempre. Talvez o tempo. Esse tempo que me faz doer de tão rápido. De tão lento. Talvez mesmo o tempo. E ser parte. Parte e partícula ínfima dessa cadeia. Talvez o tempo, que existe ou não, dependendo de representações. Que lhe emprestem a qualidade concreta. A dimensão ou o sentido. De lá para cá. De cá para além. Disto.
E um dia destes veio viver comigo e está ali como um bicho pacato silencioso e idoso. Mas igual a sempre nos seus talvez cem anos. Bicho máquina, senhor de uma espécie de ronronar que nunca eleva o tom. Singer de nome e máquina de costura de profissão, com pés de tipo aranha, com os inconfundíveis alvéolos de ferro forjado que me lembram mais assas de insectos, o torço equino suavemente arqueado, ou uma espádua garbosamente curva, como a pedir a carícia do tempo recuperado, e com a nobreza da imortalidade com que ele lhe desenhou formas e funções incansáveis. Trouxe-a do abandono incontornável da casa onde ninguém vive. Já. E ali, encostada a uma outra parede ganhou uma outra idade mais leve ou desprendeu-se de novo do acumular de anos sem um olhar próximo, um óleo que afina e alivia os movimentos e o som. E como um bicho que fui encontrando nos últimos tempos escondido atrás da porta. Como se escondido mesmo e assustado. Ou triste e amesquinhado de uma poeira que o manietava e esquecia.
Retomou a cadeia afinal ininterrupta de um tempo que vem de tão longe como o homem que, apaixonado, a ofereceu a uma menina de dezassete anos, prenda de noivado. Já aí com história desconhecida atrás, a máquina. Conhecida a menina, chamada para sempre senhora por aquele amor. Dos dezassete, de um e de outro, e contido numa caixa de madeira feita para a costura, as linhas e as agulhas de uma vida a mudar aos poucos sobre carris, e dedicada, a lápis, no interior. Nome completo e amor. Foi para sempre. Dedicado em dedicatória e depois na vida. À minha avó. Por aquele avô de quem tanto gostei, de olhar verde, transparente. Sonhador e marinheiro. Vogando de além para aquém Tejo em fuga. Mas não dela. Só da interioridade daquela terra que o não preenchia. Mas foi com a bisavó que na realidade aprendi a cozer. A ver e assustada por ela em relação àquela agulha veloz nas costuras domésticas e perigosa como nos contos de fadas. Etelvina. Maria Antónia. Mariana. Os nomes inscritos na memória daquele pedal e sussurrados como uma carícia. Agora eu. A sentir que tenho que lhe encontrar mais caminho. Não por ela mas por este prazer com que a olho. E este sentir-me parte do tempo. Ou, às vezes, parte e tempo. Mas isso sou eu aqui, a pensar, e feliz como um passarinho a olhar para ela ali vinda de longe. Do meu longe e mais ainda. É bom. Mas sempre, como tudo, só esquecendo a parte final do percurso que a trouxe aqui. Só assim é bom. É. Há que esquecer disciplinadamente.
Eu gosto de coisas anacrónicas. E de coisas com idade. E que duram. E de coisas com marcas ou o perfume de vidas antes de agora. Muitas coisas com que vivo tiveram outras vidas antes e outras casas. Gosto dessa impressão do tempo nas coisas. Como gosto da pureza, perfeição e síntese, quase fria e desumana, do minimalismo. Próximo de uma filosofia Zen. Gosto de ambos os extremos. Como da pureza de um lençol antigo de linho branco, que não guarda mácula de antigos partos, vidas e mortes, amores, traições e desvarios. Que nunca perde a sua pureza quase virginal de lençol da primeira noite. Da vida. Gosto de coisas que fogem aos padrões ditados, de uma contemporaneidade fugidia.
Usar camisas de dormir com florinhas. Também. Uma coisa que ninguém sabe e não se diz. Mas não sendo para se dizer, não seria sequer preciso dizê-lo. Há coisas que se podem intuir quando se passa na rua. Disfarçadas de outras coisas que também são. Coisas que sintetizam memória, gosto e rebeldia face à tirania mutante do tempo. Da estética do tempo. Ou da máscara de um tempo que é sempre o mesmo. Vindo de sempre, mudando no que é de mudar e mantendo o que é bom de sempre. Porquê as roupagens, pergunto. Não sendo por razões práticas ou domésticas, porque não andar com vestidos do século dezoito num dia, dos loucos anos vinte no outro e 501 no outro…Porquê? Como se o tempo passado fosse de um outro tempo de que só algumas coisas são válidas. Uma obra de arte. Mas nem tudo o é. Atrocidades dos confins da história tão semelhantes a outras de hoje. Do inacreditável hoje que não apurou com o olhar sobre o passado. De um tempo que é hoje uma pérgula de resquícios de humanidade da mesma natureza de sempre. Com a mesma diversidade de sempre. Simplificar as roupas e sofisticar as armas. É isso. E por debaixo bem e mal de sempre e para sempre.
Voltando atrás, então, a uma pessoa que gosta de camisas de dormir às florinhas. Também. Ou com rendas. Bordados de outros tempos. A frescura das matérias naturais. O engomado do algodão grosso e que só deixa adivinhar o que ali vive. E, a partir desta linha em que o digo, juro e afirmo que todo e qualquer olhar que por ela passe, deveria duvidar. Porque é escrito e público. O que é secreto e privado. Ou não. É, somente escrito e assim deveria ser tomado. Como uma roupagem. Como uma realidade sincera, ou franca portada sobre um símbolo, uma metáfora a imagem trespassada de algo além. Ou um olhar lavado sobre essa pueril realidade. Assim é a escrita. Mas eu gosto de coisas intemporais e gosto do tempo das palavras que ficam. Sobretudo as que se dizem. Com um grande prazo de validade a tender para a utopia da eternidade. Gosto das palavras que atravessam o tempo apesar dos temporais. Que ficam impregnadas como fósseis nas rochas sedimentares, das que marcam como pegadas de um movimento que passou e das que como velhas árvores centenárias mesmo no decrescendo metabólico da idade, continuam a sua vida orgânica e temporal. Em pé. Que é como devem morrer as árvores. Às vezes sinto que há algo inamovível em mim. Como nas montanhas. De imutável estável e duradouro. Enquanto outros locais de mim se vergam como cálamos, quebram, fluem mutáveis e plásticos ao longo do deslumbramento dos dias, da adaptação ao desconhecido e inesperado, de síntese do vivido, de fastio do muito repetido. Mas há um lado de montanha. Não por grandeza. Nem imensurável. Não há montanhas inacessíveis à cartografia. Mas não mudam para agradar aos elementos. Antes se deixam desgastar por eles. Partes de uma cordilheira do tempo maior que tudo, mas por estabilidade no tempo. Estabilidade mutável, exposta à erosão, mas a outra velocidade.
Talvez o tempo. Que corre, pára, foge. Que quando pára, de imediato lhe sabemos decifrar as inevitabilidades e partidas e nessa intuição prévia nos perdemos do simples prazer dessa paragem. Talvez o tempo que se esvai entre os dedos mesmo no momento da carícia mais plena ou mais pungente. Tão fugidio como nosso. Nessa inerente qualidade a que nos acostumamos quando o conhecemos um dia. Para lá da infância que é um tempo sem saber o tempo. E, escrevia estas palavras e levantei-me de súbito impulso, a lembrar-me daquele insólito oráculo que é, em momentos estranhos, o Livro de Areia de Borges. Talvez pelo esvair entre os dedos do tempo, da areia e das páginas. E abrindo-o na intensidade de uma impressão indefinida deste tempo e deste momento e de urgência curiosa, fechando os olhos com força e agarrando o dividido em dois com a mesma força, apontei e era a página branca. Em branco, digo, porque azul, na realidade. Penso, o não tempo da infância, de que falava naquele minuto antes de pegar no livro. E no desapontamento de apenas parecer ilustrar um pensamento sabe-se lá sempre se pertinente, voltei o avesso da página naquele preciso ponto em que a pontinha da unha poisou com força. E li. Um poema. “Essas palavras eram um poema”, assim a frase inteira do acaso. Do avesso do acaso. Das costas lisonjeiras deste acaso ridículo. Lúdico. Ou a ser oráculo. A empatar tempo e sentimentos com uma carga maior de realidade. E penso que sim. Há uma poética no esquadrinhar honesto das emoções. Uma poética anestesiante e barbaramente narcísica – parece. Envolvente. Como um espelho de companhia. Mas entende-se-lhe a veracidade como se entende o uso de combinação. Coisas parecidas, de pouca visibilidade a olhar pouco miúdo. Mas que fazem uma diferença enorme no uso de um vestido. Sem fogo de artifício. Coisas de dentro. Roupa interior. E a roupa interior é sempre honesta. É o que é. Muitas vezes. Prefiro poesia com roupa interior ou a nudez descarada e iludida com que o rei que vai nú. Que se pressente ou não no discurso. Poético ou não. Não. Não tenho a pretensão da poética. Só da palavra. Aquela palavra. Que digo para durar. Ou então não dizer. De uma forma ou outra, talvez o tempo. Onde vive e dorme.

5 Ago 2016