Meios tempos. Meios-tons

Vermelho. Por alguma razão se lhe chama encarnado. Cor visceral. Turbulenta, apaixonada com violência bélica.
Falar um pouco do prazer. Do prazer daquilo a que chamaria o registo. Como de um sismógrafo, o das sensações. Do prazer da cor. Puras sensações de prazer ilusório. A percepção é pouco fútil. Por muito que se desenvolva a capacidade de concentração, é atraída pelo que é dinâmico. O movimento atrai mais do que o prazer que uma forma estática. O ruído impõe-se à apreciação subtil do silêncio. Pedra, tesoura, papel. A cor. A cor é pura sensação, não tem forma, não tem volume, não representa nada em si que não a si própria, mas ela ilude, também ela, a nossa percepção pulsando ou retraindo-se, parecendo expansiva ou reentrante. Faz-se maior ou menor, que o puramente determinável. A exaltação. O corrupio do sangue a acelerar. O prazer da cor, das cores puras, saturadas e vibrantes. Quando muitas, são demais. Anulam-se. Mas em certos dias, a minha alma pede que todas sejam diluídas no branco. Amortecidas e suavizadas.
Como as palavras. Escolher as palavras. Vasculhar no baú à procura daquelas…as palavras são tão importantes. No que dizem e no que não dizem. No que dizem sem dizer, e no que não dizem parecendo fazê-lo. No que dizem sem querer. Sem querer não dizer. Mas sobretudo no tom na cor, na qualidade do brilho. As pesadas e as leves. As que se enrolam na língua e tropeçam, e as que arrastam uma sensação tépida. Arredondadas, macias, aveludadas e suaves.

A premência da expressão, é um inferno cansativo. Sinal de falta de habilidade para o diálogo com a existência, de necessidade de tempo, de reflexão. Sinal de caos e desassossego interior aos olhos ao sorriso e às mãos, dia após dia, reprimidos. A pulsão da morte, o desespero de finitude, o isolamento inerente à entidade do ser em si, o excesso de sentir, o deslumbre do ver, o êxtase do admirar, a dor de ser ferido, a solidão do amor, dia após dia. Haverá por ventura ego ou nem sempre, como certeza de relevância, no amor à escrita, à arte. Simplesmente solidão. Veloz e inultrapassável. Essencial. Demencial. Sem alvo definido. Sem reparação. Sem remédio. Não há restauro possível ao facto de sermos sós, cada um em si. Nos seus mistérios. Nas suas preces e nas suas loucuras. É cansativo entrar e sair permanentemente de uma concha. E mesmo esta é, como um búzio, amplificadora de sons. Ensurdecedores por vezes, mas confusos. Mesmo os silêncios com uma dominante contínua de um timbre particular.
E depois o amor. Claro, o amor é um lugar de não solidão. O amor claro. O próprio privilégio de amar claramente alguém. Mesmo em segredo. Enche e acompanha a alma. A parte possível. Mesmo sem posse nem espera. Um paradigma. É eventualmente um sentir delicado como a luz da madrugada, com os seus altos e baixos sensitivos. Como uma luz de fim de tarde, momento de passagem e como tal angustiante, mas por um ínfimo intervalo de minutos serena e confortável. De uma beleza maior do que a da tórrida luz do meio-dia, impossível de olhar de frente. Que cega. Como a luz desse mesmo meio-dia, coada de uma folhagem leve, intermitências de calor e alívio, de brilho e cinza no intervalo. A combinação perfeita. Porque amarelo é a cor que as crianças usam para pintar o sol. Elas lá sabem. Que da luz branca, completa, do sol, composta de todas as outras, não poderia resultar o neutro do branco puro. Branca é a luz do sol na teoria da cor. Branco é a cor que não é. Como o negro. Amarelo é o aproximado colorir do sol. Pura emoção, a da luz. A cor que seria a mais bela se não amasse as outras duas também. A do sol, a da luz. Real ou não. Que vive no azul do céu mesmo quando cinzento. Tão distantes, tão distantes entre si também, mas são irremediavelmente parte da etérea construção do mundo. Do visível e do invisível.

E não há rigor possível na expressão. Com quanto mais perfecionismo o perseguir, mais se acentuam múltiplas as camadas de sentido. Não há rigor absoluto. Burilar uma frase até à exaustão e entender depois que pode ser lida de través. Como um sorriso de deslumbre pode ser confundido com troça, ironia, ou desdém, uma frase no plural pode ser lida como desabafo do próprio ou partilha de um crime de pensar ou sentir. De um crime ou de uma paixão. Se é que não podem ser uma mesma face de duas moedas. Depois há a qualidade, o som, o timbre, o colorido, com que se diz o que se diz. Querer encontrar, como uma tradução em tons aveludados e suaves, um tom particular para falar dessa imensa solidão que é ter a alma cheia de palavras, que nem sequer se quer proferir, senão a sós. Dizer de outra maneira e com outra cor. Queria aplainar cada fragmento de dizer até ao tom quente e dormente que entrasse como uma carícia na alma de quem lê para que lesse com amor. Se de amor se tratasse. Porque ler também deveria ser feito do mesmo ramo de cheiros, sabores e sentimentos com que se escreve. Senão para quê…uma e outra coisa. Quando o que se quer por vezes, é transmitir sem chegar a lado nenhum ou a ninguém. E tudo parecer contraditório, quando só o desconforto não o é. O desconforto de abrir a alma às palavras traiçoeiras. Ou, de outro modo, gostar de estender um tule de sensações, um perfume, um gesto, e ansiar que quem o colhe, sinta no rosto ao de leve uma onda cálida da ternura que só pode ser de uns, não de outros. Mas ninguém saber. E ser universal a possibilidade de amansar almas em turbulência de igual sinal. Que as há, e muitas. Mas somos tão selectivos que não é isso só e sempre o que queremos. Para cada um, uma camada diferente. Para musgo, tule e veludo, quanto da faca, a lâmina e o gume. Quanto de canela para o ácido do limão.

Como a delicadeza. Nem sequer é das palavras mais belas, melhor do que o adjectivo, sim. Mas por oposição à vocação vulcânica e viciante que é a torrente da expressão. Por vezes uma lava que incinera sem retorno. Compulsiva. A estilizada, calma, controlada e codificada arte da conversação ou do chá. Perdidas para sempre. Um refúgio intemporal das agruras intempestivas de ser rigoroso na expressão do sentir e sem medida, por vezes dizer o que não deveria caber nas margens de subjectividade do texto. Às vezes vasculhar penosamente esta língua à procura das palavras mais doces, mais perfumadas, mais macias ou embaladoras. E a luz não é macia senão ao entardecer. Ou à aurora. De resto é penetrante. Inquietante.
Delicadeza. O que é a delicadeza num território de inseguranças e de idiossincrasias. Um porto seguro para dois. Quaisquer dois. Um conjunto de indicações. De regras que suavizam o caminhar como sapatos de bom corte. A uns e a outros. Será o tempo? Será o vento que afasta de uma delicada expressão de existência mutuamente observada, para o não tempo de inúmeras questões a que dar tempo… O que é a delicadeza senão menorizar o não querer emoções que seriam demais. O que é a falta dela é mais fácil de dizer e mais conhecido. É só o desleixo existencial ou o ego numa espécie de terapia de choque. Só falta de jeito, só deixar cair como se nada fosse. Isto num mundo de demasiada comunicação. Demasiadas vozes, metade delas por motivos insólitos silenciadas sem resposta. Ignoradas. Sabe-se lá porquê. Somos assim cada vez mais. Por vezes sem querer. Por vezes sem termos de comunicação.

Por isso o território do excesso a querer derrama-se como uma higiene diária da alma.
Mas, sinto por vezes, uma enorme agonia de toda esta necessidade de expressão. Deste afogamento em pensamentos repetitivos, sempre em formas ligeiramente diferentes, insistentes, embaraçosos, impúdicos até. Que se sucedem em camadas de tonalidades que vão variando na definição dos mesmos padrões. Saltos no vazio sem rede. Escritos e pensamentos secretos de um enorme rigor momentâneo e que me aterrorizam mesmo no seu recato privado. E é então que tenho enormes reservas de silêncio exterior. Aparente, só. Solitário silêncio que não se redime das enormes quantidades de palavras que continuam a fluir por detrás dele. E a desarrumar-se sempre nos eternos papéis e pastas em word. A precisar de arrumação para sempre. E para sempre a precisar de arrumação, porque se desmultiplicam sem piedade. E no dia em que eu tiver tempo para todas essas palavras, talvez já não lhes entenda e sinta o tom. Por demais inúteis. Como tudo o que é demais. E em ciclos regulares aquela disposição a tender para a paragem, o abrandamento, o retomar tudo num tom mais suave, mais delicado. Surdos rumores a substituir avalanches emotivas. O prazer de nada ser preciso explicar, o culto do indolor. Da ordem. Do vazio. Da ordem do vazio. Do atenuar sentidos trágicos com uma camada leve de meios-tons. Tons degradados com o branco. Suavizados e quase indiferenciados. Calmos, apaziguados. Por oposição ao tumulto de demasiadas camadas de realidade, demasiadas vidas a viver todos os dias, demasiadas dependências da alma a visitar e a arejar, a necessitar de expressão. E o constatar que, na realidade nada de essencial se altera por magia da comunicação. Deste paradigma de clarificação da alma. Se esta é clara nada mais há a fazer do que viver. Por oposição a dizer. Talvez seja também isto que me situa em alguma da tristeza. A exaustão. O desalento de tudo parecer uma batalha sem quartel. A melancolia é um refúgio bom. No vermelho o fogo de uns dias, cinzas os outros.
Gosto das plantas lentas. Como a orquídea. Leva anos até sentir-se em casa. Custa anos a desenvolver-se. Morre muito devagar. As flores, quando começam a insinuar-se, são meses de crescimento lento. Um dia de súbito, abrem no seu esplendor inacreditável a partir de um pequeno botão. E ficam ali por largas semanas, inalteradas na cor na textura no porte. Belas, estruturadas e rigorosas como o são muitas flores. Mas mais lentas. Entes não significantes.

E o culto do chá. A estilização, o ritual, a delicadeza e o protocolo. Ou um outro culto, do estar, do permanecer do conversar fluido, sério. Do revelar. Do parar, do pensar como dizer. A arte do chá como a perdida arte da conversação. A codificação dos gestos ou a descodificação possível a partir do olhar, do medir, do interpretar escolas e mestres. Wenceslau de Moraes abordou pela tonalidade poética, a frescura lírica das coisas relacionadas com o chá no yo. Outras formas de tomar chá. Menos codificadas. À partida não codificadas. Menos significantes também. Mas esta, ainda por ora parece saída do tempo. Fora do tempo. Protegida em pavilhões edílicos, em recantos de jardim.

Gosto de pensar na cerimónia estilizada do chá. O rigor até hoje no Japão. Os princípios da harmonia (wa), do respeito (kei), da pureza (Sei), e da tranquilidade (Jyaku). Os quatro princípios que estruturam o ritual. O caminho do chá, como é designada a cerimónia, e dos vários nomes, aquele de que mais gosto, ou encontro para o chá, ou ainda, quando mais formal e longo o encontro, assuntos do chá. Dominados todos por uma enorme simplicidade, depuração e elegância de gestos. Medidos, aprendidos, perfeitos, apurados até ao limite. As formas mais sofisticadas do ritual podem durar quatro horas, e envolver muitos gestos, muitos utensílios, muitas regras. Como tudo o que é complexo susceptível do erro. Mesmo o chá, não pode dizer-se existencialmente de uma temperatura ideal. Idealizada. Na cerimónia do chá, no entanto, esse é um dos parâmetros codificados. Parte de um ideal a cumprir para regozijo de convivas perfeccionistas. Uma cerimónia em que se busca a harmonia e a serenidade. Gosto de pensar numa síntese das fórmulas básicas deste cerimonial. Na beleza construída para tal e que o enquadra. A natureza em redor, a construção de uma ordem que a envolve também. Uma ordem total. E formas simples. Cores claras. A pureza das taças. Ruídos calculados. Gestos. Fórmulas de delicadeza.

E face a este cenário de perfeição todo um outro quadro de emoções em permanente desajuste e reajuste, parece excessivo. E a violência crua da expressão. Como se fôssemos monstros que na intermitência dos dias levantam narinas fumegantes, fitam o olhar ígneo em redor, fincam garras num lado qualquer da vida e aí mesmo a incineram. E pensando bem, inútil. Ilusória sensação de comunicar e assim aproximar algo ou alguém a uma solidão indelével, pela magia da linguagem. Sem se saber de que serve ser-se transparente. Aparentemente mais reconhecível. Mais claro. E por vezes, sem se querer, o tal monstro terrível por ser enorme e enorme por ser terrível. E mais nada.

Mesmo aquém de um universo tão idealizado, a delicadeza é um conjunto de regras que atenua a dor. Que reserva e defende sem aproximação demasiada. Que não impõe. Que não oprime. Que no fundo deveria seguir os mesmos princípios definidos para o chá.
Mas gosto de pensar em rotinas ainda mais depuradas e idealizadas. Com mais silêncio e mais solidão. A harmonia da solidão e dos gestos simples longe do olhar.
Esta minha vida de partir todos os dias como um caixeiro-viajante com pedaços da vida na mala. Quando o que queria era estar aqui. Ficar por uns tempos num só lugar e numa só vida. Descer numa estação e ficar por uns tempos. E depois não ter nada para dizer. Como se fosse da inevitável imperfeição que se desenrolasse o discurso possível. O relato imparável. Tremendo engano. A solidão, aquela essencial, não passa de um comboio diário de que só nos apeamos pontualmente. Há uma reserva que todos os dias circula nele sem apelo. Talvez a mesma que faz extravasar emoções, incontidas tentativas de chegar a outros e de os trazer a nós. Excesso de vulnerabilidade, instabilidade, construção e destruição de modelos…Um colorido saturado, intenso e corrosivo. Ilusão de encontro. Cumes e baixios a percorrer alternadamente. Uma viagem imparável. Parar.

Planear voltar a um lugar. O mesmo. A única diferença o tempo. Agora. E a quantidade de tempo. Temer que a meio algo se esvazie. Para além de uma mala cheia de vida para arrumar e cadernos a repensar. O mesmo lugar, o mesmo hotel a mesma varanda. E tempo. E ausência, e fim, e silêncio. Mas só uma paragem, um intervalo, aquele entretanto, entre dois tempos.
Chegada a Saigão. O cansaço, a humidade, o sono subliminar e frustrado de muitas horas. O suor, o peso das malas. O choque do ar em fogo nos pulmões. A expectativa do reencontro com a saudade da viagem e de Saigão. Tudo envolvido numa toada de desconforto máximo. Por agora. O olhar fixo num ponto e num momento. Aquele preciso quarto de hotel. Aquele rigoroso momento depois de tudo entretanto, e do banho de todas as sensações dominantes por agora. E do banho que as lava e leva para o fundo do esquecimento. O momento de chegar à janela depois, fresca, apaziguada, perfumada no ar quente e sempre húmido, envolto em cheiros demasiado pesados, os tons lamacentos do rio, a sujidade. Momento perfeito de chegar à janela com uma chávena de chá. Recuar de novo para o cadeirão de rota por detrás do sombreado da persiana de vime. Sombreado com riscas muito juntas e que cobre de tons mais neutros ainda todo o exterior visível. E ouvir o bracejar lento e ineficaz da ventoinha no tecto. E sentir voltar a humidade na pele, de novo o calor imenso sem tréguas. Mas novo. Todas as outras sensações diluídas no banho demorado. Voltar ao momento da partida e chegar, enfim. Finalmente estar. Ali.

11 Dez 2015

O cume ou o passo

Noite alta. Há um ponto preciso na noite. Como na escalada de uma montanha, o cume, ou o passo. Era um facto indiscutível, o de que ela pisava cautelosa, todos aqueles corredores labirínticos, um cuidado furtivo para não mover um só grão de poeira, desarrumar a poalha invisível sabida por ali. Mesmo um reflexo ténue de luz, que não poderia agitar-se. Ou mesmo o ar. Havia que deixá-lo intacto à passagem. Sem correntes. Abri-lo lenta e estruturadamente num rasgo certo, delicado, cirúrgico e à medida, sem perturbação maior que o impedisse de se fechar perfeito sobre si, sem cicatriz visível. Mas mil cuidados eram poucos. A atenção dividia-se lenta e alternadamente entre um olhar em torno, circunscrito ao ouvido. Às cegas, fixo. O corpo todo em espera, imóvel até ao insuportável e repensado, estendido o tempo por mais um pouco necessário. Um olhar girando lentamente no escuro, para posicionar o ouvido. Ora um, ora outro. O ouvido-guia. Só a imobilidade total para distinguir cada pequena palpitação naquele universo sombrio, espaço abstracto, quase. Vivo. E a outra atenção ao corpo, como uma arma ou instrumento de precisão, a exigir a concentração máxima. O apuro rigoroso do gesto. O tempo. A resistência. O equilíbrio.

A medida exacta do movimento. E as dúvidas centravam-se numa sensação precisa de como cada pé se erguia com lentidão, descolando do soalho que inesperadamente poderia lançar um rangido lancinante na noite. Sempre imprevisto e situado como um animal escondido em qualquer das tábuas corridas do pinho, a envelhecer com os gemidos de dor que a certa altura começaram a fazer-se ouvir. Uma certa altura da sua existência de madeira morta, ou a certa altura da noite. Das muitas noites que correram sobre este cuidado. Sobre este soalho. Decolava um pé lento e preciso, sentindo-o curvar-se progressivamente até que só a ponta leve e milimétrica, ainda sobrasse em contacto. E abruptamente elevava esse pé num arco medido pelo ar, voltando a poisá-lo mais à frente. Primeiro a ponta, o arco a desfazer lento, e finalmente a planta. Os joelhos meio flectidos como na dança, a acrescentar fluidez à passada, e o poisar era em tudo inverso ao movimento anterior. Em tudo medido, aferido na memória do movimento anterior. Primeiro a ponta leve e depois, progressivamente a planta inteira a colar-se ao soalho, em silêncio total e diminuindo o peso a pouco e pouco, centrado no joelho, difundindo-se pela coluna elevando-se aos ombros e diluindo-se no ar acima deles. Sem agitação. Um movimento elevatório no momento de poisar o pé. Na eminência de sempre aí surgir o rangido escondido naquele ponto, à espreita, à espera. Estridente no resto do silêncio. Como um lamento de dor. Por isso deixar o chão devolver na medida da suavidade com que se pisa, o peso. Não pisar. Pousar e sem peso. E assim sucessivamente, como sobre papel de arroz, tentando não deixar marcas de gordura, que significariam trazer a superfície delicada atrás. Um movimento ponderado em tudo, quase felino, aprendido num velho filme de Kung Fu na infância. Diria o mestre que era a prova final. Décadas. E ainda não apurado na perfeição. O papel rasgado por vezes. Colado ao pé. O grito do chão. Os puxadores de latão a vibrar sonoros. A respiração pesada interrompida no sono. Mau sinal. Aquele sono a velar para que qualquer intervalo não fosse aquilo que não podia ser. Escuros corredores no início, mais tarde tinham que ter uma luz que afastasse as sombras pesadas, o vazio do chão, na noite. Guiar caminhos. Da memória, até. Mas difícil pedir a uma luz que ilumine até tão longe.
De resto, havia ainda a tensão de todo o corpo centrado nesse gesto repetido. Como se dele, no momento estranhamente estendido, divergissem mil possibilidades, como se nele se concentrassem todos os sentidos e nada mais fosse importante. Quanto mais, existente. Ela não podia acordar. Só isso. Impossível por vezes adivinhar pesadelos que valessem o rangido inesperado da madeira. E por vezes, também, aqueles antecipavam-se a estes. Ou então os monólogos murmurados e sibilinos na noite. Calma. De uma forma intocável também.
E havia ainda o labirinto a resolver temporariamente. Mil tábuas. Um dia haveria que contá-las. Mais que mil, seguramente. Mais que muitas a cobrir aquele chão de que eram face e todo. Contá-las com amor porque eram o chão a percorrer todos os dias. A querer percorrer para sempre, todos os dias. A casa. O labirinto diáfano e mutável a cobrir o chão de desconhecido, de um jogo de regras estranhas a descobrir nos próprios troços do mesmo. Sem ter um olhar longitudinal possível a garantir que essas se mantivessem ao longo de cada caminhada. Visto de dentro, é assim. Visto com o olhar de gigante será tudo óbvio. Seria. Mas não é. Não é fora do tempo e não é uma casa de bonecas. Onde guiar um carrinho minúsculo com prazer de brincar. Há que percorrê-lo na penumbra, com pontos de luz baixos localizados. E pontas de pés. Zonas de escuridão maior do que a vista alcança, mas o olhar a saber que já a seguir há um outro ponto de luz. Sempre insuficiente mas a poder guiar a inércia dos passos, mesmo fora do seu alcance. Como a necessidade de um pequeno mergulho, em que, passada a confusão, o choque com a água e retorno da respiração, se começa a nadar. Recomeça a seguir na direcção pensada. O labirinto a desfiar-se. Em dados momentos, não se sabe o que é cima e baixo, direita ou esquerda, num primeiro momento de desorientação num meio de diferente gravidade. Procurar pistas. Saber que provavelmente estão lá como pontos cardeais. Procurar, por entre a espessura da água, que se esvai entre os dedos. Contínua. E o olhar cai sobre uma pequena pedra no fundo, com um sinal de direcção. Em que se pega amorosamente, a reter a respiração. Mas retirada do fundo perde-se a possibilidade de ler o sinal, a pequena seta torna-se genérica aponta para onde a apontar a mão. Sem querer. Melhor deixá-la onde estava. Teria sido melhor. Olhar com cuidado. Largá-la então e ver rapidamente retomar o lugar meio enterrada na areia do fundo. Mas, numa reviravolta virada ao contrário. Como um bicho recolhido na sua concha porque se ensaiou um gesto.
Estacar, paralisar todo o metabolismo por instantes depois do lancinante turbilhão de sensações desarrumadas e do guincho estridente que a madeira lança. Para todo o possível e sem pés nem sentidos mais do que o ouvido. Esperar que o silêncio se reacomode depois da agitação momentânea. Escutar. A respiração, lá ao fundo, volta. Ou esteve sempre lá sem ser interrompida. Abrandar o ritmo cardíaco, estancar a sudação. Retomar a caminhada pelo labirinto dos corredores cobertos a mapas esfumados aqui e ali. Minto, é papel de arroz limpo e novo como só pode ser, para fazer o teste fulcral. Aquele passo complicado em que o pé volteia no ar para poisar atrás. De costas para o outro, obrigando o corpo a girar. Mudando o sentido. Tudo com os joelhos flectidos e a noção do eixo. Do centro de gravidade a exercer sobre os joelhos – flectidos – a pressão de uma mola. Retirando peso. Elevando até quase não restar um grama. E por vezes demais, mesmo assim. Um ínfimo pressionar em excesso enruga o papel arrasta-o fora dos limites possíveis do labirinto.
Nas extremidades as janelas da frente e das traseiras. Às vezes uma corrente de ar excessiva percorre-as. Às vezes é preciso fechar uma ou outra. Outras vezes, não. A frescura que sabe bem. Mas quando a torrente é forte, as palavras se chocam, sem querer, ou sem tempo de prevenir o estrondo, bate uma janela. Voam papéis de cima da mesa. Saem da ordem. Misturam tempos e histórias que não são de misturar. Uma confusão. Caminhos diferentes esboçados por ordem da desordem do acaso. Do vento que encetou caminhos, só porque pôde ser.
Voltar a percorrer a faixa de papel sobre o labiríntico corredor. Os ângulos do corredor sobre o mapa labiríntico de papel. Qualquer pedra que surja é de desconfiar. Parecendo segurar o papel naquele ponto, está ali por uma outra razão. Qualquer. Olhar simplesmente e não deslocar do sítio. Reter o sentido da seta. Voltar lá sem rasgar o papel. Olhar de novo. Tentar a saída. Saber que são múltiplas. Voltar para a luz clara do candeeiro amigo sobre a mesa. A cadeira confortável e o conforto da mesa para pousar a cabeça. Nos braços. Fechar os olhos. Dormitar. E cinco, sete passos para a porta. De caminho uma espreitadela ao espelho do corredor, o carrancudo. O melancólico. Pelo canto do olho. Chora. Passo sem poder fazer nada que não fosse limpar dedicadamente a superfície gelada de vidro, das manchas eventuais. Algumas evaporadas já. Tocar com um dedo terno ao de leve, e sentir-lhes o sal. E um dedo estendido mas sem olhar, a colar-se ao meu por detrás do gelo. Mas sem olhar. Sempre. Não sei se finge. Nunca sei. Esperar que durma. Voltar lá a ver se já dorme. A espreitar se serenou. Com os braços sobre a mesa. A cabeça pousada nos braços. No sono denso e turbulento. Palavras soltas e doces a dizer no pântano do sono, vem cá. Por vezes foi-se. E aos outros. Aquele da avó, no seu lado austero e a abanar o pé com impaciência, com severidade e com razão, sentada muito direita para não enrugar o saia-casaco. Mesmo o do roupeiro do quarto, de toda a meia vida, o mais cheio de marcas, de manchas da idade e de deformações incontornáveis da superfície antiga de vidro irregular. O que repete baixinho, enervante, just dream. Não é fiável. O do guarda-vestidos. Mas guarda segredos. E o outro, dream don’t dream, desamizades angulares, não se olham também. O das gavetas revira o olhar desdenhoso para o tecto e o pequenino sempre escondido atrás da porta. Feitios… Àquela hora, cada um faz o que lhe apetece. Custo a estabelecer contacto visual e nem tento. Não me entendo neles.
Ou. O casulo, que é o contrário. Casulo que o meu outro, o outro eu, gostaria de tecer. Numa malha feita de arabescos, de seda. Delicada e repetidamente colada em torno de um espaço definido e oval, repetidamente curvada, enrolada e enovelada sobre si e sobre os mesmos percursos incertos, mas num fim previsto e completo de preenchimento leitoso, amarelado e translúcido. Quente, confortável. Desfiável. A desenrolar. Como o fio de Ariadne.
Ou a resolução indutiva do labirinto, ponderando todas as soluções possíveis – A saída do lado do mar. O penhasco vertiginoso. O beco escuro. O cão. A luz incendiada. Apagada – Tantos caminhos. Mil e um cuidados. Cem mil erros. Possíveis. O fio de Ariadne, confundido às vezes com a tentativa e erro, que pelo contrário persegue a solução perfeita. Única. Mil metros, pode ter o fio único e contínuo de seda que compõe o casulo. De quinhentos a mil. Insuficiente para, fiado, ser um tecido relevante mas talvez suficiente para guiar a procura de uma saída, ou de todas as saídas possíveis. Se não quebrar. De tão ténue que desfiado necessita de várias fibras para, enrolado, produzir um fio. De seda. Fina e delicada mesmo assim. Mas voltar ao fino filamento único e ininterrupto. Quase invisível. Desconstruir o casulo e desenrolar como guia. Sempre me fascinou o rigor. Como paradigma. Mas divido-me tantas vezes entre uma coisa e a sua contrária. Como entre o niilismo do casulo e a sua desconstrução para vencer o enigma. Sem a apologia do homem sublime heróico que ignora o enigma dele próprio.
O enigma de um espelho, o espelho possível do enigma de outro. Volto lá como um criminoso. Ao espelho do corredor. Acordado, apanhado de surpresa, olha-me de lado, naquele seu jeito de olhar oblongo.
Queria sorrir-lhe de passagem, enigmática. Faites vos jeux – Mas sorrio só – De passagem. Todas as noites obscuras. Da montanha, a pensar o cume. E ser o passo.

4 Dez 2015

Cartas sem envelope – Cartas sem sê-lo

Como um oráculo. O desconhecido de todas as manhãs. Às vezes, eu. Porque uma mágoa se diluiu subitamente desde a véspera. Porque uma inquietação nova se instalou sub-reptícia pela noite nos meus ombros. Porque o céu está de uma cor diferente. Ou simplesmente o desconhecido com prazo de validade de um dia. A dar-se a conhecer. A levar-me a desfiá-lo pelas horas de um dia. A perscrutá-lo desconfiada ou iludida. O desconhecido de todos os dias. Que só posso reinventar na medida em lá está. Num ângulo particular. Não sei se sou eu, ou o desconhecido que me arrasta no desconhecimento de todos os dias.
Ou como o carteiro que sempre espero que traga alguma carta com o meu nome. É sempre possível que isso um dia me apanhe na esquina em que menos o espero. O dia em que me dirá aquele antiquado Está entregue, e em que vou pegar nela atemorizada e expectante como sempre. Revirar nas mãos longamente o envelope fechado, tentando fixar cada pequeno detalhe. Uma dedada, um ponto fora das linhas previsíveis, uma inclinação desusual da caligrafia, uma paragem nas letras do meio, na qual eu própria paro intrigada e desconfiada. Espiando as curvas das maiúsculas e o travamento dos ts. Pequenas inflecções no lançamento das sílabas. Espiando hesitações, ou uma expiração longa na orla da última letra. Uma pressão maior no início da primeira como a firmar-se a caneta para percorrer um atalho difícil. Uma pastosidade na última. Um desleixo revelador. Um ponto quase a ferir o papel. Um aroma. Inesperadamente. Depois ansiosa e apressada mas temerosa, mas a prolongar o momento, ainda escolher a maneira de a abrir. Que tem que ser perfeita e sem estragar. Descolar cautelosamente se possível pela fragilidade da cola. Senão, cortar com a tesoura a fímbria lateral. Qualquer milímetro a mais como um enorme desperdício. Ou rasgar, daquela forma com que se rasga um papel bom de desenho.
E um dia não pude deixar de lhe perguntar se tinha uma carta para mim. Ele olhou-me com um olhar confuso, ou talvez míope. E disse-me, claro, há muito tempo, mas não sabia que era para si. O mundo caiu-me aos pés mas sem humildade. Desmanchou-se simplesmente por um longo minuto, em que na minha pressa o arrumei mal e desleixadamente, a cabeça num vórtice e o coração a bater para o outro lado. Não sei que fiz de tudo isso. Vi-me num armazém interior no fundo da estação dos correios. Devo ter-lhe perguntado onde está, e num tom aflito ou mesmo aflitivo como está. E ele deve ter-me dito que não sabia. Vi-me ali. Umas lâmpadas fluorescentes, de uma luz ácida e crua que não ia ajudar. Perguntei se podia apaga-las. Que sim. Restou uma lâmpada pendurada lá no canto mais distante da porta. Lúgubre, talvez. Não sei. Não podia acontecer eu não a encontrar por suficiência da luz. Crua. Pilhas intermináveis de cartas. Ele disse se estiver, está aqui. Eu respondi claro, compenetrada e grata. Não lembro como os dias passaram a partir de aí. Sentada no chão por ser mais vasto, tentando dar-lhes uma ordem digna da minha procura, da minha desilusão e do meu reconhecimento por cada uma que li. Cartas sem envelope. Sem selo. Perdidos que ficaram em barcos de mares que vieram distantes. Descolados pela maresia. Cartas despidas de vestes esfarrapadas. Meio rasgadas de algum encontrão da vida. Desbotadas. Dobradas, desdobradas ou mal dobradas. Sem nome. Sem dono. Cartas sem sê-lo. Já. Devolvidas a vermelho num wrong adress, ou, this person doesn’t live here anymore. Com palavras intrigantes. Declarações urgentes de vida e morte. Palavras rudes mas bem intencionadas. Outras pungentes, fundas. Tantas de amor e nenhuma a minha. Ali, por encontrar. Desfazia molhos delas à pressa e por não ver a minha detinha-me sem querer na curiosidade das outras. Chorava, emocionava-me com um nó tenso na garganta com um desabafo que podia ser meu não o sendo. Tantas palavras perdidas e sem dono. Algumas a querê-las minhas. Caligrafias conhecidas. Quase conhecidas. Separava num molhinho menor as que precisavam de ser urgentemente entregues. Não sabia a quem pelo nome mas sabia pela vida delas. Acumulava o desespero de não poder fazê-lo e não conseguia desistir. Depois verifiquei que já havia molhos distintos em função de diferentes emoções. A fazê-las minhas. Sem o serem. O meu destino a forjar diferentes tarefas que nunca cumpriria. Por vezes esquecia-me do que me levara ali. Ao fim de algum tempo já não se me esvaia da cabeça a ideia de como poderia abandonar as outras ao seu destino solitário, quando a minha aparecesse.
Aí, ela interrompeu-me com um gesto no ar daquela mão fina e branca, crivada de veias muito azuis e bem desenhadas na pele magra e sem rugas, só um pouco fina demais, transparente quase, de unhas cor de pérola e anel de platina com uma bela pedra simples e incolor. Contemplei-a em silêncio o que era um enorme prazer. Ficaria bem no mais belo filme de Visconti. Com o cabelo de um cinza prateado, impecável, o roupão de veludo pesado debruado a seda. Coisa de outro tempo. Os tornozelos finos de sempre, e aqueles olhos que poderiam parecer frios na expressão e na transparência, não fosse a voz quente, muito rouca com os anos, muito lenta. E as poucas palavras sempre certeiras à alma ou ao coração. Perspicaz. Atenta e curiosa. Por isso lhe contava coisas da vida que não era a dela. Tudo. Pela noite fora, cansada ela, mas sempre sem sono para as suas quatro horas de repouso nocturno. Rodeada de um luxo pesado e só muito imperceptivelmente decadente. Chamava-lhe signora como todos os outros e nunca tinha o tempo de lhe perguntar sobre si. Ela escapava-se ágil e algo trocista. Mas de uma enorme gentileza. Não dava tempo. O seu silêncio tinha o peso e a densidade intransponível carregado de tudo como se proferido. E quando eu quase conseguia a coragem de o cortar, ela arguta fazia-me, ela sim, uma pergunta delicada, subtil, irresistível. Acho que me estudava nesse silêncio e jogava a sua carta por antecipação. Por isso dela, só o mistério quase nada explícito, quase invenção minha. Era como se não houvesse. E no entanto nunca nada me disse. Eu a ela tudo. Tinha uma maneira de perguntar como se já soubesse meia resposta por premonição, mas sempre com uma pequena rasteira deliciosa em que caía inevitavelmente. Suponho que essa era a parte mais elaborada. A pergunta dentro da pergunta em forma de desafio benévolo. E eu saltava directamente para qualquer pormenor encravado no fundo de cada questão. Era aí que eu caia e já me acostumara a observá-la mesmo no meio da minha abstracção em torno do que se me colocava, gostava de não me perder naquelas armadilhas meigas, mas sobretudo não perder aquele instante ínfimo, que lhe passava pelos olhos como uma luz transversal e fugaz, um pequeno brilho de victória, quando eu, sem responder directamente à pergunta aparente, inevitavelmente lhe fornecia a história que ela queria sem o querer dizer. Dava-me também a mim uma alegria secreta, deixá-la saborear essa conquista. Laboriosamente planeada nesses intervalos de silêncio. Entre frescos desmaiados e adormecidos nas paredes em redor. A melhor das ouvintes que alguma vez conheci. Inventei muitas coisas para seu deleite, não para esconder a alma mas para tornar mais rica a história que lhe oferecia. O seu imenso espírito analítico, a curiosidade humana e delicada, merecia as melhores. E aquele seu jeito hábil de perguntar sem reconhecer na pergunta o móbil da mesma, torneado como num penteado barroco de inúmeras tranças que seria divertido desfiar à posteriori. Mas havia sempre um novo assunto. E pelo meio silêncios enormes e cheios. Difíceis de quebrar. Tudo sereno, as janelas sempre abertas sobre o canal. Os brilhos da água e os brilhos dos reposteiros adamascados. Quase confundíveis. E os copos de um cristal rosado em que beberricávamos um vinho. Apenas a ela falei dele plenamente. Só ela sabia falar dele, também. Talvez porque quase não o referisse mas aceitasse com uma enorme complacência tudo o que lhe confessei. Sem juízos e sem reprovação. Parece-me que chegou a conhecê-lo enormemente, o que quase me fazia ciúme. Oitenta anos, ou talvez muito mais, mas uma enorme memória do amor.
Flávia. Chamava-se assim, disse-me um dia mais inspirado. E um dia chamei-lhe assim pela primeira vez. Intencional, premeditadamente. E, como desconfiei, vi-lhe passar como sempre aquela luz trocista e breve, que logo serenava em delicadeza e ternura. Uma ternura sóbria. Eu sabia que ninguém tinha coragem de a tratar pelo nome. E que ela nunca o propunha. Esperava dos outros essa iniciativa. Suponho que ficou contente. Não deu mostras de notar a diferença, mas mais tarde disse que lhe devia uma história maior naquela noite…Disse ela. Ou talvez eu. De que vamos falar?
Ela agitou os dedos como se regesse uma orquestra nos últimos dos últimos acordes. Precisas de fumar um pouco e pensar. Nele. Eu descanso entretanto. Aí reparei que os olhos eram mais brilhantes, as olheiras mais fundas e a pele em torno destas mais transparente do que sempre. Com um rendilhado fino de rugas e veias quase invisíveis mas acentuadas por vezes. Deslizou com aquela elegância sem idade os pés para o lado e recostou a cabeça no almofadão a seu lado no sofá. Sentia-a triste. Talvez fosse ela a precisar ainda mais de fumar um pouco. E pensar nele. Esperei que fechasse os olhos, não queria ser indelicada na minha pressa de sair para o balcão da janela. Mas isso não aconteceu. O olhar era lento de mim para outra coisa que não via. Aproximei-me e estendi-lhe a cigarreira. Olhou-me longamente. Tudo parecia possível como resposta. Disse simplesmente, sim. Nada me daria de facto mais prazer neste momento. Há muitos anos que ninguém me oferece um cigarro. Esqueceram quanto eu gostava. Mas sei que não era isso. Era algo na memória a precisar de companhia. Pegou num dos longos e acendi o isqueiro. Ela disse não. Ali, naquela gaveta está um esquecido há séculos. Fui abrir respeitosamente e a medo a gaveta, imaginando talvez ver também um revólver de ouro, e outras coisas. Quando o experimentei na dúvida, funcionou. Mãos amorosas o alimentaram pelos séculos. Sorri para dentro. Acendi-lhe então o cigarro que aspirou com uma volúpia de prazer invejável. O da distância da saudade. Conte-me. Tu sabes a minha história. Pensa em cada detalhe do teu amor. Entendi subitamente todo o artifícios das suas questões elaboradas. A luminosidade de desafio que lhe perpassava nos olhos. Ela conduzia a história dela na minha e deliciava-se na mais ínfima coincidência. Contas-ma noite após noite há anos. Mesmo as partes verdadeiras que inventaste. Emudeci atemorizada naquela espécie de vislumbre da visita de um tempo futuro, como um espelho em perspectiva, com a distância também que só se pode ter depois. A lucidez.
E muda a querer perguntar sem o chegar a fazer, sem saber se houve um depois, foi feliz? Ela olhou-me de revés, Amar. Sim…é ser, e como arrependida a fechar o rosto cansado: Tu me dirás mais tarde. Um meio sorriso impenetrável, agora. Se tivermos tempo.
Fechou os olhos, mas tornou a olhar-me com um sorriso, e com aquele sotaque cerrado e inconfundível: “It is love, and not German philosophy that is the explanation of this world, whatever may be the explanation of the next.” . Sabes quem disse?

29 Nov 2015

Ethos, Pathos, Logos – Da monstruosidade

Aesta hora, em que tento pôr ordem nas palavras, noite já feita, inúmeras traças esvoaçam por aqui. Olho-as com o olhar desumanizado ou simplesmente alheado – e uma palmada rápida e seca seria suficiente – de quem encontra ali a pequena metáfora caseira, vinda ao encontro de outras perplexidades. Porque elas têm que se alimentar, as traças, não as preocupações. Mas eu não gosto. Mais esse olhar, do que o de qualquer respeito pela sua essência, até mesmo em termos cromossomáticos, tão próxima da minha.
E tudo o que a natureza produz é natural. Já a razão é a coisa mais artificial que há. A ética, a moral, a estética, a filosofia, a religião, a costura, a geometria, a arte, a linguagem, o estado, a comunicação. Construções. É aí que se situa toda a monstruosidade e não ali. A natureza, à luz de muitas elaborações normativas, também produz monstros, aberrações, raridades ou anomalias. Mas também estas, fruto dos mesmos mecanismos, os do crescimento, da oxidação, da morte celular, da recombinação de genes, de sinapses que dão o impulso químico ou elétrico certo. Ou errado. Nem sempre se sabe qual seria o impulso certo. Em que se fazem ou desfazem pensamentos, registos da memória, funções, sensações. Do descontrole sei lá de que momento da pré-disposição genética. São fugas à norma, e essas expressões com que as designam, limitadas a critérios nada rigorosos, pouco além, por vezes, de uma dimensão estatística. Ou uma motivação vinda da clausura em padrões de segurança e normalidade, de que muitos necessitam na sua definição de si por oposição aos outros. Uma oposição bélica.
Todas as fugas provocam instabilidade no outro porque abalam as suas frágeis seguranças. O que é diferente parece contestar aquilo de que é diferente. E aquilo de que é diferente, reage com agressividade fulminante da auto-preservação de normalidade, como se esta fosse minada. E é. Mas de dentro e não de fora. O espelho que muitas vezes não sabe que é. No corpo do que é natural, nascem disparates da natureza, ou lirismos ou violências em vários graus. Mesmo aí, onde, para lá de determinados limites se define o território da doença, há fronteiras por definir. Entra-se no domínio da construção, do que é normal e do que é tratável, do que a sociedade, o estado reconhece, e do que não. Mas, se também de corpo se trata, mais ainda do domínio equívoco das ideias, emoções, pulsões, da construção de si enquanto ser no mundo e ser para a morte. E para a vida. Entretanto. E aí, então se situa o pântano maior em que se afundam ou batalham as grandes dúvidas sobre as fronteiras. As da doença e da sanidade. As da diferença e da normalidade. Da legitimidade ou da criminalidade. Em que se debatem uns e outros, curiosamente. Onde a criminalidade se define a partir do mal causado ao outro. Tal como a doença é por definição o território do sofrimento em si. Em última análise sofre-se da existência total e sem tréguas, nas suas agressões e vazios. E a cura é radical para alguns. A desistência desesperada ou lúcida, sem o céu como limite para o espírito. Mas as profundezas da terra, com os seus vermes a concluir a obra no corpo.
E a identidade. O corpo como lugar da identidade, também. O ser como construção e os seus contornos de inevitabilidade. E os direitos do Homem. Voltando ao que é natural e ao que é desenhado. A questão maior, com redutos intransponíveis. Os do sentir. Mesmo esses pontualmente redesenháveis, mas não sempre. Os de ser. Para além de toda a vontade construída, de todas as estruturas tradicionais e sociais. O território do pensar, quantas vezes fora dos padrões e diabolizado mesmo que inócuo. O delito de pensar ou de acreditar, como crime a punir. O da liberdade de ter direitos. O delito de ser, só porque diferente. O corpo-delito. A alma a olhar o corpo.
Poderia estar a pensar nas grandes questões dos direitos humanos, naqueles aspectos políticos que geram grandes tragédias. A guerra. Todas as guerras, todos os tipos de guerra, as violações de direitos, as grandes questões políticas. Bens e territórios. Mas é do espaço do privado que quero falar, o pequeno grande drama que é o desrespeito pela identidade. O monstruoso e arrogante violentar o direito básico à individualidade, à especificidade do ser. Sem crime. Sem ofensa ao outro.
Usar critérios de gosto para qualificar a identidade. Usar a moral, a tradição. Arquitecturas com paredes de vidro. Por detrás está visível aquele que faz o juízo. A qualificar-se em cada valor que proclama. A maior das enormidades de mau gosto do universo é a sua própria natureza de fenómeno com princípio e a inevitabilidade de um fim. Assim, ainda maior o dramatismo de haver sido criada uma espécie cuja razão a confronta com a noção do seu próprio fim. Fim do indivíduo e eventualmente da própria espécie. E com a noção de que contribui ela própria para a possibilidade de extinção. Para a mente humana, talvez a maior fonte de consternação, essa. Muitas horas de existência dedicadas, embora com a marca de inevitabilidade, à tentativa de encontrar sentido ou fórmula de conforto. Ou então é essa paisagem que Rilke lhe viu. Em que, só assim, podemos apreciar no seu esplendor máximo a vida, e nela o amor.
Ainda da noção de naturalidade, ou não. Tão natural um bicho-da-seda, macio, branco, com ou sem riscas desenhadas a negro, que laboriosamente constrói o casulo em que se esconde para um dia dele fugir, já com asas para voar, como um ser humano cuja identidade não se reconhece no corpo sexuado com que nasceu. E a transforma. E ao corpo.
O exemplo da pérola. Um dos mais belos tumores da natureza, um acto de pânico de um ser vivo. Destituído de intenção estética. Age por medo. Dor. A sua produção de nácar é doméstica, é para tornar a sua casa confortável. Quando invadido na sua intimidade por organismos parasitas ou dejectos nocivos, isola o invasor agressivo com camadas desse nácar, a madrepérola. Quando produz uma esfera perfeita vêm os critérios humanos dizer da perfeição geométrica, da beleza e do valor comercial. Hoje também os órgãos humanos, mesmo de humanos vivos, têm valor comercial e são objecto de venda, de oferta, de roubo. No último caso dizemos ser crime. E é. Hediondo como outros. À luz da ética que nós próprios criámos. Mas mesmo os moluscos têm sistema nervoso, e, mesmo sendo este muito simples, acontece terem estruturas sensoriais, visuais, tácteis, de equilíbrio. Outras.
Na dor, também o ser humano, como a ostra, produz coisas belas. Ou não produz. Ou não são belas. Nada é belo simplesmente por inerência de um estatuto, de uma espécie, de uma raça, de um género. Ou pela naturalidade com que o é. Só por si. Podemos usar critérios que nos levam a achar que um tigre é um animal lindo, enquanto um crocodilo ou um pterodáctilo, não o é. Mas serão de outra natureza do gosto, ou do afecto. Pintainhos e filhotes de mamífero inspiram uma ternura intensa a muitos. Tantos outros bichos causam repugnâncias várias, culturais ou traumáticas. E o patinho feio, que afinal era um cisne. Estava fora do contexto naquele rancho de outros filhotes. Conchita Wurst, com os seus cabelos estonteantes, barba e vestido de lamé. Um modelo estético estranho. A pensar. Mas só isso. Estranho porque invulgar. Menos belo cada detalhe só porque num conjunto inesperado, ou não, é a questão que se me coloca. Mas por cima dessa, a de que não prejudica ninguém. E mais acima ainda, um valor que ligado ao anterior eu venero. A coragem. Eventualmente da solidão. Será menos bela, belo, do que Cronos comendo os seus filhos, o de Goya? Também me pergunto se este é um belo quadro. Ou terrífico. O que, para lá do sentido, não importa afinal.
Como se uns fossem mais naturais do que outros. Os bichos. Os cânones. Como a natureza humana, a homossexualidade humana, a transexualidade humana. A partir de que grau de idoneidade ou legitimidade é que se está protegido pela ética – já que a moral é essa parente pobre, conceito adulterado da tradução do grego de ethos – da agressão do outro, é uma coisa que me faz pensar. Para muitos, do humano para cima. O humano como início da escala de valores a proteger, mas acima dele ainda Deus, que a muitos confunde ligeiramente na sua fórmula egocêntrica. Para outros a escala começa um pouco mais abaixo incluindo os animais domésticos, domesticados. Os animais amigos do homem. Para outros os mamíferos em geral, porque detêm um olhar quase humano. Alguns, e alguns mais do que alguns humanos. Para outros, o reino animal em geral, desprezando o mundo vegetal. Para outros ainda, os seres vivos em geral. Para estes é um dilema de vida, conviver no respeito absoluto e coerente com esse princípio, o mais respeitável de todos. É o que eu sinto. Não é o que pratico e mesmo assim o meu inferno é vasto. Culpada pela minha natureza de elemento privilegiado nesta cadeia alimentar. A cidadania, como valor de responsabilidade dá trabalho. E cadeias alimentares entre elementos da mesma espécie, a nossa. Quem engole quem. Quem mata, quem anula, quem destrói quem. Quem se defende de fantasmas, ferindo pessoas. Quem cataloga pessoas. Quem, pela sobrevivência do seu ego e da sua identidade gera a ilusão de moinhos de vento e activamente lança as suas flechas mortíferas. Deixámos historicamente para trás tanto preconceito, tanta caça às bruxas, tanta ignorância, tanta descriminação, se pensamos no sítio do mundo onde temos a sorte de viver como novos- ricos. Deixámos?
Tenho pensado tanto na questão da monstruosidade. Sobretudo aquela que se gera a partir da diabolização deslocada do verdadeiro foco. Porque ela existe. Que tantos dias me entra pelos olhos adentro. Mas quanto às grandes expressões desta, a minha impotência é enorme e sobra dela uma agonia indefinida de asco e revolta. Mas é também, e aí mais ao nível do meu pequeno mundo, a questão das pequeninas, ínfimas monstruosidades, que me perturba, porque estão, cotovelo com cotovelo, mesmo ali.
E por vezes as pessoas mentem. É assim muitas vezes. Tem que ser. As pessoas encerram-se em quartos escuros em cantos remotos fora da féerie das luzes. Sobem ao sótão de si mesmas e escondem-se. Escondem-se, mas por vezes querem ser encontradas e deixam pistas laboriosas. Labirínticas. Pistas a dizer, não quero que me vejam, vem daí se tens verdadeiro interesse, mas que estão ali com um sinal. Talvez esteja certo assim.
E ele, esse aluno menor ainda, pouco mais que criança, como tive outros, que se prepara para que ao longo da vida, muitos pensem e digam, e lhe digam de maneiras indirectas ou por lapso e desadequação de linguagem que a monstruosidade está do lado dele. Falo sobre isto porque não é secreto. É meio secreto. Ele já começou a luta. Mas ele, que mentiu no primeiro momento, apesar da coragem imensa que constitui dizer voluntariamente a uma desconhecida que não se identifica com nenhum género, e que intuí recobrir uma coragem maior que ainda não teve, anseia por ser entendido. Sobretudo aceite. Porque talvez pense por defeito, que nunca se há- de entender a sua questão. Já vi tantas vezes isto. Naquele cadinho em que mergulho todos os dias. E com um mau fim, tantas vezes. Injusto. Porque há um silêncio, uma reserva do lado de lá e do lado do outro. Uma ausência de caminhos que não envoltos em clandestinidade, sofrimento, marginalidade, sofrimento, ignorância. Dor. Dor de ser. E dor dos outros. Porque são esses que doem mais. E depois há as questões legais. Moral e direito são controlados socialmente e entregues a muito atraso inexplicável. Insensibilidade, ignorância.
E dói-me ver-me envolvida nesse complexo vórtice, sério, importante, que é demasiado confuso da forma em que ele, ela o vê. De ética, moral, direito, direitos, e colocada num ponto muito definido que é o da discriminação. Porque uso um pronome e não outro e o olho nos olhos no acaso do meu olhar pela turma a quem me dirijo. Porque acho ridículo o nome que ele quer que use para lhe falar. Logo um nome de deus….Um deus que simboliza transformação, é certo…E porque me rebelo de o ver incluir-me por defeito nos seus alvos de luta, quando o que lhe quero ensinar, é, para começar, que nenhum género é melhor ou pior. Que a identidade dele, em curso é íntima e deve ter um reflexo consistente legalmente. E é por isso que deve lutar. Não pela rejeição de uma fórmula para que não me dá alternativas por agora. Um discurso difícil.
As pessoas têm o direito de se transformar, física e psiquicamente. Por efeito da vontade de verdade de identificação. De mudar. De mudar de nome. A inoculação de vírus na forma benéfica de vacinas, a reconstrução de uma perna esfacelada num acidente, a colocação de seios de silicone, um transplante, ou a mudança dos órgãos genitais não são vistos com a mesma forma de legitimidade. E nas causas, nas razões de ser está sempre a saúde. Queremos morrer saudáveis, belos, jovens para lá do possível. E da mente. Como tentativa de anulação do sofrimento. Implantar uns seios que são aquele paradigma de feminilidade que sempre se sonhou quando o corpo se definiu noutra direcção, recortar as pálpebras que descaem com a idade. Artificial…O que é que em nós não o é, para além dos sentimentos ou dos sentidos que compulsivamente nos transmitem sensações tão definidas por vezes? Quando mesmo esses enganam. Perseguir paradigmas quando a noção de liberdade se instala. Paradigmas de identificação. Somos únicos, por mais que irrelevantes, na única possibilidade de existência que uma vida sem fervor metafísico, ou religioso, nos reserva. Porque não reelaborar o género nas suas especificidades estéticas, sexuais e existenciais. Mas nestas questões que têm também a ver com o amor ou com o desejo puro e simples, puro e duro, não se sabe sempre se a resolução do corpo é o ponto de partida ou o ponto de chegada. É quem se é, ou aquilo que se sente por alguém que é o outro, e ponto de chegada de um valor. Eu tenho uma noção estranhamente imprecisa da minha identidade de género. Sempre tive. Tenho a sorte de me sentir confortável na minha pele, no meu corpo específico e feminino e na tradição em que cresci. Mas sei que me sentiria muito parecida com o que sou, num corpo de homem. Parece-me. Talvez porque nunca se sobrepõe a tudo o resto que me define, essa, para mim pequena questão do género. Mas, noutro corpo eu seria gay. Disso não tenho dúvida. Mas só atendendo a tudo o que senti até hoje. Serei portanto, eventualmente um homem, gay, que nasceu num corpo de mulher mas não se importa com isso. Ou uma mulher, heterossexual, que poderia ter caído por acaso do destino, num corpo de homem. E se quisesse afinal ser vista pelo olhar de um homem, como mulher, sujeitar-me- ia àquelas duras terapias hormonais e psicológicas, e a complexas cirurgias para surgir, como um cisne do patinho feio, mulher plena. Com um bilhete de identidade a dizer-me do sexo masculino. Há no entanto complicações maiores, outras recombinações e outras possibilidades de identidade entre um corpo e um intelecto. Onde toda esta realidade emperra é nos preceitos legais. Lentos, amórficos, alheados do muito que se sabe da natureza humana. Cruéis e ignorantes. Apoiados pela opinião pública, cada vez mais visível e opiniosa, a dedicar fel e vinagre a estes assuntos à falta de maiores preocupações humanas. Mas as questões de orientação sexual, que para mim são da natureza privada e um direito inalienável ao respeito, são também aquelas em que as pessoas tendem a defender, começando por se resguardar definindo-se de acordo com a norma. Tenho sorte, portanto.
As questões que a ética deveria proteger da moral e das insuficiências do direito, camadas sucessivas de elaboração. São as questões da identidade. E do direito à identidade. Todos nós as temos. E das monstruosidades. Aí também posso dizer que todos nós as temos. Sei de que falo quando falo de mim. Também. E aprender os pequenos troços a percorrer de cada vez para conquistar a liberdade.
Uma escola é um cadinho. Tantos e tão diferentes, por serem muitos ao longo dos anos é possível vê-los em perspectiva. Senão uns, outros. Não é assim tão diferente. Há um padrão. Gosto de lhes ensinar a solidão. A solidão mas não a clandestinidade, a fuga. O silêncio e a solidão. A terem a coragem de não se esconder. A falar de si a reflectir em si. Nos outros, mas não como elemento repressivo. A transportar a sua própria gaiola. E a sair dela sempre que for preciso. Diz Schopenhauer que quem não sabe apreciar a solidão, também não sabe apreciar a liberdade. Qualquer coisa como isto. E é aí que quero chegar. À alma desse meu aluno, aluna, ou o que quer que se encontre válido na língua portuguesa para me dirigir a ele. Estar só, se necessário. Contra o olhar dos outros. Contra os outros, só se necessário. Com a mesma falta de preconceitos de sempre, excepto o de que legalmente ele tem um nome e um género, e este último é uma referência de reconhecimento discutível e que o não obrigaria a vestir-se de acordo com este, o que tornaria inútil como elemento constante no documento de identificação. E que olhando para ele por agora, reconheço os paradigmas estéticos comuns ao género que ele repudia.
Esta é uma história no seu início. Para mim – ainda temos muito a conversar. Para ele vem seguramente dos confins da infância em dor e sofrimento solitário. Com os seus monstros por companhia. Mas mais ainda com os monstros dos outros. A preparar-se estes para, nas suas, lhe apontar monstruosidades e outros mimos.

24 Nov 2015

Litânia. Oásis de monotonia

Uma palavra bonita, litania. Como ladainha. Gosto de ladainhas e nem seria preciso dizer. Já lengalenga, da vox populi, lembra-me coisas de uma dolência entediada, de cadências lenganhosas. Lesmas e outras imagens empasteladas. Encadeados de palavras entorpecentes, músicas repetitivas, mesmo as do minimalismo. Isso sim. Outras como chicote. Também. E os ritmos cardíacos. Os da respiração. Os mais secretos das células que reorganizam o seu destino e que pode ser pavoroso, prefiro ignorar. Isso ou a eternidade. Há que escolher. Ilusões.
Conduzia de janela aberta. Uma pena leve poisou-me no casaco. Muito pequena. Pensei, Lá está ele. A brincar. É que às vezes tenho a sensação de que o meu anjo anda por aí. Eu deitava-a pela janela, por nada, que não me fazia mal, e ela voltava leve e teimosa. Lembro sempre a expressão de desagrado da minha avó: “Penas”… Ela pensava, pesares. Mas era mais uma pequena penugem, daquelas por debaixo das outras penas, e que servem para manter a temperatura. Faz sentido porque já sopra aquela aragem fresca que arrasta as folhas e anuncia dias piores. Se fosse uma pena não distinguiria se era da asa ou do coração. O anjo mais sorumbático, ensimesmado, macambúzio. Sempre cabisbaixo e embezerrado. Acabrunhado. Mas ao seu modo, com o gosto de brincar. Não há nada mais irresistível do que um ser cuja alma brinca por detrás de um fácies soturno. Supondo que os anjos tenham alma. Isto dos anjos precisava de ser mais bem explicado. Mas é uma coisa de mais de trinta anos, também não o vai ser por agora. Lá atrás, professores de pintura entenderam a questão plástica, o vôo, a elevação das ogivas em flecha, os movimentos, os ritmos e pesos da questão. Plástica. Depois caíram. Os meus anjos. Vieram como tinha que ser. Já um filósofo, amigo do meu amor à época, heideggeriano daqueles sempre de mão na cabeça a suster reflexões demasiado pesadas, dizia reflectirem a minha necessidade de salvação, personificada nele – o meu amor à época – Que parvoíce medonha, foi o que pensei. Do amor uma pessoa não quer ser salva, quer a possibilidade de se perder e não menos de se encontrar. Ou é a mesma coisa. Mas isso ficou para pensar mais tarde e ainda não chegou a altura. Suponho.
Tenho vários anjos. O que ficou para sempre naquela idade logo a seguir à infância em que nunca o conheci, o que ficou para sempre naquela idade de idoso, que foi a idade de sempre, em que sempre o conheci. Curiosamente talvez a idade que tenho hoje ou menos ainda. E por isso me sinto estranha. Com o que em mim cresceu e com o que em mim não cresceu. Dois escuros e um luminoso. Nos olhos, quero dizer. Dois, escuridão e um, claridade, de um verde transparente e sonhador. O mais sóbrio deles, afinal. Estão ali quando consigo invoca-los. Ou o permitem. Mais nada. Aqueles cujo olhar gosto de imaginar que me acompanha. Por aí. De longe, acho. Vindo em continuidade do passado e passando por mim a mostrar não o caminho, mas que há caminho.
Construção minha. Que existam como tal e mesmo assim. Que quero deles, nada. Minto. Que me embalem. Porque das pessoas quereria sempre se calhar demais. Mas é um work in progress. E não quero deles nada para não os comparar com elas.

Gostar de litanias. Orações no culto cristão. Formas de rezar em que se responde com uma invocação breve e repetida, às preces que desfia quem dirige a oração. A repetição, a insistência, a súplica veemente. Na Liturgia das Horas, salmos e cânticos com esta forma na sua estrutura. Embaladora. A todas as horas do dia. Das Laudes às Completas. Para não desfocar. Ladainhas, com um poder hipnótico que induz ou agudiza a fé. Com palavras que não falam comigo. Mas o rogo e a súplica, assumidas em abstrato sem se as dirigir a ninguém, a nenhuma entidade, são talvez um desabafo de tonalidade possível. Como dizer Meu Deus, sem necessariamente invocar o possivelmente inexistente.
Ou sinónimos daquilo que é repetitivo e enfadonho. De ramerrame. Da vontade de cair em letargia. Do que embala em forma de música, do que embala e repetidamente se ouve em segredo por tão excessivo. Do embalo das palavras. De conduzir sempre pelos mesmos caminhos mesmo que mais longos. Só pelo hábito e pelo conforto. De resistir à mudança. Alvin Toffler refere-o na Terceira vaga. Demasiada aceleração. Demasiados dados em confronto. Demasiadas mudanças, demasiada necessidade de adaptação. A alma reage como pode. Aquele hábito estranho de pessoas que se embalam, balançando o tronco para a frente e para trás. Observado em alguns portadores de autismo. Li um dia o relato de alguém com uma dessas síndromas, que explicava lucidamente a razão de ser. Demasiada sobrecarga de informação, de dados sensoriais a processar. Demasiados dados criam uma perturbação inconsciente e a necessidade de produzir uma reacção. Uma espécie de drenagem do excesso.
E os outros que secretamente se embalam sentados em banquinhos baixos lendo pelas horas adiante como eu, à janela do quarto que tinha janela, porque o outro não tinha. Pelos anos fora. Quando liam, e a vida em si não era demasiada só por si, para lhe incorporar a vida de ficção. Personagens, lugares, sentimentos. Prisões alheias. Que depois deixaram de ter lugar. À janela. No banquinho azul da infância. Sem diagnóstico formado.
Ou patinar de costas. Talvez por não se sentir tanto a resistência do ar. Descrever elipses vezes sem conta, em torno do rectângulo de um ringue semi-vazio, ganhar velocidade – o mais perto de voar que experimentei – até ao momento em que um grão de areia se imiscuía nos rolamentos das rodas e a queda era brutal. Mas era tão bom. Lá atrás.
Melopeias, litanias, cantigas de embalar. Porque a vida me fez divergir e às vezes é demais. Gostar de ladainhas, de coisas que embalam porque existe por vezes a nostalgia do anterior à luz. Diria do útero materno se não fosse excessivo. Eventualmente a casa a que não se pode querer conscientemente voltar. O embalo da música que inconfessadamente repetimos até à intoxicação. Intoxicações várias, que podem ser de várias ordens sensitivas. Abanarmo-nos na infância como muitos continuam a fazer vida fora. Diagnosticados de autismos, síndromas várias que dificilmente entendemos porque em fuga dos padrões. Que padrões entendemos? E continuar a embalarmo-nos na juventude. Sentados em bancos pequenos que deixam o torso livre para tal, em horas de mergulho suicida na leitura. Alheamento completo do mundo. Pequena agenda, irrelevante como distúrbio. Outra espécie de retorno ao útero. Ou de mergulho para morrer temporariamente. E custar medonhamente o acordar. Coisas secretas.
Porque é que algumas pessoas custam a levantar-se da cama. Porque querem hibernar. Independentemente de amores e desamores. De objetivos a cumprir com paixão ou desafios a encarar com fervor. Dificuldades a ultrapassar ou o alívio final de chegar a algum lugar. Há pessoas que sentem tudo como demasiado difícil naquele momento de acordar, em que se pode reagir de imediato ou adiar até ao limite do possível a decisão de assumir o dia.

E rotinas. A única que tenho sagrada, é uma caneca de café com leite ao acordar e quatro cigarros. Cinco, seis. Ou ser milongueira. Sempre que a vida dá. Para sempre desde que se começou e por ser a sério. As rotinas são boas ou talvez sinal de afogamento à vista. Ou de que se começa a ter uma certa idade.
Dantes eu lia a tempo inteiro. Quase. O resto acontecia nos intervalos. Hoje não leio. Mas parece que escrevo a tempo inteiro. Quase. O resto arrasta-me contrafeita. Depois esqueço a contrariedade porque outros apelos se sobrepõem. E muitas vezes só por dentro. E por isso as frases dissolvem-se totalmente. Ou só uma parte. Ou misturam-se contorcidas umas nas outras no espaço limitado e labiríntico em que se movem. Umas por cima das outras. Às vezes transparentes deixando vislumbrar fragmentos das que ficaram por baixo. Para trás. E por vezes escrevo-as. Num semáforo. No caminho para apagar o fogão quando um cheiro a queimado me avisa de que me perdi por uns tempos. Sempre sabendo que não pode ser até me apetecer. Até me fartar. Eu gostava de me sentar a escrever para sempre. Nunca seria. Mas como se fosse.
Portanto, dantes eu lia. Depois foram as palavras, já não vindas de baixo, do papel dos livros com cheiro a açúcar mascavado, mas de cima a escorregar à procura de um papel com o mesmo aroma. Que já não há. A tomar esse lugar no banquinho que poisado por ali, e um tanto esquecido e abandonado, ou por estar há um tempo longe da janela, e do quarto dos pais onde abria essa janela, de cortinas branco leitoso com muitos furinhos por onde entrava quase tudo o que avançava do lado de fora. Pouco espaço para palavras alheias. Mais perturbação ainda a somar às que se desprendem ininterruptamente, maçadoras insistentes, esquecidas, recuperadas, coladas provisoriamente em papelinhos. Tantas palavras. E agora a terem que sair de novo. Não porque sejam especiais ou úteis as palavras, mas porque a vida em si é mais difícil. Dispersa, desarrumada. E elas precisam de escorrer por algum lado. Ocupam pouco espaço. Não necessitam de nada, não pedem nada. Só sair. Libertas. Finalmente silenciadas, a dar lugar a outras. Escrevê-las. Num lugar sossegado, sem horários e sem interrupções. Como se para sempre. Ou cristalizar. Se ao alcance de humanos, seria bom. E luminoso.

Ou desenhar, como naquele papel de cartucho cinza claro com risquinhas vermelhas ou não, em que desenhava ou, outras vezes, recortava roupas de boneca. Acho que só tive outro tipo de papel quando entrei para a escola. Aqueles cartuchos a cheirar, eles sim verdadeiramente a açúcar amarelo. E uns lápis pequeninos de bico grosso que ele me emprestava e que usava para traçar firmes e rigorosos traços na madeira. Saídos dos seus olhos transparentes e pensativos. O cheiro das raspas encaracoladas da madeira aplainada. Ofereceu-me a primeira plaina e um martelo pequeno, esguio, feitos por ele quando entrei em Belas Artes. O meu Kit de sobrevivência tomou rumos ecléticos.
Escrever. Um outro culto. O das coisas. Das coisas em si e das coisas pelo sentido. Das palavras pelo sabor e das palavras pelo sentido. Do lugar, espaço e tempo. Saber e não saber. Invasão de significados e a perturbação do excesso. Das ramificações divergentes. Exponenciais. Das demasiadas coisas em si. Dos excessivos sentidos nelas. Dos múltiplos lugares. Seres. Espaços e tempos passados e futuros. A perda de um e a perda do outro. Cada vez mais saber não saber. E querer fugir à invasão, à consternação perturbada da multiplicidade. Da complexidade revirada sobre si mesma numa confusão de interior e exterior, contínuos. Interior e logo já exterior sem transição. Interior, exterior. Uma coisa e uma outra coisa nela ou para além dela. Alternados só pelos pontos de vista dependentes do tempo que não os pode fazer coincidir. Como Escher.
A vontade de escrever as coisas todas. As pequeninas sobretudo. Contadinhas e esmiuçadas à medida que se sucedem. Na inteireza do tempo. Em tempo real.
Litanias. Melopeias monótonas. Às horas. Minutos. Segundos. Agora. Aqui. O abismo do infinitamente pequeno fragmento de instante, partido e repartido a tender para o nada. O inalcançável presente. Que passou. Porque saltamos do passado- futuro, para o futuro-passado. E não estamos num nem noutro mas de passagem. Fugaz.

30 Out 2015

Fios de seda, linhas da mão

Havia um roupão de seda preta. Cetim. Longo e fluido com um líquido suave e tépido. Que se colava ao corpo, escorrendo fresco e quente. Fresco quando estava quente. E cálido quando soprava uma aragem já fresca. Como a primeira pele sem outra. Seda antiga. De muitos anos.
Ele não podia ir-se embora zangado com o seu corpo, zangado com os seus lábios. Zangado com o seu amor. Tocado de uma zanga maior que o momento. Com algo que era outra coisa.
Ela viu-se subitamente descalça, envolta no roupão de seda negra, com os pés inadvertidos e imprevidentemente indiferentes, nas pedras escuras da rua. Escura, silenciosa, muda como ela. De corpo e alma. Porque ele não podia ir-se embora zangado. E ficar a ver da janela a fúria a apequenar-se rua fora. Por isso correu sem pensar em mais nada do que isso. Mas a rua estendia-se para ambos os lados, vazia. Mais vazia do que em qualquer noite em que ele não a tivesse percorrido. E agora, como se se tivesse evaporado à saída da porta. Mergulhando na inexistência impossível. Por haver ausência. E esta se opor àquela.
Tudo da seda para o interior era exposto em sangue, vísceras, carne e osso. O teatro anatómico que ninguém viu.
Ainda correu no sentido do trânsito. Talvez para lá da esquina o vulto escuro em fuga. Não voltou a vê-lo. Foi assim.
Ele virou-se com uma agitação adormecida e quase convulsiva, desarrumando mais os lençóis da cama. Uma mão pesada caiu-lhe sobre o peito. A sua, na reviravolta abrupta. Acordou alagado. Um curto pânico que logo se resumiu a uma angústia indefinida. A cama larga sem obstáculos para ambos os lados. Ninguém, como na rua ainda agora. Pensou em telefonar para ouvir simplesmente a voz que não estava lá. Talvez uma sonata de piano irreconhecível em fundo. Pelo menos. A voz de quem não sabia quem era. Ele. Não sabia. De quem era. A voz. Muda, com piano por trás. Nem o número para ligar de volta. A voz inaudível que lhe dizia: -Sabes quem eu sou. 25
Ela esperou que adormecesse e voltou. Instalou-se de novo a vê-lo partir no sono. Voltou a vê-lo doridamente partir no sonho dele. Sentada de lado. Virando-lhe as costas para sentir. Agora lentamente e de novo, desaparecer no ar. Inconsolável minuto sólido, gelado. Fim do tempo.
Ele acordou caído com estrondo de costas na cama. Uma espécie de explosão no interior do crânio, ou então o fim do mundo. E o impacto violento de todo o corpo como uma prancha vinda de cima e abalando fortemente a cama no impacto. Com cem vezes o seu peso, e cem vezes cem segundos passaram até a respiração voltar ao ritmo normal. Uma ténue figurinha, ou talvez só o resto de uma forma fluida a negro, ainda por uma fracção ínfima de segundo, deslizou-lhe dos olhos para o interior das paredes. Ou outra coisa qualquer. E de novo acordou nessa mesma sensação de ansiedade, nervosismo e desapontamento, embalado pelo motor do carro, noite fora, ainda longe de chegar. Ao lado ela olhava-o. “Olha para o caminho.” Disse. Ou talvez tenha sido: “Olha por onde vais…”. E ela tenha dito: “Sei para onde vou, sei de onde venho” Agora. Ou então: “Olho para ti e é como olhar para a frente e olhar para trás. Olhar para ti agora.” E vê-lo fechar irreprimivelmente os olhos de novo. Caído mansamente num sono de sonhos. Agitados aí. Virar-se na cama sem tréguas. Na cama vazia. Revolver a roupa até não restar mais nada a que se agarrar sobre o corpo. Um campo de batalha. Ela, que compõe os lençóis entre sonhos. Que mesmo aí pressente e verifica a ordem geométrica e rigorosa da dobra do lençol. Que arruma as roupas de cada vez que se vira.
Vira-se de lado, fecha os olhos e respira fundo. Espera que venha sonhá-la. Quando adormecer um sono de valeriana, um sono de camomila. Tília. Um sono de roseiras bravas. Pequeninas, de um branco rosado manchado e muitos espinhos quase invisíveis. Eram roseiras. E ele pensara que com as unhas lhe arranhara o peito. E ficou zangado para sempre. E acordou de novo alagado em suor e inquietação. Zangado. Mas o problema não eram os espinhos. Eram as rosas.
Ela percorre as ruelas que ladeiam os canais. Pequenos túneis que afastam os passos momentaneamente dos brilhos insalubres da laguna, e os voltam a aproximar inevitavelmente. O som cavo dos saltos nas pedras largas e incertas, por vezes a soar a oco. Uma porta estreita. Uma escada empinada. E o quarto. Ferver ervas num pequeno fogão ao canto. Acreditar, talvez, que lhe hão-de trazer algum entorpecimento. Suficiente se os pensamentos serenarem. Da janela olha fixamente as águas escuras e espessas àquela hora. Amanhã Tintoretto na Academia. Uma emoção rara por dia é mesmo assim quase demais. E uma noite de cada vez.
Cento e dezoito ilhas, cento e sessenta canais e mais de quatrocentas pontes são dados suficientes para desenhar uma carta, mas nunca o mapa dos sentidos. Menos ainda das emoções. Esse exige uma cartografia própria em cinzas e sonoridades cavas. Em ocres deslavados e rosas velhos aclarados pela poluição, e mesmo a do sentir tóxico. Uma cidade de uma beleza que rescende de reminiscências doentias de ausências e impossibilidades. Que pode até exalar aromas fétidos dependendo das marés. Porque de tão inebriante e onírica, só serve de cenário aos sonhos mais utópicos e paradigmáticos. Nada a menos do que isso. Ir a Veneza, mesmo que seja para chorar já é semear nas pedras antigas mais voragem de memórias. Cada canal percorrido ladeado a passos acariciantes, é como uma linha da mão. Um destino cumprido e traçado no desenho da laguna. Uma ideia que fica como uma camada ténue a somar a todas as que se pressente formarem a textura quase orgânica. Esta no mar ali ao lado e este no seu maior interior. Ser um mar interior a continentes deve ultrapassar em muito a beleza do azul que o define e atirar para um interior incorporal. Um mar interior também nela.
Sim. Voltar a Veneza sempre que se perdeu a vontade de sonhar. Como um reencontro em dois. Mesmo para ver partir alguém e muito mais para esperar. Dali do coração da europa. E o reencontro é caro de um preço semelhante ao que os antigos se dispunham a pagar pelo segredo da seda. Na sua rota desde muitos séculos atrás. A rota continental do norte, dos confins da Ásia, no mundo antigo. E, por onde entrou a magia da seda entra a magia do sonho. Feitos ambos de fios paradoxais. Finos, ténues, versáteis, luminosos, fortes e adaptáveis. Há qualquer coisa em comum, de líquido, nas cidades que se prestam ao sonho. Qualquer coisa de seminal, vivo. Que segrega como fluidos orgânicos, murmúrios e segredos quase palpáveis. Teias e padrões de séculos ou de instantes. O tempo em retrocesso, voluptuoso, luxurioso. Há tanto tempo que sonha ir sonhá-lo, a sonhá-la em Veneza. Isso nunca aconteceu. Fora do espaço que reserva a isso.
A seda é uma outra pele. Uma construção. Que aquece na sua exacta medida. Suficiente ou insuficiente. Com limites. Mas aquém deles é de um enorme poder sugestivo. Ao tacto. De um inefável conforto, quase consolo. Quase carícia.
Ele inclina-se com uma pequena guinada do volante e apanha o lenço que caiu. Seda de um amarelo saturado. E foi quando ela fez o gesto a pedi-lo que ele reparou nas estranhas linhas que lhe cruzavam a mão como um mapa. Como se o lenço fosse pretexto. Visão fugaz que não teve tempo de processar nem pediu para rever. Não ia entendê-las, de qualquer modo. Mas eram talvez o único chão possível. O mapa do chão. O tempo diria. Alguém disse: “Se chegares a onde vais não vais querer voltar aonde partiste. Se partires do sítio exacto chegas aonde vais sem erro e sem remição. Vai simplesmente, e retorna ao ponto de partida próprio todos os dias para voltares a partir de um lugar diferente. E chegas, se chegares com a coragem de quem não tem certezas. Chegas e partes. É o mesmo lugar. O tempo um círculo perfeito.” Leu nas entrelinhas da mão que se lhe expõe e foi suficiente. Mas era a mão dela. De linhas estranhas. Discretamente olhou a sua e caiu na sonolência boa que o embalo do rolar na estrada lhe insinuava nos olhos pesados, nos músculos cansados e na alma exausta de dilemas insolúveis. Mas de novo aquele roupão de cetim preto acusatório e sem permissão de tréguas.
Olha-o por detrás do espelho retrovisor. Do lado de cá do espelho. Reflectido no vidro. Na água. No copo onde bebe. E será sempre assim mesmo que o não diga. As pessoas não gostam de ser observadas.
Afasta-se da janela mas retorna irresoluta. De novo mergulha nas águas estreitas e misteriosas. Não sabe o que fazer ao tempo. A esta hora, o comboio em que viaja já chegou talvez a Trieste.

23 Out 2015

Nem a luz

Gostar de conduzir. Um paradigma onírico de infância que seria fácil de explicar. A ver com mais nada do que comigo própria. Nenhum intuito de poder. Nenhuma ilusão megalómana de mostrar caminhos, dominar existências. Conduzir como caminhar, num veículo como uma segunda pele. Mas também conduzir passos por entre as margens de indeterminação de alguns momentos, como modo de resistir à convergência excessiva de outros. Outra maneira de deixar passar o tempo. Menos sombria do que na noite e menos saída do curso dinâmico daquele, é caminhar pelo dia. Igual a deixar a noite caminhar por nós. Igual a não fazer nada e ficar simplesmente a imbuir-nos do fluir da vida como se nada nos obrigasse. Igual à noite na sua ausência possível do elaborar. Mas mais luminoso. Caminhar o dia inteiro como se mais nada houvesse. Uma coisa solar. Coisa racional. Que limpa de escolhos quotidianos e em que se depara com a inutilidade do sonho de domar a existência. Que é quem nos leva. Contrariar esta exaustão de tantas coisas que não são nada. Uma luta inglória, mas da qual não há que fugir. Algo se constrói, que não pode ser tudo o que o sonho e os compromissos delinearam. Mas o caminho é turvo, e demolidor, introduz com intencionalidade farpas que nos impelem para a frente. Que obrigam a correr. Por isso é preciso sair. Regularmente como quem leva um cão a passeio. Sair dos moldes diários e ensaiar um arremedo de liberdade. Limpar a alma de círculos viciosos, etéreas amarras, que marcam e ferem como cordas apertadas, a pele.
Este brilho mais suave da luz, quase de Outono. Sem a dureza do Verão que obriga a caminhar rente às paredes como na cidade da minha infância. Branca como não há outra aqui. Noutras paragens sim. Branca, incendiada, acesa com toda a luz possível e pequenas sombras de início da tarde. Caminhos escuros nas beiras de fachadas imaculadamente caiadas e com amor. Ano após ano o banho de luz de uma cal fina. E eu, meio estrangeira, caminhava entre casas de avós e tios-avós, renitente ao apagamento da sesta. E também orgulhosa de lhe saber os caminhos tão bem, dentro e fora das muralhas, como se fosse minha. A cidade de primas e primas-avós de nomes luminosos como Cândida, Aurora, Estrela, Felizarda, Esperança. E nomes de flores. Mas isso é uma outra estória num outro lugar de tios e primos.
Essa luz excessiva a compensar o facto de a cidade mergulhar na terra arenosa e plana, longe da água. Alguém me dizia, por uma vez dever tentar escrever algo luminoso. Recuar até alguma memória que o fosse. O que fiz. A luz, a luz e as suas sombras. Inseparáveis. Porque nem a luz. Nem ela na sua plenitude que tudo faz e desfaz, nos seus excessos, é dissociável das trevas que são o seu reverso.
Como fugir aos cantos escuros das coisas, sem uma dose impensável de distância anestésica, e como abstrair-me do olhar que tenho sobre os limites. Meus e de outros. Como não reconhecer os lados de trás, mesmo das coisas mais luminosas e como não temer o dia que ainda se insinua, e já é definido por um esboço incontornável de premeditação. Fazer minhas, realidades alheias, sentir com tristeza o evoluir inexorável de um comboio que irá para além de mim e ao qual a minha indiferença é apesar de tudo uma impossibilidade. Como?…
Aquilo de que quereria falar, é da luz objectiva, que incide nas coisas e as dá a ver. Da luz que lembrei ao desfolhar esse pequeno museu de memórias. De cidades. Da luz que ilumina fisicamente e apaga os fantasmas da noite. Da luz que é estar aqui e não debaixo de terra. E que, pouco ou muito, tem que ser estímulo prosaico e suficiente.
Memórias lá muito atrás, parecem estar lá em baixo. Longínquas e muitas com esta luz de Évora sempre. Mas tantas sombras inerentes. A infância não é paradigmática senão pela completa abstracção de tempo passado e futuro. Para além disso tem cores tão sombrias como pode ter qualquer outro momento da vida. Tudo o que lembro está envolto numa luz. Diurna. Ou na sua ausência, numa penumbra suave, ou numa quase escuridão de onde se autonomizam formas essenciais. Daquelas que não precisam sequer de iluminação porque mesmo mergulhadas no abismo escuro, são alcançáveis pelo tacto. As outras que são imprecisas e talvez inexistentes, nascem da escuridão e apagam-se com a luz. Curiosa inversão de coisas. Claro que ela é o revelador. Mas tem uma consistência própria como se uma matéria têxtil que se estende sobre todas as coisas cobrindo-as de uma interpretação particular. A luz é amante táctil das superfícies e dos recantos onde se recusa a entrar. Ou talvez se esconda neles. Invisível e lúdica. É uma espécie de olhar irónico ou caloroso e sorridente a descrever tudo por onde passa. Gosto desta luz mais suave. Da mesma forma diferenciada a produzir brilhos nas transparências de cada folha fina de árvore.
O mais luminoso que encontrei, metáfora dos passos que quero leves. Há na matéria orgânica que nos compõe uma formação, atávica, genética, de apelo à sobrevivência. E à morte. Há dias em que não sei viver, para além da inércia a que não consigo subtrair-me, excepto na escolha radical entre luz e sombra. O tudo e o nada que gere e gera esta página da vida, noutros dias em cinzas, hoje entre a luz e a escuridão total. Quando as margens são as do abismo , não há meio termo. Vida e morte andam por aí.
O que sinto, queria, prefiro nessa outra língua mais redonda, sucinta e suave. Lost. No demasiado conhecido. Sinto. A razão a encaminhar passos surdos, que se quereriam perder porque essa é a metáfora do momento. A da luz, senhora das mais ricas e essenciais conotações. Vida, saber. E os seus contrários, sem os quais não há sentidos tão densos.
E todos os caminhos que os meus passos ensaiam acabam por ir dar ao rio. E o rio, são os dias líquidos a correr. O segredo é não definir uma geografia possível, não definir um limite e não ter objectivos. Mas há uma inclinação que faz resvalar mesmo a partir de dentro para o rio. Não saberia viver numa cidade interior. Só à noite e mesmo assim sabendo-o ali mais abaixo. Noutro tempo, em Macau lá longe, no primeiro ano todas as manhãs, muito cedo, descia da Penha em direcção ao rio, uma enorme mancha lisa de um branco prateado, sem o mais leve irisado, da mesma cor do céu, mas com um brilho ténue e a mesma mansidão alastrada à cidade nas imediações, quase sem cores para além dos cinzas suaves. É como o lembro de então. E desembocava na baía contornando-lhe o recorte que já não existe, o mais possível encostada a ele. As árvores de S. José, os homens dos passarinhos contemplativos. Até que, mais à frente tinha que inverter para dentro da malha urbana, para chegar ao meu destino. À noite a mesma coisa mas de noite. Aulas nocturnas, então. Meia hora para lá e meia hora para cá.
Três cidades. E uma quarta em que nasci por acaso e que visitei miúda, naquela curiosidade afectiva de ser dali. E com a megalomania inocente de criança, orgulhosa de esta ter nada menos do que as portas do sol. Os socalcos sobre o rio um pouco assoreado, pequenino ali, e que eu não entendia como se tornava enorme aqui mais abaixo. Olhei-o como rio-criança. E áquilo a que resumi a minha cidade de nascença, com um nome luminoso e uma amplidão de vista mesmo de fora que é só o que recordo, uma semelhança lírica com a cidade perdida dos Incas. Fantasia curta e maravilhada de pré-adolescência. Analogia feita mais tarde, certamente mas ainda com a mesma ingenuidade. Cidades brancas como a luz. Lá atrás. Num ângulo particular, uma hora do dia e da memória, uma estação do ano e da vida.
A luz, que resiste indecisa entre a sua natureza simbólica e a sua natureza metafórica. Falar na luz e no seu contrário, a sombra que dá existência às coisas fugidias, irreais e mutáveis. Segundo a sabedoria dicotómica oriental, o estudo das sombras é o yin, na base da geomancia antiga e portanto da orientação. Ao contrário da conotação ocidental com símbolos do mal, da perdição e da morte. Nos evangelhos, como no Corão, nos textos taoistas, ou textos filosófico religiosos budistas, sempre a eterna e universal oposição entre luz e trevas. Figurada poeticamente no ocidente por aquela entre anjos e demónios, ou na China pelas influências celestes ou terrestres, sendo que a terra designa as trevas e a ignorância e o céu a luz e a sabedoria. E são da mesma natureza, fazendo parte do mesmo caminho de busca do conhecimento. Tal como na gnose ismaelita a oposição é a do corpo e do espírito, princípios luminosos e obscuros coexistentes no mesmo ser, a dualidade Yin e Yang chinesa em que em cada um contém traços do outro. No Islão é espírito. Segundo S. João, identificada ao verbo. Este simbolismo da luz-conhecimento, sem refracção, ou seja apercebida sem intermediários deformadores e por intuição directa, define o carácter da iluminação iniciática. Esse conhecimento imediato, que é luz solar opõe-se à luz lunar, que sendo reflectida figura o conhecimento discursivo e racional. A luz sucede às trevas tanto na ordem da manifestação cósmica como da iluminação interior. (Post tenebras lux)
Por isso ver a continuidade dos dias com a sua enorme carga de obscuridade e de desconhecido. Ao invés do desalento imiscuído na certeza da infelicidade, da configuração de uma linha de vida à luz de um olhar fatalista, em que o desenho esboçado parece fazer antever com toda a nitidez a perpetuação dos motivos que nos tolhem. E do saber, fazer parte o enorme quinhão de ignorância como forma aberta. Só assim suportável caminhar até ao dia seguinte. A primeira coisa pela manhã, é lavar o rosto do torpor do sono, da má vontade de acordar. Uma frescura boa para recomeçar, e no caminhar lavar também a alma das marcas de todas as certezas demolidoras. Diluí-las, no olhar para as coisas de sempre mas sempre outras, as mesmas coisas como a mesma água fresca da manhã. Tudo igual, mas subtilmente como se fosse o início de todo. O mesmo brilho da luz nas coisas, a mesma cidade, o mesmo rio, a mesma pessoa. Outro dia. E o espaço vazio para algo diferente se aconchegar no seio de tanta mágoa acumulada. E pensar que desistir, só ontem ou amanhã.
Se muitas vezes não se pode ver a realidade a uma luz diferente da que nos fere, há que não olhar. Fazer tréguas sem pesar. Perder momentaneamente o apego àquela melancolia ancorada no sentido de se estar na razão ao ser infeliz. Este país de gente a rebentar pelas costuras de não caber na ordem de penas que lhe cabem, de gente sem uma luz vinda lá de longe, não se sabe sequer de onde poderia sonhar-se. De gente que não consegue deixar de se permitir estragar o pouco de reservas de bem- estar, que fica doente também da mente, que se aliena no próprio circuito fechado da dor e da alienação, não conseguindo já destreza para encarar tudo como um mal de saúde entre outros mas que não precisaria de o ser. E a luz, que o é sempre e é gratuita, e já não conforta nem consola quem prefere sucumbir ao peso dessa inércia, a aceitar que ela pode ser adiada para o momento anterior ou seguinte. E entre eles algo de silenciosamente nulo a poder ser a trégua entre batalhas. “A existência não é mais do que um curto-circuito entre duas eternidades de escuridão”. Palavras de Nabokov. E quando parece não haver nada a fazer, há que caminhar entre as duas eternidades. De uma para a outra. Mesmo não lhes sabendo os limites, início e o fim. Mas entre ambas. No lado iluminado das coisas, mesmo que este se restrinja à crua realidade da luz solar, do dia claro ou ensombrado de nuvens. Sempre uma luz a opor-se às trevas maiores.
Deverá haver na felicidade absoluta uma demência e uma alienação egocêntrica que não é nem paradigma possível. Ter a luz e as respectivas trevas como reverso. E luminosidade garantida, essencial e diária. A possibilidade de olhar simplesmente este intervalo de luz real, sair em parte dos trilhos sofridos e viver à luz da metáfora inesgotável o momento raro de estar aqui. Raro e precário. Raro e breve. Olhar a luz e as suas revelações físicas, concretas e conhecidas, ou pequenas novidades no conhecido na sua incompletude, ou simbolicamente no muito que significa só por ser universalmente o registo de estar. De ver. Por agora e enquanto é possível. Não será talvez uma construção. Não num sentido sólido, estruturado e articulado. Tão só, talvez a desconstrução da inércia desesperante dos dias que se sucedem indomáveis inglórios e frustrantes. O poder não está do lado luminoso. As grandes decisões competem a quem tem as motivações mais sombrias. Resiliência é ser momentaneamente e serenamente feliz a prazo apesar de tudo. Por momentos. Passar é o que se faz. Deixar pegadas ou não, não é um acto de vontade. Nada mais forte visceral e absoluto.
Olhando o comum cenário lavado das contingências existenciais. As ruas, as fachadas de vidas sabe-se lá quanto mais difíceis, os caminhos urbanos, a opaca realidade das pedras, a depurada, embora por vezes sem futuro, premência das formas naturais, a alternância dos dias e das noites, da luz sobre as coisas e da morte sucessiva das mesmas. A luz. Enquanto o sol durar pendurado nos dias, é bom sinal. E caminhar. Como mantra ou desassossego.

28 Set 2015

Comboio da noite

E de novo chegou. Tão certa e tranquila como eu estar aqui. Mas quem sou eu? Isso não se sabe de momento. A esta hora já. No final das linhas talvez. Será sempre algo que não posso garantir. Mesmo no fim da linha final. Ficará como deve para resolução em outras instâncias. Mais tarde. Que fazer?
Mas ela chegou de mansinho como todas as noites, a noite. Com hora marcada. Arrastando tranquilamente o que lhe pertence para se ir instalando. Algum silêncio súbito, o das oito horas. O céu ainda claro deste lado. Esforçadamente claro, enquanto se acendem luzes interiores. Mas o rosto da cidade escurece de repente ensombrado pelo quase fim. Mais tarde reacende-se, acomodado já à escuridão. Instalada como se para sempre. E instalo-me eu também nela, finalmente apaziguada. Abro-lhe as janelas e entra como um gigante bom empurrando as luzes para os cantos onde se fabricam sombras todos os dias diferentes. Esconderijos gerados pela quotidiana mudança de lugar das coisas. Pela dança dos candeeiros que se revezam. Diferentes modelações. Pontos de luz baixa, misteriosa, ou brilhante e excessiva. Conforme os dias. As noites. E o interior ganha diferentes densidades palmo a palmo. E depois volta para fora como um enorme animal, selvagem mas manso, que prefere a frescura do exterior. Brigamos benignamente pela agenda que me rouba das mãos. A incompletude dos dias. Aponta-me um dedo inquisitivo, acusador. Mudamente pergunta se entendi. E deita-se ali fora ocupando tudo, preenchendo a minha alma de um conforto bom. Só de saber a sua presença. A cair no sono. A respiração calma. Acalma-me.
Quando já muito do que tenho para fazer não é possível. Tantas tarefas – que vida – mas tudo o mais que interessa pode finalmente fluir em liberdade. Condicional, é certo. Breve virá uma nova madrugada a pôr cobro a tudo e a obrigar-me a fugir para a cama. Fechar portadas para parecer de noite com o secreto conforto de, não o sendo, serem improváveis os fantasmas que me esperam quase sempre aos pés da cama. A que resisto virar as costas por medo. E o que fiz dela antes que se fosse, é variável. Por vezes fumo-a apenas. Estendo-a em quantos cigarros ali couberem. Colados uns aos outros. Há que tacteá-la cuidadosa mas intensivamente. Intencionalmente. A ver de que forma se apresenta. Tudo é possível da mais feroz borrasca em mês de verão, à mais terna e dócil passagem do tempo por disposições boas, cronometradas e sintonizadas. Pode vir como um veneno rápido que se tem de contrariar com uma solução quimicamente adequada. O cigarro com o gesto certo do queixo. Ou o ângulo do olhar esvaziado de conteúdo. Passivo e pacificado. Ou como um aroma ténue difícil de agarrar de perseguir, mas que é a revelação de outros momentos, na sua maravilha, difícil de agarrar e memorizar. À espera mas fazendo malas executando mil e uma coisas, gestos e sublimações até o derradeiro encontro. De hoje. Todos os dias. Ali está sempre com uma maquilhagem diferente e uma roupa surpreendente. A seduzir mas nem sempre da maneira mais fácil. Umas vezes, melíflua a fazer-se difícil. Outras, vem suave a ocupar pouco lugar, flexível e acalentadora. Mas a verdade é que sempre deixa espaço a um compromisso. Sei contudo que as negociações são truncadas. Ela é manhosa e por vezes, porque amiga, a sua dificuldade é pedagógica. Deixa-me sofrer um pouco até atingir o tal ponto de concórdia. E nesse ponto volta a crescer a sua identidade de animal gigante, benigno e adormecido. No meu íntimo sei como não há tempo a perder nesta negociação. Por vezes o tempo corre desperdiçado nela. 22
Porque mais tarde vem aí a aurora. Ou porque agora cai soturna a noite mas se reparar bem e sem desconfiança, com a mansidão sub-reptícia e transparente, de quem envolve na medida do permitido. Nem mais um grama de peso sobre a pele. Nesta féerie que faz estacar em desespero por não estar tudo preparado para a escuridão. Porque o céu é de uma imensidão azul, ou porque está pejado de nuvens fofas ou anunciando já o negrume nos seus cinzas pesados e que não chovem uma lágrima mesmo assim. Não gosto de ser apanhada por essas esquinas dos dias fora de casa. Às vezes corro contra ela quando se aproxima, como contra o vento. Na ânsia de, precisamente antes de chocar com ela, atingir a porta de casa e ver daí já como ela se instala ao meu redor. Depois. Nunca quero que parta. E cada vidro da casa, quando passo reflete uma amálgama diferente. Exterior e interior. Mas a esta hora, de todas fujo. Abro as janelas para ver para fora e para dentro. Melhor. Neste intervalo dos dias.
O tempo tem que passar e isso é bom e mau e eu não quero ter pressa. O tempo passa, o tempo pára e o tempo separa. Mas nunca fico à espera dela. Sei que é ela que me espera no combóio da noite. Aquele de regressar. Regressar a setembro com uma luz subitamente a baixar de tom. Essa luz que não me dei conta de ter ido amortecendo. Que muda tanto nas estações e na vida. Setembro, agora mais do que dois terços para trás. Do ano, também. Mas eu preciso de tomar todos os dias este comboio da noite. Para amanhã. Gosto de comboios e mais ainda deste, cujo movimento embalador é discreto, imperceptível quase. O caminho sempre variável na lonjura e duração. Shhh…só para quem entende esta solidão viciosa e plena. De gente estranha insone e renitente.
E está uma bela noite. Quase incolor, quente e leve de novo, há uns dias. Mas agora já fresca, e hoje acinzentada até. Clareando por efeito de um tapete denso de nuvens lisas que afinal derramaram uns chuviscos esparços. E umas súbitas rajadas de vento vindo não sei de onde que não perguntei. Ela dorme imperturbável. Mas não lhe importa a cor que se pode até inventar em azul nas noites mais negras. Mais tarde virá a quietude maior. E se o está é porque nela posso finalmente reparar, e se a sinto bela como se me apresenta, é da enorme elementaridade destes pequenos ingredientes. Dispondo os falíveis órgãos dos sentidos a absorver a calma que desce sobre o bairro, uma certa expressão do rosto em que tento diluir todas as crispações do dia, e uma dada disposição do corpo, ao conforto real deste abrandamento que antecede a paragem. Acontece ela ser bela como o é para mim. Dessas sensações como rotundas esponjas se filtra uma serenidade que se faz de esquecimento. Paragem. Anulação de tudo o que vivencial ultrapasse o limite apertado do momento.
Se pensar que estar triste é o simples estar sem euforia, e que, destituído da memória, o estar simplesmente, não é em muito diferente. Como é estar? E estar quando tudo se converte em desordem e é uma desordem a que se é estranho…e onde se tem que reencontrar uma linha própria para acompanhar sem mergulhar nela…e sem que ela desarrume por contágio a arrumação que houver por aqui…Ténue arrumação, que com a passagem do tempo parece tornar-se mais e mais incomportável. Os dias a imprimir desconsolo a um olhar que tenho dorido e acharia eu, sem culpa e sem magia. Querer fazer tanto e tudo cada vez mais por fazer. Mundo de desarrumos este. E tudo o que faço agora é no meio dessa desordem. Triste conquista. Aprender a desfocar. A esquecer todos os dias. O que vem e o que foi. E sair de novo amanhã um pouco limada das excrescências de hoje. Mas nem sempre com o mapa nítido à observação. Por vezes vejo e digo para mim que a minha alma perde forma. Estende-se e alarga-se em forma de picos que ferem para o lado de dentro. O possível alerta que o crânio não comporta e se expande numa respiração sem ritmo. A vida começou a cansar. Todos os dias. Talvez seja assim e por aí, que as pessoas, com a idade, começam a despedir-se suavemente.
Preciso de esvaziar alguns fragmentos de dias, flutuar um pouco por entre deveres não apetecidos nem queridos, quase sem pensar. Algo mais como um olhar inquieto sobre todas as coisas, um pouco como atravessar uma rua sem estar distraído, olhando para todos os lados mesmo sabendo de onde vem o trânsito…deixar-se arrastar pelo vento sem cair…fechar os olhos por um instante apenas… ter o suporte da memória arrumada sem mudar nada de sítio…não querer saber onde se quer ir, não querendo saber onde se vai parar…E planar um pouco nesta suspensão aparente entre dias. Mas, o tempo é voláctil. Como o álcool. Como o gaz de um isqueiro, que, utilizado ou não se evola lenta e inexoravelmente. Embora a velocidades diferentes num caso ou no outro.
E de novo vi o dia encher as minhas janelas de uma luz ao início lilás. Mas não tornou de todo mais nítida a minha visão das coisas. Um dia, vi uma gaivota descrever um grande círculo aqui por cima e parecia cor-de-rosa. Mas eu sabia que não era cor–de-rosa e isso eu entendo. Não houve intencionalidade em apresentar-se-me assim. A magia, disse Novalis, é a arte de utilizar, à nossa vontade, o mundo dos sentidos. Poderia estabelecer então, para meu conforto que a gaivota era de facto daquela cor em que a vi, já que não voltou para nela comprovar a ilusão pontual do meu olhar…Que a pizza no prato da mesa ao lado era prateada e que aquela árvore estava, de facto, sobre o carro parado na rua. Fixar um olhar único sobre as coisas por momentos.
Então algo pode ter acontecido sobre a minha mesa, a tinta. Posso deitar-me feliz e com a madrugada. A fugir dela, de facto. Ou não. E do mesmo modo ter atravessado tranquila um espaço enorme de vida fugindo a recordações e sonhos – os de antigamente – ou então ainda mergulhando nelas como num privilégio. E num ou outro como um sonho que é.
O amanhecer que, eu odeio me apanhe na cama acordada e sem sonhos, e mais ainda fora dela. Ali preciso de interpor o sono possível. É o reinício que eu temo. Sente-se na qualidade do silêncio. Que se torna subitamente total. Um hiato nítido. E no espaço de um minuto ínfimo, dispara o dia novo.

18 Set 2015

Face de rosto

Não acabou. Outras vezes, podia dizer: inacabou. Mais definitivo talvez, nítido até. Tactear. Lentamente. De início com muito cuidado porque num dos cantos dói. E no outro falta. Branca, texturada. Cheia de vazio. As fibras com rasgos de brusquidão e uns miolinhos regulares do corte. Sem instrumentos mais do que as mãos. As duas. Simétricas e leves, levemente cegas, mesmo. Voltadas para baixo, primeiro que tudo. A rugosidade áspera. Fresca. Que nada passe daqui para lá. O contrário sim, procurar. Ou esperar. Depois unindo levemente os dedos. Revirando-a à procura da interrogação certa. Do que é exacto na impossível exactidão daquele momento. Circunvoluções invisíveis mas que encerram tudo o que pertence. Já. Tudo está sempre. Naquele canto uma palidez solar. Bem no meio que não se encontra, fugidio como as linhas a partir de um ponto qualquer e que param só onde já é tarde, às vezes. Recurvadas. Em formas feias. Erradas. A destruir. Como pensamentos inapagáveis. Nada metafísico nisto. Na lua sim e não. Só nunca acabou. Nunca terminou o desconhecimento e nunca se esgotou o medo. Do dia do não encontro. Dos dias dos não encontros. Que não tendo uma conta certa espreitam o erro da abordagem. Por vezes há que fingir enganar essas invisibilidades e começar pelo erro. Brutalmente mesmo. O olhar é socrático e reage por uma vez, arquitectando um argumento. E tudo rola a partir daí. Montanha acima, primeiro. Bem ou mal. Recomeçar. Muitas vezes recomeçar. E de novo. Sempre com o tacto nos olhos. Espiar o desconhecido que se infiltra. De onde veio e para que tende. Tudo por fazer. Tudo magicamente possível. Olhar um foco nítido sobre o vazio. Em cheio, ali. A vencer o medo. Inacabado. Inspirar o prazer do tacto. Devagar.Anabela Canas
Não. Nunca acabou o medo. Tactear lentamente. Com dedos leves, quase insensíveis. Uma linha, uma curva. Mandíbula humana. A textura áspera a recobrir a superfície lisa e quente estruturada por dentro. Cheia de desconhecido. Ou com as costas da mão. E depois a palma. De início sempre com o cuidado do não saber. Mesmo dos olhos que devolvem a carícia ou a interrogam. Tudo está ali. Onde magoar. Também. Onde se ilumina sem saber de onde. Quando. Como. As duas mãos. Em concha. Simétricas sobre a simetria. Por vezes encostada com força e a pender sobre uma só das mãos. Essas nada incorruptíveis. Maculadas de interrogações. A rede da textura mais complexa do que em qualquer brancura lisa ou rugosa. Logo ali atrás inacessível. Fortaleza exposta. A defender-se ferozmente. O que belo, transcende. Logo por isso. E em fuga. E ainda mais cheio de erro. De manchas ou invisíveis linhas. Enoveladas, centrípetas, quebradas, atadas em nós. Ou de marinheiro. Ou soltas e sem fim nos limites do horizonte. Desfiadas. Por vezes rectas quase cortantes. Não. Nunca se esgota o medo. Do dia, aquele dia do não encontro. Que é impossível de recomeçar. E poucas vezes a partir do erro. Dizer que inacabou seria uma forma curiosa de sugerir um fim do que não foi. Mas o medo. Há o interior. Fechado. Escuro sempre por comparação. (Falava do exterior à superfície. Mas também…). O resto a superfície. Cerrada também. E as questões a mais. Intrusas. Distraem sem benefício. Crescem, absorvem, sufocam. Tudo por saber. Magicamente impossível. Olhar desfocado. Entre cá e lá. Pelo temor. Sempre inacabado. A emoção do tacto. Muito devagar.
Saber-lhe os movimentos antes de ensaiados a tinta. Mais ou menos. Depois. Como passos de dança que podem falhar por um pequeno deslize da respiração. E preferir o improviso ao esquema rígido e prévio. Centrar.
Lembrar os gestos possíveis, mas não saber se serão desenhados. As mãos, outras mãos, e os olhos, outros olhos. No lugar de encontro. Ou desencontro. Ontem ou amanhã. Agora. Ou não afinal. Não era, e assim, nunca foi. A pele dos lábios irrepetível. E a densidade. Tudo. Abandonar o possível. Roupas. Concentrar. Esquecer.
E as linhas entretecem por fim uma teia a fio negro fino. Outras brancas no branco, a indicar o sentido já. Urgente. A curvatura, a intensidade, o vazio, o cheio. Uma inércia boa. Ainda com desconhecido mas a desvendar-se já como um caminho a sair de um nevoeiro compacto. Também a partir daí é possível o afago, dos tons, de pequenas traquinices de emoção para iludir a confusão do real. Ou mecanizar ritmicamente um gesto, formular uma textura já não física mas fictícia. As formas a oferecer outras. A ganhar espaço para lá e para cá. Ilusões. As mãos já aí esquecidas de si. Os olhos também. Nada mais do que o filme a revelar-se a pouco e pouco. Encruzilhadas para parar e pausadamente reflectir o curso.
E os gestos desencadeiam às vezes por fim um encadeado conhecido. Uma renda ponto por ponto. Linha branca, esta. Até ao segundo a seguir. Tudo o resto ainda por detrás de uma névoa de risco imprevisível. E dai uma inércia boa. Sem interrogações agora, mas sem certezas também. Ou o repouso esquecido de tudo. Nunca foi. Segundos, talvez. Tudo o resto talvez igual ao acima descrito.
Não a face.
Papel, fino e transparente ou folha espessa com duas faces. Só uma de rosto. A do desenho do rosto. Vice- versa. Virada, de novo as possibilidades infindas do branco. Já a face do rosto, de espessura maior, mais densa. Opaca. Como a do rosto do desenho, a que é impossível virar do outro lado. Detrás do rosto. A que não tem outro lado, aí o universo inteiro, redondo de escuridão. Caminhos infinitos do negro. Um mundo de trevas e luzes, convexo, pejado de sinais furtivos, equívocos. Sinais. E indizível.
O rosto.

4 Set 2015

Cartografia da memória

Acontece por vezes um isolamento completo e agudo no momento que passa de mansinho e quereríamos parar indefinidamente. Ou nele afinal e simplesmente voar sem escolhos. Num pequeno vôo planado. Uma alameda pontiaguda de acácias amarelas. Muitas florinhas miúdas e ainda frescas, já a atapetar o chão como uma neve fofa. Aquela luz fortíssima do meio da manhã ou do início da tarde, filtrada pela folhagem abundante, fina, alta, transparente quase. Confundindo-se as partes lá mais acima num todo rendilhado de luz e sombra. Árvores antigas, ou simplesmente maduras e pujantes. Bancos de uma pasta cimentada quase a parecer pedra orientados no sentido privilegiado do olhar. Coisa incomum. Uma frescura branda. Um chocolate quente de máquina, miserável a parecer de festa. Há uma- várias- esperas nisto, mas o momento breve contém a eternidade e o esquecimento. Como se todos os poros se dilatassem de prazer e algo nisso se apaziguasse. Como se para sempre. Encontra-se um lugar uma vez por outra se não caminharmos de olhos fechados. Ou então pelo contrário. E é possível repetir aquele chocolate de máquina, e com ele o mesmo banco de quase pedra, e ali a mesma vontade de olhar profundamente para cima e em frente no mesmo deslumbramento da rara perfeição do lugar e do tempo com ele. E ser esse o momento que a idade sentida parece ser a maior de todas alguma vez alcançadas. Por excesso, mas simultaneamente leve e redimida de todas as mágoas sentadas no outro banco lá atrás. Essa luz a lembrar os pinhais da infância naqueles intervalos de almoço. De praia. Pesados de uma sonolência boa e incontornavelmente a desembocar numa sesta quase mais ligeira do que ela própria. Algo ensurdecedor nisso. Talvez os insectos, o calor, o ardor da pele e o cheiro do sal, que deixava linhas de secagem a desenhar formas imprecisas. O cabelo empastado de mar. O sono perfeito que ficou lá atrás. Esse. Muito mais esvaziado de monstros e fantasmas. Que por vezes crescem e proliferam com a vida adulta ao invés do que se esperava.
A natureza viva e inconsciente de que nela já existe um momento futuro em que já não será.
Vivo rodeada de naturezas-mortas. Tudo o que produzo. Tudo o que me cerca como olhares devolvidos ou pistas para o deslindar de um qualquer crime existencial. Sempre dei esse valor de eleição a coisas mbuídas de capacidade invocativa. Memórias que queria deixar inscritas para sempre. Angústia de não as poder querer ver diluídas pelo excesso de outros dias. Espio-os por vezes, muitas vezes, questionando a validade dessas memórias ali presas às vezes por um fio ténue. Deixar um objecto inocente, um copo, uma chávena, uma caneca, por cem dias. A fingir-se esquecido. Num primeiro momento só por incapacidade de tocar e remover o vestígio sacro de um fragmento de tempo. De vida morta. Ou cento e sessenta. E ir medindo ao longo dos dias, numa espécie de estudo diacrónico. Uma cartografia do sentir, não esse, mas a capacidade que emana do objecto de reter com igual ênfase, a persistência da memória. Perscrutar num olhar intencional ou furtivo, o vacilar das recordações que dele se vão desprendendo. A morte indecisa delas. O falecer daquele sopro sobre um chá ou um café escaldante, ou do respirar sobre o aroma de um vinho. A falta de intensidade que se instala. Que era já, à partida uma natureza sem vida. Quando o tacto se desvaneceu. Parou o seu movimento no ar. Estacou num ponto preciso da mesa. Podia ser para sempre. Até àquele dia em que alguém por engano deslocou numa pequeníssima rotação depois de erguido o objecto. Misturou vestígios dos seus dedos talvez invisivelmente a substituir, sobrepondo-se-lhes, os outros. E tudo transtornou a experiência do fenómeno. Delicado, impermanente fora do ângulo do olhar.
Quando mesmo a semana passada parece ter sido há uma eternidade de que ainda não limpei os cinzeiros, e duas canecas, um copo ou outra coisa qualquer, jazem sobre a mesa em memória de um momento numa outra vida. Roupas revolvidas e num momento único misturadas sobre uma cadeira, no chão, e já memória. O tempo é uma coisa estranha e a vida é de uma preciosidade esquiva, complexa e arrepiante. Não acredito no destino porque não acredito em nada. Mas talvez seja por isso que acho que tudo é possível. Mesmo quando envolto numa estranha névoa de irrealidade. E o que jaz na memória é irreal. 19
Por isso e pela minha paixão por mapas, sigo com os dedos arrastando neles os olhos, essas linhas. Cartografia da memória. Percorrer-lhe mentalmente o desenho, as imprecisões os relevos, as linhas de cota negativa, ou não. As manchas de vinho ou de água, lugares esfumados nas dobras de muito tempo ou o rendilhado de bichos famintos do papel. Deixar coisas pousadas num lugar preciso, mas como o parêntesis sólido entre o já nunca acontecido e o nunca mais, e lentamente ao longo dos dias, sem data prevista para um fim, observar aquela disposição da memória, esquiva a ser transportada para detrás de uma estranha poalha de inexistência. Sentir obscurecer aquele já de si vago fulgor de apego a um momento do real. Ver, com intermitência desaparecer o poder mágico das coisas. De refazer a materialidade de um gesto no tempo. Numa rota pontualmente paralela à do sentir, mas que um dia diverge lentamente da deste. Para não mais se cruzarem facilmente. Excepto porque ocorrem curvas e bifurcações que podem fazê-los cruzar em zigzags.
A arte perdida da natureza-morta quando lidamos com demasiados registos virtuais. Coisas e pessoas. Da natureza da memória, na verdade.
Lembrei-me de Morandi e das suas naturezas-mortas depois da metafísica. Os seus objectos subterrados em esquecimento e pó. Em tempo e vestígios dessa poeira cósmica que tudo anula, tudo ataca de uma uniformização que é talvez afinal harmonia com o todo universal. Atenuadas todas as particularidades e infrutíferas tentativas de individualização numa identidade única. Uma camada que suaviza e dilui contrastes. O tempo que pára ou que percorre ao seu ritmo as formas, transportando em si e sobre elas esse desaparecimento que é morte ou familiaridade harmónica. Vindas do pó para ao pó retornar. Quando se rendeu ao puro lado físico das coisas comuns, num discurso poético da simplicidade, humildade e elegância intelectual. De uma subtiliza silenciadora e algo surreal. O uso de muito pouco, em termos de cores, formas, estrutura compositiva. E embora não os particularizando, estes objectos não perdiam o realismo. Voltar sempre, de novo e de novo aos mesmos objectos que morriam uma e outra vez arrumados ou esquecidos no atelier. Omnia mors æquat. Talvez. Envoltos em silêncio como foi a sua vida e a sua obra, e numa luminosidade angustiante. Ocorre-me Adorno quando defende uma arte radical, talvez num outro sentido completamente divergente deste, austera o bastante para não se comprazer com o seu próprio espaço de encantamento mágico. E quando afirma que as obras de arte vivem da morte. Se nutrem dela. Morte e silêncio que se transmutam em reconciliação.

Recorrendo ainda às palavras de Adorno, deslocando-as do contexto vasto e complexo da sua teoria estética, que importa até se adulterando-as – a linguagem produz como mata sentidos – relembra-se como este considerou as montagens surrealistas, colagens ou simples associações de ideias, associações livres, a essência das verdadeiras naturezas mortas. A reconstituição do real, salvando-o e recompondo-o da obsolescência original e inevitavelmente corrosiva de qualquer apropriação do natural. Cria a verdadeira natureza-morta. Assim, se do olhar de um personagem retratado emergir um teclado de piano, a salvação da realidade dá-se na introdução de um novo conteúdo, como uma longa cicatriz transversal. Também à consciência. Também marca de dor na carne, nos olhos. Rasgão irremediável. Salva-se o tempo. Então. Talvez na metafísica. Mas só assim.
Mas pensar que seria então a natureza-morta para além de coisas inanimadas ou de que a vida se desprendeu, mesmo o retrato de alguém. Obsoleto por natureza a partir do doloroso constatar de como foi paralisado abusivamente num tempo que de imediato deixou de existir. Como uma espécie de nó, no fluir do tempo. Mas esse gracioso texto: Do tirar polo natural, com as palavras de Francisco de Holanda sobre o retratar ao natural, significando de observação e não de memória, enfatiza a qualidade evocativa do mesmo. É o que faço. Tirar respeitosamente do natural. Inúmeras vezes do natural da memória, se isso existe. Ou fazer disso um espelho abusivo. Ou num acto de inveja. Para ver sempre. Nada tão real como o que naturalmente se apresenta. Esse real tão animal e tão mineral. Tão fluido e orgânico ou cristalizado, incorruptível ou inalcançável. Perdido na estrutura cristalina da imagem-morte- que encontrou em definitivo um dia. Como somatório de todos os outros. De todas as pressões, tensões, das infernais temperaturas e da movimentação das placas tectónicas a ajeitarem em si o universo por uns tempos. Tão lá atrás. Ou um referente finalmente liberto.
Nas palavras de Hegel: “A única obra, o único acto de liberdade universal é, então, a morte, uma morte que carece de dimensão e de realização interiores”. Essa morte de que sofrem os que se vêem retratados e que faz tantas vezes temer o olho vítreo de uma câmara.
Olho de novo para cima. Vem a memória de outras acácias. Mas essas rubras. Olho para estas árvores. Gosto tanto das árvores. E no entanto parecia talvez que falava de uma outra coisa.
Há qualquer coisa naquele imparável e subtil movimento das folhas, que se propaga e agita o universo até longe. Como aquelas cadeias absurdas de acontecimentos irrelevantes em si, mas que deslocaram o curso das coisas imperceptivelmente. Exponencialmente. Um segundo em que se fez ou pelo contrário se hesitou numa acção, desmultiplicado a partir daí todas as possibilidades de divergência. Ínfimas. Radicais. O que somos como produto de pequenas irrelevâncias. Também físicas e químicas. Sim acredito que há uma química que se altera por acção de determinadas lágrimas na sua específica composição que difere de outras lágrimas e que reacomoda o universo microcosmicamente falando. E uma longa expiração agita a folhagem, faz baloiçar subitamente um passarito nos ramos que talvez não pensasse levantar vôo naquele momento mas o faz. Uma reacção em cadeia. O início de uma corrente que, se estende sei lá de que maneira e até onde.
Aquela leveza com que a folhagem se agita, num marulho quase indistinto. Eu sopraria uma delas no desvelo de a adivinhar levando para longe uma espécie de beijo, como aqueles selos do cavalinho com a sua delicadeza de folhas. E estas com a possibilidade deles, de guiar cartas.
Voltar ali por razões que não são as deste sentir. Mas acontecer de novo. Como uma peça bem ensaiada. Levar-me até ali. Sentar-me no mesmo banco. Olhar para cima e fechar os olhos a ver. Uma disposição boa. Mais centrada, intensa e límpida do que a da própria alegria.
Ou olhar para baixo, para a textura ínfima deste banco, cheio de vidros ou cristais ou de minérios inidentificáveis. Cores e brilhos que aparecem e desaparecem na oscilação do olhar. Tão desprezáveis na sua escala pequeníssima que se furtam à sua vocação de espelhos e pacificam a tentativa ou a irreprimível tentação de um olhar sobre si. Liberta-me da eminência de me encontrar por reflexo. Na pequenez destas luzes. De nelas ver. De soslaio ou intensamente. Os vários infernos. E um desses dias um pequeno papel. Colado ao banco talvez por alguma humidade nocturna. Como uma mensagem desesperada e amante. Um escrito com algumas florinhas amarelas poisadas. Podia ser eu. Podia ser. Essa pretensão de nos encontrarmos nos outros quando nos excluem por ser outros. Por natureza de alteridade. Posso até ter sido eu. Eu já tive vinte anos. Por vezes.

28 Ago 2015

Do horizonte, quase nada

Eu nasci no mês de Agosto. À noite, quase num dia de semana mas ainda nos restos nocturnos de domingo. Quase em noite de lua cheia. Tudo isto deve ter moldado a minha alma melancólica mas tão precisada de luz e calor. E da liberdade que, veio a verificar-se, só me espera neste mês do ano. O mês cheio de dias que rondam o dia em que nasci, desarrumação que, embora só a mim, ainda hoje me perturba.
Esta é a semana do meu aniversário, rodeada para trás e para a frente do mês que sempre me remete para o lado tormentoso que me caracteriza. Vim à luz com um barómetro e um termómetro e vários outros instrumentos de medida exorbitantes para os quais passei todo este tempo, a ganhar aptidão para gerir os dados. Que me dão a percepção do facto de ter nascido, como um enorme turbilhão da natureza, uma tormenta de vagas alterosas da qual só eu sinto os efeitos e em particular nesta altura do ano. Abala-me, desorienta-me, derruba-me a partir do interior mas como se de forças naturais e com base nos elementos exteriores a mim, se tratasse. E ainda estivessem em rebuliço.
Quando é que isto começou, lembro-me muito bem. Quatro décadas lá atrás. Numa noite em que depois de uma festa familiar improvisada para celebrar o meu dia, deitada na cama me desfiz em lágrimas. E foi a primeira vez. E entendi. A falta de sentido que me iria assolar para sempre, como a muitos outros, e que se torna sempre presente infalível e pontualmente pela aproximação daquele dia. A angústia da vida a termo indefinido. Rilke disse que só a consciência da morte nos permite valorizar as coisas da vida, o amor. Terá razão em muitos dias do ano. Nos outros, será sempre every other day. Neste, muitas vezes ou sempre, só o atordoamento torna suportável o paradoxo por definição que é a vida. Em que existimos realmente e apenas no momento presente, não quantificável em qualquer tipo de duração. E para morrer. Vivemos no nada e partiremos para um nada mais denso que o nada. Não conhecendo então o paradoxo do niilismo universal, esforço inglório, foi o que pensei já nessa altura, em desalento.
A diferença é que, nessa altura e provavelmente sem o saber, eu me sentia o rio. Enquanto hoje, muitas vezes sou mais a margem e sento-me muitas vezes simplesmente na margem. Deste Tejo enorme que banha a cidade e desagua mais à frente. E de outras, acompanho-lhe o caminho final até à foz, e nela antevejo o que me espera. De diluição. Ou fixo-me na linha do horizonte a mais circunstancial de todas, intangível e fugidia. A fuga para a frente.
E a maior crueldade ou partida da memória, reside no facto de nunca se poder voltar ao lugar de onde nunca se partiu. Mesmo querendo desesperantemente. Não parti daquele ser que nasci, mas também não posso voltar a ele. Como se nunca tivesse existido.
Tudo tão fragmentado neste meio da vida. Meio como possibilidade teórica. Terei sempre que reconhecer que pelo menos um terço desse todo, será improvável. Um século de vida, é o limite daquilo a que na melhor das hipóteses, mas assustadoramente também por vezes na pior delas, um ser humano pode aspirar. Na verdade, as probabilidades estatísticas dizem-me que terei vivido já dois dos terços da vida.
E naqueles dias em que o maior anseio de alma é mergulhar sem retorno nas profundezas escuras do oceano, poisar no fundo e encalhar aí como um velho galeão, o único cuidado a ter é mantermo-nos cuidadosamente nas margens. De tudo. Não vá o elástico que nos catapulta e reenvia ao lugar soltar-se. A corda em que caminhamos em pontas, quebrar. E o abismo que visitamos, guardar-nos para sempre.
O abismo a simbolizar a profundidade interior do homem, a sua apetência e medo do conhecimento de si, em quem se reconhece uma necessidade de transcendência e em que se auto-representa por vezes como imenso, o que leva a uma outra consequência simbólica quase simétrica – O ser como símbolo de abismo. E a partir deste, a possível validade das formas enquanto símbolos do ser – presente na contemplação – do seu dinamismo psíquico, ou ainda do abismo como projecção ou símbolo deste. E porque o ser é redondo, redondas são por vezes as formas de lugares abismais…
O lugar sem fundo ou o não lugar.
Ou o vazio como lugar do todo em devaneios de infinito…Tantas citações de Nietzsche possíveis tantas páginas depois e vejo-me de novo à beira dele, de tão vasto e já escrito. Sinónimo de voragem, se se lhe der o poder da vertigem. Mas tirando os grandes abismos da terra, geologicamente falando, é sempre do ser que parte a inevitabilidade da formulação do abismo. Na sua irreprimível dimensão psíquica, e no seu alternado dinamismo no sentido do longínquo aparentemente exterior, reverso das profundezas íntimas de penoso acesso. Como sempre chega-se à ambiguidade inter-permutável dos opostos. O que é amplo e o que é confinado. O que é exterior e o que é profundamente interior e se vê no entanto de fora, à imagem de tantas metáforas nietzschianas. O que é o centro, a forma redonda centrada e centrífuga, e o que é a transcendência de si. E a instabilidade destas dinâmicas. Ou ambos nas duas extremidades de um elástico. O permanente desenvolvimento de um dinamismo psíquico inerente ao estado de consciência à imagem do movimento de um elástico em diferentes graus de tensão. Concentrado e identificável à forma circular. A imagem do elástico ou a vocação pendular da introspecção. O retorno como reflexo, e o retorno para detrás do olhar.
Um sentimento de que inevitavelmente o ser se confronta com uma dimensão interior de si que é abismal, em paralelo com uma visão do que é exterior a si – o universo – igualmente abismal, e como tal assustadora, a atracção para mergulhar nessas dimensões que o transcendem, e que é compulsiva, parece espelhar a absoluta consciência da sua finitude.
Mas a finitude pode ser apresentada como um sentimento incontornável enquanto contingência existencial embora não desesperado, na medida em promete o mesmo infinito que recusa. Assim, se por um lado o saber revela ao homem dados que lhe são de algum modo exteriores e anteriores, que o parecem situar como nada mais do que um “objecto da natureza” ou “um rasto que deve desvanecer-se na história”, por outro lado é no conjunto das positividades empíricas do homem e limitações concretas à existência humana – o corpo na sua espacialidade, como modo de ser da vida, o desejo enquanto “abertura” como modo de ser da produção, e a linguagem, veículo do pensamento suportada no tempo – que simultaneamente se revela a sua finitude mas também a esperança ou a superação desta mesma finitude. O corpo, porque na sua inexorável relação diária com a morte, que imperceptivelmente o consome, precisamente se apresenta como o veículo para a vida empírica, o desejo porque através dele o homem se relaciona com os outros e com sistemas de produção, mas também é através dele que as coisas se tornam desejáveis, a linguagem, porque é suportada pelo tempo, que simultaneamente a corrói e desgasta, mas também a estende para lá do dominável. Nestes fundamentos enraíza-se o sentimento de finitude, mas é também neles que o homem se transcende.
Por que terá o homem atracção pelo que é profundo, imenso ou mesmo infinito, a simbologia do abismo como estrutura de localização do eu individual, ou uma espécie de topografia do ser auto-consciente, o desconforto ontológico face às coordenadas espaço-tempo com que o ser se debate: onde habitar, como se situar, onde se refugiar, são as questões que se colocam neste trabalho.
Porque, no que é profundo dentro de si, no que é imenso dentro e fora de si, encontra os fundamentos da sua angústia fundamental, da sua finitude. E porque no que é assustador encontra também a única via de superação da angústia. Mascarada de domínio, coragem, ou somente de inevitabilidade, a apetência pelo abismo manifesta a possibilidade do homem, através dos seus mecanismos conscientes ou inconscientes, de se esquecer momentaneamente os seus limites e pela mesma lógica com que os apercebe, deles se libertar.
Tal como tem consciência da finitude, possui também uma enorme vontade de a superar ou, de se superar nessa finitude, mesmo que seja através do discurso, de qualquer discurso como alienação. Parece fazer parte da sua natureza sensível e intelectual exprimir e partilhar esses sentimentos traduzindo-os em diferentes linguagens, imbuindo-os de uma forma que os torna parcialmente comunicáveis. Onde se funda afinal a mais simples razão deste labor da escrita.
Aqui, todas as semanas a mesma coisa. Deveria escrever talvez mil palavras e começo por escrever duas mil. Repesco umas quinhentas daqui e dali. Recomeço noutro ângulo e são mais três mil. Das quais retiro mil e avanço até às quatro mil. Das quais recuo por excessivas. E apagando sucedem muitas outras. Até se definir o caminho que quero. Indecisa e insegura da pertinência de tudo. Vou percorrendo ao longo de um ou dois dias uma espécie de labirinto de fragmentos de textos, de lugares. Até ao momento em que lhe encontro a saída. Há luz do lado de fora. É luz natural, mas nem sempre sei em que país me encontro. Sei sempre, no entanto, em que casa estou.
Tantas coisas a dizer. Vivo cercada de pequenos papelinhos, cadernos bonitos e confortáveis, diários gráficos, documentos word abertos para apontar a vida. Palavras sempre a mais porque não há tempo de as completar a todas. E sempre a menos na sua imperfeição, comparando com as que me assolam a qualquer momento. Acabo por fazer proliferar cada vez mais papéis soltos, pedaços de folhas, cantos de listas da vida, envelopes de contas da casa. Contas da vida. Porque não lhes quero assumir algum carácter definitivo de importância. Essas palavras que caiem ali como lágrimas pontuais. Como suspiros. Como perguntas para pensar mais tarde. Perplexidades ou pretensões. Tudo com o mesmo valor à partida. Adiado. E há um propósito com que as desarrumo. Uma rejeição qualquer. São exponenciais como gavetas dentro de gavetas, dentro de gavetas. Ou dentro de mesas, de casas, de prédios, de cidades, de continentes. De… Outras vezes uma emergência. E essas presenças imperfeitas e condicionais, angustiam-me. A sua inutilidade. A sua fragmentação e nela a da minha vida, do meu dia. São esperas que se desmultiplicam.
Mente-se tanto. Mesmo quem tenha esta compulsão da sinceridade. Tudo o que se revela é insuficiente e carecia de um ‘mas’, a articular com a outra ou as outras faces de uma mesma lua. Quantas coisas que digo seriam igualmente rigorosas se pelo meio houvesse a palavra quase. Aquela que sendo a antecâmara de uma sala, seja qual fôr, é porventura em certos lugares capaz de mudar em tudo um sentido. Inverter mesmo. Quando se diz: esqueci, antecedido de um quase, produz-se aquela alquimia de passar a dizer que se recusa o esquecimento que está já ali. Que se tentou mas foi uma disposição fraca para tanto que a recordação evoca. Que se mudou a vontade de querer. Que não se conseguiu. E no entanto, ‘quase’ é aquele não chegar a ser. É o nada que não chegando a ser algo, reforça o seu oposto.
Nada definitivo, nada eventualmente perfeito, não conclusivo, mas tudo no estado de absoluta confusão ou arrumação possível para o momento da estreia. Quer-se o melhor, a perfeição dos meios, o apuro da expressão do sentido, mas o que está ao nosso alcance é justamente e só, o ponto a que se chegou no momento. Humildemente mas com as tripas na mão e o coração em desalinho, as roupas a maquilhagem os cabelos, todos os adereços de cena a postos para o ensaio geral. Mas a estreia sempre adiada. No último minuto.
Estes são dias em que me revolvo por dentro. Assaltada de todos os lados por recordações. Perdas. Pelo passado todo e pelo futuro tão pouco. Pela falta de sentido de tudo. Em que perco o equilíbrio. Em que o procuro apurar o segundo que passa, imparável, e divisível em três. Cada parte dessas igualmente divisível por três. E sempre cada uma das partes, passado presente e futuro. Em que o presente se vai substituindo ao futuro. Um comboio fantasma em movimento. O nada que não existe. Desfoco. E procuro no meio de tanta tralha e lastro existencial, alguma coisa. Indefinida. Sei que procuro. Sei que nunca encontrei. Mas não sei o quê…

21 Ago 2015

Ensaio sobre o lugar

Este seria o momento em que, à luz daquela estética dos salões do século dezanove, os cavalheiros se retiravam com os seus conhaques e os seus whiskies, para falar dos assuntos sérios da cousa pública, deixando as senhoras libertas, para repôr um pouco de pó de arroz no rosto, e partilhar a dimensão do comezinho da via privada. Os desconfortos dos dias difíceis do mês ou os mistérios da mudança de idade. Receitas da vida e também da dos outros. Os assuntos domésticos e os do amor. Tudo muito filtrado, muito metafórico, muito cheio de alusões e reticências, e muito púdico, a fazer medrar nas mais jovens neste ambiente de gineceu, aquela curiosa qualidade mítica para muitos, atávica, senão mesmo estruturalmente ancorada no código genético, que é a intuição. Feminina. Mas este seria um outro tópico de conversa.

Do amor, poderia dizer que é como um hotel de cinco estrelas. É preciso um bom lugar, mas também bons costumers. Como juntar matérias inflamáveis e uma boa dose de piromania. E pega fogo em combustão espontânea. Mas, diria antes: é como um hotel de charme. Actores, cenários e palco, produção atenta, uma realização sensível. Para além de uma espécie de moral estética que induziria no erro de se esperar a teatralização do sentir, há o fascínio real do estar. Gostar de estar, indissociável do gostar de se ver estar. Não, no meu ponto de vista como atitude narcísica, mas como reflexo de estar no lugar certo do mundo. No amor há o fenómeno do espelho. Há a necessidade de identificação com o caracter desenhado no olhar do outro. Com o lugar. Os actores gostam de se ver no papel, ou não. Um bom amante seria então simultaneamente um bom lugar e um bom hóspede.

Descer a rua. Uma rua das muitas que levam ao rio. Lugar, antigamente de chegadas e partidas. De marinheiros. Ao lado direito, antes de desembocar na margem, e um pouco desnivelado aquele toldo com nuvens a sombrear o pavimento em mosaicos de arabescos azuis, evocativos de um médio oriente onde a sabedoria ainda protege do calor tórrido sem recursos contra a natureza das estações. Um desvão, pequeno e sombrio relativamente à rua, tanto quanto o sol ainda a escaldar, faz desejar um abrigo. Mesas redondas num amarelado de fórmica debruada a latão, e cadeiras que arredondam nas costas, convidativas ao repouso de toda a coluna em paz. O entrançado numa matéria colorida e variados matizes, como se nelas, entretecidos nas cores, se misturassem tempos, memórias e paradigmas apetecidos. Tudo de um outro tempo, de facto. E é aí que quero estar. Mas primeiro à beira- rio, amigos esperam-me num lugar mais juvenil, impessoal, amplo. Deixei para trás aquele vislumbre de interiores voluptuosos e entorpecentes, para além das janelas de guilhotina, mistura de cores aveludadas e tactilmente apetecíveis, veludos azuis ou tintos como o vinho, sedas ocre dourado, um barroco aconchegante, em contrastes semi-exóticos. Objectos confortáveis do passado, sofás e poltronas macias, quebra-luzes époque, imagens e esculturas românticas. Pensei. Tenho um encontro para mais tarde. Marquei-o ali mesmo. Por agora, esperam-me mais abaixo.

Depois volto a subir a rua. Do outro lado da estrada, a memória de um enorme grafismo rigoroso, meses atrás, no prédio devoluto, que dizia: ± SILÊNCIO ±. Como se a cidade falasse comigo por enigmas. O céu de um azul prússia, intenso embora já a escurecer, naquele dilema entre uma luminosidade feérica e fortemente colorida, e a noite quase, quase a instalar-se de vez. Mas é, perto do rio, um momento que se prolonga num resplendor estóico, resistindo às luzes da cidade ainda, e competindo com elas. Espreito de novo aquele cenário em desvão, os mosaicos, as três mesas e as cadeiras coloridas e, surpreendentemente, uma única ocupada por um grupo. Desço, contente com o inesperado sossego em contraponto ao exterior, para o meu encontro e sento-me na mais distante. Um pouco mais tarde uma rapariga tão silenciosa como eu sentou-se na do meio. E, abalado o grupo conversador, um homem ocupou a primeira mesa. Ficou tudo certo, sereno e bem. Os três em linha, quietos, silenciosos e ensimesmados. A música, no volume certo, entre um estilo pop de fusão, aquelas coisas difíceis de situar, uns blues a ressoar talvez a Nova Orleães, e outras fusões um pouco lounge que não reconheço. Entendi contudo uma mão de mestre na articulação progressiva de sons, numa espécie de viajem nas horas…

A mesa para dois, livre. E pareceu-me perfeito. Sentei-me só, e pensei na importância daquela outra cadeira ali, precisamente para lembrar que não era uma cadeira com o vazio de alguém mas uma simples cadeira em si. Um lugar. Não o espaço preenchido de uma ausência. Uma espécie de nada por oposição ao vazio. Um lugar, é isso. E, como qualquer lugar, uma entidade suficiente em si. Sem a necessidade de ser validado como lugar de algo ou alguém. O lugar puro. E eu nunca trago para um encontro destes alguém à revelia da sua vontade ou consciência. Tento. Nem memórias nem sonhos. Sequer os meus anjos têm lugar nestes encontros. Comigo só, mas inteiramente só em mim e não, como relativamente à cadeira, só, pela ausência de alguém. Só pela natural solidão imanente da matéria. Só, naturalmente e sem a veemente ausência de outrem. Esta é uma disposição que me ajuda a situar, mesmo para me lembrar de que, tal como não sou uma daquelas pessoas que preferem os bichos às pessoas – eu que os adoro – não finjo que não gosto da sua presença. Ou prefiro, às vezes. Mas tento não transportar a sua falta. O problema das pessoas, é serem afectadas. Literalmente. Afectadas pela vida, as inseguranças, as megalomanias, as mágoas, as frustrações. E sobretudo os medos. E que se deixam envelhecer mais do que os bichos e sobretudo, que se deixam estragar mais do que eles. Transcendendo em muito os incontornáveis limites da biologia.

Nunca falho estes encontros. Já falhei outros, embora nunca pela acção voluntária da minha vontade, passe a redundância. Este é também um dos verdadeiros encontros a dois. O de uma pessoa, com a não ausência da outra. De uma certa forma, uma ausência a que se nega a imperatividade e a extensão. A que não se permite a presença. Sim. Há encontros perfeitos. Aqueles que preenchem de uma forma densa e sem margens ou folgas um pedaço, seja de que dimensão fôr, de existência. Não porque nos façam felizes, mas porque são absolutamente justos, verdadeiros e confortáveis. O que é bom. Verdadeiros mas talvez não reais. Vistos de outro ângulo.

Há outros encontros, esses realmente perfeitos. Com o outro, que não eu. Mas tão raros. Pode-se passar uma vida ao lado da possibilidade de um. Por falta de jeito, de charme, de segurança, de vista. E esperar. Que as probabilidades, no seu cálculo imperscrutável, não forjem o encontro no dia seguinte àquele em que já lá não estaríamos.

Encontros daqueles a que não se vê o fim. E o homem é raro na perfeição, por isso deve estar sempre em guarda. Circunscritos num pedaço de eternidade. Mesmo quando esta se desfaz logo a seguir. E a que não se admite a presença de terceiros. E, de entre os mais temíveis intrusos, o tempo, a distância, o esquecimento, ou o desencontro, é o medo aquele cuja manifestação se revela verdadeiramente terrível. E quando isso acontece, quase impossível de erradicar.

Suponho que é a esta hecatombe, que Alain Badiou se refere com o seu conceito de “encontro”, como uma grandiosa descoberta do outro e de si: “For it to be a genuine encounter, we must always be able to assume that it is the beginning of a possible adventure. You cannot demand an insurance contract with whomever it is that you have encountered. Since the encounter is incalculable, if you try to reduce this insecurity then you destroy the encounter itself, that is to say, accepting someone entering into your life as a complete person.”

Mergulhar nas revelações sem lei. A nudez das palavras à mistura com os beijos. Que são um extraordinário lugar físico para as palavras. O tempo anacrónico. E nunca o medo.

Mas é tão perigoso isso. Tive uma amizade durante dezassete anos, pessoa singularmente amoral, ou até imoral, com quem tinha uma média de largas horas semanais ao telefone. Em que trocámos bárbaras confidências. Um dia. Uma única palavra. E acabou subitamente. Ela ofendida com um disparate que transcendeu, ocultou ou ofuscou os milhares de outras palavras usadas durante todo aquele tempo. Sim. Falar é uma coisa perigosa. Mas gosto desse desafio. Despojar a alma de qualquer artifício – o limite é a dor, ou ir além do Bojador – sem ter que ver no outro uma flor frágil. E de ver a totalidade possível do outro. Guardar alguns segredos também, evitar alguns espinhos. Sem falsidade.

Eu tenho uma inconsolável nostalgia de ambientes do passado. Tão mais confortáveis e envolventes, quão desaparecidos ou em vias de extinção. Sem sequer serem substituídos por ambientes contemporâneos que consigam magicamente ter essa qualidade numa outra linguagem. Talvez afinal os objectos tenham uma alma que acumula referências e humanidade de momentos passados, de sentimentos que lhes transmitem algum calor, um acalento que a modernidade não consegue alcançar. Talvez precisem de amadurecer. Sempre gostei de ambientes vividos, objectos manuseados, marcas de vida. Das atmosferas pesadas de um luxo sensorial e decadente dos velhos cabarets. Os lugares dos espectáculos de burlesco, e dos episódios burlescos da vida. Nas zonas portuárias, com maior fascínio porque muitos estão de passagem. Vindos de longe e com destino incerto. Também eu encontrei um dia um marinheiro de águas profundas num cabaret decadente. Mas em outras longitudes. Curiosamente a primeira coisa que lhe vi foram os pés. Só depois dei com o rosto no topo de um corpo aprumado e uns ombros firmes. Um grande encontro face a tudo o que depois não teve sentido nenhum. Numa outra vida. Enfim.

Pensão Amor. O lugar de que falava. Não pensão, já. É um pastiche de outros tempos, mas feito com carinho. Lugar de imitação de outros imaginários que não de hoje, mas terno e generoso para acalento de nostalgias. Um nome que se não fosse absolutamente real seria poesia pura. Há um lugar. Natural, produzido ou forjado na fantasia. Poderia ter este nome, mas seria plágio. E não precisa dele. Basta a designação plena de lugar. Como na arte, um site-specific. Lugar natural de algo. Ou desencantado da miríade de todos os outros para envolver a estrutura, a forma a instalar. Mesmo pré-existente, conceptualmente escolhido e quase produzido em função de…De liberdade. Da superação do medo. Do encontro com um eu depurado, reflectido em olhar alheio. Intemporal, eterno, indelével. Mesmo que no momento seguinte todo o referencial pudesse mudar. Mas nesse lugar tão específico, as coisas formuladas e sentidas têm alguma escala. E são eternas enquanto duram. Só depois se lhes vê o fim. Mas essa é já uma outra história. Um outro lugar. Vago. Ou não. Simplesmente lugar.

14 Ago 2015

A vida em claro-escuro

OHá uma determinada sensibilidade. Às luzes coadas. Às sombras difusamente delimitadas nas paredes, às formas projectadas pela luz e às formas reflectidas. A uma exposição ténue e indirecta da realidade que não fere, não magoa os sentidos, e sendo etérea de substância, e intangível, é também subtilmente fugidia. Com a inexorável e imparável evolução da luz. Ou a fuga em que a rotação da terra interminavelmente impede a aparência de se fixar. O visível suave ou delicadamente ambíguo, as formas das manchas a confundir-se nos seus diferentes planos do concreto material, ali a desenhar outras possibilidades, mutantes e mutáveis. O desfocado que lhes dá leveza, alguma insinuação de potencialidade de movimento, e, por outro lado, ligeiros movimentos e oscilações devidas a alguma aragem que se filtra pelas portas e janelas quase fechadas. O excesso de luz e calor a produzir ambientes suavemente obscurecidos. É a tradição do sul. Um sul que gosta de alguma obscuridade interior, e em contraponto, de ser visitado através de estreitas aberturas das portadas, por uma luz intensa. Uma determinada sensibilidade à natureza espessa, fortemente colorida e diferenciada, mas matericamente anulada na planitude das paredes. (Esse conceito ilusório de Flatness, que só mesmo na lisura completa, estéril e sem representações por mais etéreas, se verifica.) Tornada suave, transformada em benignas formas fantasmagóricas, em cinzentos claros. No limiar do reconhecível. Uma reminiscência platónica. Ou às velaturas, camadas transparentes delicadas cortinas sobre a crueza do real. Atmosferas oníricas. É a impermanência da não cor. No não lugar.
As formas são de facto uma obsessão em que muitos não reparam mas do mesmo modo sofrem como excessivas. Nas palavras de Balzac: “Tudo é forma, a própria vida é uma forma”. E de facto, toda a actividade, toda a estrutura existencial e os seus padrões definidos, se deixam descodificar na medida em que tomam forma e inscrevem a sua curva desenhada no espaço e no tempo. “As formas, nos seus diversos estados, não estão suspensas numa zona abstracta, acima da terra, para além do homem. Elas misturam-se coma a vida de onde provém, traduzindo no espaço certos movimentos do espírito.” Fócillon
A tentação do desejo de vislumbrar na forma um sentido diferente daquele que lhe corresponde, de confundir a noção da forma explícita com a de imagem ou de símbolo. Uma espécie de talento para a deformação e o esquecimento. E assim determo-nos nas sombras delicadas e esfumadas, virando as costas à sua origem. É um determinado anseio do espírito. Já que aí a vida das formas não é decalcada na vida das imagens, simulacros ou recordações. Paradigma de um intelecto inconformado com o excesso de registos e leituras que uma realidade tridimensional permite. E há ainda o tempo. E no entanto, aqueles cujo olhar vai desfocando por limitação orgânica, corrigem-no com lentes, para tornar a selecionar mentalmente uma camada do real a ver. Do todo demasido complexo, ou mesmo confuso, dedicamos a nossa limitada compreensão a uma parte, reelaborada de acordo com critérios. Padrões, por vezes. Mas estes existem ou somos nós que os recolhemos de um contexto mais complexo e de algum modo os construímos…como pepitas de oiro profusamente misturadas em areias de composição variada. Que se coam. Uns existem e outros formulamo-los.
Esquecer então as cores e determo-nos numa realidade bem mais serena. Essa das luzes e das sombras. E só. A vida em chiaroscuro.
Depois pensar no sfumato de Da Vinci, essa lucidez estética que deu origem à modelação dos volumes através da variação da luz.
A vida em claro- escuro. O que não é semelhante a dizer vida a preto e branco. Embora se pudesse circunscrever os dados da percepção a esse universo das não cores. Carácteres planos ou caráteres redondos como na literatura. É disso que se trata. A vida faz-se dessa modelação subtil de tons, em gradações mais ou menos suaves, com uma escala de variações mais ou menos ampla e diversa. As diferenças ente o mais claro dos tons e o mais escuro, numa forma, podem ser ínfimas ou brutais. Disso se faz uma expressão ou uma linguagem mais ou menos violenta. Mais ou menos delicada. Por excesso ou por defeito de emotividade. E é dessa construção que se obtém a noção do volume das coisas. Nas formas lineares, o contorno no seu desvario de movimento, em torno de um vazio, pode ser suficiente para insinuar na imaginação, todo um mundo interior que lhe é implícito. Quanto maior a sensibilidade impressa na linha, quanto mais sinuosa, maiores as possibilidades de sugestão daquilo que lá não está. O mundo conceptual do desenho, mesmo que se pense nele como raciocínio e não como imagem gráfica, é o das leituras múltiplas, escoradas abismalmente no olhar do observador, no seu museu imaginário e na sua relação com o movimento, com as formas do real, com a visão. E tanto mais este olhar pode ser aprofundado, quantas as pontes que se estabelecem.
Estas coisas que têm a ver com a luz e as sombras. Com a revelação e as trevas. Revelação teatral, essa. Dramaticamente levada ao limite no tenebrismo de Caravaggio ou sobretudo na preciosa encenação da luz em Rembrandt.
Mas Leonardo da Vinci, nas suas experiências de mago, encontrou no sfumato, mais uma maneira de, atenuando os contornos na sua dureza natural e linear, e eliminando as marcas do traço e da pincelada, amenizar a expressão humana. Um trabalho à custa de tons baixos que evaporam os limites como se de fumo se tratasse. Suponho que é esse o pequeno grande responsável pela aura de mistério atribuída ao sorriso lunar da sua Gioconda. E o facto é que, vista de perto, há nela uma quase trepidação, um quase menear dos traços, que, não chegando a sugerir movimento, parece uma respiração, uma pequena desfocagem que lhe transmite uma vida subtil.
A vida é na verdade uma forma subtilmente modelada em tonalidades de claro- escuro. Difícil é situarmo-nos estavelmente e manter o equilíbrio nessa variada e imensa quantidade de cinzentos, com todas as suas inflexões e nuances. Mas como em qualquer observação ou esforço de localização, tudo é uma questão de focagem de estabilização do olhar, de respiração… E assim a tendência lógica, dado o esforço do mecanismo óptico, é para a radicalização do plano de focagem…Mais longe ou mais perto com maior ou menor profundidade de campo, no que se refere aos tons, infalivelmente se resvala para uma síntese facciosa ou maniqueísta do alto contraste. Reduzindo todos os tons por aproximação grosseira ao preto e ao branco. O eterno estado de graça de ver o mundo a preto e branco, literalmente. A saber, os bons e os maus sem meio termo e sem contemplações…É um anseio de alma. Organizar o mundo de maneira a nos situarmos por dentro ou por fora de algo sem dúvidas, dilemas, ou contradições de maior (uma das primeiras manifestações plásticas infantis, de carácter espontâneo, é estabelecer linhas de fronteira entre o objecto-eu, e o mundo exterior). Este cenário utópico e prosaico, tem uma virtude pragmática e as devidas disfunções redutoras de todos os modelos radicais. E a vocação abismal do costume… querer situar o nosso desgraçado conceito de si facilmente e sem atropelos, com a segurança de nada ser dúbio ou de duplo significado, e de nada depender de interpretações ou leituras, mas como se as coisas fossem elas próprias sem relação com o outro. O olhar, a leitura. Inequívocas e fechadas em si e na sua natureza específica. Confortável e redutora forma de estar…Abismal, como todas as outras porque, como todos os extremos, a necessidade dos opostos faz sentir o risco de erro com muito mais ênfase desta forma. E a vertigem inerente a uma escolha radical, é, por natureza apelativa e perigosa.
O erro se ocorrer é total, tal como acertar seria uma contingência do jogo de consequências absolutas…Mergulhar no negro absoluto e negar todas as tonalidades intermédias, é virar as costas a um realismo sem as inflexões do romance, ou de difícil capacidade de lirismo….A opção pelo branco absoluto por outro lado seria a alienação completa de um referencial que tarde demais haveria de se fazer sentir. Não há inocência possível na opção pelo branco absoluto…E sabe-se que a vida é em tons de cinzento, múltiplos variados enriquecidos de outras cores, reflectores, instáveis, influenciáveis e absorventes de todas as ínfimas partículas do universo em redor… Nada a fazer. Terreno variado, trabalhoso, de difícil estabilização. É a vida nos seus tons. De cinzento. Na sua obesidade ontológica. Uma camada de realidade a cheio.

7 Ago 2015

Ficam dois e uma parte

Dor e cão para pernoitar. Como uma senha cúmplice. Disse ao monge que me abre a porta pesada a ranger nos gonzos, com aquela idade indefinida que lhe imaginei, e que me parece um conhecido de sempre, tantos os emails trocados. Estendo-lhe a mão e ele, olhando para mim e para trás de mim, surpreende-me com três beijos nas faces. Muito fraternais, muito firmes muito urbanos aqui neste confim que tanto me obrigou a trepar. Exausta. Pedi um quarto de casal com uma caminha extra desmontável, lembro-lhe. Ele riu, ligeiramente trocista. Entendi mais tarde que aquilo que parecia ironia, nele, raramente era outra coisa senão ternura. Abriu a porta do quarto que eu esperava e disse que teríamos que nos revezar, ou tirar a cama estreita à sorte todas as noites.
Vim pelo claustro. Mas também pelas montanhas que aqui bem perto têm a verticalidade lisa de lâminas, e pelas árvores que densamente bordejavam o caminho até aqui acima. E também pelas mesas compridas de madeira que percorrem o refeitório em que eles se sentam silenciosos em frente a malgas que eles mesmos fazem, de um minimalismo essencial como só no Japão e por outras razões que tradicionalmente talvez se cruzem com as que subjazem a esta estética. E pela cama sóbria, elementar e nua que habita os quartos de todos e também dos visitantes como eu. Não vou dizer o lugar, que conheci há muito num artigo de jornal, nem vou descrever a aventura quase penosa que me trouxe aqui. Eles merecem essa descrição e merecem ser conhecidos mas ficar na memória só para quando algo de especial passa. Eu vim pelo claustro e pelo silêncio radical a que eles me destinam de que precisava usufruir como um banho purificador. Não vou detalhar-me na candidatura quase desesperante nos termos. Entendo a auto-protecção necessária e por fim vim.
Está frio aqui. Mais do que imaginei, mas vim prevenida e sem vaidades. Tudo aqui é reduzido ao elementar. Vim pelos claustros, já o disse, e pelo silêncio. E vim para alimentar o meu desgosto em paz. Todos dizem isso. Diz-me de olhar azul e transparente num sorriso, o monje, que é a ponte entre mim e as regras do lugar. Com aquela calma contemplativa e a benevolência que se espera. Respondi que é natural os seres humanos terem em comum essa necessidade. Aí o olhar dele, mas não os lábios, sorriu ainda mais, e acrescentou que raramente depois e de facto se verifica ser essa a verdadeira necessidade, mas sim a de derramar a alma, nos ouvidos de quem puder acolhê-la. E aqui, só ele se destinou a ter essa função, talvez por também ter menos vocação para o silêncio. Talvez porque o mosteiro se deixa usar mesmo para sua própria viabilidade, ou talvez porque dedicando-se aos outros alcança melhor as trilhas do seu caminho. Lancei-lhe estas hipóteses e finalmente sorriu com o rosto todo. Peut-être… E quanto a si, veremos… acrescentou e sorriu de novo. Julguei ver de novo uma pontinha de ironia benévola. Garanti-lhe que não o incomodaria muitas vezes saindo das minhas primeiras intenções e de facto poucas vezes o vi, e sempre pelo acaso da sua preocupação. E sempre sorriu como se contente da minha persistência. Mas nos primeiros dias, reparei que era ele que de algum modo se propunha ao diálogo, como se quisesse inteligente e generoso, deixar-me confortável para encetar o meu silêncio das despedidas só se verdadeiramente fosse aquilo de que necessito, ou para estar ali a acompanhar-me, sem me dar a impressão de insucesso, poupando-me à eventual frustração, já que era ele a vir ao meu encontro. Porque ele sabe que muitos dos visitantes chegam imperfeitos, e ser generoso é não os confrontar com a imperfeição.
Poucas vezes ou nenhuma, senti tanto o reflexo atento de alguém, face ao intuído. Até o fumo negociei com ele. O fumo e o feminino, assunto este, tão ou mais complexo e igualmente fora dos limites estritos da ordem. Mesmo nos visitantes. Dura negociação e duras conversações. E também aí, fui surpreendida pela profunda generosidade que na maioria das vezes não se encontra na ortodoxia destas ordens. Garanti-lhe que, nas camisas brancas que levaria, recordação dos vários homens da minha família, e no resto do meu equipamento habitual, pouco vislumbrariam desse feminino proibido ali.
O quarto, e a cama reduzidos à essência, como disse. Belos e legítimos. Uma assombrosa janela sobre um pedaço do vale meio confundido pelo muito arvoredo. Da cama, tudo o que é necessário para ser uma boa cama. Os lençóis de um linho quase áspero e amarelado, um colchão firme. Uma almofada rija e alta e um único cobertor de lã, num castanho muito escuro, que na primeira noite percebi insuficiente para mim, e com uma única risca cinzenta a delimitá-lo de um só lado, o que me intrigou. Ainda persisti duas noites no frio irremediável até que cedi à incontornável necessidade de dormir algumas horas e apelei por mais dois. Iguais em tudo e que, somados, eram de um enorme conforto, então. E o meu cão ao lado da cama sempre. Sem um tapete mas com o pêlo comprido a fazer parecer que esteve sempre bem.
A mesma estética minimalista ou essencialista e depurada, constatei nos utensílios à refeição, toda a cerâmica feita ali mesmo por eles, e uma parte dela comercializada por necessidade, embora com tristeza. Gostariam de não ter que lidar com dinheiro e de pouco precisam. Mas a variedade subtil de formas e tons maioritariamente variando entre os azuis e os verdes aquosos, fizeram-me pensar que as cores quentes não são para eles um anseio da alma. Nas formas, perfeitas até ao desaparecimento de vestígios artesanais, via-se serem a procura e o apuro progressivo e perfeccionista. Com variações por vezes para pequenas assimetrias. Uma cerâmica fina, argila da região, a lembrar oriente. E os talheres de pau. Basicamente apenas colheres e as facas do pão. Mesmo as refeições se pautam pelo mesmo rigor. Tudo produzido por eles na horta primorosa. Uma única refeição sempre constituída por uma sopa espessa variada e abundante. Com alguma carne, muitos legumes e uma grossa fatia de pão. E ao dejejum, sempre o mesmo pão, com queijo fresco ou mel, ou ambas as coisas e sempre. Como são belíssimos aqueles pães enormes grosseiros, toscos, cheirosos e ainda quentes. Tudo intenso de paladar e curiosamente em quantidade saciante. O que me pareceu bem, não pensei nunca que o sacrifício e o maltratar do corpo fossem caminho necessário para provar o que quer que fosse. Eles têm uma vida útil, oferecem o silêncio e a fé. Para quê adicionar sofrimento…
Rumei um pouco mais a norte, para chegar aqui. Passei duas fronteiras. Penso que uma é a da dor e outra, a do lugar da dor. Penso que uma é a da dor e outra, a da inércia. Mas só por uma delas ponho as mãos no lume. Quanto à dor, não se pode deixá-la escorrer no espaço normal de sempre e para o sempre de todos os dias, sob pena de ela impregnar indelevelmente o habitáculo das paredes que por reflexo voltarão a macular-me mais e mais. A dor precisa do seu cenário próprio. Acolhedor, digno, acalentador mas longínquo. E de ficar lá, tentando que não nos acompanhe no regresso. Mas a dor, como um cão. Não se deixa abandonar facilmente e por vezes percorre os quilómetros de uma vida e até à exaustão, atrás do dono.
Caminhar. Foi para o que vim. Sem o olhar se perder em nada ou prender a nada. Nada querer e nada querer ver. Uma sucessão de minutos e horas e dias, cheios de sinais exteriores à dor, em que as únicas marcas que se imprimem são aquelas coisas – tantas – que a fazem lembrar. E todos esses signos de que se rejeita a leitura, todos esses conjuntos de formas significantes, todas as cores, os movimentos e os sons, nada dizendo que se queira ouvir, funcionam a longo prazo como uma superfície abrasiva. Uma pedra-pomes que desgasta, refina e alisa o sentir. Mais ainda. Mas não se ama a dor. Como não se ama a mágoa. Só que uma e outra, a ter uma representação possível, é literalmente o rosto do objecto da dor. Da mágoa. E como tal, é paradoxal o desejo e temor de a perder. Porque com uma e outra, se vai ele também. Para o lugar do nunca mais. Maior o rigor e diria que se ama a tristeza e a dor, mas não se quer ficar nela ou com ela para sempre. E não por elas em si mas pela memória registada a ferro e fogo nelas. É só um divórcio triste. E que se deve encetar com a delicadeza e o tempo de fazer bem as partilhas.
Sim, eu trouxe o meu cão. E ao meu cão dei um nome feminino. Não sei bem porquê, talvez para ser forte. Tal como chamei Feliz ao gato para enganar a sorte.
Não o deixei abandonado nem vim a fugir dele, e com ele, desesperado, a correr atrás do comboio tentando não me perder o rasto. O meu animal querido. E com ele passei os dias. Colado a mim. A caminhar em torno do claustro até à tontura. Tentando progressivamente andar mais devagar e assim abrandar o ritmo cardíaco e as guinadas da dor. E ele, que foi lentamente conhecendo o ritual diário e a obsessão do percurso, passou a, uma vez por outra, esperar-me deitado ou sentado no ponto qualquer do caminho, seguindo-me depois a partir dali. Ou não. Aleatoriamente primeiro, e a pouco e pouco, mais espaçadamente. Suponho que se resignava a ficar, tal como eu aprendia a deixá-lo para trás. De início custou-me. Da primeira vez que parou sem me seguir, senti um travo amargo de desapontamento. Mas quase sempre não se afastava muito das minhas pernas. Suponho que queria dizer que estava lá para mim, enquanto necessário, mas sabia que não era para sempre e que teríamos que nos despedir com desgosto no final da estadia. Ele sabe, não sei como, que o vou deixar ali. Não abandonado, mas entregue a quem tratará bem dele. E que encontrará ali a sua última morada, num sítio belo. E com uma pequena pedra com uma frase minha de carinho. E eu sabia que ele não iria seguir-me na abalada porque entendia. Que tinha que ser assim. E que eu não iria esquecer nunca. E ele também não. Iria farejar de vez em quando pequenos pontos nas pedras daquele chão, onde talvez persistisse um registo ténue de lágrimas.
E depois, vou ter para sempre saudades do meu cão. Hoje eu sei que este e outros sentimentos são para sempre. Mas o esquecimento recobre as saudades como recobre um amor. E só quando umas e outros vêm à memória, de forma aguda e cortante, se entende que estão lá e sempre estiveram. Num recanto escuro e esconso dos bastidores. Para sempre. Ou então, se a memória for generosa como o monge que conheci aqui, para nunca mais. Mas ele, por aqui, não vai comer pão por muito tempo. Carrega uma idade inverosímil para um cão.
E um dia, não muito longe, virá uma carta, simples e delicada – eu sei – com uma fotografia do lugar em que ficou. Tratei de tudo com o irmão. Perguntei-lhe se me enviaria um email, porque há toda uma logística que mesmo aqui já se trata desse modo. E ele, sem aquele sorriso habitual e só dos olhos, neste caso, disse que as coisas importantes se escrevem em papel. Sim. Com invisíveis dedadas e impressões deixadas pela subtil gordura das mãos, o ritmo da escolha das palavras certas em modo e número. As dobras no papel, a espessura, a dança da caligrafia o rasgar do envelope. Ou no silêncio do ar. Como o contrato de silêncio – perguntei. Sim, disse.
Fiz alguns desenhos do claustro e da capela. Quando fiz menção de lhos deixar, foi rigoroso na recusa. Disse: leve-os para suporte de memória. Nós ficamos com o melhor de si. (A dor?) Para se lembrar de como ela ficou bem entregue. O seu cão.
Amanheceu e levanto-me de imediato com os primeiros raios. A experiência diz-me que acordada na cama sou pasto fácil para pensamentos devoradores. Preciso de caminhar muito ainda e aproxima-se o tempo de voltar. E das despedidas. Amanhã.
A porta fecha-se entre mim e o irmão dos olhos sorridentes, sérios no momento. No último instante já não é ele mas um outro diferente e dos que nunca quebraram o silêncio devido. Quase duvido do que vejo, tão fugaz foi o momento. E de tudo. Enceto a descida. O passo rápido e embalado porque a descer todos os santos ajudam. E do que não posso duvidar, é de que vou mais leve. Sem eles. Mas não menos triste. Ficam dois, e uma parte. O combinado. Dois e uma parte.

31 Jul 2015

A cor do nada

Azul se diz o céu. De todos os azuis, se engana a razão.
Falar da cor – de qualquer cor – é sempre falar da maior das ilusões da percepção. Do que não existe em si, mas sim pela acção permanentemente produzida, renovada e afinada dos sentidos. Da visão, neste caso, e sinestesicamente talvez também de todos os outros. O que não está lá, intrinsecamente à matéria, mas como elaboração. Da luz reflectida de diferentes maneiras de acordo com a estrutura atómica dos elementos físicos. E em permanente mutação. Ao longo do dia, quando cada imperceptível mudança da luz, cada subtil contracção da pupila, ou alteração do humor, dá a ver não só aquilo que a matéria física tem em si como potencialidade ou inevitabilidade, mas também algo, acrescido de um contributo psíquico, que está por detrás de cada olhar particular. E mesmo este, modelado por características fisiológicas que restringem ou alargam as possibilidades da percepção. O dia e a noite, só em si e na sua eterna alternância, trazem e levam de forma gradual a cor. Impermanente. Tão delicadamente a cor se retira, que somos iludidos ao ponto de a imaginar a envolver-se em trevas, quando na realidade ela se vai com a luz. Vai, do lugar onde nunca esteve. Senão como ilusão. E volta para o lugar de onde veio. Lugar nenhum.
Se quiser falar da cor mais próxima do nada, vem sempre à ideia o branco como o negro, até culturalmente envoltos em sentidos de leitura muito semelhantes. Mas aí estaria a falar de não-cores. O que seria batota. E de entre as cores, se há uma que nos domina é o azul. Vivemos envoltos no azul da atmosfera. Nada mais presente do que esse azul. E nenhuma cor mais ausente, também. Longínqua, esquiva, distanciada do nosso alcance. Sempre ali, e sempre em recuo, numa fuga perceptiva que faz dela, se por um lado a mais repousante e calma de entre todas, também a que implicitamente está sempre em movimento de nós para o além de nós, uma distância infinita de tão grande. Que sugere todo o espaço real ou psicológico, do aqui até ao limite do universo. Para sempre, para longe e para fora. Ela, que nem no mar encontrou espelho à sua altura. E por isso a mais solitária das cores. A mais triste e a mais melancólica. Aquela está sempre lá e sempre em fuga. Intangível e impermanente, mais ainda do que qualquer outra. E mais bela, por isso.
E é por isso que nas representações pictóricas, esta é a cor mais poderosa na ilusória representação do espaço em profundidade. Se as cores quentes são as que mais turbulência provocam, as que mais dinamismo sugerem, e as que mais emoções sensitivas têm como aptidão provocar, até porque avançam para nós com voluptuosidade, intensidade e quase desafio ou agressão, é curiosamente a mais fria delas todas, a mais etérea, que, não só não opõe resistência ao olhar, como o deixa vogar por ela adentro, ou por ela fora, sem limite. A cor do abismo. E se nela o olhar teimoso se queda sem mergulhar, é ela própria que recua, como prefigurando um canto de sereia, que atrai, arrasta, e atrás do qual insensivelmente nos deixamos ir e perder. Não fosse o nosso dinamismo psíquico, uma espécie de elástico que, abrupta ou suavemente, nos traz de volta àquilo ou ao lugar que nos centra.
O universo de azul é abismal de facto. E nesse abismo se espelha a nossa dimensão também ilusória de grandeza de espírito. Não delimitável. Mas também a nossa insignificância, e com ela, a insignificância de muitas das formatações, molduras, preconceitos e ideias prévias. Nesse imensurável abismo que é o retorcido dinamismo psíquico, uma hélice de dois sentidos, nos perdemos em dilemas e labirínticos esquemas de configuração, ou entendimento, ou modelos de existência. Ou nos perdemos saborosamente na amplidão espacial, porque ao espírito ocorrem sempre metáforas do conhecido, esvoaçando ao sabor de correntes de ar quente, que nos elevam do corpo leve, porque de espírito se trata. Para isso, muito mais é preciso do que um simples brevet. E muitas horas de vôo se requerem para o podermos fazer sem a alienação total.
Tanta simbologia criada a partir do carácter puro e espiritual desta cor. Tanto poeta, tanto estudioso dedicou palavras à menos material de todas, que seria redundante e exaustivo rever. Encontro num pequeno trecho em contexto científico, sobretudo talvez na ausência de intencionalidade poética, quase uma fina ironia dadaísta. O concreto objecto da ciência, enunciado, é só por si poesia:
“O colorido exuberante do fogo de artifício tem, no laboratório químico, uma aplicação interessante: a identificação de substâncias pela espectroscopia de emissão atómica. Cruzam-se testes de chama com química quântica, crimes desvendados, auroras boreais, operações cirúrgicas com laser e lâmpadas economizadoras.”
De onde nos vem o azul, não sendo dos átomos incolores que constituem a matéria, senão das maiores extensões aéreas, oceânicas ou dos azulados gelos dos polos…Frio. Frio. Frio. E, no entanto, azul é a mais aveludada das palavras que designam as cores. Sem érres nem vogais abertas e cruas. No português. No inglês ainda mais. Será talvez por isso que somos sóbrios e melancólicos ao ponto de ter o fado como a canção que nos define…que somos, em parte, um povo in blue. E de onde vêm os blues como género musical senão das raízes sofridas, e como melopeias de trabalho, lamento e ânsia melancólica de liberdade, dos escravos negros nas plantações do delta do Mississipi. Se as cores dissessem o que sentimos em toda a sua plenitude, se com as palavras quiséssemos dizer tudo o que queremos, sobre tudo o que sentimos, e dizer tudo o que sentimos sobre as cores, ou o que elas dizem do que sentimos, teríamos que usar uma mistura, uma fórmula constituída de todos os idiomas, muitos ou poucos, que conhecemos. Porque o sentido de uma palavra numa língua tem a doçura própria, procurada e irrepetível na outra. E ao sentido acrescenta-se imprecisamente a tonalidade sonora, criando ramificações específicas. Para além da forma como diferentes idiomas reflectem diferentes necessidades de nomeação das cores, de maior ou menor diferenciação e desmultiplicação de termos para uma mesma cor.
Mas eu queria descrever o que vejo, para não o pensar a mais do que o é. Do azul e da distância evocada, invocada e que simboliza. A percepção do recuo a definir uma área de coisas etéreas, tanto como o espírito, ligadas à cor. Mas dizer azul tem uma estranha proximidade pouco fonética mas mais sensorial com o dizer veludo, sendo esta redundantemente mais aveludada ao paladar. Ao tacto. Ao imaginar ou recolher na memória. E o azul enaltece-se dessa qualidade e dessa temperatura por semelhança. Mais liso, mais fina a cor e as matérias que invoca mas igualmente confortável. E no entanto a mais abismal das cores. Porque a mais transparente.
Curiosas expressões em torno do azul, se encontram na língua inglesa. Sinestésicas como o feeling blue, ou, aquela que prefiro: out of the blue. Aquilo que veio do nada. E daquela outra figura de estilo: ouro sobre azul, onde o amarelo, prefigura a luz, razão de todas as cores, e símbolo de toda a razão como saber, parece concluir-se ser o tudo e o nada que se complementam. Tanto a dizer sobre as cores – quaisquer cores – que não cabe no espaço desta página. E sobre o azul, a maior de todas, a mais distante, misteriosa e intocável que, tem tanto de hermética como, paradoxalmente, de transparente e límpida, muito mais ainda. Ou dizer nada e reservá-la à contemplação. O que seria a mesma coisa. Da química dos pigmentos e do olhar animal, se faz o azul. De tudo e de nada. O azul que é a cor da alma. No nada, que é o seu lugar.

26 Jul 2015

Cem mil anos. Quase

Sento-me na varanda ampla, com um cigarro. Consolo breve e repetido. E penso nos cem mil anos que passaram desde que amei aquele homem. Pela primeira vez. Que um dia chegou terrível e partiu a minha vida em duas, antes e depois. Dor e esquecimento. E em cada um desses lugares – porque o são – eu. Metade de mim. E só quando no esquecimento se dilui a consciência de que o é, algo se reconstrói. Penso se valeu a pena querer morrer. Penso se valeu a pena esquecer para depois voltar a amar com o mesmo desespero. Porque o desespero tem um rosto particular para cada amor. Digo, para cada pessoa. Sou eu que sou desistente, ou, pelo contrário, uma amante que assume repetidamente o fardo doce de amar a sós…para depois percorrer o caminho de retorno à solidão a sós. Cem mil anos sem conseguir amar para sempre, esquecer para sempre, nem morrer como tal. Vem-me à memória o poema de Poe:

“From childhood’s hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.”

E dele, a dizer, só que chegou e partiu bem antes. Envolto na suas trevas. Sento-me olhando a praça velha, a torre do relógio, e espero. Ele viria às seis. Disse. Mas às quatro já eu comecei a ser infeliz. Porque a minha espera sabe-se em vão. Olho para baixo demasiadas vezes para a descrença que tenho de o ver surgir de uma das esquinas. E eu sei que terei que esperar a lentidão do avanço perverso do tempo, para às seis começar a confirmar essa certeza incrédula. E só lá para as dez conseguirei deixar de esperar. Nesta, como em outras alturas da vida, seria melhor parar o relógio, e fingir que nada se sucede a nada. E ser, quanto muito apanhada dramaticamente no inesperado. E de cada vez que me debruço da varanda, sinto-me como Nástienca de Noites Brancas, inclinada da ponte sobre o Neva, a ser quanto muito encontrada pelo Sonhador.
Lembro-me então que há muito não consulto o Livro de Areia, não me debruço sobre o acaso que é a alma desse pequeno oráculo que surgiu como tal, não sei se pelo meu fascínio pelas demandas, que parecem estabelecer linhas de um destino que não controlo e está traçado, se pelo desespero de respostas siderais ao meu vazio de orientação. A mala negra de viagem, jaz de entranhas em desalinho desde o primeiro dia, no sítio em que foi poisada. E dela extraio o pequeno livrinho de capa negra de cartolina mate, e folhas finas de um azul triste. E deslavado nas pontas, por efeito da luz. Amarelado, melhor dizendo. Concentro-me como sempre no amor que tenho a esse pequeno livro de um grande escritor. Abarco-o com as mãos quase enclavinhadas de expectativa, como sempre. Lembro que das últimas vezes que o fiz, e repetidamente, abri o livro das respostas, de olhos fechados como é do meu ritual, e apontei um dedo às cegas. Inacreditavelmente o meu dedo apontava um ponto cego numa página azul e vazia entre capítulos. Fazia o sentido que fazia. Reafirmado e confirmado. Nada a fazer. Hoje, o mesmo procedimento, e o oráculo foi firme na resposta: “Chamo-lhe Utopia”. Lendo o resto da frase: “voz grega que significa não existe um tal lugar”. Com assinatura: Quevedo. É mais uma vez uma página de início de capítulo. E este aparece um pouco acima daquele ponto preciso em que apontei o dedo com a força, já o disse, do desespero. E a este cabe o título: “Utopia de um homem que está cansado”. 13
Borges nunca me falha na emoção de nele me encontrar. Na realidade há muitos anos que o leio assim. De forma errática. Falta-me o tempo. Aquele tempo de que ele me fala ao coração. A mistura dos tempos. E há um sabor particular nesta forma de abordar o texto, baralhando uma ordem que, sendo inevitável, em Borges parece apelar à subversão. A essa mecânica do olhar sem ordem pré-estabelecida, que se prende tanto com a sua explicação do tempo.
A tarde fez-se noite entretanto, prolongada até ao limite que a melancolia devida àquele dia, permitiu. E de súbito, como um animal instintivo sem razão, levantei-me sem saber porquê naquele exacto instante e não antes ou ligeiramente depois, e entrei. Naquele quarto de hotel no centro de Praga, amplo, confortável, no seu requinte retro e no seu desgaste. Dependendo da luz e do olhar, mas sobretudo do fio de pensamento imediatamente anterior, propício a enlevar o espírito a um estar melancólico, decadente e nostálgico, ou a tombar sem apelo num completo desalento. A pensar no que não foi, que sendo para não ser, apesar de tudo determinou a específica tonalidade deste início de noite. Que não teve contudo a qualidade de ser perda. Porque, “Mesmo que os anos da (…) vida fossem três mil ou dez vezes três mil, (…) ninguém perde outra vida senão a que vive agora nem vive outra senão a que perde. O termo mais longo e o mais breve portanto são iguais; morrer é perder o presente, que é um lapso de tempo brevíssimo. Ninguém perde o passado nem o futuro, pois a ninguém podem tirar o que ele não tem. (…) todas as coisas giram e voltam a girar pelas mesmas órbitas” (Marco Aurélio).
Passo pela mesa baixa logo imediatamente em frente à janela, e apalpo um fruto da taça decorativa – incrível como os frutos têm também esse pendor de adorno – um pêssego enorme e aveludado como era de esperar. O aroma intenso e inimitável, excepto talvez na tonalidade de uma pele, a remeter para a memória do perfume, que me lembra de súbito qualquer coisa para lá do alcançável, provavelmente na infância. E coloco-o de novo mansamente na taça. Sem apetite, por agora. O olhar sem se prender a nada, faz-me girar como em torno de um eixo, de forma algo automática e sem ânimo, e retomar a moldura da janela. Pensar naquele meu amor. E naquele meu amado, o que não é a mesma coisa. Aquele amor que, disse-o Borges na voz de Quevedo, é a utopia. Muitas emoções a somar, no mesmo dia em que visito Kafka no cemitério. Um pouco depois deito-me sobre a cama e quero morrer, mas simplesmente adormeço. Até aqui, ele o adjectivou, sem querer.
Acordo lentamente como vinda de um lugar longínquo, e, desentranhada à força, retorno ao embalo agradavelmente preenchido pelo ruído do comboio em andamento.
(E, do registo imaginado de duas vidas, vagamente contidas sua representação em duas páginas, que se deixam engolir pela ficção de duas linhas finais, chego ao ponto de onde parti).
Aqui houve noite. Amanheceu.

19 Jul 2015

À distância de um tango

Seis e vinte da tarde e finalmente aqui, como combinado. Um primeiro encontro, mesmo que seja apenas o deste ano, é sempre tocado daquela emoção que é uma mistura de nervosismo e ansiedade. Mesmo que seja o encontro romântico com o mar. Olho para o lado, onde poisei na areia o saco de praia e os sapatos de salto alto. E não consigo deixar de achar cómico, delicioso e um pouco simbólico. Eles vieram por falta de lembrança, na corrida de sempre antes de sair de casa, a antever os vários percursos que passam também por uma reunião e por fim, o mar. Vieram por engano, mas fazem todo sentido num primeiro encontro. E porque estou confinada por mais um ano, provavelmente, à impossibilidade daquilo que um certo novo-riquismo sofregamente consumista, instalado algures no nosso imaginário, designa por férias. Sair, viajar para longe. Ver coisas diferentes e invejáveis. Fugir à escala da existência quotidiana. Comprar coisas exóticas como prova de mundanidade. Um paradigma que só muito pontualmente, na verdade se cruza com o meu. Mas penso que saí de uma reunião de trabalho e estou quase sem transição, aqui. Frente ao mar. Com os pés numa areia clara e quente, e com a alma a desanuviar. E que aconteceu no espaço de um tango. Ouvido no caminho, se bem que repetidas vezes. Um – especial – que me enleva desde há meses. De Pugliese, só instrumental sem os fantasmas e os enganos de uma letra a contaminar a leitura dos sons. Este em particular, acabou por se tornar a partir de um momento qualquer, quase figurativo. Quase narrativo. E de tal forma o sentido que evoca, a paisagem que descreve e representa se impôs com rigor, que ficou para sempre o mesmo. O mesmo sentido, a mesma imagem quase fílmica e o mesmo tango. Ouvido obcessivamente. Mas não pode apanhar-me distraída. Preciso concentrar-me para ver. E é íntimo, o mais íntimo que pode ser na memória de um encontro de amor. Êxtase e lamento. Ficou.

Mas hoje, este encontro com o mar. Tão fácil. E longe da multidão imaginada, silencioso o auditório de areia, no local que escolhi. Só vozes dispersas e longínquas, e o som do vento, não forte, mas suavemente audível. A maré a começar a subir e aquelas nuvens muito ténues, muito fininhas como um véu espraiado em largos farrapos, interrompidos por todo aquele azul, que hoje são dois. Um entre elas e outro em redor. E pensei, antes de começar a esvaziar este meu saquinho de tormentos de hoje, como ossinhos de colecção, como tudo isto assim, e uma coisa de nada, é um privilégio. Que esquecemos de incluir nos paradigmas modernos de qualidade de vida. Porque é o vizinho da porta ao lado. Pequenos prazeres, à beira dos quais uma classe média, seja lá o que isso é, sempre esteve, mas sempre com os olhos postos lá mais adiante, num horizonte que viu fugir para parte incerta há uns tempos. Para não falar dos verdadeiramente pobres. E que, amargurada, frustrada relativamente a muitos sonhos que encarava como instalados no rol das possibilidades, não consegue por vezes desmontar e afinar pelas reais e restringidas possibilidades. Não. Não tenho nada a criticar aos sonhos dos outros, mesmo se forem megalómanos, frívolos por vezes e centrados em algum exibicionismo. O direito a ter opções é inalienável. Mas olho para este meu fim de tarde, e sinto-o como se de um luxo se tratasse. Porque vivo numa cidade alegremente espraiada ao lado de um grande rio e com uma costa de mar à distância de um tango.

E nesse novo-riquismo de que falava há também o inflacionamento dos sentidos. Do sentido lúdico, como somatório de todos os outros. O deslumbramento depois da contenção carente em que se viveu. Um certo novo-riquismo em que o pós 25 de Abril, e mais tarde a entrada na EU, nos precipitou, esperançosos e confiadamente, em paradigmas complexos. E um dia, na frustração.

E não se trata, de todo, de fazer a crítica da ambição ou o elogio da mediocridade. Sem transição, lembro-me daquele género muito particular do cinema português, sobretudo nos anos 40 e 50. Esse cinema conformado, quietinho e bem comportado, a funcionar perfeitamente de acordo com a política do Estado Novo, e sobretudo da “política do espírito”, curiosa expressão sinónima da censura. O retrato de um “bom povo”, expressão de má memória e tão cheia de significado. Porque muito compostinho. Os pobres muito honrados, alegres e infantis, sempre preocupados com pequenas coisas fúteis, porque das outras não se podia falar. Em que tudo acaba sempre a cantar. Naquelas vozes trinadinhas. O povo a cantar como rouxinol a propósito de tudo e de nada, feliz com a sua simplicidade e a sua ração diária de alpista. Sem outros problemas que os sentimentais. Aquelas comédias de bairro, com o António Silva e o Ribeirinho e Vasco Santana. E que eu adoro, claro. São encantadoras e fazem-nos rir ainda e sempre. Mas sem esquecer o que significavam à época em termos de falta de liberdade de outros vôos no cinema – que os houve, mas se diluíram – e de expressão, mesmo em termos artísticos. E o cinema é perigoso porque imita demasiado bem a vida.

Mas este era o cinema acarinhado e patrocinado pelo estado em função de géneros bem definidos, como por exemplo, nas palavras de António Ferro, director do S.N.I.: “quando se tratar de comédias amáveis ou até de bons costumes populares, mas não explorem o que há ainda de atrasado, de grosseiro, na vida das nossas ruas ou no porte de certas camadas sociais”.

Volto lá atrás ao momento em que me lembrei desta ideia de povo colorido e parcial. Não é o contentarmo-nos com as coisas pequenas que eventualmente temos ao nosso alcance, à falta de melhor, mas sim o isolar essas coisas do facto de, de momento não haver mais opções, e dar-lhes o valor absoluto que elas têm. É não remar contra a maré. Melhor dizendo, não remar a favor da infelicidade. Desta falta de horizontes um pouco acabrunhante, que nos amarfanha, por vezes demais. Que desgasta a energia para continuar a ter um olhar lúcido não só sobre a necessidade de se ser crítico e inconformado, sobre a validade de protestar e ter a noção do que falta em termos de opções, mas também sobre a forma como isso nos centra por vezes num desalento, em que sem darmos conta estamos a alimentar a auto-piedade. Ou então fruir e limpar a alma daquele tipo de mágoa alienante. Enquanto a angústia e as ondas vão e vêm, folga a alma e os sentidos.

Concentro-me de novo só no mar. Quando vem a onda. A subida agora nítida da maré. Há aqui um desafio neste meu olhar já mais apaziguado. Chega até mim ou não, antes que parta. É um pequeno braço de ferro. Não quero ceder à ansiedade recuando de imediato e mais uma vez. Já recuei a toalha uma vez porque ao chegar se estava ainda naquele breve romanço entre marés. E medi mal a distância de conforto.

E concentro-me depois no Céu. O azul do céu, em dois azuis, e o do mar que é esverdeado mais para cá. E o azul da minha alma in deep blue. E lembro-me que afinal, do azul, do que era para dizer, tudo ficou para dizer mais tarde. Noutras páginas. Mas ainda assim esteve sempre ali. Todo o tempo subliminarmente na minha disposição, e a ocupar todo o espaço e toda a consciência como um íman.
E disponho-me a voltar para casa, para tudo e para perscrutar mais tarde o efeito desta limpeza desintoxicante que já conheço de outras marés.

[quote_box_left]E lembro-me de que digo às vezes que a vida não está para saltos altos. Mas está. Às vezes. À distância de um tango[/quote_box_left]

Mesmo porque não vim para construir castelos de areia. Ou castelos na areia, como dantes e como, sobretudo na infância, quando eram reais, mais sólidos que os outros e como tal pela sua natureza, os que mais inevitavelmente se desfaziam na primeira onda. Mas é bom saber que podemos fazê-los e não que este é um país em que todos os projectos são de areia e vão pela água abaixo. Limpo os dedinhos destes pés que tanto me aturam e arrastam por aí, quantas vezes com a alma a puxar para trás. Tentando não ser demasiado exigente com a areia, por esquecer o prazer que foi hoje o primeiro contacto com ela, fina e quente, substituído pela contrariedade de a levar para casa. E calço os tais sapatos de salto alto, que vieram por engano.

Três páginas de letra miudinha e alguns cigarros depois, são já mais de oito horas. Volto ao carro, ao meu tango secreto e à marginal apinhada agora. Acrescento estas linhas sobre o volante, num semáforo, que abre e fecha sem desenvolvimentos, e enrolo um cigarro. É o elogio do pequenino do meu dia. Deixo a Riviera para trás, rumo a casa. Passada a curva do Mónaco, tiro os óculos porque me lembro de que vou com o sol nas costas. E, de súbito, como sempre, tudo à minha direita ficou ainda mais azul. Penso distraidamente se não deveria ser à minha esquerda, mas vou vagamente para leste…E lembro-me de que digo às vezes que a vida não está para saltos altos. Mas está. Às vezes. À distância de um tango.

12 Jul 2015

Para onde voam os pássaros

Para longe. Isso sabe-se. Quando migram, adiantam-se às estações. Têm percursos fixos independentemente dos perigos e cumprem-nos anualmente mesmo tendendo para a extinção. Eles sabem onde vão. Guiando-se pelo magnetismo da terra. Há sítios do mundo em que hoje se reeduca espécies para encontrarem outros caminhos e outros lugares.

E como voam. Nessas formações perfeitas em flecha ou em arco. Eles, os seres redondos por natureza poética ou filosófica, ou fenomenológica. Disse-o Klee: “todo o pássaro é redondo”, e disse-o Bachelard, evocando Rilke quando escreve “o gorjeio redondo do ser redondo arredonda o céu em cúpula”, ou Michelet quando define o pássaro como “quase totalmente esférico”. A forma redonda não como forma física de natureza geométrica mas como imagem metapsicológica. O ser e o ser do pássaro redondo porque centrado em si. São no entanto, em bando, o movimento por excelência, a seta de sentido. O sentido do todo. E, mergulhando os olhos naquelas nuvens imensas de aves, em bando compacto, em estruturas indecifráveis na sua causalidade, definindo ritmos e padrões mutantes, evoluindo no ar consistentemente, há uma sensação de maravilha. E o bando, mesmo na mansidão rítmica e dinâmica dos inúmeros arabescos e floreados, nunca se perdendo como um corpo, orgânico e uno na sua identidade. Plástico no entanto ao ponto de ver a ligação entre as minúsculas partes, como células, distender-se mais ou menos elástica, deformar-se por acentuação ou nivelarem-se entre si as linhas invisíveis que as ligam. Um pouco como um tecido tridimensional arrastado pelo vento e pelo tempo, suavemente a mudar a sua curvatura e a modelar ondulações várias, sem romper. Ou como uma malha fina e flexível. Hipnótica.

A beleza emocionante, e emocionante sem retórica, até quase à força de lágrimas arrancadas à nossa dificuldade em lidar por vezes com o que é belo. Faz pensar que talvez o embalo para olhos contemplativos, com que invejamos os pássaros, se assemelhe a referências remotas, muito lá atrás no início de tudo no ventre materno, a oscilação dos fluidos um eterno romanço de conforto em que só se antevê um mundo fora da caverna, em subtis mudanças de luz e sons coados. E porque embalamos o corpo ao som da música, também nos embalamos solitariamente ao sabor de formas que nos conduzem o olhar. Pequenos humanos que dançam uns com os outros, que também somos. Aos pares ou em grupos. Só ao sabor do ritmo e da melodia, ou em coreografias imaginadas e ensaiadas num corpo de baile. A eterna nostalgia do vôo que afinal nunca fizemos. Excepto, ou talvez sobretudo, porque a natureza dos pensamentos tem essa mesma qualidade e capacidade das aves. O que nos liberta das limitações corpóreas e terrenas, se bem permaneçam sempre ligados a um corpo como à luz de um farol. Os pensamentos.

Os pássaros pequenos – que o mesmo é dizer, pássaros porque só eles o são em termos de espécie – como os estorninhos, e porque são presa de predadores de maior vulto, voam às centenas ou voam aos milhares ao fim da tarde antes de escolher o poiso para dormir. A grandes velocidades navegam juntos em padrões assimétricos, altamente coordenados. A estas revoadas dá-se o nome colorido, burburinho de estorninhos. Uma onomatopeia bonita que quase rima com o seu nome de pássaros a adejar asas velozmente. Agitados. Animados. Por isso a questão é afinal para onde voam os pássaros quando não voam para lado nenhum.

Esses bandos de dezenas centenas ou mesmo milhares de pássaros ou outras aves, que evoluem juntos no espaço, porque a natureza lhes ensinou que é melhor, para se protegerem de predadores, naturais ou não, mas também porque têm um destino comum e se ajudam para essa finalidade. Enquanto outras aves voam sós, e não há juízos possíveis sobre a validade de uma ou outra forma de existir.

Eles levantam vôo de forma aparentemente despreocupada e aleatória, mas gradualmente vão definindo as suas posições e o seu lugar no bando. Posicionam-se numa formação que permite usufruir do impulso gerado pelo deslocamento do ar, causado pelo bater das asas do que voa à sua frente. As primeiras aves do bando, ajudam a vencer a resistência do ar criando um vácuo que ajuda as outras a planar ou a voar com menor esforço e por mais tempo. E quando voam para longe é uma economia relevante. Em tão pequenos seres vivos, que atravessam por vezes anualmente milhares de quilómetros. O bater das asas deixa para trás um redemoinho de ar, nesse turbilhão, em que o ar é empurrado para baixo e seguidamente num jacto para cima. E é aí que a ave seguinte pode fluir, economizando energia e desenvolvendo um esforço menor. Todos os órgãos sensoriais apurados se coordenam para uma orientação espacial precisa e os manter com exactidão no seu lugar, relativo a seis ou sete outros, que lhes voam em redor. E isso exige uma sincronia perfeita no batimento das asas, aferida pelas sensações de deslocação do ar, como uma orquestra em uníssono, ou quando um som ainda paira no ar e já outro se começa a formular. Os líderes são eventualmente os melhores navegadores. É um mistério como assumem esse reconhecimento de que o são. Mas no vôo em bando, este vai mudando regularmente a formação e os que lideram revezam-se nesse papel. Subtilmente, sem quebras de ritmo, sem dilemas, luta ou contestação. Seguindo viagem.

Quantas comparações, quantos símbolos encontram uma imagem no reino das aves, no seu modo de vida. A rapina, o vôo, o olhar, o golpe de asa. E estes mecanismos de grupo. A partir daqui, quantas metáforas se poderiam pertinentemente formular… Políticas, sociais, existenciais.

Quantos povos deveriam poder dizer “queres voar comigo?”… e quantos amantes deveriam saber dizê-lo também. O lirismo é um estado dificilmente partilhável. Sobretudo com esta puerilidade. No mundo de hoje como no de sempre. Mas tudo a tender para pior. Por isso me apetece esta metáfora infantil e simples.

Este é o discurso mais próximo de uma afirmação política que consigo de momento. Tão difícil escrever. Centrarmo-nos em algo que faça sentido, numa emoção relevante e abrangente que faça sentido. Seja ela enebriarmo-nos com concertos de Schumann, ou com a contemplação do vôo de bandos de pássaros. Que seja coincidente com o momento, anestesiante e extensível a outros sentidos possíveis, mas mais universais do que o simples desabafo da nossa pequenez. Desde que essa espécie de embriaguez possa extravasar o círculo redondo, passe a redundância, do nosso eu em êxtase lúdico, e envolver os outros no prazer de uma imagem bela, em algum prazer de um simples momento.

Para além de todo o registo de amargura, de dispersão e confusão, de injustiça, de desígnios imperscrutáveis, em que somos um bando desavindo, penso nas nuvens de pássaros. Funcionamos não como um bando mas como diferentes bandos de espécies distintas. Incompatíveis. Inimigas. A solidariedade, palavra terrível e aglutinadora como uma cola, mas por vezes tão desastrosa e inábil como esta. E como a cola, manietante e geradora de dependências. Melhor dizer como os pássaros que levantam vôo de forma caótica, mas que, subtilmente e às vezes levando muito tempo, se vão organizando naquela formação que é a melhor para o percurso de todos, sem competição sem hesitações. Melhor dizer, mesmo que por palavras. Podemos voar? Podemos voar convosco? Podemos voar juntos? Podemos voar? Poderíamos voar. Se fôssemos pássaros. Como humanidade, não vamos longe.

3 Jul 2015

Ao negro, ao rubro ou às cegas

Ainda e sempre, visualizando um mundo inteligível por camadas. Aí, onde a estética do sublime vive nas orlas extremas. As mais inalcançáveis arriscadas e fugidias. A mais elevada (as esferas mais altas de Nietzsche) e intangível porque volátil, a esfera do utópico sonhado, que preconiza a morte da filosofia porque idealmente se teriam desenrolado todos os nós do conflito pelo entendimento da vida, sentido e fim, e aquela que os filósofos amantes do saber perseguem. Amam-na perseguindo a sua morte. O que é uma curiosa forma de amor. Como noutras em que o apaziguamento traz no final a mudez dos não sentimentos. A morte por se alcançar a inutilidade final. Ou aquela outra dimensão mais subterrânea de onde se desentranham verdades dolorosas, conclusões parciais no limite do suportável, do encarável. O domínio da natureza humana como fundamento de todas as complexidades sem mais responsabilidades a remeter para fora do estritamente humano. O remexer nas perplexidades inerentes e como tal sem solução excepto do ponto de vista do saber interior ao ser. Sem uma lógica ou uma razão física ou metafísica para o desenrolar de questões, para além dos próprios mecanismos do intelecto humano. Se não é o universo a estabelecer as bases para a sua própria interrogação mas as condicionantes humanas, o que sobra é fútil, é um encadeado de elucubrações e devaneios da alma do indivíduo colectivo, inútil e vã como pressuposto universal. Ou o universo se dimensiona por referência ao homem na sua insuficiência, por incapaz de se entender a si mesmo. A filosofia é o que é imperfeito, o que é desconhecido, misterioso. “Só conhecemos o que a si próprio se conhece” como diz Novalis. E descer às profundezas é penoso e atemorizante.

Depois há todo um universo intermédio, à superfície, que é o domínio do pitoresco. O colorido, alegre e paisagístico, feito de formas e elementos naturais, lúdicos, onde se situam os viciados no discurso pelo discurso, e nas palavras pelas palavras de um modo decorativo e hedonista. Como na pintura, o excesso de cores a conduzir para uma progressiva dissolução do sentido. Cinco cores, cinco palavras-chave. Seria o ideal. Nem demais nem de menos. Tudo o resto são as cambiantes de claro-escuro que tornam complexo. Que modelam as formas em volumes mais suaves ou mais acidentados conforme a expressão. As palavras bonitas e os conteúdos frescos, apaixonados feéricos e embriagadores de onde não podemos senão resvalar, como da beira de um penhasco, conduzidos pelo flautista de Hamlin, e cair em desamparo da futilidade ligeira, para o pântano tenebroso das questões profundas. Diria dessa camada do meio, o verdadeiro limbo. A fuga em frente. E das outras camadas, céu e inferno em simultâneo. Quantos infernos tinha Dante? Nove camadas de sofrimento entranhadas nas profundezas da terra.

Mas como nas dualidades externamente estabelecidas como reverso umas das outras, na sua inextricável vivência a duas faces, dos opostos só faz sentido perceber as relações entre eles estabelecidas e desfeitas, a sucessiva deslocação de um ponto de vista para o outro, um olhar cubista que recuando se ilude na mistura de todos eles num mesmo plano. E esse é um exercício retórico. Assumir a validade de, em cada momento, nos resignarmos ou pelo contrário desafiarmos a lógica inalcançável das coisas, ao olhar através de um só desses ângulos parece ser uma imperfeição mais humana e possível. Saltar agilmente de face para face, de camada para camada sem perder contudo de vista a possibilidade das outras. Ou nos perdermos. Mesmo que desse sítio do mundo visível, tudo nos seja apresentado ao negro. Ou ao rubro. De outro modo seria às cegas.

28 Jun 2015

Vizinhos lunares

Aesta hora em que começo a escrever, olho para o lado e há uma lua enorme e hipnótica sobre o telhado em frente. Em dois dias será lua cheia. Exactamente às 18:21:57. A precisão do tempo, tão contrária à ilusória precisão da percepção. Ou da mesma ordem. Este planeta tão vizinho e o fascínio que exerce sobre nós. Como um espelho de que precisamos, a dizer que existimos como ela ali solta no universo, e igualmente visíveis de fora. E pensei nos meus vizinhos lunares. Tenho um lugar na varanda das traseiras que curiosamente me dá uma enorme abstracção da minha vida. Talvez porque nele me sento geograficamente de costas para o meu pequeno mundo. O lugar de sair. De ficar horas pela noite fora a beber e a fumar cigarros colados uns aos outros. Gosto da ilusão de que não sou vista ali, nestas noites finalmente amenas.

Dados: a minha vizinha das traseiras, Rosário, provavelmente um rosário de lágrimas por detrás desse nome. Vi-a perder os dentes, a tinta do cabelo ao longo de meses, o marido com cancro depois de muito tempo acamado, a mãe no andar de baixo. O pai, uma figura tristíssima e lenta a estender a roupa depois disso e mais tarde a perder as pernas, ele. Cruzávamo-nos muitas vezes as duas, naquele espaço apertado de saguão, a estender roupa. Ou a passar a ferro de janelas abertas. Eu no quarto do fundo e ali a quatro, cinco metros, ela, a passar pilhas imensas da roupa do restaurante e outra, com que ganhava a vida. Ouvia-lhe a máquina de lavar non stop pela noite adentro. Há muito que não a vejo. Mudou-se para o rés-do-chão com o pai depois da tragédia. Esse prédio de empena feia está tão silencioso desde há uns tempos. Não sei destes meus vizinhos que me ofereciam plantas. As últimas vezes que a vi foi na rua a distribuir aqueles papelinhos dos restaurantes. Uma vida difícil é assim.

E aqueles, num outro pequeno prédio ali mesmo mas num recanto de difícil acesso ao olhar, de tal forma que nunca os vi, que cantavam em coro nas noites quentes do verão passado, belas canções numa língua de leste. Mesmo com o karaoke, quase bem de mais para ser verdade assim só, em reuniões de expatriados nostálgicos. E aquela figura de rapaz oriental enquadrada pelo rectângulo da janela, sempre frente ao computador, com um prato de comida sem mais. O outro ano após ano, mal as janelas começam a abrir, a improvisar notas num saxofone sem nunca evoluir numa melodia sequer. E a senhora que passeia entre a padaria e a mercearia em robe azul turquesa.

Não sei se me interesso mais pelas almas ou pelos indivíduos. Num momento direi uma coisa e logo no momento seguinte a outra…suponho que pelos segundos talvez, mas a uma distância assim lunar. Mas a mais lunar figura de todas, aquela rapariga de ar renascentista, branca como não é possível ser mais, e que estendia uma toalha com gestos lentos e repetitivos, de emenda meticulosa. E nua. Nua e abstraída de toda a possibilidade de haver um mundo para além daquela toalha que levava uma eternidade a ser presa nas molas. Corrigida na posição, esticada. Vi-a mais do que uma vez assim. Eternizou-se nos meus sentidos e na memória a figura extática, alheada, lenta, de olhos baixos. Até porque a via de cima. Depois pareceu-me ver no arredondado do ventre que talvez estivesse grávida o que explicaria esse lado lunar, talvez. Mas nunca entendi porquê nua. Sem sensualidade, sem pudor, sem consciência. Sem tempo. Sem realidade. Aquela rapariga de leste ou de Marte. Branca, etérea e suave até quase à transparência. Tão real ou tão pouco, como aquela minha figura querida, que vi em sonhos pendurada na janela em frente daquela, numa altura de ímpetos suicidas. Envolta numa luz de madrugada. Ambas vistas do mesmo canto da visão.

Estes são os dados.

Não sei bem o que é que a lua tem a ver com este meu deambular pela varanda das traseiras, exceptuando o facto de que à escala do universo também ela é simultaneamente próxima e inalcançável. Pomos os olhos nela e sonhamos. Nesse desfasamento de um segundo-luz que nos separa. Mas precisamos dessa distância satélite.

Dados: eu, no bom tempo, sentada na varanda das traseiras, um microcosmos, a fumar e a beber cervejas. A não querer ser vista. A ver o que se oferece. Não espio, mas também não evito ver. Gosto de ver as pessoas. Os indivíduos interessam-me a essa distância orbital. Desconhecidos girando na órbita uns dos outros recobertos de camadas de sentido que permitem aproximações e afastamentos alternados. Outros mais aquém numa outra camada, aquém mesmo dos limites do tacto. Embora mesmo o olhar, à partida pareça possuir também esse sentido.

Toda a vida me disseram distante, porque a proximidade é secreta. A minha. Aproximo as coisas com os olhos e escondo-o. Mas aproximo-as. Às vezes com uma carícia. e forja-se assim com estes e outros personagens uma órbita próxima, definida pela persistência do olhar, como uma corda esticada. Em camadas sucessivas a diferentes distâncias, medidas na intensidade da minha consciência delas. Mas não porque eu seja o centro deste sistema, nada gravita em meu torno que não sou centro de nenhuma força gravitacional. De nada. A distância é uma coisa relativa que se palmilha com os olhos.

Na realidade nunca me senti o centro de nada. Sou mais uma personagem periférica. Ou talvez mesmo marginal. Com curtas incursões ao vórtice. Porque me prendem a atenção as pessoas na sua generalidade de indivíduos tanto como na sua especificidade de seres ou entes. Ou vice versa. Não porque eu as ache interessantes ou bonitas por defeito. Interessam-me na sua realidade por vezes estranha. Mas aquilo que as desfeia, aos meus olhos é a vida que as estraga. É uma expressão de antigamente esta de dizer da aparência de alguém envelhecido, que está estragado. Não sendo necessariamente a mesma coisa. A existência que desgasta e retira a dinâmica muscular que dá vida aos olhos, por exemplo. Nada tão revelador da alma como um certo encurvar dos ombros. Nada diz mais do indivíduo do que a forma como se apresenta fisicamente, como diz de si com o corpo, não: estou; mas: pesa-me. A alma imprime uma dinâmica ao sentir e este é um motor corporal. E não existe forma sem expressão. E por isso o indivíduo é uma forma tocada de uma expressão própria ou uma impressão da alma nele enquanto forma em acção. O modo e o rítmo do andar. Com as mãos é a mesma coisa, sempre senti estranho o facto de tantas pessoas darem uma particular atenção a esta parte expressiva do corpo. Esteticamente. Nunca me aconteceu. Entendi porquê…O que me atrai é a forma como as pessoas movem os objectos, como se pressente a sua consciência do tacto. Como tocam as coisas e as tacteiam. E nas pessoas. Isso sim, fascina-me. E a boca. Interessa-me a relação da boca com ela própria, como pronúncio da sua vocação terna ou sensual. É tudo uma questão de autoconsciência. Observo a consciência de si numa boca, num gesto que se faz no próprio corpo…No andar. Muito mais do que a forma desse todo, é a sua gestão que me fascina…

O segredo de muitos dos sintomas, diria da alma, está nessa existência muscular, na disciplina ou no desalento que ao longo do tempo franze em rugas, crispações, revira os sorrisos para baixo nos cantos. E aos sintomas, não adianta muito tratar. É como uma representação barata de um estar que não se confirma de dentro. Como na medicina oriental não se tratam os sintomas, no teatro, uma boa representação é aquela em que se interpreta não esses sintomas exteriores, mas se actua em função das causas, sentidas por dentro, vistas de dentro e traduzidas numa expressão que pode ser representada e como tal ilusória, mas é sentida.

Há muitos anos alguém me referiu um livro, que na realidade nunca li, mas retive o nome em tradução livre: As escadas traseiras da Filosofia (“Die Philosophische Hintertreppe”, Wilhelm Weischedel, um livro de 1966). Não se trata de eu não encarar com alguma desconfiança, a tentativa de ler no quotidiano de alguém, aqui trinta e quatro filósofos, os sinais ou sintomas do seu interior intelectual, emocional, espiritual. Mas o próprio Wittgenstein, um dos filósofos referidos, afirma que nada é melhor do entender o indivíduo, para se lhe entender a alma. Geralmente pensamos o contrário. Mas a alma é de impossível acesso. É uma causa de que só se apreendem os sintomas ou sinais. Alguns. O caso de W. fascina-me porque se debruçou como ante o segredo de todas as coisas, sobre a linguagem e as suas armadilhas. As palavras como erro ou aparência. Nem estou bem certa de que ele tenha usado a palavra alma. Também não estou segura de ter grande apreço por esta, senão num sentido poético. Wittgenstein não é nada fácil, não é nada lúdico no seu discurso. Aliás nos seus diálogos socráticos. É preciso sentí-lo de dentro. De resto, a partir de uma certa altura na vida, as grandes revelações parecem vir por vezes de reflexos como num espelho que nos diz aquilo que já intuíramos. Uma empatia ou reconhecimento um pouco centrados na validação do que a humildade não trazia à consciência.

Mas esta perspectiva da análise de grandes pensadores no seu quotidiano, antecede no fundo o conceito de inteligência emocional dos anos noventa. De como os factores não intelectuais influenciam o comportamento inteligente. Mas já Darwin referia a importância da expressão emocional na sobrevivência e na adaptação.

E esse lado privado da vida é parcialmente visível nas traseiras dos prédios. São um lugar de exposição não esperada, da privacidade das roupas interiores estendidas, no seu melhor e no seu pior. Dos cabelos despenteados ao acordar, das camisolas de alças transpiradas. Dos robes desbotados. Dos telefonemas de sedução, que oiço a vizinhos de várias gerações. Das discussões sem pudor porque se passam lá atrás. Dos cães fechados em varandas mínimas e que ladram e ganem a horas desorbitadas. E dos gatos, claro.

Do lado da frente, da janela do meio tenho desde há meses a vizinhança um pouco desalinhada, meio andar mais abaixo, mas ali em frente, de uma nova habitante. O quarto, neste caso não é resguardado lá atrás, e é igual a todos os outros que vejo pelas outras janelas, as colchas iguais, a mesma síntese um pouco fria, a limpeza, e poucos objectos pessoais. Ela tem uma característica diferente das outras habitantes, é noctívaga como eu. E tem a janela aberta de dia e de noite. É um pouco embaraçoso mas eu vejo-a deitada na cama, a dormir. Pouco. De vez em quando. Gosto desta companhia. Não sei se ela me observa discretamente como eu a ela. Às vezes vou ver se já dorme e fico desapontada por que me parece que desistiu de esperar algo da noite. Ali fechada nada de especial pode acontecer mas ela espera. Se calhar só que o sono venha. É uma mulher com história de vida. Parece repleta. Fuma à janela e ouve um aparelho de rádio minúsculo às escuras. Não é nada nova mas tem postura de alguém que não encolheu nunca os ombros. Poderia ser uma actriz ou uma cantora de ópera, fantasio, pela figura volumosa mas empertigada. Com dignidade. Não é bonita, parece-me, mas mal a vejo. É de noite que está ali. Debruçada no parapeito e a fumar. Sempre. O que me perturba um pouco nestas vidas que se vão sucedendo nestes quartos, é o pouco que elas trazem consigo. Poucos objectos, poucas testemunhas físicas da vida vivida. Como se não tivesse sobrado nada ou fosse uma etapa passageira, como o é sempre, mas ali, um pouco mais.

Pensando melhor, poderia ter sido dona de um bordel mediano, ou patroa de pensão, arrumadora num clube de encontros para lá de clandestinos, camareira num teatro ou mesmo actriz. Ou uma cantora de ópera de segundo plano. Tem volume e pose para isso tudo, volto a pensar. E neste país, tanto acabam num lar da Misericórdia uns como outros. Ou pior. Esquecidos em quartos, em casas mantidas a custo, numa vergonha do insucesso da velhice e da pobreza, nada mais que uma subvivência marginal. Tem um ar vivido. Sei lá eu porque é que naquela geração, uma mulher que fuma tem sempre um ar mais vivido. E o que significará isso a mais de existência. Mas de existência agora não lhe vejo camadas. Não lhe vejo gente, e só parece aparentar uma espera. Ou uma chegada, afinal. Não consigo deixar de pensar que a vida não lhe anda.

Chegada à última estação. E sentir que é o fim da linha. E só.

Tenho medo.

22 Jun 2015