Dias de Oceania

Porque se arruma pelo som, no lugar da melancolia. No lugar escancarado – aqueles dias repentinos – como uma janela. Varrido de uma ventania. Uma pressa. Arrasadora. Que tudo desarruma. Talvez pelo Natal. Que chega sempre depressa demais. E porque ventania rima vagamente com melancolia. Com apatia. Talvez por essa veste de insularidade que se usa mesmo em dias de festa.

Talvez porque um naturalista, médico e farmacêutico naval, empolgado pela anatomia e taxonomia dos beija-flores em longa viagem pelo Pacífico – o naturalista – envolveu numa falsa ideia continental aquilo que eram, afinal e nada mais que conjuntos de ilhas, isoladas e plenas na sua inviolada insularidade. Talvez porque somos assim também. Falsamente aglomerados num conjunto de que mentalmente, e a intervalos irregulares, um se escapa como num voo ansioso pelas águas circundantes. Como um batedor da alma. Só em verificação de segurança e de haver espaço. De haver esperança de espaço. Depois. De silêncio final e vazio de excessos. De gente. De coisas que não são. Porque vendo bem a encontramos na mesma gaveta da rebeldia, discreta e surda rebeldia estoica e subliminar. Na mesma arrumação se junta por acasos insondáveis a nostalgia, o que é menos estranho, a fobia, a alegria, a utopia, a correria e a euforia. Essa sim. Remexendo distraidamente soltou-se, ligeiramente colada de tanto tempo sem uso à utopia e à melancolia, À alquimia. Retirei lentamente e descolei com cuidado umas das outras, sem evitar rasgar um pouco as pontas. Fragilizadas de humidade e seca. A alquimia a que este ano retirei as mãos. Nem um doce delas se desenrolou. Se distraiu. Talvez no receio de estragar de lágrimas ou de não lhe dar o tempo que não tinha. De cozedura. De fritura. Nem um doce fiz neste natal nem nada. Um desenho. Fiz para quem me fez o seu natal há muitos anos. E só. Para lhe levar antes do esbaforido splash no meio da Oceania.

Mas é Oceânia. Gosto tanto deste nome. Topónimo belo e antiquado. Oceano com o sufixo “ia”. Como um vasto desenrolar de vagas numa pradaria volante. Ondulante, a vogar pelo tempo da memória. Qualquer coisa que alarga o conceito inicial e o desfaz do corrente e sólido limite espacial, atirando-o ao vento como se incerto, numa deriva acima da crosta enrugada de continentes outros e terrestre. Essa sim continentalmente ancorada ao planeta como uma pele envelhecida de rugas de expressão. Da Oceânia resta um vago recorte na matéria do mar. Vago e perdido no meio de um Oceano que é de calmaria intemporal. Sons que reúnem em si o eco e o reverberar das cordas de um instrumento musical. Sons possíveis de dizer, muito acima da garganta que grita outros mais crus e cavos, mais a ecoar no céu. Da boca. E daí para cima em toda a zona do pensamento mas com vibração em todo o peito, na barriga. De um insólito corpo – búzio. Ou antes, talvez, caixa de ressonância de uma guitarra clássica. Pleno. Como um fogo a alastrar do centro da palavra. Natal. Também é palavra para se dizer um pouco acima da linha da garganta. Tem outro som de distante eco no tempo e no espaço de fantasia. Outra palavra saída da mesma gaveta do mês de dezembro. E depois, naqueles momentos de olhar em torno, nada mais do que anseio de acalmia. E de novo a rimar com melancolia.

Mas tirando ser como é, Natal é em si um tempo bom. Era para ser. E de espaço e luz de estrela caminhante uma vez de muitos em muitos anos e depois a memória da luz acompanhada pelo fervor de quem nela acreditou. Estrela que não era estrela mas o que importa se era de luz. E foi. E há-de ser de novo quando voltar do espaço para onde foi. Tempo de memória e tempo de história. Mas lembra-me sempre espaço talvez uma imagem da mitologia que encenou presépios a fingir toda uma distância caminhada até ao Menino. O que é que o Natal tem a ver com o amor? Essa outra palavra de tonalidade contrária e som aveludado e sóbrio. Essa palavra a olhar para o interior que rima com ela. E o oposto a tudo o resto. Talvez uma e outra, palavras, faces de um mesmo dinamismo psíquico que nos atira para dentro em amplitude e profundidade e para um espaço amplo como reflexo figurado deste. Invisível, imenso como o outro. Ambas palavras tão falsamente ligadas por nós doridos, frouxos ou equívocos inábeis. Misturadas como num desvario de histeria colectiva. Não existem mais em magia em lugar nenhum do tempo de um ano, do que noutro de outro tempo desse mesmo ou outro ano. Noite de Natal, ou a vida numa câmara escura. Uma família mergulhada numa tina de químicos a tornar-se visível com toda a nitidez progressiva. A revelar-se. Em tudo o que existe nos outros dias. Passou uma estrela. Incidiu no papel emulsionado. Sensibilizou na medida do tempo, da intensidade da luz e da sensibilidade do papel. O revelador reproduz contrastes ou nuances subtis. Lentamente. E há um tempo de paragem. O limite daquilo que se suporta numa noite qualquer de natal. Lava-se profusamente a folha de papel. Lava-se até desaparecer todo o vestígio de qualquer químico. Ou a fotografia continuaria a evoluir em tons cada vez mais escuros. Indiferenciados. Até à noite total. Passou a estrela. Não voltará tão cedo. Não já no imite do possível. Resta a fantasia de cada um. Divergente. O que é pena. É isso o Natal. Depois sair para as ruas as estradas entre ilhas de gente, de súbito, desaparecida. O silêncio em tudo em todos os lugares. Esse silêncio em que era preciso parar tudo antes do Natal. Antes, dois dias antes, parar. A tempo de decidir cada detalhe entre ilhas. Cada ponte. E depois. Depois quando vem afinal o silêncio, é bom e triste. Sempre. E. Parar então para pensar para onde foi o Natal depois de tudo…

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