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Comove-me de repente o olhar directo sobre as coisas de um passado remoto. Vindas dessa enorme e esquecida cadeia do tempo e pejadas de humanidade. Há dias um par de sapatos de mil anos. Romanos. Fechar os olhos, e abri-los sobre um vestígio concreto de uma vida. Um corpo. Um pé. E alguém. Como se fosse no momento exacto que passou, alguém trouxe no pé um sapato como de filigrana em couro. Como se fosse hoje ou ontem. Uma memória imaginada e pressentida ali na matéria de um artefacto sem idade estética mas com toda a idade da história. Talvez me comova sobretudo o perfume etéreo de humanidade que se agarra ao objecto do olhar, e se desprende como perfume ténue, se nos concentrarmos bem nessa viagem do tempo de ali até aqui. Talvez o que eu gosto é de sentir as pessoas e essa longa cadeia ininterrupta que vem de lá tão antes e que continua a perder de vista. Talvez o que eu goste mesmo é dessa ideia de pessoas. Ou desta terra planeta cheia de cicatrizes naturais, ou do tempo. Talvez o que eu goste mesmo seja do tempo, um cordão longo desfiado desde o sempre ao para sempre. Talvez o tempo. Esse tempo que me faz doer de tão rápido. De tão lento. Talvez mesmo o tempo. E ser parte. Parte e partícula ínfima dessa cadeia. Talvez o tempo, que existe ou não, dependendo de representações. Que lhe emprestem a qualidade concreta. A dimensão ou o sentido. De lá para cá. De cá para além. Disto.
E um dia destes veio viver comigo e está ali como um bicho pacato silencioso e idoso. Mas igual a sempre nos seus talvez cem anos. Bicho máquina, senhor de uma espécie de ronronar que nunca eleva o tom. Singer de nome e máquina de costura de profissão, com pés de tipo aranha, com os inconfundíveis alvéolos de ferro forjado que me lembram mais assas de insectos, o torço equino suavemente arqueado, ou uma espádua garbosamente curva, como a pedir a carícia do tempo recuperado, e com a nobreza da imortalidade com que ele lhe desenhou formas e funções incansáveis. Trouxe-a do abandono incontornável da casa onde ninguém vive. Já. E ali, encostada a uma outra parede ganhou uma outra idade mais leve ou desprendeu-se de novo do acumular de anos sem um olhar próximo, um óleo que afina e alivia os movimentos e o som. E como um bicho que fui encontrando nos últimos tempos escondido atrás da porta. Como se escondido mesmo e assustado. Ou triste e amesquinhado de uma poeira que o manietava e esquecia.
Retomou a cadeia afinal ininterrupta de um tempo que vem de tão longe como o homem que, apaixonado, a ofereceu a uma menina de dezassete anos, prenda de noivado. Já aí com história desconhecida atrás, a máquina. Conhecida a menina, chamada para sempre senhora por aquele amor. Dos dezassete, de um e de outro, e contido numa caixa de madeira feita para a costura, as linhas e as agulhas de uma vida a mudar aos poucos sobre carris, e dedicada, a lápis, no interior. Nome completo e amor. Foi para sempre. Dedicado em dedicatória e depois na vida. À minha avó. Por aquele avô de quem tanto gostei, de olhar verde, transparente. Sonhador e marinheiro. Vogando de além para aquém Tejo em fuga. Mas não dela. Só da interioridade daquela terra que o não preenchia. Mas foi com a bisavó que na realidade aprendi a cozer. A ver e assustada por ela em relação àquela agulha veloz nas costuras domésticas e perigosa como nos contos de fadas. Etelvina. Maria Antónia. Mariana. Os nomes inscritos na memória daquele pedal e sussurrados como uma carícia. Agora eu. A sentir que tenho que lhe encontrar mais caminho. Não por ela mas por este prazer com que a olho. E este sentir-me parte do tempo. Ou, às vezes, parte e tempo. Mas isso sou eu aqui, a pensar, e feliz como um passarinho a olhar para ela ali vinda de longe. Do meu longe e mais ainda. É bom. Mas sempre, como tudo, só esquecendo a parte final do percurso que a trouxe aqui. Só assim é bom. É. Há que esquecer disciplinadamente.
Eu gosto de coisas anacrónicas. E de coisas com idade. E que duram. E de coisas com marcas ou o perfume de vidas antes de agora. Muitas coisas com que vivo tiveram outras vidas antes e outras casas. Gosto dessa impressão do tempo nas coisas. Como gosto da pureza, perfeição e síntese, quase fria e desumana, do minimalismo. Próximo de uma filosofia Zen. Gosto de ambos os extremos. Como da pureza de um lençol antigo de linho branco, que não guarda mácula de antigos partos, vidas e mortes, amores, traições e desvarios. Que nunca perde a sua pureza quase virginal de lençol da primeira noite. Da vida. Gosto de coisas que fogem aos padrões ditados, de uma contemporaneidade fugidia.
Usar camisas de dormir com florinhas. Também. Uma coisa que ninguém sabe e não se diz. Mas não sendo para se dizer, não seria sequer preciso dizê-lo. Há coisas que se podem intuir quando se passa na rua. Disfarçadas de outras coisas que também são. Coisas que sintetizam memória, gosto e rebeldia face à tirania mutante do tempo. Da estética do tempo. Ou da máscara de um tempo que é sempre o mesmo. Vindo de sempre, mudando no que é de mudar e mantendo o que é bom de sempre. Porquê as roupagens, pergunto. Não sendo por razões práticas ou domésticas, porque não andar com vestidos do século dezoito num dia, dos loucos anos vinte no outro e 501 no outro…Porquê? Como se o tempo passado fosse de um outro tempo de que só algumas coisas são válidas. Uma obra de arte. Mas nem tudo o é. Atrocidades dos confins da história tão semelhantes a outras de hoje. Do inacreditável hoje que não apurou com o olhar sobre o passado. De um tempo que é hoje uma pérgula de resquícios de humanidade da mesma natureza de sempre. Com a mesma diversidade de sempre. Simplificar as roupas e sofisticar as armas. É isso. E por debaixo bem e mal de sempre e para sempre.
Voltando atrás, então, a uma pessoa que gosta de camisas de dormir às florinhas. Também. Ou com rendas. Bordados de outros tempos. A frescura das matérias naturais. O engomado do algodão grosso e que só deixa adivinhar o que ali vive. E, a partir desta linha em que o digo, juro e afirmo que todo e qualquer olhar que por ela passe, deveria duvidar. Porque é escrito e público. O que é secreto e privado. Ou não. É, somente escrito e assim deveria ser tomado. Como uma roupagem. Como uma realidade sincera, ou franca portada sobre um símbolo, uma metáfora a imagem trespassada de algo além. Ou um olhar lavado sobre essa pueril realidade. Assim é a escrita. Mas eu gosto de coisas intemporais e gosto do tempo das palavras que ficam. Sobretudo as que se dizem. Com um grande prazo de validade a tender para a utopia da eternidade. Gosto das palavras que atravessam o tempo apesar dos temporais. Que ficam impregnadas como fósseis nas rochas sedimentares, das que marcam como pegadas de um movimento que passou e das que como velhas árvores centenárias mesmo no decrescendo metabólico da idade, continuam a sua vida orgânica e temporal. Em pé. Que é como devem morrer as árvores. Às vezes sinto que há algo inamovível em mim. Como nas montanhas. De imutável estável e duradouro. Enquanto outros locais de mim se vergam como cálamos, quebram, fluem mutáveis e plásticos ao longo do deslumbramento dos dias, da adaptação ao desconhecido e inesperado, de síntese do vivido, de fastio do muito repetido. Mas há um lado de montanha. Não por grandeza. Nem imensurável. Não há montanhas inacessíveis à cartografia. Mas não mudam para agradar aos elementos. Antes se deixam desgastar por eles. Partes de uma cordilheira do tempo maior que tudo, mas por estabilidade no tempo. Estabilidade mutável, exposta à erosão, mas a outra velocidade.
Talvez o tempo. Que corre, pára, foge. Que quando pára, de imediato lhe sabemos decifrar as inevitabilidades e partidas e nessa intuição prévia nos perdemos do simples prazer dessa paragem. Talvez o tempo que se esvai entre os dedos mesmo no momento da carícia mais plena ou mais pungente. Tão fugidio como nosso. Nessa inerente qualidade a que nos acostumamos quando o conhecemos um dia. Para lá da infância que é um tempo sem saber o tempo. E, escrevia estas palavras e levantei-me de súbito impulso, a lembrar-me daquele insólito oráculo que é, em momentos estranhos, o Livro de Areia de Borges. Talvez pelo esvair entre os dedos do tempo, da areia e das páginas. E abrindo-o na intensidade de uma impressão indefinida deste tempo e deste momento e de urgência curiosa, fechando os olhos com força e agarrando o dividido em dois com a mesma força, apontei e era a página branca. Em branco, digo, porque azul, na realidade. Penso, o não tempo da infância, de que falava naquele minuto antes de pegar no livro. E no desapontamento de apenas parecer ilustrar um pensamento sabe-se lá sempre se pertinente, voltei o avesso da página naquele preciso ponto em que a pontinha da unha poisou com força. E li. Um poema. “Essas palavras eram um poema”, assim a frase inteira do acaso. Do avesso do acaso. Das costas lisonjeiras deste acaso ridículo. Lúdico. Ou a ser oráculo. A empatar tempo e sentimentos com uma carga maior de realidade. E penso que sim. Há uma poética no esquadrinhar honesto das emoções. Uma poética anestesiante e barbaramente narcísica – parece. Envolvente. Como um espelho de companhia. Mas entende-se-lhe a veracidade como se entende o uso de combinação. Coisas parecidas, de pouca visibilidade a olhar pouco miúdo. Mas que fazem uma diferença enorme no uso de um vestido. Sem fogo de artifício. Coisas de dentro. Roupa interior. E a roupa interior é sempre honesta. É o que é. Muitas vezes. Prefiro poesia com roupa interior ou a nudez descarada e iludida com que o rei que vai nú. Que se pressente ou não no discurso. Poético ou não. Não. Não tenho a pretensão da poética. Só da palavra. Aquela palavra. Que digo para durar. Ou então não dizer. De uma forma ou outra, talvez o tempo. Onde vive e dorme.

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