Branco-cinza. Cor de rosa

Há uma cidade submersa por detrás de cada frase. De cada pessoa. De cada paisagem estranha de sonho. Aquela quase brancura do céu nas noites de chuva mansa e monótona e às vezes acabada. Como a pele clara mergulhada na quase escuridão, de quase não pensar. É o quê, o corpo, senão uma imensidão branca e momentânea no resto da noite como o céu no resto da chuva. Um corpo a apagar. A acender, a apagar. A mágoa a apagar o que o corpo acende. Às vezes. Desvendar como aos olhos. Como se uma impossibilidade fosse visível na possibilidade de um corpo. Uma visão completa do que é para além. Dos espasmos. De uma respiração rouca. Gritos. Mesmo. Se mesmo, algo cruzasse nos sentidos todos, a fronteira fina da pele. Mas mesmo assim não há menos do que dois ou três, num. Sentir, olhar, pensar. O outro. E são quatro, já. Ali. Na mesma cama. Na mesma noite branca acinzentada, e de restos de chuva, ainda a escorrer de tudo. Intervalados ruídos frescos. Irritantes e cavos, dependendo do que tocam. Alguns. Outros, devagarinho, a envolver. Em insólitas geometrias secretas. Daqui e dali. A ecoar na noite. Branca, cinzenta, citadina, como só as noites. Sobre paredes, canos e vidros, e tudo ao negro, ou quase. Excepto a noite do céu. Clara e impiedosa a correr sem se dar por ela. A correr lenta. Clara. Clara e lenta e surda como só a noite. Na cidade real e adormecida. Ao lado do corpo.

Cerra-se-me o silêncio como uma banda adesiva em torno de pensamentos e palavras de conclusão. Cerram-se as palavras em torno de pensamentos e penas. E como penas e penugens de asas friorentas sobre o corpo de uma lógica e uma não-lógica. E o frio. E provisório tudo.

As pessoas viram o cérebro do avesso e mobilam a casa. Ou perder-me em auto-estradas de circulação restrita. Marear sem cuidado nem destino e voltar a casa ao Cabo da frustração. Mas é uma coisa perecível sempre. Cada tom e cada lugar e cada passo. Passou. Sei lá, às vezes o que fazer de ti, de mim. Na memória. Beijos. Como a terminar uma carta mas com a polpa de um lábio inferior nítida. Nítida e doce. Depois a flor. Já na almofada. Não sei se minha se no sonho, minha. E falar. Não é que tantas vezes não pense que me desenganei no ficheiro e cliquei no poema errado. Poema, loquema, fonema, criatema, problema. Coisas que nem existem. Abraço a almofada com força.

Todos os dias até à noite, ou sobretudo aí aquela vontade teimosa de que ainda chegue algo consolador. E ao mesmo tempo que rejeitar a ideia de fechar o dia na noite da cama do sono e do fim, e nele, nela, a vontade do outro dia. Do seu desconhecido, do seu desconhecimento absoluto no que traz e no que retira. Fico entre portas na indefinição de querer e não querer ouvir. Ver. Perguntar, esperar. Acabar. Desesperar. De não ver. Sempre. E como se as palavras da escrita pudessem ter as cores de uma aguarela sóbria etérea e deslavada de qualquer colorido rico e definitivo, e dela sobrasse apenas uma memória fresca mas fantasmagórica da cor. Das cores. Das cores suaves de ainda não serem no esplendor do meio-dia. Da fantasmática misteriosa plenitude da meia-noite iluminada de lua, do desconhecido absoluto de uma noite sem luar, ou da misteriosa vida anunciada em declínio pelas cinco da tarde a reverberar como iluminadas por dentro as formas. É já uma madrugada nublosa daquelas em que a maior violência que se pode imaginar, para além de todos os pensamentos pendentes de outros dias, para aquém deles e dos dilemas, mais dúvidas do que dilemas, para além de tudo o que acorre de assalto no primeiro minuto vigilante, é ter que sair do esquecimento morno dos cobertores de lã. Em que há sempre ainda a esperança de retorno ao sono.

Mas que já não volta até outro dia. E o apelo frio incolor da madrugada, ali, como um chamamento indeciso mas persistente. Avanço no campo de vimes e hastes a amarelar sem estação convicta. Rígidos e estaladiços. Discretamente crepitantes, frágeis na forma e espessura, mas que picam. Que arranham, que ferem discretamente a pele sem impedir de avançar, sem se lhe dedicar um pensamento mais do que ténue como as cores. Momentâneo como cada passo. E passo em frente com as árvores ao fundo sem saber porquê. Porque vou. E uma haste perdida no meio de tudo, uma pernada de roseira brava por engano. A diferença entre tudo o que se assemelha. No meio, bem no meio do que se assemelha. E, como por ilusão da vontade, vira uma corola coroada de pétalas frescas de cor suave mas cor. Vira para mim imperceptíveis milímetros das pétalas abraçadas entre si e penso que não são girassóis ali. Pergunto-me porquê. Que nada em mim tem o alo ensolarado e radiante matinal de um sol da terra. Mas avanço deslumbrada. Chego-lhe perto demais. E estendo a mão no encantamento de uma rosa no meio de silvas e outras agruras. E pergunto, recolhendo a mão posso…posso tocar…pergunto sempre e nunca sei a resposta porque é assim que eu sou. Para além dos olhos nada mais sei.

Diria que me olhou ao chegar. Mas talvez não. Era talvez o meu desejo deslumbrado de a ver diferente e bonita. Ali. Talvez até nem estivesse ali ao fundo, mas por detrás dos olhos com que a desejei. Ver. Pressentir ao fundo. Alugar os meus passos até. E chegar. E perguntar posso. E vê-la ainda talvez amuada ou irritada da minha pergunta. Que faço demais. E olhar…Também. E perguntar. E olhar. E perguntar. E nunca saber ver. Sem perguntar sem saber. Quase jurava ver-lhe, se estava ali, um risinho sarcástico ou uma ironia imperscrutável do que diz claro que sim. Ou de quem diz claro que não. Estavas aí…a mesma resposta, claro que sim, a mesma resposta, claro que não. É assim que eu vejo o que vejo. Afasto com a violência desesperada de ter que ser, os lençóis brancos, os cobertores de lã branca quentes e afáveis que me não podem prender mais e por que tem que ser este arrancar brutal, este renascer diário para o mesmo que me espera. E que, brancos, me dão a calma que não tenho, como aquela rosa. E a as nuvens correm como em certos dias, as ventanias assobiam e passam, o mar revolve-se na sua eterna e igual violenta imaterialidade, as coisas nascem crescem e secam ou morrem.

E eu estou aqui, sem voar de pés na terra e sempre com a mesmas dúvidas que me levam às rosas e trazem à matérica textura áspera mas calorosa destes cobertores em que às vezes sonho. E de novo aquela aprisionante sensação desesperada de nadar na espessura viscosa e densa das roupas de cama. Sem conseguir deixar o corpo afundar nelas e avançar na água. Que não podia ser mas se ansiava que fosse. Fecho os olhos ao ver que sonha. Que sonha uma que não sei se sou. Revolve-se nos mesmos rolos viscosos e cinzentos escuros da roupa e no mesmo sonho em que me vejo. Vista ou sonhada. Ou nada. Os olhos fechados não me permitem ver. Ver-me nesse sonho que não conheço. Ver quem sonha o sonho. Quem sonho e a quem sonho o sonho. Entendo sempre os meus sonhos de outros em mim. Nunca em mim me entendo nos sonhos de outros em mim.

É isso. Os olhos fechados que não me veem e sonham. Será a mim. Ou não. Acordo e não está ali quem me sonhou no meu sonho. Ou porque não sonho. Levanto-me de dentro do sonho do sonho. Do sonho. Um acordar penoso e longo como um túnel. De reposteiros pesados e escuros a transpor com os pés fora da cama sobre o abismo. Os chinelos são a aterragem possível. Atamancada e tosca como a de uma ave pouco habituada. E o dia rende a noite em cinzentos também. Mas do céu e por ali abaixo. Que respiro mas percebo suaves. Hoje. E, por momentos não saber nada. E ser bom. E ali, longe, todos os meus anjos voam no céu. Inalcançáveis vigilantes. Tão longe, tão irredutíveis, tão abstractos. Tão dentro de mim. Só me resta olhar para cima. Seguir-lhes os olhos ausentes como um último fio que nos liga. Um grito surdo.

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