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Ser criatura e não saber de quê de quem. De que sonho. De que modelo, de que criação, de que mito ou de que lenda. Como uma nostalgia de raízes na terra. No outro. Como o sonho de demiurgia fatal. E o medo, proporcional à grandiosidade do. Medo… Do inteligível ao mundo sensível. O medo. À imagem isso sim sabe-se. Que se é. À imagem de qualquer imagem interior, a qualquer entidade humana ou supra-humana. Ser criatura e não se saber criada. Contornar o mistério da criação divina. Ou será esse mistério, o da expectativa do amor. A eterna nostalgia do olhar. Criador. Modelador. Como uma síndroma de Galateia. O renovar desse olhar inicial que nos edifica enquanto criaturas e esculpe. Sede lugar de um olhar e sede fome de corresponder a um olhar. Descer ao território etéreo como esse e inerente ao humano. Sempre o mistério e misterioso imperfeito, como o é o tempo, com memória e sonho. E que sem tudo, seria eterno. E acabado perfeito.
A criatura e o criador. Ou, a criatura o criador. No diálogo. Ela em frente, a espera do fim. O fim da obra acabada. E todo o momento é aquele em que foge a criatura e duvida o criador. A dúvida é dele a fuga é da obra criada. Ramificada, camada sobre camada. Sobre camada e sobre camada e exponencial. Como ramos, o caminho. Bifurcado e não pensado, não sonhado. Mas é a natureza da obra e do humano. Amplo e humano. A criação é memória e a memória humanidade, olhar, experiência, tacto, vida e morte. Não há outro caminho na criação. Mas na criatura criada sim. Externa ao sonho de si, tornada visível, escapa-se ao primeiro olhar, ao primeiro gesto, e sem que a si se lhe possa atribuir nada. Culpa, decisão ou determinação. Nudez muda abandonada no cavalete do escultor. A partir daí, uma respiração, uma vibração no ar, perguntas, questões. E a criatura passa a espelho e o espelho a criatura no espelho do outro. É depois, a fantasia da obra. Ou antes. Escrita, lavrada, esculpida. Bordada a ponto. Rebelde. A tecer outros tecidos e bordados. Mesmo a pedra. Nem sempre de acordo com o escultor. Terá ele que o desculpar a si próprio. Ou a ela. É indiferente. Está ali com todas as imperfeições de um e de outro. Sente-se a obra frente ao criador. Senta-se, sentada de pedra, obra e em frente, pedra de alquimia, terra de cultivo. Senta-se. Fitando com olhos de amor. E espera o sopro vital. Fitam-se os olhos. Do desconfiar. Rebela-se a obra. Duvida o criador. Deixar à poesia a função de encantar. No seu falar só. Solitário. E formar a obra. Pedra de formas. Sente. O frio que espera. O sopro.
Criatura criada é um mundo. No universo da linguagem, nas suas camadas de sentido em aberto. Obra aberta. E mais o tempo. Senta-se a criatura criada em frente e senta-se o criador na frente e, no confronto, como estranhos. Afinal. Se um é o outro. Até ao toque final. Até ao sopro vital. E a criatura vai. Amante do criador e este, extasiado ou desiludido, ou estupefacto da criatura criada a partir de si. Por si para si no mundo fora de si e para o mundo além de si. A partir. Por outros sentidos. Sem sair do mesmo lugar. Ali. A obra espera serena e passiva a continuação do sonho. Julga. O criador, esse, desfaz-se em indecisão porque vê de fora a criatura criada, meio criada mas já definida, conflituosa. Como uma personalidade a desenvolver-se. E há que entender e comparar e testar o direito de a reconduzir ao sonho inicial de a cercar de uma ideia firme e embrionária. Porque ela foge e noutros sentidos e talvez seja de deixar fluir. No seu caminho livre, agora. Depois do gesto inicial. Deixando de pertencer, ganhando vida própria. Num limbo em que depende do criador para o sopro vital, o rito de passagem. De inacabado a acabado. Familiar ou estranho. Ao criador. E se às vezes houve a paixão pela ideia, outra é a paixão pela pedra esculpida. A estranheza do encantamento. E a obra está pronta e o criador nem sempre para a obra criada. Exterior, autónoma e estranha na sua identidade recente. Mas ela devolve em reflexo. Perfeito ou imperfeito de uma intenção inicial. Ao espelho.
Mas perfeito, é o paradigma do mito. No olhar de Pigmaleão, escultor da pedra à medida do sonho e do imaginado perfeito. Mas falta ao mito a fantasia do olhar sobre si. O olhar da criatura criada sobre o criador amante. O olhar que se fantasia refletido no olhar do outro. O olhar do outro que edifica monstros e anjos e por vezes o outro. Assim. Nunca do natural se pode imitar sem perda. Da natureza a arte deve assumir a competição. Imitar é ficar aquém, reformular é dar vida. Inventar a vida. O escultor, esculpe a figura à medida da sua utopia e a vê-a, como prémio, tornada viva e realidade. O poder da invenção na manifestação de realidade. O sonho a definir os troços do caminho. O de Pigmalião é um mito belo. Porque não se detém na fraqueza humana e no insucesso, mas no poder de uma expectativa positiva, no engendrar da vida. O efeito de Rosenthal. Quanto mais se edifica uma imagem mais ela se concretiza. Ou, noutros termos e noutros estudos, profecia auto-realizável.
E a consciência de si de cada um, já não obra criada, mas mesmo assim. Formulada no outro. Mesmo sem mais desígnio do que o do simples olhar. Espelho. Reflexão. Existência criada ou ignorada. Ou esquecida. Sim, o espelho como raízes estendidas de lado a lado do vidro, do estanho, da prata, da obsidiana negra que transtorna o olhar-raiz. Transtorna de lucidez ou transforma de embriaguez. E de novo, como o sopro vital.
Aqueles em que nos fantasiamos como eles a nós. Uma coincidência mágica de identidade suavemente conseguida reconhecida e grata. O espelho ideal para uns o que retoca e regenera, para outros o que vai às entranhas do eu e as devolve delicadamente. Iguais. Sim a magia dos espelhos como a da criação artística ou de paradigmas. Nelas rever a essência do que somos que não a sós. Essa, quase sempre uma outra imagem e solitária. Criar um olhar que vê ou criar um olhar que não vê nem se mostra no ver e ser visto. Que nem passa pelos olhos, talvez. Como Modigliani deixava os olhares vazios…vazios ou cheios de todas as possibilidades interiores a um olhar. Sem limite. Talvez deixando para mais tarde o desafio de os entender ou talvez deixando-os como abertura franca, um rasgo directo à alma expressa na intimidade dos corpos, essa que lhes transmitia uma entrega de nudez para além da pele. Tudo. Como representação. O sonho com efeito. Ou a arte pela vida.

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