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A casa onde ninguém vive. Uma imagem de solidão habitada por fantasmas. Sons, cheiros e vozes. Sobretudo vozes. Entro, e em frente o solitário com a eterna camélia vermelha. Eterna e artificial.
Solitário. Essa jarra alta e esguia como uma escultura de Giacometti. Sempre gostei delas, antiquadas, elegantes e para uma flor só. Em casa, toda a vida um. Da avó, e mesmo depois de ela já não estar sempre, ficou. Até um dia. E quando se partiu esse antigo, levei um outro, pelo muito que gostei destas jarras. Ainda ali está. Na casa onde ninguém vive. Casa triste. Se dela se pode dizer ainda, ser uma casa. Mas é de algum modo um ser. E como os outros, habitado ou não. Já não. E encerra na sua escuridão, dantes acolhedora e agora só escura, restos de uma alma que ali ficou impressa. Cada vez mais desmaiada, fugidia. Que absorveu de vidas e vozes, de entradas e saídas de beijos e despedidas. Vidas cruzadas ali por momentos, horas e dias, meses e anos, vidas vividas e livres, ou aprisionadas, contrafeitas. Paragem entre viagens, estação temporária de dias ou meros momentos, futuro impreciso e para sempre. O para sempre de viver enquanto dura. O para sempre de haver crianças a abrir os olhos e com um futuro de imensidão possível. O da ilusão de eternidade. O da ilusão de imortalidade. Esquecida realidade no cadinho de tantas outras emoções. Estruturas, zangas. Tantas vozes alteradas e tantas vozes alteradas depois para outros tons. Gritos, emoções. E as primeiras rosas. E a ninhada da estação. E os trovões de que o cão grande, enorme tinha medo de morte. O único já, que depois ainda prendia ali a dona de uma casa a entristecer. Arranhava a porta ali em baixo com as unhas enormes e a sua alma infantil a sair por uns olhos aterrorizados, até à exaustão. E de uma nesga para o acalmar ele irrompia para dentro com toda a força brutal do medo, subia escadas íngremes e atirava-se como a força telúrica alojada na sua alma animal, de encontro ao sofá grande que ocupava em todo o comprimento no chão que lhe chegava. Debaixo de tecto. E fechava os olhos com um enorme suspiro humano e a força inabalável de quem só sairia à força e essa força não havia. E os eclipses. Acontecimentos a céu aberto rodeados da fantasmagoria silenciosa das rosas nocturnas. E os campeonatos de futebol a lembrar ausência depois. Ir e vir. E ser casa a que se chega. E de que se parte sempre para voltar. Casa. A casa dos pais.
Uma sensação falhada de para sempre deve ser o destino onde desemboca cada solidão de casa no final. Abandonada sem querer. Até há um tempo, mesmo sem já saber para quê, cuidava-lhe do pó como quem cuida de uma criança ou de um idoso. Não deixava acabar os fósforos. O café. O frio do frigorífico de ronronar esperançoso. Regar as mesmas plantas de antes. Cuidar do passado como nas últimas décadas, e ver depois que algo na vida me foi esquecendo. E a esquece em parte quem se demora no passado. E nesse cuidar se fazia presente e ilusório na sua completude, aquela urgência de acudir. Algo me prendeu ali. E inflectiu. O meu caminho. São as contas da vida. Precisava de ter tido a força de um super-herói e duas vidas para viver. Bem.
Tanta poética sem uma cronologia fixa. Topografia estável. Ir em frente sem saber se para trás. Entender tarde e temer cedo demais. Contraria a razão. Passe de magia sem deslumbre possível. A poesia é para comer. Diz Betânia. Mas a vida, para viver.

Hoje visito-a para consolar a minha tristeza e a dela. Mente animista a minha. Levo-lhe duas cervejas fresquinhas para bebermos juntas. As minhas visitas curtas, agora. Em que me demoro simplesmente a revolver a própria forma da despedida. E a matéria, cada segundo. Perscrutar-lhe a viabilidade com cuidado. Homenagem a uma solidão de que não tem culpa. E à minha nostalgia incurável de outros tempos ali. Sento-me com ela num sítio diferente. Escolhi um outro lugar preferido para este tempo de solidão a duas. A dela desabitada de todos. A minha do impossível retorno. Por isso já não me sento com ela no sítio do costume. Com vista para todas as ausências. Com vista para o silêncio que vem da cozinha e da televisão vintage, silenciada pela modernidade que não consegue acompanhar, viva mas inerte. Para a porta por onde ninguém entra, e para a poeira densa que tudo recobre a proteger da vivacidade dos tons que feririam na sua paragem, mais do que o constatar de que tudo mudou. Um bicho sem dono, este ser de casa. Que ninguém cuida. Escolhi um lugar novo de estar ali na minha melancolia, de costas para tudo. Pela casa. Este lugar, a olhar para fora. Ao contrário do meu de muitos anos, no canto direito do sofá grande. Sento-me com ela, e silenciosamente ela entende. Estar ali naquele lado do redondo da outra mesa e a olhar a janela, a desviar os olhos das orquídeas que ainda resistem. Antigas mas a ceder ao abandono. A janela é tudo. Fora e dentro para amenizar a tristeza. Bebo a minha cerveja e vou fumando a dar contas à vida e a contar-lhe segredos de agora. Bebo a minha cerveja lentamente por mim e por ela. Bebo a outra por ela e pela minha tristeza dela. E sinto que lhe fiz companhia e ela a mim. No possível de cada uma de nós hoje. Um dia diferente no tempo e já muito fora da realidade que é habitar e ser habitada. Isso já não é.
Mas há a memória. Por isso atraso ou dou tempo, até desgastar qualquer sensação de desarrumar, destruir, desmanchar uma casa. Que já começou, mas estendo no tempo um pouco mais. Mesmo quando a casa que ninguém habita, nem as minhas saudades têm o poder de trazer de novo à vida. A perder-se no desvanecimento próprio à memória das coisas a sair do lugar da sua organização própria, que tinha cheiros e imperfeições. Ruídos e sujidades novas. Não esta poeira que se sobrepõe, indiferente, camada sobre camada de esquecimento, vazio e silêncio. Da inutilidade.
Aconteceu algo aqui. Oiço as vozes por trás de mim. Quando oiço. Mas as vozes tendem a calar-se discretamente à medida da minha despedida. É isso. Viro-lhes as costas e tento ouvir de novo. Ou que se calem apaziguadas na espuma do tempo que passou para sempre, sem ressentimentos nem amarras. Tento que se desliguem deste suporte que vai ter que se desatar. E se depurem em outras formas de habitar, e que pairem por ali nas sonoridades mais coloridas. Risos. Chamamentos. Perfumes de cozinha sempre viva. Jogos. Novidades das flores e das árvores inábeis e generosas. Venho beber um copo com ela mas na realidade poiso um só em cima da mesa. E bebemos eu e ela alternadamente como amantes que partilham segredos. Dizem. Do mesmo copo. Tantas coisas. Aconteceu algo aqui durante anos. E foi. E agora é preciso libertar e libertar-me desta teia quase física onde estão presas memórias. Bebo para celebrar o que foi e para me juntar ainda uns momentos a este bicho estranho que é a memória boa-má. Eu sei o que isto foi. Mas a casa está exausta de abandono e a deixar fugir entre os dedos aquilo que o tempo levou para sempre. Esses dedos que vejo estendidos lá fora. Como um signo – sinal. Dizem que também tenho que sair do novelo de memórias, fechadas um dia destes finalmente na arca de madeira lavrada. Tantas coisas que, conhecendo de sempre, me apetece levar comigo, como animais abandonados. E que preciso de revolver nas mãos vezes sem fim antes de lhes dar destino. Relembrando tudo o que trazem em si e de mim. Avaliando as possibilidades de nunca mais ver. De esquecer. A força que tenho ou não. E sempre a vontade de guardar tudo. Mesmo noutro lugar e já sem a cartografia exacta do uso ou do cenário. E depois? Algumas coisas quase mágicas davam uma grande história se o despudor chegasse a tanto. Outras só desenhando uma cronologia de tempos passados e arrumados. E as vozes. Ecos. Já só. Que tento continuar a ouvir, por um lado, e esquecer por outro. Porque tudo era imperfeito como a vida.
Estas são visitas de despedida. Despedida lenta como o tem que ser para mim. E a sós como o devem ser as grandes despedidas. Dizia Gerardo Castelo Lopes de um fotógrafo, que devia abordar o alvo da fotografia como num acto de sedução, delicada e lentamente. A sedução que se concretiza no fotografar de um ser, que o prende no fascínio do olhar por detrás da câmara. E se esgota ali. Mas esse acto de predação, dizia, devia ser amenizado por uma retirada também lenta e suave. Com o mesmo charme cuidadoso da abordagem, sem cortes abruptos. Sem dor. São assim estas despedidas. Mas não sem dor. Só com todo o tempo. A desgastar e a aplainar cada nó de mágoa, mais não seja pela repetição. Pela diluição.
Mesmo os espelhos já não parecem reconhecer o momento. Antes tristes e ressentidos. Na realidade já não devolvem uma imagem com rigor e plenitude. A deixar de nos reconhecer como se o momento único e desgarrado de toda a memória para eles não fosse o suficiente para reconhecer-nos e assim nos devolver em imagem. Como se faltasse a espessura de todo o entretanto para dar consistência à imagem- reflexo que emitem. Amuados, magoados de tanta ausência de movimento na sua frente. De tanto desconhecimento de tudo o que hoje se passa longe dali. Porque a vida, uma vida debandou dali. Em alguns num bater de asas leve e inconsciente e noutros como eu, presa à minha propensão para a nostalgia. Mesmo eu, que já não tenho espaço de vida para aquela casa e aquela memória. A necessidade das despedidas também desse lado de mim. Não só porque a casa, a alma da casa, se foi. E foi para nunca mais. E é preciso que o nunca mais se torne eterno. Saia do limbo da saudade presa ainda por fios aos passos possíveis, aos objectos no seu lugar de ainda. Aos ângulos ainda vagamente semelhantes a sempre. Mas sem as pessoas. E sem as pessoas, uma casa deixa de ser uma casa. E há que retirar- lhe delicadamente os fragmentos da alma agarrada aos objectos e trazê-los para uma nova vida. Ou sepultar.
Sento-me nesse lugar novo, de costas para toda a casa por onde já circulam as ausências de coisas, a desarrumação lenta e inadiável a ganhar a forma da desconstrução. E por isso também. Mas pela janela, vejo quase só a janela. E sei porque o faço. E ali, também a árvore de sempre, de copa altiva durante anos, decepada progressivamente por temporais repetidos ao longo de invernos. Com pernadas presas por um fio de fibras temporariamente perigosas e que iam depois caindo. Dessa árvore sobra um tronco a ressequir de formas dramáticas. E um dia aquelas mãos. Outra referência a Giacometti. Como uma escultura orgânica, esta. Abertas num gesto expressivo. E com o dramatismo contraído até à ínfima expressão sob a pressão do mundo, e ferozmente lançado em frente dos “Walking man”. Sei. Este sinal. Por isso me sento agora nesta janela a olhar para fora e de costas para a casa onde ninguém vive. Já. Não sei já se aquela era o castanheiro temerário muito podado e crescido em altura para lá do razoável, que a cada inverno e temporal ameaçava estragar algo na queda. Como as pessoas. Mas este inverno foi definitivo para ela. E aquelas mãos, negras e magras a espreitar de fora, um dia disseram de forma diferente. E foi bom.
Fecho a porta à chave e prometo voltar. A ela ou a mim. Mentalmente. Ainda para uma última despedida, antes da última. E vou. É tarde.

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