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São fases. Como as da lua. Que fazer quando chega esta estação que nos deixa de algum modo indecisos entre o sentido de queda, decadência e melancolia e o de colheita, harvest, outro nome para o mesmo tempo, como uma síntese do labor subterrâneo à consciência atravessando meses suaves e deparando-se com o desafio.
Como, como conseguir manter a esperança do tempo que há-de voltar com os primeiros ventos suaves, prenúncio de mudança. Como, como conseguir esquecer o frio que falta atravessar e corrói a temperatura ainda quente de hoje. O que sobra de Verão todos os anos. Como, mas como resistir ao nocturno a instalar-se como um sem-fim de tempo morto. E pensar que tudo volta e há-de voltar sempre enquanto se fôr possibilidade de gente. Não é mau ser-se lunar. Dou comigo a apreciar madrugadas novas. De novo, só o apreciar. E novas são sempre. Não consigo desfitar por momentos o mistério maravilhoso de subsistir estação após estação numa que é fuga para a frente sempre à espera das melhores. Revirar a sensação pesada de não querer e lembrar que sempre volta a acontecer conseguir. E que os ritmos, como na música, alternam cheios e vazios, cheias e secas, frio e calor na pele. E que é bom. Mas gostava de ser sempre tempo bom. Mesmo eu. É pena. Sempre tempo bom de levar. E chegam estes dias e a queda. Das penas, dos cabelos das árvores. Também. E sabe-se o que vem por aí mas é tempo de colheitas. Não há que ser menor que o natural. Como a síntese do tempo bom no seu labor subterrâneo. E da terra. Também. Talvez a trégua nos sentidos a preparar o desafio. E vem. E vai. E volta o tempo bom. E pelo meio flores de inverno e árvores de folhagem perene. Deve fazer sentido.
Como os dias. A lembrar como comecei a gostar das madrugadas. Talvez amanhã. A limpa transparência de tudo, ainda como antes as noites alongadas, algo entre os dias. Sim, é isso o algo indizível entre dias, a suspender o tempo num remanso que se sabe finito mas é bom fingir não ser. Finito mas a parecer não. O ser. Limpo do sono bom ou mau. Atirado para o silêncio das cores ainda amodorradas em tons quase neutros. Tudo suave e antes de ser. Passada a impressão de já não ser. Nada sobra do dia que foi. Interrompido pelo esquecimento dos lençóis puxados com força sobre o rosto e o silêncio da noite, como o cair do pano. Sem palmas. Ruído já houve demais. A acelerar horas adentro. E numa pressa de acabar com o cansaço inadiável de um dia. Mesmo como os outros. Sinto-lhe o limite. Aprendi a dormir nele. E a levantar-me. Devagarinho. Para o dia em branco a alvorecer. Indefinido mas distinto de tudo antes, muito antes de tudo depois. Assim. Ainda. E é nesse ainda que me suspendo até um momento qualquer em que o dia se revelou, nítido como um animal a sair detrás de uma névoa. E não é possível ignorá-lo. Até à noite. Mas entretanto habita-se a forma da luz leve nas coisas como mais uma velatura sobre velatura sem massa e sem peso ainda. Sem urgência. Sem depois. Ainda. A cidade limpa, os olhos temporariamente tolhidos do sono, extraídos do esquecimento. Lentamente. Para um nada ainda possível. Antes que o verdadeiro colorido se instale numa paleta demasiado veemente.
E dizer verdadeiro é como dizer aparente, irreprimível ou desnecessário. Seria bom um pouco mais mas resta o contraste a apaziguar. Com um silêncio entre notas musicais. Tão necessário como essas ao acontecer. Que é não sair do mesmo círculo, sítio, digo. E contudo não nos encontrarmos nunca no mesmo ponto do universo. Nada, nunca, igual. Outra ilusão como a de só o corpo envelhecer. Mas as ideias também. Algumas morrem até, afundadas na memória. Outras como botões de flor que caiem antes de chegar a abrir. E algumas, escassos instantes após uma passagem rápida pelo fundo dos olhos. E já não estão, como talvez nunca mais tenham estado. Resta por momentos uma perplexidade ante a memória de uma forma imprecisa que se teceu e desfez. Uma reverberação que o é em si e já sem forma. E adiante mesmo essa se distende suavemente noutras percepções. Outras, ideias, são árvores de crescimento lento e imperceptível, de folha persistente ou caduca, mas que acompanham com o fôlego intemporal de viajantes de longo curso. Tanto de subterrâneo como de aéreo a adejar a favor das intempéries. Há de tudo na variedade incontável da natureza. E na sua verdade. Na sua persistência cíclica. Não lhe quero querer ficar atrás. Se não tiver que ser.
Mas entretanto o Outono. Esta realidade temporal de apagamento. Ou de colheita como síntese. Mas, the fall. Em inglês com um sentido ímpar. E o uso. Cair no amar, cair no sono. Cair imparável em espaços amplos e conceptuais. Sem coordenadas. A queda. E o sem fundo abaixo. E “fall down”. Para baixo. Afinal. De algures. Que não sendo tempo nem espaço foi ascensão possível. Ou como retorno de aventuras e dinâmicas psíquicas em que nos aventuramos por imperativos de transcendência. Cair na realidade, na terra a que se pertence. Também. O território do meio, onde pertencem as árvores. E a queda dos anjos. Silenciosos por aí, antes, mas a trovejar no inverno. Nos intervalos das nuvens. Caiem despedidos. A afastá-las do caminho, quase se lhes vê os fios. Ou serão cabos eléctricos. E depois as asas enlameadas. Ou o que resta. As omoplatas, nas costas lisas, para encostar o ouvido.
Cair no tempo zangado e invernoso. Zangado com o corpo. Um tempo que reclama e o zurze violentamente, cortante, uivante, de uma fúria em crescendo de irracionalidade. Como alguém a deixar-se levar por emoções. A carpir, a ondular com veemência uma dor de elementos em desarrumação. Às vezes, temo que o inverno nunca pare de crescer em fúria. Auto alimentada de si, como se pudesse não terminar. Mas de súbito, também nos invernos, depois de uma chuvada violenta e ventosa a perder o norte, tudo pára. E rompe o sol. Assim. Também somos assim. Feitos de desassossegos e reacções físicas, descargas eléctricas que trovejam no silêncio da mente. Mas vertem. Por vezes. No descompasso da respiração das batidas cardíacas e do disparar da voz. Ondas. Elementos em fúria. Palavras. Mas ao contrário destes, que nunca se cansam e somente se reservam para outro crescendo e outra estação, em nós sobra, no esvair do desassossego, um outro. Um cansaço. Do difícil desalojar a alma das correntes do costume. A civilidade e a ética os sentimentos as contradições. Elementos em fúria, repito. Em choque. Mas há uma intensidade que nada deve ao silêncio do verão. O gotejar na folhagem quando serena a chuva. As cores reavivadas e como se a vencer a dificuldade da luz. A turbulência do mar e das marés. Os fios de água a abrir regos na terra, as nuvens bíblicas. Mesmo o assobiar do vento. Mesmo as chuvas a escorrer nos vidros. Aquelas que parecem tender a apagar a realidade da casa se persistirem. E tudo, de caminho. E o cinzento suave e suado de uma ténue tristeza de tudo, em que descansamos.
Mas algo se preparou lentamente como as despensas dos pequenos bichos da terra. Para a travessia. Talvez para o contraste que impede a habituação. A indiferença. E tudo se renova numa generalidade sempre idêntica. Nunca igual. Excepto naquele momento de equilíbrio entre dias e noites que breve se desfaz. E sobrevém a face escura do ano. Na expectativa de uma outra estação que estará sempre num ponto qualquer do percurso dos anos. Como dos dias. E voltamos. Mais fortes ou mais frágeis. Muitas vezes renovados. Nunca mais jovens. Isso não. Mas há ainda o que nos distingue do natural. Poder acontecer tudo sem ordem nem ritmo regular. Fora de tempo e em qualquer momento. Ao contrário dos elementos. Uma chuva a cair para cima. Sem lógica nem predestinação. É bom, o humano. Não há nada de mal em ser lunar e entristecer ainda assim quando chega o Outono. Porque haveria…Como flores que fecham ao entardecer como podem. No seu sono de flores simples guiadas pela luz. Ser lunar na melancolia e solar à luz do dia. Por exemplo. Ou o contrário, porque de humanos, nos queixamos ser.

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