Paulo José Miranda h | Artes, Letras e IdeiasPoemas de Li Bai NOCTURNO [dropcap]O[/dropcap] luar brilha aos pés da cama, parece faíscas de geada no chão. Levanto a cabeça e perco-me na lua. Mas logo a deixo cair, com o peso da terra natal. GRALHAS GRITANDO NA NOITE Junto às muralhas da cidade, nuvens amarelas anunciam a noite e gralhas procuram os ninhos. Descansando sobre os ramos, já despidas de voo, gritam: hah, hah, hah! E a menina do rio Qin tece um manto no tear. Os fios das cortinas escorrem ao longo janela e não me deixam saber o que diz a si mesma. A tristeza interrompe-lhe o trabalho, ali consigo e o seu coração tão longe. Naquele exíguo quarto, onde se irá deitar só, lágrimas caem mais que chuva.
Hoje Macau PolíticaSophia de Mello Breyner Andresen – “Meditação do Duque de Gândia” Meditação do Duque de Gândia [dropcap]N[/dropcap]unca mais A tua face será pura limpa e viva Nem o teu andar como onda fugitiva Se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. A luz da tarde mostra-me os destroços Do teu ser. Em breve a podridão Beberá os teus olhos e os teus ossos Tomando a tua mão na sua mão. Nunca mais amarei quem não possa viver Sempre, Porque eu amei como se fossem eternos A glória, a luz e o brilho do teu ser, Amei-te em verdade e transparência E nem sequer me resta a tua ausência, És um rosto de nojo e negação E eu fecho os olhos para não te ver. Nunca mais servirei senhor que possa morrer. Nunca mais te darei o tempo puro Que em dias demorados eu teci Pois o tempo já não regressa a ti E assim eu não regresso e não procuro O deus que sem esperança te pedi. Sophia de Mello Breyner Andresen
Paulo José Miranda h | Artes, Letras e IdeiasPoemas de Li Bai VISITA AO MONGE TAOISTA SEM ENCONTRÁ-LO [dropcap]U[/dropcap]m cão ladra para calar o som da água. As flores do pessegueiro engordaram com a chuva. Por vezes, muito para lá das árvores aparece um cervo. O fluxo do riacho não deixa escutar nem os sinos do meio-dia. O verde dos bambus selvagens corta as nuvens do céu. A cascata voa do topo da escarpa. Nada nem ninguém sabe para onde o monge terá ido. Triste, abandono-me ao tronco de um pinheiro. DESPEDIDA NA LOJA DE VINHOS EM NANJING O vento traz as flores de salgueiro que adocicam a loja. A jovem rapariga dá vinho a provar aos clientes, Aos amigos que ali foram para se despedirem de mim. Vazamos copos sem fim, até que interrompo a eternidade e lhes digo: Ide perguntar àquele rio que desce para leste, Se consegue percorrer maiores distâncias que a amizade.
Amélia Vieira h | Artes, Letras e IdeiasGérard de Nerval [dropcap]Q[/dropcap]uando em Baudelaire vamos encontrar o radical efeito de um sedutor das trevas rapidamente notamos que não está sozinho. No seu repositório belo e bravio acenam muitas imagens e aspectos de composição do imaginário poético, o esqueleto transparente de Nerval, nascido doze anos antes, no esotérico e escatológico universo do Romantismo. Que eles, poetas, vêm para salvar o mundo com suas imponderáveis intervenções, e nesta corrente é ainda a imolação que preside ao destino imposto. A loucura ronda sempre por perto como uma escavadora, no entanto «La dernière folie que me restera probablement, ce sera de me croire poéte» (Nerval). Século dezanove é quando o belo poema de Baudelaire irrompe. «Spleen et idéal» onde cremos ainda estar a ler – continuar lendo – o poema sempre inacabado «Le Christ aux Oliviers» e tão próximo é a mesma atmosfera e estrutura do poema que sabemos que todos os poetas são Unos, escrevendo, reescrevendo o mesmo legado do mistério de uma ferida. Sem ela não havia existência possível para estes seres no mundo, nem a sua já tão débil existência teria tido entre todos algum sentido. Escrevemos estas coisas que agora aqui são ditas à distância de dois séculos e parece-nos que todos estes “erros meus, má fortuna, amor ardente” foram resgatados ao fluxo de não nos consentirmos na indagação que culmina em vãos alheios pelo espírito da época, quando o temor lhes fecha as portas. Mas eles são tão poderosos que não há antídotos para tal esquecimento. Nerval nasce, ainda tal como Baudelaire, numa organização social onde as suas sensibilidades só podem continuar com as heranças de família e onde o conceito artificial do trabalho não se lhes impõe como forma de “ganhar” a vida, um pouco corroborando a bíblica frase: «quem quiser ganhar a sua própria vida, perdê-la-á» e esse aspecto que não é nunca uma questão de somenos importância carrega um pesado anátema face ao tempo que vivemos. O “trabalho” é a arma de quem não pode ou não sabe fazer mais nada, e do nada produzido transportar o tempo ávido com uma condição de viciado. Nem sequer pode ascender aos «Paraísos Artificiais», o artefacto não sobe na direcção de «Quimeras» bem construídas, pois que os sonhos não gostam de quem deles se afasta e delegam para a robustez dos sobreviventes a lava da sua mortificação. Perfilha-se Nerval ainda jovem nos apoios românticos de Victor Hugo e frequenta o «Petit Cénacle», antes surge com as suas poesias e sátiras políticas, traduz o «Fausto» de Goethe, adaptado por Berlioz em 1829. O poeta das buscas pelas fontes secretas não se retém apenas na sua «Alquimia» ocidental, simbólica e tem o ensejo de partir para mais longe rumo a Oriente. Médio Oriente onde resultam as notas conhecidas de uma viagem que desejou como uma quarentena no deserto (as areias são mais divinas a seus olhos que as ondas do mar). Publica mais tarde «Cenas da vida Oriental», mas o seu estado de saúde oscila entre crises psicóticas onde a intermitência dos internamentos começa a destruir toda a energia que encaminhava para uma obra cujo tamanho nos deixa confundidos. É, no entanto, nesta altura que um conjunto vasto da sua poesia fica registada na memória do tempo, o que faz Proust mais tarde debruçar-se na sua busca como um triunfo de um imaginário que resiste. Alastra-se o seu encanto até ao surrealismo, Nerval que fora um homem ocupado de transcendências, profecias e leis cármicas, escreve nesta altura Antéros, o deus da classe dos Erotes, sublinha a importância de um socialismo futuro, e sem que a corrente se parta jamais vamos dar ao nosso próprio Antero. E tão fina ela se move que a resolução encontram-na no suicídio, a longa viagem destes Atlantes que desemboca num cais, «sózinhos num cais deserto», Ode Marítima aos desertores da vida, onde todos começam, e outros desaguam nas mesmas águas levando sempre traços inquebrantáveis de uma mesma lucidez. Com alguma tristeza deparo-me com um compêndio de História da Literatura Francesa de liceu, que o não engloba, e estas coisas podem não ser tão negligentes quanto imaginamos. Surripiamos as lendas, mas o tempo é ainda mais agreste para quem lhes veste as fardas sem acreditar na quimera daqueles que as escreveram, vivendo-as. Não queremos descer ao abismo esperado, e nunca se desfez tanto em tão curto espaço de tempo e se projectou a vontade da insignificância dos méritos de cada um. Para o mês ainda nos deixou «As noites de Outubro» e afirmou de si mesmo na imponente frase que nos ergue e mete em guarda: «je suis le ténebreux, – le veuf, – l´inconsolé». Uma panóplia de vozes nem sempre nos leva à heteronímia, mas elas coexistem dentro dos melhores condutores de partículas que ao acelerarem, serão sempre as primeiras a encontrar a de Deus. Nenhum acelerador é feito destas malhas, nem a velocidade a que se deslocam se precipita na cauda de uma competição, isso, que a nossa Humanidade esqueceu, terá que ser recordado ou paramos todos neste transbordo dos que se agitam num mundo sem futuro, num retábulo de movimento a cada instante mais ilusório. «A mão encantada» fica para obra póstuma pois que a sua própria interrompe a vida em 1855. As suas primeiras obras completas saem em 1867 em seis volumes na editora de Michel Lévy. Até hoje há essa mão encantada que vamos buscar a tão raro talento magoado. «Judas! lui cria-t-il, tu sais ce qu´on m´estime Hâte-toi de me vendre, et finis ce marché: Je suis souffrant, ami! sur la terre couché… Viens! ô toi qui du moins, as la force du crime!»
Hoje Macau EventosLiteratura | Inéditos de E. M. Melo e Castro expostos em Brasília Brasília, a capital brasileira, recebe a partir de amanhã e até 16 de Dezembro, a exposição “Poesia Experimental Portuguesa”, que reúne obras datadas de 1960 até à actualidade, com inéditos do poeta E.M. Melo e Castro [dropcap]A[/dropcap]presentada pela primeira vez ao público brasileiro, a colectânea, composta por cerca de 80 trabalhos de 18 artistas portugueses, percorre uma trajectória de seis décadas de produção poética em diferentes formatos e suportes: impressões, pinturas, caligrafias, fotografias, objetos, áudios e vídeos. A Caixa Cultural Brasília será o local que irá acolher a exposição, que conta com curadoria de Bruna Callegari e Omar Khouri. À agência Lusa, Bruna Callegari explicou como se deu o processo de escolha e recolha do material para dar forma a esta exibição. “A recolha foi feita em Portugal, em duas viagens, onde percorremos as cidades do Porto, Lisboa e Coimbra, encontrando esses autores ou então os seus familiares, pois muitos deles já faleceram. (…) É um material bastante rico, bastante panorâmico dessa poética experimental, e que revela, justamente, a versatilidade de suportes e formatos a que esses poetas recorreram para realizar as suas criações”, disse a curadora da mostra. A Poesia Experimental Portuguesa surgiu na década de 1960, desafiando métodos e convenções pré-definidas na cena artística da época. Reconhecida em outros países como concreta, visual, espacial ou ‘intersemiótica’, autodenominou-se, em Portugal, Poesia Experimental com o lançamento, em 1964, de uma revista com o mesmo nome. Apesar da exposição estar programada, inicialmente, apenas para Brasília, Bruna Callegari assegura que existe o interesse de tornar a exibição itinerante em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro porque, segundo a curadora brasileira, o intercâmbio cultural que deriva desta apresentação faz todo o sentido para o Brasil. “A motivação [de montar esta exposição] foi a de dar a conhecer, de fazer esse intercâmbio cultural e mostrar ao público brasileiro um pouco dessa poesia que é tão inteligente, tão engenhosa, enfim, uma poesia bastante instigante”, explicou. Na exposição, destacam-se obras de artistas como E. M. de Melo e Castro, Ana Hatherly, António Aragão, Salette Tavares, Silvestre Pestana, António Barros, Fernando Aguiar e Emerenciano, entre outros. Ernesto Manuel de Melo e Castro, pioneiro da poesia experimental em Portugal, é um dos artistas portugueses mais acarinhados pelo público brasileiro, e que marcará presença nesta mostra, com a exibição de trabalhos inéditos. Aos 86 anos, e a viver na cidade de São Paulo, Melo e Castro contou à Lusa o que o move dentro da poesia experimental. “A poesia experimental não é uma escola, não é um clube de poetas, não é um grupo de geração, até porque há poetas muito mais novos do que eu (…). O que caracteriza a atitude experimental na poesia é a problematização da invenção (…). Vamos perguntar ‘porquê?’ e ‘como?’ e propor respostas também, mais do que dar respostas definitivas”, explicou o poeta português, nascido na Covilhã. Letras de vanguarda Para a exposição em Brasília, Ernesto de Melo e Castro trará à luz dos visitantes, trabalhos nunca antes exibidos, feitos através do computador, numa exploração da tecnologia a favor da poesia. “Para esta exposição, dei trabalhos feitos em computador com imagens fractais, originais, que nunca foram vistas e que eu imprimi de propósito. Já as tinha criado porque não tenho uma atitude pragmática, no sentido de escrever ou criar com uma finalidade. Estou num movimento sempre constante de criação e de pesquisa de novos meios, principalmente os tecnológicos” afirmou o artista, que foi também um dos pioneiros da engenharia têxtil em Portugal, nas décadas de 1950/1960. “Os fractais oferecem um campo que não tem fim, são imagens realmente extraordinárias, criadas com algoritmos matemáticos e que resultam em imagens com uma beleza estética fora do comum”, explicou Melo e Castro, acrescentando: “Tenho aqui umas 400 ou 500 imagens fractais que fiz em toda a minha vida, e escolhi entre dez ou 12 [para esta exposição]”. Licenciado em engenharia têxtil, mas com um percurso de vida sempre ligado à Literatura – o que inclui um Doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo – Melo e Castro não esconde a forte ligação que tem com o Brasil, país onde vive há mais de 20 anos. “A minha relação com os poetas concretos e experimentais brasileiros foi sempre uma relação de amor. Isso não há dúvida. Sinto-me muito bem no Brasil, sinto-me optimamente. As minhas relações não são só com o Brasil, mas o Brasil é privilegiado, é o meu melhor amigo. Posso eu dizer isso. E esta exposição, que me foi proposta por dois amigos aqui do Brasil, é um presente magnífico que é dado a todos os portugueses”, disse. Com o Brasil a atravessar um atípico período eleitoral, Ernesto de Melo e Castro mostrou-se preocupado e entristecido pela situação que o país atravessa, mas apela à luta dos brasileiros. “Acho que o Brasil está a passar por um momento dramático e, de facto, há que lutar pela liberdade, pela inteligência, pela dignidade humana que, neste momento, está muito fragilizada. Esta é a minha opinião, mas eu não posso realmente intervir no movimento político porque eu não sou brasileiro. Eu sou português, vivo aqui, e devo muito ao Brasil. E é com grande pena que vejo o Brasil caminhar por caminhos menos sólidos, sob o ponto de vista político”, lamentou o poeta.
Hoje Macau EventosLivro de poemas inéditos para fado de Vasco Graça Moura é apresentado em Lisboa [dropcap]A[/dropcap] obra com poemas inéditos “A Puxar ao Sentimento”, de Vasco Graça Moura, falecido há quatro anos, é apresentada hoje, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. A obra é composta de poemas inéditos para fado, género musical pelo qual o poeta tinha apreço, tendo sido cantado entre outros, por Mísia, Maria Ana Bobone e Ana Sofia Varela. A cerimónia conta com a atuação da fadista Katia Guerreiro, que, de Graça Moura, entre vários poemas, gravou “Até ao Fim”, musicado por Mário Pacheco. “A Puxar ao Sentimento”, com a chancela da Quetzal, é apresentado pelo musicólogo Rui Vieira Nery, autor de “Para uma História do Fado…”. Com a publicação deste livro, a editora pretende perpetuar a memória de “uma das grandes vozes da poesia e da literatura do nosso tempo” e, ao mesmo tempo, homenagear o fado, contribuindo para “abrir (ainda mais) as suas portas”. “Marcados pelo seu génio melancólico e pleno de ironia”, sublinha a Wuetzal. Vasco Graça Moura foi um autor de vasta obra poética, ensaística e de ficção, bem como tradutor, designadamente das “Rimas”, de Francesco Petrarca, “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, “Os Sonetos de Shakespeare”, ou as “Elegias de Duíno e Os Sonetos a Orfeu”, de Rainer Maria Rilke. Vasco Graça Moura recebeu, entre outros, os prémios Pessoa, em 1995, P.E.N. Clube de Poesia, em 1993, e os Grandes Prémios de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE), em 1998, e o de Romance e Novela APE, em 2004. Em 2007 recebeu o Prémio Vergílio Ferreira e o Prémio de Poesia Max Jacob Étranger. Vasco Graça Moura foi deputado ao Parlamento Europeu pelo PSD, de 1999 a 2009, e esteve à frente do CCB de 2012 a 2014, entre outras funções públicas como as de administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1979-1989), presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Fernando Pessoa (1988) e da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1988-1995). O Estado português, entre outras condecorações, agraciou-o com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, em janeiro de 2014, cerca de três meses antes de morrer, aos 72 anos. O livro de poesia “Modo Mudando” marcou a sua estreia editorial em 1963. Na ficção estreou-se em 1987 com o romance “Quatro Últimas Canções”, sete anos depois de publicar o seu primeiro ensaio, “Luís de Camões: Alguns Desafios”. Regressou a Camões, um dos poetas que admirava, em 2014, com a publicação do seu último ensaio, “Retratos de Camões”.
Paulo José Miranda h | Artes, Letras e IdeiasPoemas de Li Bai DEIXAR DE VER UM AMIGO [dropcap style≠’circle’]M[/dropcap]ontanhas verdes e azuis, por detrás dos muros do norte. A leste, a cidade é cortada por águas puras, brancas. É onde nos iremos separar. Ao vento, as sementes das árvores viajam mais de mil quilómetros. Nuvens e pensamentos, de quem se põe a caminho, nunca param. Tão rápido acaba o dia como uma velha amizade. Despedimo-nos como se fosse do lugar e não de nós. Picamos os cavalos, que relincham, relincham de tão sós. DIÁLOGO NO ALTO DA MONTANHA Perguntas-me porque decidi viver no alto da montanha. Sorrio, e o meu coração tranquilo não sopra uma resposta sequer. Pétalas de pessegueiro dançam as suas pequenas mortes nas águas do rio. Aqui não existe erro, tudo é diferente dos homens, até o céu e a terra.
Amélia Vieira h | Artes, Letras e IdeiasUma língua de mar [dropcap style≠’circle’]E[/dropcap]xistiu algures uma teoria da arquitetura portuguesa que não é mais do que a extensão do desenho das emoções projectáveis que ao modelar a paisagem teceu a linha da saudade. A linha horizontal. Nunca de facto o gótico foi expressivo entre nós, nem os vastos guindastes para os céus enaltecidos enquanto desafios imaginários. A linha que se estende oceânica também modela as vozes e tem verbos longos, arrastados, que abre vogais, amplia noções, pega no fio e transporta-o em deleitoso arrastar de forma deitada. Uma paisagem que os sentidos apreendem, as vontades compõem e dá origem a formas de pensamento. Ao partirmos de um lençol deitado, bordado, desses monumentos compridos, densos, transformáveis, levamos ainda o grande fio que irá servir de laço «laços de amor» às vestes dos Vice-Reis da Índia. Uma corda em pedra que sobe, que é rente, que enreda, serpenteia, não é o mesmo que um bastão de um «Excalibur» nesta designada outrora terra de Mu, ou reino das serpentes, que definitivamente não gosta da recta e onde tudo ao redor nos lembra disso. Até os signos alfabéticos nos dão conta, quando ao percorrê-los vamos encontrar um «S» exponencial para as concordâncias que atravessam a língua toda: terra dos Silvas, das Saudades, das Saúdes, das Sardinhas, das Senhoras, dos Soares, dos Sousas, dos Sidónios… dos Salazares, um manuelino enroscado à teia de uma consciência da vida como «Capela Imperfeita» que ao não ter tecto faz das alturas estelares uma visão aterradora. Octógonos em pedra, deitados nas lajes os mártires que aspiram nevoeiros. Toda a sinuosidade se adapta ao espaço, contornando-o – uma manobra dançante – teme o obelisco, corta as partes contundentes, ameaça ser um lago e lança-se em oceanos. Lá chegados, as terras que fomos inventar são hoje uma panorâmica surpreendente do ventrículo luso, as cidades onde ora acontecemos parecem ainda hoje ter as “tripas de fora” nos postes de abastecimento energético, que a tripa é uma curvatura lindíssima e serpenteia cidades como uma piton iluminada. Nós não vemos isto, aliás, nós, agora tão Encobertos não olhamos quase nada e vamos melancolicamente a direito dentro de cápsulas sem préstimos e qualidades. A errância, essa grande teia, tem uma língua que propulsou, tomou cuidados, e foi em correntes de água molhar as bocas que encontrava. E hoje, a memória do que outrora levávamos não tem voz, a nossa lembrança não tem chão, perdemos tudo ao tentar ser outros e cegos fomos ficando no intenso nevoeiro. Louvámos os charcos e calcinámos as frotas. De grande, restou-nos um certo círculo onde se tece a teia, onde se nasce para o fundo de cabeça a descoberto… e agora, que todas essas redes gravitacionais que dançavam numa estranha mas fascinante inspiração colectiva para sempre se foram, eis-nos que somos o que a ninguém lhes acontece ser: reflexos. Qualquer coisa no entanto e de novo se faz sentir, pode até coincidir com o último trago, mas não será em vão tentar pensá-lo. Já poucos, aguardamos, cansados, nem por isso desistimos. Os ciclos são esféricos e quase sempre pela brecha que não esperávamos muda o mundo. Pode haver um senão: não estarmos aqui, mas outros tomarão os remos da ideia começada. E pela mesma razão que a língua galgou as praias por onde Velhos anunciavam desventuranças, iremos agora buscá-la mais além, nos locais onde beijamos outros. Tudo isto, e não sei em que sentido me lembra este poema de Manuel Bandeira: “Aceitar o castigo imerecido, Não por fraqueza mas por altivez No tormento mais fundo o teu gemido. Trocar num grito de ódio a quem o fez. As delícias da carne e pensamento Com que o instinto da espécie nos engana. Não tremer de esperança nem de espanto Nada pedir nem desejar, senão A coragem de ser um novo santo Sem fé no mundo além do mundo. E então Morrer sem uma lágrima, que a vida Não vale a pena e a dor de ser vivida.” Uma língua de mar.
João Paulo Cotrim h | Artes, Letras e IdeiasA tua voz ao volante Santa Bárbara, Lisboa, 11 Setembro [dropcap style≠’circle’]A[/dropcap] palavra podia ser esquadro, ou fio-de-prumo, esta contendo em si a tensão e o peso, toque na parede, na pedra, concreto, matéria tão porosa sem o parecer, a outra evoca a abstração de uma contagem uma geometria recortada (na memória: Nove-filhos era o stor de geometria descritiva, a linha de terra empre suja) os anos contam-se, mas não valem certos minutos, não valem nem aquele tom ou a palavra dita no momento exacto navalha, de ponta de mola, de barbeiro, antes de ser pedaço de lâmina substituída porque não querias que fosse eu a desfazer-te a barba ferida, que ferida te fiz eu? sei das que me fizeste, mas não trarei freud, que rima com fraude, para o assunto menos kafka, que não será o caso. quantas cartas ao pai se escreveram já? quantos pais se perderam nas cartas nem me atrevo a releituras, afinal, como ele, nem sou assim tão literato ofereceu-me Os Três Mosqueteiros, edição de abrir páginas com lâmina os lombos a sobrarem barbados, espada que se ergue marcador de aventuras sonhos, sonhos fizeste-me sócio do Círculo de Leitores a troco da tabuada debitada, inútil de que serve, para que sirvo soube calcular impedâncias perdidas nas volutas do esquecimento, raízes quadradas rabiscadas matemática de corrida vieram Herculanos no ritmo das quinzenas ou assim o Bobo orgulhavas-te que os filhos não te tratassem por tu deste-me a escolher bicicleta ou máquina de escrever aprendi o gosto da tinta nos chocos, mas começaste pelas lulas não tantos as luas essa foi na casa das avenidas já não tão novas no ano da mana o preto de branco a piscar, perto do Sidónio de parede aquela lua fez-me sonhar em tocá-la nem em papel lá cheguei a revista foi, afinal, de treta, coisa fruste sem a solidez da matéria sem fios-de-prumo a desenhar verticais a madeira tocando a superfície, a tensão do fio vibrando ouves? vês? e o traço com trabalho há-de sustentar muro, parede trabalho, interstício nas férias dos outros o trabalho estava feito ética que nos justificava, fazer a preguiça era dos outros, os dos cafés somos éramos das obras, serventias sem outro jeito talvez tivesse, mas era a preguiça levava para as esquinas do sonho nem bola, apenas a rua a inventar com outros histórias mundos que podiam mudar, além de rodar tinhas casas por construir, desenho a caneta, ideias a rodar nos pneus do autocarro na noite que começaram com a égua anabela, a rodar em círculo nas histórias malandras, longe já e tão perto dos os pés na terra, na neve a fome, a tua, mítica, mitigada com o pão, pouco mais a minha, apenas do fiambre burguês, que a manteiga ainda era possível a poupança, em nome dos tempos difíceis, para confortar futuros, semeando sementes invariáveis de trabalho no hoje, na terra, na linha de terra titubeante, rasurada, horizonte líquido o cinto castigando desobediências sujas de lápis peças de lego contadas na lata, continente redondo de latão a sentir logo o tempo e a humidade a casa absorvia as águas das nuvens, na rua era melhor haveria de acontecer a preço de esforço a tua casa que querias de todos na rua passaram novelas e revoluções, carrinhos de esferas navalhas de tempo a passar nunca te dei a ver o filme sobre infância, oblíquo a frontalidade vem de outro norte, não serve nesta descida ou subida gostavas de histórias, fazias o passado acontecer ali quantas ruas de lisboa desenhavas as carreiras abriam a cidade que nem fruto figo laranja maçã brabo de esmolfe castanha cereja cada fruto seguido de espécie, que nada pode ser apenas isso os carvalhos desdobram-se em soutos, os pássaros poupam-se pelo cantar geometria de volante e esquadro e prumo (o fio-de-prumo utiliza a lei da gravidade para indicar que a posição de um elemento construtivo é realmente vertical. A corda suspensa com o peso que tem na sua parte inferior deverá ser vertical e perpendicular a qualquer outro plano de nível com o qual se cruze.) foste perpendicular aos planos que contigo se cruzaram pontapeaste o cão-polícia que te atacava contrariando a greve agrediste o outro que atazanou noite inteira, arrependeste-te gastaste as derradeiras energias em conflito com a autoridade as autoridades ajuda-me a levantar, vamos à gomes freire, o gnr que aviei, coitado, deitado de pé viste comboios a passar desafiando a tua fome em direcção à frente vizinha no sangue corriam desobediências ancestrais, antígonas da beira, ventos e águas da gardunha cidadãos livres, coluna vertebral fio-de-prumo perpendicular a outro plano de nível linha de terra irregular, tocada pelos pés descalços, madeira contra a matéria a definir a gravidade da história, que percorreste com o devido alheamento, olhos e dedos nos jornais, do fundão, que não abandonaste na proibição, orgulhosamente o orgulho é uma linha de terra ao alto o século era jornal antes de ser contagem a esquadro do tempo, longos lençóis que lembro o teu avô foi para o céu o avô da burra, o avô do farrusco foi o que não se diz neoplasia em escape o teu centro a explodir na lentidão a fugir do entendimento abrindo brancas buracos de escopro na matéria cinzenta quase indignado, barba por fazer tinhas medo da minha lâmina? perguntaste à enfermeira, se não me conhecia a mim, «o homem que fez o funeral ao Salazar» fi-lo aos quadradinhos não tinha jeito para nada o da leira, as batatas, a poda, coisas breves de puto, a vindima, mas com jeito sempre a sonhar, a lua, todo o dia a lua as palavras atiradas ao chão da boca agora na graça o avô da perna direita, invergável, propõe-me pacto de silêncio, inviolável não bebemos nada, pois não?, o de três bate no meu de ginginha, saudades de beber assim os segredos a bengala batendo nas pedras da calçada rimando com as águas descendo a serra em direcção ao milho lençóis do século as crónicas do drummond no jornal do fundão a noite inteira abrindo regos os fios aprendendo a electricidade que me levaria à lua que jamais me levarão à lua que nem quis saber conduzir olha freud, diz lá, antes do kafka, por que me queima o volante a velocidade não me amarga nem a preguiça a preguiça é incestuosa irmã da velocidade e o riso, o riso da mãe a mãe na tela da janela a ver destinos, a comentá-los o vento que penteia o quadro e a rua continua a descer o obama pulou de um contentamento só desadivinhando partidas os contentamos devem conter chegadas, talvez luas, toques no tronco e apertas-me a mão com um desespero que adivinhava final choraste lágrimas gotas de granito escorrendo resto de rosto sabias como perguntar à pedra o que ela podia ser, lias-lhe os veios, marcas da água, do tempo, verticalidades, ajeitava-la entre pernas e de maceta e escopro extraías bloco não de urgência uma verticalidade de enfrentar ventos o teu destino foi de pedra dobram sinos nas donas a dizer que a pedra era agora nuvem como só os sinos podem vi mais lágrimas, ouvi as palavras escândalo e ânimo e parede a fazerem-se promontórios na penha e na serra sussurram-me sem número de perfumados é a vida por acaso falando de morte, mas com raízes por momentos, a sós apesar da mana, a mão que apertaste tocou a madeira do caixão era carga eléctrica, cesta de balão, árvore ligada à terra (continua)
António Cabrita Diários de Próspero h | Artes, Letras e IdeiasEl duende [dropcap style≠‘circle’]E[/dropcap]xperimentei no meu quase afogamento da semana transacta um estado prostrador de isolamento e de separação, instrumentos com que a morte pode actuar. Afinal, morre-se em comunhão ou contra ela: até a morte tem estas duas faces. Levei demasiado tempo a combater contra a água sem me lembrar de que a água nos sustém. A minha consciência estava dividida. Naquele momento, seria uma morte macaca por causa das sensações despoletadas que acrescentariam agonia e desespero aos últimos instantes, ou melhor: um estado de orfandade. Seria o contrário de morrer, por exemplo, numa trincheira, ao serviço de uma causa redentora, o que nos faz superar o medo e a eclosão da iminência, porque na verdade estamos fora de nós, envolvidos em algo que nos ultrapassa: aí «o corpo – como bem descreveu Ruy Belo – entra por engano morte»; ou de morrer mergulhado – a linguagem é tramada – num sentimento de unicidade, como o rio que penetra no mar, numa reminiscência que o exalta. Julgo ser disto que falam os místicos quando mencionam a importância da palavra Deus ser a última palavra. Julgo até que nomear Deus é outra forma de designar uma experiência que se localiza além das palavras e nos devolve a um estado de não-dualidade. Só que esta experiência é concreta, não tem nada de “metafísica”. A este sentimento de unicidade – como muita gente – já o experimentei. Algumas vezes nas aulas, ou numa por outra palestra, quando engreno na palavra e solta-se um fio discursivo que se conduz a si mesmo, num fluxo que ultrapassa as minhas capacidades expressivas. Aquela limpeza de raciocínio não é pauta que me pertença. Não me é habitual afluírem as palavras com o recorte, a nitidez, de quem lê um teletipo invisível, interior. Sou mais trapalhão, menos ordenado, menos inteligível. Contudo, nesse transe que me ocorre sulcar há um momento em que sou, à vez, actor, espectador e encenador, na medida em que observo os efeitos que a minha emprestada eloquência – num tempo dilatado, que não é o dos relógios – produz nos alunos. Quando sou transportado por esta inominada energia verbal, embora não seja propriamente o ‘autor’ do texto, controlo a cadência rítmica, a respiração das frases, a melodia. Os alunos ou a plateia reagem consoante as virtualidades do instrumento cognitivo, a sua capacidade de escuta, mas claramente naquele momento somos um, como num cardume ou orquestra – enovelados na espécie de inteligência não circunscrita que nos abarca. O mais surpreendente é que ao mesmo tempo que as palavras me conduzem me sinto um ponto atento aos meandros, às minudências da enunciação – não separado da experiência mas numa dobra da mesma. Inesperada aptidão e talvez similar à que Pere Gimferrer atribui ao poeta: ver o acto de ver, dobra na qual a consciência se reconhece a si mesma e as palavras se conciliam com o mundo que designam – em confluência. Será esta a experiência do self-remembering a que aludem certos mestres budistas? Sinto que aquele fluxo discursivo se resgata ali, e a si mesmo, do esquecimento, expondo a sua face inteira, a sua amplitude, e que ressoa em mim uma maravilhosa não-identidade; a qual me consente encarnar aquela presença a si-mesmo, sem me fundir nela. O que me surpreende nesta experiência não é tanto o fluido encadeamento dos conceitos como a sua liquidificação, a sensação de experimentar um pensamento pensante que transborda largamente a represa do pensamento pensado e se apresenta como a condição de possibilidade que emerge após o desaparecimento do sujeito que, paradoxalmente, incubou e expandiu. Será raro esse estado de não-dualidade. Nunca ouvi nenhum professor falar desta ocorrência e que sei comum ao que experimentam alguns actores durante a actuação. É como um despertar dentro da palavra e uma navegação no seu leito: basta seguir o ponto-da-vela, prenhe por uma lucidez diáfana. E nesse estado tudo parece a um tempo simples e novo, como a resposta que o bailarino Nijinsky deu à senhora que no bar do teatro lhe perguntou: «como é que faz? perdão? a maior parte das pessoas quando salta no ar vem imediatamente para baixo… porque hão-de vir logo para baixo… – replicou Nijinsky – demorem-se no ar um bocadinho, antes de descerem…». Agora leio no último e maravilhoso livro do John Berger, Confabulações, este naco sobre El Duende: «Os artistas de flamenco falam muitas vezes de el duende. O duende é uma qualidade, uma ressonância que torna uma actuação inesquecível. Ocorre quando um artista é possuído, habitado por uma força ou um conjunto de compulsões vindas do exterior de si mesmo. O duende é um fantasma do passado e é inesquecível porque visita o presente para se dirigir ao futuro. No ano de 1933, o espanhol Garcia Lorca proferiu uma palestra em Buenos Aires relativa à natureza do el duende. (…) “todas as artes”, declarou ele na sua palestra, “são capazes de duende, mas onde ele naturalmente encontra mais espaço é na música, na dança e na poesia declamada, uma vez que elas necessitam de um corpo vivo que as interprete, porque são formas que nascem e morrem de um modo perpétuo e elevam os seus contornos sobre um presente exacto. El duende actua sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia”» Há um mundo em estado de dador: imagens à procura de um relator, pensamentos que buscam o seu pensador, ritmos que procuram o seu canal (as configurações do duende) e calha-nos ser o transporte para o tempo dessas ”doações” mas só o corpo as intercepta e traduz. Isso nota-se muito em quem recita: há quem só dê o conteúdo, aí captamos com a inteligência, e quem consiga o regresso do poema a um estado pré-verbal, que a performance do corpo, daquela voz, naquela expressividade, volta a fazer nascer. Aí emocionamo-nos e o contacto com o recitador levanta o vento sobre a areia: então “vemos” o que ouvimos.
Paulo José Miranda h | Artes, Letras e IdeiasPoemas de Li Bai [dropcap style≠‘circle’]A[/dropcap] primeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais. TANTA ANGÚSTIA Tanta angústia que sinto Por não conseguir chegar à capital, a Chang’an. Os insectos tecem o Outono, cantando na margem dourada do lago, A geada transforma o frio em cor na minha esteira de bambu, A candeia ameaça apagar-se e acende ainda mais o que sinto. Afasto a cortina da lua, suspiro longamente em vão. A beleza floresce longe de mim, para além das nuvens. Por cima um céu infinito de noite escura E em baixo as águas verdes, inquietas. Um céu maior que o mundo, um caminho sem fim, a amargura espanca-me. Uma montanha intransponível impede-me de alcançar o sonho. Tanta angústia, ou essa coisa que sinto, Arruína qualquer coração. SOZINHO OLHANDO A MONTANHA Os pássaros levam as suas asas para longe E deixam no céu apenas uma nuvem, que também se afasta. Ficamos sós, a montanha e eu, Olhando-nos frente a frente neste sem fim.
António de Castro Caeiro h | Artes, Letras e IdeiasMensagem (Botschaft) [dropcap]E[/dropcap]u tinha pensado de mim para mim que dias mais lindos Só aqueles poderiam ser chamados, quando nós, ao falar, Transformávamos a paisagem diante dos olhos num domínio Da nossa alma: quando nós, colina acima, Subíamos para o bosque na direcção da sombra, Aí, onde tudo nos envolvia como algo de já vivido, Pois, aí, nos prados distantes, nós encontrávamos, em sossego, o sonho das vidas passadas de criaturas jamais supostas. Encontrávamos aí vestígios do seu terem por lá andado e do seu beber E sobre o lago: uma conversa a deslizar Reflectia abóbadas mais fundas do que o céu. Eu tinha, então, pensado naqueles dias, E que a seguir a estas três coisas: ter saúde, Fruir do próprio corpo e da vida, E de pensamentos, asas de jovens águias, Apenas uma coisa conta: Estar na companhia de amigos. Assim, eu quero que tu venhas e comigo bebas Daquelas taças que são a minha herança, Adornado com folhagem e crianças aladas, E que comigo te sentes no muro do Jardim. Dois jovens estão de guarda no seu portão. Nas suas cabeças, com um olhar absorto e Meio desviado, há um destino monstruoso Que te olha para te empedernir: quero que te cales E olhes para a paisagem Que tu vês estender-se à tua frente; Pois, talvez, então, um verso teu me aconchegue Na solidão futura e que, de quando em quando, Uma lembrança tua se aninhe na sombra E que, ao cair da noite, a estrada entre as copas escuras role, E que caminhos sem sombra rolem e rolem para aí Como relâmpagos do ouro mais fino.
António de Castro Caeiro h | Artes, Letras e Ideias“Salmo”, poema de Georg Trakl Salmo dedicado a Karl Kraus de Georg Trakl [dropcap]H[/dropcap]á uma luz que o vento extinguiu. Há uma taberna que um bêbado deixa à tarde. Há uma vinha queimada e negra com buracos cheios de aranhas. Há um espaço que foi caiado com leite. O louco morreu. Há uma ilha do mar do sul, para receber o deus Sol. Rufam os tambores. Os homens executam danças guerreiras. As mulheres meneiam as ancas entre trepadeiras e flores de fogo, quando canta o mar. Oh! o nosso paraíso perdido. As ninfas abandonaram as florestas douradas. O estranho vai a enterrar. Depois, cai uma chuva cintilante. O filho de Pã aparece na figura de um trabalhador da terra, que dorme ao meio dia sobre o asfalto escaldante. Há pequenas meninas num pátio com vestidinhos cheios de uma pobreza de partir o coração! Há quartos cheios de acordes e de sonatas. Há sombras que se abraçam à frente de um espelho cego. Às janelas do Hospital, aquecem-se convalescentes. Um barco branco a vapor sobe o canal com pestes sangrentas. A estranha irmã aparece de novo nos sonhos maus de alguém. Sossegadamente, no bosque de sabugueiros, ela brinca com as suas estrelas. O estudante, talvez um sósia, segue-a através da janela até desaparecer. Atrás dele jaz o seu irmão morto, ou então ele desce a velha escada de caracol. No escuro, as castanhas empalidecem o rosto de um jovem noviço. O jardim está ao anoitecer. No cruzamento esvoaçam os morcegos em redor. Os filhos do caseiro acabam de brincar e procuram o ouro do céu. Acordes finais de um quarteto. A pequena cega corre a tremer pela alameda, e mais tarde toca a sua sombra no muro frio, envolta por contos de fadas e lendas de santos. Há um barco vazio que desce o canal negro ao anoitecer. Na obscuridade do velho asilo decaem ruínas humanas. Os órfãos mortos jazem nos muros do jardim. De quartos cinzentos surgem anjos com asas sujas de lama. Vermes saem das suas pálpebras amarelecidas. A praça em frente da igreja é lúgubre e silenciosa, tal como nos dias da infância. Sobre pegadas prateadas deslizam vidas passadas E as sombras dos condenados descem até às águas pestilentas. Na sua sepultura o mágico branco brinca com as suas cobras. Silenciosamente sobre o calvário abrem-se os olhos dourados de Deus. Psalm Fassung Karl Kraus zugeeignet Es ist ein Licht, das der Wind ausgelöscht hat. Es ist ein Heidekrug, den am Nachmittag ein Betrunkener verläßt. Es ist ein Weinberg, verbrannt und schwarz mit Löchern voll Spinnen. Es ist ein Raum, den sie mit Milch getüncht haben. Der Wahnsinnige ist gestorben. Es ist eine Insel der Südsee, Den Sonnengott zu empfangen. Man rührt die Trommeln. Die Männer führen kriegerische Tänze auf. Die Frauen wiegen die Hüften in Schlinggewächsen und Feuerblumen, Wenn das Meer singt. O unser verlorenes Paradies. Die Nymphen haben die goldenen Wälder verlassen. Man begräbt den Fremden. Dann hebt ein Flimmerregen an. Der Sohn des Pan erscheint in Gestalt eines Erdarbeiters, Der den Mittag am glühenden Asphalt verschläft. Es sind kleine Mädchen in einem Hof in Kleidchen voll herzzerreißender Armut! Es sind Zimmer, erfüllt von Akkorden und Sonaten. Es sind Schatten, die sich vor einem erblindeten Spiegel umarmen. An den Fenstern des Spitals wärmen sich Genesende. Ein weißer Dampfer am Kanal trägt blutige Seuchen herauf. Die fremde Schwester erscheint wieder in jemands bösen Träumen. Ruhend im Haselgebüsch spielt sie mit seinen Sternen. Der Student, vielleicht ein Doppelgänger, schaut ihr lange vom Fenster nach. Hinter ihm steht sein toter Bruder, oder er geht die alte Wendeltreppe herab. Im Dunkel brauner Kastanien verblaßt die Gestalt des jungen Novizen. Der Garten ist im Abend. Im Kreuzgang flattern die Fledermäuse umher. Die Kinder des Hausmeisters hören zu spielen auf und suchen das Gold des Himmels. Endakkorde eines Quartetts. Die kleine Blinde läuft zitternd durch die Allee, Und später tastet ihr Schatten an kalten Mauern hin, umgeben von Märchen und heiligen Legenden. Es ist ein leeres Boot, das am Abend den schwarzen Kanal heruntertreibt. In der Düsternis des alten Asyls verfallen menschliche Ruinen. Die toten Waisen liegen an der Gartenmauer. Aus grauen Zimmern treten Engel mit kotgefleckten Flügeln. Würmer tropfen von ihren vergilbten Lidern. Der Platz vor der Kirche ist finster und schweigsam, wie in den Tagen der Kindheit. Auf silbernen Sohlen gleiten frühere Leben vorbei Und die Schatten der Verdammten steigen zu den seufzenden Wassern nieder. In seinem Grab spielt der weiße Magier mit seinen Schlangen. Schweigsam über der Schädelstätte öffnen sich Gottes goldene Augen.
António Cabrita Diários de Próspero h | Artes, Letras e IdeiasO afogado mais formoso [dropcap style=’circle’]O[/dropcap]ntem, 7 de Setembro, estive prestes a afogar-me na praia do Tofo, em Inhambane. Havia um fundão e muito vento e marés em redemoinho e nas minhas costas o meu amigo (que nada muito melhor que eu) foi ao fundo por duas vezes antes de desenvencilhar-se, enquanto eu patinava no turbilhão, sem quaisquer resultados à vista. Rapidamente fiquei ofegante; era batido por ondas desencontradas e já me faltava o fôlego para gritar. Piorou porque o tentáculo ácido de uma garrafa azul se enrolou no meu braço, lacerando-o; à sensação de que aquela massa de águas furibundas era superior às minhas forças juntou-se a dor e aí comecei a entrar em pânico. Sentia-me um idiota a apagar-se a trinta metros da praia. E vi a minha mulher a sair da água com a minha filha mais nova, ambas pálidas, mais magras do que me recordava, como se um susto as alfinetasse – percebi que se tinham safado a custo. Ainda lhes acenei, mas não me viram no âmago do meu inferno. Há um momento em que as perspectivas se invertem: o céu fica em baixo e a água em cima. E o peso daquela abóbada densa e líquida ameaça desabar sobre nós: é quando se deflagrou o sentimento de iminência. Aí sentimos o Opaco de que fala Michaux, a propósito da mãe a caminho da morte: a água deixa de ser fria, é apenas uma grande massa glacial, de algodão, que nos atravessa, poro a poro. Um cansaço geriátrico drenava o meu corpo, varrido pela inabalável densidade das águas. Num último assomo de espírito resolvi inverter de novo as perspectivas, pôr-me a boiar e deixar-me arrastar. O coração explodia-me no céu da boca quando o nadador-salvador veio pelas minhas costas, a reboque de uma prancha. Não o vi chegar, tomo-o agora por um anjo no sentido que lhe deu García Márquez: o anjo é a única criatura do universo que não tem consciência do seu acontecimento. A caminho da praia quase desfaleci por uma súbita baixa de tensão e ele teve de me segurar. Enfim, um descalabro que durou cinco minutos mas que nos faz perceber a fragilidade que nos tolera, a nossa profunda inaptidão. Escrevo no dia seguinte, oito; voltei a entrar na água sem vacilar, para depois recuar porque fiquei com palpitações cardíacas. Retirei-me para a esplanada, onde releio o Justine, de Durrell, e penso como seremos sempre estranhos à vida e não íntimos dela. E eis que tropeço nesta passagem lancinante: «a indiferença das forças naturais para com o mundo da Arte – uma indiferença que eu começo a partilhar. No final de contas, que interesse tem para Melissa uma bonita metáfora, quando se encontra agora profundamente enterrada, como uma múmia, na areia tépida e sombria do negro estuário?» Acode-me então o belíssimo conto do Garcia Márquez O Afogado Mais Formoso do Mundo. Conta-se nele que, num dia luminoso, se avistou um afogado no mar, do alto da falésia onde se incrusta a aldeia. Os homens desceram até à praia para recuperar das águas o infortunado. Está tão coberto de algas, musgos, lapas, escamas e restos de conchas, que é irreconhecível. E a aldeia manda emissários às aldeias próximas para sondar se alguém desapareceu por lá. Ninguém reclama o corpo. Resolvem limpá-lo, querem ver-lhe os traços antes de lhe darem um enterro condigno. Quando o seu rosto aparece a nu, é uma visão que espanta. É claramente o afogado mais formoso do mundo. É tão formoso que resolvem mudar as genealogias na aldeia para cada família ficar ligada àquele antepassado, porque todos querem fazer parte do lampejo da sua memória. Até isso me seria roubado, no meu afogamento. Não me coube tal formosura. Nem como afogados há direitos que possamos reclamar, tudo depende das circunstâncias. Para Dostoievski que só a beleza salvaria o mundo. Não sei se ele tem razão. Mas no meu caso funciona – depois de algo tremendo que me tenha acontecido costumo recuperar por via de algo que porte uma significação especial, por um fogacho de beleza. Talvez por isso, enquanto lia Durrell, desceu sobre mim este poema, que dedico aos meus amigos: «O coração tem uma pálpebra fechada/ parece uma capa viscosa e plúmbea/até que o amor o visita/ e então ela abre-se afogando o mundo/ com a fragância dos limoeiros. // Aí um fragmento de canção/ vivificou o teu silêncio. /E repetes, repetes aquele acorde/ por se assemelhar ao relento/ dos seus lábios quando sobre/ o teu corpo espalhavam a cal viva.// Não confundas a carne acordada/ com a tua sombra, só na dela/ se refaz a luz, só na dela/ se apraz o teu ligeiro embaraço./ Olhas da esplanada a baía –/ lembra uma melancia/ pois já o poente vos abraça.// Ela lê o Auster, tu manténs os dedos/ entrecruzados, em vigília, esperas/ que uma palavra se solte no ecrã/ do laptop, vibrante como o urso/ que acabou de despertar do longo inverno.// Desde que se conheceram nunca mais/ cerraram as persianas (omito aquela tarde/ do ciclone em que até as oleosas varejeiras/ do porto se colavam às janelas,/ aí na respiração do medo correram// as persianas) para que o perfume/ dos limões nos terraços da cidade/ vos reponha os cambiantes/ que trouxeram à doce anarquia/ dos vossos corpos nus um valor:/ ouro, fósforo, magnésio,// todos os credos que consolam/ a nossa vida portátil e breve/ por ser sempre tarde o armistício,/ de ser sempre maior a sede/ que o golfo do desejo recíproco.// Olho-vos e narrador me confesso:/ invejo-vos, na curva do seu braço/ que envolve o teu, no vosso riso/ na escolha de um postal, ao balcão,/ da imagem justa, invejo-vos/ na felicidade intocável de quem ainda/ não foi corrompido por segredos:/ a pálpebra aberta no seu máximo esplendor. »
Paulo José Miranda h | Artes, Letras e IdeiasPoemas de Li Bai [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]primeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais. A FLAUTA DE BAMBU NA NOITE DE PRIMAVERA EM LUOYANG De quem é este coração, que sopra implacável a flauta de jade? Alaga por toda a aldeia de Luoyang o doce vento da Primavera E prende-me aos ramos de uma canção antiga, “O salgueiro que se parte”. Fico sem quaisquer forças para não pensar na terra onde nasci. DESCENDO A MONTANHA ZHONGNAN E FICAR A BEBER COM UM AMIGO A MEIO DA NOITE Com o sol em declínio e a lua a seguir os meus passos, Desço a montanha azul. Olho para trás, para tudo o que já fiz, E só vejo sombras de muitas sombras. Junto ao conhecido portão coberto de flores Os filhos de um velho amigo chamam-me. No estreito e longo caminho verde de bambus A minha roupa agarra-se às silvas, não quer que eu siga. Mas é uma alegria poder descansar E beber o precioso vinho do meu amigo. Cantamos, afinados pelo vento que faz vibrar os pinheiros, Até que as estrelas brilhantes não passem de recordações. Mais bêbados e mais alegres que qualquer coração apaixonado, Esquecemo-nos de nós, do mundo e de tudo a que se possa dar importância.
Paulo José Miranda h | Artes, Letras e IdeiasPoemas de Li Bai [dropcap style=’circle’]A[/dropcap]primeira vez que tive contacto com Li Bai remonta ao ano de 1992, com a tradução de António de Graça Abreu dos poemas deste poeta da Dinastia Tang. Seguiram-se outras traduções ou versões que fui encontrando, aqui e ali. Mais tarde, em 2001, nos três meses que passei por Macau, o contacto com o poeta Yao Jing Ming – que tinha conhecido no ano anterior em Lisboa – motivou-me para aprofundar o conhecimento do poeta. Estive sempre ciente do enorme muro da língua chinesa e limitei-me às traduções de outros e alguns textos teóricos acerca do poeta. Assim, os poemas que aqui vou apresentar, são poemas que cruzam inúmeras traduções e, sempre que possível, esclarecimentos com pessoas chinesas. Não pretendo que os poemas sejam lidos como traduções, que não são, evidentemente, nem tão pouco assumo qualquer tipo de autoridade que não seja o do amor à poesia em geral e aos poemas de Li Bai – ou o que julgo serem os seus poemas – em particular. De resto, respeito o número de versos de cada poema e tento sempre que posso apresentá-los com a concisão que me é possível, exigência dos próprios originais. ENTRETENDO-ME É impossível não olhar o vinho, e a noite cai sem que me dê conta. Ao descer do céu, as folhas cobrem-me as vestes. Ergo-me bêbado e vou até à lua, no riacho. Ao longe os pássaros, não se vêem pessoas. BEBENDO COM UM AMIGO Bebemos entre as resplandecentes flores da encosta. Um copo, dois copos, e muitos outros se seguiram. Bêbado deixo-me dormir e tu partes. Traz amanhã uma guitarra para abraçarmos, se quiseres. AMOR POR NADA Quão bela é, ao afastar as cortinas da janela. Mas demora-se e vejo as rugas que lhe cavaram a testa E as cicatrizes das lágrimas, que dia a dia lhe cortaram o rosto. Quem será o homem com quem ela troca amor por nada?
António de Castro Caeiro h | Artes, Letras e Ideias“Outono transfigurado”, um poema de Georg Trakl traduzido Outono transfigurado [dropcap style≠’circle’]É[/dropcap] terrível como acaba o ano, com vinho dourado e o fruto dos jardins. Em redor, silenciam-se maravilhosas as florestas, Que são as companheiras do solitário. Diz então o camponês: “que bom!” E vós, sinos da tarde, longos e suaves, Dai ainda uma coragem alegre para o fim. O traço das aves em voo saúda a viagem. É o tempo terno do amor. No barco que desce o rio azul, Com que beleza uma imagem se liga a outra imagem. Tudo submerge em sossego e silêncio. Verklärter Herbst Gewaltig endet so das Jahr Mit goldnem Wein und Frucht der Gärten. Rund schweigen Wälder wunderbar Und sind des Einsamen Gefährten. Da sagt der Landmann: Es ist gut. Ihr Abendglocken lang und leise Gebt noch zum Ende frohen Mut. Ein Vogelzug grüßt auf der Reise. Es ist der Liebe milde Zeit. Im Kahn den blauen Fluß hinunter Wie schön sich Bild an Bildchen reiht – Das geht in Ruh und Schweigen unter.
António de Castro Caeiro h | Artes, Letras e IdeiasKleines Konzert (um pequeno concerto) [dropcap style=’circle’]U[/dropcap]m vermelho que onírico te abala— Através das tuas mãos brilha o sol. Tu sentes o teu coração enlouquecido com delícias Preparar-se com calma para a acção. Ao meio dia, fluem campos amarelos. Dificilmente ouves ainda os grilos cantarem, O movimento oscilante e duro das foices dos ceifeiros. calam-se as florestas douradas na sua simplicidade. No charco verde, a putrefacção abrasa. Os peixes estão quietos. O hálito de Deus Desperta a borbulhar suaves sons de corda. A maré acena a convalescença aos leprosos. O espírito de Dédalo paira acima de sombras azuis. Há um aroma a leite nos ramos das aveleiras. Ouve-se ainda durante muito tempo o violino do professor E no pátio vazio o chiar das ratazanas. No púcaro, junto ao papel de parede feíssimo Florescem ainda mais frescas a cor das violetas. Em altercação, morreram vozes sombrias, Narciso morre nos em acordes finais das flautas. Kleines Konzert Ein Rot, das traumhaft dich erschüttert – Durch deine Hände scheint die Sonne. Du fühlst dein Herz verrückt vor Wonne Sich still zu einer Tat bereiten. In Mittag strömen gelbe Felder. Kaum hörst du noch der Grillen Singen, Der Mäher hartes Sensenschwingen. Einfältig schweigen goldene Wälder. Im grünen Tümpel glüht Verwesung. Die Fische stehen still. Gottes Odem Weckt sacht ein Saitenspiel im Brodem. Aussätzigen winkt die Flut Genesung. Geist Dädals schwebt in blauen Schatten, Ein Duft von Milch in Haselzweigen. Man hört noch lang den Lehrer geigen, Im leeren Hof den Schrei der Ratten. Im Krug an scheußlichen Tapeten Blühn kühlere Violenfarben. Im Hader dunkle Stimmen starben, Narziß im Endakkord von Flöten.
Sofia Margarida Mota EventosEntrevista | Sara F. Costa: “Os poemas são outras peles” “A Transfiguração da fome” é o quinto livro de poesia de Sara F. Costa. A apresentação da obra escrita entre Portugal e o oriente está marcada para o próximo dia 28 e vai ser feita por António Graça de Abreu e Fernando Sales Lopes [dropcap]P[/dropcap]orquê “A Transfiguração da Fome”? Este livro é publicado na sequência de uma menção honrosa no Prémio de Poesia Soledade Summavielle atribuído pelo Núcleo de Artes e Letras de Fafe (NALF). A palavra “transfiguração” está comumente associada a um episódio bíblico mencionado no primeiro testamento, e que ocorre numa montanha conhecida como Monte da Transfiguração, onde Jesus aparece em forma de brilho. Na doutrina cristã, o facto de a transfiguração se dar no alto de uma montanha representa o ponto onde a natureza humana se encontra com Deus: o encontro do temporal com o eterno, com Jesus a fazer o papel de ponte entre o céu e a terra. Na mitologia chinesa taoista, é o homem que faz a ponte entre a terra e o céu, deslocando a divindade para o humano. Seja como for, o livro não é propriamente uma reflexão de pendor religioso, apenas se aproveita deste sentido para logo acrescentar uma viragem com a introdução da “Fome”. A “fome” pode ser a fome dos mais fracos, pode ser a fome mundana da ambição, pode ser o desejo. Transfigurar a fome em poesia é apenas uma tentativa de atribuir um sentido divino a tantos sentimentos mundanos que tenho. Sempre achei que tanto a poesia como o meu fascínio pelo Extremo Oriente se relacionavam. Existe algum teor religioso ao longo da obra? Não, eu diria que o meu instinto, ao utilizar estes termos, foi mais irónico. Ao longo do livro os poemas abordam certos valores tidos como religiosos como o nascimento, a verdade, a fé e a esperança, acho que se quisermos interpretar algo timidamente religioso aqui, é possível, mas é possível interpretar exactamente o oposto, o mundano e existencialista, o estado de coisas em que se espera para sempre por uma ausência infinita. Foi escrito entre Lisboa e Pequim. Como foi o processo de escrita deste livro? Há uma diferença de tonalidade entre a primeira parte e a segunda parte. Recebi umas observações do António Graça Abreu que me disse que gostou sem dúvida mais da segunda parte porque, escrita num momento em que já estou a viver em Pequim, sente-se que os poemas respiram e falam sobre este espaço geográfico. Como historiador e especialista em estudos chineses, compreendo o interesse dele por esta faceta. A primeira parte foi escrita em Lisboa ao longo de vários meses. Não tenho um processo muito específico. Sento-me e escrevo. Escrevo no computador ou escrevo à mão se não estiver com o computador. Há alguns momentos no livro que são muito intimistas e outros que se focam mais no tema da transfiguração. Acho sempre que o desafio é falar tão especificamente de algo que é meu de tal modo que se torna identificável porque, por muito que possamos passar por coisas particulares, há sempre forma de fazer com que os outros compreendam e se crie uma empatia entre o que está escrito e quem lê. Como é que sente a influência asiática no que escreve? A segunda metade do livro foi escrito entre Macau, Coreia do Sul e Pequim. É aí que se sente mais a influencia asiática nos meus poemas. Muitas vezes são apenas menções a lugares, outros poemas são uma reflexão sobre a minha aculturação. Sempre achei que tanto a poesia como o meu fascínio pelo Extremo Oriente se relacionavam, na medida em que o que me faz criar é realmente encarnar diferentes papéis, deslocar-me daquilo que eu sou para aquilo que eu posso vir a ser depois de passar por determinada experiência. Os poemas são outras peles e experienciar outras culturas é também ter a capacidade de ocuparmos peles diferentes das nossas em todos os níveis, no sentido social, no sentido cultural, no sentido linguístico, etc. “A Transfiguração da Fome” tem uma nota introdutória de José Luís Peixoto. Porquê este autor? O que ele escreve nesta nota é muito interessante porque ele fala de uma relação poética entre nós. Gosto sempre de trazer para os meus livros as minhas referências, por isso abro com citações de Yukio Mishima, ou Herberto Helder, ou Al Berto, dependendo do livro. Quando era adolescente cresci muito poeticamente com o livro “A Criança em Ruínas”. Sei que José Luís Peixoto é mais conhecido pela prosa, mas há nele um génio poético inegável e que influenciou muito a minha expressão. Ao falar de uma ligação de quem lê para quem escreve ou de quem escreve para quem escreve, acho que estou a chegar a um nível de meta-narrativa muito pertinente. A maioria das pessoas que leem o que eu escrevo são também muitas vezes escritores. Estas referências são talvez uma forma de celebrar esta espécie de comunidade poética que se gera à volta de livros de poesia. Por outro lado, o José Luís Peixoto tem participado em vários eventos na Ásia. Para a apresentação do meu livro em Lisboa também fiz questão de convidar um poeta que vive em Macau, Fernando Sales Lopes e o poeta e historiador António Graça Abreu, um dos maiores especialistas na cultura e literatura chinesa. Muita gente escreve poesia mas acho que se torna interessante quando temos mais em comum para além da dimensão literária, que é bastante vaga. Porquê a poesia? É daquelas questões difíceis de explicar de uma maneira completamente legível. Escrevo desde criança. Não quero entrar em misticismos e dizer que é algo que “nasceu” comigo, mas em simultâneo é um pouco assim que me sinto. Não é uma explicação muito racional. Tenho prazer em escrever e sinto muitas vezes necessidade de o fazer, uma forma de reinterpretar a realidade e dizer: “é isto que eu acho que se está a passar”.
João Paulo Cotrim h | Artes, Letras e Ideias«Um rumor na noite!» Horta Seca, Lisboa, 14 Junho [dropcap style≠’circle’]A[/dropcap]s idas a Paredes, ao REALIZAR:poesia, ecoam pelas mais diversas razões. Fazem-se com facilidade amizades que perduram. Desta vez e por exemplo, os vizinhos Do Lado Esquerdo apresentaram-me a «Um Tal de Koslowski». Tenho conversado amiúde com a figura, com quem me cruzo quase todos os dias. Nenhuma razão para espanto, tende a acontecer quando personagens literários coincidem com esqueleto do real. «Koslowsky jura a pés juntos ter-se encontrado pessoalmente com Huckleberry Finn, há muitos anos. “Mas ele é apenas um personagem literário!”, protestou alguém. “Também eu sou”, disse Koslowsky.» A criação do poeta alemão, Michael Augustin, que também faz colagens, essa linguagem de restos significativos, nasceu no riquíssimo país do absurdo, que visitei já. Importado para português de corte impecável por João Cláudio Arendt e pelo João Luís [Barreto Guimarães], apresenta-se esculpido em contos curtos, golpes de lógica que volteia no ar e corta em todas as direcções. Cada título surge à maneira de proposição de tratado, como se procurasse, em desespero e com asma, o âmago do ser. Veja-se o cristalino Da pergunta e da resposta: «“É verdade que você, independentemente do que lhe perguntem, dá sempre uma resposta errada?”, pergunta alguém. “É isso mesmo!”, responde Koslowski.» O humor está sempre a querer chegar-se à frente, mas não consegue, nem à força de cotovelo, afastar a melancolia que se instalou de armas e bagagens. Estes olhares que descascam tendem a deixar-nos em carne viva. Trouxe o Mário Henrique-Leiria para a conversa, que, por muito produtiva, acaba sempre de modo abrupto. Tal qual a puta da vida. Em Da proximidade da morte, o Koslowski namora com a senhora da gadanha e entra em coma, nada de grave. «Fui subitamente invadido por um sentimento de conforto semelhante ao calor de um casaco de pele de animal, pois sabia que, em breve, o famoso filme da minha vida passaria diante dos meus olhos. Preparei-me, então, para cenas extraordinárias. Mas a única coisa que vi foram anúncios comerciais». Horta Seca, Lisboa, 15 Junho A placa gráfica do computador encheu-se de pó e curtocircuitou. Tenho uma relação especial com o pó, coisa de amor-ódio que hei-de levar a próxima conversa com o Koslowski. Mas enquanto o pobre do José Carlos [Gonçalves] resolvia o problema “informático” tratei de ouver «Sonatina», escrita por José Miguel Gervásio, e composta para livro pelo mano Miguel [Rocha], que me custa ver tão pouco. Mão amiga e por coincidência havia-me avisado que estava disponível a entrevista dada à Ana [Sousa Dias], há mais de uma década, a propósito do «Salazar, Agora na Hora da Sua Morte», talvez a empresa que mais me satisfez e perturbou (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/joao-paulo-cotrim-e-miguel-rocha/). O Miguel mantém relação íntima com o teatro e foi ele que suscitou esta raridade, pequeno livro no meu A5 fetiche, capa dura e crua apenas forrada com sobrecapa, com edição artesanal da Oficina de Impressão e Oficinas do Convento, de Montemor-o-Novo. O conto, esticado quase a pequena novela, poderia ser vivido por um tal de Koslowski, se este tivesse conhecido Bernardo Soares. O absurdo não explode neste caso com o fogo de artifício da (i)lógica, antes procura o reverso do sentido, a bainha onde as minudências se ocultam da narrativa: uma cidade e um porto, talvez um amor, pelo menos um encontro, e rumores não bastam para que as vidas ganhem propósito, para que desfaçam o enigma, se desmanchem em enigma. Como migalhas em labirinto, os minúsculos paladares, gostos, prazeres são transformados em anúncios ilustrados. Bolachas, fósforos, carne enlatada, biscoitos, sabão, sardinhas em conserva, os rótulos inventados, as caixas iluminam-se em evocações do que pode ser a vida. A história seria outra, sem os desenhos, a cadência da paginação, o trabalho de corpos na tipografia, as entradas de capítulo, as duplas páginas engenhosas, o texto estendido à maneira de toalha de piquenique, pronto a acolher os insectos-afectos que recolhemos de velhos grafismos. O meu exemplar tem caderno fora de sítio e resisti à tentação de o tentar corrigir. Se não estivesse atento, poderia ter lido o fim antes, muito antes. Mas nem assim daria desígnio àquelas vidas. As últimas páginas começam por ser manchas ruidosas de cor antes de terminarem com pontos arrumados. Se dançarmos algo se arruma. Antes, um halterofilista de enormes bigodes promete saúde. Na legenda aconselha: «Conservar em lugar seco e fresco. E ao abrigo de insectos.» Horta Seca, Lisboa, 16 Junho O Jorge [Silva], de tanto zombar com a minha tendência para o, chamemos-lhe assim, barroco bucólico, acabou por provar do mesmo veneno. O anódino «Publicidade Ilustrada – 1895 -1972» passou a «O Sono Desliza Perfumado», belo fecho de anúncio, com desenhos de Carlos Carneiro (algures nesta página). O álbum, capa dura em tons de azul texturado, anuncia colecção de prazeres gráficos, todos com raiz na Biblioteca Silva. «Uma biblioteca com facilidade se torna floresta de faróis, se plantada com saber e sabor. Outra coisa não vem fazendo Jorge Silva, no que à ilustração portuguesa diz respeito. Há décadas que demanda, nos baldios do património, com extremo afinco e persistência, a matéria de que é feita a memória gráfica nacional. Como colecionador apaixonado, persegue a presa, indo longe na investigação, não apenas de documentos, mas de figuras e testemunhos, desfazendo o nevoeiro da dúvida, sistematizando o terreno das explicações até à solidez. E depois constrói e comunica, por via de textos e enumerações, alguns recolhidos em Almanaque Silva (https://almanaquesilva.wordpress.com), organizando inúmeras exposições e espalhando-se por aulas e conferências e mais. Almeja tudo recolher, para o ter à mão de semear, debaixo de olho, sem nunca por nunca excluir o gosto. Como bom coleccionador.» São 227 anúncios com trabalhos de Bernardo Marques, Carlos Botelho e Cottinelli Telmo, e tantos outros. De cada vez que folheio, descubro razão para voltar. Antes de mais pelas imagens, também pelos jogos com a tipografia e o grafismo, mas sobretudo pelo desenho puro, as composições engenhosas, o cómico, o realismo, o espírito. Estou sempre a encomendar fotogravuras com Fred Kardofler, a beber café com Luís Flipe Abreu e cerveja com Lima de Freitas. E a dançar no Bristol com Carlos Barradas. Mas também vale a pena voltar para nos vermos ao espelho do que fomos, do que vestimos ou comemos. E do que ainda somos, seguidores cegos do progresso, crentes ingénuos nas propriedades salvíficas da moda. Quase acredito que um telefone nos pode salvar da solidão e do perigo. Horta Seca, Lisboa, 18 Junho Há atrasado, o Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, considerou em entrevista que «temos pequenos editores que fazem um trabalho notável… a Língua Morta, a Abysmo. Fazem um trabalho importante e publicam autores importantes de poesia, mas não têm a distribuição que deveriam ter.» Agradecemos a atenção, algo distorcida, e apesar da companhia, não tanto pelos livros, mas pela doença do editor. Mas eis que, na altura em que podiam ajudar, as autoridades se negam com argumentos falaciosos. Talvez até tenhamos autores importantes, e até traduzidos para castelhano, mas, pelos vistos, não possuem suficiente sex appeal. Vem isto a propósito de novo bocejo. A comitiva portuguesa à Feira do Livro de Guadalajara, hoje anunciada, confirma aquele mais do mesmo que se faz costume: só o que é mediático é bom.
António de Castro Caeiro h | Artes, Letras e IdeiasPoesia de Georg Trakl ALMA DA VIDA Decadência, que suave ensombra a folhagem. O seu amplo silêncio mora na floresta. Em breve, uma aldeia parece inclinar-se, como um fantasma. A boca da irmã sussurra nos ramos negros. O homem solitário vai desaparecer em breve, Talvez seja um pastor, sobre caminhos sombrios. Sai em silêncio um animal da arcada de árvores, Enquanto as pálpebras se abrem bem perante a divindade. O rio azul escoa, belo. Nuvens mostram-se de noite. A alma está num silêncio angelical. Figuras passageiras decaem. Seele des Lebens Verfall, der weich das Laub umdüstert, Es wohnt im Wald sein weites Schweigen. Bald scheint ein Dorf sich geisterhaft zu neigen. Der Schwester Mund in schwarzen Zweigen flüstert. Der Einsame wird bald entgleiten, Vielleicht ein Hirt auf dunklen Pfaden. Ein Tier tritt leise aus den Baumarkaden, Indes die Lider sich vor Gottheit weiten. Der blaue Fluß rinnt schön hinunter, Gewölke sich am Abend zeigen; Die Seele auch in engelhaftem Schweigen. Vergängliche Gebilde gehen unter. Dia de Todos os Santos a Karl Hauer Triste aliança, homenzinhos, mulherinhas, Espalham hoje flores azuis e encarnadas Sobre as suas sepulturas, que timidamente se aclararam. Agem como pobres marionetas perante a morte. Oh! Como parecem existir aqui cheios de angústia e humildade, Como sombras de pé atrás de negros arbustos. No vento de outono, lamenta-se o choro das crianças não nascidas, Também se vêem luzes perderem-se na loucura. Os suspiros dos amantes sopram nos ramos E lá apodrece a mãe com a sua criança. Irreal parece a dança dos seres vivos E admiravelmente espalha-se no vento nocturno. Tão confusa a vida deles, tão cheia de lúgubres tormentos. Tem piedade, Deus, do inferno e do martírio das mulheres, E do seu lamento mortal, desesperançado. Sozinhas, em silêncio, vagueiam na sala das estrelas. Allerseelen An Karl Hauer Die Männlein, Weiblein, traurige Gesellen, Sie streuen heute Blumen blau und rot Auf ihre Grüfte, die sich zag erhellen. Sie tun wie arme Puppen vor dem Tod. O! wie sie hier voll Angst und Demut scheinen, Wie Schatten hinter schwarzen Büschen stehn. Im Herbstwind klagt der Ungebornen Weinen, Auch sieht man Lichter in der Irre gehn. Das Seufzen Liebender haucht in Gezweigen Und dort verwest die Mutter mit dem Kind. Unwirklich scheinet der Lebendigen Reigen Und wunderlich zerstreut im Abendwind. Ihr Leben ist so wirr, voll trüber Plagen. Erbarm’ dich Gott der Frauen Höll’ und Qual, Und dieser hoffnungslosen Todesklagen. Einsame wandeln still im Sternensaal.
Hoje Macau EventosPoeta Nuno Júdice recebe prémio literário Guerra Junqueiro [dropcap style≠’circle’]O[/dropcap] poeta Nuno Júdice mostrou-se “agradecido” com a atribuição do prémio literário Guerra Junqueiro, instituído pelo Freixo Festival Internacional de Literatura (FFIL), que decorre em Freixo de Espada à Cinta, no distrito de Bragança, que terminou no domingo. Em entrevista à agência Lusa, Nuno Júdice disse, no âmbito do FFLL, que está muito grato, ao ter sido agraciado com o prémio Guerra Junqueiro, numa altura em que o poeta transmontano estava a ser ignorado por “uma certa elite do período, pós-25 de Abril”. “Na minha juventude fiquei muito marcado pela leitura dos livros de Guerra Junqueiro que havia em casa dos meus pais. Junqueiro foi um poeta que me marcou bastante pela forma como fala do mundo, da sociedade ou da religião. O ter agora um prémio com o nome de Guerra Junqueiro, é ir ao encontro dessa minha admiração pela sua obra”, vincou Nuno Júdice. O poeta, ensaísta, ficcionista e professor universitário, autor de “A matéria do poema”, afirma que é muito importante ir ao encontro de escritores que estão ligados a cidades, vilas ou regiões, que por vezes estão muito esquecidas e afastadas dos grandes centros. É muito importante que sejam valorizados nos seus locais de origem. “Julgo que é talvez a melhor forma, hoje, de valorizar esses espaços, sobretudo quando estamos a falar de um grande escritor como Guerra Junqueiro”, enfatizou. O Freixo Festival Internacional de Literatura (FFIL) vai decorrer de hoje a domingo, em Freixo de Espada à Cinta, sobe o mote “As Pontes Ibéricas e Lusófonas”. O poeta Nuno Júdice soma perto de quase quatro dezenas de livros de poesia, como, entre outros, “Geometria variável”, “As coisas mais simples”, “O Breve Sentimento do Eterno”, “Guia de Conceitos Básicos”, “Fórmulas de uma luz inexplicável”, “Navegação de Acaso” e “O Fruto da Gramática”. Em 2017 publicou “O Mito da Europa”. Em obras de ficção, conta com perto de uma dezena e meia de títulos, de “Última Palavra: ‘Sim'” e “Plâncton”, publicados na viragem dos anos de 1970 para a década de 1980, aos mais recentes “A Ideia do Amor e Outros contos”, “A Implosão”, marcado pela crise económica e financeira dos últimos anos, e “A Conspiração Cellamare”, editado em 2016. “Desde que vivemos em democracia, os escritores portugueses são presença habitual em certames literários de importância internacional, em países como França ou Alemanha e, depois, a coroar estes êxitos, a atribuição do Prémio Nobel da literatura a José Saramago”, observou. O escritor tem a convicção de que hoje a literatura portuguesa é das mais conhecidas no mundo, onde há um número significativo de romancistas e poetas traduzidos em praticamente em todas as línguas. Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande, no Algarve, é professor tendo-se doutorado na Universidade Nova de Lisboa, em 1989. O poeta português tem somado distinções, do Prémio de Poesia Pablo Neruda, por “O Mecanismo Romântico da Fragmentação”, ao Prémio Pen Club, por “Lira de Líquen”. Recebeu o prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, por “Meditação sobre Ruínas”. Foi igualmente distinguido com o Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus, por “As Regras da Perspectiva”, com o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa, por “Todos os Séculos”, o Prémio Literário António Gedeão, da Federação Nacional dos Professores, por “A Convergência dos Ventos”, e com o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários, por “Rimas e Contas”. O Prémio Ibero-americano Rainha Sofia de Espanha foi-lhe atribuído, em 2013, em reconhecimento pela sua carreira, assim como os prémios Fundação Inês de Castro – Tributo de Consagração, Argana da Maison de la Poésie, de Marrocos (2014), Poetas del Mundo Latino Victor Sandoval (2014) e Juan Crisostomo Doria a las Humanidades, da Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo (2017), ambos do México. No ano passado Nuno Júdice venceu igualmente o Prémio Internacional Camaiore 2017 de Itália. Está traduzido em Espanha, Itália, Reino Unido e França, entre outros países.