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Horta Seca, Lisboa, 14 Junho

 

As idas a Paredes, ao REALIZAR:poesia, ecoam pelas mais diversas razões. Fazem-se com facilidade amizades que perduram. Desta vez e por exemplo, os vizinhos Do Lado Esquerdo apresentaram-me a «Um Tal de Koslowski». Tenho conversado amiúde com a figura, com quem me cruzo quase todos os dias. Nenhuma razão para espanto, tende a acontecer quando personagens literários coincidem com esqueleto do real. «Koslowsky jura a pés juntos ter-se encontrado pessoalmente com Huckleberry Finn, há muitos anos. “Mas ele é apenas um personagem literário!”, protestou alguém. “Também eu sou”, disse Koslowsky.» A criação do poeta alemão, Michael Augustin, que também faz colagens, essa linguagem de restos significativos, nasceu no riquíssimo país do absurdo, que visitei já. Importado para português de corte impecável por João Cláudio Arendt e pelo João Luís [Barreto Guimarães], apresenta-se esculpido em contos curtos, golpes de lógica que volteia no ar e corta em todas as direcções. Cada título surge à maneira de proposição de tratado, como se procurasse, em desespero e com asma, o âmago do ser. Veja-se o cristalino Da pergunta e da resposta: «“É verdade que você, independentemente do que lhe perguntem, dá sempre uma resposta errada?”, pergunta alguém. “É isso mesmo!”, responde Koslowski.» O humor está sempre a querer chegar-se à frente, mas não consegue, nem à força de cotovelo, afastar a melancolia que se instalou de armas e bagagens. Estes olhares que descascam tendem a deixar-nos em carne viva. Trouxe o Mário Henrique-Leiria para a conversa, que, por muito produtiva, acaba sempre de modo abrupto. Tal qual a puta da vida. Em Da proximidade da morte, o Koslowski namora com a senhora da gadanha e entra em coma, nada de grave. «Fui subitamente invadido por um sentimento de conforto semelhante ao calor de um casaco de pele de animal, pois sabia que, em breve, o famoso filme da minha vida passaria diante dos meus olhos. Preparei-me, então, para cenas extraordinárias. Mas a única coisa que vi foram anúncios comerciais».

Horta Seca, Lisboa, 15 Junho

A placa gráfica do computador encheu-se de pó e curtocircuitou. Tenho uma relação especial com o pó, coisa de amor-ódio que hei-de levar a próxima conversa com o Koslowski. Mas enquanto o pobre do José Carlos [Gonçalves] resolvia o problema “informático” tratei de ouver «Sonatina», escrita por José Miguel Gervásio, e composta para livro pelo mano Miguel [Rocha], que me custa ver tão pouco. Mão amiga e por coincidência havia-me avisado que estava disponível a entrevista dada à Ana [Sousa Dias], há mais de uma década, a propósito do «Salazar, Agora na Hora da Sua Morte», talvez a empresa que mais me satisfez e perturbou (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/joao-paulo-cotrim-e-miguel-rocha/). O Miguel mantém relação íntima com o teatro e foi ele que suscitou esta raridade, pequeno livro no meu A5 fetiche, capa dura e crua apenas forrada com sobrecapa, com edição artesanal da Oficina de Impressão e Oficinas do Convento, de Montemor-o-Novo. O conto, esticado quase a pequena novela, poderia ser vivido por um tal de Koslowski, se este tivesse conhecido Bernardo Soares. O absurdo não explode neste caso com o fogo de artifício da (i)lógica, antes procura o reverso do sentido, a bainha onde as minudências se ocultam da narrativa: uma cidade e um porto, talvez um amor, pelo menos um encontro, e rumores não bastam para que as vidas ganhem propósito, para que desfaçam o enigma, se desmanchem em enigma. Como migalhas em labirinto, os minúsculos paladares, gostos, prazeres são transformados em anúncios ilustrados. Bolachas, fósforos, carne enlatada, biscoitos, sabão, sardinhas em conserva, os rótulos inventados, as caixas iluminam-se em evocações do que pode ser a vida. A história seria outra, sem os desenhos, a cadência da paginação, o trabalho de corpos na tipografia, as entradas de capítulo, as duplas páginas engenhosas, o texto estendido à maneira de toalha de piquenique, pronto a acolher os insectos-afectos que recolhemos de velhos grafismos. O meu exemplar tem caderno fora de sítio e resisti à tentação de o tentar corrigir. Se não estivesse atento, poderia ter lido o fim antes, muito antes. Mas nem assim daria desígnio àquelas vidas. As últimas páginas começam por ser manchas ruidosas de cor antes de terminarem com pontos arrumados. Se dançarmos algo se arruma. Antes, um halterofilista de enormes bigodes promete saúde. Na legenda aconselha: «Conservar em lugar seco e fresco. E ao abrigo de insectos.»

Horta Seca, Lisboa, 16 Junho

O Jorge [Silva], de tanto zombar com a minha tendência para o, chamemos-lhe assim, barroco bucólico, acabou por provar do mesmo veneno. O anódino «Publicidade Ilustrada – 1895 -1972» passou a «O Sono Desliza Perfumado», belo fecho de anúncio, com desenhos de Carlos Carneiro (algures nesta página). O álbum, capa dura em tons de azul texturado, anuncia colecção de prazeres gráficos, todos com raiz na Biblioteca Silva. «Uma biblioteca com facilidade se torna floresta de faróis, se plantada com saber e sabor. Outra coisa não vem fazendo Jorge Silva, no que à ilustração portuguesa diz respeito. Há décadas que demanda, nos baldios do património, com extremo afinco e persistência, a matéria de que é feita a memória gráfica nacional. Como colecionador apaixonado, persegue a presa, indo longe na investigação, não apenas de documentos, mas de figuras e testemunhos, desfazendo o nevoeiro da dúvida, sistematizando o terreno das explicações até à solidez. E depois constrói e comunica, por via de textos e enumerações, alguns recolhidos em Almanaque Silva (https://almanaquesilva.wordpress.com), organizando inúmeras exposições e espalhando-se por aulas e conferências e mais. Almeja tudo recolher, para o ter à mão de semear, debaixo de olho, sem nunca por nunca excluir o gosto. Como bom coleccionador.» São 227 anúncios com trabalhos de Bernardo Marques, Carlos Botelho e Cottinelli Telmo, e tantos outros. De cada vez que folheio, descubro razão para voltar. Antes de mais pelas imagens, também pelos jogos com a tipografia e o grafismo, mas sobretudo pelo desenho puro, as composições engenhosas, o cómico, o realismo, o espírito. Estou sempre a encomendar fotogravuras com Fred Kardofler, a beber café com Luís Flipe Abreu e cerveja com Lima de Freitas. E a dançar no Bristol com Carlos Barradas. Mas também vale a pena voltar para nos vermos ao espelho do que fomos, do que vestimos ou comemos. E do que ainda somos, seguidores cegos do progresso, crentes ingénuos nas propriedades salvíficas da moda. Quase acredito que um telefone nos pode salvar da solidão e do perigo.

Horta Seca, Lisboa, 18 Junho

Há atrasado, o Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, considerou em entrevista que «temos pequenos editores que fazem um trabalho notável… a Língua Morta, a Abysmo. Fazem um trabalho importante e publicam autores importantes de poesia, mas não têm a distribuição que deveriam ter.» Agradecemos a atenção, algo distorcida, e apesar da companhia, não tanto pelos livros, mas pela doença do editor. Mas eis que, na altura em que podiam ajudar, as autoridades se negam com argumentos falaciosos. Talvez até tenhamos autores importantes, e até traduzidos para castelhano, mas, pelos vistos, não possuem suficiente sex appeal. Vem isto a propósito de novo bocejo. A comitiva portuguesa à Feira do Livro de Guadalajara, hoje anunciada, confirma aquele mais do mesmo que se faz costume: só o que é mediático é bom.

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