Turcos e Bordados

6 de Dezembro de 2020

Com a cidade semi-deserta uma das coisas boas é sem dúvida ir lendo os nomes dos estabelecimentos comerciais e tentar entender a nomeação de tais espaços. Se nos dermos conta, só mesmo as lojas chinesas que já estão em maioria por todos os lados, escusam designações de qualquer género, o que se entende, dada a profusão de mercadoria diversa e em nada coincidente. E este deambular numa terra de titularidades é um exercício também ele linguístico acerca daquilo que o denominar abrange, e vamos aos turcos: de repente, pensamos no Império Otomano, em Solomião o Magnífico, Istambul, cidade entre dois continentes, e chás no deserto — mas não — apenas passamos por uma loja com o nome «Turcos e Bordados» e é bonito!

Para um qualquer transeunte de outros lados reparar nisto deve causar estranheza, mas há quem conviva com certas coisas com tanta naturalidade que nunca pensou nos turcos, e ainda outros para quem não aquece nem arrefece, e é aqui, na manobra da correlação que entra a temperatura; as toalhas turcas! Um tecido todo feito integralmente de algodão para os famosos banhos que séculos de domínio islâmico aperfeiçoou. Quanto aos banhos, são também eles um legado greco-latino, só que uma religião monoteísta requer práticas constantes de higienização fazendo de tal labor uma prédica mais, por vezes até bastante compulsiva.

É, sem dúvida, um facto que um pano por si mesmo não é nada, o que faz que se possa acrescentar toda uma técnica decorativa que transponha o seu carácter de objecto, e, por isso mesmo, na loja lhe acrescentem, bordados, que sendo esses panos “turcos” ainda suportem a delicadeza de tais artifícios, é obra! Mas um verdadeiro exemplar, tributado numa mancha iconoclástica tamanha, levará apenas franjas na ponta e riscas no fundo, o mais perto de um tratado geométrico simples, requerendo-se leve para se tornar absorvente, e quem estiver ainda muito distraído pensará que se trata de um «talit», o manto da oração, que sendo aspectos aparentemente transversais nos mostram bastante da natureza das coisas, que quanto muito, e neste caso, poderia fazer sentido uma loja «Turcos e Molhados». As franjas mostram somente que Deus nos toca indelevelmente, e sempre, em regime de extremidade, quer estejamos a tomar banho ou envoltos na oração, as riscas indicam a impossibilidade, talvez, de recorrer às imagens, mas Lisboa, é como Constantinopla, outra cidade das sete colinas, e no que diz respeito a Impérios sabe também que estes se esfrangalham, e na derrocada, as bases de uns vão formando outros, como as lojas dos tapetes persas chamados «Aladinos» que não raro têm inscrições de Arraiolos. Que os há! Bem perto até dos «Turcos e Bordados». A simulação da oferta é uma mais valia com que os puristas não contavam, e também é neste cruzar de dados com o nosso cristianismo pagão que vamos construindo estéticas desconcertantes e admiráveis.

Bom, mas também é certo que a cidade está cifrada. Os nomes em inglês, as ofertas tresvariáveis, as coberturas de pequenos cubículos sem graça nenhuma, a não ornamentação do minimalismo mórbido, mais os eloquentes «Pés de Salsa» convivem como se cada um vivesse num planeta distinto, mas que não deixa de fazer os encantos destes olhares. Como ainda não se pode ir naturalmente a lado nenhum, não raro apetece muito um «-hamame-» e em seguida jantar uma bela chanfana com vinho tinto, o que não afecta de todo a distância a que está cada um destes prazeres.

Os “turcos” podem ser bordados, e nós não reparamos nos lindos monogramas que representam o grau de familiaridade: avô, mãe, pai, filho, e se os tecidos engrossam é por que há mais algodão e não precisamos de secar tão depressa. Na cidade antiga, ainda existe a «Camisaria Controle» e os «Lençóis tipo Zé» o que dá uma tónica indispensável à sua humanização. Coisas que já não dizemos nem escrevemos, mas tempo houve em que se podia dizer e não escrever, o que ficou conhecido certamente pela frase popular «o que tu dizes não se escreve». Nestas linhas, como nos fusos de tecer, há ainda muitos Impérios, e os turcos ajudaram à queda de alguns, foram pioneiros nos Holocaustos do século XX, tentaram derrubar o nosso, mas, o seu fascínio persiste, pois que estamos em cidade de califado.

«Istanbul (not) Constantinopla» nem o Santo Sudário, uma peça de linho para os dias de maior calor; mas que estes panos são grandes monumentos, isso, ninguém duvida. Lojas abertas com inscrições várias precisam-se para manter a economia de bairro bem desperta (a venda de relíquias está proibida). «Sudário & Filhos» ao lado de «Turcos e Bordados» e ainda Maomé bordado numa nestas toalhas com a inocência estrangeira das multidões.

25 Jan 2021

O futuro radioso

Precisamos das contribuições de certos títulos para sair de um Ano cuja radiação foi catastrófica, Alexandre Zinoviev anteviu muito tempo antes a derrocada da U.R.S.S em várias sinopses que poriam fim ao slogan simbólico e triunfalista de um radioso futuro da Humanidade. Política à parte, trata-se sempre de saber ver que os grandes empreendimentos ideológicos se separam da realidade e que as pessoas não cabem em nenhuma estrutura socialmente modificável, eles avançam, e as pessoas ficam, tão iguais a si próprias como sempre foram, máquinas audazes de sobrevivência. Se trilhássemos todos os países veríamos sem dúvida nos movimentos sociais que estivessem em curso a mais intensa fé dos homens e o seu grande vigor antes dos regimes assentarem os seus dogmas como mortalhas.

Os ciclos extraordinários dão sempre mais do que tiram, e ainda atiram para as urtigas o ranço da estabilidade mórbida que deve ser coercivamente abalroada por uma nova ordem em marcha, nesse momento, soltam-se forças de uma extrema alegria de grupo que duram pouco, mas produzem o melhor. Devagar, voltam então os tiranos com novos emblemas e não se lhes pode exigir grande coisa, a menos que estejamos em Democracia, a qual se tem tornado uma ilusão mergulhada em grandes equívocos nestes últimos tempos em que os amanhãs que a cantam ficam já nas calendas dos radiosos futuros. Se Estaline fez um acordo secreto com Hitler, de pouco ou nada nos valerá para ajuizamento, mas diz o bom senso que nunca se deve confiar nos loucos. Mas também é certo que os negacionistas atravessam-se em todos os ciclos históricos; carregam a gratidão com tanta ferocidade que se torna difícil qualquer confronto lúcido. Longe vai o Gulag, longe parece estar tudo que a intransigência determinou, mas, será que sim? Em cada dia passado neste já longínquo outro regime sentimos a imponderabilidade da marcha, e quando nos levantamos para a complexa estrutura que implantou regras fundamentais, vacilamos perante a capacidade de reversão das massas.

«Beber do rio infectado da matança» também podia ser um título que se contrapusesse à audaz radiosidade da vitória, agora, e depois de laudatórias ovações, as sociedades tão extraordinárias como as do Norte Europeu, acabamos por descobrir a produção de seres vivos aos milhares para fazer casacos “fofinhos” para um mundo de pessoas e ideias mais “fofinhas” ainda. – É! – Putin ri-se, e muito bem, das avarias envenenatórias de que o culpam, o que está certo, um antigo director da K.G.B não anda a brincar aos espiões e muito menos a falhar os alvos, e as razões aparentemente metafísicas de ter ajudado ao desastre não devem ser expostas assim com aleivosidade ocidental que se baralha toda na labuta pela verdade. O futuro do seu país pode não ter sido radioso mas será sempre suficientemente imperial para não deixar de estar atento aos fluxos da radiação do mundo.

Foi um tempo que nos incita agora a pensar na travessia das coisas, e se as ordens de expulsão exercitaram as quedas, hoje mesmo, ninguém sabe para onde fugir, e o que se nota é que tudo cai sem recurso a uma exclusão. O futuro tem cintilações tais que podemos não saber ver o que para aí vem, e se fugirmos para a frente, mesmo assim ainda carregamos os espectros dos passados longínquos, e estas órbitas chegam a um ponto que regressam aos mesmos lugares. Só nós fomos caminhando loucamente na deriva de poder apanhar a nuvem, que era Juno, a modernidade que agora se esvai, e a inventividade que se cansa e produz efeitos cegos para a Cidade única em que se tornou o mundo.

O cientista russo da vacina acaba de cair de uma janela do décimo quarto andar – e voltamos ao soneto – que a poesia já não é prosa, e dela se deitam os cientistas antes de acabar as suas invenções. Com esta suposição de homicídio, o que estava a preparar o senhor para tão vertiginoso fim? O futuro pode até ser radioso, mas nunca transparente. Zinoviev, esse, continua a ser o nosso Pai Natal da Sibéria, o dissidente do passado que nos inspira a conhece-lo e também a saborear a ironia mais audaz como forma de manter viva a lucidez. E nada mais belo que «Ivan o Terrível»!

Sou mesmo Ivan. Até dá riso
Ficar para prá´qui a criar o paraíso,
Para que os nossos filhos se venham a queixar,
Que nome Levi não se possam chamar.
Mas para ser justo, digno, perfeito
Demos a Levi o que é por seu direito.
Já que foi Levi e não Ivan quem se lembrou
De criar o paraíso e a ideia executou.
Forjando um Éden para a sua descendência
E assim levando o pobre Ivan à demência.

5 Jan 2021

Konstantinos Kavávis

Desçamos a Alexandria e nela tentemos focar a imagem do poeta, ao que se sabe, um homem bonito que na sua cidade foi compondo aquela obra de fronteira, tão universal, quanto cheia de Impérios e de areias, tão do corpo, do corpo tocado, da forma soprada, que Alexandria é como as lendas e Kaváfis um puro encantamento dentro dela.

Que nós, os mais naturais, pouco entendemos de fascínios e quase esquecemos a espionagem da Rota da Seda – a rota da Civilização – circuito onde toda a beleza e perigos algures se cruzaram. O poeta tinha no sangue todos estes caminhos desde a Pérsia, à Arménia, à Macedónia, Constantinopla pela herança helénica, e mesmo assim não vamos encontrar nele um ser histriónico, entusiasta, antes pelo contrário, foi um homem metódico, escrupuloso, secreto e burocrata, distinguindo muito bem os papéis do seu próprio destino. A sua obra também não foi prolífica – 154 poemas ao todo que passaram a livro póstumo e que durante a vida ele editara em panfletos, folhas soltas, num sistema de divulgação muito popular na Grécia, em neogrego, a língua do Oriente helenizado que Kaváfis faz brilhar na sua vertente linguística.

Mesmo em Alexandria poderemos dizer que não se encontra separado da sua geração no que respeita ao estilo da corrente Simbolista, mas ele não fará nenhuma alusão específica e foi ainda possível conhecer-lhe melhor os passos através do célebre «Quarteto de Alexandria», de Lawrence Durrel, que o retrata para o fim como um ancião cosmopolita avesso, no entanto, à luz eléctrica, gostando da penumbra e optando por luz de velas ou candeeiros a gasolina. Mas era a sua «noite iluminada», revestida de boémia, que o introduzia na saciedade dos corpos carregando a sua homossexualidade como um anátema social que não lhe roubara nenhum prazer saciável que tanto sentiu diante da beleza adónica.

É que Kaváfis era um esteta e nenhum moralismo lhe tiraria as forças e de tal forma um ser erótico que soube dizer como jamais escutámos no poema esta conjugação de aspectos: «esforça-te, poeta, por retê-las todas (as imagens) embora sejam poucas as que se detêm/ as fantasias do teu erotismo põe-nas semiocultas, em meio às tuas frases» esta reserva, este sentido do oculto sem no entanto anular a carga da mensagem, conferem-lhe pleno poder de concisão e vigilância que lhe permite estar atento ao dolo intranquilo de todo o prazer que não é selado. Talvez que a sua própria vida lhe desse a conhecer o limite da beleza enquanto acto transgressivo, e que nela, no pico mais alto, se correm os maiores perigos que contribuem para elevar essa busca ardente.

O poeta viajou mas é como se nada disso o tivesse impressionado. Ele era da sua cidade o amante dilecto, «aquela em que nunca chegou pois nunca partiu» e sabe-se que gostava de palmilhar a pé quotidianamente os seus bairros, falando de forma casual para quem o quisesse ouvir da sua poesia, onde fumava demoradamente uma longa piteira e se foi constituindo assim um ser sem grande propensão para outras demoras. Havia uma certa antipatia nos centros das esferas literárias que não entreteve com querelas e criticismo vão, para além de nunca lhe ter sido sensível o factor político ou social. O “bas-fond” da cidade deu-lhe as imagens mais representativas e talvez no limite se sentisse por elas subjugado por sua própria natureza poética, que não raro toca o desespero e o vazio de viver, e talvez aí a sua comoção fosse para além do instante e encontrasse matéria para os temas transformados na maravilhosa narrativa que foi afinal a rescrição continua dos seus poemas.

Aqui vemos o perfeccionista, o homem que se demora a contemplar e a corrigir exaustivamente a sua obra, sem tempo para continuar a outra que o reino da quantidade gosta de esvaziar nos incautos bloqueados. O seu tom confessional nunca fraquejou embora não nos demonstre jamais o seu martírio, será talvez esta sobriedade que mais o coloca na senda aristocrática de um sangue grego antigo de que descendia. E quando, e quanto ao corpo, há um estremecimento nessa forma tão bonita de o mencionar ao dizer: «Lembra corpo, não só o quanto foste amado, não só os leitos onde repousaste/mas também os desejos que brilharam por ti em outros olhos claramente/agora que tudo isso se perdeu no passado, é quase como se a tais desejos te entregaras/e como brilhavam, lembra, nos olhos que te olhavam/ e por ti na voz tremiam, lembra corpo».

Por ele embarcámos para Ítaca numa viagem de coragem e de amor, aprendemos a não apressar o passo e a refrear as ambições, fez-nos ainda predestinados e atentos através da ilha que é a sua alma velando por nós todos à escala humana, alertou-nos para o perigo das construções que podem ser maléficas sempre que as invocamos mal na nossa mente, olhámos ainda a beleza do altivo espírito do pensamento e a importância maior de não abrigarmos espectros. Fez-nos esperar pelos Bárbaros (que contemplam aqueles que a Europa hoje deixa a morrer no Mediterrânio) com alegria e satisfação logrando serem a única solução, sabendo que vinham das tribos festivas do mundo onde se compunham os orais poemas da sua virtude. Conseguiu remeter o fio do tempo para ciclos antropológicos que ninguém consegue ver o que abrigam de riqueza e oportunidade, causou-nos a maior abertura para vermos que padecemos de um desconhecido medo e que os ciclos históricos são como as vagas dos oceanos, navegamos por eles. Lembrou-nos os Oráculos no «Prazo de Nero» e a sua geometria do destino talvez apontasse também ela para uma certa predestinação, nascido a 29 de Abril de 1863, nesse mesmo dia morreria em 1933. Não foram os Idos de Março, esse temor antigo de que fora afinal um célebre guardião.

Não me deixei prender. Libertei-me e fui em busca de volúpias
Que em parte eram reais,
Em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
Fui em busca da noite iluminada.

29 Dez 2020

O olhar que nos mata

Em toda a longa marcha a visão entra como forma de julgar e esculpir a Humanidade, quer como conceito subjectivo da noção de beleza, ou invólucro da substância do desejo, ela tem forjado um sistema dúbio, intenso, desagregador e ilusório no mais desperto sentido que se tem tornado sempre mais voraz. O ilusório exercício de quem vê, não será menor que o daquele que se mostra, e tudo se plasma em visualidade que exprime uma certa inocência. Mas existe um outro olhar, bem mais penetrante que todas as associações do espectro visual e que apenas olha obliquamente o drama dos expostos, esse melodrama comum de uma deidade infantil que descarrega enchentes de bloqueios para os outros sentidos com o gritante reflexo que lhes esconde: de que se reveste a intromissão desta lente cujo filtro se rompe ao captar o contemplado? De muitas coisas, e de um poder terrível!

Górgone, lembra-nos sempre, e os gatos dizem-nos constantemente quando assumem a grande antipatia por quem os tenta deslindar, não gostando dessa devassa grosseira da observação intensa. Deus de Israel não permitiu que Moisés o contemplasse pois que este morreria, Eurídice desapareceu, e a mulher de Lot transformou-se em estátua de sal.

O Olho Galáctico, ou o que Tudo Vê, aproxima-se deste conteúdo, gera o propósito do anunciar com as pálpebras fechadas quando a sua voz é tudo o que percepciono…! Deixei de ver por desventura de superabundância de imagem humana e quando o faço, sinto uma náusea tão estranha como um lamento macerado de perplexidade, um anzol com pinças nas pupilas puxado por ímanes agonizantes, ver tudo em compressão nesta fartura inexpressiva no rosto e nos corpos dos milhões que se expõem, é quase abismo e perdição. Uma crendice que se alonga nas amostras de todos os receituários e dá estampas de intolerável entretenimento, e é esta desolação sem nome que atrai o mau olhado que anda no mundo e poucos reparam como sendo a rara coisa viva. A vulnerabilidade dos expostos em suas anatomias gera o pânico, que o lamacento olhar a todos calcina, e sem nada que os segure de si mesmos, na mira do Olho que vê nas Trevas, passeiam-se sem condições, as criaturas.

O que vemos é aquilo que querem que se veja, são armadilhadas, todas as imagens, lúgubre fachada que não escapa no entanto aos que as trespassam, e todos os sedentos da circunstância do visível acontece-lhes nunca serem a mariposa que desejam ver desabrochar em outros olhos incautos. Quem vê é quem cheira, e o que penetra, vê-se de tal forma por outros ângulos, que nada do que está em regime vigente no olhar pode causar a mais ínfima sensação.

Fechamos os olhos dos mortos por delicadeza e respeito, olhamos a desordem com mágoa, desviamos o olhar da densa combustão dos corpos, pois tudo o que não devemos ver se nos apresenta como um transtorno grave, pensamos deslindar as capacidades dos seres pela legenda das maceradas imagens e elas tornam-se rápido uma forma plana por onde correm alcateias de cegos sem sentidos. Um mundo fechado à janela do seu ver cria fantasmas que padecem.

Muito ao contrário da pueril manifestação de «olhos nos olhos» os grandes apaixonados não têm essa prática, eles pressentem-se na névoa dos seus contornos, e quase deixam de ver quando ampliados pela substância de fortes e misteriosos intervenientes outros. O ver dos amantes não necessita de nenhuma imagem nem se congrega ao redor das orientações visuais. Quando todos nos dermos conta do que se passa, ficarão apenas crateras vazias no lugar onde antes encaixaram as órbitas que tiveram das superfícies o reflexo dos loucos quando se põem a caminhar. Sem projecto, nem trajecto, os caminhos que percorrem são cegos, da volúpia, apenas os pés que não se cansam, e a natureza vagabunda de um desleixo sem causa. É onde parecemos andar neste plasma planeta, e pelos seus cantos vamos sentido como se esmagam as vontades e como os dons se esfumam quais Eurídices, pois que a certificação das presenças não passa de uma desconfiança que já não é consentida. Cegados de ver, a grande abóboda Galáxia se apaga pela manobra dos que a olhar se foram para sempre carregados de vasta escuridão.

O caminho do meio não tem imagens e não derrete no quente deserto onde as periferias acordam fazer para o caminhante pequenos oásis, aí, na torreira, nem um disco brilhante no alto é visível como prolongamento do vazio, que a miragem prossegue e a sede cede. O caminhante está sempre ao nível do seu horizonte que não necessita ser lembrado porque são as estrelas que o guiam, e essa certeza é tudo o que se deseja para não sermos escravos da aparência e dos Infernos tenazes que fabricam os sonhos. Existe um vapor pornográfico nesta vertigem das amostras, uma domesticação dos instintos a catálogo, o que faz detonar os circuitos da insuportabilidade quando o estático se move. A indução do efeito visual pode levar a encantamentos colectivos que se tornam agora os mais ardentes responsáveis do perigo comum. A prestidigitação do núcleo orbital aponta uma larga pontaria em grande escala. Nós estamos todos na mira de um colapso. É o mau olhado!

 

Quem olha para fora vê
e quem olha para dentro acorda.
Ditado Alquímico

20 Dez 2020

Cinzas

Quem é este? Ele chama-se Devorador de Milhões, quando está
na colina de Unet.
se alguém o percorre, que se acautele para não cair sobre as facas!
Ele chama-se o Violento, é o guarda da porta do Ocidente.
in Livro dos Mortos do Antigo Egipto

 

E a morte terá por fim o seu domínio sobrepondo-se ao abandono a que tentámos reduzi-la. Um tempo que a disfarçou em emaranhados silêncios, encruzilhadas que a subestimaram com os depósitos excrementícios da novela de má qualidade das vidas, que ela, mesmo empilhada, incinerada, esquecida e escondida, é a mais precisa das fontes, que a seu lado, toda a expansão se reduz a uma gigantesca avaria mecânica. Mas sim, a morte é sempre triste, a condição é trágica, a vida demasiado curta para contemplar tanto definitivo, mas impressionantemente há coisas piores, como o não saber lidar com ela por não haver vida que se consinta a ser vivida, só existida, assistida… estamos em viagem de cruzeiro esquecendo por completo a Barca. São os tempos em que as crianças nunca foram a um enterro e queremos delas sempre outras coisas e mais, por isso as doutrinamos ao ponto da sujeição, da utilização, em aglomerados de insanidade sempre com temor injectado nas veias para o caso de perguntarem algum dia por aquelas coisas essenciais. Uma sociedade de argumentistas saberá a um tempo ponderar a propósito daquilo que a diminui face ao corpo vital das provas, por isso se reveste de uma higiene que a imortalize e de uma segurança que lhe permita um certo elo de perenidade.

E eis-nos no caminho mais temível que é o do sorvedor das cinzas: quando nos tiram os corpos para as incenerações num lustral nazismo sem mácula que nos faz acreditar até em goelas necromânticas que se escondem mesmo por detrás das câmaras de extinção. Esperamos acabrunhados para que tudo esteja reduzido a pó, e que a natureza emocional de cada um impluda para níveis de relativismo programado. Tudo isto é tido como uma prática normal e desejável para a não expansão de corpos na Terra por decomposição em profundida, ela, que continua cada vez mais pequena para um enxame de gentes cuja felicidade as espera logo ali ao virar da esquina. E as pobres pessoas bem-intencionadas lá andam a acompanhar o vazio ardente de um momento que se evapora mas também lhes inspira alguns súbitos galanteios à vida. Toda a litania fúnebre se desfaz, e as carpideiras, esses abençoados seres que evocavam o tamanho da nossa dor, tão esquecidas foram que se inverteram os cânticos. A morte não gosta disto, e como tal, foi precipitando a nossa demanda, temos só números e poucas vozes por parte daqueles por ela visitados, o que faz ultrapassar em muito o que é expectável. – Sem querer entrámos no domínio da Besta com a plumagem de lindos Cordeiros, amigos de Lobos, em marcha para a liquidação total.

Das cinzas, alguns já fizeram anéis para continuarem com os seus defuntos entre os dedos, e algumas ainda foram espalhadas pelas reservas dos vivos, debaixo das árvores, ou em torrões de açúcar embalsamados com lúgubres indicações por cima, isto dá-se naquele reino da desflorestação em série e no domínio anatómico da sexualidade intrusiva, e nesse fim de mundo de grande superficialidade, abrir uma cova tornou-se um esforço de tal ordem gigantesco que exige argumentos capazes de revirar as tripas do centro planetário. A diferença face ao nazismo primeiro é que não há aproveitamento comercial de outro material orgânico, muito embora o negócio da queima seja bastante lucrativo: a pira funerária está lá para não permitir que se ocupe espaço na terra- a terra- esse elemento abrasivo e lento que ao invés de nos ceder sempre nos resiste… terra, excrementícia anatomia cinzelada pelas nossas cinzas que até fará brilhar os caminhos vulcânicos.

O plano da organização da morte dita sempre a composição das leis sociais, ela acompanha o fluxo das circunstâncias, como o tempo da implantação dos cemitérios públicos a grande medida social das Luzes, democratizando-a e banindo pragas, hoje, é-nos filtrada pela desmesura negacionista e pela falta de um período chamado luto que nada mais é que a salutar época de saber integrar um processo doloroso. Ela surge-nos em muitos contextos pela culpa, relembrando-nos a todo o instante que o mundo está repleto de assassinos involuntários, ou não, mas nunca afirmando que se morreu. Falece, fenece … É! Para o que não se pode dizer todo o eufemismo serve até aos seus sinónimos. Por culpa ou não, nós sempre morremos, pois que somos mortais. Deve haver um culpado para tal condição?! Talvez… talvez não… e neste interregno construamos, isso sim, o direito a ter uma alma, intacta, firme, em altos voos, enquanto o corpo carregado de desamor se encaminhe para um espaço protector. Nesse invólucro habitou uma centelha imortal que não esquecerá a sua antiga casa, só que nesta habitação de poeiras corremos o risco de retrocesso até à primeira ovulação da Terra.

Bom lembrar aquilo que nos define como espécie, a noção do mistério da morte, e que os primeiros altares do mundo foram todos em seu nome. Naquelas pedras erguia-se uma certa evolução de que hoje tanto nos orgulhamos. Por isso, a não podemos esconder.

Só que
Tu
Subiste ao Céu
Atravessaste as águas celestes,
Estás associado às estrelas,
e na Barca te aclamamos.
23 Nov 2020

O Mercador de Auschwitz

Todos assistimos a um recrudescer ficcional do Campo de Extermínio mais doloroso que a mente humana pôde alguma vez conceber, que o Gólgota ao pé dele fora uma colina amena. Em grandes destaques o insólito mantém-se com narrativas e ousadas manobras de “diversão” para os embotados leitores que morrem de fausto fastio numa sociedade onde o capital das contas púbicas e públicas, acentuam a desgraça de leituras improváveis com uma gritante ausência de vergonha. Misturado com isto ainda há muito “ligth” muito Hitler, que agora a sua obra maior e única está por todos os escaparates, disparates, dispositores, editores… Na visão paradisíaca deste amontoado de «super-lixo» logo nos apercebemos das graves estruturas mentais, este anacronismo existe na lógica da usura que frouxamente interpreta riscas, meninos a brincar no dito Campo e pais mártires que tudo fazem para que não vejam onde estão: salta de lá muito improvável, como criancinhas espreitando por arames farpados e meninos bem-dispostos com tão insólitas amizades. Tudo isto à custa do terror, da mágoa calada (as grandes dores assim se manifestam) como se estivéssemos enlouquecidos, ou, pior ainda, incapazes de saber dos limites das coisas. E estamos em directo para o Mundo!

Por vezes dá que pensar onde estamos metidos. Quem é esta gente que vive a nossa contemporaneidade, os nossos concidadãos aqui tão perto, o nível de suporte mental prestativo dos ensinos, as teorias, e a grande questão disto tudo, a usura.- Que mercadores são estes que ao lado Shylock, tão poético… agiota, fino como brasas ardentes, contemplado na obra como a vítima de uma voraz sociedade que catalogando e catolizando, mais não fez que dar corpo a uma ganância grosseira, oprimente e de pacotilha?! O curso da História também se inverte produzindo a obscenidade da mais valia à custa de uma época e de um local que devia não ser mencionado em vão, quanto mais alarvemente usado para fins comerciais! O oportunismo das sociedades “felizes” que viveram ao lado de um povo que teima em desconhecer, ou se o fez, foi apenas para confiscar-lhe os bens que as teorias mais tortuosas impulsionaram para sossego das inconcebíveis barbáries.

O ouro nazi que andou de Banco em Banco por esta Europa fora produzindo tijolos em quilate, foi, por insuficiência mental de muitos nacionais dos países, tido como uma arte mágica de alguns dos seus líderes, e os pobres povos a eles oravam ainda como se fossem Midas. Era uma espécie de edição sobre Auschwitz, mas sem nada para dizer, tudo para arrecadar. Seja como for, este foi um massacre que ainda rende! O mais tenebroso é o inqualificável despudor que nos ficou de uma supremacia qualquer que ousa tratar este tema para fins comercias e não haja ninguém que repare que estamos muito perto do inenarrável.

O sombrio instante de tempo que nos é dado viver, chega-nos também por aqui, que até aqui, fôramos naturalmente silenciados por um mecanismo de respeito e dor que tal acontecimento nos trouxera. Se um povo, cinematograficamente usou e abusou de o mostrar, dar a conhecer, transfigurar, só eles o puderam ter feito com toda a legitimidade, aos outros, impõem-se-lhes reservas. Os becos sombrios de Veneza ainda têm dentro a alma de Shylock que tem guardadas as suas mágoas e rancores, que perdoar é a última coisa a ser feita perante aqueles que pior que nos quererem mal, desdenharam dos nossos poderes e da ajuda que lhes foi dada, e perante assassinos não devemos ter nenhuma vontade de o fazer. A complexidade psíquica é um atributo de Shakespeare nesta sua obra que a suporta nos tons evanescentes de uma poeticidade sem par, e seria muito mau para o usufrutuário não ter a noção da sua falta no meio de um clima de falsos espelhos.

Querem parecer maiores e melhores à custa dos excluídos e dos que foram assassinados.- Pois não o serão!- Este é também um tema de integração e de reposição da justiça, da falsa riqueza insuflada e do ardil dos canibais. É um tema de que não desejei falar, e só a sobreposição alarmante de uma realidade me permite fazê-lo. Seremos ambivalentes no tabuleiro das estratégias, mas deixaremos de o ser quando se nos depara o interdito. -Também não gostaria que se estivesse a ganhar fama e proveito com as cinza dos meus avós, dos meus filhos, dos meus amigos- Que a usura não pode ser tanta que faça de Shylock um aguadeiro ao lado destes embustes por onde passou uma religião que tudo fez para mostrar também o que não tinha.

Para Auschwitz também não irei. Mas quem quiser ser transportado poderá experimentar a “lúdica” equivalência das suas narrativas em tratados de abjecção consentida. Na vertente mais sinistra há ainda a assinalar a voz que entoa, a tendência para negação do Holocausto, o que provavelmente incita em acabá-lo de maneira mais ficcional. E com duas vertentes probabilísticas estas coisas ainda podem indicar o mote àquelas que haverão de resultar em laboriosas tentativas editoriais. Mercadores e mercadoria falhos de perspectiva, pois que em pouco tempo recuámos depressa: mas, como depressa e bem há pouco quem, acontece que as guelras deixadas há muito num mar de antanho começam a manifestar-se. Em Veneza é assim, um Dilúvio a puxa para baixo! E o ar do mundo é o que agora se vê.

Posto isto, desejo boas leituras, que afinal talvez as coisas até nem sejam tão más como as “pintaram” que pintar certas coisas é descrença, e compor outras, um amontoado de lixo para as enciclopédias do esquecimento, talvez dos livros em chamas. Estamos em contramão para o mais improvável Humano. Se dele não ficar nada, ainda assim, a esperança de que venha uma máquina insuflada de alma, e se converta num ser em novas formas. Parece que vem ainda qualquer coisa do espaço a reboque de uma queda prometida, que seja em cima das cabeças humanas e que os faça esquecer tudo, desde a subida a bípede que produziu uma continuada dor de costas. Se nada houver para vender e para transacionar, a alma também já não é passível de ser adquirida pelo Diabo, que cansado disto tudo, foi pregar para freguesias mais sedutoras da Galáxia.

Numa mensagem aos Vindouros acrescentemos que tudo não passou de ficção, e que a realidade, essa, foi como os segredos, não conseguimos contá-la.

17 Nov 2020

Mallarmé

Stéphane era um homem extremamente bonito. Olhamo-lo com respeito e inspiração, como àquelas paisagens por onde um deus abriu caminho e nele nos mostrou locais encantados que até aí desconhecíamos. A sua função pioneira é em si a sua força, o engenho do desbravar tecendo o acaso, que os dados mesmo lançados estão sujeitos a essa estranha partitura. Se ao escutar o poema ele o adensa numa floresta alfabética é porque sabia que ela desliza até à saciedade na sua extraordinária plasticidade. Vamos no seu encalce nesse efeito de ressonância e tudo é símbolo, tudo é convite, tudo é singular (que o Simbolismo nem tudo explica das cargas fonéticas desta mestria) é a sua palavra que gera o Movimento e todos os outros que hão de vir agarrados à entrada do século vinte que para sempre será eterno Modernismo.

Mallarmé media o tempo na composição do seu verso. Há nele uma roda giratória perfeita que sabe trabalhar no ínfimo infinito do que escuta e entende, e se nele nada é fácil, também nada é óbvio: que sentir pode ser maior que escutar com palavras graus finíssimos de um som galáctico? Que sistema desenvolvem certos humanos que lhes permite captar coisas tamanhas? É este Mallarmé o que mais interessa, o poeta como agente delicado de acordes inexplicáveis. Hoje ele não seria possível! Esta espécie morreu, o barulho da perturbação do mundo e do seu enredo fez que para sempre se esgotassem certas saídas de emergência. Padecemos por isto, e não por tudo aquilo que julgamos perturbar-nos.

O verso gera aqui um redentor estado de lúcida compreensão ao atalhar para a «linguagem suprema» onde todas, sem ela, são imperfeitas, e como conduzir ao entendimento sem a consciência do mantra que se desfaz em todos os recreios onde quiséramos que existisse? Aguardar! – Temos de aguardar. Sabemos que não estão lá os signos que faltam para este magistério, e que, a poeira dos ensaios incita à obscura análise e ao estéril desejo. Não deve o ser esforçar-se demasiado por aquilo que nunca será o seu caminho, que caminhar assim, é uma espécie de feliz resolução tendo à espreita todas as dores «La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres… des oiseaux sont ivres» e mais tarde, até o barco de Rimbaud. Estamos todos embriagados às portas do Inferno!

No dia 7 de Setembro nasceu Camilo Pessanha e temos dele o mais melodioso emblema nacional do Simbolismo e da música que desejou reter da corrente que assim corria a um tempo como uma suave nortada. Mallarmé morreria a 9 de Setembro, quase a findar o século. Pessoa persegui-os na marcha e todas as coisas alcançam intimidade quando estão no “verso” de um mesmo Ovo. Que o Ovo não tem re(verso) é certo, e os que dele nascem são considerados na maior parte das vezes, aves. Da própria beleza dos dois, ninguém diz, mas podemos afirmá-lo que trajavam qualquer essência habitada, toda corrigida pela tinta negra da palavra, olhá-los é já contemplar um poema em corpo num raro acaso que os próprios dados já lançados não prevêem. Equilíbrios frágeis, fazem dos seres acordes lindíssimos!

Choveu nas palavras em verso de Mallarmé! Elas lançavam-se livres e desenlaçadas no alaúde da composição, tão visual, quanto melodiosa, por que a língua encontra todos os planos quando dança! E quando deixa a dança, e ao não encontrar os seus arautos, morre, asfixia. Os exegetas judeus talvez tenham razão quando se debruçam anos infindos numa frase só e encontram frases outras, que nós lemos tudo na horizontal com as páginas em crescendo até ao fim, e grande parte não vê mais que um filamento de ideias nas letras. Querer ser entendido é a maior praga que se instalou na linguagem! Deveria ter calado isto tudo, mas não sei, não sei como calar.

Mallarmé morreu amargurado. Fora um grande anfitrião e pela sua casa passaram os que a História reservou, qualquer coisa se esgotara neste belo ser que anteviu dias antes o seu fim. Talvez estivesse cansado e com pressa de regressar ao diálogo alargado das suas competências. Para onde vão as almas destes homens que voltam de quando em vez para nos interpelarem de formas tão surpreendentes «musicienne du silence»?
Um Mallarmé talvez um pouco desconhecido este que aqui ficou.

16 Nov 2020

Apocalipse

Esperar. O dia frio, o atravessar do rio e subir a noite até onde a tarde chegar.

Recuperar. Tudo o que é frágil, cristais e longos braços, que o adeus é forte para quem já está no mar.

Silenciar. Pouco para dizer, para nascer, encrespadas as águas geram pragas, e nós não vamos nadar, vamos na viagem já sem poder andar.

Navegar. Nesse céu que é uma oblata sem a sua Via Láctea – que ela também nos banhara – assim, de um leite que predissera o mel das Abelhas, sem Terra Prometida nas nossas entranhas, humanas e velhas.

Seguir. Nos caudais pela costa rochosa, que tudo se evola, anzóis que suspensos ferem os lençóis molhados de vento.

Querer. Que as sortes se joguem e as fontes não jorrem, que se tudo em nós amanhecesse longe destes postigos, levaríamos ainda assim esses quilómetros de lamas dos locais perdidos.

Olhar. E ao redor só há muros que fazem escuro todo o respirar, reposteiros altos vendam a passagem, nada se deslinda e a vida vive ainda…

Soltar. As mãos laças, que por nós tudo passa, deixemos passar. Corre trágico o momento, das rugas da aurora cobrem-se os ventos, e de repente, um outro firmamento!

Querer. Olhar os que estão, mais os que se vão, não ter no tempo mais ida nem vinda. Mas na quimera, nessa onda prateada, quem nos segue, quem nos limita a entrada?

Caímos! O que os rins cingem e os rios seguem vai perdido e toda a natureza padece de sentido.

Partir. À tua frente marcham os tambores, parece a hora da dança, mas é na nossa esperança que na dança se dança a todo o vapor. Corrente maior! O som da chuva, o som do sol, e a subida demiurga do canto de rouxinol.
O rio é fronteira por belo que seja, e agora, são altas fogueiras que tangem, que tecem… Tejo tágico. Paredes de água são altas e esguias… guindastes vorazes. É para o alto que se vai. E saltarão os elementos de onde agora só saem sinais.

Padecer. Tamanho é o encontro, talvez encantado, que a vida no limite é sempre buscar o lenho e continuar sossegado. Se estamos altos, altos ficamos, se estamos em baixo, para o fundo nos vamos. No sopro do tempo que morre, há um Holocausto, há Fausto, (rede) morrido nesse tráfego.

Ninguém dará pela chegada, e já tarde, quando tudo tardar- o baloiço da Terra gira alto- como se fosse crescer…. a Vida, uma espuma vazia que a secura segura na trancada criatura.

No verso, na prosa, neste lençol de malvas e de tules, há ataúdes, singulares acordes de uma música esquecida plangente de olfactos, que a tempestade tem cheiro e se sente nos asfaltos.

Nós, que trabalhamos para o esquecimento e dele falamos como intento, lavaremos as mágoas.

Cobertos. Ora no rosto, ora na sombra, a Hora soma, cresce o dia mais banal que as vontades, e nesse instante guia por águas filtrado, repousa o céu de um ciclo que é findo e nunca nos foi dado. Toda a matéria escorrega na superfície do azul, e mortas sementes recorrerão ao estrume, que as novas transplantações dos órgãos desfeitos serão como peças para corpos mais perfeitos.

Enquanto a Bela dorme, gela o seu Pólo maior, coberto de silêncio como se não tivesse visto a dor.

Atravessar. Os astros que findos magos não percorrerão, nas noites azuladas, nos satélites que espreitam, que já há Luas sem descanso enquanto brilham nuas estrelas de antanho. São crepúsculos, fogos de Santelmo, a memória naufragada, que a nossa Barca ardeu, e Deus nos esqueceu.

Renascer. Da abóboda, glacial etapa como juramento aos frios. Dos Infernos, a lôbrega santidade toda de breu seguirá viagem sem saudar em nós esse irmão a quem não quis dizer adeus. Jurámos não esquecer o esquecimento votado, por isso- por causa disso- nunca seremos condenados.

Outro Céu e outra Terra, que esta se partiu, restou enfim, na escura gruta um homem só que ainda existe, sem saber quem dele fugiu. A memória vasta, as fontes intactas, caminham…! Ciber fronteira…

E apaga-se a Fogueira.

9 Nov 2020

Abandono

Respiras e pões-te a caminhar. Embalam-te ventos e novas auroras, mas na realeza da vida há um mar que galga a costa das seguranças impostas e com passos hesitantes a tua rota treme e a Terra toda arqueja… Neste Hemisfério não supomos como o abismo nos olha, e como nós, os caminhantes, andamos no vento sem sustentação, e o medo de findar é um tormento, mas só finda quem não faz de si conforme o espírito da flor levado pela leveza dos seus polens.

Rodopiamos no asfalto como se fosse a nossa dança, e se nada lá estiver a tarde cala, e a noite sossega o corpo que cansado está em súplica pela porta do desaparecimento total. Absoluto, que amiúde desejamos sem retorno. Mas quando acorda, o corpo galga de uma estrela ainda andante, ferem-se-nos os flancos e a busca dos caminhos continua, sempre mais estreita- passada a Hora de ser erguido- começa-se a girar na roda mais fechada de um medo antigo.

A vida, essa, já não nos quer viver, os muros acontecem, tornam-se esguias catedrais, e tudo se ergue e se fecha ao redor ainda mais… Gastos os sentidos, sabe quem não vê, olhar agora o esgoto derretido é tristeza que não veleja quando se deseja o Abandono que consiste em atirar para o fundo do mar todos os remos. Não queremos ser os guias, nem guiar, nem ser guiados, apenas este instante dado, para não regressar ao tempo movido mas sempre parado.

Nascemos para nos dar, o que trajamos cobre a máscara mais audaz, e toda a inspecção se faz atrás de uma viseira vazia que as lágrimas já não podem alcançar, o vírus vira a ausência que nos habita, viemos de que coisa que não se sabe? E como chegar até nós na Hora Aflita?!

E não há nenhuma antevisão, nem o tempo se reveste de memória morta, nem os dias de antanho são agora este chão. Reneguemos os ídolos, os vencedores e os vencidos, a esteira do valor que cada um a si se dá, pois não cumprimos nenhum instante doutrinário e cada urgência nos amplia a sede de abandonar a orla desta praia sem costa alguma para onde voltar.

Saltámos da Roda e o tempo se desfez, mudados os desígnios, morre quem fôramos, e futuro inominado é tudo quanto agora somos. Há um ponto fixo, porém, à nossa espera, volvido na mudança- eixo astral- e tudo o que nos veste é claro acaso, este ser que morre em mim cruxificado é fresca nortada, um deserto conseguido…salvamo-nos ou não por estranhos caminhos, pois o “lugar do morto” será agora ao vosso lado, sempre que me sento num espaço fechado.

Agora todos dias são de abandono, para deixar os dias da vigília, quem vai embarca para o que tem guardado no seu mundo novo, que sendo enfim, feito de tudo o que a massa gera, não mais arrancará sombras onde só estamos à espera… Quem nada queira, nada saiba do que ficou, pois que o Abismo nos olha e é inútil fugir-lhe. Passá-lo, como a mais bela caminhada. Deus que está em mim não oprime esta viagem. Levar a alba lembrada que nós dormimos enquanto… E se no começo tudo tardou, a nossa marcha irromperá onde o longo embuste findou.

Unidade que só lembra outrora… que estando dentro de nós, em nós foi ficando de fora. E todos os espectros nos chamaram para núpcias e encontros, um Baile de máscaras montado nos confins galácticos deste escombro, uma antevisão do Inferno, tão cheio, que sobrou para alimento da esfera do meio.

Move e é movido quem se quer sem o eixo do recente mundo antigo. Que novo é o Amor, tão novo, que ainda não nasceu, começa sem nada e apenas se dá, morre esquecido e tenta voltar. Mas ele, para aqui não voltará. Os braços que se erguem estão sujeitos a abraçar coisas impensáveis, e nessas alturas os frágeis membros se abandonam, que braços asas são, e nesse encontro passam sempre os grandes braços que se dão.

2 Nov 2020

Expulsão

– Nós – somos nós! – Trazemos essa força que isola intriga e está a mais. Ou nós, os que o são, enlouquecem os que estão? Seja como for, nada é mais intrigante e único que um ostracizado: incómodo, sem uma adjetivação que seja passível de adaptar-se-lhe, que num país de banidos, de génios, e extremados exemplos morais, cada ser reserve para si a sua caricatura para a representar na farsa colectiva.

Outrora o papel de vítima seria mais um distintivo sacrificial, quase um emblema de regeneração, e as vítimas, não raro, eram de tal ordem maníacas que se autoflagelavam, exercendo sevícias para espantar a malignidade sabe-se lá de quê, mas funcionava nelas tal noção, que em casos assim mais vale recorrer ao masoquismo duro e simples por parte de um terceiro que munido de antipatia representativa chicoteie até ao êxtase, que para aquele que gosta de sofrer (ou deseja, curiosidade mórbida) qualquer grau de intensidade parece sempre aquém do desejado, tanto, que o carrasco lhes faz a vontade e por vezes até os mata.

Assassino! – exclamam as gentes – pode não ser exactamente assim: pode ser apenas um ser usado para uma perfídia, a qual, também dali, não saiu sem prazer, sem um reviralho de apoteose final, pois assim como um ser se educa por várias e vitoriosas tentativas da vontade, outros há que se diluem na busca por formas escatológicas de prazer.

Geralmente estes atormentados da escarninha vida lusa são um amontoado de gentes febris e repulsivas, um enfileirado demencial, escarro, sangue e fezes que ardilosamente incita ao vómito e ao recriar de outras intoleráveis manifestações. O estrebuchar do verme vai-lhes à goela como o oral sexo do juiz face a lamurientos interrogatórios de petizes, e, quer a arruaça ainda venha longe já há uma enorme ejaculação verbal com sinais vermelhos para identificar o grau de viscosidade de alguma eventual patranha. Não será uma pura análise o que aqui se trata, pois que para analisar este grau de coisas será necessário uma boa dose de “trampa” misturada à literacia e à iliteracia, ovacionada nas carrancas que todos ousam destapar por aí, será mais, como dizer… um apanhado do célebre «Escárnio» que «Maldizer» é coisa de fêmea e de fêmeos (os fêmeos poetisos ).

Este calcanhar é tanto de Aquiles como de Jacob: ambos ficaram coxos pois que é uma parte da ligação que compromete o equilíbrio do corpo – população de coxos – que anda de pé. Sim! E sem a tão popular dor de costas não repararíamos nos atrasados graus de evolução… ainda lhes custa andar de pé, e o melhor, sempre, é que este vasto rebanho se sinta desconfortável e ameaçado frente ao bípede, que nos seus cóccix , consegue o erecto ainda ver vestígios de uma antiga cauda. Nada tem a ver com posições ideológicos que há muito foi perdendo dimensão, estamos numa outra margem onde se dá uma súmula de ataques infecciosos.

Não teremos certamente razões para grandes delírios circunstanciais depois que a pandemia chegou, mas a ovação dada a uns e a outros tem afectado os mais incrédulos que bizarramente parecem também vítimas de incapacidade crónica. O vaivém de dissabores aliado a uma hipnótica apologia de regime não traduz a inquietação de uma atmosfera bisonha onde todos com mais ou menos talento tentam blindar alguém, desclassificá-lo, numa orfandade argumentativa que só a jactância lhes admite. Há um policiamento cromático neste estranho reino que se polícia a propósito de tudo e de nada, e um cansaço demagógico que raia a demência pública. Melhores dias virão, ou a expulsão?(…) Haja o que houver temos de não sentir o que estes esboroares da razão nos impõem com supremacia estroina adiantada pela incorreção e por solilóquios que sempre nos parecem de extremo mau gosto. Mas o gosto de gostar não será retirado jamais àqueles que gostando, muito mais que desgostando, se vão desta cada vez mais bizarra situação se libertando.

Esperemos que não se autoexcluam, estes viveiros de gentes bizarras, da sua própria e ténue condição humana que é dada por elementos ainda mais frouxos que as suas próprias pretensões.

….e Deus expulsou-o do jardim do Éden………… depois, colocou a oriente
querubins com espadas flamejantes, guardando assim a árvore da vida

Génesis 3-23.

14 Out 2020

Encontro Magik

Uma história extraordinária que começou em 1929 e deu origem a artigos vários e a uma atmosfera de espionagem numa Lisboa já “amansada” pelo novíssimo Estado Novo. O início dela está num poeta que manda requisitar dois livros ingleses e promete fazer o horóscopo do autor por lhe parecer estar errado, este interesse serve certamente de isco a tudo o que irá unir dois homens em novelísticas manobras, ou por tédio a uma Lisboa onde nada mais se passava, ou por o outro ser espião inglês, ou, quem sabe, por puro passional, pois que o poeta caiu de amores pela sua mulher , tanto, e de tal forma, que até escreveu o seu único poema erótico. O que é certo é que aquele mês de Setembro de encontros e desencontros, culminando na Boca do Inferno com uma rocambolesca carta de despedida iria levantar celeuma público nos dois países. E claro está, falamos então de Aleister Crowley e Fernando Pessoa!

O repto que Pessoa lança com a averiguação da carta do céu não será apenas uma mera curiosidade pessoal, mas, quem sabe, uma aproximação à edição inglesa, e desde o início desse ano passam então a trocar correspondência com projetos de idas e vindas o que deixa Pessoa um pouco aterrado e que tudo faz para averiguar o tempo mais propício para tal encontro, por outro lado ele era avesso a compromissos, o outro, mundano e desgarrado, não deve ter entendido tanta objeção – e eis que veio e Pessoa foi esperá-lo ao cruzeiro onde tinha ficado ainda, algures, parado, por causa do mau tempo, e o nosso poeta é logo interpelado de forma surpreendente: «olhe lá, porque mandou o nevoeiro lá para cima?» Verdade ou não, é que parece que o encontro foi simpático e para aqueles tão interessados na sexualidade de Pessoa, este encontro, mais não seja, deita por terra muitas teorias acerca dela, diz assim o poema inspirado na tão almejada Dama Escarlate: « Dá a surpresa de ser/ é alta, de um louro escuro/ faz bem só pensar ver/ seu corpo meio maduro/ Seus seios altos parecem (se ela estivesse deitada)/ dois montinhos que amanhecem/ sem ter que haver madrugada/ …apetece como um barco/ tem qualquer coisa de gomo/ ó fome, quando é que eu embarco? Ó fome quando é que eu como?» Só por isto já tinha valido a pena. Alguns ainda dirão: que não, que não…..! Problema deles.

E vamos então viajar com os nossos Magos, um Negro, outro Branco, mas certamente muito competentes para virar a cabeça aos Cinzentos, e sempre lembrando o grande interesse do nosso poeta por literatura policial, aliás, os únicos romances que gostava, só que estes efeitos passavam agora por um protagonista real que se achava a reencarnação de um chinês nascido há três mil anos de seu nome Tu Li Yu, e que nesta reencarnação era apelidado de Besta- isto por causa da mãe que sendo irrascível dizia então que ele era uma besta- como lia muito a Bíblia pensou que fosse a do Apocalipse. Pessoa estava muitos graus de iniciação acima, e a sua mais alta demanda se bem que não o separasse do seu congénere, tinha trilhos mais apertados. É certo que sempre deixou o outro suspenso com a leitura da dita carta que nunca chegou a fazer, mas creio que o ajudou a virar costas a algumas contas que deixou atrás de si, que por pressa de se suicidar, ou porque teve de se “raspar” abruptamente para Berlim, ou fatal homicídio, o pusera a dar entrevistas e depoimentos nos jornais e na polícia.

Suponhamos que ambos se divertiram com o estranho caso em que se falou até de assassinato devido ao universo inglês altamente criminalista, mas o certo é que a Dama Escarlate embarca antes de Crowley com uma mais enigmática cigarreira pertencente a Pessoa (no interrogatório é assim que é descrita) e sabe-se lá o que eles andaram a fazer no insólito mundo que os catapultou para aqui?! Acho que ainda se escreveram para além da “morte” agora com o Mago Negro submetido às vantagens de Pessoa, que lhe traduziu o «Hino a Pã» mais as notícias que saíam no Jornal de Notícias e na revista Girassol. Afinal, o Bem vence sempre se quisermos tirar elucubrações do caso. E já de bem com a sua talvez inusitada e brilhante jogada, o poeta encerra a comunicação e assim se separam para sempre.

Tinha passado o tempo. As vantagens esgotaram-se e creio que o outro se lamentava amargamente com derrocadas financeiras o que para o nosso poeta seria assunto que ele não conseguiria jamais responder – amargurava-se agora ele mesmo de estar com posições tensas no seu próprio horóscopo para se ocupar de outros.-

O Hino a Pã, magistral poema deste fauno, foi enviado para a revista Presença, mas creio que nem isso lhe chegou. As mãos do Mago ficariam vazias de promessas feitas pelo nosso que já muito se tinha esforçado para uma história bem guardada nos Infernos e nos Céus. Era gente singular! Em Lisboa se não olharmos para o bom tempo podemos bem morrer de tédio e os portugueses também não incitam ao despacho do inesperado, e esta Inglaterra de espíritos do outro mundo sempre esteve muito presente na pessoa de Pessoa, que nunca tirando a máscara, se revelou infalível em matéria criminal.

«…..Assim sei que sou quem sou, e terei que o ser separadamente.
A alta lição do escárnio alheio alberga astros em seu futuro».

A propósito desta jornada.

29 Set 2020

Expulsão

– Nós – somos nós! – Trazemos essa força que isola intriga e está a mais. Ou nós, os que o são, enlouquecem os que estão? Seja como for, nada é mais intrigante e único que um ostracizado: incómodo, sem uma adjetivação que seja passível de adaptar-se-lhe, que num país de banidos, de génios, e extremados exemplos morais, cada ser reserve para si a sua caricatura para a representar na farsa colectiva.

Outrora o papel de vítima seria mais um distintivo sacrificial, quase um emblema de regeneração, e as vítimas, não raro, eram de tal ordem maníacas que se autoflagelavam, exercendo sevícias para espantar a malignidade sabe-se lá de quê, mas funcionava nelas tal noção, que em casos assim mais vale recorrer ao masoquismo duro e simples por parte de um terceiro que munido de antipatia representativa chicoteie até ao êxtase, que para aquele que gosta de sofrer (ou deseja, curiosidade mórbida) qualquer grau de intensidade parece sempre aquém do desejado, tanto, que o carrasco lhes faz a vontade e por vezes até os mata.

Assassino! – exclamam as gentes – pode não ser exactamente assim: pode ser apenas um ser usado para uma perfídia, a qual, também dali, não saiu sem prazer, sem um reviralho de apoteose final, pois assim como um ser se educa por várias e vitoriosas tentativas da vontade, outros há que se diluem na busca por formas escatológicas de prazer.

Geralmente estes atormentados da escarninha vida lusa são um amontoado de gentes febris e repulsivas, um enfileirado demencial, escarro, sangue e fezes que ardilosamente incita ao vómito e ao recriar de outras intoleráveis manifestações. O estrebuchar do verme vai-lhes à goela como o oral sexo do juiz face a lamurientos interrogatórios de petizes, e, quer a arruaça ainda venha longe já há uma enorme ejaculação verbal com sinais vermelhos para identificar o grau de viscosidade de alguma eventual patranha. Não será uma pura análise o que aqui se trata, pois que para analisar este grau de coisas será necessário uma boa dose de “trampa” misturada à literacia e à iliteracia, ovacionada nas carrancas que todos ousam destapar por aí, será mais, como dizer… um apanhado do célebre «Escárnio» que «Maldizer» é coisa de fêmea e de fêmeos (os fêmeos poetisos ).

Este calcanhar é tanto de Aquiles como de Jacob: ambos ficaram coxos pois que é uma parte da ligação que compromete o equilíbrio do corpo – população de coxos – que anda de pé. Sim! E sem a tão popular dor de costas não repararíamos nos atrasados graus de evolução… ainda lhes custa andar de pé, e o melhor, sempre, é que este vasto rebanho se sinta desconfortável e ameaçado frente ao bípede, que nos seus cóccix , consegue o erecto ainda ver vestígios de uma antiga cauda. Nada tem a ver com posições ideológicos que há muito foi perdendo dimensão, estamos numa outra margem onde se dá uma súmula de ataques infecciosos.

Não teremos certamente razões para grandes delírios circunstanciais depois que a pandemia chegou, mas a ovação dada a uns e a outros tem afectado os mais incrédulos que bizarramente parecem também vítimas de incapacidade crónica. O vaivém de dissabores aliado a uma hipnótica apologia de regime não traduz a inquietação de uma atmosfera bisonha onde todos com mais ou menos talento tentam blindar alguém, desclassificá-lo, numa orfandade argumentativa que só a jactância lhes admite. Há um policiamento cromático neste estranho reino que se polícia a propósito de tudo e de nada, e um cansaço demagógico que raia a demência pública. Melhores dias virão, ou a expulsão?(…) Haja o que houver temos de não sentir o que estes esboroares da razão nos impõem com supremacia estroina adiantada pela incorreção e por solilóquios que sempre nos parecem de extremo mau gosto. Mas o gosto de gostar não será retirado jamais àqueles que gostando, muito mais que desgostando, se vão desta cada vez mais bizarra situação se libertando.

Esperemos que não se autoexcluam, estes viveiros de gentes bizarras, da sua própria e ténue condição humana que é dada por elementos ainda mais frouxos que as suas próprias pretensões.

….e Deus expulsou-o do jardim do Éden………… depois, colocou a oriente
querubins com espadas flamejantes, guardando assim a árvore da vida

Génesis 3-23.

20 Set 2020

Carta a um refém

No ano de todas as clausuras é normal que nos recordemos de certas leituras que o tempo foi deixando para trás e que são quase sempre aqueles pequenos grandes livros que não raro ocupam a obra invencível de um autor. Dividido em momentos, confidencialmente narrativo, esta Carta para todos, tem um remetente único, Saint- Exupéry. Nós que passamos a vida a receber missivas, lixo de todo o lado, imagens, exasperações, teorias, sentimos uma pena profunda de não podermos nunca mais receber cartas, e mais pena nos invade quando sabemos que nunca iremos receber uma como esta. E estas coisas quase esquecidas que emergem servem sobretudo para nos advertirem do essencial e mudar o conceito do que é o não imprescindível. Tal como os comportamentos perante o limite das coisas e o cada um representa diante dos perigos comuns.

1940 e Exupéry chega a Lisboa em trânsito para os Estados Unidos, fica um tempo, tempo para ainda ver a Exposição do Mundo Português. Não tem lugar na cidade e vai hospedar-se no Estoril, e vamos em busca do que sentiu e presenciou: “… Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste…”

Sim, Lisboa no seu discurso era a imagem da negação de tudo o que se passava na Europa onde achava as cidades bombardeadas e a noite sem luz de uma beleza mais real que esta, e de acordo com a maré negra do instante político onde não faltava a coragem dos que davam as mãos e lutavam nas trevas das cidades desfeitas, Lisboa, pareceu-lhe assim um artifício, um postal que branqueava de uma alegria vazia este momento em que todos tinham de tomar posições, parecia-lhe uma forma alienada de perfeccionista (a descrição da Exposição: não temos nada, haja o passado, e enganar e entreter o instante) e remeti-a então para aquelas famílias excêntricas que guardam à mesa o lugar do morto em casas sem remissão onde as dores são mais prolongadas que o desgosto. Os refugiados, esses, eram aqui os que se expatriavam virando costas aos seus e pondo em segurança aparente os bens de que usufruíam, mudos à sorte das coisas e mudanças do momento. É com profunda lucidez que tece um discurso curto e que vai dar aos longos caminhos de um grave adormecimento colectivo.

A Europa sofria, o Estoril para onde se dirigia para dormir, estava cheio de “cadillacs” vestidos para o jantar, jogos, numa tentativa de fazer parar o tempo ou mesmo não o estar a sentir, e creio que aqui nos dá a tónica do seu discurso formidável daquilo que pode realmente ser uma estranha desgraça no contexto destas circunstâncias; enjoado provavelmente desta bizarra atitude, passeava-se à beira mar onde por desprazer já tomado achava também as ondas moles. Este aprendizado pelo olhar de um homem absolutamente poético e sem cargas de viciação, devia ter-nos merecido alguma sincera atenção de grupo, mas creio que não foi nem lida, mencionada, muito menos proposta. Estamos à distância de quase um século, é certo, mas, a visão de um bem-estar forçado não é compatível com a infelicidade que hoje se lhe vê, nem se lhe reserva um escudo protector que mitigue um continente inteiro que pesa outra vez sobre o país: «achava Lisboa, sob o seu sorriso, mais triste que as minhas cidades apagadas».

Depois deste preambular pelo país, Exupéry parte para o Sahara, ele que era um homem do deserto pois que o amava, e este seu amor pelas areias reporta-o ele para domínios essenciais que estão paradoxalmente, e aí sim, cheios de vida, e porque tem as estrelas e as tribos calmas pelas noites, vai convocar amorosamente o amigo numa comunhão telepática. – Tem cinquenta anos. Está doente. E é judeu.- Tudo isto ao invés de nos entristecer enche-nos de uma súbita alegria, uma comunhão tamanha…« só então, deambulando ao longo do império da sua amizade… Pois o deserto não está onde cremos. O Sahara tem mais vida que uma capital e a cidade mais efervescente esvazia-se, se os pólos essenciais da vida forem desmagnetizados».

Percorre talvez o limite da sua resistência sempre de olhos postos naqueles que lhe são queridos, percorre as estradas dos Magos, e a rede de apoio que disponibiliza é a sua vida atenta e as missões aéreas que desempenha, descreve-nos episódios da guerra civil de Espanha e a emboscada anarquista numa deliciosa visão daquilo que constitui o equívoco das inimizades dos homens, e no seu cárcere, vê então que o milagre e a salvação são afinal gestos tão simples como pedir um cigarro, e em todas as paragens que a sua valentia não menos grandiosa que a sua ternura se apresentaram, manteve-se de pé como um ilustre soldado.

Ninguém aqui deve estar por isso confinado a si mesmo ou a laboral maquinalmente para uma vida extemporânea, e nos momentos excepcionais teremos ainda de responder à altura dos acontecimentos e não ter medo do que possa advir de imprevisto. Não consentir que nos “queiram bem” subtraindo a vida a um estar. Creio que neste caso é evidente que devemos ser comprometidos e que nada é mais desolador que manter modelos alienados no tempo em que soam as Trombetas. Aprendemos assim que o Fado é bonito, sim, mas amaldiçoado. E foi preciso o improvável para sabê-lo explicá-lo tão bem. «Não há termo de comparação entre o combate livre e o esmagamento na noite. Não há termo de comparação entre o ofício de soldado e o ofício de refém».

15 Set 2020

As canções de Bilitis

Verões que nos dão tanto azul levam-nos sempre para o mítico espaço do Mediterrâneo, que este Mar é sempre Antigo, sempre povoado de corpos e lendas que a saudade recria e inventa, e é nestas margens que nos vamos demorar no alto Estio que agora começa a amadurecer: Pierre Louys um nome grande da literatura francesa do final do século XIX é autor da obra assim titulada que diz ter traduzido do grego Antigo quando da sua publicação em 1894 – diz- ter encontrado no túmulo da poeta Bilitis os seus poemas o que para os helenistas da época provocou um enorme impacto e a Pierre um prodigioso sucesso, contemporânea de Safo cuja poesia o nosso autor escandiu com elevada mestria, mas também – diz- terem sido encontrados nas paredes de uma sepultura no Chipre e tanto disse da estranha aparição de tais poemas, circunstâncias e lugares, que o desdisse perto da morte que ocorreu em 1925 afirmando no último sopro que tudo era afinal dele, e só dele, o grande estudioso da antiguidade grega embrenhado em vestir a pele das mais inspiradoras gregas.

«E Bilitis nunca existiu»! A mistificação que o norteou está plena de um gozo indizível mas que fornece o tamanho de um registo poético absolutamente delicioso, talvez fosse ele a antecâmara da sua personagem numa inusual forma que fez todos acreditarem na versão criada sem um pestanejar de olhos até às mais altas instâncias das Academias, que também é certo, que toda o trabalho feito em prol do imaginário helénico e da sua paixão por Safo lhe tivessem dado amplos poderes de heteronimizar a personagem sonhada. Nada que um poeta não faça na posse completa das suas faculdades, antecipando o sistema criticista dos estudiosos, que lendo, pouco entendem, e não lendo, na mesma ficam. Mas é lendo-o que conseguimos aplanar alguns encontros com os artefactos, dado que estamos aqui num mundo feminino, de Gineceu, de imensos dotes germinais e poder de evocação, Pessoa fez isso muito bem em várias ocasiões, mas há «O Último Sortilégio» onde vamos encontrar sem esforço esta Bilitis. Se ainda acharmos que este tamanho das coisas nos confunde, talvez, e em vez de orientar o esforço para o um certo lesbicismo autoral, tenhamos então que perguntar pela qualidade do amor dos homens e não para uma opção orientada por estranhas resoluções fisiológicas: e foi nesse reino de homens ébrios e ausentes nas guerras, demasiado afastados da exigência das musas, que cresce e se dá uma civilizada e amorosa forma de cantar o amor, de viver a vida, de sentir facetas complexas que é apanágio dos melhores.

Mas muitos destes versos embora fruto de um trabalho individual também foram reelaborados a partir da Antologia Palatina e seus epigramas – esta poesia era na época antiga basicamente epigramática- e nem todos foram escritos na mesma época e da mesma maneira, usando até o soneto, mas o conjunto é de uma grande harmonia interna e nunca deslocado da personagem que o inspira. A versão portuguesa chegaria em 1927 apresentando Bilitis como uma personagem real na tradução, e digamos, que para tal obra foi bastante bom o tempo que até nós levou a chegar. Pierre Louys levantou polémica, e o seu nome foi por um lado associado a um equívoco que envergonhara alguns, por outro lado proliferaram a partir dele traduções de textos da Antiguidade que os grandes autores começaram a compor . As duas partes de uma moeda. Creio no entanto terem sido ambas muito válidas na medida em que o imaginário está intacto e a extrema sedução desta poesia é o mais perto que temos do Mar dos deuses, das ninfas e dos sonhos. Todos gostaríamos de ter estado mergulhados nestas paragens como em vasto universo paralelo não dando conta do que é necessário para ser “real” realíssimo é este instante de aves soltas, jovens, belos, pastores, rebanhos e ilhas encantadas, trazemos a lembrança grega nos calcanhares e Aquiles por estas paragens é ainda o mais desejado. Uma infiltração poética que o deixa à beira do seu estado mais puro, o que para factual, tanto faz.

Descrever isto sem recurso aos aspectos apreendidos requer sortilégios perto do homem que percorreu as várias fragmentações do ser, e que por isso mesmo considerámos completo, perfeito e inultrapassável. Pessoa.

Foi um homem singular, Pierre Louys, o que ele não amava não existiu, foi um grande trabalhador da escrita, nada que fosse exterior ao seu interesse o deixaria interessado mesmo trazendo-lhe vantagens, foi rico, pobre, amante, boémio, amigo e inventivo na relação amorosa, é possível que tivesse sido alguém muito livre e desleixado com o seu próprio fim, mas intensamente forte e terno para nos deixar este seu testemunho e salvaguardar a lenda feminina do martírio de existir. Neste mundo belo as mulheres são tão veneradas e livres como os próprios sonhos, os homens servem as suas causas, que pela intuição finíssima do autor, se assim não for, passam também eles a não existir. Também há homens que as fazem sonhar. De uma grande tensão erótica é ainda ele mesmo que afirma que o desejo não é “natural” mas uma criação poética e humana. Não somos capazes hoje mesmo de entender, como pode ser bela, também, a voz de um homem.
Debussy musicou ainda «Trois Chansons de Bilitis».

Uma mulher se envolve em lã branca. Outra se veste de seda e ouro.
Outra se cobre de flores, folhas verdes e uvas
Quanto a mim, não saberia viver senão nua. Meu amante,
Toma-me como eu sou: sem vestes, nem jóias, nem sandálias
eis Bilitis sozinha.

10 Set 2020

As Aves Brancas

Um cisne morreu com síndrome de coração partido quando um grupo de homens lhe destroçou os ovos. O cisne macho, horrorizado, fugiu, e estes monogâmicos seres não resistem à separação nem à morte dos filhos – morreu de dor – o que acontece às espécies mais raras, elas, que são quase inefáveis, gráceis, e delicadas como as brisas. Situações que não revertem a favor de nada, de ninguém, e esta inutilidade deve ser aquilo a que apelidamos de mal, a disfuncionalidade lúdica, a desregulação dos movimentos que longe anda de uma natural condição (dado que um predador não pode ser interpretado assim, ele tem assento na matéria das combustões onde a gratuitidade não toca, e a marcha continua, cruel, sim, mas não maléfica) e certo é que por práticas tais muitas criaturas na Terra se encontram ameaçadoramente inutilizadas e sem perdão.

As cadeias dos malefícios estão muito concentradas nas esferas humanas que por gerações reconstituem as mesmas incapacidades e nem lhes notam a tragédia subjacente iludidos com a evolução e o consentimento a que se dão, vemos assim que houve na espécie qualquer coisa que correu mal. Nada nasce assim! Para tal terá sido necessário uma interrupção qualquer de um processo já esquecido e que por isso mesmo a ele já não tem direito.

E estas Aves Brancas (que também há cisnes negros) levam-nos de imediato ao poema de Yeats, a essa página tão clara como estas manhãs de Verão. É um poema tangível do outro lado do Vitral e tão sonhado se torna que deslizamos por ele como sustidos pelas asas, compreendendo bem que é esta leveza o que há de mais importante no gasoso tempo de uma vida que se escoa ainda por outras paragens. Sabemos que o poeta era uma espécie de mago celta, um habitante do silêncio desse povo das vestes brancas, corria nos mistérios e trazia os seus encantos em grandes taças de vento… Que nós, olhamo-lo nas suas Aves Brancas e nunca mais esquecemos! Ele era assim, mas o género poético, difere também do génio poético, e existe ainda aquele da máscara de ferro na pele de um caçador, onde as noites escuras se tornam um não menos importante sacramento. Têm a alma de um mamute e nas mãos as lanças alternam na busca entre o invisível e a vigília máxima, e quanto mais escondido na sombra multiforme da corrente da vida, mais viva se torna a mensagem e a sua incrível superação quase inumana. Só um caçador tem o dom da imobilidade, e uma vida por vezes até chega para lembrar aos esquecidos, das rotas essenciais, pois tudo aquilo de que os poetas falam é sempre do essencial, escapa-lhes a vacuidade, a maldição e o azar do mundo – (sobretudo para os outros) – que o hão-de encontrar tão distante, tão único, que será matéria aziaga uma qualquer vigília para o capturar.

Neste espaço branco vamos encontrá-lo, mas sabíamo-lo curioso dos limites das coisas – que as viveu- como alguém que se quer vivo em todas as direcções: choraria os ovos da ave branca sem receio algum de ficar turvado por lágrimas quentes e com o coração destroçado nessa alma que sempre dançou…e essas pequenas manifestações que nos fazem grandes são todo o contrário do rombo extravagante que provoca a desgraça: milagres, são ainda instantes transversais, tão simples, tão frescos, tão improváveis na manifestação que ficamos maravilhados… e há que os ter, sim, para ir até às suas Aves Brancas. Os bárbaros existem como grandes golfadas de terror, embora, e muitas vezes, não sintam nada de nefasto em muitos dos seus actos o que os torna grotescos e poderosos, e a legislação, essa, nunca chega a tempo de corrigir uma ausência qualquer que eles possuem perante a ordem das coisas, não se podendo condenar quando o próprio condenado não sabe da razão profunda de coisa nenhuma. Digamos em sentido figurado que a nível de uma noção mais alargada de humanidade grande parte dela anda literalmente a “pisar ovos”. Que seja os das cobras. E nós…

…. em breve, longe do lírio e da rosa, longe das tormentosas chamas viveríamos,
se aves brancas fôssemos, amada minha, aves brancas flutuando na espuma do mar! – Yeats

5 Ago 2020

O anjo do desespero

Na sombra das minhas asas mora o terror, a minha esperança é o último sopro
O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo

 

Heine Muller é filho da R.D.A o que o torna no contexto sócio literário e dramaturgo alguém de muito especial pela sua configuração histórica e pelo elemento utópico, ao contrário de agora, não se pretendia nenhuma unificação que tendesse para uma amálgama entre partes, e esta natureza que começa por ser alinhada ao seu processo de transformação em curso, também se torna, no seu caso específico, o princípio de uma dilaceração.

Discípulo de Brecht, anotamos contudo uma maior densidade lírica, talvez, que o aguilhão da nacionalidade a que pertence torna lindissimamente amarga. Efectivamente, ele foi do Partido Socialista Unificado Alemão, dirigente de grupos teatrais cujo prestígio lhe causaria dissabores, e estas travessias são matéria de aprumo para a compreensão de toda a sua obra e a relevância dela, no lado das vanguardas e na linha do intertexto passará a “persona non grata” banido da Sociedade de Escritores, saltando assim para lá do Muro onde o seu prestígio se instala, posteriormente, será por fim bem aceite na sua sociedade de origem. Os seus textos teatrais influíram ainda toda uma geração de actores até aos dias de hoje e só tarde se adentra então no texto poético, que poética é toda esta obra, com a estranha lucidez que tal epíteto carrega.

Um Velo de Ouro negro se faz sempre sentir mergulhado numa soberba consciência das sociedades nos diversos tempos históricos, e neste caso, pelo fumo das fábricas das actividades em marcha, pelas guerras no centro do seu berço, das metralhas e do conflito de uma Europa laboral e bélica, e é na presença de realidades de transformações profundas que a sua linguagem ganha a belíssima Asa negra de uma hélice que gira sem parar. O prodigioso mundo dos “Fantasmas de Muller” muito focado no seu comprometimento, é também a do homem que fala com os mortos, e creio que só se tornará um autor mais intimista depois do suicídio da sua mulher, e aí se demora na tragédia, o que não é uma singularidade nos autores alemães “eu era Hamlet, estava à beira mar….atrás de mim as ruínas da Europa” o pós-modernismo habitando tempos vários, que a tragédia afigurava-se-lhe de grande vitalidade, oposta ao ciclo burguês de uma identidade reprimida e deprimida nas estratégias da sua consolidação de classe: ” o que há de mais estranho na nossa realidade é a beleza. Isto é a maior das provocações.”

E é esta Asa de Anjo que sempre desce para reconhecimento das nossas existências e que vem de muito distante dirigida a um não menos distante futuro em forma de corvo negro, que nele tanto nos fascina! Anjo que fala com os mortos “eu sou a faca com que o morto abre o caixão” e eis que subitamente em forma de teatro nos aparece o da Trombeta em pleno Juízo Final. E ele que alude a uma qualquer ressurreição, é na funda impressão que lhe dá, ainda o veículo de uma catástrofe porque obriga a despertar aquilo que estava parado, perdido, ele volta a reunir os ossos – aqueles que em páginas outras andavam dispersos- erguendo em colunas de assombro um projecto Vivo.

É muito revelador como os povos interpretam as presenças fictícias nas suas circunstâncias escritas e lembro «Uma frescura de Asas» de António Quadros e esta categorização de Muller, na mesma figura, a redefinição do sistema onírico dos povos é de facto matéria distante entre eles, e talvez por isso não sejam compatíveis ou não se entendam em muitos outros assuntos: redesenhados no imaginário das suas heranças históricas, podem abordar um mesmo tema de ângulos muito diferentes, no entanto, este admoestamento da imagem do Anjo é-me muito cara na visão de Muller, na mesma linha de correspondência que fez Rilke afirmar “todo o Anjo é terrível…”. Todo o futuro terá paradoxalmente um coração antigo que o transporta com a dinâmica veloz das revelações, e indo buscar as asas, trouxe-as com o desespero do mensageiro que não cabe já num tempo de mensagens vazias. Este é o testemunho de uma narração no limite da consciência, e tal como os vencedores não produzem cultura, também os trágicos não se abeiram das coisas que não os façam irredutíveis. Uma coisa não pode estar em vez da outra, pois que cada palavra aqui age para produzir o dinamismo necessário para sair do vazio que se instala na comédia humana. E acrescenta então o que gostaria de ter escrito mesmo cegando:

Eu sou o anjo do desespero. Com minhas mãos distribuo o êxtase……
A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito.
Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro.
Eu sou aquele que há-de ser.
O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.

E ainda nas « Asas do Desejo», Berlim é um local agreste.

29 Jul 2020

A perfeita harmonia

Cansados desta adrenalina viral que tanto desfalece como se põe a gritar bem alto aos nossos ouvidos, quase nos esquecemos que Maio é uma zona de entendimento farto e fértil, levantámos a cabeça e lá estava ele, o tempo das açucenas, dos frutos e das flores, das coitas de amor, das bailias e do chão a cheirar a vida como um útero perfumado. Tudo aqui apetece! – Apetece a dança, apetece a vida, apetece ter-te, apetece ver-te, e apetece olhar a longa virtude da modificação que fez tudo tão bonito.- As cerejeiras em flor – as flores da cerejeira – antes do fruto cair como botão em nossas bocas tão ávidas, tão rubras, tão felizes por saberem da redondeza dos frutos nascidos. Mesmo na Lua-Nova, Maio fica de noite clara e cheiros brancos como linho lavado, fica uma zona de voluptuoso enlace que não esquecemos , e brindamos nele uma alegria sempre tão renovada! Contemplamos os livros antigos e lá estão as marcas de amores eternos como os «Poemas Celtas» que dá título a este artigo. Repleto de seiva da antiga tradição, nós estamos muitas vezes em contacto com Deus e agradecemos cada instante, saem então de nós as lianas da prisão imposta, dos sacrifícios, dos abandonos, e tudo fica preenchido ao ponto de se saber que todo o mal se esquece perante os momentos em que o belo se impõe. O mês emblemático do bravo povo não o é menos nos mais pacíficos, e a unanimidade que gera encaminha-nos para uma zona de epifania que nunca nos deve deixar indiferentes.

Mergulhados numa embriaguez de sons, odores e cores, nós, os que envelhecemos, saboreamos ainda os Cânticos de Salomão, esse Maio, trajando uma noiva eterna chamada Jerusalém, mas é muito mais que esta mulher, ela é a jovem enamorada, a virgem que cria o espaço enaltecido para todos os ardores, e quando em êxtase nos aproximamos desta tempestade tudo em nós se cura e fica em suspensão . Uma ressurreição celular! Os celtas não são nem menos verdes, nem menos poéticos no seu louvor, e a recolha dos seus versos – celto medievais- dão conta dos mesmos ritos enaltecedores que povoam as suas graças até à saga do rei Artur « reverdecer e florir em obras amáveis»: estes povos do frio detestavam o Inverno, e dele pareciam sair com o condão de uma profecia sempre mais verde, e na voz de um poema oral que é de um refinamento que contrasta com as suas armaduras «….depois te levantas da calma das ondas, como jovem príncipe coroado de rosas» pouco alongavam a vista no oceano, Maio é bem mais um instante da terra, não precisa de distância, o paraíso está ao redor de cada um num espaço nunca expansionista, mas abundantemente vivo, em nichos, recantos, coisas que a mão pode percorrer. E é este lado da manifestação simples e boa que nele nos encanta, pois que nem sempre o que é bom, louvado e gratificante, fica na linha do horizonte das coisas a contar, elas, nascem por vezes sob os nossos pés que hoje perderam um pouco da rota dos outroras campos em flor.

A Europa é ainda o vaso das Primaveras, do mito de Maio que inunda toda a bacia do Mediterrânio, o Touro que a rapta está normalmente coroado de flores, não é um Boi agreste, mas um farto ídolo carnal que seduz mulheres e deusas, é um sopro de volúpia ambiental que as transporta nuas em seu dorso e não o raptor indómito que puxa as vítimas pelos cabelos, parecem serenas e protegidas pelas fartas carnes e pelo aroma que lhes vem das hastes deixando claro que o sossego da vítima pode ser um prazer acrescido onde entra ainda a confiança: «melodiosa mais do que harpa, áurea mais do que ouro…» Safo. Os mesmos ramos de giesta estão presentes, e a romana deusa Flora já era enaltecida mais acima entre os celtas, Maia era a flor amarela dos campos perfumados que unia um continente em litanias e festivos cortejos de amor. Ainda hoje existe na Europa uma festa com função falocrática conhecida como o Mastro de Maio, depois de erguido, a dança com fitas multicores e logo os rapazes cobriam de flores as janelas das amadas que desejavam cortejar. Maio nunca nos fala da bênção do amor maduro, é uma festa de jovens enamorados, as Maias que em território português eram jovens raparigas vestidas de branco enfeitadas com grinaldas de flores amarelas, as raparigas que faziam o Maio- Moço e o levavam pelas ruas a cantar… este amor tão novo como tudo em volta é que faz o seu deleite. É o tempo do corpo em flor, fecundo e forte que aqui festejamos, aquela época em que tudo faz sentido, é natural, penetra e cria: nada de estéril se encontra em seu redor e o cortejo da natureza abençoa os amantes. Parece eterno, mas quando o encontramos na roda do tempo, vemos que passou, dele nos vestimos então mais um pouco em louvor à vida, àquela que nos parecia tão forte, tão robusta, tão intensa e única, e com Maio fazemos então as pazes com esse corpo já cansado pelas rotinas, e enquanto ele dura pensamos como foi maravilhoso ter sido algures neste exacto tempo, tão amado.

Um jovem garboso de muitos encantos/ Senhor generoso e amigo leal é o mês de Maio
a erva do vale luzindo…. as noites são leves e os dias não pesam
e é esplendoroso o voo do falcão e o melro negro do mês de Maio.
Poema galês ( século XIV)
Para o país das cerejeiras em flor!

17 Jul 2020

Seis propostas para o próximo milénio

Estávamos em 1984 quando Italo Calvino reuniu um conjunto de textos ensaísticos para um ciclo de conferências na Universidade de Harvard. Seis lições, um conjunto a que procurou ser coeso, metódico e analítico face ao futuro da literatura e do livro, da criação literária, dos seus propósitos e formas, bem como ao subtil articular destas componentes. Disserta sobre o objecto-livro, das línguas ao longo do século vinte e das suas vertentes imaginativas que deram origem a formas cognitivas fazendo da linguagem uma pura plasticidade criativa. Se para tanto pensarmos que o século vinte foi o da propagação do livro, e que para trás a faixa reduzida da sua utilização foi uma constante, e que no postulado da tecnologia ele se recolhe cada vez mais, digamos que a sua existência como grande expressão tem neste século o máximo significado. Nas línguas Ocidentais, ele não só é soberano, como vai dar origem a infindáveis formas de leitura como elemento puro de práticas combinatórias.

Leveza, Rapidez, Exactidão, Visibilidade, Multiplicidade, na verdade cinco, estando na dissertação a sexta, que é do autor a sua própria voz, talvez o Peso, em contraste com a primeira com que abre a sessão. Ao agrupar estes fundamentos ele dá corpo a uma constância onde nada deve por isso ficar de fora, e joga-as na fluidez que requer certamente o exercício de uma vida inteira. Nem sempre estas prerrogativas vistas do lado de quem não se associa à vertente imaginária e treino constante saem em simultâneo, ou saindo uma, pode não ter o suporte da outra, daí a linguagem ser de facto o mais agreste elemento face ao entendimento quando as suas componentes não se encontram devidamente filtradas, sobretudo, quando se trata de linguagem tangível, na outra, bem formulada pelos elementos indicados, os campos abrem-se de forma clara e quase sempre iluminam. É com tais recursos que a intertextualidade foi uma prática ao longo do século vinte, ampliando o texto literário até às malhas da quase composição de signos gráficos alinhados numa complexa rede de significados, ele transmite-nos isto sem retórica de permeio e uma incrível visão temática.

Fala da poesia como uma tensão para a exactidão a partir de Paul Valéry, e ela só tem paralelo com o grau de maravilha alcançado na Leveza que atravessa a manifestação, e já nela, olhar de maneira nova de um outro ponto de vista pode ser uma sua marca, e não uma dissolvência onírica para fugas presenciais. Para a Visibilidade, invoca uma tendência perdida: o poder de focar visões de olhos fechados, passando a lembrar os caracteres alfabéticos negros da página, o que faz lembrar um belo poema árabe que diz assim “minha pupila só resgata o que da página está cativo, o branco na margem certa e da palavra o negro vivo” o amor pelo desenho gráfico está bem patente nesta forma de olhar os caracteres, o que inspira e atrai. Rapidez é também neste caso uma alegórica associação entre Vulcano e Mercúrio, onde a paciência mineral indicará a inspirada força para o impulso imediato num reflexo de ajustamento de ambas, amadurecer e libertar da contingência efémera o reflexo sombrio da impaciência e da angústia da página em branco.

Na Multiplicidade, há no entanto que defendê-la da arbitrariedade, o puzzle do nosso enredo interior não deve ser labiríntico e dever-se-á conectar com as imensas ressonâncias dos fluídos captados por esferas associativas que façam da estranheza do pensamento a divulgação de um acréscimo do ritmo construtivo, um teste com os recursos ao nosso dispor no treino inventivo que se sedimenta ao longo de um processo que trará uma liberdade maior e uma harmonia constante. Este trabalho foi o último de Italo Calvino que viria a morrer um ano depois, o que denota um apuramento quase no fim arremessando o essencial e pondo a funcionar elementos que se juntaram para coroar uma vida, e quando pensamos nisso, queremos atrasar o nosso próprio reservatório de capacidades não vão elas soltarem-se ficando nós a sentir que esta maravilha esconde a breve finitude dos nossos dias. Muitas vezes acontece isso, e se a vida continua para lá de um ajustamento destes, parece então que as funções caem ou tendem a repetir-se retirando-lhes o vigor, o que não raro acontece quando não se dá conta de uma certa decadência. Foi para ele uma fixação que levou tempo a elaborar, este trabalho, já atento aos sinais futuros e ao grau de dissolvência do contributo do objecto-livro como fonte de propagação de leitura. Creio que todas as etapas nos satisfazem pelo brilhantismo demonstrado e capacidade de recorrer a formas inovadoras. O milénio chegou, e indo até aqui num passado recente, conseguimos ler melhor a etapa seguinte de um livro sempre inacabado que é a criação humana e a sua flutuação nos tempos que nos impelem a recriar sempre fórmulas de entendimento, e mais, conhecimento acrescido das nossas potencialidades, onde só as distâncias dão o espaço necessário para abordagens mais vastas.

“…. talvez só então eu estivesse a descobrir o peso, a inércia, a opacidade do mundo: aspectos que se agarram logo à escrita se não descobrirmos a maneira de lhes fugir”

7 Jul 2020

A morte de Empédocles

Se dúvidas existem, devemos no entanto considerar envenenados os elementos, e mais que todos, o Ar, essa mistura gasosa que nos cerca, e por que nem sempre o leve se mantém ligeiro, devemos respirar com a parcimónia dos condenados os ares do mundo, que parecem munidos de um salvo- conduto letal para as nossas transfusões vitais. Longe… perto… na rota dos ventos não há distância! Em todo o circuito respirável imbuído que foi de devastações ambientais como aquele de um continente a arder, de camadas de ozono que nem o Diabo poria ali algum mais fresco enxofre, nós, resistimos muito àquela «improvável leveza do ser». Hoje não! E não vale a pena andar-se atrás do rastilho viral que está muito para além daquilo que se busca, e muito ainda aquém da sua trágica eficácia.

Este é também o título da bela obra poética dramatúrgica de Holderlin, e toda ela se reveste dos elementos essenciais para produzir entendimento entre as fronteiras da vida e da morte, das funções que equilibram, ajustam, e desequilibram os sistema contendo todo o apreço do autor pela cosmogonia de um homem que tinha a aura dos mitos. Focando-se na tragédia, toda ela é quase infinita e ocupa em nós um estranho oxigénio que deixámos há muito de saber respirar, é uma versão consentida de um círculo incomum fechado aos nossos saberes. Holderlin com esta sua obra transborda para além dos conflitos pessoais com a própria personagem e sustenta-a numa viragem de ciclo histórico, um fim de uma era, uma outra consciência social, neste caso, assente na radical passagem que foi a Revolução Francesa de que sentia espiritualmente próximo, por isso é também uma redefinição de ciclos trazendo para a esfera do seu presente os elementos imutáveis para a continuidade. E ele só se assemelha à tragédia grega enquanto reposição de uma fonte de energia que faz o herói suicidar-se por sacrifício, e não por autoanálise de um mal provocado pelo seu orgulho diante das forças naturais, e é a essa necessidade de repor uma ordem violada pela soberba que está aqui como o suicídio de Empédocles. O diálogo não é com a Cidade, mas com as forças todas da vida – não há ordens dadas – há talvez uma consciência muito poética de que não se pode romper os equilíbrios orquestrados por um todo que nenhum ser por si domina- bem pelo contrário, nele só deve influir para que não se rompa. Este elemento expiatório dá à morte uma noção de qualidade que não herdámos, ela não se encontra separada das suas consequências e porquanto não houver essa noção de um princípio inefável que penetre a vida, todas as coisas terão sucessivamente de pôr e repor estas passagens.

Diante de mudanças com características tamanhas, poder-se-ia pensar que “abrir” será voltar ao mesmo – mas não-! Qualquer abertura que resulte daqui será também o requalificar de muita coisa, pois que nada fica estático no ponto onde foi deixado, e, mais que deixado, amargamente abandonado por um mundo que ainda se crê detentor de algum poder que já não tem. A morte de um taumaturgo que fora o mundo não será de fácil reposição (nem os mais simples cadáveres são despedidos sem lágrimas) mas ao criarmos campos de confinamento involuntário ganhámos um tempo precioso para repor alguns equilíbrios. Os elementos continuam intactos na doutrina de Empédocles, e, não viajamos com eles em esquadrão de mortes anunciadas, e também ele, fez tratados contra graves epidemias, foi médico, homem de muito saber, pois que todos eles no tempo em que o foi eram tão unidos como o primeiro mundo esquecido onde deixámos a harmonia. Holderlin, por seu lado, foi todo ele um poeta, e foi por o ter sido, que uniu estas difíceis malhas que só os que mergulham fundo nas suas águas sabem como ficam os olhos dos que renascem. Nenhuma consciência será válida sem esta grande limpidez, nem saciadas as sedes dos ódios alheios, nem do amor terreno, pois que são forças que existem para se manterem perto e sequencialmente separadas. Que não transborde nenhuma que o sacrifício de cada um não possa agora sarar, que neste momento, elas perderam o verdugo das suas eloquências debaixo de um trajeto incerto e improcedente perante o destino das coisas.

Empédocles escreve em verso «Purificações» que seria um intróito do outro grande verso «Sobre a Natureza» parece dizer-nos purificações naturais, ou tão somente uma forma natural de purificar… e há, como era de esperar uma conduta moral a ser talhada, e quando todos os elementos, incluído o Fogo que nos entrou pelas pupilas adentro nestes últimos anos, e as Águas condessadas em forma de grandes gôndolas escorreram para o mar, e a terra em grandes pastagens de gado alimentício feitas paredes sem portas, olhámos para a saída, o Ar penetrou-nos numa síntese grandiosa e invisível reclamando a nossa morte.- Que nós, mortos não estamos, pois que escrevemos ainda estas coisas- mas os que escreveram aquelas outras, estão, e os que nada escreveram, também, e os que virão para o fazer, também não deixarão de nascer e provavelmente ainda de morrer. Por nós, o tempo estreito, por eles, que sejam grandes as suas vidas e recolham aos unidos elementos onde segundo alguns o amor nasceu e a Terra não ainda fora sequer sonhada.

«O Boi Mudo da Sicília» poderia ser agora Empédocles (ambos sicilianos, São Tomás de Aquino) ou o presente colapso mental falando por nós da paga e da repaga desta conspirativa prática de um viver que nos leva ao desastre- que viver- é o belo desastre que nos sobra, enquanto as malhas das periferias de tal estado não se desboroam… Agora mesmo o sol me diz que a sua luz é inflamatória, e toda esta superfície um buraco gigante que não irá melhorar nos dias próximos. Quem vai melhorar são os nascituros, os neófitos, esses que fabricaram órgãos novos, visões maiores, capacidades acrescidas, depois, colocados que serão num tubo de ensaio, far-se-á uma cobertura em volta do eixo da Terra para um novo começar com o filtro necessário para não deixar passar o que agora aqui se encontra: “bem sei, os homens inflamam-se como a erva seca” «Morte de Empédocles».

23 Jun 2020

O Rei das Moscas

A tese posta a circular de que a Terra era plana, não “achatou” a curva da sua evidente redondez e robustez, pois que sempre aquilo que é círculo encerra em seus flancos muita vida e memória dela. De tal ordem que sentimos que existiu por aqui como em muitos outros territórios, altares para sacrifícios infantis, só que não sabemos onde, quando, em que épocas, mas estando em Maio, e seguindo Fátima, talvez possamos levantar este ténue véu que matou duas crianças e condenou outra a prisão perpétua. No entanto, o registo tem toda a razão de ser, e a manifestação de tal ocorrência só poderia ser ali.

Estes acontecimentos nunca se dão com adultos, ou porque não os vêem, ou por ninguém os ver, ou muito simplesmente pela razão que uma criança é a terna quimera do juízo humano que não pode ser equiparado a mais coisa nenhuma. Por incrível que pareça, este mês fecundo é palco de desaparecimentos súbitos de crianças, e ainda há aquela história que circula na boca das gentes «comer criancinhas ao pequeno almoço» que pensam ser importada, mas que se pode basear numa memória profunda de meros ritos sacrificiais.

Oriana era uma princesa islâmica que um senhor raptou ao tempo da reconquista cristã e lhe deu umas terras a que hoje chamamos Ourém, os Mouros Fatimistas que habitavam nos seus reinos de então, perto estariam da princesa e como tal houve sempre uma íntima ligação ao Crescente como em todas as coisas cultas e ocultas que dele nos escapou. Por outro lado, o calendário islâmico é lunar, treze, é o número dos ciclos anuais da Lua, e talvez aqui possamos ir mais fundo e retirar alguns ritos do Médio Oriente de fertilização das terras, e comecemos pelo culto de Baal, uma prática dos cananeus que sacrificavam crianças em nome da sua divindade. Era um estranho ser com cabeça de Bezerro, os seus grandes adversários, os hebreus, designaram-no por «Baal- Zebude» Senhor das Moscas. Zebudu, que dá origem a Belzebu, hebreus e este culto são toda uma saga de combate, e vai tornar-se o primeiro grande marco civilizador em memória da libertação infantil. Estas terras de Canaã, ficavam na Palestina, aquela que depois foi conquistada e deu a célebre imagem de Abrãao que acaba de vez com tais horrores, mas, ainda hoje, muitos povos árabes da Palestina e não só – como fenícios e cartagineses – têm a remota memória do Deus Baal quando sacrificam os seus filhos na sua luta armada.

Os mitos são como os vírus, recebem mutações, mas se os enfrentarmos iremos sem dúvida encontrar reminiscências comuns- e Nazaré ali tão por perto – naquilo que se pensa ser afinal uma povoação de natureza fenícia onde ainda hoje se pode encontrar na região algumas dessas marcas. Que o Sol dance no seio desta natureza lunar, é mais uma miragem da própria Lua, que mudando, não dança, e muita da que para ali anda tem cabelos compridos e longa memória. Quando o chão fala os seres não sabem dizer nada e só as crianças são a consciência perfeita de realidades tão grandes que a todos supera. Há no entanto o carácter profundamente redentor de uma imagem que é o arquétipo da mãe bela, da boa mãe que não existia nas suas vidas, e se esta Senhora – a Fatimista- a filha de Maomé, aqui, ela é aquela mãe cujo culto não desfeito a fez fugir para salvar o seu filho a quando da morte dos primogénitos, ela projecta ainda o símbolo das mães que sofreram a tragédia dos filhos para os fundos ritos infanticidas.

E para mais, a designação de Cova para esta realidade torna-se uma inquietante desconfiança acerca do que terá podido, eventualmente, ter-se passado ali algures… que uma cova, não é uma gruta, muito embora ambas tenham sido grandes mortalhas. Mas também aqui podemos encontrar os Mistérios Eulisianos, de Maio a Outubro, Perséfone que fora raptada por Hades permanecia com a sua mãe nestes tempos faustos, e também de mês a mês, o que perfaz um ciclo lunar, há aqui um programa intensamente construidor de segredos, e apenas um se alonga para a quase quarentena, que é o que vai de 13 de Junho a 19 de Agosto, e as quarentenas como bem sabemos são tempos mais desérticos, talvez aquele da ausência de Moisés que descendo transfigurado por luz estranha encontra no sopé da sua montanha um reavivar do velho culto a Baal. Podemos não nos dar conta mas esta foi uma longa luta de Lei absolutamente civilizadora. Só que não anda como desejava alguém, numa Terra plana, e sim, redonda, que tal como a Roda da Fortuna vai e vem nos longos caminhos da eternidade.

Há, no entanto, e ainda, um “sagrado” instinto do deus cornígero na Península Ibérica, vindo da influência mediterrânica, todo um labirinto que nos leva ao Minotauro e aos locais onde devorava as vítimas, altares que estão no mundo, e, como outrora, são governados por multidões que giram em volta de crianças mortas. Fina D´Armada terá nesta saga a mensagem mais ficcional, e, a sua abordagem é outro documento para o vasto interesse na matéria, que o local das transformações são áreas muito sensíveis de captação energética…

Estamos naquilo a que se chamou o «Triângulo Místico Português» por perto brotam abóboras de quarenta quilos e outras grandiosidades vegetais, um trilho se singulares manifestações cuja azinheira acompanha a Cova da Iria até Grândola, dando um forte indicativo de que seja ela a Árvore da Vida.

Acreditei sempre nas crianças. No antigo deserto não havia árvores, e as oferendas eram feitas sem recurso a uma visão suspensa que as acalentava e sorria. E mesmo assim, ela não quis deixar de lhes mostrar como era, quando lhes deu a ver a visão do Inferno.

16 Jun 2020

Transumanismo

O momento actual faz com que tenhamos de alongar a forma do que apelidamos de Humanidade e, muito mais, repararmos e consentirmos abrir matérias que estavam limitadas a núcleos estruturais que são portas abertas a uma continuidade talvez não circular, nem pré-adâmica, mas muito eficazes para a permanência daquilo que de humano restar. O transumanismo não é como possa parecer um movimento recente, começou na década de sessenta, na transição que deu lugar a novas formas de vida social, tecnológicas, numa filosofia futura que em 1990 avança com projectos radicalmente inovadores que iriam colocar em causa todas os alicerces da ideia de Homem e sua funcionalidade enquanto natureza acrescentada, melhorada, anexada à máquina com alongamentos e aplicativos que mudam o determinismo daquilo que se possuía apenas por herança genética e cultural, aspectos adquiridos. Nesta imensa marcha, rumo, creio, a um futuro agora não muito, muito longínquo ( o tempo da Humanidade tende a ser transfigurado) há ainda os alicerces remotos do início do século XX por um geneticista inglês J.B.S Haldane que há distância de cem anos intercepta no seu genoma capacidades com fins de melhoramento, transformação e adaptabilidade em vista de outros sistemas galácticos; creio que toda esta temática se baseia na inoperante e pouco rigorosa tipologia que define o humano que será mais o conjunto das suas qualidades em matéria civilizadora e não o das suas possibilidades, capacidades e sequente metamorfose. O que nos é dado, pode e deve ser modificável.

Estamos neste instante numa era para os ciborgues, robots, máquinas e humanos, o que nos faz ponderar também acerca da dura condição da vida do Homem, tão brutalizada ao longo da sua experiência por formas de submissão à ordem natural, ao efeito da sobrevivência, ao grau de parentesco, ao trabalho escravo, ao ritmo binário da vida e da morte, arrastado quantas vezes por dolorosas patologias que fustigaram a sua natureza para graus bem inferiores aqueles que desejávamos poder designar para sua nomeação, e todo este tema não é por isso matéria áspera. Os artistas sempre souberam anunciar um certo grau de consciência ao mesmo, lembro Elizabeth Browning: «…a mão do Amor corrige a Natureza» seja então amor – ou por Amor – a transformação que nos trará uma espécie de ressurreição findo o ciclo do carbono. No fundo o que se assemelhava ao fantasma (energia condensada em outras propriedades) pode ser também um renascer ou ficar vivo numa pós-vida digital. Por outro lado, o nosso corpo tem órgãos demasiado pesados para as tarefas que vamos cada vez mais desenvolvendo, órgãos esses, que num processo energético muito rápido como este em que nos sentimos habitar, começam a adoecer de maneira contínua sem explicação aparente. Existe sim, uma disfuncionalidade orgânica, biológica, cada vez maiores, e nem a resignação ao prazer tende a obter o grau de satisfação outrora produzido.

No momento em que estamos sabemos dos muitos seres humanos que perecerão ao vírus – já pereceram – os vírus tendem a ficar mais letais e não se pode estar exposto a um grau de acontecimentos assim sem uma profunda comoção, e também é certo que não podemos continuar com uma anatomia tão rudimentar a sobreviver ao acaso, estes acontecimentos porão em marcha muitos desenvolvimentos que estavam subjacentes agora de uma forma muito mais concreta, e darão a tónica de um futuro onde as estruturas que conhecemos terão de ser mudadas a um nível que muitos ainda temem, é certo, outros não a pensaram, porventura, mas que se imporá como via inevitável. A muito fustigada Itália teve ainda a clarivência do seu Futurismo há cem anos atrás numa aceleração artística que será um dos grandes marcos revolucionários do século XX , pois aqui a ciência e a arte estão de mãos dadas no ciclo da inovação e de toda a inventividade que é preciso ousar e usar, para continuar este humano (ou demasiado humano?) que não é de excluir a influência de Nietzsche nas filosofias transumanistas de Stefan Lorenz e Max More, mas é na sua poesia (Nietzsche) que me parece estar a frase certa que envolve este contacto… « Não hás-de sofrer sede muito tempo/ Meu coração queimado!/ Anda no ar uma promessa…../- A grande frescura vem…» Possível será que um melhoramento nos torne mais compassivos, menos belicosos e já não sujeitos à fraude da vaidade competitiva, reprogramados com outras soluções que permitam um melhor humanismo e uma concórdia para com as outras formas de vida, e que ainda assim possamos entender que muitas parábolas e legiões de anjos e máquinas apenas são a compleição daquilo que nos destinou a uma evolução competente e grata no avançar.

Biologicamente estamos estagnados na era de uma pandemia onde um recurso generalizado de salvamento assemelha-nos a todos na desgraça, depois, nas competências, tendemos a deixar de fora uma parte de todos nós: descemos até aqui em conjunto para reflectirmos acerca da nossa própria humanidade que irá continuar mas de uma maneira muito diferente. Para se juntar agora a ela, tudo aquilo que foi sonhado e o que trará de concreto ao sonho de cada um em seu consentimento. Teremos de ajustar a vida ao sonho.

Aspectos emergentes são mais reais num tempo de grande cisão e viver não significa ficar de forma temporal no corpo da morte, pode ser muito mais…

2 Jun 2020

Os mundos intermédios

Nestes dias estranhos mas belos, olhamos os jardins como se fosse a primeira vez. As árvores rebentam de frondosas pelas raízes que levantam passeios onde ninguém se move a não ser os animais do lago que caminham com bandos de filhotes atrás das mães numa longa marcha para a vida.

Ficamos então a olhar a separação necessária para que ela se dê nestes termos tão bonitos, e, vamos até aos textos alquímicos que nos mostram vários estratos da matéria que vão até ao núcleo ebulitivo passando às altas esferas para lá da superfície terrena. De facto, esta vida que conhecemos tem uma intermediação não demasiado grande na sua componente: para baixo, voltamos a outros reinos e nele se inserem os segredos que fazem despontar a flora, e mais para baixo, crosta dura, e muito ao fundo o magma ardente por onde

Dante passeou vendo as almas em contorção. Nós estamos assim condicionados a um estrato fino de vida a que nem sempre damos atenção de tão integrada ela se encontra nas células que somos; é uma conquista extraordinária a marcha da matéria que se organizou depois das poeiras, do sopro dos céus vermelhos e do tempo das águas. A Terra contorceu-se de dores de parto, cuspiu fogo, transbordou, fez-se manto macio, útero sonhador…! Incrível força a possui.

Estes dias, aliás, estão pejados de súbitas descobertas e uma mais delicada atenção pois nos fazia falta que as arestas do mundo humano fossem limadas pela dor que provocou, provocando… « Humano, demasiado Humano» o Homem, sim, precisa ser vencido! Todas as frases que fizeram sentido na terra da nossa construção se desatam sem propriamente terem uma função relacional umas com as outras, e, comemoramos os dias de uma metalinguística repartindo nela o livro todo. Soltamos os sonos, regressamos de véspera, os dias deslizam como um emblemático “Hoje” sem ontem nem amanhã, e nisso está o segredo do entendimento. Ontem era, foi, um tempo irreconhecível, o amanhã um tempo talvez lendário, tão diferente… tão urgente, e já daqueles cujas janelas anunciadoras foram vivendo outrora a solidão dos vindouros…!

Nos mundos intermédios o limbo é o maior, ele retém os viajantes, impede passagens, cria artifícios para manter o controle de todas as partes gerando um estranho adormecimento nas consciências e esvaziando assim a capacidade de escoamento automático para os níveis a que todas as coisas pertencem e que foram conquistando para delas se aproximarem. São os guardiões da paralisação! Nele insiste em selar o mundo um deus petrificador. Creio, nesta janela de vento, que ninguém sobe, mas que desce até à parte intermédia do solo, podem ser Ícaros, mas, outros também serão que o céu é uma oblata.

Coisas imensas, subliminares, andavam em nossa volta como partículas, centelhas, sopros, fontes vivas. Isto, depois de terem ardido Continentes inteiros, dos Trópicos se passarem para a Gronelândia, e do problema existencial das casas de banho para o terceiro sexo em pleno epicentro do cisma da derrocada – esses seres diáfano – vindos desses mundos intermédios sussurravam coisas nos nossos ouvidos como carícias súbitas, e o zelo de não termos outras ligações, outros mestres, outras vitórias, pode levar um humano a sentir coragem para se separar ainda mais de um mundo breve, caído, e em ruínas.- Para que lado fogem dois seres fugindo um do outro? Não são definitivamente duas rectas paralelas que se encontrarão no infinito, mas, uma outra coisa para lá do infinito passando uma pela outra sem ser verem.

Apraz dizer da paz conquistada, da corrente – elétrica arrancada aos calcanhares do mundo que rebentou em seu curto-circuito – muito curto – para fazer de todos próximos isolados. O paradoxo rege o agente biológico que foi incapaz de fazer das pernas que modelou, membros sadios, e mais lhe valera ter apostado nas asas. Mas não seria possível! Ainda assistimos às estranhas dores de costas que comprovam a dificuldade que é andar de pé.

A Páscoa visita-nos ao instante com a sua liturgia toda renovada, passando, ressuscitando, mas o ciclo dos mundos intermédios rasgou-se para sempre. A espiral não é uma programação eterna, agora vai-se alongando… de cabeça para cima… com os pés suspensos… eleva-se e constrói em outras regiões um reino, uma visão, um renascer, que não é, e não pode ser por muito mais tempo apenas deste mundo. Na Terra, ficará por quaternários, quarentenas, o « Filho do Homem», semelhante a nós e que de maneira inaugural representará o nosso gradual desaparecimento até ao silêncio total. Para ele, também éramos Deus, mais tarde, e já calado, de lembrança tão remota dirá que nunca existimos.

27 Mai 2020

A estátua de sal

«Vai, salva a tua alma e não olhes para trás». Assim foi dito a Lot quando da destruição de Sodoma, e nesta advertência está implícita uma lei vital que é a de não permitir perder tempo naquilo que não seja estritamente necessário bem como essa inabalável força que nos projecta para o futuro, de como é importante obedecer à voz interior que sabe encaminhar-nos no limite das provações. Esta imensa certeza é um dom que nos ajuda a ser guiados nos mais imponderáveis momentos e ter a convicção que o “cordão de prata” a que estamos presos pode ser ampliado sempre que depositamos essa fé imensa na estrada do desconhecido para onde estamos a ser puxados. Vacilar, fará de nós a imagem da sua mulher que não escutando a voz se perde na curiosidade, na certificação, como Orpheu, que ficou sem a sua Eurídice. E voltando ao tema da certificação, ao odioso anátema que pode acontecer com o termo “certificado” já a ser composto como medida sanitária, é agora importante advertir das consequências de uma tal designação.

Nestes momentos as coisas mais sinistras do compartimentar, certificar, excluir, selecionar, estão alerta e todos sabemos onde leva, e é também por isso a Hora de velar pela palavra pois ela é fazedora de realidade.

Há de facto muitas vozes nestes meses, nestes dias, mas é a nossa, aquela individual e única que de certa forma andou fragmentada, enjaulada nos seus egos, e estranha ao seu mais precioso processo que convém no regresso à caverna entender melhor; recolhemo-nos para prestar um serviço a uma alma que desconhecêramos, e ela vai falar! Se estivermos em permanência debruçados sobre o que se diz, ou na espera de novos dados para robustecer a nossa inércia, entraremos em ruptura muito em breve. Os ecrãs não devem ser projecções, embora pareçam o mais distante da solidão imposta, e se neles nos debruçarmos mais do que podemos filtrar, a ameaça então não só vem de fora como de dentro. Os vestígios ínfimos de individualidade em seres fragmentados fizeram-nos veículos de consciência colectiva ou social em permanência, e a ordem de saída de Lot é também um tributo à reposição da vida como um acto cósmico, e ainda é importante salientar o episódio de quando os dois homens apareceram na sua tenda com propósito anunciador: ele não lhes perguntou nada, convidou-os a entrar e a lavar os pés, deu-lhes de comer e consentiu que pernoitassem, é esta “desinfestação” de alma que é muito provavelmente olhada com amor pelas estrelas e pela confiança se deixa por elas guiar. Aprender de novo este caminho só seria possível se a Terra transformasse as nossas quarentenas em quarenta anos de travessia, e todo o aspecto alegórico da narrativa teria de ser encaminhado ainda assim à vida cada um.

Voltamos agora a um instante que é o de ressurgir dos mortos, e talvez as nossas vidas sejam outra coisa, tenhamos morrido de certa maneira e voltado a outra terra, pois não nos será dado esquecer as longas filas de carros militares transportando cadáveres para formos crematórios – são visões que não vamos mais esquecer- e que certamente nos toldou os olhos de lágrimas e como um assombro entrou na luz tão bonita desta Primavera, com o tempo a passar vamos ficando assim… tentando escutar que voz é esta. Creio que muitos estão já petrificados tal qual como a mulher de Lot entre dois mundos, e de um e de outro podem não conseguir ver esta separação abrupta que causa naturalmente uma petrificação estranha, um surto de náusea e arrefecimento, mas agora também temos de tentar combater toda a curva para o nosso próprio abismo. Todos podemos ser contagiados, é certo, mas muitos não o serão e há ainda os que recuperam, os que ajudam, os que fazem acontecer, devemos estar gratos por todo esse esforço olhando para as coisas não como direitos adquiridos mas como dádivas e alguma gratidão. Cada dia passado nesta imensa jangada é ainda assim um dia de vida e vamos aprender que ela é sagrada, que tudo quanto vive tem as suas forças de recolhimento, muitas formas de vida hibernam, e para nos dar alento saber que há menos poluição nos ares do mundo, que os canais de Veneza estão limpos, e as águas estão lá para um dia breve voltarmos com os nossos braços nus a abraça-las num quente Verão. O sal foi uma medida de retribuição pelo trabalho prestado tal a importância que tinha na vida dos homens, uma estátua de sal pode ser ainda a metáfora mais conseguida para nos impedir de ver a destruição causada atrás de nós e deixar aos que sabem passar um espaço venerável para prosseguirem. Lot, foi para uma gruta, a sua descendência atraiçoada por causa das filhas, mas ele não teve aí nenhuma participação consciente, como o não teve na própria salvação, e acredito que salvou a sua alma.

Somos agora o Mar Morto ou o Mar de Sal.

12 Mai 2020