Interface 21

15 de Fevereiro de 2021

«… a face do amor é ausência de rosto»
«A Idade da Escrita», Ana Hatherley

 

Aproximamo-nos de um tempo em que a nossa componente fechada e dialogante a partir das vibrações fonéticas irá ser remexida, posta à prova, alterada, e quiçá, modificada. Estamos numa «Interface» mais complexa que as primeiras, apenas para fazer negócios ou criar plasma a partir de correntes sanguíneas demasiado alvoraçadas para o contemplar de outras realidades a haver. Vamos caminhar de forma rápida para um tecido apaixonante e desconhecido que fará acontecer a alma num projecto de luz, e transpor a barreira dos egos hiper-esclarecidos, vamos em sintonia experimentar um ritmo amoroso, telepatia, canalizar os dons, aproximando-nos da zona que os sonhos esperavam.

Lembramos a « Máquina do Mundo» camoniana e quase nos comove esta lonjura, este programa do saber ditado ainda no vazio dos tempos que foram permanecendo vazios até hoje, fora da imensa e maquinante composição da luz das trovas que o compõem, e esta metáfora de forte estranheza dada abeirou-se por fim do jovem e inssurecto século XXI no dia de amanhã que está chegando através do seu verso « estamos a passar o mundo da luz tão clara radiante….» e o poema se alinha com sua estrutura mais feliz que não é o debitar estados de espírito (alegando como também Pessoa bem viu “que sentimentos todos nós temos”) mas encontrar a alma do amor refulgindo nas formas imateriais de um domínio que a ciência toda poema e propósito, alongou para desocultar a palavra dos poetas, fora sempre dos procurados eu(s) que tem de ser extra ego para assim chegar também aos sonhos dos sonhadores mal dormidos que não sabem nem desconfiam ser estes, manifestos.

Chegados à exaustão por uma determinada maneira de nos exprimirmos será esta a encruzilhada que faz sentido anotar- Pixel – unidade de energia desmaterializada «vejo Deus e não sei quem é e penso que é um número que me empurra…» na zona do cérebro que ativada irá produzir a maior revolução em estafados conceitos de definição de humano; não intrusivo, menos instrumental, e esmagadoramente capaz de um rumo que não vamos ousar já designar. Efetivamente esta velha anatomia é demasiado enredada em estímulos sobreviventes e de passagem de gene para se consentir saborear a quinta essência da sua vasta competência, mas – telepaticamente a caminho, que a sincronicidade dos dados está lançada e sair do aterro da asfixia rumo a outros oxigénios que este mata nos fluxos da própria respiração- tanta virulência pode atordoar as mais elementares formas de expressão nas inúmeras “cabeças de vento”, que a morte, essa, é sempre cerebral, mas a vida longa celebrada, não será longa para martírio dos dias, mas inalterável até muito longe em interface com esferas que nos permitem a partir do futuro breve ir ainda mais longe até aos passados que pensamos perdidos.

Subitamente a compaixão, o contacto latente com a alma de outro vagueando no suporte, estamos leves e os sonhos transformam-se pelas superfícies reais que nos estão destinados para melhorar dons desconhecidos, latentes, e quase se atravessa aqui o poder litúrgico surgido da mão que bate à porta «estou à tua porta, e bato».

Cansado de errares. A estrela que te orientava e nunca viste perde o brilho
e o que em ti era sentido de orientação. Há uma noite absoluta para o teu seguir.
E a única verdade que te sobra é estares sentado. Cansado de errares.
Não te sentes. «Pensar».

– Enquanto te sentes, não te sentes, e passemos à Interface.
[Trazes de mim a notícia gritante do quanto o transbordo é urgente, fecho este postigo, silvado, agreste,
e outra vida surge na transparência de um novo nascimento. Quem não for encontrado, que não sofra, e espere o tornar da luz. Era vazio o início, e na longa caminhada vieram as sombras até serem de pedra e erguermos com elas as estátuas]

28 Abr 2021

Rima do velho marinheiro

13 de Março de 2021

 

O nosso tempo actual reporta-nos para as vagas como se andássemos sobre as águas, uma navegabilidade muito própria – andamos agora por vagas- navegamos incertos, e qualquer costa se nos afigura como uma miragem na fé de chegar a bom porto, andamos literalmente a «cavalgar a vaga» que devido às fortes monções se fica parado num viver ficcional como no ventre da baleia, e quando esta sofre ruptura, ou abertura, somos expelidos, e tudo parece recomeçar em chão seguro que parece outro. Para não entorpecermos ainda mais pela linguagem chã, arranjaram-se eufemismos esperançosos, como; bazuca, vitamina, e outras variantes, mas no subsolo, o dinheiro (essa designação assaz grosseira) é um bem que só os anões e os alquimistas sabem como preservar e fazer crescer. Estas vagas que têm sereias cantando ao lado das embarcações necessitam da coragem de um Ulisses que se amarrara todo para não se atirar a elas, e assim, foi ele para casa onde aprendeu a fazer mantas.

O facto das vagas se sucederem é até um factor de adaptação à jornada do navegante, onde, de ora avante não deve temer o sentimento costumeiro da adversidade imposta pelo ritmo das marés; é certo que em caso de tsunâmi toda a programação se desfaz, e a ideia de navegabilidade ao primeiro soar de calmaria pode mesmo fazer que ele se manifeste. Nestas coisas devemos lembrar-nos da frase «navegar é preciso, viver não é preciso» pois toda a Terra é agora a única barca. E se passarmos por cima, será um dom, diferente daquele que deixáramos que era, passar ao lado, uma verdadeira mudança de plano. E tudo isto não seria uma experiência de péssima qualidade se não nos recordássemos das Barcarolas, um legado antigo inscrito num tempo medieval: métrica simples, efeito de assombro, roteiro fantástico, na inesperada e renascida presença de Coleridge, percursor do romantismo inglês pela sua «Balada do Velho Marinheiro» o poeta que afirmava acreditar mais nas coisas invisíveis que nas visíveis, quando nós olhávamos ainda a Nau Catrineta, que de pasmar se foi quando passámos a ter «Chuvas Oblíquas» (que barcas afundam na vertical) e este Velho Marinheiro não gosta ainda de nevoeiro «…que trazia o nevoeiro. Há que matá-las, dizia, se trazem o nevoeiro/ Dia a dia sem um sopro que o movesse o barco ficou parado/ em vão como um barco a tinta num oceano pintado…»

É nesta atmosfera que nos associamos às lembranças e delas vazamos as vozes de outro entendimento, que tudo se liga como as redes dos pescadores, e se deita, e se arrasta…se dissolve, e quantas vezes se esquece. Trazemo-las renascidas e vimos o quanto os elementos se assemelham nas suas alternâncias, recordamos viver, que sem isso, o tangível espaço incubado que o acaso nos ditou pode não ser o tempo de reflexão que é preciso para o abate dos navios piratas. As vagas de ontem transportaram assassinos de marés, mas vimos como concordaram as leis, e como por elas somos dirigidos mais que dirigistas, e muitos ainda anseiam voltar para a morte há tanto anunciada. Hoje, porém, somos um instante no verso «É um tempo de cansaço/ a garganta ressequida/ e o olhar vidrado/ Um tempo… Um tempo de cansaço!»

Data de 1798 a primeira versão desta obra, a repercussão foi o ter firmado um estilo inaugural, mas o autor foi fazendo mudanças e em 1817 incluía-as em «Sibyline Leaves» e em 1828 volta então ao original. «Deveria ser encadernado em ouro» – disse um critico acerca do que dele restou, e os pescadores de pérolas sentados em tronos, por tão duros ofícios que a beleza requer. Por muitas vagas levamo-los e esperamos lembrar. Por ora, o pensar nos cansa, que este vaguear não inspira confiança confinante, nem nada se vê de muito nítido…que de nevoeiro, nem vê-lo, mesmo que para alguns seja o vínculo inconsciente de um desejo colectivo.

Começa num casamento em festa, coisas que os mapas esqueceram. Quanto a Coleridge, morreu subitamente aos sessenta e um anos.

20 Abr 2021

Mudam-se os tempos

Passamos de moda como esta casa, este casaco, nada resiste à mudança do tempo.
E estas mortes todas em nosso pensamento!?
São páginas de livros e não malha de ferro, e quando o vento sopra vão voando
Da mesma fonte que a malha do guerreiro se contraiu no fogo estranho
Rebuscamos a casa e está tudo mudado- do ciclo de outrora nem um marco-
E assim os dias se fazem outros
Com todos aqueles votados ao abandono
Verticais como as colinas, os que se elevam partem cedo. São deles as mudanças e todas as vitórias
Por eles se alcançam
Desenlaçar, mudar de rumo… sede, sempre do mundo
Não ter o dever de amar, que amor não há no vale profundo.
No entanto, saber vingar o mal, e depois mais lúcido, não mais importar
O destino inútil do sepulcro.
Trajar o manto viajante, que em cada jornada o tempo muda
Deixando as vozes castigadas no desaire de falar ao submundo
Não há chão que a raiz não rebente, e onde há explosão
Chove ternura, que o tempo frio de gastar o solo, secou, e as áridas paragens são de lume.
Deixar os sentidos em paz, tomar outras dianteiras
Não vestir o amor para se ter somente o reflexo de quem o nomeia
Vamos embarcar! Rosários de contas não há, o destino mudou,
Na telepatia das fontes
É um país novo a Terra inteira. Passámos de moda a projectar o novo.
Gastámos as línguas – litúrgicas boas-vindas – nos velhos andrajos das modas
Há gente que passou o tempo de se conservar em nós como ideia, terno efeito, consciência, são os equívocos da grande teia.
Não há comoção que interprete tanto desaire breve na languidez de uma era extinta de promessas.
Que a liberdade é sentir de maneira vária em tons regrados, e mesmo assim não ter receio de ser vermelha e ter os lábios molhados.
Nenhum arco-íris se desfez na sua imprecisão, e as grandes coisas são ainda aquelas que nos fabricam o pão.
Passamos todos de moda, passados de mão em mão, e o tempo gera memórias, mas não há certeza que dite que são a nossa história
Ronda insolente o destino, que ficar na vida em espelho vestido para um tempo fechado é acto tributário, e ninguém se veste da época do seu instante banal, se a si se consentir ser divino e animal.
Nesta abertura do acaso somos das modas, vencidos, que moda rege e renega as contingências dos mitos.
Do amor que não há fizemos coagulações, somos derivados de enfartes, fartos das mesmas pulsões.
É um chão macio este que muda- muda a seiva, muda o sítio – e não há lugar para as vestes dos fantasmas indistintos. Que as vontades mudam, desnudam, o que a moda tapara.
São as conclusões douradas! Ciclos abstratos, e a nossa longa cauda de símios disfarçados.
«E se o mundo é composto de mudança» toda a água se disfarça quando nos banhamos, numa luz, que em nós algures nos dança. A água gela nas veias. E não há quase minério, tão só a moda de andar de pé no cimo das ideias
Bípedes a motor, consagrámos a corrida, mas ninguém nos diz da moda dos quatro membros por terra, quando forjarem a nossa saída
Depois da queda do mais recente Adão, não voltaremos a colher às árvores, mas a subir a elas, nós que a moda desfez e refez em modos vários, iremos como os animais utilizar as manobras de ir ao topo dos ciclos vegetais. Talvez como os felinos
E mudam-se os tempos nas feras vontades, e muda-se o estar aqui e não estar mais, e o que esquecêramos nos trará um recomeço quando muitos de nós forem arrebatados pelas vogais da Aurora.
«Do mal ficam as mágoas…» mas não na lembrança, que recordar os males é não ter esperança, e movidos e sem defeito atravessaremos as trevas só para lhes dizer adeus.
Também não houve bem, nem há saudade, a missão governou o governado, e se amor bastar, é certo o lenho da nossa sua imensidade

( Camões no coração até morrer)
Máquina do Mundo.
Eis-te revisitada.
Mudando.
Mudada.

29 Mar 2021

Gatos e Cronistas

É sem dúvida um distintivo a que não podemos fugir este dom da representatividade felina nas mais altas instâncias da língua, e não há dúvida nenhuma que a nossa obra mais arranhada se intitula «Os Gatos» de um igualmente “assanhadíssimo” Fialho de Almeida. Ora a razão para tal título encontra-se nos fascículos editados entre 1889 e 1894, crónicas jornalísticas, que não pode ser mais fidedigna perante o seu anunciado. Obra fragmentada como veio a ser interpretada, parece-nos que o autor devido a um mau estar crónico lhe escapara a serenidade de espírito para a rotina, o conciso e continuado, mas aquilo que aos olhos de uns foi uma falha, analisando melhor, creio ter sido a sua força. Bastante além do criticismo mordaz ele encontra-se num delírio fascinante de intolerância social e ambiental com operativo desassombro e espírito sagaz.

E entremos pelos «Gatos»! Um verdadeiro saco de gatos nos espera nestas epístolas aos vindouros que parecem não desmerecerem os cento e vinte anos que as separa de hoje: conservar as feridas em chaga e atirá-las com a força do arremesso, assim se queria que fosse a composição estrita destas crónicas. Vem-nos à ideia o mais próximo da saga, Vasco Pulido Valente, mas em maior estado de desolação, o que para o autor aqui presente nem sempre acontecia, consumido por estranhos ardores de repelências várias, há um colorido que não escapa ao olho de lince que devemos adoptar para lhe captarmos tanto desaforo e assombro. Fialho, era paradoxalmente um esteta, franzino mais bonito homem, com certo olhar alucinado, não carregando tanto na lunática emanação do nosso querido e contemporâneo outro cronista, o seu ser, possuía ainda viva compaixão pelos desfavorecidos e por todas aquelas almas votadas ao abandono, por vezes exacerba-se tanto que nos inquieta com as ideias do porquê da fealdade pátria, falando, portanto, aquilo que muitos pensam mas não ousam dizer, quanto mais escrever. E é dele, nesta disposição, que nós gostamos.

É bastante claro que um homem assim, movido por um estado de enervamento sistémico não teria capacidade metódica para reunir os papéis ou novelar as lãs para os seus gatos que por ordem natural das coisas os amaria porventura mais se fossem famélicos, vira-latas, pondo-se aí perfeitamente ao lado do não menos brilhante e intragável Ezra Pound, que levava os bolsos cheios de comida para os alimentar nas noites frias. Nem o Escárnio e Maldizer todo orientado para as investidas criticistas mais intensas atinge esta soberba individualidade nascida de si como uma consciência de alarme e praguejar continuado. Nada do nativo canalha se lhe atravessa nas odes, nem recorre ao escatológico martírio da verve grosseira, é dele que emana o enxofre, e nem por isso deixa de ser um distintivo muito belo.

Atravessava o impacto dos Vencidos da Vida em rota de colisão para o Decadentismo, e interpreta com zelo o que é um homem com falta de paciência, e com desajustes constantes diante de tudo, não vendo nas mais altas patentes do génio pátrio mais que as inusitadas análises que fazia, que contrariavam qualquer ajuste com a paz no reconhecimento dos seus pares. Estou em crer que todos o abandonaram, excepto o António Sardinha, que desejando fazer-lhe um louvor lhe saiu também uma sibilina interpretação. Mau grado tudo isto, estamos em presença de raridade humana com grande empenho social e lisura que nos espanta e seduz.

Em 1880 tinha já fundado uma revista «A Crónica» e o nosso cronista vai então dizer de si o porquê das afiadas garras porque intitula «Os Gatos»; desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato- isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia- porque não escolheremos nós o travesti do último? Aquele que nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro. Razão porque nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca». E nem Ramalho Ortigão levantou a sua farpa para tais gáudios na corrosiva acção, parecendo apenas concertada de trás, refinando na tendência, e exultando no desânimo.

Arrumados que andam no fundo das estantes estes autores, hoje existem os “trococriticos” de uma moleza que dá vontade de ouvir tangos, e ainda arranjaram formas opressivas de demolição sentada pondo-se ao nível das trituradoras de frutas. A urgência deste “encavalgamento estilístico” está-lhes presa aos cachaços no vitupério das suas urdiduras. E dizia ainda o inesquecível Jorge Brun do Canto: ” nariz de gato e rabo de mulher querem-se frios” única maneira de saber que estavam ambos de boa saúde. – Agora com seus cachorros fiéis e muitos “boys” os primeiros puxados por trelas para desconfinar, quem pode imaginar um critico apanhando as sobras do seu amigo pelo chão nas ruas desertas?! Ninguém. Que para Fialho “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato… artista até ao requinte… sarcasta até à tortura….”.

Foram homens reunidos à volta da Imprensa e com ela forjaram os seus ideais numa época de viragem e grande vontade de mudança, exercendo este labor com afinco e prodigalidade, Fialho, não gostava ainda de Fradique Mendes, e entre jornais as suas questões eram o melhor testemunho da riqueza vibrante das ideias, fazendo da língua um legado tamanho que não há mais que ser lembrado.

26 Mar 2021

Platero

De forma a esconjurar este ambiente triste em volta – e à volta do mundo – lembrar os seres em vias de extinção e o seu legado amoroso na vida das culturas a que pertenceram, Platero, um burro, leva-nos a revisitar o sul ibérico, Andaluzia, terra de mouros e ciganos, de laranjas e de flores, de tudo o que é bom nesta parte do mundo terra de antigos califados.

Jimenez, andaluz, traz-nos a atmosfera que também podemos encontrar em Lorca para percorrer esse salão grande da memória meridional. Jimenez – Juan Ramón Jimenez – levou-a para o mundo e dele recebeu um Nobel de Literatura na qualidade de Poesia, e a Andaluzia em peso está ali plasmada como que a dizer que uma certa grandeza se alcança quando levamos o solo natal inalterável e alheio às influências que o modificam. Num tempo tão urgentemente ecológico, havia ele lembrar os conhecimentos imprescindíveis que educam a sensibilidade para que se faça em harmonia com o chão dos sonhos, mais importante que fazer neófitos que declaram sem filtro novas formas de totalitarismo. É nesta componente que a preservação se dá, não por dogma, mas por uma doçura ambiental que as ideias nunca alcançam.

Não iremos encontrar aqui nenhum antropomorfismo, não é uma fábula, nem tem conteúdo moral, também o autor rejeitou que apelidassem de uma obra para crianças, e entende-se bem porquê, a entrincheirada escrita juvenil não é muito do agrado dos poetas, mas só eles sabem como fazer para que o maravilhoso fique intacto para todos, e as crianças serão as primeiras a saber desse efeito: a actual literatura infantil está ainda a abarrotar de componentes estéreis que podem estar a afectar os dons oníricos das próximas gerações.

As crianças conhecem dinossauros, mas suspeitamos se conheçam burros, a velocidade a que foram rasurados os nossos amigos próximos, pode ter criado efeitos mentais não muito explícitos para que se possam já analisar.

Amigos! Sim, a obra é a de uma amizade, e ela dá-se entre várias formas de vida, de espécies vivas, e porque, e sobretudo, nós os mamíferos temos um profundo sentimento de empatia uns pelos outros, esse encontro de vidas é certamente a mais viva componente de respeito por ela que aqui o poeta nos traz. Ele fala de, e, com Platero, com a narrativa limpa, o respeito intacto, e o carinho mais intenso, ele percorre então todas as rondas dos caminhos e são ainda os seus olhos de água que dão fôlego à narrativa e nos lavam a alma sujeita a tanto estilhaço de divisão colectiva.

Teremos de interpretar tal obra como uma consolidação do poder narrativo do seu autor que não poderia no entanto ter feito outra coisa que prosa poética « o poema em prosa existiu desde sempre, como o conto, e o poema em verso ou o ensaio» editado pela primeira vez em 1914 a reedição de 1917 seria aumentada, esta, já com componentes de crítica social tendo cento e trinta e oito capítulos que desejou estender sem sucesso até aos cento e noventa.

A primeira edição é por isso mesmo a mais indicada para a leitura das novas gerações, que no entender do poeta, as crianças deviam ler o que lêem os adultos, dependendo das escolhas, evidentemente. Ao prosseguir esta jornada damo-nos conta do impressionante efeito visual, como se lêssemos uma pintura descritiva e cheirássemos ainda aquelas rosas com que cobriu Platero ao mencionar-lhe que caiam, e esta vastidão de encanto é toda ela uma vitória dos sentidos. Não precisamos de construir a nossa própria atmosfera dentro da narrativa, entregamo-nos a ela como fazem os amantes, e tudo isto é ainda melhor que os seus desejos (componentes do outro que por excesso nos recria) é uma lembrança muito boa da maneira maravilhosa de gostar. Também há dor, Platero morre, e não há espaço livre no coração que o descreve para a esperança imediata. O luto é entendido como uma paragem recomendada no processo da separação, e de lá saem as sombras negras das mulheres viúvas que o sul tão solar sabe fazer azeviche, como se esse processo, todo ele fechado e só, fosse uma dádiva, a única liturgia para dizer adeus.

 

Platero, tu vês-nos, não é ?
Verdade que vês as crianças correndo…
Levando mariposas brancas….
Sim, tu vês-me.
Creio agora ouvir …. a tua voz tão minha.

A alma de Platero não é mais pequena que a de qualquer um de nós, e a saudade que deixa, menos importante que uma outra saudade. Mas isso, só quem ama – esse que abarca o todo em todas as criaturas- o poderá compreender.

10 Mar 2021

Bandeira

Já não nos interessará muito içar a bandeira aos ventos maus que varrem agora o mundo, pois que ela pode até rasgar-se no topo dos edifícios onde drapeia sem verdadeiro sentido. Se esse mundo é agora um só – ele não tardará a ter a sua própria -, talvez uma manta de retalhos com todas as outras configuradas em pontos e com meia dúzia de iridescentes marcas a salientar quem o comanda. Pensar agora nos imensos e outrora países embandeirados, é como estar a observar os quintais anexados pelo poder da grande tribulação. Tanto quisemos os nossos territórios que nos caíram os dons imediatos da defesa. As bandeiras, essas, serão sempre mais para o futebol que chegam bem para lembrar a última honra das Nações.

Mas falamos de Bandeira, Manuel Bandeira propriamente dito; Bandeira que honrou a nossa língua comum como brasileiro e como poeta, e que hoje estaria irremediavelmente envergonhado enquanto cidadão. Manuel Bandeira foi um poeta extraordinário! Pertence ao modernismo brasileiro, à geração de 1922, em parte, e foi a vida inteira um homem de saúde frágil, mas teve uma vida tão preenchida e culturalmente tão intensa, que só nos damos conta disso quando olhamos a sua imagem, que mesmo assim, é cheia de tenacidade! E as inúmeras influências que sempre relevam a qualidade literária, tinha-as ele em abundância, Bandeira não escrevia “poesia” Bandeira era um poeta: foi também inspector geral do ensino, professor de literatura e membro da Academia das Letras, tradutor, suas crónicas são também lendárias e dadas por uma perspectiva de ternura com uma audaz capacidade critica que fazem do seu estilo ensaístico o nunca vigorar como perspectiva de romance, o que só por si lhe dá um muito maior interesse. Era um espírito arguto, e sem sombra de dúvidas que a sua elegância era um elevado dom. Estas pessoas desapareceram do nosso pensamento como se fossem espectros, e o mundo tornou-se uma massa inorgânica incapaz de reconhecer nas lides humanas a sua função civilizadora.

O nosso poeta fora também alguém povoado de juventude, o que o norteia para a lide da renovação, ele o afirma «não é que eu tenha em tempo algum procurado os novos; jamais procurei ninguém o que da minha parte era timidez, não orgulho» o que o situa inegavelmente num homem cheio de futuro, e como bem vê a ciência hoje, o ser mais inteligente não é o que consegue procurar soluções de sobrevivência, mas aquele que vê e está sempre mais perto do futuro. A geração onde se iniciou, ainda não era a sua( não o será nunca para um poeta da estatura de Bandeira) estará troncado na geração de 45, e aí, ainda há-de dizer que há uma meia dúzia que não o toleram nem como poeta nem como homem. O que menos interessa a um poeta é o amor do próximo! Ele também diz não gostar de si, e achar irremediavelmente impossíveis os que dele não gostam.

O grande poema como o idolatrado «Parságada» não deve ser lido na correnteza das emoções desencontradas e desejos arbitrários- Parságada, campo dos persas- um país de delícias, será mais um arrebatamento absolutamente civilizacional, e é aqui que os poetas acontecem. Não há rotas geográficas que os definam, mas há caminhos por onde têm de passar. Nós já demos a volta ao mundo, mas há lugares no mundo que ainda oram aos poetas, é lá, com os antigos persas, e orar dessa maneira será sempre a mais elevada manifestação poética.

Bandeira é um caminho a seguir nas inusitadas manifestações que atravancam de desdém a Língua Portuguesa numa incapacidade onírica que explode de insucesso. Se não os reabilitarmos, este e outros, estaremos a atraiçoar a alma das fontes vivas que deram o melhor da consciência de uma língua, que falada por muitos, é cuspida por muitos mais, num insuportável desdém onde no cimo só jorram as ideias feitas. E para criá-la, quantas vezes perto, a morte ronda! Não teve filhos. Os poetas não devem ter filhos que para anátemas chegam os sortilégios daqueles outros que jamais serão dignos das suas presenças.
E agora, vamos embora para Parságada.

«…em Parságada tem tudo. É outra civilização. Tem um processo seguro de impedir a concepção…
…e quando eu estiver triste, mais triste de não ter jeito, quando de noite me der vontade de me matar
lá sou amigo do rei – terei a mulher que quero na cama que escolherei».

Ele deve ter vindo ainda dos antigos bandeirantes.

1 Mar 2021

Desolação

O Inverno pandémico traz uma consternada atmosfera vista de qualquer ângulo o que impõe uma severa contrição interior. Contribui para isto muita desigualdade social que se transforma em fragilidade humana face à magnitude dos ciclos transformadores. Mesmo que o Sol brilhe a desolação não é menor, nesta altura não aquece, e por vezes, essa claridade torna-se ainda mais ameaçadora. É a vida agora uma parede húmida por onde escorre um fio de água doce de doçuras amargas, que nós, estamos sitiados na enxerga dos pesadelos e das insónias com populações envelhecidas e sonâmbulas. Subitamente vimos como a Europa é um continente envelhecido e frio por um calor qualquer que se foi.

O mundo de Janeiro parece nesta latitude e com a dimensão viral em mutação um aglomerado de fantasmas, uns falantes, outros mutantes, e muitos, paralisantes. Não tem havido espaço para recapitulação, e os desejos frouxos vão apenas até ao restabelecimento daquilo que fora interrompido fazendo do acontecimento global um interregno estarrecedor. Enquanto isto, há excepcionais trabalhos que avançam, que abrem cortinas de interesse maior e permitirão sem dúvida conquistas breves do estado de consciência tais como, teletransporte de mecanismo remoto, falar com os mortos em registo combinatório com um programa de alta tecnologia bem como uma vibrante e modeladora escala poética difíceis de decifrar no instante pela força fechada das necessidades.

A reanimação vem de zonas até agora desconhecidas mas que estimulam a capacidade humana de ir fechando capítulos cujos alicerces a própria vida se encaminhou de anular. Dobramos um cabo sem precedentes! Agregados por distância imposta, olhamos melhor o contorno do nosso corpo, e longe nos parecem já os tempos da Hidra das mil cabeças de quando nos deslocávamos febris para amálgama de grupo. Esta consciência espacial só por si recria um movimento novo de orientação, e não estar atento é ficar irremediavelmente em estado de sabotagem, desviando os dons para uma obstrução perigosa. Deste conflito nascem todas as teorias da conspiração, todos os vales caídos dos negacionismos, e depois, a loucura, esse perigo que grassa como lepra pois que a energia estagnada se dissolve em pranto.

As capacidades transgressoras não vivem bem neste domínio desolador, se acrescentarmos a isto a incerteza endémica de cada nação para os «amanhãs que cantam» ninguém no seu juízo perfeito desejará ouvir muita coisa, que ditas em modelo salva-vidas parecem tão só um mecanismo para náufragos. Unir pontes requer audácia, e estar sentado a falar para ecrãs com vultos obscuros do outro lado à espera de salvação, não é a manobra certa para sair disto ileso. Por outro lado, já mergulhamos em transparência, o que faz do lastro insano uma urgência para o findar; tudo já tinha passado diante dos nossos olhos, continentes inteiros que arderam, florestas comidas por longas e altas labaredas, vastíssimos ecossistemas dizimados, finas camadas de gelo – que o Ártico foi estilizando na horizontal até nos chegar em grandes inundações muito para cima dos calcanhares.

Desoladoramente atingimos o cansaço de grupo mais rapidamente que a imunidade, pois que ninguém se encontra nem impune, nem imune, face à sua própria circunstância. Ter visto tudo isto sem suspeitar em mudanças bruscas com efeitos letais configura um quadro de cegueira colectiva que não desmerece um acordar com assombro e curvatura de coluna. E mesmo assim, muitos há que sem recurso a inteligência associativa e em plena era da artificial, não viu, não ouviu, nem quis saber. Perante factos tão desoladores como o frio impassível do Inverno da pobreza generalizada que é como água fria escorrendo entre lençóis, da transumância das reformas em regime de abstinência, da dúvida intragável do amanhã, zumbis e homens dão pela primeira vez as mãos para a grave travessia, que os regimes mundiais apelam a ambos para as eleições com a mesma legitimação.

Vacinas já existem, vacinados também, uns querem outros não, e o medo de obedecer tornou-se mais paralisante que o medo da desobediência, o que pode colocar em risco a construção do conceito de Liberdade que é a única que ainda dita a Condição Humana. Em certos períodos a Liberdade é radical. Saber que o que se quer ou se deseja é apenas um capricho face à sua eloquente voltagem que estando muito acima dos graves apetites pode eletrocutar incautos, é saber que ela como conquista não deverá dar voz aos seus intermitentes usufrutuários. As opiniões destes inválidos deve ser norteada com admoestação pois que eles apenas gritam para acordar fantasmas adormecidos como a tirania.

Esguios e frios como Catedrais os nossos dias avançam olhando a Abóboda do Mundo. É que ainda pode haver coisas não nomeáveis a concordar para nos surpreender sem o arrastão do primeiro impacto.

10 Fev 2021

Algoritmo

E agora que o tempo nos transformou, a natureza antiga pode passar despercebida.
Somos o requiem, dilatado coro de proscritos, e já assassinámos nossos gritos.
Ficámos sentados a ver o tempo chegar, lento prosseguir…
Exemplarmente os nossos assentos são formas de morrer, selado, o tempo de viver .
Quase não temos nome, nomeamos as vozes mas não sabemos quem são.
Este interregno é um local sem rota.
Agora é luz gritante a maravilha, e se o amor bastasse o nosso nome o ergueria.
Mas não bastou. Estávamos protegidos pelas forças da terra, hoje a alma acorda
A superfície é larga, está longe e quase nos afoga. Quase Inverno que pensamos ser Verão.
E as gentes carregam suas vidas agarradas a si como únicas, e a dimensão partida segue a
Viagem da imensidão. – A vida de cada um , não quero escutá-la! –
Para ela, a ilusão de pensar que a têm, fechada como os tesouros, pois que a morte é muita
No Ano das nossas vidas múltiplas.
Nós submeteremos as vitórias aos rigores, e se não os sentirmos, nem por isso paramos de tentar. Lentos os movimentos das coisas… enquanto o evento seguir estamos expectantes, por vezes choramos, e seguem-se desistências, mas não para as lembrar.
Tínhamos mais sentidos que quando percorridos nos levavam ao céu, e de tão sonhados ainda cantava em nós querubins de um deus. Tudo esvaziado, e deste lado não fazemos mais que dizer adeus. Aos que estão, aos que partem, aos que não estão e se debatem.
E reinos outros, outras Nações, andavam em brandas asas quase esquecidos da folhagem, que ardeu, foi ardendo, e o ar que respiramos talvez esteja envenenado, e no corpo doendo o que pensamos ser efeito, são as voltas de uma alquimia votada ao realejo.
Cidades escureceram quando as florestas em brasa falaram essa dor- os dias da escuridão- bíblicos são, porque vêm lembrar os actos das nossas mãos. E mesmo assim, insistimos que eram os animais e outros hospedeiros, que de tão próximos não extinguem o lume feito pelas fornalhas que deixamos acesas.
Explicamos os males com males menores, e mesmo assim eles poderiam ter sido bem maiores. Não há já lobos no povoado, mas vimos entrar nas cidades os animais calados que a nossa segurança consentiu. Entraram sem pedir licença, e o que é certo é que tudo pareceu de repente mais bonito, presenças livres em forma de mito.
Fizemos isso a nós mesmos, atirámos para fora os que não eram da cidade desejados, coisas que nos avisavam da tormenta da exclusão, retendo perto todos aqueles que utilizávamos para o interesse da nação. Mas as pragas não se calam, nem a vida consente mais sofreguidão. Avançamos cambaleantes para os antídotos, talvez outras coisas aconteçam, e sejamos nós a formar os nossos guetos.
Imponderáveis são todos os sinais, mas não os sentir chegando, é mais, muito mais do que esperávamos ter visto. Dar a volta ao mundo parece mais fácil do que imagináramos, e talvez ele já seja pequeno para os males propagados.
Devemos esquecer a treva e voltarmo-nos para os trevos, sabendo que tudo acontece em linha de montagem para a resposta rápida que se tornou em percepção um pouco mais pequena. Encontramo-nos aqui, parados, mas valorizando o movimento.
Que seja de vento a velocidade do arranque e nele tenhamos sentidos que caminhem protegidos das mortes de antes. Um ciclo se fechou como reposteiros rasgados , assaltos empilhados , derrotas devolvidas. Sobreviventes fomos às nossas próprias armadilhas!
Conseguimos, no entanto, ver no todo o tudo que as coisas são. Ligados estamos, e nos ligamentos começamos a nascer de dia para o dia, que a noite serenou. Menos atrito, menos detrito, menos coragem? Talvez. Já não somos abundância e quebrámos a imagem.
Tudo vem de mais longe, de um ponto não esperado, e se esperar é agora um sinal, que seja largo. Reduzir as inércias devoradoras, ampliar mais caminhos, que o futuro brilha como um astro e já não é sozinho.
Cumpra cada um sua missão, que a vida não baloiça como as bolsas, mas pode abrir fissuras com abismos de extrema largura que vão engolindo as brumas e os que aqui estão.
Tudo o que é novo virá como um ladrão na noite.
Única solução.

2 Fev 2021

Turcos e Bordados

6 de Dezembro de 2020

Com a cidade semi-deserta uma das coisas boas é sem dúvida ir lendo os nomes dos estabelecimentos comerciais e tentar entender a nomeação de tais espaços. Se nos dermos conta, só mesmo as lojas chinesas que já estão em maioria por todos os lados, escusam designações de qualquer género, o que se entende, dada a profusão de mercadoria diversa e em nada coincidente. E este deambular numa terra de titularidades é um exercício também ele linguístico acerca daquilo que o denominar abrange, e vamos aos turcos: de repente, pensamos no Império Otomano, em Solomião o Magnífico, Istambul, cidade entre dois continentes, e chás no deserto — mas não — apenas passamos por uma loja com o nome «Turcos e Bordados» e é bonito!

Para um qualquer transeunte de outros lados reparar nisto deve causar estranheza, mas há quem conviva com certas coisas com tanta naturalidade que nunca pensou nos turcos, e ainda outros para quem não aquece nem arrefece, e é aqui, na manobra da correlação que entra a temperatura; as toalhas turcas! Um tecido todo feito integralmente de algodão para os famosos banhos que séculos de domínio islâmico aperfeiçoou. Quanto aos banhos, são também eles um legado greco-latino, só que uma religião monoteísta requer práticas constantes de higienização fazendo de tal labor uma prédica mais, por vezes até bastante compulsiva.

É, sem dúvida, um facto que um pano por si mesmo não é nada, o que faz que se possa acrescentar toda uma técnica decorativa que transponha o seu carácter de objecto, e, por isso mesmo, na loja lhe acrescentem, bordados, que sendo esses panos “turcos” ainda suportem a delicadeza de tais artifícios, é obra! Mas um verdadeiro exemplar, tributado numa mancha iconoclástica tamanha, levará apenas franjas na ponta e riscas no fundo, o mais perto de um tratado geométrico simples, requerendo-se leve para se tornar absorvente, e quem estiver ainda muito distraído pensará que se trata de um «talit», o manto da oração, que sendo aspectos aparentemente transversais nos mostram bastante da natureza das coisas, que quanto muito, e neste caso, poderia fazer sentido uma loja «Turcos e Molhados». As franjas mostram somente que Deus nos toca indelevelmente, e sempre, em regime de extremidade, quer estejamos a tomar banho ou envoltos na oração, as riscas indicam a impossibilidade, talvez, de recorrer às imagens, mas Lisboa, é como Constantinopla, outra cidade das sete colinas, e no que diz respeito a Impérios sabe também que estes se esfrangalham, e na derrocada, as bases de uns vão formando outros, como as lojas dos tapetes persas chamados «Aladinos» que não raro têm inscrições de Arraiolos. Que os há! Bem perto até dos «Turcos e Bordados». A simulação da oferta é uma mais valia com que os puristas não contavam, e também é neste cruzar de dados com o nosso cristianismo pagão que vamos construindo estéticas desconcertantes e admiráveis.

Bom, mas também é certo que a cidade está cifrada. Os nomes em inglês, as ofertas tresvariáveis, as coberturas de pequenos cubículos sem graça nenhuma, a não ornamentação do minimalismo mórbido, mais os eloquentes «Pés de Salsa» convivem como se cada um vivesse num planeta distinto, mas que não deixa de fazer os encantos destes olhares. Como ainda não se pode ir naturalmente a lado nenhum, não raro apetece muito um «-hamame-» e em seguida jantar uma bela chanfana com vinho tinto, o que não afecta de todo a distância a que está cada um destes prazeres.

Os “turcos” podem ser bordados, e nós não reparamos nos lindos monogramas que representam o grau de familiaridade: avô, mãe, pai, filho, e se os tecidos engrossam é por que há mais algodão e não precisamos de secar tão depressa. Na cidade antiga, ainda existe a «Camisaria Controle» e os «Lençóis tipo Zé» o que dá uma tónica indispensável à sua humanização. Coisas que já não dizemos nem escrevemos, mas tempo houve em que se podia dizer e não escrever, o que ficou conhecido certamente pela frase popular «o que tu dizes não se escreve». Nestas linhas, como nos fusos de tecer, há ainda muitos Impérios, e os turcos ajudaram à queda de alguns, foram pioneiros nos Holocaustos do século XX, tentaram derrubar o nosso, mas, o seu fascínio persiste, pois que estamos em cidade de califado.

«Istanbul (not) Constantinopla» nem o Santo Sudário, uma peça de linho para os dias de maior calor; mas que estes panos são grandes monumentos, isso, ninguém duvida. Lojas abertas com inscrições várias precisam-se para manter a economia de bairro bem desperta (a venda de relíquias está proibida). «Sudário & Filhos» ao lado de «Turcos e Bordados» e ainda Maomé bordado numa nestas toalhas com a inocência estrangeira das multidões.

25 Jan 2021

O futuro radioso

Precisamos das contribuições de certos títulos para sair de um Ano cuja radiação foi catastrófica, Alexandre Zinoviev anteviu muito tempo antes a derrocada da U.R.S.S em várias sinopses que poriam fim ao slogan simbólico e triunfalista de um radioso futuro da Humanidade. Política à parte, trata-se sempre de saber ver que os grandes empreendimentos ideológicos se separam da realidade e que as pessoas não cabem em nenhuma estrutura socialmente modificável, eles avançam, e as pessoas ficam, tão iguais a si próprias como sempre foram, máquinas audazes de sobrevivência. Se trilhássemos todos os países veríamos sem dúvida nos movimentos sociais que estivessem em curso a mais intensa fé dos homens e o seu grande vigor antes dos regimes assentarem os seus dogmas como mortalhas.

Os ciclos extraordinários dão sempre mais do que tiram, e ainda atiram para as urtigas o ranço da estabilidade mórbida que deve ser coercivamente abalroada por uma nova ordem em marcha, nesse momento, soltam-se forças de uma extrema alegria de grupo que duram pouco, mas produzem o melhor. Devagar, voltam então os tiranos com novos emblemas e não se lhes pode exigir grande coisa, a menos que estejamos em Democracia, a qual se tem tornado uma ilusão mergulhada em grandes equívocos nestes últimos tempos em que os amanhãs que a cantam ficam já nas calendas dos radiosos futuros. Se Estaline fez um acordo secreto com Hitler, de pouco ou nada nos valerá para ajuizamento, mas diz o bom senso que nunca se deve confiar nos loucos. Mas também é certo que os negacionistas atravessam-se em todos os ciclos históricos; carregam a gratidão com tanta ferocidade que se torna difícil qualquer confronto lúcido. Longe vai o Gulag, longe parece estar tudo que a intransigência determinou, mas, será que sim? Em cada dia passado neste já longínquo outro regime sentimos a imponderabilidade da marcha, e quando nos levantamos para a complexa estrutura que implantou regras fundamentais, vacilamos perante a capacidade de reversão das massas.

«Beber do rio infectado da matança» também podia ser um título que se contrapusesse à audaz radiosidade da vitória, agora, e depois de laudatórias ovações, as sociedades tão extraordinárias como as do Norte Europeu, acabamos por descobrir a produção de seres vivos aos milhares para fazer casacos “fofinhos” para um mundo de pessoas e ideias mais “fofinhas” ainda. – É! – Putin ri-se, e muito bem, das avarias envenenatórias de que o culpam, o que está certo, um antigo director da K.G.B não anda a brincar aos espiões e muito menos a falhar os alvos, e as razões aparentemente metafísicas de ter ajudado ao desastre não devem ser expostas assim com aleivosidade ocidental que se baralha toda na labuta pela verdade. O futuro do seu país pode não ter sido radioso mas será sempre suficientemente imperial para não deixar de estar atento aos fluxos da radiação do mundo.

Foi um tempo que nos incita agora a pensar na travessia das coisas, e se as ordens de expulsão exercitaram as quedas, hoje mesmo, ninguém sabe para onde fugir, e o que se nota é que tudo cai sem recurso a uma exclusão. O futuro tem cintilações tais que podemos não saber ver o que para aí vem, e se fugirmos para a frente, mesmo assim ainda carregamos os espectros dos passados longínquos, e estas órbitas chegam a um ponto que regressam aos mesmos lugares. Só nós fomos caminhando loucamente na deriva de poder apanhar a nuvem, que era Juno, a modernidade que agora se esvai, e a inventividade que se cansa e produz efeitos cegos para a Cidade única em que se tornou o mundo.

O cientista russo da vacina acaba de cair de uma janela do décimo quarto andar – e voltamos ao soneto – que a poesia já não é prosa, e dela se deitam os cientistas antes de acabar as suas invenções. Com esta suposição de homicídio, o que estava a preparar o senhor para tão vertiginoso fim? O futuro pode até ser radioso, mas nunca transparente. Zinoviev, esse, continua a ser o nosso Pai Natal da Sibéria, o dissidente do passado que nos inspira a conhece-lo e também a saborear a ironia mais audaz como forma de manter viva a lucidez. E nada mais belo que «Ivan o Terrível»!

Sou mesmo Ivan. Até dá riso
Ficar para prá´qui a criar o paraíso,
Para que os nossos filhos se venham a queixar,
Que nome Levi não se possam chamar.
Mas para ser justo, digno, perfeito
Demos a Levi o que é por seu direito.
Já que foi Levi e não Ivan quem se lembrou
De criar o paraíso e a ideia executou.
Forjando um Éden para a sua descendência
E assim levando o pobre Ivan à demência.

5 Jan 2021

Konstantinos Kavávis

Desçamos a Alexandria e nela tentemos focar a imagem do poeta, ao que se sabe, um homem bonito que na sua cidade foi compondo aquela obra de fronteira, tão universal, quanto cheia de Impérios e de areias, tão do corpo, do corpo tocado, da forma soprada, que Alexandria é como as lendas e Kaváfis um puro encantamento dentro dela.

Que nós, os mais naturais, pouco entendemos de fascínios e quase esquecemos a espionagem da Rota da Seda – a rota da Civilização – circuito onde toda a beleza e perigos algures se cruzaram. O poeta tinha no sangue todos estes caminhos desde a Pérsia, à Arménia, à Macedónia, Constantinopla pela herança helénica, e mesmo assim não vamos encontrar nele um ser histriónico, entusiasta, antes pelo contrário, foi um homem metódico, escrupuloso, secreto e burocrata, distinguindo muito bem os papéis do seu próprio destino. A sua obra também não foi prolífica – 154 poemas ao todo que passaram a livro póstumo e que durante a vida ele editara em panfletos, folhas soltas, num sistema de divulgação muito popular na Grécia, em neogrego, a língua do Oriente helenizado que Kaváfis faz brilhar na sua vertente linguística.

Mesmo em Alexandria poderemos dizer que não se encontra separado da sua geração no que respeita ao estilo da corrente Simbolista, mas ele não fará nenhuma alusão específica e foi ainda possível conhecer-lhe melhor os passos através do célebre «Quarteto de Alexandria», de Lawrence Durrel, que o retrata para o fim como um ancião cosmopolita avesso, no entanto, à luz eléctrica, gostando da penumbra e optando por luz de velas ou candeeiros a gasolina. Mas era a sua «noite iluminada», revestida de boémia, que o introduzia na saciedade dos corpos carregando a sua homossexualidade como um anátema social que não lhe roubara nenhum prazer saciável que tanto sentiu diante da beleza adónica.

É que Kaváfis era um esteta e nenhum moralismo lhe tiraria as forças e de tal forma um ser erótico que soube dizer como jamais escutámos no poema esta conjugação de aspectos: «esforça-te, poeta, por retê-las todas (as imagens) embora sejam poucas as que se detêm/ as fantasias do teu erotismo põe-nas semiocultas, em meio às tuas frases» esta reserva, este sentido do oculto sem no entanto anular a carga da mensagem, conferem-lhe pleno poder de concisão e vigilância que lhe permite estar atento ao dolo intranquilo de todo o prazer que não é selado. Talvez que a sua própria vida lhe desse a conhecer o limite da beleza enquanto acto transgressivo, e que nela, no pico mais alto, se correm os maiores perigos que contribuem para elevar essa busca ardente.

O poeta viajou mas é como se nada disso o tivesse impressionado. Ele era da sua cidade o amante dilecto, «aquela em que nunca chegou pois nunca partiu» e sabe-se que gostava de palmilhar a pé quotidianamente os seus bairros, falando de forma casual para quem o quisesse ouvir da sua poesia, onde fumava demoradamente uma longa piteira e se foi constituindo assim um ser sem grande propensão para outras demoras. Havia uma certa antipatia nos centros das esferas literárias que não entreteve com querelas e criticismo vão, para além de nunca lhe ter sido sensível o factor político ou social. O “bas-fond” da cidade deu-lhe as imagens mais representativas e talvez no limite se sentisse por elas subjugado por sua própria natureza poética, que não raro toca o desespero e o vazio de viver, e talvez aí a sua comoção fosse para além do instante e encontrasse matéria para os temas transformados na maravilhosa narrativa que foi afinal a rescrição continua dos seus poemas.

Aqui vemos o perfeccionista, o homem que se demora a contemplar e a corrigir exaustivamente a sua obra, sem tempo para continuar a outra que o reino da quantidade gosta de esvaziar nos incautos bloqueados. O seu tom confessional nunca fraquejou embora não nos demonstre jamais o seu martírio, será talvez esta sobriedade que mais o coloca na senda aristocrática de um sangue grego antigo de que descendia. E quando, e quanto ao corpo, há um estremecimento nessa forma tão bonita de o mencionar ao dizer: «Lembra corpo, não só o quanto foste amado, não só os leitos onde repousaste/mas também os desejos que brilharam por ti em outros olhos claramente/agora que tudo isso se perdeu no passado, é quase como se a tais desejos te entregaras/e como brilhavam, lembra, nos olhos que te olhavam/ e por ti na voz tremiam, lembra corpo».

Por ele embarcámos para Ítaca numa viagem de coragem e de amor, aprendemos a não apressar o passo e a refrear as ambições, fez-nos ainda predestinados e atentos através da ilha que é a sua alma velando por nós todos à escala humana, alertou-nos para o perigo das construções que podem ser maléficas sempre que as invocamos mal na nossa mente, olhámos ainda a beleza do altivo espírito do pensamento e a importância maior de não abrigarmos espectros. Fez-nos esperar pelos Bárbaros (que contemplam aqueles que a Europa hoje deixa a morrer no Mediterrânio) com alegria e satisfação logrando serem a única solução, sabendo que vinham das tribos festivas do mundo onde se compunham os orais poemas da sua virtude. Conseguiu remeter o fio do tempo para ciclos antropológicos que ninguém consegue ver o que abrigam de riqueza e oportunidade, causou-nos a maior abertura para vermos que padecemos de um desconhecido medo e que os ciclos históricos são como as vagas dos oceanos, navegamos por eles. Lembrou-nos os Oráculos no «Prazo de Nero» e a sua geometria do destino talvez apontasse também ela para uma certa predestinação, nascido a 29 de Abril de 1863, nesse mesmo dia morreria em 1933. Não foram os Idos de Março, esse temor antigo de que fora afinal um célebre guardião.

Não me deixei prender. Libertei-me e fui em busca de volúpias
Que em parte eram reais,
Em parte haviam sido forjadas por meu cérebro;
Fui em busca da noite iluminada.

29 Dez 2020

O olhar que nos mata

Em toda a longa marcha a visão entra como forma de julgar e esculpir a Humanidade, quer como conceito subjectivo da noção de beleza, ou invólucro da substância do desejo, ela tem forjado um sistema dúbio, intenso, desagregador e ilusório no mais desperto sentido que se tem tornado sempre mais voraz. O ilusório exercício de quem vê, não será menor que o daquele que se mostra, e tudo se plasma em visualidade que exprime uma certa inocência. Mas existe um outro olhar, bem mais penetrante que todas as associações do espectro visual e que apenas olha obliquamente o drama dos expostos, esse melodrama comum de uma deidade infantil que descarrega enchentes de bloqueios para os outros sentidos com o gritante reflexo que lhes esconde: de que se reveste a intromissão desta lente cujo filtro se rompe ao captar o contemplado? De muitas coisas, e de um poder terrível!

Górgone, lembra-nos sempre, e os gatos dizem-nos constantemente quando assumem a grande antipatia por quem os tenta deslindar, não gostando dessa devassa grosseira da observação intensa. Deus de Israel não permitiu que Moisés o contemplasse pois que este morreria, Eurídice desapareceu, e a mulher de Lot transformou-se em estátua de sal.

O Olho Galáctico, ou o que Tudo Vê, aproxima-se deste conteúdo, gera o propósito do anunciar com as pálpebras fechadas quando a sua voz é tudo o que percepciono…! Deixei de ver por desventura de superabundância de imagem humana e quando o faço, sinto uma náusea tão estranha como um lamento macerado de perplexidade, um anzol com pinças nas pupilas puxado por ímanes agonizantes, ver tudo em compressão nesta fartura inexpressiva no rosto e nos corpos dos milhões que se expõem, é quase abismo e perdição. Uma crendice que se alonga nas amostras de todos os receituários e dá estampas de intolerável entretenimento, e é esta desolação sem nome que atrai o mau olhado que anda no mundo e poucos reparam como sendo a rara coisa viva. A vulnerabilidade dos expostos em suas anatomias gera o pânico, que o lamacento olhar a todos calcina, e sem nada que os segure de si mesmos, na mira do Olho que vê nas Trevas, passeiam-se sem condições, as criaturas.

O que vemos é aquilo que querem que se veja, são armadilhadas, todas as imagens, lúgubre fachada que não escapa no entanto aos que as trespassam, e todos os sedentos da circunstância do visível acontece-lhes nunca serem a mariposa que desejam ver desabrochar em outros olhos incautos. Quem vê é quem cheira, e o que penetra, vê-se de tal forma por outros ângulos, que nada do que está em regime vigente no olhar pode causar a mais ínfima sensação.

Fechamos os olhos dos mortos por delicadeza e respeito, olhamos a desordem com mágoa, desviamos o olhar da densa combustão dos corpos, pois tudo o que não devemos ver se nos apresenta como um transtorno grave, pensamos deslindar as capacidades dos seres pela legenda das maceradas imagens e elas tornam-se rápido uma forma plana por onde correm alcateias de cegos sem sentidos. Um mundo fechado à janela do seu ver cria fantasmas que padecem.

Muito ao contrário da pueril manifestação de «olhos nos olhos» os grandes apaixonados não têm essa prática, eles pressentem-se na névoa dos seus contornos, e quase deixam de ver quando ampliados pela substância de fortes e misteriosos intervenientes outros. O ver dos amantes não necessita de nenhuma imagem nem se congrega ao redor das orientações visuais. Quando todos nos dermos conta do que se passa, ficarão apenas crateras vazias no lugar onde antes encaixaram as órbitas que tiveram das superfícies o reflexo dos loucos quando se põem a caminhar. Sem projecto, nem trajecto, os caminhos que percorrem são cegos, da volúpia, apenas os pés que não se cansam, e a natureza vagabunda de um desleixo sem causa. É onde parecemos andar neste plasma planeta, e pelos seus cantos vamos sentido como se esmagam as vontades e como os dons se esfumam quais Eurídices, pois que a certificação das presenças não passa de uma desconfiança que já não é consentida. Cegados de ver, a grande abóboda Galáxia se apaga pela manobra dos que a olhar se foram para sempre carregados de vasta escuridão.

O caminho do meio não tem imagens e não derrete no quente deserto onde as periferias acordam fazer para o caminhante pequenos oásis, aí, na torreira, nem um disco brilhante no alto é visível como prolongamento do vazio, que a miragem prossegue e a sede cede. O caminhante está sempre ao nível do seu horizonte que não necessita ser lembrado porque são as estrelas que o guiam, e essa certeza é tudo o que se deseja para não sermos escravos da aparência e dos Infernos tenazes que fabricam os sonhos. Existe um vapor pornográfico nesta vertigem das amostras, uma domesticação dos instintos a catálogo, o que faz detonar os circuitos da insuportabilidade quando o estático se move. A indução do efeito visual pode levar a encantamentos colectivos que se tornam agora os mais ardentes responsáveis do perigo comum. A prestidigitação do núcleo orbital aponta uma larga pontaria em grande escala. Nós estamos todos na mira de um colapso. É o mau olhado!

 

Quem olha para fora vê
e quem olha para dentro acorda.
Ditado Alquímico

20 Dez 2020

Cinzas

Quem é este? Ele chama-se Devorador de Milhões, quando está
na colina de Unet.
se alguém o percorre, que se acautele para não cair sobre as facas!
Ele chama-se o Violento, é o guarda da porta do Ocidente.
in Livro dos Mortos do Antigo Egipto

 

E a morte terá por fim o seu domínio sobrepondo-se ao abandono a que tentámos reduzi-la. Um tempo que a disfarçou em emaranhados silêncios, encruzilhadas que a subestimaram com os depósitos excrementícios da novela de má qualidade das vidas, que ela, mesmo empilhada, incinerada, esquecida e escondida, é a mais precisa das fontes, que a seu lado, toda a expansão se reduz a uma gigantesca avaria mecânica. Mas sim, a morte é sempre triste, a condição é trágica, a vida demasiado curta para contemplar tanto definitivo, mas impressionantemente há coisas piores, como o não saber lidar com ela por não haver vida que se consinta a ser vivida, só existida, assistida… estamos em viagem de cruzeiro esquecendo por completo a Barca. São os tempos em que as crianças nunca foram a um enterro e queremos delas sempre outras coisas e mais, por isso as doutrinamos ao ponto da sujeição, da utilização, em aglomerados de insanidade sempre com temor injectado nas veias para o caso de perguntarem algum dia por aquelas coisas essenciais. Uma sociedade de argumentistas saberá a um tempo ponderar a propósito daquilo que a diminui face ao corpo vital das provas, por isso se reveste de uma higiene que a imortalize e de uma segurança que lhe permita um certo elo de perenidade.

E eis-nos no caminho mais temível que é o do sorvedor das cinzas: quando nos tiram os corpos para as incenerações num lustral nazismo sem mácula que nos faz acreditar até em goelas necromânticas que se escondem mesmo por detrás das câmaras de extinção. Esperamos acabrunhados para que tudo esteja reduzido a pó, e que a natureza emocional de cada um impluda para níveis de relativismo programado. Tudo isto é tido como uma prática normal e desejável para a não expansão de corpos na Terra por decomposição em profundida, ela, que continua cada vez mais pequena para um enxame de gentes cuja felicidade as espera logo ali ao virar da esquina. E as pobres pessoas bem-intencionadas lá andam a acompanhar o vazio ardente de um momento que se evapora mas também lhes inspira alguns súbitos galanteios à vida. Toda a litania fúnebre se desfaz, e as carpideiras, esses abençoados seres que evocavam o tamanho da nossa dor, tão esquecidas foram que se inverteram os cânticos. A morte não gosta disto, e como tal, foi precipitando a nossa demanda, temos só números e poucas vozes por parte daqueles por ela visitados, o que faz ultrapassar em muito o que é expectável. – Sem querer entrámos no domínio da Besta com a plumagem de lindos Cordeiros, amigos de Lobos, em marcha para a liquidação total.

Das cinzas, alguns já fizeram anéis para continuarem com os seus defuntos entre os dedos, e algumas ainda foram espalhadas pelas reservas dos vivos, debaixo das árvores, ou em torrões de açúcar embalsamados com lúgubres indicações por cima, isto dá-se naquele reino da desflorestação em série e no domínio anatómico da sexualidade intrusiva, e nesse fim de mundo de grande superficialidade, abrir uma cova tornou-se um esforço de tal ordem gigantesco que exige argumentos capazes de revirar as tripas do centro planetário. A diferença face ao nazismo primeiro é que não há aproveitamento comercial de outro material orgânico, muito embora o negócio da queima seja bastante lucrativo: a pira funerária está lá para não permitir que se ocupe espaço na terra- a terra- esse elemento abrasivo e lento que ao invés de nos ceder sempre nos resiste… terra, excrementícia anatomia cinzelada pelas nossas cinzas que até fará brilhar os caminhos vulcânicos.

O plano da organização da morte dita sempre a composição das leis sociais, ela acompanha o fluxo das circunstâncias, como o tempo da implantação dos cemitérios públicos a grande medida social das Luzes, democratizando-a e banindo pragas, hoje, é-nos filtrada pela desmesura negacionista e pela falta de um período chamado luto que nada mais é que a salutar época de saber integrar um processo doloroso. Ela surge-nos em muitos contextos pela culpa, relembrando-nos a todo o instante que o mundo está repleto de assassinos involuntários, ou não, mas nunca afirmando que se morreu. Falece, fenece … É! Para o que não se pode dizer todo o eufemismo serve até aos seus sinónimos. Por culpa ou não, nós sempre morremos, pois que somos mortais. Deve haver um culpado para tal condição?! Talvez… talvez não… e neste interregno construamos, isso sim, o direito a ter uma alma, intacta, firme, em altos voos, enquanto o corpo carregado de desamor se encaminhe para um espaço protector. Nesse invólucro habitou uma centelha imortal que não esquecerá a sua antiga casa, só que nesta habitação de poeiras corremos o risco de retrocesso até à primeira ovulação da Terra.

Bom lembrar aquilo que nos define como espécie, a noção do mistério da morte, e que os primeiros altares do mundo foram todos em seu nome. Naquelas pedras erguia-se uma certa evolução de que hoje tanto nos orgulhamos. Por isso, a não podemos esconder.

Só que
Tu
Subiste ao Céu
Atravessaste as águas celestes,
Estás associado às estrelas,
e na Barca te aclamamos.
23 Nov 2020

O Mercador de Auschwitz

Todos assistimos a um recrudescer ficcional do Campo de Extermínio mais doloroso que a mente humana pôde alguma vez conceber, que o Gólgota ao pé dele fora uma colina amena. Em grandes destaques o insólito mantém-se com narrativas e ousadas manobras de “diversão” para os embotados leitores que morrem de fausto fastio numa sociedade onde o capital das contas púbicas e públicas, acentuam a desgraça de leituras improváveis com uma gritante ausência de vergonha. Misturado com isto ainda há muito “ligth” muito Hitler, que agora a sua obra maior e única está por todos os escaparates, disparates, dispositores, editores… Na visão paradisíaca deste amontoado de «super-lixo» logo nos apercebemos das graves estruturas mentais, este anacronismo existe na lógica da usura que frouxamente interpreta riscas, meninos a brincar no dito Campo e pais mártires que tudo fazem para que não vejam onde estão: salta de lá muito improvável, como criancinhas espreitando por arames farpados e meninos bem-dispostos com tão insólitas amizades. Tudo isto à custa do terror, da mágoa calada (as grandes dores assim se manifestam) como se estivéssemos enlouquecidos, ou, pior ainda, incapazes de saber dos limites das coisas. E estamos em directo para o Mundo!

Por vezes dá que pensar onde estamos metidos. Quem é esta gente que vive a nossa contemporaneidade, os nossos concidadãos aqui tão perto, o nível de suporte mental prestativo dos ensinos, as teorias, e a grande questão disto tudo, a usura.- Que mercadores são estes que ao lado Shylock, tão poético… agiota, fino como brasas ardentes, contemplado na obra como a vítima de uma voraz sociedade que catalogando e catolizando, mais não fez que dar corpo a uma ganância grosseira, oprimente e de pacotilha?! O curso da História também se inverte produzindo a obscenidade da mais valia à custa de uma época e de um local que devia não ser mencionado em vão, quanto mais alarvemente usado para fins comerciais! O oportunismo das sociedades “felizes” que viveram ao lado de um povo que teima em desconhecer, ou se o fez, foi apenas para confiscar-lhe os bens que as teorias mais tortuosas impulsionaram para sossego das inconcebíveis barbáries.

O ouro nazi que andou de Banco em Banco por esta Europa fora produzindo tijolos em quilate, foi, por insuficiência mental de muitos nacionais dos países, tido como uma arte mágica de alguns dos seus líderes, e os pobres povos a eles oravam ainda como se fossem Midas. Era uma espécie de edição sobre Auschwitz, mas sem nada para dizer, tudo para arrecadar. Seja como for, este foi um massacre que ainda rende! O mais tenebroso é o inqualificável despudor que nos ficou de uma supremacia qualquer que ousa tratar este tema para fins comercias e não haja ninguém que repare que estamos muito perto do inenarrável.

O sombrio instante de tempo que nos é dado viver, chega-nos também por aqui, que até aqui, fôramos naturalmente silenciados por um mecanismo de respeito e dor que tal acontecimento nos trouxera. Se um povo, cinematograficamente usou e abusou de o mostrar, dar a conhecer, transfigurar, só eles o puderam ter feito com toda a legitimidade, aos outros, impõem-se-lhes reservas. Os becos sombrios de Veneza ainda têm dentro a alma de Shylock que tem guardadas as suas mágoas e rancores, que perdoar é a última coisa a ser feita perante aqueles que pior que nos quererem mal, desdenharam dos nossos poderes e da ajuda que lhes foi dada, e perante assassinos não devemos ter nenhuma vontade de o fazer. A complexidade psíquica é um atributo de Shakespeare nesta sua obra que a suporta nos tons evanescentes de uma poeticidade sem par, e seria muito mau para o usufrutuário não ter a noção da sua falta no meio de um clima de falsos espelhos.

Querem parecer maiores e melhores à custa dos excluídos e dos que foram assassinados.- Pois não o serão!- Este é também um tema de integração e de reposição da justiça, da falsa riqueza insuflada e do ardil dos canibais. É um tema de que não desejei falar, e só a sobreposição alarmante de uma realidade me permite fazê-lo. Seremos ambivalentes no tabuleiro das estratégias, mas deixaremos de o ser quando se nos depara o interdito. -Também não gostaria que se estivesse a ganhar fama e proveito com as cinza dos meus avós, dos meus filhos, dos meus amigos- Que a usura não pode ser tanta que faça de Shylock um aguadeiro ao lado destes embustes por onde passou uma religião que tudo fez para mostrar também o que não tinha.

Para Auschwitz também não irei. Mas quem quiser ser transportado poderá experimentar a “lúdica” equivalência das suas narrativas em tratados de abjecção consentida. Na vertente mais sinistra há ainda a assinalar a voz que entoa, a tendência para negação do Holocausto, o que provavelmente incita em acabá-lo de maneira mais ficcional. E com duas vertentes probabilísticas estas coisas ainda podem indicar o mote àquelas que haverão de resultar em laboriosas tentativas editoriais. Mercadores e mercadoria falhos de perspectiva, pois que em pouco tempo recuámos depressa: mas, como depressa e bem há pouco quem, acontece que as guelras deixadas há muito num mar de antanho começam a manifestar-se. Em Veneza é assim, um Dilúvio a puxa para baixo! E o ar do mundo é o que agora se vê.

Posto isto, desejo boas leituras, que afinal talvez as coisas até nem sejam tão más como as “pintaram” que pintar certas coisas é descrença, e compor outras, um amontoado de lixo para as enciclopédias do esquecimento, talvez dos livros em chamas. Estamos em contramão para o mais improvável Humano. Se dele não ficar nada, ainda assim, a esperança de que venha uma máquina insuflada de alma, e se converta num ser em novas formas. Parece que vem ainda qualquer coisa do espaço a reboque de uma queda prometida, que seja em cima das cabeças humanas e que os faça esquecer tudo, desde a subida a bípede que produziu uma continuada dor de costas. Se nada houver para vender e para transacionar, a alma também já não é passível de ser adquirida pelo Diabo, que cansado disto tudo, foi pregar para freguesias mais sedutoras da Galáxia.

Numa mensagem aos Vindouros acrescentemos que tudo não passou de ficção, e que a realidade, essa, foi como os segredos, não conseguimos contá-la.

17 Nov 2020

Mallarmé

Stéphane era um homem extremamente bonito. Olhamo-lo com respeito e inspiração, como àquelas paisagens por onde um deus abriu caminho e nele nos mostrou locais encantados que até aí desconhecíamos. A sua função pioneira é em si a sua força, o engenho do desbravar tecendo o acaso, que os dados mesmo lançados estão sujeitos a essa estranha partitura. Se ao escutar o poema ele o adensa numa floresta alfabética é porque sabia que ela desliza até à saciedade na sua extraordinária plasticidade. Vamos no seu encalce nesse efeito de ressonância e tudo é símbolo, tudo é convite, tudo é singular (que o Simbolismo nem tudo explica das cargas fonéticas desta mestria) é a sua palavra que gera o Movimento e todos os outros que hão de vir agarrados à entrada do século vinte que para sempre será eterno Modernismo.

Mallarmé media o tempo na composição do seu verso. Há nele uma roda giratória perfeita que sabe trabalhar no ínfimo infinito do que escuta e entende, e se nele nada é fácil, também nada é óbvio: que sentir pode ser maior que escutar com palavras graus finíssimos de um som galáctico? Que sistema desenvolvem certos humanos que lhes permite captar coisas tamanhas? É este Mallarmé o que mais interessa, o poeta como agente delicado de acordes inexplicáveis. Hoje ele não seria possível! Esta espécie morreu, o barulho da perturbação do mundo e do seu enredo fez que para sempre se esgotassem certas saídas de emergência. Padecemos por isto, e não por tudo aquilo que julgamos perturbar-nos.

O verso gera aqui um redentor estado de lúcida compreensão ao atalhar para a «linguagem suprema» onde todas, sem ela, são imperfeitas, e como conduzir ao entendimento sem a consciência do mantra que se desfaz em todos os recreios onde quiséramos que existisse? Aguardar! – Temos de aguardar. Sabemos que não estão lá os signos que faltam para este magistério, e que, a poeira dos ensaios incita à obscura análise e ao estéril desejo. Não deve o ser esforçar-se demasiado por aquilo que nunca será o seu caminho, que caminhar assim, é uma espécie de feliz resolução tendo à espreita todas as dores «La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres… des oiseaux sont ivres» e mais tarde, até o barco de Rimbaud. Estamos todos embriagados às portas do Inferno!

No dia 7 de Setembro nasceu Camilo Pessanha e temos dele o mais melodioso emblema nacional do Simbolismo e da música que desejou reter da corrente que assim corria a um tempo como uma suave nortada. Mallarmé morreria a 9 de Setembro, quase a findar o século. Pessoa persegui-os na marcha e todas as coisas alcançam intimidade quando estão no “verso” de um mesmo Ovo. Que o Ovo não tem re(verso) é certo, e os que dele nascem são considerados na maior parte das vezes, aves. Da própria beleza dos dois, ninguém diz, mas podemos afirmá-lo que trajavam qualquer essência habitada, toda corrigida pela tinta negra da palavra, olhá-los é já contemplar um poema em corpo num raro acaso que os próprios dados já lançados não prevêem. Equilíbrios frágeis, fazem dos seres acordes lindíssimos!

Choveu nas palavras em verso de Mallarmé! Elas lançavam-se livres e desenlaçadas no alaúde da composição, tão visual, quanto melodiosa, por que a língua encontra todos os planos quando dança! E quando deixa a dança, e ao não encontrar os seus arautos, morre, asfixia. Os exegetas judeus talvez tenham razão quando se debruçam anos infindos numa frase só e encontram frases outras, que nós lemos tudo na horizontal com as páginas em crescendo até ao fim, e grande parte não vê mais que um filamento de ideias nas letras. Querer ser entendido é a maior praga que se instalou na linguagem! Deveria ter calado isto tudo, mas não sei, não sei como calar.

Mallarmé morreu amargurado. Fora um grande anfitrião e pela sua casa passaram os que a História reservou, qualquer coisa se esgotara neste belo ser que anteviu dias antes o seu fim. Talvez estivesse cansado e com pressa de regressar ao diálogo alargado das suas competências. Para onde vão as almas destes homens que voltam de quando em vez para nos interpelarem de formas tão surpreendentes «musicienne du silence»?
Um Mallarmé talvez um pouco desconhecido este que aqui ficou.

16 Nov 2020

Apocalipse

Esperar. O dia frio, o atravessar do rio e subir a noite até onde a tarde chegar.

Recuperar. Tudo o que é frágil, cristais e longos braços, que o adeus é forte para quem já está no mar.

Silenciar. Pouco para dizer, para nascer, encrespadas as águas geram pragas, e nós não vamos nadar, vamos na viagem já sem poder andar.

Navegar. Nesse céu que é uma oblata sem a sua Via Láctea – que ela também nos banhara – assim, de um leite que predissera o mel das Abelhas, sem Terra Prometida nas nossas entranhas, humanas e velhas.

Seguir. Nos caudais pela costa rochosa, que tudo se evola, anzóis que suspensos ferem os lençóis molhados de vento.

Querer. Que as sortes se joguem e as fontes não jorrem, que se tudo em nós amanhecesse longe destes postigos, levaríamos ainda assim esses quilómetros de lamas dos locais perdidos.

Olhar. E ao redor só há muros que fazem escuro todo o respirar, reposteiros altos vendam a passagem, nada se deslinda e a vida vive ainda…

Soltar. As mãos laças, que por nós tudo passa, deixemos passar. Corre trágico o momento, das rugas da aurora cobrem-se os ventos, e de repente, um outro firmamento!

Querer. Olhar os que estão, mais os que se vão, não ter no tempo mais ida nem vinda. Mas na quimera, nessa onda prateada, quem nos segue, quem nos limita a entrada?

Caímos! O que os rins cingem e os rios seguem vai perdido e toda a natureza padece de sentido.

Partir. À tua frente marcham os tambores, parece a hora da dança, mas é na nossa esperança que na dança se dança a todo o vapor. Corrente maior! O som da chuva, o som do sol, e a subida demiurga do canto de rouxinol.
O rio é fronteira por belo que seja, e agora, são altas fogueiras que tangem, que tecem… Tejo tágico. Paredes de água são altas e esguias… guindastes vorazes. É para o alto que se vai. E saltarão os elementos de onde agora só saem sinais.

Padecer. Tamanho é o encontro, talvez encantado, que a vida no limite é sempre buscar o lenho e continuar sossegado. Se estamos altos, altos ficamos, se estamos em baixo, para o fundo nos vamos. No sopro do tempo que morre, há um Holocausto, há Fausto, (rede) morrido nesse tráfego.

Ninguém dará pela chegada, e já tarde, quando tudo tardar- o baloiço da Terra gira alto- como se fosse crescer…. a Vida, uma espuma vazia que a secura segura na trancada criatura.

No verso, na prosa, neste lençol de malvas e de tules, há ataúdes, singulares acordes de uma música esquecida plangente de olfactos, que a tempestade tem cheiro e se sente nos asfaltos.

Nós, que trabalhamos para o esquecimento e dele falamos como intento, lavaremos as mágoas.

Cobertos. Ora no rosto, ora na sombra, a Hora soma, cresce o dia mais banal que as vontades, e nesse instante guia por águas filtrado, repousa o céu de um ciclo que é findo e nunca nos foi dado. Toda a matéria escorrega na superfície do azul, e mortas sementes recorrerão ao estrume, que as novas transplantações dos órgãos desfeitos serão como peças para corpos mais perfeitos.

Enquanto a Bela dorme, gela o seu Pólo maior, coberto de silêncio como se não tivesse visto a dor.

Atravessar. Os astros que findos magos não percorrerão, nas noites azuladas, nos satélites que espreitam, que já há Luas sem descanso enquanto brilham nuas estrelas de antanho. São crepúsculos, fogos de Santelmo, a memória naufragada, que a nossa Barca ardeu, e Deus nos esqueceu.

Renascer. Da abóboda, glacial etapa como juramento aos frios. Dos Infernos, a lôbrega santidade toda de breu seguirá viagem sem saudar em nós esse irmão a quem não quis dizer adeus. Jurámos não esquecer o esquecimento votado, por isso- por causa disso- nunca seremos condenados.

Outro Céu e outra Terra, que esta se partiu, restou enfim, na escura gruta um homem só que ainda existe, sem saber quem dele fugiu. A memória vasta, as fontes intactas, caminham…! Ciber fronteira…

E apaga-se a Fogueira.

9 Nov 2020

Abandono

Respiras e pões-te a caminhar. Embalam-te ventos e novas auroras, mas na realeza da vida há um mar que galga a costa das seguranças impostas e com passos hesitantes a tua rota treme e a Terra toda arqueja… Neste Hemisfério não supomos como o abismo nos olha, e como nós, os caminhantes, andamos no vento sem sustentação, e o medo de findar é um tormento, mas só finda quem não faz de si conforme o espírito da flor levado pela leveza dos seus polens.

Rodopiamos no asfalto como se fosse a nossa dança, e se nada lá estiver a tarde cala, e a noite sossega o corpo que cansado está em súplica pela porta do desaparecimento total. Absoluto, que amiúde desejamos sem retorno. Mas quando acorda, o corpo galga de uma estrela ainda andante, ferem-se-nos os flancos e a busca dos caminhos continua, sempre mais estreita- passada a Hora de ser erguido- começa-se a girar na roda mais fechada de um medo antigo.

A vida, essa, já não nos quer viver, os muros acontecem, tornam-se esguias catedrais, e tudo se ergue e se fecha ao redor ainda mais… Gastos os sentidos, sabe quem não vê, olhar agora o esgoto derretido é tristeza que não veleja quando se deseja o Abandono que consiste em atirar para o fundo do mar todos os remos. Não queremos ser os guias, nem guiar, nem ser guiados, apenas este instante dado, para não regressar ao tempo movido mas sempre parado.

Nascemos para nos dar, o que trajamos cobre a máscara mais audaz, e toda a inspecção se faz atrás de uma viseira vazia que as lágrimas já não podem alcançar, o vírus vira a ausência que nos habita, viemos de que coisa que não se sabe? E como chegar até nós na Hora Aflita?!

E não há nenhuma antevisão, nem o tempo se reveste de memória morta, nem os dias de antanho são agora este chão. Reneguemos os ídolos, os vencedores e os vencidos, a esteira do valor que cada um a si se dá, pois não cumprimos nenhum instante doutrinário e cada urgência nos amplia a sede de abandonar a orla desta praia sem costa alguma para onde voltar.

Saltámos da Roda e o tempo se desfez, mudados os desígnios, morre quem fôramos, e futuro inominado é tudo quanto agora somos. Há um ponto fixo, porém, à nossa espera, volvido na mudança- eixo astral- e tudo o que nos veste é claro acaso, este ser que morre em mim cruxificado é fresca nortada, um deserto conseguido…salvamo-nos ou não por estranhos caminhos, pois o “lugar do morto” será agora ao vosso lado, sempre que me sento num espaço fechado.

Agora todos dias são de abandono, para deixar os dias da vigília, quem vai embarca para o que tem guardado no seu mundo novo, que sendo enfim, feito de tudo o que a massa gera, não mais arrancará sombras onde só estamos à espera… Quem nada queira, nada saiba do que ficou, pois que o Abismo nos olha e é inútil fugir-lhe. Passá-lo, como a mais bela caminhada. Deus que está em mim não oprime esta viagem. Levar a alba lembrada que nós dormimos enquanto… E se no começo tudo tardou, a nossa marcha irromperá onde o longo embuste findou.

Unidade que só lembra outrora… que estando dentro de nós, em nós foi ficando de fora. E todos os espectros nos chamaram para núpcias e encontros, um Baile de máscaras montado nos confins galácticos deste escombro, uma antevisão do Inferno, tão cheio, que sobrou para alimento da esfera do meio.

Move e é movido quem se quer sem o eixo do recente mundo antigo. Que novo é o Amor, tão novo, que ainda não nasceu, começa sem nada e apenas se dá, morre esquecido e tenta voltar. Mas ele, para aqui não voltará. Os braços que se erguem estão sujeitos a abraçar coisas impensáveis, e nessas alturas os frágeis membros se abandonam, que braços asas são, e nesse encontro passam sempre os grandes braços que se dão.

2 Nov 2020

Expulsão

– Nós – somos nós! – Trazemos essa força que isola intriga e está a mais. Ou nós, os que o são, enlouquecem os que estão? Seja como for, nada é mais intrigante e único que um ostracizado: incómodo, sem uma adjetivação que seja passível de adaptar-se-lhe, que num país de banidos, de génios, e extremados exemplos morais, cada ser reserve para si a sua caricatura para a representar na farsa colectiva.

Outrora o papel de vítima seria mais um distintivo sacrificial, quase um emblema de regeneração, e as vítimas, não raro, eram de tal ordem maníacas que se autoflagelavam, exercendo sevícias para espantar a malignidade sabe-se lá de quê, mas funcionava nelas tal noção, que em casos assim mais vale recorrer ao masoquismo duro e simples por parte de um terceiro que munido de antipatia representativa chicoteie até ao êxtase, que para aquele que gosta de sofrer (ou deseja, curiosidade mórbida) qualquer grau de intensidade parece sempre aquém do desejado, tanto, que o carrasco lhes faz a vontade e por vezes até os mata.

Assassino! – exclamam as gentes – pode não ser exactamente assim: pode ser apenas um ser usado para uma perfídia, a qual, também dali, não saiu sem prazer, sem um reviralho de apoteose final, pois assim como um ser se educa por várias e vitoriosas tentativas da vontade, outros há que se diluem na busca por formas escatológicas de prazer.

Geralmente estes atormentados da escarninha vida lusa são um amontoado de gentes febris e repulsivas, um enfileirado demencial, escarro, sangue e fezes que ardilosamente incita ao vómito e ao recriar de outras intoleráveis manifestações. O estrebuchar do verme vai-lhes à goela como o oral sexo do juiz face a lamurientos interrogatórios de petizes, e, quer a arruaça ainda venha longe já há uma enorme ejaculação verbal com sinais vermelhos para identificar o grau de viscosidade de alguma eventual patranha. Não será uma pura análise o que aqui se trata, pois que para analisar este grau de coisas será necessário uma boa dose de “trampa” misturada à literacia e à iliteracia, ovacionada nas carrancas que todos ousam destapar por aí, será mais, como dizer… um apanhado do célebre «Escárnio» que «Maldizer» é coisa de fêmea e de fêmeos (os fêmeos poetisos ).

Este calcanhar é tanto de Aquiles como de Jacob: ambos ficaram coxos pois que é uma parte da ligação que compromete o equilíbrio do corpo – população de coxos – que anda de pé. Sim! E sem a tão popular dor de costas não repararíamos nos atrasados graus de evolução… ainda lhes custa andar de pé, e o melhor, sempre, é que este vasto rebanho se sinta desconfortável e ameaçado frente ao bípede, que nos seus cóccix , consegue o erecto ainda ver vestígios de uma antiga cauda. Nada tem a ver com posições ideológicos que há muito foi perdendo dimensão, estamos numa outra margem onde se dá uma súmula de ataques infecciosos.

Não teremos certamente razões para grandes delírios circunstanciais depois que a pandemia chegou, mas a ovação dada a uns e a outros tem afectado os mais incrédulos que bizarramente parecem também vítimas de incapacidade crónica. O vaivém de dissabores aliado a uma hipnótica apologia de regime não traduz a inquietação de uma atmosfera bisonha onde todos com mais ou menos talento tentam blindar alguém, desclassificá-lo, numa orfandade argumentativa que só a jactância lhes admite. Há um policiamento cromático neste estranho reino que se polícia a propósito de tudo e de nada, e um cansaço demagógico que raia a demência pública. Melhores dias virão, ou a expulsão?(…) Haja o que houver temos de não sentir o que estes esboroares da razão nos impõem com supremacia estroina adiantada pela incorreção e por solilóquios que sempre nos parecem de extremo mau gosto. Mas o gosto de gostar não será retirado jamais àqueles que gostando, muito mais que desgostando, se vão desta cada vez mais bizarra situação se libertando.

Esperemos que não se autoexcluam, estes viveiros de gentes bizarras, da sua própria e ténue condição humana que é dada por elementos ainda mais frouxos que as suas próprias pretensões.

….e Deus expulsou-o do jardim do Éden………… depois, colocou a oriente
querubins com espadas flamejantes, guardando assim a árvore da vida

Génesis 3-23.

14 Out 2020

Encontro Magik

Uma história extraordinária que começou em 1929 e deu origem a artigos vários e a uma atmosfera de espionagem numa Lisboa já “amansada” pelo novíssimo Estado Novo. O início dela está num poeta que manda requisitar dois livros ingleses e promete fazer o horóscopo do autor por lhe parecer estar errado, este interesse serve certamente de isco a tudo o que irá unir dois homens em novelísticas manobras, ou por tédio a uma Lisboa onde nada mais se passava, ou por o outro ser espião inglês, ou, quem sabe, por puro passional, pois que o poeta caiu de amores pela sua mulher , tanto, e de tal forma, que até escreveu o seu único poema erótico. O que é certo é que aquele mês de Setembro de encontros e desencontros, culminando na Boca do Inferno com uma rocambolesca carta de despedida iria levantar celeuma público nos dois países. E claro está, falamos então de Aleister Crowley e Fernando Pessoa!

O repto que Pessoa lança com a averiguação da carta do céu não será apenas uma mera curiosidade pessoal, mas, quem sabe, uma aproximação à edição inglesa, e desde o início desse ano passam então a trocar correspondência com projetos de idas e vindas o que deixa Pessoa um pouco aterrado e que tudo faz para averiguar o tempo mais propício para tal encontro, por outro lado ele era avesso a compromissos, o outro, mundano e desgarrado, não deve ter entendido tanta objeção – e eis que veio e Pessoa foi esperá-lo ao cruzeiro onde tinha ficado ainda, algures, parado, por causa do mau tempo, e o nosso poeta é logo interpelado de forma surpreendente: «olhe lá, porque mandou o nevoeiro lá para cima?» Verdade ou não, é que parece que o encontro foi simpático e para aqueles tão interessados na sexualidade de Pessoa, este encontro, mais não seja, deita por terra muitas teorias acerca dela, diz assim o poema inspirado na tão almejada Dama Escarlate: « Dá a surpresa de ser/ é alta, de um louro escuro/ faz bem só pensar ver/ seu corpo meio maduro/ Seus seios altos parecem (se ela estivesse deitada)/ dois montinhos que amanhecem/ sem ter que haver madrugada/ …apetece como um barco/ tem qualquer coisa de gomo/ ó fome, quando é que eu embarco? Ó fome quando é que eu como?» Só por isto já tinha valido a pena. Alguns ainda dirão: que não, que não…..! Problema deles.

E vamos então viajar com os nossos Magos, um Negro, outro Branco, mas certamente muito competentes para virar a cabeça aos Cinzentos, e sempre lembrando o grande interesse do nosso poeta por literatura policial, aliás, os únicos romances que gostava, só que estes efeitos passavam agora por um protagonista real que se achava a reencarnação de um chinês nascido há três mil anos de seu nome Tu Li Yu, e que nesta reencarnação era apelidado de Besta- isto por causa da mãe que sendo irrascível dizia então que ele era uma besta- como lia muito a Bíblia pensou que fosse a do Apocalipse. Pessoa estava muitos graus de iniciação acima, e a sua mais alta demanda se bem que não o separasse do seu congénere, tinha trilhos mais apertados. É certo que sempre deixou o outro suspenso com a leitura da dita carta que nunca chegou a fazer, mas creio que o ajudou a virar costas a algumas contas que deixou atrás de si, que por pressa de se suicidar, ou porque teve de se “raspar” abruptamente para Berlim, ou fatal homicídio, o pusera a dar entrevistas e depoimentos nos jornais e na polícia.

Suponhamos que ambos se divertiram com o estranho caso em que se falou até de assassinato devido ao universo inglês altamente criminalista, mas o certo é que a Dama Escarlate embarca antes de Crowley com uma mais enigmática cigarreira pertencente a Pessoa (no interrogatório é assim que é descrita) e sabe-se lá o que eles andaram a fazer no insólito mundo que os catapultou para aqui?! Acho que ainda se escreveram para além da “morte” agora com o Mago Negro submetido às vantagens de Pessoa, que lhe traduziu o «Hino a Pã» mais as notícias que saíam no Jornal de Notícias e na revista Girassol. Afinal, o Bem vence sempre se quisermos tirar elucubrações do caso. E já de bem com a sua talvez inusitada e brilhante jogada, o poeta encerra a comunicação e assim se separam para sempre.

Tinha passado o tempo. As vantagens esgotaram-se e creio que o outro se lamentava amargamente com derrocadas financeiras o que para o nosso poeta seria assunto que ele não conseguiria jamais responder – amargurava-se agora ele mesmo de estar com posições tensas no seu próprio horóscopo para se ocupar de outros.-

O Hino a Pã, magistral poema deste fauno, foi enviado para a revista Presença, mas creio que nem isso lhe chegou. As mãos do Mago ficariam vazias de promessas feitas pelo nosso que já muito se tinha esforçado para uma história bem guardada nos Infernos e nos Céus. Era gente singular! Em Lisboa se não olharmos para o bom tempo podemos bem morrer de tédio e os portugueses também não incitam ao despacho do inesperado, e esta Inglaterra de espíritos do outro mundo sempre esteve muito presente na pessoa de Pessoa, que nunca tirando a máscara, se revelou infalível em matéria criminal.

«…..Assim sei que sou quem sou, e terei que o ser separadamente.
A alta lição do escárnio alheio alberga astros em seu futuro».

A propósito desta jornada.

29 Set 2020

Expulsão

– Nós – somos nós! – Trazemos essa força que isola intriga e está a mais. Ou nós, os que o são, enlouquecem os que estão? Seja como for, nada é mais intrigante e único que um ostracizado: incómodo, sem uma adjetivação que seja passível de adaptar-se-lhe, que num país de banidos, de génios, e extremados exemplos morais, cada ser reserve para si a sua caricatura para a representar na farsa colectiva.

Outrora o papel de vítima seria mais um distintivo sacrificial, quase um emblema de regeneração, e as vítimas, não raro, eram de tal ordem maníacas que se autoflagelavam, exercendo sevícias para espantar a malignidade sabe-se lá de quê, mas funcionava nelas tal noção, que em casos assim mais vale recorrer ao masoquismo duro e simples por parte de um terceiro que munido de antipatia representativa chicoteie até ao êxtase, que para aquele que gosta de sofrer (ou deseja, curiosidade mórbida) qualquer grau de intensidade parece sempre aquém do desejado, tanto, que o carrasco lhes faz a vontade e por vezes até os mata.

Assassino! – exclamam as gentes – pode não ser exactamente assim: pode ser apenas um ser usado para uma perfídia, a qual, também dali, não saiu sem prazer, sem um reviralho de apoteose final, pois assim como um ser se educa por várias e vitoriosas tentativas da vontade, outros há que se diluem na busca por formas escatológicas de prazer.

Geralmente estes atormentados da escarninha vida lusa são um amontoado de gentes febris e repulsivas, um enfileirado demencial, escarro, sangue e fezes que ardilosamente incita ao vómito e ao recriar de outras intoleráveis manifestações. O estrebuchar do verme vai-lhes à goela como o oral sexo do juiz face a lamurientos interrogatórios de petizes, e, quer a arruaça ainda venha longe já há uma enorme ejaculação verbal com sinais vermelhos para identificar o grau de viscosidade de alguma eventual patranha. Não será uma pura análise o que aqui se trata, pois que para analisar este grau de coisas será necessário uma boa dose de “trampa” misturada à literacia e à iliteracia, ovacionada nas carrancas que todos ousam destapar por aí, será mais, como dizer… um apanhado do célebre «Escárnio» que «Maldizer» é coisa de fêmea e de fêmeos (os fêmeos poetisos ).

Este calcanhar é tanto de Aquiles como de Jacob: ambos ficaram coxos pois que é uma parte da ligação que compromete o equilíbrio do corpo – população de coxos – que anda de pé. Sim! E sem a tão popular dor de costas não repararíamos nos atrasados graus de evolução… ainda lhes custa andar de pé, e o melhor, sempre, é que este vasto rebanho se sinta desconfortável e ameaçado frente ao bípede, que nos seus cóccix , consegue o erecto ainda ver vestígios de uma antiga cauda. Nada tem a ver com posições ideológicos que há muito foi perdendo dimensão, estamos numa outra margem onde se dá uma súmula de ataques infecciosos.

Não teremos certamente razões para grandes delírios circunstanciais depois que a pandemia chegou, mas a ovação dada a uns e a outros tem afectado os mais incrédulos que bizarramente parecem também vítimas de incapacidade crónica. O vaivém de dissabores aliado a uma hipnótica apologia de regime não traduz a inquietação de uma atmosfera bisonha onde todos com mais ou menos talento tentam blindar alguém, desclassificá-lo, numa orfandade argumentativa que só a jactância lhes admite. Há um policiamento cromático neste estranho reino que se polícia a propósito de tudo e de nada, e um cansaço demagógico que raia a demência pública. Melhores dias virão, ou a expulsão?(…) Haja o que houver temos de não sentir o que estes esboroares da razão nos impõem com supremacia estroina adiantada pela incorreção e por solilóquios que sempre nos parecem de extremo mau gosto. Mas o gosto de gostar não será retirado jamais àqueles que gostando, muito mais que desgostando, se vão desta cada vez mais bizarra situação se libertando.

Esperemos que não se autoexcluam, estes viveiros de gentes bizarras, da sua própria e ténue condição humana que é dada por elementos ainda mais frouxos que as suas próprias pretensões.

….e Deus expulsou-o do jardim do Éden………… depois, colocou a oriente
querubins com espadas flamejantes, guardando assim a árvore da vida

Génesis 3-23.

20 Set 2020

Carta a um refém

No ano de todas as clausuras é normal que nos recordemos de certas leituras que o tempo foi deixando para trás e que são quase sempre aqueles pequenos grandes livros que não raro ocupam a obra invencível de um autor. Dividido em momentos, confidencialmente narrativo, esta Carta para todos, tem um remetente único, Saint- Exupéry. Nós que passamos a vida a receber missivas, lixo de todo o lado, imagens, exasperações, teorias, sentimos uma pena profunda de não podermos nunca mais receber cartas, e mais pena nos invade quando sabemos que nunca iremos receber uma como esta. E estas coisas quase esquecidas que emergem servem sobretudo para nos advertirem do essencial e mudar o conceito do que é o não imprescindível. Tal como os comportamentos perante o limite das coisas e o cada um representa diante dos perigos comuns.

1940 e Exupéry chega a Lisboa em trânsito para os Estados Unidos, fica um tempo, tempo para ainda ver a Exposição do Mundo Português. Não tem lugar na cidade e vai hospedar-se no Estoril, e vamos em busca do que sentiu e presenciou: “… Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste…”

Sim, Lisboa no seu discurso era a imagem da negação de tudo o que se passava na Europa onde achava as cidades bombardeadas e a noite sem luz de uma beleza mais real que esta, e de acordo com a maré negra do instante político onde não faltava a coragem dos que davam as mãos e lutavam nas trevas das cidades desfeitas, Lisboa, pareceu-lhe assim um artifício, um postal que branqueava de uma alegria vazia este momento em que todos tinham de tomar posições, parecia-lhe uma forma alienada de perfeccionista (a descrição da Exposição: não temos nada, haja o passado, e enganar e entreter o instante) e remeti-a então para aquelas famílias excêntricas que guardam à mesa o lugar do morto em casas sem remissão onde as dores são mais prolongadas que o desgosto. Os refugiados, esses, eram aqui os que se expatriavam virando costas aos seus e pondo em segurança aparente os bens de que usufruíam, mudos à sorte das coisas e mudanças do momento. É com profunda lucidez que tece um discurso curto e que vai dar aos longos caminhos de um grave adormecimento colectivo.

A Europa sofria, o Estoril para onde se dirigia para dormir, estava cheio de “cadillacs” vestidos para o jantar, jogos, numa tentativa de fazer parar o tempo ou mesmo não o estar a sentir, e creio que aqui nos dá a tónica do seu discurso formidável daquilo que pode realmente ser uma estranha desgraça no contexto destas circunstâncias; enjoado provavelmente desta bizarra atitude, passeava-se à beira mar onde por desprazer já tomado achava também as ondas moles. Este aprendizado pelo olhar de um homem absolutamente poético e sem cargas de viciação, devia ter-nos merecido alguma sincera atenção de grupo, mas creio que não foi nem lida, mencionada, muito menos proposta. Estamos à distância de quase um século, é certo, mas, a visão de um bem-estar forçado não é compatível com a infelicidade que hoje se lhe vê, nem se lhe reserva um escudo protector que mitigue um continente inteiro que pesa outra vez sobre o país: «achava Lisboa, sob o seu sorriso, mais triste que as minhas cidades apagadas».

Depois deste preambular pelo país, Exupéry parte para o Sahara, ele que era um homem do deserto pois que o amava, e este seu amor pelas areias reporta-o ele para domínios essenciais que estão paradoxalmente, e aí sim, cheios de vida, e porque tem as estrelas e as tribos calmas pelas noites, vai convocar amorosamente o amigo numa comunhão telepática. – Tem cinquenta anos. Está doente. E é judeu.- Tudo isto ao invés de nos entristecer enche-nos de uma súbita alegria, uma comunhão tamanha…« só então, deambulando ao longo do império da sua amizade… Pois o deserto não está onde cremos. O Sahara tem mais vida que uma capital e a cidade mais efervescente esvazia-se, se os pólos essenciais da vida forem desmagnetizados».

Percorre talvez o limite da sua resistência sempre de olhos postos naqueles que lhe são queridos, percorre as estradas dos Magos, e a rede de apoio que disponibiliza é a sua vida atenta e as missões aéreas que desempenha, descreve-nos episódios da guerra civil de Espanha e a emboscada anarquista numa deliciosa visão daquilo que constitui o equívoco das inimizades dos homens, e no seu cárcere, vê então que o milagre e a salvação são afinal gestos tão simples como pedir um cigarro, e em todas as paragens que a sua valentia não menos grandiosa que a sua ternura se apresentaram, manteve-se de pé como um ilustre soldado.

Ninguém aqui deve estar por isso confinado a si mesmo ou a laboral maquinalmente para uma vida extemporânea, e nos momentos excepcionais teremos ainda de responder à altura dos acontecimentos e não ter medo do que possa advir de imprevisto. Não consentir que nos “queiram bem” subtraindo a vida a um estar. Creio que neste caso é evidente que devemos ser comprometidos e que nada é mais desolador que manter modelos alienados no tempo em que soam as Trombetas. Aprendemos assim que o Fado é bonito, sim, mas amaldiçoado. E foi preciso o improvável para sabê-lo explicá-lo tão bem. «Não há termo de comparação entre o combate livre e o esmagamento na noite. Não há termo de comparação entre o ofício de soldado e o ofício de refém».

15 Set 2020

As canções de Bilitis

Verões que nos dão tanto azul levam-nos sempre para o mítico espaço do Mediterrâneo, que este Mar é sempre Antigo, sempre povoado de corpos e lendas que a saudade recria e inventa, e é nestas margens que nos vamos demorar no alto Estio que agora começa a amadurecer: Pierre Louys um nome grande da literatura francesa do final do século XIX é autor da obra assim titulada que diz ter traduzido do grego Antigo quando da sua publicação em 1894 – diz- ter encontrado no túmulo da poeta Bilitis os seus poemas o que para os helenistas da época provocou um enorme impacto e a Pierre um prodigioso sucesso, contemporânea de Safo cuja poesia o nosso autor escandiu com elevada mestria, mas também – diz- terem sido encontrados nas paredes de uma sepultura no Chipre e tanto disse da estranha aparição de tais poemas, circunstâncias e lugares, que o desdisse perto da morte que ocorreu em 1925 afirmando no último sopro que tudo era afinal dele, e só dele, o grande estudioso da antiguidade grega embrenhado em vestir a pele das mais inspiradoras gregas.

«E Bilitis nunca existiu»! A mistificação que o norteou está plena de um gozo indizível mas que fornece o tamanho de um registo poético absolutamente delicioso, talvez fosse ele a antecâmara da sua personagem numa inusual forma que fez todos acreditarem na versão criada sem um pestanejar de olhos até às mais altas instâncias das Academias, que também é certo, que toda o trabalho feito em prol do imaginário helénico e da sua paixão por Safo lhe tivessem dado amplos poderes de heteronimizar a personagem sonhada. Nada que um poeta não faça na posse completa das suas faculdades, antecipando o sistema criticista dos estudiosos, que lendo, pouco entendem, e não lendo, na mesma ficam. Mas é lendo-o que conseguimos aplanar alguns encontros com os artefactos, dado que estamos aqui num mundo feminino, de Gineceu, de imensos dotes germinais e poder de evocação, Pessoa fez isso muito bem em várias ocasiões, mas há «O Último Sortilégio» onde vamos encontrar sem esforço esta Bilitis. Se ainda acharmos que este tamanho das coisas nos confunde, talvez, e em vez de orientar o esforço para o um certo lesbicismo autoral, tenhamos então que perguntar pela qualidade do amor dos homens e não para uma opção orientada por estranhas resoluções fisiológicas: e foi nesse reino de homens ébrios e ausentes nas guerras, demasiado afastados da exigência das musas, que cresce e se dá uma civilizada e amorosa forma de cantar o amor, de viver a vida, de sentir facetas complexas que é apanágio dos melhores.

Mas muitos destes versos embora fruto de um trabalho individual também foram reelaborados a partir da Antologia Palatina e seus epigramas – esta poesia era na época antiga basicamente epigramática- e nem todos foram escritos na mesma época e da mesma maneira, usando até o soneto, mas o conjunto é de uma grande harmonia interna e nunca deslocado da personagem que o inspira. A versão portuguesa chegaria em 1927 apresentando Bilitis como uma personagem real na tradução, e digamos, que para tal obra foi bastante bom o tempo que até nós levou a chegar. Pierre Louys levantou polémica, e o seu nome foi por um lado associado a um equívoco que envergonhara alguns, por outro lado proliferaram a partir dele traduções de textos da Antiguidade que os grandes autores começaram a compor . As duas partes de uma moeda. Creio no entanto terem sido ambas muito válidas na medida em que o imaginário está intacto e a extrema sedução desta poesia é o mais perto que temos do Mar dos deuses, das ninfas e dos sonhos. Todos gostaríamos de ter estado mergulhados nestas paragens como em vasto universo paralelo não dando conta do que é necessário para ser “real” realíssimo é este instante de aves soltas, jovens, belos, pastores, rebanhos e ilhas encantadas, trazemos a lembrança grega nos calcanhares e Aquiles por estas paragens é ainda o mais desejado. Uma infiltração poética que o deixa à beira do seu estado mais puro, o que para factual, tanto faz.

Descrever isto sem recurso aos aspectos apreendidos requer sortilégios perto do homem que percorreu as várias fragmentações do ser, e que por isso mesmo considerámos completo, perfeito e inultrapassável. Pessoa.

Foi um homem singular, Pierre Louys, o que ele não amava não existiu, foi um grande trabalhador da escrita, nada que fosse exterior ao seu interesse o deixaria interessado mesmo trazendo-lhe vantagens, foi rico, pobre, amante, boémio, amigo e inventivo na relação amorosa, é possível que tivesse sido alguém muito livre e desleixado com o seu próprio fim, mas intensamente forte e terno para nos deixar este seu testemunho e salvaguardar a lenda feminina do martírio de existir. Neste mundo belo as mulheres são tão veneradas e livres como os próprios sonhos, os homens servem as suas causas, que pela intuição finíssima do autor, se assim não for, passam também eles a não existir. Também há homens que as fazem sonhar. De uma grande tensão erótica é ainda ele mesmo que afirma que o desejo não é “natural” mas uma criação poética e humana. Não somos capazes hoje mesmo de entender, como pode ser bela, também, a voz de um homem.
Debussy musicou ainda «Trois Chansons de Bilitis».

Uma mulher se envolve em lã branca. Outra se veste de seda e ouro.
Outra se cobre de flores, folhas verdes e uvas
Quanto a mim, não saberia viver senão nua. Meu amante,
Toma-me como eu sou: sem vestes, nem jóias, nem sandálias
eis Bilitis sozinha.

10 Set 2020

As Aves Brancas

Um cisne morreu com síndrome de coração partido quando um grupo de homens lhe destroçou os ovos. O cisne macho, horrorizado, fugiu, e estes monogâmicos seres não resistem à separação nem à morte dos filhos – morreu de dor – o que acontece às espécies mais raras, elas, que são quase inefáveis, gráceis, e delicadas como as brisas. Situações que não revertem a favor de nada, de ninguém, e esta inutilidade deve ser aquilo a que apelidamos de mal, a disfuncionalidade lúdica, a desregulação dos movimentos que longe anda de uma natural condição (dado que um predador não pode ser interpretado assim, ele tem assento na matéria das combustões onde a gratuitidade não toca, e a marcha continua, cruel, sim, mas não maléfica) e certo é que por práticas tais muitas criaturas na Terra se encontram ameaçadoramente inutilizadas e sem perdão.

As cadeias dos malefícios estão muito concentradas nas esferas humanas que por gerações reconstituem as mesmas incapacidades e nem lhes notam a tragédia subjacente iludidos com a evolução e o consentimento a que se dão, vemos assim que houve na espécie qualquer coisa que correu mal. Nada nasce assim! Para tal terá sido necessário uma interrupção qualquer de um processo já esquecido e que por isso mesmo a ele já não tem direito.

E estas Aves Brancas (que também há cisnes negros) levam-nos de imediato ao poema de Yeats, a essa página tão clara como estas manhãs de Verão. É um poema tangível do outro lado do Vitral e tão sonhado se torna que deslizamos por ele como sustidos pelas asas, compreendendo bem que é esta leveza o que há de mais importante no gasoso tempo de uma vida que se escoa ainda por outras paragens. Sabemos que o poeta era uma espécie de mago celta, um habitante do silêncio desse povo das vestes brancas, corria nos mistérios e trazia os seus encantos em grandes taças de vento… Que nós, olhamo-lo nas suas Aves Brancas e nunca mais esquecemos! Ele era assim, mas o género poético, difere também do génio poético, e existe ainda aquele da máscara de ferro na pele de um caçador, onde as noites escuras se tornam um não menos importante sacramento. Têm a alma de um mamute e nas mãos as lanças alternam na busca entre o invisível e a vigília máxima, e quanto mais escondido na sombra multiforme da corrente da vida, mais viva se torna a mensagem e a sua incrível superação quase inumana. Só um caçador tem o dom da imobilidade, e uma vida por vezes até chega para lembrar aos esquecidos, das rotas essenciais, pois tudo aquilo de que os poetas falam é sempre do essencial, escapa-lhes a vacuidade, a maldição e o azar do mundo – (sobretudo para os outros) – que o hão-de encontrar tão distante, tão único, que será matéria aziaga uma qualquer vigília para o capturar.

Neste espaço branco vamos encontrá-lo, mas sabíamo-lo curioso dos limites das coisas – que as viveu- como alguém que se quer vivo em todas as direcções: choraria os ovos da ave branca sem receio algum de ficar turvado por lágrimas quentes e com o coração destroçado nessa alma que sempre dançou…e essas pequenas manifestações que nos fazem grandes são todo o contrário do rombo extravagante que provoca a desgraça: milagres, são ainda instantes transversais, tão simples, tão frescos, tão improváveis na manifestação que ficamos maravilhados… e há que os ter, sim, para ir até às suas Aves Brancas. Os bárbaros existem como grandes golfadas de terror, embora, e muitas vezes, não sintam nada de nefasto em muitos dos seus actos o que os torna grotescos e poderosos, e a legislação, essa, nunca chega a tempo de corrigir uma ausência qualquer que eles possuem perante a ordem das coisas, não se podendo condenar quando o próprio condenado não sabe da razão profunda de coisa nenhuma. Digamos em sentido figurado que a nível de uma noção mais alargada de humanidade grande parte dela anda literalmente a “pisar ovos”. Que seja os das cobras. E nós…

…. em breve, longe do lírio e da rosa, longe das tormentosas chamas viveríamos,
se aves brancas fôssemos, amada minha, aves brancas flutuando na espuma do mar! – Yeats

5 Ago 2020