Zhuhai | Novo espaço do LMA abre em Wanzai

A Live Music Association, espaço de música ao vivo que funcionou durante vários anos na Avenida do Coronel Mesquita, terá agora nova morada do outro lado da fronteira, em Wanzai, Zhuhai. O acesso mais fácil para lá chegar é através do Terminal Marítimo de Passageiros do Porto Interior, na Ponte 16.

O anúncio da reabertura do espaço foi feito ontem na página de Facebook do LMA, com a mensagem “New LMA open in China now!” [Novo LMA abre na China!]. O primeiro concerto está agendado para o dia 13 deste mês, a partir das 21h, com a actuação dos “Fusion Rock Power Project” com os músicos Chung e Ka Hou.

Vincent Cheang, responsável pelo projecto do LMA, disse ao HM que o novo espaço em Wanzai “combina actuações ao vivo com o estúdio de arte pessoal”. “O espaço apenas estará aberto ao público para concertos, e irá funcionar como antes”, isto quando o LMA tinha portas abertas em Macau.

Recorde-se que o LMA começou por suspender temporariamente a actividade, encerrando depois de forma definitiva, no período da covid-19. Vincent Cheang contou que o novo LMA “está instalado numa antiga fábrica de cassetes e CDs”, “um local profundamente ligado à música”, motivo que cativou o responsável pelo espaço.

A abertura do lado de lá da fronteira aconteceu devido a alguns entraves em Macau relacionados com a lei do ruído. “As actuais leis de ruído de Macau são demasiado rigorosas, e os cidadãos abusam do mecanismo de reclamação. Então, para nós, é quase impossível encontrar um local em Macau que não resulte na apresentação de mais reclamações.”

Vincent Cheang diz querer “continuar a missão de promover a música independente num local que seja próximo de Macau”, uma proximidade que seja “conveniente para bandas, produtores musicais, DJs e o público”.

4 Jun 2026

Guilherme Pegado e Ernesto Gherzi – Os seus contributos para a meteorologia em Macau

Vem este texto a propósito de duas figuras históricas que percorreram caminhos ligados à Meteorologia em Macau. Trata-se de Professor Guilherme José António Dias Pegado (1803-1885), ilustre macaense pioneiro da Meteorologia de Estado em Portugal, professor de Física e Matemática na Universidade de Coimbra e na Escola Politécnica de Lisboa. Foi também o primeiro diretor do então designado “Observatório do Infante D. Luiz”, em Lisboa.

O padre italiano Ernesto Gherzi (1886-1973), conhecido como “Pai dos Tufões” e autor de trabalhos científicos nas áreas da Meteorologia e da Geofísica, adquiriu a sua formação científica dentro da Companhia de Jesus e em institutos europeus. Não chegaram a ser contemporâneos, mas as obras de ambos contribuíram para o desenvolvimento da Meteorologia em Macau. Guilherme Pegado nasceu em 23 de maio de 1803, na freguesia de São Lourenço, e faleceu também em Macau, em 22 de outubro de 1885. Ernesto Gherzi nasceu em 8 de agosto de 1886, em Sanremo, Itália, e faleceu em 6 de dezembro de 1973, em Saint-Jerôme, Montreal, no Canadá.

Tal como Ernesto Gherzi, que é conhecido como “Pai dos Tufões”, Guilherme Pegado pode ser considerado como o “Pai da Meteorologia” no nosso país, na medida em que foi fundador da Meteorologia de Estado em Portugal e territórios ultramarinos sob administração portuguesa, incluindo Macau, onde foi grande impulsionador das práticas meteorológicas segundo as normas internacionais.

É em grande parte graças a este eminente macaense que a estação meteorológica localizada junto à sede dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau (SMG), na Taipa Grande, foi designada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) “Estação Meteorológica Centenária”. Apesar de ser relativamente recente, pois começou a funcionar quando se deu a mudança da sede dos SMG da Fortaleza do Monte para a Taipa Grande, em 1996, a OMM considerou que se cumpriram os rigorosos critérios para essa classificação, entre os quais observação sem interrupção durante pelo menos cem anos, independentemente de ter mudado de um local para outro relativamente próximo.

Na realidade, as estações meteorológicas em Macau mudaram várias vezes de local. O primeiro observatório meteorológico, ainda sem instalações próprias, foi criado em 1861, no então chamado Hospital Militar. As observações eram feitas duas vezes por dia sob a responsabilidade do Dr. Lúcio Augusto da Silva (1825–1906), médico cirurgião luso-indiano, então chefe dos Serviços de Saúde do território. Os instrumentos eram devidamente aferidos na Escola Politécnica de Lisboa. No entanto, foi só a partir de 1881 que se passaram a fazer oficialmente observações com continuidade, por pessoal da Marinha, na Capitania dos Portos. Mais tarde o observatório mudou várias vezes de local: para uma dependência da Ermida da Nossa Senhora da Penha (1900); Colina de S. Jerónimo, em pavilhões das antigas dependências do Hospital do Conde de S. Januário (1904); Fortaleza do Monte (1966) e Taipa Grande (1996).

Foi sob proposta de Guilherme Pegado que se deu início à construção de uma infraestrutura de observação meteorológica em Portugal, que veio a designar-se por “Observatório Meteorológico anexo à Escola Politécnica”, como consequência da aplicação do estabelecido na portaria governamental publicada em 2 de agosto de 1853. O Observatório, instalado no atual Jardim Botânico, adjacente à antiga Escola Politécnica de Lisboa, veio posteriormente a ser referido sucessivamente como “Observatório Meteorológico de Lisboa” e “Observatório do Infante D. Luiz”, em homenagem ao infante que viria a ser rei de Portugal e que nutria grande interesse pela ciência e pela Marinha. Começou a funcionar regularmente, sob a direção do cientista macaense, em 1 de outubro de 1854, seguindo as regras estabelecidas internacionalmente.

Guilherme Pegado foi nomeado pelo Ministério da Marinha, em 1853, diretor científico das observações meteorológicas a bordo de navios. Divulgou em Portugal os critérios estabelecidos na “Conferência Marítima de Bruxelas” que se realizou em agosto, estendendo-se por setembro de 1853, para a uniformização das observações meteorológicas no mar. Os navios portugueses iniciaram essa prática na viagem de Lisboa para Macau da corveta D. João I, em 1853, passando-se a registar várias vezes por dia observações meteorológicas a bordo. Foi também seguindo as suas instruções que se iniciou a instalação das primeiras estruturas meteorológicas em Macau.

Guilherme Pegado, além de cientista e professor universitário, foi também deputado às Cortes pelo círculo de Macau durante várias legislaturas.

No que se refere ao Padre Ernesto Gherzi, este cientista desempenhou as funções de diretor do Observatório de Zikavei, de1930 a 1949. Foi impedido de voltar a Xangai depois de participar numa missão às Filipinas, onde participou num congresso científico em Manila. Após uma breve estada em Hong Kong, optou por aceitar o convite das autoridades portuguesas para trabalhar na área da Meteorologia, em Macau, onde permaneceu de 1950 a 1954.

Na sequência da lei que criou oficialmente os serviços meteorológicos nos antigos territórios ultramarinos portugueses, em 1950, foi criado o Serviço Meteorológico de Macau (SMM), que anteriormente era designado simplesmente por Observatório Meteorológico. Durante dois anos o Padre Ernesto Gherzi deu forte apoio ao meteorologista português Manuel Tomás Ferreira Cabrita, que permaneceu em Macau, de 1951 a 1955, como o primeiro diretor do SMM. Apesar da lei que criou este Serviço tivesse sido promulgada em 1950, o SMM só entrou oficialmente em funcionamento em março de 1952. Foi adquirido novo equipamento e estabelecida a ligação à rede meteorológica mundial, o que permitiu o intercâmbio de informação com Manila e Hong Kong.

Por iniciativa do Padre Gherzi tiveram início outras atividades nunca antes exercidas em Macau, como a observação da ionosfera. Segundo Gherzi, a observação de perturbações radioelétricas na ionosfera constituía uma boa ferramenta para a previsão da aproximação de tufões. A sua experiência como diretor do Observatório de Zikavei durante cerca de vinte anos, onde dirigiu um eficaz serviço de alerta de tufões, contribuiu grandemente para a melhoria da previsão do tempo associado a estas tempestades. Foi durante a sua estada em Macau que o Padre Gherzi escreveu o livro “Meteorology of China”, considerado um clássico, com a colaboração de Manuel Cabrita, publicado em 1951 pela Imprensa Nacional de Macau.

É de salientar o interessante trabalho da historiadora britânica Priscilla Mary Roberts, no que se refere à investigação sobre o padre italiano e o seu contributo para o serviço de Meteorologia em Macau.

Sobre este assunto a historiadora apresentou na sede da Fundação Rui Cunha, em 5 de novembro de 2025, a palestra intitulada “The Father of Typhoons – Ernesto Gherzi and the Macao Meteorological Service, 1950-1954”. Fica aqui a sugestão àquela Fundação, que tanto tem contribuído para a divulgação de assuntos relacionados com Macau, que coloque na sua agenda algo de semelhante no que se refere a Guilherme Pegado.

4 Jun 2026

10 de Junho | Teatro D. Pedro V acolhe no sábado recital de música lírica

O recital “Viagem vocal: quatro séculos de música lírica em português” sobe ao palco do histórico Teatro D. Pedro V no sábado, às 19h30. O soprano Sílvia Sequeira junta-se à meio-soprano Ashley Chui para interpretar composições de ópera e canção portuguesa desde o período Barroco

Alfredo Keil, Fernando Lopes-Graça, P. Áureo e Castro ou José Maurício Nunes Garcia. São nomes que estão na mente de muitos daqueles que, habitualmente ou não, ouvem música clássica e lírica, e que podem agora ver as composições destes mestres no palco do Teatro D. Pedro V este sábado, a partir das 18h30.

Integrado no cartaz do “Junho – Mês de Portugal na RAEM 2026”, que visa celebrar o 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, o espectáculo “Viagem vocal: quatro séculos de música lírica em português” conta com a soprano Sílvia Sequeira em palco, que fará parelha na voz com a meia-soprano Ashley Chui. A acompanhá-las estará o barítono Chris Kun Hang Iek e a pianista Arièle Zanini.

Segundo a sinopse do espectáculo, a canção em português “espalhou-se pelo mundo desde os primórdios” embora seja hoje “menos conhecida do que as congéneres em italiano, francês ou alemão”. As composições são autênticas “joias, muitas vezes escondidas, da tradição vocal lusófona”, que mostram o que de melhor se foi fazendo na música lírica e ópera desde o período Barroco até ao século XXI, entre Portugal, Macau e Brasil.

Segundo a mesma sinopse, a viagem musical inicia-se entre os séculos XVIII e XIX, num périplo sonoro marcado por composições de luso-brasileiros que “viam Portugal e o Brasil como a sua pátria comum”.

Falamos de nomes como Marcos Portugal, falecido em 1830, ou António José́ da Silva “O Judeu”, que viveu entre os anos de 1705 e 1739. Há ainda a reter o nome de José́ Maurício Nunes Garcia, falecido em 1830.

Depois, já no século XX, persiste a “ópera e canção romântica de modelo europeu, de compositores como Alberto Nepomuceno (1864-1920) e Alfredo Keil (1850-1907) enquanto os próprios séculos XX e XXI se revelaram férteis em canções de arte e árias de ópera – do Brasil a Portugal, com compositores como Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e Alexandre Delgado (nascido em 1965)”.

Não faltam, nesta equação musical, Macau, com as composições do P. Áureo e Castro (1917-1993). Natural dos Açores, este pároco era sobrinho de D. José da Costa Nunes, que era Bispo de Macau quando Áureo e Castro chegou a Macau, a 15 de Setembro de 1931, com apenas 14 anos de idade. Áureo e Castro entrou para o Seminário Diocesano de São José, tendo depois desenvolvido o seu gosto musical.

Talentos em palco

Com um programa musical repleto de estrelas e de história, cabe a Sílvia Sequeira interpretar um repertório especial. A cantora venceu o primeiro prémio, e também o “Prémio do Público” na primeira edição do Concurso Internacional de Canto Cascais-Opera, realizado em 2024, além de já reunir na sua carreira outros prémios.

Numa nota biográfica sobre a sua carreira, lê-se que Sílvia Sequeira “tem vindo a conquistar rapidamente o reconhecimento internacional pela sua extraordinária potência vocal e intensidade dramática, afirmando-se como uma das sopranos dramáticas mais entusiasmantes da sua geração”.

Também a meio-soprano Ashley Chui, de Hong Kong, já viu a sua voz e trabalho serem galardoados, ao sagrar-se vencedora, em 2022, do “Prémio Especial” no Ise-Shima International Singing Competition e, em 2024, do BYAA Collectives American Art Elite Award.

De Macau sobe ao palco do Teatro D. Pedro V o barítono Chris Kun Hang Iek, “um talento local emergente” que conquistou o primeiro lugar na categoria “Vocal Aberta” do 11º Festival Internacional de Música de Hong Kong.

O recitar conta também com a actuação da pianista francesa radicada em Hong Kong, Arièle Zanini, também docente no Departamento de Canto da Hong Kong Academy of Performing Arts e pianista principal da City Chamber Orchestra of Hong Kong.

4 Jun 2026

Governo promete mais desfibrilhadores e conexão com sistema de saúde

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, assegurou ontem, em resposta a uma interpelação oral do deputado Kou Kam Fai, que “há uma grande margem de melhoria” na instalação de desfibrilhadores em Macau, que permitem cuidados de emergência em caso de ocorrências cardíacas.

Existem em Macau 560 unidades de DAE [Desfibrilhadores Automáticos Externos], instalados pela Cruz Vermelha em locais públicos, mas os planos é para que haja mais.

“Será mantida a comunicação com os serviços públicos, associações e instituições, envidando-se esforços para elevar o número total de DAE para 680 unidades no próximo ano”, adiantou, atingindo-se a meta de 100 DAE por cada 100 mil habitantes.

O Lam referiu também que “a distribuição de equipamentos de primeiros socorros será optimizada tendo em conta a densidade populacional das diversas zonas e o fluxo de turistas”. Além disso, está “em curso a elaboração de um mapa de distribuição” dos DAE, “o que permitirá à população consultar a localização dos equipamentos através da Conta Única, prevendo-se a sua entrada em funcionamento ainda no ano em curso”.

Mais cobertura

A governante frisou que as autoridades vão aumentar a taxa de cobertura destes equipamentos, com os Serviços de Saúde a proceder “ao seu aperfeiçoamento tanto em termos de volume total como de distribuição, de modo a alcançar uma articulação orgânica entre o socorro pré-hospitalar e o tratamento hospitalar”. Trata-se de um “trabalho progressivo e estamos a avançar”, declarou.

Na sua interpelação oral, Kou Kam Fai defendeu que “Macau, enquanto cidade densamente povoada e com intensa actividade turística, carece de uma atenção contínua quanto à disponibilidade de equipamentos de primeiros socorros em locais públicos”.

O deputado alertou também para a baixa consciencialização quanto ao uso destes aparelhos de socorro. “Há ainda espaço para melhorar a difusão geral do conhecimento sobre RCP [reanimação cardiopulmonar] e DAE em Macau. A população em geral, salvo quando inscrita proactivamente em cursos específicos, raramente tem acesso sistemático a este conhecimento.”

Kou Kam Fai considerou que “a distribuição de DAE em espaços públicos continua dispersa, enquanto a transparência da informação e a identificação dos equipamentos ficam por reforçar”.

4 Jun 2026

Registados em Macau 780 médicos especialistas

Desde a criação da Academia Médica de Macau, em 2019, que se registaram 780 médicos especialistas no território, bem como 160 médicos residentes. Os dados foram divulgados ontem, na Assembleia Legislativa (AL) pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, em resposta a uma interpelação oral do deputado Leong Hong Sai.

Deu-se, assim, nos últimos anos, o “fortalecimento do ensino das especialidades” no contexto desta Academia, tendo a secretária destacado o facto de o Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) ter já realizado 380 cirurgias de revascularização do miocárdio coronário através do sistema robótico Da Vinci.

Neste contexto, tendo em conta a especialidade de cardiologia, “medicina de cuidados intensivos e doenças oncológicas”, o hospital público “tem-se empenhado em melhorar o nível de diagnóstico e introduzir novas técnicas”, de que é exemplo este tipo de cirurgia cardíaca.

Já este mês, a Unidade de Cuidados Intensivos (ICU) do Centro Médico de Macau Union entra em funcionamento, disse O Lam, sendo também criados o Centro de Dor Torácica e o Centro de Acidente Vascular Cerebral no CHCSJ, a fim de “elevar a capacidade de socorro e de tratamento médico para casos intensivos e críticos”.

Boas transferências

O deputado questionou ainda o Governo sobre prazos de marcação de consultas e atendimentos no sistema de saúde, bem como o regime de transferência entre cuidados primários e cuidados especializados entre hospitais.

A secretária disse que existe um “sistema electrónico de transferência uniformizado”, sendo os doentes encaminhados dos centros de saúde para o CHCSJ ou para o Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas – Centro Médico de Macau do Peking Union Medical College Hospital. A ideia é “implementar uma melhor triagem de doentes e elevar a eficácia geral” do atendimento, sendo que “o regime de marcação prévia e transferência [de doentes] está a funcionar sem sobressaltos”, assegurou a secretária.

“Os dois hospitais estão a aumentar a capacidade de diagnóstico e tratamento médico quanto a cuidados de saúde diferenciados, casos de alta complexidade e intensivos e casos raros”, frisou O Lam.

4 Jun 2026

Natalidade | Apoios para escolas podem ir até 12 milhões de patacas

O Governo adiantou novos detalhes sobre os subsídios que serão criados, já no próximo ano lectivo, para que as escolas possam lidar com a baixa taxa de natalidade. Enquanto o subsídio para a fusão pode chegar a 12 milhões de patacas, o apoio para a mudança de finalidade de uma escola vai até 5 milhões

A matemática parece simples para lidar com números de consequências mais complexas para Macau: o decréscimo de nascimentos. São quatro as medidas referidas ontem, na Assembleia Legislativa (AL), por O Lam, secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, para que as escolas se adaptem à baixa taxa de natalidade.

Já no próximo ano lectivo de 2026-2027 será criado o “Subsídio para a fusão de escolas”, que vai dos 4,5 a 12 milhões de patacas. Será também criado o “Subsídio para a transformação de escolas”, com valores que vão de 1,5 a 5 milhões de patacas. Tudo suportado pelo Fundo Educativo da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

“Em termos dos apoios para as infra-estruturas, vamos lançar o subsídio para a fusão das escolas, de 4,5 a 12 milhões de patacas, e vamos dar apoio em termos técnicos”, disse, em resposta a uma interpelação oral dos deputados Song Pek Kei e Chan Lai Kei.

No que diz respeito à reconversão das escolas, O Lam explicou que serão atribuídos entre “1,5 a 5 milhões de patacas para as escolas que queiram reconverter” a sua finalidade, sendo uma das opções a criação de cursos para “alunos da terceira idade”. “Iremos fazer um trabalho de orientação tendo em conta o panorama de desenvolvimento do nosso sistema de ensino, fazendo um ajuste de acordo com as necessidades reais”, adiantou.

Kong Chi Meng, director da DSEDJ, disse aos deputados que estão em diálogo com 11 escolas que se encontram em processo de mudança por falta de alunos, sendo que “neste ano lectivo [2025/2026] quatro escolas se decidiram pela fusão, sendo que uma das formas [escolhida] foi a transformação total da escola”. “Além da transformação, falou-se ainda na aposta na educação contínua ou em aulas nocturnas para idosos, mas tudo irá depender da capacidade da escola e vontade da direcção”, acrescentou.

O Lam defendeu que a “baixa taxa de natalidade é um grande desafio” para o Executivo, referindo que se pode apostar na qualidade do ensino, ao invés da quantidade. “Temos de ver a estabilidade e garantia dos docentes, que são questões alvo da nossa atenção. Vamos introduzir ajustes ao corpo docente para que isso seja resolvido.”

Professores, inovem!

Outro dos apoios criado, é o “Subsídio para promoção do desenvolvimento da escola”, que visa “financiar as escolas que apresentem um número insuficiente de alunos no 1.º ano do ensino infantil”. Também no próximo ano lectivo, com arranque em Setembro, haverá “medidas de apoio transitórias de subsídio ao ensino infantil, alargando-se o âmbito do subsídio às turmas do 2.º ano que satisfaçam os requisitos”.

Será ainda criado o “Subsídio de formação para efeitos de transição”, pensado para professores que queiram fazer a sua reconversão profissional, apostando-se ou na mobilidade interna ou na formação profissional.

“Em termos de mobilidade interna, no ano lectivo de 2026-2027, iremos realizar uma formação complementar para o ensino primário, para que os professores possam leccionar no ensino secundário. Vamos ter uma acção de formação para a educação inclusiva e dar financiamento para que os docentes se possam mobilizar a nível interno”, disse a secretária.

O deputado Chan Hao Weng interveio no debate dizendo que “no futuro vai ser mais grave a situação da baixa taxa de natalidade”. “Recentemente foram despedidos oito ou nove professores de uma escola e creio que haverá mais casos destes. Mas a baixa taxa de natalidade é uma oportunidade de mudarmos da quantidade para a qualidade, podendo melhorar o rácio entre professor e número de alunos por turma.”

O deputado deixou ainda um apelo, dizendo que “os professores têm de ser mais versáteis”, podendo “fazer muitas actividades, participar em muitas competições”, sendo feita uma “melhor distribuição” pelas escolas.

4 Jun 2026

CCCM | Antologia de textos sobre Luís de Camões apresentada em Lisboa

“Vasto Império do Coração”, antologia de escritos sobre o maior poeta da língua portuguesa, Luís Vaz de Camões, foi apresentado esta segunda-feira no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. Sara Augusto, professora de literatura e português na Universidade Cidade de Macau, falou de uma obra dada à estampa no ano passado

Tão grande é o vulto literário chamado Luís de Camões e a sua obra maior, Os Lusíadas, que inspirou outros escritores de língua portuguesa a escrever sobre ele, ou a escrever como ele, com as suas angústias e inspirações. Foi a pensar nisso que Sara Augusto, professora na Universidade Cidade de Macau (UCM), recolheu textos e poemas sobre o poeta português na antologia “Vasto Império do Coração”, precisamente um verso de António Manuel Couto Viana que dá nome ao livro.

A obra foi editada no ano passado, mas foi esta segunda-feira novamente apresentada em Lisboa no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM). “Vasto Império do Coração” contém “registos poéticos de visitantes, de escritores portugueses que residiram em Macau algum tempo e de escritores nascidos em Macau, revelando laços que celebram, se identificam e que inscreveram Camões na memória colectiva”, conforme explicou, na altura, Sara Augusto.

Na sessão desta segunda-feira, intitulada “Uma solidão de pombas: visitar Camões na literatura de Macau em língua portuguesa”, a autora da obra começou por falar, precisamente, do verso escrito por António Manuel Couto Viana no poema “A Camões, Dolorosamente”, que consta no livro “Ponto de não regresso”, editado em 1982.

“É um poema magoado, tal como diz a palavra ‘Dolorosamente’ no título e no refrão. Há, portanto, essa mágoa que passa para todo o texto, e claro que aqui não se fala do império físico, mas de um poder maior que perdurou, o do coração, e que se diz nesta língua que é nossa e também de Macau.”

Sara Augusto abordou também na sessão outro exemplo de uma escrita mais contemporânea com referências a Camões, e que consta nesta antologia. É o caso de um poema em prosa poética de Carlos Morais José, director do HM, integrado no livro “Macau, o Livro dos Nomes”, editado em 2022.

O verso é “Sentirás, meu amor, uma solidão de pombas. Dá-me a tua mão e juntos afagaremos a inscrição na pedra, matriz de tudo. Perdi-te entre as plantas. Disseram-me depois que, regressaras, como um homem seco e coxo, a um país envergonhado. Eu volto sempre ali, não sei se por ti, se pela aspereza das áreas chinesas”.

Na visão da professora universitária e autora, verifica-se aqui “a solidão do poeta [Camões], elemento referido em praticamente todos os poemas reunidos nesta antologia”, sendo que a expressão “solidão de pombas” constitui “uma das mais belas metáforas para a vida de Camões naquela cidade”, neste caso Macau. “E também para cada um de nós que vive lá”, destacou Sara Augusto.

Imagens e palavras

Esta antologia é, portanto, feita de palavras, imagens do jardim e da gruta de Camões, bem como do busto do poeta presente em Macau, lugar de tantas visitas e contemplações. “Vasto Império do Coração” é, portanto, “um estudo dos poemas e dos autores”, contendo, por exemplo, referências ao que escreve o professor Seabra Pereira em “Delta Literário de Macau”, que analisa a presença de Luís de Camões em Macau “no seu sentido simbólico”, disse Sara Augusto.

Na sessão, a professora citou um excerto presente na obra de Seabra Pereira, quando este refere que tanto Camões como Fernão Mendes Pinto [autor da Peregrinação] “são referências míticas para a cultura literária de Macau, porque são motivo e fonte de mitos, como narrativa poderosa que se torna ineradicável e incontornável”.

Sara Augusto considerou, neste sentido, que Camões e a sua poesia funcionam “como um intertexto para muitos poetas posteriores”, tendo-se transformado, em Macau, “num lugar literário”, ganhando “contornos míticos enquanto narrativa simbólica”. Camões em Macau “não é só um espaço físico”, explícito na gruta de Camões, mas é mais do que isso. Há “a consideração do poeta como objecto de visita literária, como experiência, memória, desejo e identidade cultural”, sendo que “estas memórias e símbolos permanecem nos textos literários”.

Sara Augusto trouxe também ao CCCM o exemplo do poeta Bocage, que esteve em Macau entre Outubro de 1789 e Março de 1790, e escreveu o soneto “Camões, Grande Camões, quão semelhante acho o teu fado ao meu?”. “Bocage identificou-se com Camões na mágoa e no exílio”, refere Sara Augusto.

Na sessão desta segunda-feira, esteve presente o comissário-geral das Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, José Augusto Cardoso Bernardes, que é também professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É responsável, nesta universidade, pela disciplina de Estudos Camonianos, há 30 anos.

Bernardes referiu-se a esta antologia como sendo “um belíssimo livro”, elogiando também a escolha para o título. “Vasto, Império e Coração. Qualquer uma destas três palavras está em sintonia com Camões. A vastidão, o Império, no sentido latino de Ordem, e Coração. O título está bem no poeta António Manuel Couto de Viana, que foi um homem de coração e de causas, está bem para Camões e para a Sara. Não foi por acaso que, nos 200 anos de literatura que ela compendiou, retirou este título, que está em sintonia com ela, seguramente”, concluiu.

3 Jun 2026

Governo revela prudência em projecto da quinta travessia Macau-Taipa

Não há data para o início da construção da quinta ligação entre a península e a Taipa, segundo indicou ontem o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, em resposta à interpelação oral do deputado José Pereira Coutinho.

“Os trabalhos relativos à quinta ligação Macau-Taipa encontram-se ainda em fase de estudo”, estando prevista a “ligação entre a zona do NAPE e Zona D dos Novos Aterros Urbanos através de túnel”.

Segundo explicou o secretário, “esta solução irá permitir não só escoar de forma eficaz o trânsito entre as zonas, como também acompanhar o desenvolvimento da Zona D e da futura Zona Internacional de Turismo e Cultura Integrados de Macau, a implantar no lote de terreno marginal situado a leste da Torre de Macau”.

Raymond Tam disse ainda que a futura ligação poderá “integrar vias rodoviárias no nível superior e a circulação do Metro Ligeiro no nível inferior, articulando-se com a Linha da Taipa Centro prevista no plano de desenvolvimento das linhas do Metro Ligeiro, bem como estabelecendo ligação à Linha da Taipa Norte, com destino final na Estação do Jockey Clube”.

Com tranquilidade

Da parte dos deputados ficaram ideias de prudência quanto à edificação de mais um projecto de obras públicas de grande dimensão. “Temos de ter cautela na concepção da quinta travessia entre Macau e Taipa, e temos de saber o panorama de utilização da Ponte da Amizade e de Sai Van”, disse Ip Sio Kai.

O secretário disse que está a ser analisada ainda a viabilidade de construção da quinta ponte tendo em conta o panorama geral de trânsito e as conexões com regiões vizinhas. Foi referido no debate um estudo realizado há dez anos sobre o trânsito em Macau, mas Raymond Tam lembrou que a situação, entretanto, mudou.

“Estamos a fazer situações de triagem na Ponte da Amizade. A densidade de circulação de veículos é muito elevada na Ponte Macau e temos de desviar alguns veículos pesados para outras pontes. Quanto à quinta ligação, alguns deputados pedem maior rapidez, outros querem que se trabalhe de forma mais prudente, mas vamos trabalhar consoante a situação de trânsito. Vamos ponderar a situação de trânsito das quatro ligações existentes”, concluiu o secretário.

3 Jun 2026

Casinos-satélite | Governo revela existência de projectos de investimento

O Executivo assegura que existem planos de investimento para transformar os casinos-satélite em “espaços comerciais multifuncionais” com áreas de restauração. Raymond Tam prometeu analisar a criação de mais zonas pedonais nos arredores dos casinos encerrados

O Governo parece já ter uma ideia para o aproveitamento dos espaços que albergavam os casinos-satélite encerrados no ZAPE – Zona de Aterros do Porto Exterior. Em resposta a uma interpelação oral do deputado Kevin Ho, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, assegurou que “encontram-se em curso projectos de investimento destinados à criação de espaços comerciais multifuncionais”, e que deverão abranger “o comércio a retalho de armazéns e quinquilharias, restauração, farmácias de suplementos de saúde, entre outros”. O secretário garantiu que já existem “alguns estabelecimentos da zona de retalho de armazéns e quinquilharias abertos ao público”.

No debate realizado ontem na Assembleia Legislativa, o governante explicou que, segundo a Direcção dos Serviços de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), “em Março deste ano todos os procedimentos relativos ao encerramento dos casinos-satélite foram concluídos”, sendo que, “em princípio, todos os espaços podem ser aproveitados”.

“O Governo deixa uma mensagem clara: encorajamos os interessados a aproveitar estes espaços e vamos colaborar nesta iniciativa”, disse o secretário, garantindo que o processo de pedido de licenças não deverá ser complexo. “No pedido de licença administrativa que não envolva mudança de finalidade, o processo não deverá ser muito prolongado.”

Neste ponto, o deputado Kevin Ho, autor da interpelação oral, sugeriu a realização de “actividades pop-up”, ou seja, de curta duração, nos espaços deixados vazios pelo fecho destes casinos. “Acredito que as associações podem aproveitar estes espaços para a realização de actividades que levem pessoas a esta zona”, disse.

Neste caso concreto, Raymond Tam disse mesmo que “se não for preciso requerer licença, o procedimento é ainda mais simples”. “Não sei se está em causa a vontade dos investidores e não tenho uma conclusão, mas penso que estes espaços não estão sujeitos a processos administrativos complexos”, adiantou.

Condições difíceis

Na reunião plenária de respostas a interpelações orais, vários deputados deixaram sugestões e alertas sobre o difícil panorama económico que se vive em Macau, que pode fazer com que não haja vontade de reaproveitar os antigos casinos-satélite. “Têm de haver sectores dominantes para trazer negócios para a zona e nesta situação complicada ninguém quer investir em Macau”, referiu José Pereira Coutinho.

Já José Chui Sai Peng disse que “amigos do sector empresarial desejam saber se há um desenvolvimento favorável na zona”, dado existirem no ZAPE “equipamentos muito bons para investimentos”. A sugestão do deputado foi o arrendamento de espaços para a “dinamização com actividades que são famosas no Interior da China”.

Ip Sio Kai aconselhou a criação de “passagens superiores de peões com características”, ou seja, com temas específicos a fim de atrair visitantes que podem, depois, dinamizar o comércio. “As pessoas podem, depois, fazer ‘check-in’ [participar em actividades com recurso a formatos digitais, como códigos QR]. Este tipo de sítios característicos pode captar muitas pessoas”, disse.

Raymond Tam prometeu também analisar a criação de mais zonas pedonais na zona. “Antes do encerramento dos casinos-satélite melhorámos alguns passeios para facilitar a circulação pedonal na zona, mas se for necessário vamos continuar a trabalhar [nesse projecto]. O ZAPE é uma zona muito movimentada e já há bastantes passeios para facilitar o fluxo de pessoas, mas vamos continuar a melhorar o nosso trabalho”, rematou.

3 Jun 2026

Governo não descarta estação de TGV, mas diz que não há espaço

A possibilidade de Macau vir a ter uma estação que faça a ligação do território com a futura linha de comboios de alta velocidade entre Guangzhou e Zhuhai não é descartada pelo Governo, mas coloca-se o problema da falta de espaço para mais um projecto desta dimensão.

A ideia foi deixada pelo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, no debate de ontem na Assembleia Legislativa (AL), em resposta a uma interpelação oral da deputada Ella Lei.

“Será possível criar uma estação de alta velocidade em Macau? Isto exige um espaço que não é pequeno. Se introduzirmos uma estação em Macau teremos de considerar a sua dimensão. Não afastamos qualquer hipótese, mas temos de ultrapassar o obstáculo face ao nosso espaço.”

Na sua interpelação oral, Ella Lei lembrou que o 15º Plano Quinquenal da China promove “a construção de uma linha de TGV entre Guangzhou e Zhuhai (Macau), para impulsionar o desenvolvimento regional”. Segundo a deputada, “as novas estradas e a linha de TGV irão facilitar a circulação de pessoas, mercadorias e turismo entre Macau e as cidades vizinhas”.

Assim, o território “deve aperfeiçoar a rede do Metro Ligeiro e o trânsito, para uma integração mais profunda na rede regional de transportes e o reforço dos laços entre Macau e Guangdong”, sendo necessário “aperfeiçoar as infra-estruturas e as instalações complementares”.

Ella Lei lembrou também que “com o estreitamento da relação entre Macau e as cidades vizinhas, muitos residentes deslocam-se diariamente entre Macau, Zhuhai e Guangzhou, para trabalhar ou viver”, mas “a deslocação implica vários transbordos”, o que “afecta a integração dos residentes no círculo de vida da Grande Baía”.

Assim, e “face aos projectos de transporte ferroviário regional, como o TGV entre Guangzhou e Zhuhai (Macau), como o Governo vai reforçar a comunicação e coordenação com os serviços competentes do Interior da China, de modo a assegurar, quanto antes, a ligação das infraestruturas e o planeamento do trânsito de Macau”, questionou.

Metro em melhoria

O deputado Leong Hong Sai também sugeriu a construção de uma estação de ligação em Macau. “Como é que se vai concretizar a articulação com o comboio de alta velocidade entre Guangzhou e Zhuhai? Futuramente vai haver uma estação em Macau, como há em Hong Kong? Isso pode contribuir para a vida da nossa população.”

O debate centrou-se ainda na necessidade de interligar o sistema do Metro Ligeiro com as carreiras de autocarros. Raymond Tam disse que o aumento da circulação do Metro Ligeiro será gradual. “Os autocarros ainda são o meio de transporte principal da nossa população. Vamos fazer um estudo estratégico porque queremos aumentar as linhas do Metro Ligeiro. A linha leste será a primeira desta fase de alargamento, passando pela Zona A e indo até às Portas do Cerco. Após a conclusão desta obra, em 2029, o número de passageiros vai aumentar. Vamos estender a linha leste para o posto fronteiriço de Qingmao para aumentar a cobertura”, explicou.

A linha leste do Metro Ligeiro terá um traçado de cerca de 7,7 quilómetros de comprimento, prevendo-se seis estações que estabelecem a ligação entre as Portas do Cerco, Zona A e Zona E dos Novos Aterros Urbanos, bem como a Estação do Terminal Marítimo da Taipa, na Linha da Taipa.

3 Jun 2026

Albergue SCM | Leong Kit Man apresenta a sua “Ilha dos Amores”

A artista Leong Kit Man está de regresso às exposições com “Ilha dos Amores”, em referência ao conhecido episódio d’Os Lusíadas, de Luís de Camões. A mostra é inaugurada amanhã no Albergue SCM e integra o cartaz das comemorações do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas

Não é por acaso que a nova exposição disponível no Albergue da Santa Casa da Misericórdia (SCM) de Macau integra as comemorações do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas. “Ilha dos Amores”, da artista Leong Kit Man, remete para parte da história relatada na obra maior da literatura portuguesa, “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, quando a deusa Vénus compensa os navegadores portugueses depois de realizarem o caminho marítimo para a Índia, proporcionando-lhes um paraíso repleto de ninfas.

Camões escreveu assim, nos Cantos IX e X de “Os Lusíadas”, sobre o amor carnal feito e vivido entre navegadores e as ninfas que permaneciam nesta ilha: “Já não fugia a bela Ninfa tanto, / Por se dar cara ao triste que a seguia, / Como por ir ouvindo o doce canto, / As namoradas mágoas lhe dizia. / Volvendo o rosto, já sereno e santo, / Toda banhada em riso de alegria, / Cair se deixa aos pés do vencedor, / Que todo se desfaz em puro amor.”

A exposição “Ilha dos Amores” é inaugurada amanhã, a partir das 18h30, na Galeria A2 do Albergue SCM, sendo uma organização do CAC – Círculo dos Amigos da Cultura de Macau. Segundo uma nota da exposição, o público pode ver uma “colecção de pinturas chinesas centrada na estadia de Luís de Camões em Macau e nas imagens vívidas do poema épico de Os Lusíadas”.

“Inspirando-se na ilha mítica, a artista capta a sua essência através de uma técnica delicada e requintada”, abordando-se “a interacção entre o Oriente e Ocidente tal como personificada por Macau”, numa “ponte entre duas civilizações distintas”.

A mesma nota descreve como a artista, através da sua pintura, “explora a imaginação humana partilhada a partir de um ‘paraíso ideal’, revelando os fios condutores que unem as tradições culturais orientais e ocidentais”. Desta forma, “Ilha dos Amores” faz também uma “sincera homenagem ao rico património cultural de Portugal”.

Rolos monumentais

Uma das obras que pode ser vista nesta mostra é “The Regret of Love”, sobre a qual Mo Xiaoye, professor do departamento de Belas Artes da Zhejiang Sci-Tech University disse tratar-se de uma “pintura monumental ao estilo Gongbi, com um carácter épico”, tal como a história relatada nos versos d’Os Lusíadas.

“The Regret of Love” é um “monumental rolo de seda com quatro metros de comprimento e mais de 1,8 metros de altura”, descreve Lam Kong Chuen, citado numa nota sobre a exposição. Aqui, a artista “constrói um ambiente temporal que se opõe de forma frontal ao acelerar contemporâneo”, onde “o nevoeiro do rio Mekong e correntes subterrâneas no leito desse rio avançam em relação ao espectador”, numa conexão com a viagem marítima relatada na Epopeia portuguesa.

Mais do que constituir um episódio que é fruto da imaginação do poeta, os versos sobre a Ilha dos Amores contam também a interligação entre a moral cristã e pagã, povoada pelos amores vividos na ilha, sendo também a forma de Camões celebrar os navegadores portugueses pelos feitos na descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Leong Kit Man é artista, curadora e professora, sendo licenciada pela Academia Nacional de Artes da China e doutorada em Belas Artes. Dá aulas de Belas Artes e orienta mestrados e doutoramentos na Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST).

2 Jun 2026

Lei do trânsito | Ron Lam exige sistema por pontos

O ex-deputado Ron Lam U Tou defende que deve ser criado um sistema de pontos na carta de condução para que a lei do trânsito rodoviário tenha um efeito dissuasor mais eficaz.

Numa publicação feita na rede social Facebook, Ron Lam lembrou o recente acidente que vitimou uma criança de dez anos, atropelada na passadeira, destacando que o Governo chegou a propor a criação de um sistema de pontuação para as cartas de condução. Tal sugestão constava numa proposta de lei de revisão da legislação rodoviária que caducou, por não ter sido aprovada até ao fim da legislatura.

O sistema de pontos na carta consiste na crescente perda de pontos conforme o número de infracções cometidas, podendo levar mesmo à perda da carta de condução. Ron Lam acredita que a proposta anteriormente feita pelo Executivo não seria dissuasora o suficiente por não incluir actos como não cedência de passagem a peões na passadeira, transgressão das regras dos semáforos ou não cumprimento dos limites de velocidade.

Assim, o antigo deputado defende que as autoridades devem ter por referência as medidas e a legislação em vigor nas regiões vizinhas, nomeadamente a introdução de meios oficiais de denúncia sempre que haja situações de condução imprópria ou perigosa, ao invés de apenas haver reacção depois da divulgação de vídeos nas redes sociais. Ron Lam pede ainda que as aulas de condução nas escolas reforcem o ensino de uma condução defensiva.

2 Jun 2026

Miguel Enrique Stédile, académico

Acaba de ser editado no Brasil, pela Expressão Popular, o “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas”, de autoria de Miguel Enrique Stédile, Julián Bokser, Diego Pautasso e Javier Vadell. O co-autor Miguel Enrique Stédile explica que a obra apresenta “uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul”. Já há planos para uma segunda edição

Porquê editar este Dicionário e quais os principais conteúdos que são mostrados ao leitor?
Nos últimos anos tem havido um crescente interesse pela China no Brasil e na Argentina, tanto pelo público académico, quanto pelo leigo. Entretanto, a literatura publicada localmente ainda é insuficiente para dar conta de todas as dimensões da experiência chinesa. Então, a partir da necessidade de uma obra de referência que permitisse ao leitor ser introduzido rapidamente a alguns conceitos e questões-chave, apresentamos o Dicionário, uma obra que permite aos pesquisadores brasileiros e hispano-falantes contarem com um livro que reúna num só local estas questões mais frequentes. O dicionário reuniu mais de 70 pesquisadores brasileiros e argentinos, com uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul.

Que China nos é contada neste livro? É dado maior foco à mudança económica do país, na sua abertura ao mundo, por exemplo?
Sim. Seria impossível escrever em pouco tempo um dicionário sobre a cultura ou a história chinesa, por exemplo. Optámos então por um dicionário de questões políticas, económicas e sociais. Evidentemente, há um conjunto de questões que remetem ao início da Nova China, mas concentramo-nos também em questões mais contemporâneas para que o leitor possa compreender um pouco mais do que se trata o país que emerge da Reforma e Abertura.

Como se pode olhar para a evolução do “Socialismo com Características Chinesas”, sobretudo a partir dos anos 80? Podemos falar de Deng Xiaoping como um dos seus teóricos?
A trajectória chinesa desperta muito interesse e eu diria até inspiração aos países do chamado Sul Global, porque assistimos a um país que enfrentou guerras civis, invasões estrangeiras, a saída de uma condição de precariedade para o topo do PIB [Produto Interno Bruto] global. Evidentemente, os papéis de Mao Zedong, Zhou Enlai e desta geração revolucionária sã imprescindíveis sem os quais não haveriam as bases para que a geração seguinte pudesse assentar as transformações. Da mesma maneira, Deng [Xiaoping] é um personagem importantíssimo. Mas quando olhamos a trajectória em perspectiva histórica, percebemos que o grande protagonista é o povo chinês. Por melhores iniciativas que seus líderes tenham, elas só se transformam em realidade, quando o povo as compreende e agarra.

Quais as mudanças trazidas pelo governo de Xi Jinping a este modelo governativo?
Creio que o período actual com o Presidente Xi é interessantíssimo e, por si só, tem nos dado muitos motivos para pensarmos numa segunda edição ampliada. O Governo do Presidente Xi coincide com uma grave crise económica mundial, a pandemia global e a crise climática, e neste contexto, a China consegue não apenas se posicionar de forma a enfrentar estas crises, como apresenta caminhos que poderiam ou deveriam ser seguidos por outras nações. Acho que há muitas contribuições inovadoras neste período actual sobre a civilização ecológica, a inovação e mais recentemente sobre a questão da soberania digital e a Inteligência Artificial, além da erradicação da pobreza extrema.

Qual a importância de editar esta obra no Brasil, tendo em conta o relacionamento do país com a China?
Estamos publicando simultaneamente no Brasil, pela editora Expressão Popular, e na Argentina, pelo editorial Batalla de las ideas. Creio que, ao mesmo tempo em que suprirá uma pequena parte da grande lacuna que temos em relação ao conhecimento da China, despertará o interesse para que outros pesquisadores produzam mais sobre estes temas. Mas, espero, em especial, que sirva como um convite para os nossos colegas académicos procurarem mais parceiras de intercâmbio científico e tecnológico com a China e que aproximem os nossos países de formas mais significativas e cooperadas, para além das volumosas relações comerciais que os nossos países possuem.

Ana Maria Saldanha escreve sobre Grande Baía, Macau e Hong Kong

O “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas” conta com a colaboração de Ana Maria Saldanha, ex-professora universitária em Macau e docente na Universidade Normal de Hunan, sendo esta uma das autoras juntamente com nomes como Julián Bosker, Diego Pautasso ou Javier Vadell, entre outros.
Na entrada do dicionário “Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, Ana Maria Saldanha descreve como esta região é “frequentemente comparada ao Vale do Silício devido à sua importância económica e tecnológica”, sendo “uma iniciativa de desenvolvimento estratégico da China”.
Lê-se ainda que o “projecto visa integrar e reforçar a cooperação económica e tecnológica entre as nove cidades da província de Guangdong” e as regiões administrativas especiais, tratando-se de um “ambicioso projecto de desenvolvimento económico e de cooperação regional”. Através da Grande Baía, Pequim pretende “transformar a área numa das mais dinâmicas e inovadoras do mundo, competindo com regiões como as baías de São Francisco, Tóquio e Nova York”.
Ana Maria Saldanha recorda como, em 2015, “a Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Reforma, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério do Comércio (da República Popular da China) divulgaram o documento ‘Visões e Acções para Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI”, tendo-se definido aí a “Construção da Grande Baía Guangdong, Hong Kong e Macau”.
Nesta entrada do dicionário é também referido que “o apoio estatal tem desempenhado um papel crucial neste processo de integração regional graças aos investimentos maciços em investigação e desenvolvimento”, sendo que a China “estima que o desenvolvimento da inovação e da tecnologia impulsiona a economia, melhora a qualidade de vida e cria empregos de qualidade”.
Ainda assim, a autora destaca como embora “as oportunidades de desenvolvimento sejam vastas, a região enfrenta desafios, decorrentes da existência de diferenças entre os sistemas jurídicos e económicos de Hong Kong e de Macau em relação à China continental”. Porém, “os objectivos pretendidos estão a ser alcançados: o Governo Central tem conseguido manter uma estreita conexão entre as regiões administrativas especiais e o restante território da província de Guangdong, num contexto em que a estabilidade regional é considerada de suma importância”.
Ana Maria Saldanha acrescenta ainda que a região da Grande Baía “é uma iniciativa ambiciosa que visa capitalizar sinergias regionais”, além de aspirar “tornar-se um centro de inovação científica e tecnológica” na promoção “do empreendedorismo” e atracção de “quadros especializados, local e internacionalmente”.
“Ainda que existam obstáculos, nomeadamente em razão de disparidades políticas e socioeconómicas, a região tem um forte potencial para se estabelecer como líder mundial em inovação e desenvolvimento sustentável”, lê-se ainda.

Simplificar conceitos

Em informação oficial difundida pela editora Expressão Popular nas redes sociais, a propósito do dicionário, lê-se que o “socialismo chinês desenvolveu conceitos próprios para responder aos desafios da modernização, da soberania e da construção socialista”.
A ideia é levar o leitor a compreender conceitos fundamentais como o desenvolvimento económico do país, a “experiência socialista contemporânea”, a “Reforma e Abertura”, que se iniciou com Deng Xiaoping a partir de 1978; e ainda o papel do Estado. O livro constitui, assim, uma síntese do “vocabulário político, económico e histórico a partir da experiência da Revolução Chinesa até aos dias actuais”.

2 Jun 2026

Cheques pecuniários distribuídos a partir de Julho

A distribuição este ano dos cheques pecuniários faz-se com as mesmas regras e montantes, mantendo-se a retirada dos apoios a quem não se encontra em Macau menos de 183 dias, com algumas excepções.

O Conselho Executivo terminou a análise do regulamento administrativo relativo ao “Plano de comparticipação pecuniária no desenvolvimento económico para o ano de 2026”, sendo que os cheques começam a ser distribuídos em Julho, mantendo-se as dez mil patacas para residentes permanentes e seis mil patacas para residentes não permanentes.

Há oito situações previstas para a atribuição do cheque para quem não vive em Macau, nomeadamente a frequência de um curso de ensino superior que seja “reconhecido no local”, uma situação de internamento hospitalar, quem tem casa no Interior da China “quando tenha completado 65 anos de idade ou, não tendo completado 65 anos de idade, [apresente] razões de saúde o justifiquem”.

Hengqin incluído

Incluem-se ainda situações como a “prestação de trabalho fora de Macau a empregador matriculado no Fundo de Segurança Social”, sendo que, neste cenário, passa a estar incluída a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin quando os beneficiários em causa “sejam responsáveis pela subsistência dos membros do seu agregado familiar”. É também atribuído o cheque a quem esteja no “exercício de funções oficiais”, a quem tenha “trabalho nas cidades do Interior da China integradas na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau” e ainda quem trabalhe, ou frequente “curso do ensino superior ou não superior, reconhecido pelos serviços competentes do local do curso, na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”.

A partir de 15 de Junho os residentes podem aceder a todas as informações sobre a sua situação na plataforma da Conta Única de Macau. O Governo explica, num comunicado, que “os indivíduos que preencham os requisitos irão receber automaticamente a comparticipação pecuniária conforme a calendarização estabelecida, através de transferência bancária ou cheque, não necessitando de apresentar o requerimento”.

Centros de aperfeiçoamento | Actualizada lei de 1993

O Conselho Executivo concluiu, na sexta-feira, a análise da proposta de lei relativa ao “Regime jurídico dos centros de aperfeiçoamento particulares”, que actualiza um decreto-lei de 1993. Segundo um comunicado do Conselho Executivo, a proposta de lei pretende aperfeiçoar a legislação que regula as instituições educativas particulares que ministrem ensino de nível não superior.

Na prática, propõe-se criar “garantias efectivas e um apoio eficaz aos formandos que recebem a educação contínua, disponibilizando para o sector um regime conveniente aos residentes e favorável aos negócios”.

O objectivo é “elevar o nível profissional, promover o desenvolvimento do ensino não superior a longo prazo” e ainda “prestar serviços de melhor qualidade e de alta eficiência aos cidadãos”. Uma das alterações passa pela centralização de requerimentos junto da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude, sendo criadas licenças provisórias para estes centros.

1 Jun 2026

Tabaco | Proibido fumar em “áreas de grande concentração de pessoas”

A proposta de lei da prevenção e controlo do tabagismo contempla a proibição de fumar em “áreas de grande concentração de pessoas” e reforça as proibições junto a escolas e hospitais. Já os cigarros electrónicos só vão poder ser usados em casa

O Conselho Executivo terminou a discussão sobre as alterações ao regime de prevenção e controlo do tabagismo, cuja nova proposta de lei será agora submetida à Assembleia Legislativa (AL). Uma das principais mudanças prende-se com a chegada das proibições em ruas muito movimentadas. “A proposta de lei prevê igualmente a criação, por despacho do Chefe do Executivo, de áreas de proibição de fumar em determinadas áreas de grande concentração de pessoas”, pode ler-se na nota do Conselho Executivo, divulgada na sexta-feira.

Outra alteração prende-se com o consumo de tabaco electrónico, propondo a proibição “do consumo ou a posse de cigarros electrónicos e dos respectivos componentes e acessórios nos locais de utilização colectiva onde seja proibido ou excepcionalmente permitido fumar”. Esse consumo é ainda proibido “em quaisquer áreas ao ar livre de utilização colectiva, sendo estabelecido um período transitório de seis meses”, mas pode ser feito em casa.

Outra proposta do Executivo passa pela proibição de fumar em “áreas a menos de dez metros de distância de entradas e saídas de hospitais, centros de saúde, infantários, creches e outros estabelecimentos de assistência infantil, bem como de estabelecimentos de ensino primário e secundário”. Estas áreas passam a ser classificadas “como locais onde é proibido fumar”.

Ficam também proibidos “produtos de tabaco emergentes como as bolsas de nicotina, cigarros à base de plantas e narguilés”, tendo em conta a “crescente popularidade entre adolescentes e “malefícios para a saúde”.

Impacto visual

É também proposta que “a área de rotulagem de advertência sanitária nas embalagens de produtos do tabaco seja aumentada para 85 por cento nas duas faces maiores da unidade da embalagem”. Quanto a charutos e cigarrilhas, “a área de rotulagem de advertência sanitária deve cobrir, pelo menos, 70 por cento de uma das faces maiores e 100 por cento da outra face maior”.

“Além disso, a proposta de lei prevê o estabelecimento de um período transitório de 18 meses, por forma a permitir que os sectores se adaptem às novas disposições”, lê-se ainda.

O Governo pretende também permitir a utilização de “câmaras portáteis pelos agentes de fiscalização do controlo do tabagismo no exercício das suas funções”, para garantir “a segurança dos agentes de fiscalização do controlo do tabagismo e elevar a eficiência do seu trabalho”.

1 Jun 2026

Consulta pública | Aumento da licença de maternidade quase unânime

O relatório da consulta pública sobre as alterações à lei laboral indica que mais de 94 por cento das opiniões vão de encontro à proposta do Executivo para alargar a licença de maternidade de 70 para 90 dias. Também o aumento dos dias de férias anuais, de seis para 12, mereceu a concordância dos consultados

Foi divulgado na sexta-feira o relatório da consulta pública relativo à revisão da lei laboral, no que diz respeito à actualização dos dias de licença de maternidade e dias de férias anuais.

Relativamente à licença de maternidade, lê-se no documento que 94,3 por cento dos participantes na consulta concorda com o aumento dos dias de licença de maternidade de 70 para 90 dias, representando 9.420 posições concordantes. Destaca-se o facto de a proposta prever ainda que, dos 90 dias, 30 poderem ser gozados antes ou depois do parto, sendo pago um subsídio às empresas para cobrir o salário das trabalhadoras, no máximo de 20 dias.

O relatório dá conta que o aumento dos dias de licença “vai garantir que as trabalhadoras tenham mais tempo suficiente para descanso, beneficiando a recuperação da saúde física e o ajustamento psicológico para adaptação”, dando também resposta “às necessidades de apoio familiar, criando um ambiente mais amigável à natalidade para as trabalhadoras”.

Destaca-se o facto de, das opiniões discordantes, 276, apenas 2,8 por cento, a maioria considerar que a proposta do Governo de aumento dos dias é ainda tímida tendo em conta as necessidades sociais.

Assim, 71 por cento dos que discordam fazem-no por considerar que 90 dias “continua a ser inferior aos padrões das regiões vizinhas”, sendo “insuficiente para satisfazer as necessidades das trabalhadoras na recuperação do estado de saúde após o parto e na prestação de cuidados com o recém-nascido, sendo melhor aumentá-la para 98 dias ou mais”.

A Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) destaca, no relatório, que foram proferidas opiniões “atentas à viabilidade de um aumento gradual do número de dias da licença de maternidade no futuro, esperando-se que seja promovido o melhoramento dos direitos e interesses laborais de Macau e da articulação com os padrões das regiões vizinhas ou com os padrões internacionais”, ou seja, além dos 98 dias.

Ai os homens

Porém, foram expressas “opiniões com a questão dos custos operacionais das empresas e pressões na alocação de recursos humanos”. Foi assim dito que as empresas, “além de terem de pagar a remuneração durante a licença de maternidade, têm ainda de suportar o custo de pessoal substituto, o que agrava a pressão financeira e, consequentemente, afectando a operação das empresas”.

Outro alerta dado prende-se com a preocupação de as empresas se tornarem “mais conservadoras no recrutamento, podendo dar prioridade à contratação do sexo masculino ou do sexo feminino que já não se esteja em idade fértil”. Tal trará “prejuízo às oportunidades de desenvolvimento profissional das trabalhadoras”.

O Executivo mantém, para já, uma atitude prudente, considerando que, nesta fase, “é mais adequado proceder, prioritariamente, ao aumento do número de dias da licença de maternidade para 90 dias, permitindo reforçar as garantias às trabalhadoras e atender às necessidades de operação das empresas”.

No tocante às políticas de apoio à família, foram apresentadas 502 opiniões sobre a necessidade do aumento da licença de paternidade, considerando “insuficiente o actual número de dias de licença”; enquanto 255 considera que deveriam ser criadas outros tipos de licença, como parental, para consultas pré-natais, ou ainda a “consideração das consultas pré-natais como faltas justificadas”, ou a “licença para acompanhar a criança a consultas médicas ou vacinação, de modo a aliviar a pressão parental sobre os pais”.

Pede-se ainda, às empresas, a adopção de “mecanismos como horários flexíveis, teletrabalho e dispensa do turno nocturno, para permitir que as trabalhadoras possam cuidar do recém-nascido”.

O Governo deixa para depois as mudanças na licença de paternidade. “Relativamente às opiniões sobre a licença de paternidade, medidas favoráveis à família e ajustamento do tempo de trabalho, embora estas matérias não se insiram no âmbito da presente revisão legislativa, (…) as mesmas foram devidamente registadas e servirão de referência para futuras revisões do regime laboral.”

“Falta de equidade”

No tocante aos dias de férias anuais, o Governo quer que se passe dos actuais seis previstos na lei para “um mecanismo de aumento do número de férias anuais em função da antiguidade do trabalhador”. O objectivo é aumentar “um dia útil de férias anuais remuneradas por cada dois anos de trabalho completo”, passando assim a “12 dias úteis de férias anuais para os trabalhadores com antiguidade igual ou superior a 12 anos”.

Das 9.973 opiniões apresentadas sobre este tópico, 9.150 concorda com o aumento de seis para 12 dias. Apenas 5,1 por cento discorda, num total de 509 opiniões. Destas, 63,7 por cento entende que “os dias de férias anuais deveriam ser aumentados directamente para um determinado número de dias, em vez de estarem vinculados à antiguidade, de modo a garantir que os trabalhadores recém-contratados também gozam do mesmo direito ao descanso”.

Além disso, defende-se que a proposta do Executivo não atinge “grupos mais jovens, com maior probabilidade de mudarem de emprego, e os sectores de alta mobilidade profissional”, havendo “falta de equidade”.

Férias geram debate

O relatório demonstra que “cerca de 50 por cento das opiniões são discordantes” quanto à proposta do Executivo em não ir além dos 12 dias de férias anuais. Os que não concordam declaram que este número de dias é “insuficiente”, havendo “algumas opiniões a sugerir o aumento do número de dias de férias iniciais e do número máximo de dias de férias, o que reflecte uma solicitação relativamente forte por parte dos trabalhadores”.

Porém, o Executivo chama a atenção para o facto de “a grande maioria das empresas em Macau serem PME [pequenas e médias empresas]”, com a “elaboração da política laboral a abranger diferentes sectores de actividade”, pelo que “é necessário ponderar com cuidado as solicitações das diversas partes interessadas, bem como o impacto sobre o a economia em geral de Macau”.

“Partindo dos actuais seis dias de férias anuais previstos na lei, um aumento significativo do número de dias afectaria não só o funcionamento das PME, como também teria um impacto considerável na gestão de recursos humanos nos sectores dos serviços e naqueles com elevada intensidade de mão-de-obra”, declara o Governo no relatório.

É referido ainda que é importante “ponderar se tal ajustamento poderia vir a afectar os direitos laborais dos trabalhadores com maior antiguidade”, pelo que se considera “mais adequado, nesta fase, manter o número de dias de férias anuais proposto no documento de consulta”.

Houve ainda posições e “dúvidas sobre o âmbito de aplicação, o cálculo e as formas de compensação” dos dias de férias, mas o Governo declara que esta alteração se aplica “tanto a trabalhadores residentes como a trabalhadores não residentes, constituindo apenas a garantia mínima prevista na lei, sem prejuízo de acordos mais favoráveis entre as partes empregadora e trabalhadora”.

Neste contexto, “o calculo da antiguidade conta-se de forma contínua a partir da data do início de funções e, para assegurar o direito ao descanso do trabalhador, o empregador é obrigado a conceder o gozo efectivo das férias, não podendo substituí-lo por dinheiro ou outra compensação”.

A consulta pública foi realizada entre 31 de Janeiro e 16 de Março, com seis sessões de consulta e ainda recolha de opiniões online. Foram recolhidas 10.025 opiniões e sugestões, sendo que 98,8 por cento foram apresentadas de forma digital. O relatório descreve que 88 por cento das opiniões são de trabalhadores, seguindo-se 4,4 por cento do patronato.

Na sexta-feira o Conselho Executivo terminou a discussão em torno desta proposta de lei, que está agora pronta para seguir para o hemiciclo para votação e discussão.

1 Jun 2026

Literatura | “MyWay”, uma viagem pelos lugares de Natividade Ribeiro

“My Way – Diário e Escritas Paralelas” é o mais recente livro de Natividade Ribeiro, mulher açoriana, autora e docente que também fez de Macau a sua casa durante muitos anos. Com edição da Letras Lavadas Edições, eis uma obra que mistura registos biográficos com sentimentos sobre lugares que são casa, como é o caso de Portugal e de Macau

Antes das letras surgem as imagens que revelam, elas próprias, vivências e memórias: a “janela dos bambus”, a “entrada do jardim Camões” ou objectos como “a sombrinha chinesa”. Há ainda espaço para o desenho da casa em Coloane ou até a fotografia “do jardim da vizinha Lagos”, ou até da “Mesa de Jantar – Lisboa”. É assim o mais recente livro de Natividade Ribeiro, natural de Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, Açores, formou-se em Filosofia e deu aulas em Macau nos anos de 1982 e 1999, tendo tido depois uma posterior experiência de ensino no Instituto Português do Oriente (IPOR), nos anos de 2015 e 2016.

De nome “My Way – Diário e Escritas Paralelas”, o mais recente livro da autora, editado no final do ano passado pela Letras Lavadas Edições, revela-se ao leitor uma espécie de diário de bordo pela mais recente passagem de Natividade Ribeiro por Macau, numa ligação aos seus Açores e a outros lugares de Portugal que representam casa para si. Trata-se de um “diário de mês e meio”, entre Macau, Algarve e a ilha açoriana de São Miguel, datado de 2023, “com a liberdade de saltar tempos e espaços, excercendo o poder da mente”, lê-se logo no início.

O relato desta vivência começa ainda em Lisboa, no dia 23 de Agosto, com a autora a descrever a viagem a Macau e a recordar os momentos em que, nos idos anos 80, se mudou para o Oriente. “Amanhã iremos revisitar Macau. Foi em setembro de 1982 que para lá fomos viver. Passados estão 41 anos. Ao calor intenso à chegada, disse ‘Macau é como estar nas estufas de ananás do meu pai, em pleno verão da minha ilha’. E respirei um ar familiar, ainda que com outros cheiros.”

A chegada fez-se a 25 de Agosto, no Aeroporto Internacional de Hong Kong, e é nesse momento que Natividade Ribeiro vai buscar a referência à ideia do caminho pessoal traçado, “My way”. “Saímos. À porta do avião uma cadeira de rodas à minha espera. Agora a All Ways. My way, all ways gosto destes nomes, minhas pernas. O meu caminho, a minha maneira. Todos os caminhos, todas as maneiras”, lê-se a certa altura.

Por entre relatos de idas e vindas, regressos e chegadas, Natividade Ribeiro vai revelando também ao leitor alguns poemas e escritos da sua autoria, nomeadamente “Perfil virtual II”: “Ela desafia tudo / Senhora de tanto / Com olhos ainda inocentes / Reinventa o mundo / Em palavras de liberdade / Vivendo à beira do mar / E em cada alvorada / Ri com as gaivotas.”

Alguns dos textos que se lêem em “My Way” foram escritos na Casa Garden, sede da Função Oriente em Macau. “Fechada no quarto belo, escreverei este diário como fiz na adolescência com a Ilha como clausura”, descreve a autora, que não esqueceu as referências a outro poeta bem conhecido do território, Camilo Pessanha. “Pessanha (meu) em tom menor I” é o nome de um dos poemas, com uma estrofe que começa com o verso “Choveu!, sobre bambus e nenúfares”.

Entre descrições e narrações

A sinopse da obra dá-nos conta que, “além da narração e descrição do quotidiano, há reflexões, interrogações sobre as cidades, o mundo, a actualidade”, tratando-se de um “diário como um livro de viagens por lugares interiores e exteriores, conhecidos e de reconhecimento da autora”.

O leitor depara-se com uma “escrita híbrida que já caracteriza a autora”, e com um livro que deambula entre a prosa e poesia, “não excluindo narrativa ficcional, onde o mar, a cidade e até as gaivotas algarvias são personagens”.

Na apresentação da obra na Casa de Macau em Lisboa, Natividade Ribeiro destacou as cores escolhidas para a capa do livro, que tem “uma forte simbologia”. O vermelho “presente em todas as festividades de Macau, cor que representa alegria”, e depois o verde que remete para a natureza da ilha de São Miguel e para as próprias “cores da bandeira de Portugal”.

No lançamento, Natividade Ribeiro descreveu como as “escritas paralelas a estes registos diarísticos foram acontecendo”, e de como se deu “um ambiente propício a outras escritas”. Os escritos “foram-se colando ao diário como um patchwork, em que os pedacinhos de tecido nas diversas cores, estampas e tamanhos para criar uma nova peça se vão juntando meticulosamente”.

Natividade Ribeiro, que já editou anteriormente outros livros, trouxe também alguns desses escritos para “My Way”. “Aproveitei também para fixar alguns textos, com temáticas sobre Macau, de dois dos meus livros, ‘Nada, nada professora’, da Edições do Oriente, e ‘Os três lugares de uma mulher’, da editora Salamandra. Há também dois textos, ‘Jogar com a cidade’, já publicado na colectânea ‘Viagens III’, das Letras Lavadas; e o poema ‘Calçada das Verdades’. Estes textos referem-se a um Macau pós-1999 e quero que cheguem a leitores de lá”, referiu.

30 Mai 2026

Turismo | Registado aumento de visitas de estudo para Macau

O presidente da Associação de Indústria Turística de Macau considera que o aumento das viagens de estudo na China e em Macau levou à expansão do sector do turismo. Andy Wu realça a subida anual entre 20 a 30 por cento de estudantes que viajam até Macau

As viagens de estudo têm um grande potencial para o sector do turismo e Andy Wu, presidente da Associação de Indústria Turística de Macau, destaca como os números têm registado um aumento.

Segundo noticiou o jornal Ou Mun, o mercado de viagens de estudo dos estudantes do Interior da China em Macau registou um aumento, com o número de visitantes deste segmento a crescer 20 a 30 por cento em 2025, face a 2024.

Andy Wu explicou que as viagens de estudo a Macau são de curta duração, não indo além de quatro dias, focando-se nos elementos de história, cultura e experiências. Apesar de serem em menor número face às viagens de estudo feitas pelos estudantes de Macau para o exterior, existe, segundo o dirigente associativo, um óbvio potencial que pode ser explorado noutras épocas do ano, nomeadamente durante a semana ou férias de Inverno.

Andy Wu destacou também que as visitas de estudo para cidades chinesas ocupam já cerca de 50 por cento da procura, com foco em destinos como Pequim, Xangai ou Xi’an. Antes, no período de Verão, os estudantes optavam mais por países estrangeiros como Reino Unido, Austrália ou Canadá, entre outros.

Mais agências de serviço

Nas visitas às cidades chinesas, o foco faz-se nas últimas tecnologias, como é o caso de voos espaciais e inteligência artificial, tendo Andy Wu destacado que o conteúdo das viagens está relacionado com as necessidades de aprendizagem dos alunos.

Quanto ao preço das viagens de estudo, o representante e empresário de agências de turismo apontou que é mais elevado do que excursões normais dado que estas viagens exigem mais mão-de-obra, nomeadamente guias turísticos e tutores, para garantir uma melhor experiência educativa.

Ainda no que diz respeito ao preço, as viagens ao Interior da China continuam a ser mais baratas do que ao estrangeiro, tendo Andy Wu apontado que se deu um aumento ligeiro devido à sobretaxa de combustível nos voos.

O responsável contou ainda que a popularidade das visitas de estudo beneficiou o sector turístico. Isto porque, no ano passado, apenas duas agências de viagens, com capitais de Macau e Hong Kong, se dedicavam a este tipo de serviço. Actualmente, já são entre oito a dez agências que organizam visitas de estudo, o que leva a um enriquecimento da oferta, disse.

30 Mai 2026

Xavier Garcia, jornalista e autor: “O domínio mundial do Ocidente acabou”

“China, ameaça ou esperança – A realidade de uma revolução pragmática” é o nome do mais recente livro de Xavier Garcia, editado em português pela Tempo Galiza Editora. O autor, que foi correspondente da EFE em Pequim, explica algumas ideias construídas pelo Ocidente em relação ao país e diz que Portugal deve aproveitar a ligação a Macau para estreitar laços com a China

Tem vasta experiência na China, na qualidade de repórter. Como começou a sua relação com o país, e de que forma está demonstrada neste livro?

A minha relação com a China começou em 2018 porque fui destacado como director da delegação da agência de imprensa EFE em Pequim. Vivi sete anos na China e desde o princípio que me surpreendeu o desenvolvimento, capacidade para organizar a vida de tantos milhões de pessoas, as mudanças rápidas, políticas orientadas a longo prazo e questões realmente decisivas, como a eliminação da pobreza, a distribuição de riqueza ou a questão ecológica. Também me surpreendeu o carácter pacífico das pessoas e, digamos, mediterrâneo, festivo, bem como o gosto pela comida ou a importância da família, a maneira simples de viver e de fazer as coisas de uma forma prática.

A China é uma ameaça, uma esperança ou um pouco das duas coisas, e porquê?

Considero que a China representa, acima de tudo, uma esperança para o mundo, pois demonstrou a eficácia das suas políticas contra os problemas mais graves da humanidade, como a pobreza ou a crise climática. Também porque defende uma relação internacional pacífica entre países, diferente daquela a que estamos habituados, uma relação baseada no comércio, na cooperação, no ganho mútuo e não na imposição de um país sobre o outro. A China não procura impor o seu modelo a ninguém e defende um mundo multipolar onde as diferentes culturas e civilizações possam coexistir na sua diversidade.

Quando se fala de revolução pragmática, entende que o Ocidente deve olhar para a relação com a China de outra forma, com mais pragmatismo?

O Ocidente, pragmaticamente, deveria tentar aprender com algumas das coisas que a China faz bem, aprendendo com os outros. Deveria deixar de tentar impor os seus valores e formas de organização política ao resto do mundo. Deveria olhar para outras civilizações e países com mais humildade, procurando aprender com o que pode servir para melhorar a vida das populações. O Ocidente precisa de aceitar que o tempo do seu domínio mundial acabou, mas que pode coexistir em paz com o resto do mundo, respeitando as outras culturas sem ter de abdicar dos seus valores.

Na obra, faz uma espécie de “denúncia das campanhas mediáticas ocidentais” criadas para “desprestigiar a China”. Quais as mais evidentes? Por que razão são criadas estas campanhas e quais são os seus principais objectivos?

Para as potências económicas, corporativas e mediáticas ocidentais, um país que se define como comunista não pode servir de exemplo para o resto do mundo, muito menos para o chamado Sul Global. O objectivo é demonizar e denegrir a imagem da China para que nenhuma das suas políticas possa ser vista como positiva, sob pena de representar uma alternativa viável ao modelo capitalista neoliberal promovido pelo Ocidente. Qualquer medida chinesa, mesmo as claramente desejáveis, como a erradicação da pobreza ou a construção de uma civilização ecológica, deve ser apresentada de forma negativa. Para tal, são empregues todas as estratégias e manipulações mediáticas, se não mentiras descaradas, bem como um arsenal de palavras e expressões que contribuem para deixar uma impressão negativa no leitor. Estas estruturas descritivas são constantemente repetidas até serem inconscientemente aceites como verdadeiras. Toda a política chinesa é criticada, há sempre um custo que a invalida. Trata-se de informação altamente tendenciosa, que exige um leitor muito atento e perspicaz para reconhecer as armadilhas. Fala-se de propaganda chinesa, mas a propaganda ocidental é mais complexa de detectar. Requer um leitor atento.

Como vê a posição da Espanha em relação a Pequim? O primeiro-ministro espanhol tem assumido algumas posições contrárias a Washington em matéria de geopolítica que podem agradar mais à China. Considera que isso traz benefícios, sobretudo económicos?

Nos últimos tempos, Sánchez tem desempenhado um papel de destaque na política internacional e na União Europeia em questões cruciais como o genocídio em Gaza, a guerra do Irão e as relações com a China. A aproximação à China é recente, dado que Espanha tinha perdido terreno considerável para outros países europeus até há apenas quatro anos. Uma maior cooperação com a China trará, sem dúvida, benefícios para Espanha, graças à liderança da nação asiática em áreas-chave para o futuro, como a inovação tecnológica e a transição energética. Além disso, a China representa um aliado previsível e fiável numa altura em que a relação precária com os Estados Unidos parece cada vez mais instável.

Portugal está a perder terreno face à Espanha na relação com a China?

A relação da Espanha com a China tem crescido significativamente nos últimos meses. Recentemente, foi anunciado que a China ultrapassou a Alemanha e é agora o principal fornecedor da Espanha. Além disso, Pequim escolheu Espanha para acolher a sua maior fábrica de automóveis na Europa. Neste aspecto, Portugal tem vindo a perder terreno para Espanha economicamente. No entanto, mantém uma relação de longa data com a China, particularmente em territórios como Macau, algo que Espanha não possui. Isto representa uma vantagem que Portugal deve aproveitar para aprofundar laços a todos os níveis. Esse estreitamento não deve estar condicionado à filiação política do Governo em funções.

A China está a mudar o formato das relações internacionais e diplomáticas que temos vindo a conhecer até agora? De que forma?

Sim. A China propõe um novo modelo de relações internacionais regido pelos cinco princípios da coexistência pacífica que moldaram a sua política externa durante mais de 70 anos: essencialmente, não interferência nos assuntos internos de outros países, respeito pela soberania e integridade territorial e não agressão. Durante mais de 200 anos, estivemos habituados a uma forma de relações internacionais em que alguns países se impõem a outros, com vencedores e vencidos. A China promove uma política de ganho mútuo, na qual todos os países beneficiam da cooperação, seja ela económica, científica ou cultural. Além disso, defende uma ordem internacional muito mais justa do que aquela que emergiu da Segunda Guerra Mundial, com uma representação mais equitativa e proporcional do Sul Global em instituições como a ONU e outras. Apoia um mundo multipolar no qual não exista uma potência hegemónica dominante e todas as civilizações possam coexistir e colaborar pacificamente.

Como encara o conceito “Socialismo com características chinesas”? Existe ainda desconhecimento por parte dos outros países em relação a este modelo de governação?

Ainda existe muita ignorância em relação à China, pois há também o interesse em retratá-la como um país opaco, obscuro e desconhecido. O que não se conhece inspira medo, e o medo é um dos principais factores que quem detém poder utiliza para controlar os cidadãos. A China adopta um socialismo marxista adaptado às características históricas da sua antiga civilização, fortemente influenciado pelas suas principais escolas de pensamento filosófico, como o taoísmo e o confucionismo, e pragmático, muito ancorado na realidade, procurando sempre as melhores soluções para melhorar a qualidade de vida da população. É um sistema que só poderia ser aplicado na China e está intimamente ligado às idiossincrasias do país. No entanto, isso não nos impede de aprender muito com este modelo.

Em termos gerais, quais são as principais mensagens que este livro nos transmite?

Em poucas décadas, a China passou de um dos países mais pobres do mundo para se tornar na segunda maior economia global, sem praticamente disparar um único tiro fora das suas fronteiras. O seu desenvolvimento tem sido, e continua a ser, pacífico, tirando 800 milhões de pessoas (75 por cento dos pobres do mundo) da pobreza. Nos últimos 15 anos, o país tem demonstrado também uma grande consciência ambiental, procurando construir uma civilização ecológica. Agora, centra-se na redistribuição da riqueza gerada e na correção das desigualdades criadas pela economia de mercado, ao mesmo tempo que promove um desenvolvimento de alta qualidade baseado na inovação tecnológica. Tudo isto é feito de forma pragmática, fundamentada em princípios marxistas, mas rejeitando completamente o dogmatismo. A China experimenta diversas soluções para os problemas emergentes e adopta aquela que produz os melhores resultados para melhorar a vida das pessoas. É flexível, como o bambu. É um país que não é governado por elites económicas, mas por funcionários públicos excepcionalmente bem formados, que demonstraram a sua capacidade de gerir assuntos públicos ao longo dos anos, desde o nível local até aos mais altos escalões pelas mentes mais brilhantes entre 1,4 mil milhões de pessoas. Estes são apenas alguns dos factos que os meios de comunicação ocidentais nos escondem, obcecados em pintar um retrato de um país que pouco ou nada tem a ver com a realidade.

30 Mai 2026

Arraial de S. João | Da Torre para a Doca dos Pescadores

Há nova localização este ano para uma das festas mais icónicas das comunidades portuguesa e macaense no território. Segundo noticiou a TDM Rádio Macau, o Arraial de São João regressa nos dias 20 e 21 de Junho na Doca dos Pescadores, deixando de se realizar na Torre de Macau. Mais concretamente o arraial realiza-se na zona exterior do restaurante Vic’s, no Hotel Rocks, localizado na Doca dos Pescadores.

A organização do evento está a cargo da Associação dos Macaenses (ADM), trazendo, como é habitual, petiscos portugueses e muita animação. De destacar que a localização do arraial tem sido um assunto debatido tendo em conta a saída da festa do bairro de São Lázaro, onde a festa se realizou desde 2007, em frente à igreja.

A edição deste ano conta ainda com apoios do Fundo de Desenvolvimento da Cultura da RAEM, tendo a colaboração na organização da Casa de Portugal, do Instituto Internacional e da Associação dos Jovens Macaenses. O HM contactou Miguel de Senna Fernandes, presidente da ADM, a fim de obter um comentário sobre a mudança de localização, mas até ao fecho da edição não foi possível estabelecer contacto.

Paragens e suspensões

Recorde-se que o arraial não se realizou durante quatro anos devido à pandemia e depois por restrições de trânsito no bairro de São Lázaro. Miguel de Senna Fernandes explicou ao Ponto Final, no ano passado, que “abrir a calçada de São Lázaro significaria cortar a festa em bocados, e isso não seria possível”.

“As pessoas ainda preferem São Lázaro, mas têm de compreender”, disse, explicando que a solução da Torre de Macau era a possível para manter a celebração com o parco orçamento atribuído. “Ainda bem que continuamos a contar com o apoio da Torre, que muito prontamente aceitou conceder-nos o mesmo espaço. Caso contrário, isto seria absolutamente irrealizável”, frisou.

A Associação dos Macaenses (ADM) já referiu que o arraial vai muito além da dimensão religiosa de homenagem ao padroeiro São João Baptista, constituindo um “esforço comunitário para manter a tradição de comemorar a data histórica de 24 de Junho de 1622”, em que as forças portuguesas derrotaram as tropas holandesas, mantendo a Administração portuguesa no território.

28 Mai 2026

José Paulo Esperança, docente da Universidade Cidade de Macau: “Macau precisa de especialistas”

José Paulo Esperança, professor de Finanças da Universidade Cidade de Macau, apresentou ontem uma palestra sobre o sector financeiro local intitulada “Mercado Pequeno, Estratégia Inteligente: O Futuro Financeiro de Macau”. O académico considera essencial que o ecossistema financeiro local “se torne mais robusto”

O Governo tem na agenda política o desenvolvimento do mercado financeiro. Como descreve este sector actualmente e quais as principais lacunas que aponta? Faltam, por exemplo, mais empresas com contabilidade organizada, ou uma maior estruturação?

O ecossistema financeiro necessário para suportar a nova visão do sistema financeiro é complexo. Macau tem elevadas competências ao nível legal, bancário e de supervisão, mas o desenvolvimento de novos produtos e fundos exige maior número de especialistas em auditoria, compliance, gestão de risco, investimento em acções, obrigações e derivados, para além da necessidade de reforçar a literacia financeira em Macau. Não menos importante é a capacidade da comunicação social em ajudar a perceber as oportunidades e riscos dos produtos financeiros.

Na sua apresentação abordou lacunas, ou espaços a que o mercado financeiro de Hong Kong não consegue dar resposta e que Macau pode preencher. Que áreas são essas?

Hong-Kong tem uma das dez maiores praças financeiras do mundo e é a segunda pelo valor de IPOs (Initial Public Offerings), beneficiando do dinamismo de startups da China. Também tem uma projecção inquestionável na gestão de fortunas, no mercado de obrigações, e no mercado cambial. A regulação de novos produtos como “stable coins” também não foi ignorada. No entanto, apesar do dinamismo dos parques científicos e dos “family offices”, o financiamento de startups e pequenas empresas regista ainda lacunas significativas, essencialmente ao nível da mobilização de capital privado para novos projectos. Talvez uma das diferenças mais significativas entre Macau e Hong-Kong seja o nível da taxa de poupança que representa um enorme volume de capital “ocioso” à procura de oportunidades de investimento.

Macau pode, de facto, construir um mercado financeiro “mais focado e diferente” em relação ao cimentado sector financeiro de Hong Kong? Que produtos de nicho poderia ter?

Macau tem desenvolvido diversas iniciativas ao nível do mercado de obrigações (MOX) ou de direitos de carbono, “Macau Emissions Exchange” (MEX), ambas áreas onde Hong-Kong também possui forte presença, por exemplo com a emissão de “green bonds”. No entanto, outras iniciativas são claramente distintas, como é o caso do “Microconnect”, uma plataforma de “revenue based (ou royalty) financing (RBF)” em que os investidores são remunerados através de uma percentagem da facturação dos negócios investidos. Este modelo, que já apoiou mais de 10.000 pequenas empresas por toda a China, permite começar a receber dinheiro na conta bancária logo que o beneficiário faz a primeira venda. A China constitui um mercado excelente para este modelo de financiamento, dado o elevado nível de digitalização da economia, o que reduz o risco de fraude. Alguns estudos sugerem que o RBF é o modelo de financiamento de pequenos negócios com maior potencial de crescimento no mundo, mais de 30 por cento ao ano. Outros modelos com enorme potencial para Macau incluem a criação de uma rede de “business angels” que permitiria dinamizar as elevadas poupanças dos residentes de Macau. Um dos maiores especialistas, antigo presidente da European Business Angels Network (EBAN) e autor do “Zero Risk Start-Up”, Paulo Andrez, fez já três visitas a Macau, tendo apresentado o modelo que permitiu à Europa acelerar a sua rede de “business angels”, uma área em que estava muito atrás dos Estados Unidos da América. A criação de novos fundos e o compromisso de investimento público nesses fundos permite uma elevada expectativa na capacidade de alavancar os investimentos privados em start-ups locais, na Grande Baía e nos países de língua portuguesa (PLP). Finalmente, uma área ainda não explorada que proponho é a criação de plataformas de “crowd-funding” que podem mobilizar muitas pequenas contribuições para novos projectos com fins lucrativos, ou para apoio a famílias de baixos recursos, por exemplo nos PLP.

Mencionou ainda exemplos de pequenas economias com laços internacionais, como o Luxemburgo e o Dubai. Que perperspectivas estes territórios abrem para a RAEM?

Estes pequenos centros financeiros têm diferentes especializações. Por exemplo, Singapura é muito forte em gestão de fortunas, mercados cambiais e derivados, mas o seu mercado de capitais é muito reduzido. O Luxemburgo beneficia de uma posição central na União Europeia e tornou-se o segundo maior centro de fundos de investimento bem como ao nível da indústria seguradora e de resseguros. Os fundos de investimento podem ter um elevado potencial também para Macau, mas é necessário que o nosso ecossistema se torne mais robusto.

Macau é, há muito, um território com baixa carga fiscal, não existindo impostos sobre o consumo ou rendimentos. Considera que haveria espaço para uma mudança – que seria estrutural – a esse nível?

A baixa carga fiscal é fundamental, nesta fase. A Irlanda é um exemplo em que um IRC [Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas) reduzido, de 12.5 por cento, permitiu atrair muitas multinacionais. No futuro, um sector financeiro mais robusto em Macau pode permitir uma receita fiscal mais elevada, mas isso vai levar algum tempo.

Macau quer apostar no desenvolvimento do sector financeiro, mas parece demorar a flexibilizar as leis de contratação de quadros externos. É importante ter uma “mente aberta” a este nível e permitir uma contratação mais acessível de pessoas, sobretudo do espaço lusófono?

Macau precisa de atrair especialistas e “boutiques” especializadas em produtos financeiros inovadores. Na fase de arranque é fundamental uma maior abertura ao direito de residência de especialistas e apoio financeiro à criação de novas empresas no sector financeiro e segurador. Portugal e o Brasil têm uma experiência recente de dinamização do sector financeiro de que Macau poderia beneficiar, para além de os mercados dos PLP representarem oportunidades de investimento muito interessantes, sobretudo se associadas à entrada de empresas chinesas, nas áreas da energia, agricultura ou indústria transformadora.

Finanças ao pequeno-almoço

“Small Market, Smart Strategy: Macau’s Financial Future?” [Mercado Pequeno, Estratégia Inteligente: O Futuro Financeiro de Macau?] foi o tema da mais recente sessão de conversas ao pequeno-almoço, organizada ontem pela Câmara de Comércio França Macau no Sofitel Ponte 16.

A sessão protagonizada por José Paulo Esperança teve como objectivos frisar a importância de Macau não copiar as características de Hong Kong, mas aproveitar e preencher as lacunas da praça financeira vizinha, e ganhar margem de manobra no financiamento de startups e nas ligações aos países de língua portuguesa e espanhola.

Segundo o académico, produtos financeiros de nicho e aposta em novas tecnologias podem também ser trunfos da RAEM. Em Portugal José Paulo Esperança foi vice-presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal, tendo ainda ajudado a criar o AUDAX-ISCTE, um centro dedicado ao empreendedorismo e às empresas familiares, que presidiu até 2015 e reitor da ISCTE Business School.

28 Mai 2026

Bombeiros | Saídas para incêndios sobem 15%

Dados do Corpo de Bombeiros (CB) mostram que o número de saídas para casos de incêndios aumentou, em termos anuais, 15,35 por cento, tendo-se registado, entre os meses de Janeiro e Março deste ano, 248 casos, face aos 215 casos registados em igual período do ano passado.

O CB explica que em 194 saídas não foram usadas mangueiras, sendo que “as principais causas dos incêndios deveram-se ao esquecimento de desligar os fogões, a chamas que não foram totalmente extintas, à queima de incensos e velas/papéis votivos, ao curto-circuito das instalações eléctricas e às falhas mecânicas/de equipamentos”, com um total de 166 casos. Tal representou 66,94 por cento do número total de saídas de incêndio.

No caso das saídas com ambulâncias, houve um ligeiro aumento de 0,93 por cento, com 11.515 casos a registarem-se no primeiro trimestre deste ano. Registaram-se, portanto, mais 106 casos em termos anuais, sendo que os casos gerais de socorro estiveram relacionados, na sua maioria, com episódios de tontura, dor abdominal, febre e vários tipos de ferimentos.

Destacam-se ainda, nos dados ontem divulgados, um aumento de 55,16 por cento de ocorrências de “serviços especiais”. No primeiro trimestre deste ano, registaram-se 1.775 casos face aos 1.144 casos dos primeiros três meses de 2025.

27 Mai 2026

Glenn Mccartney, académico: “É importante avaliar continuamente o sentimento da comunidade”

O que leva a boicotes turísticos, seja de turistas que rejeitam destinos, ou populações com atitudes negativas face a visitantes? O docente da Universidade de Macau Glenn Mccartney analisou as causas destes boicotes e alerta: “É algo a que devemos estar cada vez mais conscientes em Macau, dado o grande volume de visitas”

No artigo “Tourist Boycott Decision-Making—Why Do It (Or Not)? Understanding and Responding to Tourism Boycotts” cita o trabalho de outros estudiosos sobre o boicote turístico que ocorreu em Hong Kong durante os protestos em Central. Terá sido este um ponto de viragem para o sector do turismo, deixando uma marca na região?

Os boicotes turísticos têm um efeito imediato e subsequente de longa duração. A questão reside em quanto tempo o sentimento negativo permanece, e também nas intervenções das autoridades de turismo para restaurar esse sentimento positivo – algo que vimos em boicotes anteriores, onde o número de visitantes foi restaurado. Embora o boicote deva ser evitado, naturalmente que a tarefa do destino e das autoridades turísticas é agir rapidamente, por exemplo, através de campanhas de comunicação, para evitar que qualquer sentimento negativo se enraíze.

Estará Macau preparada, em termos de gestão da comunicação, imagem e apoio ao sector, para um boicote turístico?

A questão do comportamento em torno do boicote turístico é a animosidade ou retaliação do potencial visitante. A acção tomada pode ser cancelar reservas (se for possível), mudar a viagem para outro local e partilhar opiniões nas redes sociais. Constatei que existem múltiplas razões pelas quais surgem boicotes e animosidade por parte dos turistas. O viajante pode perceber algo que aconteceu no destino como sendo antiético ou errado, e contrário à sua própria imagem, ou ser influenciado por outros, como, por exemplo, através de redes sociais. Os viajantes podem continuar a achar que ocorreram irregularidades, mas mesmo assim viajar, considerando o boicote desnecessário, pensando que são outros que estão a aderir ao boicote. [Podem ainda pensar] que o boicote poderá prejudicar comunidades que dependem do turismo, como as pequenas e médias empresas, ou que a acção terá, de qualquer forma, um impacto limitado, mas é importante ter em conta que pode continuar a existir um sentimento negativo. Avaliar a probabilidade de um boicote é válido, mas a comunicação, e especialmente o envolvimento nas redes sociais, é uma acção fundamental para mitigar consequências a longo prazo. Na verdade, a gestão da comunicação também faz parte de uma estratégia de resposta à gestão de crises no turismo. É necessário evitar comportamentos arraigados e trabalhar em intervenções como a comunicação eficaz junto desses visitantes, quer estejam, ou não, a boicotar [o destino], e também da comunidade, funcionários do turismo e hotelaria, e meios de comunicação, incluindo as redes sociais, ligadas também a questões como a imagem da cidade como destino. Dada a importância significativa do turismo para Macau, o comportamento de boicote ou qualquer tipo de animosidade em relação ao turismo de massa que gere maior atenção poderia ser tido em conta na preparação para a gestão de crises turísticas.

Tendo em conta as conclusões do seu estudo, que factores poderiam levar a um boicote a Macau como destino turístico?

Quando escrevi este estudo, analisei os boicotes turísticos a nível global, bem como as suas razões e consequências. No que diz respeito à sua questão, o foco poderia estar no sentimento dos residentes ou análise das publicações nas redes sociais partilhadas por visitantes, na sua maioria provenientes da China continental e de Hong Kong. [O potencial boicote] poderia dever-se, por exemplo, a um incidente de falha no serviço ou a uma experiência negativa que pudesse escalar em discussões nas redes sociais. Não se trata de uma acção de boicote turístico, como refiro no documento, mas sim de expressão de um sentimento negativo, que, no entanto, poderia prejudicar a imagem do destino. Esta perspectiva é particularmente importante devido à estratégia de Macau de se posicionar como Centro Mundial de Turismo e Lazer, pelo que monitorizar o sentimento dos visitantes estaria intimamente ligado à avaliação contínua e ao investimento nesta declaração de posicionamento da marca.

Pode a guerra no Médio Oriente dar origem a cenários de boicote, especialmente em regiões onde existem investimentos no turismo e no jogo? Será que Macau poderá tirar partido desta situação, e como se deve posicionar tendo em conta esse panorama?

A guerra no Médio Oriente poderá dar origem a cenários de boicote. Há quem seja afectado na região, bem como pessoas que formam opiniões ao ver televisão, programas de opinião e publicações nas redes sociais. Os boicotes podem significar que os turistas procurem ou lhes sejam apresentados destinos alternativos, e esta mudança pode ser a curto ou a longo prazo. Uma estratégia turística para Macau neste momento consiste em alargar os segmentos turísticos além da China continental e de Hong Kong. Por exemplo, houve recentemente uma delegação de alto nível a Portugal e Espanha, com o objectivo de reforçar laços turísticos. Por isso, o foco deve permanecer nestas acções de desenvolvimento turístico, como consolidar a imagem de marca da cidade de Macau nos potenciais mercados turísticos estrangeiros, desenvolver ligações de transporte, como companhias aéreas, infra-estruturas e desenvolvimento de produtos turísticos em Macau, e estratégias de marketing e promoção para viajantes de lazer e de negócios no estrangeiro, com uma perspectiva mais ampla do turismo internacional para Macau e Grande Baía.

Poderá ocorrer em Macau um boicote turístico inverso, com os locais a “boicotar” turistas, evitando-os ou adoptando atitudes menos acolhedoras?

Sim, é possível que os habitantes locais adoptem uma atitude menos acolhedora em relação ao turismo. Isso já está bem documentado em estudos sobre turismo e a atitude dos residentes. Há casos em que os residentes se sentem incomodados e irritados com o aumento do número de visitantes, especialmente quando se considera que os custos superam os benefícios. Temos assistido, nos últimos anos, a protestos em ruas e locais turísticos. Isto deve-se a grandes aumentos dos preços da habitação e rendas, à sobrelotação, que também se designa por “turismo excessivo”, e ainda à pressão sobre as infra-estruturas e o ambiente local. Penso que é algo de que devemos estar cada vez mais conscientes em Macau, dado o grande volume de visitas. Os resorts integrados no Cotai foram concebidos para grandes volumes de visitantes, pelo que o foco recairia sobre os bairros e comunidades locais. Tudo para que os benefícios económicos positivos, directos ou indirectos, sejam sentidos e superem as percepções negativas. Por isso, será importante avaliar continuamente o sentimento da comunidade, fazendo investigação sobre a economia, mas incluindo, também, as perspectivas sociais e ambientais. Isso iria proporcionar uma visão mais abrangente das atitudes dos residentes, não apenas no presente, mas também com vista a possíveis acções futuras para manter um sentimento positivo. Existem formas de as autoridades planearem, gerirem e definirem estratégias para o desenvolvimento do turismo de forma sustentável, o que implica, essencialmente, adoptar uma visão de planeamento a longo prazo e uma maior consulta à comunidade – mantendo-a informada. Ou seja, um bom canal de comunicação. Vimos isso, por exemplo, no programa de consulta pública sobre a revisão da lei do jogo de Macau em 2021. Outras acções comuns incluem, por exemplo, reuniões comunitárias abertas ao público.

Glenn Mccartney destaca a importância da capacidade de resiliência

Em “Tourist Boycott Decision-Making—Why Do It (Or Not)? Understanding and Responding to Tourism Boycotts”, Glenn Mccartney destaca a importância de perceber quando vem aí uma crise no turismo “tendo em conta a proximidade e incerteza sentidas na fase de recuperação pós-pandémica, a influência das redes sociais e maior sensibilização dos turistas, bem como a sua reacção emocional a questões globais”.

Nas conclusões do estudo lê-se que “o sentimento inicial de boicote pode ser um prenúncio de piores tempos por vir (especialmente se o que motivou o boicote persistir)”, sendo que o estudo de causas e impactos pode ajudar as autoridades a elaborar “respostas e intervenções adequadas para dissuadir acções de boicote e mitigá-lo a longo prazo”.

Torna-se, assim, fundamental analisar “quais os motivos de boicote que resultam em comportamentos de viagem mais ou menos arraigados e em que cenários”, ou ainda “acompanhar a evolução do sentimento de boicote”. Outro critério importante é “examinar a resiliência do destino durante e após o boicote”, criando-se uma “projecção de recuperação que inclua factores sociais e internos”. Essa recuperação deve ainda incluir “a cooperação entre sectores público e privado e uma resposta colectiva apoiada por dados”.

Causa e efeito

No estudo do docente da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau, destaca-se que “a animosidade e impactos variam consoante o evento que deu origem ao boicote e a resposta das autoridades”, sendo citado um estudo sobre o impacto dos protestos em Hong Kong, de 2020.

“Ao investigar boicotes turísticos por parte de turistas chineses decorrentes de animosidade política (por exemplo, o protesto Occupy Central em 2014) ou não política (por exemplo, o sequestro de um autocarro em Manila em 2010), verificou-se que os boicotes por animosidade não política exerceram impactos imediatos a curto prazo, enquanto os boicotes por animosidade política se prolongaram.”

Glenn Mccartney cita também o caso ocorrido durante o Ano Novo Chinês, no ano passado, quando a “Tailândia registou um declínio dramático no número de viajantes chineses devido a preocupações de segurança relacionadas com o rapto e posterior resgate de um actor chinês, Wang Xing”.

27 Mai 2026

A-Má | Nova edição de concurso literário aceita submissões até Setembro

Está aberto o período de submissão de textos literários sobre Macau para a quarta edição do Prémio A-Má, da Fundação Casa de Macau, que visa premiar os melhores escritos sobre o território, nas vertentes de cultura e literatura. O objectivo é também divulgar e valorizar a identidade macaense. Os prémios vão dos 200 aos 500 euros

A Fundação Casa de Macau volta a organizar mais uma edição do Prémio A-Má, que visa “incentivar e premiar a criatividade no âmbito da divulgação e valorização da identidade macaense”, destaca um comunicado. Até ao dia 15 de Setembro deste ano, os que escrevem sobre Macau podem enviar os seus textos, sendo este “um prémio de escrita”, com o conto a ser a modalidade do concurso.

Este texto “pode ser uma narrativa real ou ficcionada”, com o tema a dever ser relacionado com Macau e/ou a cultura macaense, “sob qualquer perspectiva ou interpretação do autor”, explica a fundação. Há prémios pecuniários para os vencedores, que começam nos 200 euros para o terceiro lugar, 300 euros para quem fica em segundo lugar e, finalmente, 500 euros para o primeiro lugar.

O júri é composto por três elementos, sendo presidido pelo presidente do Conselho de Curadores da Fundação Casa de Macau e dois membros convidados pela fundação.

Numa das sessões públicas de divulgação do prémio, em 2021, Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, declarou que o Prémio A-Má visa chamar a atenção para a identidade muito própria da comunidade macaense, e não apenas para o território em si. “Temos de olhar para o amanhã, e crer que tudo o que está a ser feito, e da parte da Fundação também, é olhar para esse amanhã e para esse reforço da identidade.”

O responsável disse ser fundamental esse trabalho de preservação tendo em conta “as enormes mudanças” que Macau tem tido. “A Grande Baía é agora o grande projecto do Governo da RAEM, sendo uma iniciativa do Governo Central. Com o crescimento de Hengqin, e todo este crescimento rápido [traz] enormes potencialidades, há muito que fazer. Este é apenas um pequeno trabalho”, acrescentou na altura.

Letras orientais

A última edição do concurso, a terceira, teve lugar em 2023, tendo sido atribuído o primeiro prémio a Ester Liñares, com o texto “Mui Wong”. Em segundo lugar ficou “A Jornada de Nina”, um trabalho literário de Rute Taveira. Em 2022, Evirges Aparecida Salgado arrecadou o primeiro prémio com “Enigma da Primeira Lua”, seguindo-se os segundos lugares ex-aequo ganhos pelo jornalista e ex-residente de Macau, João Botas, com o texto “Macau Sempre”; e Shee Va, que escreveu “Tomásia”.

Na edição de 2021 Caroline Pires Ting, investigadora, ficou em primeiro lugar ex-aequo com o texto “Ressonances between Tao Yuan-Ming (365-427) and Camilo Pessanha (1867-1926): The Paradise as utopic escape”. Ana Cristina Alves, ex-professora da Universidade de Macau e coordenadora do centro educativo do Centro Cultural e Científico de Macau, foi também a primeira classificada com o trabalho “Delírios de A-Má”.

Fátima Almeida, residente em Macau, ex-jornalista e actualmente professora universitária, ficou em segundo lugar ex-aequo com o conto “When I first Heard Kun Iam’s Voice”.

26 Mai 2026