O Paraíso Perdido da Infância

Olho para o meu filho, ausculto-lhe o nascimento. Nasce-se e nunca se está verdadeiramente pronto para sobreviver, quanto mais para existir. Existir começa com o contacto com o outro. Eu só existo por oposição ao outro. É do contacto com os primeiros cuidadores que o universo inteiro se desembrulha, com todas as assunções subliminares que a nossa micro-relação interpessoal com os nossos guias-protectores no mundo nos incutem para sempre, como uma genética emocional, gravada, perpétua por ser a primeira aprendizagem, a primeira experiência. Os primeiros medos, as primeiras formas de amar, tudo surge dessa cartografia afectiva que nos foi deixando mapas inconscientes aos quais regressamos sempre para explicar um fenómeno ou para reagir a um determinado estímulo.

Este mundo que nos é atirado para as mãos como um presente é um privilégio que vamos ter de justificar, muitas vezes, para nós mesmos, para o resto das nossas vidas. A infância é o laboratório social que nos modela a personalidade e por isso precisamos de voltar a ela. Não é aqui a psicanálise o mesmo que uma teologia da personalidade humana, a criação de uma mitologia pessoal que vamos tentar descortinar, sem qualquer certeza. Foram a secularização e o desenvolvimento da economia e da sociedade burguesa que permitiram esta afirmação sem precendentes do poder do indivíduo como único, quase omnipotente.

Podemos verdadeiramente depender desta assunção?

“Dichtung” em alemão significa simultaneamente poesia e verdade, é Goethe quem traz à humanidade esta brilhante ideia de relacionar o passado com o presente, a criança com o adulto, a criança interior que fica para sempre lá dentro, dentro do adulto. Goethe usa o termo “Dichtung” para descrever a sua vida, porque ele a sabe inabitável, uma passagem onde se mantém algumas derrapagens na desarticulação natural da memória.

A infância é uma carapaça com língua. A infância é poesia e verdade entre o acontecimento empírico e factual, e a projeção idealizada. É ficção e racionalidade, o lugar de todos os encontros. Saímos dela inconscientes, regressamos a ela com um espírito científico, analítico, sedento de consciência, sedento de se apropriar do que é inconsciente para o tornar consciente. Primeiro existir, depois criar, primeiro a nossa infância, depois a infância dos nossos filhos. O “confrontamento hermenêutico com o conteúdo vivido” (Jacobs). O sujeito escava-se, encontra material, lê nisso as intervenções mais ou menos intencionais do próprio sujeito para lhe conferir perspectiva e significado. É desta forma que podemos esquematizar o privilégio emocional como soldados intelectuais com ferramentas psicanalíticas, colectar dados, procurar de padrões, tornar a vida em ciência. A poesia em facto.

Por isso, a superação anual dos níveis de privilégio emocional entre a população deveria ser estipulada prioridade política. Uma educação para o amor. Amar o ser, ausente de socialização, primitivo, amar a sua existência sem condicionamentos, amar um filho como quem explica o fogo.

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Isabel Ferreira
Isabel Ferreira
28 Ago 2020 14:43

Excelente texto. A infância é um lugar que ditará para sempre a forma como encararemos o resto da nossa vida.