O umbral da desordem mundial (III)

(Continuação do artigo publicado na edição de 9 de Julho)

Os segredos ocultos nas sombras levantinas devem ser decifrados lendo a sua trama original como um grande tapete persa tecido pelo avesso, o ghali, na designação farsi adoptada pelo turco. Viremolo para estudar os nós que desenham a sua estrutura profunda ao longo da modernidade, começando pela rivalidade entre o império otomano, Estado Grande da Casa de Osman, governante durante séculos da Palestina hoje ocupada por Israel e as dinastias iranianas contemporâneas, dos Safávidas aos Cajar, com a posterior e irregular dinastia Pahlavi. Rivalidade permanente, abalada em 1948 pelo surgimento do Estado israelita, nave alienígena caída sobre terras sagradas de outra maneira. A ordem do dia em Jerusalém é combater hoje o Irão para preparar a derrota da Turquia amanhã.

É também uma forma de elaborar o luto pela eventual perda do Inimigo perfeito que é a República Islâmica. Considerada ameaça existencial pelas elites porque, até à ascensão de Ancara como pivô neo-imperial, não existiam outros adversários capazes de encarnar Amalec, o Mal absoluto da tradição bíblica. O paradoxo da guerra israelita é que está a combater o único adversário capaz de manter unidas as suas tribos cada vez mais heterogéneas. Assim, vencer significaria perder. Tragédia remediável erguendo a Turquia ao para-sultanismo de Recep Tayyip Erdoğan como novo Satã. O qual, por sua vez, eleva o Estado israelita à condição de demónio guiado pelo “novo Hitler”, que “se Deus quiser pagará o preço” dos seus massacres. Enquanto conta que os “nazis” de Jerusalém reduzam o poder iraniano.

Se realmente o Senhor afundar Israel, a única potência a dominar o Médio Oriente será a Turquia. Na fórmula do ex-primeiro-ministro e aspirante a sucessor de Netanyahu, Naftali Bennett: “A Turquia é o novo Irão”. Ancara encara a agressão israelo-americana contra Teerão como ameaça vital. Antes de mais, devido ao risco de migração em massa caso o Irão seja devastado. A República Islâmica funciona para a Turquia como uma esponja destinada a protege-la da entrada de multidões vindas do sul (Iraque) e do leste (Afeganistão). A tal ponto que o Estado profundo turco (Derin Devlet), império dentro do império de matriz kemalista, planeia penetrar, se necessário, nas ruínas do império iraniano para estabelecer ali uma zona tampão onde internar os potenciais refugiados. O barco está sobrelotado. A Turquia acolhe o maior número de refugiados do mundo, quase dois milhões e meio, 90 por cento dos quais sírios. O que aconteceria se chegassem os 3,8 milhões de afegãos que ainda vagueiam em território persa? Sem falar do possível avanço de curdos iranianos incitados pelos serviços americanos e israelitas contra o regime dos Pasdaran. E sem excluir que o colapso da complexa composição étnica iraniana antigo projecto da inteligência britânica empurre também os azeris da Pérsia para a Turquia, que, para não entrar em contradição com o seu panturanismo, teria de os acolher em nome da afinidade étnica.

A fricção turco-israelita vai muito além da emergência migratória e do impacto da guerra sobre a frágil economia turca, cuja inflação voltou a acelerar, levando o Banco Central a ponderar sacrificar parte das reservas de ouro para sustentar a lira. A estratégia do caos patrocinada por Netanyahu visa desestruturar, juntamente com o corredor imperial persa, a esfera de influência de Ancara, o chamado Mundo Turco, centrado no Médio Oriente, nos estreitos oceânicos, na Ásia centro-ocidental e nos Balcãs. Uma reinvenção ampliada do império otomano, pelo qual o Estado israelita se sentiria cercado e sufocado. A entrada dos turcos em Damasco ontem, e talvez em Gaza amanhã, coloca Jerusalém pela primeira vez frente a frente com uma grande potência adversária. O risco de guerra turco-israelita, especialmente na Síria penetrada por ambos, é real. As ligações de Erdoğan com o Paquistão e a Arábia Saudita levam Netanyahu a evocar um arco sunita radical potencialmente mais perigoso do que o xiita, entre Bagdade e Beirute, quebrado pela queda do regime sírio.

Neste contexto, Jerusalém persegue três objectivos. Primeiro, separar a Turquia dos Estados Unidos. Segundo, alimentar os conflitos regionais para manter sob pressão os antigos dominadores da Palestina. Terceiro, construir um sistema de alianças de duplo corte, anti-persa e anti-turco. Aqui, o Estado israelita tempera a sua visão apocalíptica com uma estratégia positiva ainda por definir que é uma cintura de contenção do imperialismo turco sunita e do enfraquecido crescente iraniano xiita. Netanyahu chama-lhe “Hexágono”. Na sua mente, a moldura externa do Grande Israel em construção. Inclui Grécia e Chipre onde a direcção anti-turca é explícita além de vários países do Médio Oriente, da Ásia e de África, entre os quais os Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Quénia. No centro deste esquema está a “aliança de ferro” com a Índia. Grande potência emergente, liderada pelo islamófobo Narendra Modi, recebido em Março por Netanyahu com excessos de honra. Duas potências tecnológicas com ampla cooperação militar, ambas interessadas em desenvolver circuitos comerciais alternativos às rotas chinesas para ligar Ásia e Europa através da Península Arábica e do Mediterrâneo, com eventual ligação ao norte adriático. Israel fornece a tecnologia, a Índia a escala económica e o mercado.

Israel e Índia cultivam a memória das afinidades entre sionismo e Hindutva, cujo ideólogo, Vinayak Damodar Savarkar, escreveu em 1923 “Se o sonho sionista se realizasse e se a Palestina se tornasse um Estado judeu alegrar-nos-íamos quase tanto quanto os nossos amigos judeus.” Hoje, a fusão entre para-democracia, radicalismo religioso e supremacismo étnico, marca de ambos, projecta uma imagem coerente deste alinhamento nada surpreendente. Com a diferença de que, enquanto Israel trata Bharat nome próprio da Índia de Modi, rejeição da designação britânica como aliado estratégico, em Nova Deli a palavra “aliança” é tabu. Em nome da astúcia transaccional de um colosso que não quer prender-se a nenhuma carruagem.

Da relação com os Estados Unidos e com a NATO restam sobretudo as bases militares que a União Europeia coloca à sua disposição, ainda que acompanhadas de reservas crescentes como se viu quando, no final de Março, vários Estados membros recusaram autorizar a escala de bombardeiros americanos em território europeu. Esse gesto, discreto mas significativo, revela um início de reavaliação do papel estratégico dessas infraestruturas, tradicionalmente entendidas como penhor transatlântico da segurança europeia. A guerra em curso demonstra, porém, que acolher meios militares americanos no próprio território pode transformá-los em alvos directos. É o caso, por exemplo, dos mísseis iranianos Khorramshahr4, cujo alcance é suficiente para atingir o espaço europeu.

Precisamente quando termina o fim da história e tudo nos convoca à responsabilidade por nós próprios, mergulhamos numa Grande Metáfora que substitui a realidade desagradável. O dever ser vendido como ser. Na retórica pública, suficientemente transversal, projectamos este universo imaginário com prodigalidade de fantasia. O hino: “A nossa pátria é o mundo inteiro”, cantado pelos anarquistas europeus refugiados na América no final do século XIX. A fé é a ONU como embrião de um governo mundial, com o diapasão do Conselho de Segurança a afinar todas as dissonâncias. O paradigma é a União Europeia, Super-Estado moralizador perante o qual recitamos os trabalhos de casa. Tudo sob o mágico guarda-chuva americano.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado