VozesClima: Recurso natural em perigo Olavo Rasquinho - 7 Ago 2026 O clima pode ser considerado como um recurso natural perpétuo e inesgotável, que nos disponibiliza energia e condições para a vida, embora sujeito a mudanças devidas a causas naturais e humanas. Nada podemos fazer quanto às primeiras, pois não está nas nossas mãos alterá-las. Assim, por exemplo, não podemos influenciar os ciclos de Milankovich, que consistem em alterações na órbita da Terra com periodicidades de milhares de anos. Estes ciclos estão na base da alternância dos períodos glaciares e interglaciares. Atualmente estamos num período interglaciar e há cientistas que apontam para a probabilidade de a próxima glaciação sofrer atraso devido ao aquecimento global causado pelos gases de efeito de estufa (GEE). Esse atraso poderá atingir entre 50 000 e 100 000 anos. Estatisticamente deveria começar aproximadamente dentro de 10.000 anos. Segundo artigos científicos publicados nas revistas “Nature” e “Science”, modelos climáticos revelam que a concentração dos GEE alterou o ciclo natural climático da Terra. A concentração na atmosfera destes gases tem aumentado constantemente desde o início da era industrial. Para ilustrar esta afirmação basta relembrar que a concentração do dióxido de carbono, um dos principais GEE, aumentou, desde o início da revolução industrial (1750) até 2025, de aproximadamente de 280 partes por milhão (ppm) para 427 ppm. Além dos ciclos de Milankovich contam-se como as principais causas naturais das mudanças do clima, a atividade solar, as erupções vulcânicas, a deriva dos continentes e fenómenos designados por teleconexões, entre os quais o “El Niño” e “La Niña”. No que se refere à atividade solar há a considerar ciclos de aproximadamente 11 anos em que a intensidade da radiação sofre alterações significativas. A influência destas variações sobre o tempo e o clima é praticamente desprezável, o que já não acontece em relação ao campo magnético da Terra, que sofre alterações significativas. As causas humanas das alterações climáticas são bem evidentes, das quais sobressaem o uso desenfreado de combustíveis fósseis, a desflorestação, a agropecuária intensiva, a poluição e a urbanização. A urbanização em grande escala altera localmente o clima, criando ilhas de calor. O impacto ecológico de uma pequeníssima parte da biosfera, constituída pela humanidade, é tão intenso que há uma corrente científica que advoga que já entrámos no Antropoceno, ou Época dos Humanos. Uma das consequências consiste no degelo de parte das calotas polares, o que contribui para o aumento do nível do mar e a diminuição do poder refletor (albedo) da Terra. A fusão do gelo marinho também tem como consequência a diminuição do albedo e tem forte impacto na biodiversidade marinha. Entretanto, o aumento da população mundial e, consequentemente, o consumo de recursos naturais, faz com que os sistemas socioecológicos sofram degradação cada vez mais acelerada. Segundo o “Stockolm Resilience Centre”, um prestigiado centro de investigação sobre a sustentabilidade e resiliência de sistemas socioecológicos, a pressão humana impõe riscos de segurança que incidem sobre nove processos críticos globais que regulam a estabilidade e a resiliência do nosso planeta. Esta instituição desenvolveu o “Modelo das Fronteiras Planetárias”, através do qual se pretende monitorizar os 9 sistemas vitais que garantem a estabilidade da vida na Terra. Entende-se por fronteiras planetárias os limites científicos quantificáveis que não devem ser ultrapassados de modo a garantir que o nosso planeta permaneça estável, resiliente e habitável. Segundo o relatório “Planetary Health Check”, publicado em 2025, os 9 sistemas vitais da Terra são os seguintes: Alterações Climáticas, Integridade da Biosfera, Alteração do Sistema Terrestre, Uso de Água Doce, Fluxos Biogeoquímicos, Introdução de Novas Entidades, Acidificação dos Oceanos, Carga de Aerossóis Atmosféricos e Destruição da Camada de Ozono. Destes nove sistemas apenas os dois últimos ainda não ultrapassaram o limite operacional, mas encontram-se em perigo. O clima, como recurso natural, deve ser tratado com o cuidado necessário para a preservação das suas características. Veja-se o exemplo do combate à destruição da camada de ozono, que nos protege das consequências nefastas da ação de parte da radiação ultravioleta. Graças às medidas preconizadas no Protocolo de Montreal (1987), a deterioração da camada de ozono foi refreada, como resultado da proibição do fabrico e uso de “sprays” contendo clorofluorcarbonetos. Este exemplo poderá servir de incentivo para que se apliquem as recomendações preconizadas no Protocolo de Quioto (2005) e Acordo de Paris (2016) para que se tomem medidas mais enérgicas para combater a possibilidade de os 7 sistemas que já ultrapassaram o limite operacional seguro, passarem ao patamar seguinte e atingirem o ponto de não retorno. Infelizmente, forças políticas retrógradas têm contribuído para travar as medidas preconizadas nos vários acordos e protocolos no âmbito das Nações Unidas, o que poderá causar graves consequências no que se refere à deterioração do recurso natural mais importante, o Clima.