Fogo em arranha-céus de Hong Kong agravado pelos andaimes de bambu e painéis de isolamento

O Governo de Hong Kong concluiu esta sexta-feira que o incêndio de grande proporção num condomínio residencial que matou, pelo menos 128 pessoas, na quarta-feira, foi agravado devido aos andaimes de bambu e painéis de isolamento de espuma inflamáveis.

Segundo o relatório de peritagem preliminar, aqueles materiais utilizados em obras que estava em curso contribuíram para que as temperaturas fossem mais elevadas.

“Com base nas informações iniciais que temos, acreditamos que o fogo começou na tela de proteção (material de espuma para proteger contra propagação de pós e queda de objetos) localizada na parte externa dos andares inferiores (…), e subiu rapidamente devido aos painéis”, que protegiam as janelas, disse o chefe de segurança daquela região administrativa especial da China, Chris Tang.

Além dos 128 mortos, há registo de 79 feridos, segundo o último balanço das autoridades locais. O mesmo responsável precisou que 89 corpos resgatados não foram ainda identificados, e que 200 pessoas continuam desaparecidas. Neste número, estão incluídas as pessoas não identificadas.

O mesmo responsável indicou que a investigação para determinar as causas da tragédia ainda está em curso e poderá demorar três ou quatro semanas.

Os bombeiros de Hong Kong concluíram hoje as operações de combate ao pior incêndio na cidade em décadas, num complexo residencial construído nos anos 80, composto por oito torres com perto de 30 andares e um total de 1.984 apartamentos, onde viviam cerca de quatro mil pessoas.

As chamas estavam “amplamente extintas” às 10:18 locais (02:18 em Lisboa), hora em que foram dadas como concluídas as operações de combate ao incêndio, segundo um porta-voz do Governo em declarações à agência noticiosa francesa France Presse (AFP), citando os bombeiros.

O que se sabe sobre o incêndio que matou 151 pessoas em Hong Kong

Hong Kong continuava hoje a contar as vítimas do incêndio que devastou um complexo residencial na quarta-feira, o mais grave em décadas, com pelo menos 151 mortos. As autoridades da região administrativa especial chinesa vizinha de Macau detiveram 11 pessoas por suspeita de negligência, mas as causas do incêndio ainda não foram determinadas.

Eis o que se sabe sobre a tragédia, segundo a agência de notícias France-Presse (AFP):

O que aconteceu?

O alarme para o incêndio foi dado pelas 14:50 de quarta-feira. O fogo atingiu um complexo imobiliário de 1.984 habitações e oito torres de 31 andares cada, chamado Wang Fuk Court, localizado em Tai Po, nos Novos Territórios, no norte de Hong Kong. O complexo, inaugurado em 1983, estava a ser alvo de obras de renovação, mas continuava ocupado por cerca de quatro mil pessoas que ali viviam.

Chamas imensas propagaram-se com extrema rapidez entre os edifícios, que estavam rodeados por andaimes de bambu e redes de proteção. Centenas de bombeiros foram mobilizados para prestar socorro e extinguir o incêndio. Os bombeiros só declararam o fim das operações contra o fogo hoje de manhã (sexta-feira).

Quantas vítimas?

O balanço provisório mais recente era hoje à tarde de 128 mortos [151 é o número mais recente], dos quais 89 ainda não tinham sido identificados, segundo o chefe de segurança de Hong Kong, Chris Tang. Mais de cem pessoas continuavam desaparecidas na mesma altura. Também havia 79 feridos, 11 dos quais em estado considerado crítico. Os familiares percorreram hospitais e morgues à procura de vítimas.

Trata-se do incêndio em edifícios mais mortífero a nível mundial desde 1980, excluindo incêndios ocorridos em discotecas, prisões ou centros comerciais, de acordo com pesquisas na base de dados de catástrofes da Universidade de Lovaina (Bélgica). É também o mais grave em Hong Kong desde 1948.

Ainda se ignora em que medida o balanço poderá aumentar devido ao número de pessoas sobre as quais ainda não há notícias. Entre as pessoas desaparecidas, há 19 empregadas domésticas filipinas e 11 indonésias, segundo dados da organização Mission for Migrant Workers citados pelo jornal local South China Morning Post (SCMP). Os bombeiros terminaram hoje, sexta-feira, a inspeção a todas as habitações.

O que causou a tragédia?

As causas iniciais do incêndio não foram estabelecidas com rigor. O chefe de segurança admitiu que a investigação poderá demorar três ou quatro semanas. Com base em constatações preliminares, Tang disse que o fogo terá começado nas partes baixas das redes do estaleiro que protegiam contra o pó e a queda de objetos.

A propagação das chamas, segundo Tang, terá sido favorecida pela utilização de bambu para os andaimes, comum em Hong Kong, e de materiais inflamáveis como painéis de espuma que protegiam as janelas. O chefe dos bombeiros de Hong Kong, Andy Yeung, corroborou também o que muitos testemunhos entrevistados pela AFP afirmaram. “Constatámos que os sistemas de alarme nos oito edifícios não estavam a funcionar corretamente”, afirmou.

Quem é o responsável?

A comissão de luta contra a corrupção anunciou hoje a detenção de sete homens e uma mulher, com idades entre 40 e 63 anos. Trata-se de dois responsáveis pelo gabinete de projetos que preparou a renovação, dois chefes de obras, três subcontratados de andaimes e um intermediário.

A polícia já tinha anunciado a detenção de três suspeitos de “negligência grosseira” após a descoberta de materiais inflamáveis abandonados durante os trabalhos, que permitiram ao fogo “propagar-se rapidamente” devido ao vento forte. O nível exato do envolvimento dos suspeitos no início do fogo não é claro. As autoridades ordenaram a inspeção de todos os conjuntos habitacionais públicos em fase de grandes reformas, segundo o jornal SCMP.

Qual o risco de incêndio em Hong Kong?

Hong Kong, região administrativa especial da China com 7,5 milhões de habitantes, é um dos locais mais densamente povoados do mundo, o que amplifica os riscos de catástrofes urbanas. A densidade média da população é de mais de 7.100 habitantes por quilómetro quadrado, com vastas zonas íngremes e não edificáveis.

Nas áreas urbanizadas, a densidade populacional é até três vezes superior, um recorde mundial. Este centro financeiro, onde o espaço é limitado e os preços imobiliários estão entre os mais altos do mundo, é famoso pelos arranha-céus em redor da baía. As últimas décadas foram marcadas pela construção de uma profusão de torres residenciais que podem ter mais de 50 andares.

A maioria dos novos projetos de construção ocorreu na parte continental da região verdejante dos Novos Territórios, onde se situa o bairro de Tai Po. Hong Kong conta com 569 edifícios com mais de 150 metros de altura, sendo o maior número a nível mundial, de acordo com dados da ONG internacional especializada CTBUH (Conselho sobre Edifícios Altos e Habitat Urbano).

Inundações na Tailândia provocam 33 mortos e deixam milhares desalojados

Pelo menos 33 pessoas morreram e milhares ficaram desalojadas no sul da Tailândia na sequência de inundações provocadas por chuvas torrenciais ocorridas durante vários dias, divulgaram quarta-feira as autoridades locais.

“As autoridades informaram que 33 pessoas morreram em sete províncias devido a inundações repentinas, electrocussão e afogamento”, disse um porta-voz governamental, Siripong Angkasakulkiat. “Prevê-se que o nível da água baixe no sul”, acrescentou. O Governo declarou o estado de emergência na província meridional de Songkhla, onde se situa a cidade turística de Hat Yai, que foi atingida pelas chuvas torrenciais que afectam o sul do país.

Nos últimos dias, imagens transmitidas pela televisão tailandesa mostraram as equipas de salvamento em Hat Yai a retirar pessoas das suas casas utilizando barcos, ‘jet skis’ e camiões do exército. Desde a semana passada, mais de 10.000 habitantes de Songkhla foram retirados das respectivas casas, segundo o departamento de relações públicas da região.

De acordo com a agência de prevenção e gestão de catástrofes, estas grandes inundações afectam sete províncias do sul do país, onde vivem milhões de pessoas. O exército anunciou o envio de um porta-aviões e de helicópteros para transportar os feridos para os hospitais mais próximos.

Por outras paragens

Na vizinha Malásia, a forte precipitação também provocou inundações em oito estados, prevendo-se mais chuva para os próximos dias. Mais de 27.000 pessoas foram levadas para abrigos temporários esta semana, tendo sido registada uma vítima mortal em Kelantan (nordeste), segundo os serviços de emergência locais.

O país também é afectado por fortes chuvas todos os anos durante a estação das monções, que decorre de Novembro a Março. Na terça-feira, os diplomatas malaios disseram que estavam a acompanhar a situação no sul da Tailândia, onde milhares de cidadãos tailandeses em férias ficaram retidos em hotéis.

Kunming | Onze mortos e dois feridos em acidente com comboio de testes

Onze trabalhadores morreram e outros dois ficaram feridos ao serem atropelados ontem por um comboio de testes na cidade de Kunming, capital da província de Yunnan, no sudoeste da China, informou a empresa ferroviária local.

O comboio de testes número 55537, utilizado para operações de detecção sísmica, circulava num troço em curva no interior da estação de Luoyang quando colidiu com trabalhadores da construção civil que tinham acedido à via, de acordo com uma nota da empresa publicada no Weibo.

As autoridades não especificaram as circunstâncias que levaram os trabalhadores a estarem naquela zona no momento da passagem do comboio. Na sequência do incidente, foi activado o plano de emergência e as equipas do operador ferroviário e do governo local organizaram os trabalhos de socorro e de assistência médica.

A circulação na estação foi restabelecida e os dois feridos permanecem hospitalizados. Entretanto, a empresa manifestou o “mais profundo pesar” pelo sucedido e apresentou as condolências às famílias das vítimas, acrescentando que foi aberta uma investigação para esclarecer as causas a apurar responsabilidades.

Nos últimos anos, registaram-se outros incidentes semelhantes no país. Em Junho do ano passado, seis trabalhadores morreram na província de Heilongjiang, nordeste chinês, quando um comboio de mercadorias atropelou uma equipa de manutenção numa via perto de Jiamusi. Em 2021, pelo menos nove pessoas morreram na província ocidental de Gansu, depois de um comboio que fazia a ligação Urumqi-Hangzhou ter abalroado trabalhadores na linha perto de Jinchang.

Trump aconselha Japão a não provocar a China com Taiwan

O Presidente dos Estados Unidos aconselhou a primeira-ministra japonesa a não provocar a China com a questão da soberania de Taiwan, informou ontem o Wall Street Journal (WSJ), na sequência da disputa diplomática sino-nipónica.

As relações entre as duas maiores economias da Ásia estão a atravessar um momento difícil depois de, no início de Novembro, a nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, afirmar que Tóquio poderia intervir militarmente no caso de um ataque a Taiwan, ilha que Pequim considera parte do território chinês.

Durante uma chamada telefónica com o Presidente norte-americano, Donald Trump, na segunda-feira, o homólogo chinês, Xi Jinping, insistiu neste assunto, afirmando que o retorno de Taiwan à China faz parte integrante da “ordem internacional do pós-guerra”, de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China.

Pouco depois, “Trump organizou uma chamada com Takaichi e aconselhou-a a não provocar Pequim sobre a questão da soberania da ilha”, informou o diário WSJ, citando, embora sem identificar, responsáveis japoneses e um norte-americano que estão familiarizados com a conversa.

“A opinião de Trump foi subtil e ele não a pressionou a voltar atrás nas declarações”, lê-se no jornal. Entretanto, o porta-voz do Governo japonês, Minoru Kihara, não quis ontem confirmar se Trump pediu a Takaichi que moderasse o tom em relação a Taiwan.

“Na conversa telefónica do outro dia, discutimos muitas questões, como o reforço das relações entre o Japão e os EUA e a situação e os problemas no Indo-Pacífico (…). Evito dar mais pormenores porque se trata de um assunto diplomático”, disse Kihara durante a conferência de imprensa diária.

No relato da chamada, a chefe do Governo japonês limitou-se a indicar que falou com Donald Trump sobre a conversa deste com Xi Jinping, bem como sobre as relações entre os dois aliados. “O Presidente Trump disse que éramos amigos muito próximos e sugeriu que eu lhe ligasse a qualquer momento”, afirmou a líder japonesa.

Proteger interesses

De acordo com o WSJ, porém, “os responsáveis japoneses consideraram a mensagem preocupante”. “O Presidente [norte-americano] não queria que as tensões em torno de Taiwan comprometessem a abertura alcançada no mês passado com Xi, que inclui a promessa [da China] de comprar mais produtos agrícolas norte-americanos, a fim de apoiar os agricultores duramente afectados pela guerra comercial”, desencadeada pelo líder norte-americano, estimou o jornal.

Na sequência das declarações de Sanae Takaichi, a China convocou o embaixador do Japão e aconselhou a população a evitar viagens para o arquipélago. O lançamento de vários filmes japoneses na China também foi adiado, de acordo com os meios de comunicação estatais chineses.

Visita | Macron em Pequim no início de Dezembro

O Chefe de Estado francês regressa à China para uma visita que inclui um encontro com Xi Jinping e uma deslocação a Chengdu

O Presidente francês, Emmanuel Macron, vai realizar uma visita de Estado à China entre 03 e 05 de Dezembro, visitando a capital, Pequim, e depois Chengdu, anunciou quarta-feira a presidência francesa, confirmando também um encontro com o homólogo chinês. A última visita de Macron à China aconteceu em Abril de 2023 e nessa ocasião também se encontrou com o Presidente chinês, Xi Jinping, que posteriormente, em Maio de 2024, esteve em França.

A visita no próximo mês de Dezembro ocorre “em consonância com a vontade [do Presidente francês] de manter um diálogo constante e exigente com a China”, afirmou o Eliseu (sede da presidência). Macron “impulsionará uma agenda de cooperação e de equilíbrio em matéria económica e comercial, uma ambição que estará no centro da presidência francesa do G7 [bloco das sete maiores economias mundiais] em 2026”, acrescentou a mesma fonte.

“Nesta ocasião, serão abordadas as grandes questões da parceria estratégica entre a França e a China, bem como várias grandes questões internacionais e áreas de cooperação para resolver os desafios globais do nosso tempo”, adiantou a presidência.

Chengdu na agenda

A par de Pequim, Macron também irá deslocar-se a Chengdu, no centro da China, sede de um centro de conservação para onde foram repatriados esta semana dois pandas gigantes anteriormente alojados no jardim zoológico de Beauval, em França.

Os dois pandas, Huan Huan e Yuan Zi, emprestados pela China desde 2012, regressaram ao seu país natal devido a uma insuficiência renal da fêmea. A embaixada chinesa em França prometeu à França “novos pandas gigantes” que “chegarão no futuro”.

Pequim há muito que utiliza a chamada “diplomacia do panda” para fortalecer as relações com outros países e que tem por base o empréstimo destes animais como instrumento de política externa como um sinal de parceria com esses Estados.

Guardião da Profecia do Jade

Entrevista com James Yanzhao Xing, coleccionador particular chinês residente em Xi’an, especializado em Jade da Antiguidade (Jade Arcaico)

Há quatro anos, em 2021, James herdou mais de 300 peças de antiguidades do seu pai idoso. A herança familiar remonta à dinastia Song (séculos X-XIII) e a coleção inclui itens requintados de jade, porcelana, artigos de bronze, queimadores de incenso e joias de alto valor de vários períodos. Durante os anos turbulentos da guerra, esses tesouros ficaram enterrados num buraco no quintal durante décadas. Agora, através do seu projecto de curadoria interdisciplinar, eles estão prestes a entrar num diálogo dinâmico com os mundos da moda, da arte e do desporto.

Joy: Como se sentiu quando recebeu a herança familiar?

Fiquei completamente surpreendido! Os meus irmãos e eu não fazíamos ideia de que a nossa família possuía tais coisas. Éramos ignorantes sobre a nossa história familiar.

Joy: Fale-me sobre a história da sua família.

James: O nosso apelido original era Zhao e pertencíamos à família imperial da dinastia Song. As nossas raízes estão no coração da civilização chinesa. A história chinesa tem sido complicada e turbulenta e a minha família não conseguiu preservar os detalhes dos nossos altos e baixos específicos. Tudo o que sei é que, em 1931, para fugir da ocupação japonesa, a minha avó levou o meu pai e outros membros da família e, juntos, caminharam até Chongqing, no sul. O meu pai ainda era um menino. Para sobreviver e cuidar melhor do filho e da família, a minha avó decidiu casar-se novamente com um clã local chamado Xing. A família Xing aceitou a proposta, desde que a minha avó lhes pagasse 300 taéis de prata, uma quantia significativa na China durante a guerra. Foi assim que mudámos o nosso apelido imperial Zhao para Xing. Depois de se casar novamente, a minha avó pediu ao meu pai para cavar um buraco no quintal. Foi aí que a herança da família ficou guardada, até que o meu pai decidiu passá-la para mim. O meu pai não queria dividir a colecção entre os meus irmãos, pois sabia que eu era o único que poderia apreciar o seu verdadeiro valor. Para retribuir a apreciação do meu pai por mim, dei imediatamente um nome à minha coleção particular: Jade Ambience, 琼华幸境 em chinês.

Joy: Porquê esse nome?

James: Sinto que sempre tive sorte na vida, como se sempre tivesse sido protegido por alguma força sobrenatural com a qual eu poderia curar doenças estranhas e salvar pessoas. Sabe, adoro ajudar as pessoas e não suporto ver tristeza e injustiça no mundo. Desde criança, salvava vidas durante as inundações anuais do rio Yangtze, em Chongqing. Não temia pela minha própria vida, porque sabia que estava protegido. Será um dom? Gostaria de acreditar que sim. Até abandonei a carreira de empresário de sucesso e decidi que queria ser soldado, para poder contribuir de verdade para o meu país, em vez de ganhar muito dinheiro. Cheguei a recusar uma oportunidade de ir para os EUA e dirigir uma empresa lá. Isso foi em 1989. As experiências no exército tornaram-me mais forte, tanto física quanto mentalmente. Eu valorizo as experiências da vida, pois elas fazem-me entender melhor o mundo humano e dão-me energia positiva para apreciar cada dia. De alguma forma inexplicável, atribuo tudo isso aos itens de jade da minha coleção (risos).

JOy: De facto, o povo chinês acredita que a pedra de jade irradia energia positiva. Desde os tempos antigos, o jade tem sido associado ao poder protetor, ao poder de cura e à imortalidade. Qual é o verdadeiro valor da sua coleção, na sua opinião?

Como disse, o jade tem um lugar muito especial na cultura chinesa. O jade simboliza a integridade moral e a virtude, que é o valor simbólico central da pedra.

O confucionismo ligou inextricavelmente o jade ao ideal da «pessoa exemplar» (junzi 君子), que deveria incorporar as virtudes reflectidas nas qualidades físicas do jade, incluindo benevolência, rectidão, sabedoria, coragem («É melhor ser um jade quebrado do que um azulejo intacto») e pureza.

O jade servia como expressão material de autoridade e era transformado em objectos rituais usados para comunicar com forças divinas e simbolizava o poder imperial — mais notavelmente através do lendário Selo Imperial feito de jade. Para o povo chinês comum, o jade oferece protecção e boa sorte e há muito tempo é considerado um talismã contra forças maléficas. As esculturas em jade também carregam significados auspiciosos: morcegos para bênçãos, pêssegos para longevidade e peixes para abundância. Nos sistemas de crenças antigos, acreditava-se que o jade preservava o corpo e a alma após a morte. Esse conceito encontrou sua expressão máxima nos trajes funerários de jade da dinastia Han, intrincadamente montados a partir de milhares de peças de jade para garantir a imortalidade. O jade também era visto como a essência do cosmos — uma fusão das energias vitais do céu e da terra. A língua chinesa é rica em expressões relacionadas ao jade que transmitem admiração e virtude! Portanto, os itens de jade são símbolos atemporais de amor, simbolizando afeto duradouro e sincero. Hoje, o jade continua sendo uma herança preciosa, um investimento sólido e um poderoso emblema de identidade cultural — conectando os chineses contemporâneos à nossa herança. Dessa forma, o jade contém vida antiga e nova! O jade não é apenas uma pedra preciosa cheia de vitalidade. É um marco cultural — uma ponte entre a China antiga e a China nova.

Joy: O que pretende fazer com a sua coleção?

James: Neste momento, estou a planear organizar uma exposição itinerante em Pequim, Xangai e talvez Macau. Como disse antes, o jade é cheio de vitalidade. O jade é uma ponte entre a China antiga e a China moderna. Por isso, não quero limitar a minha coleção aos círculos antigos habituais. Estou a pensar em fazer exposições cruzadas com moda, arte e desporto. Quero que o jade tenha um diálogo animado com o público chinês contemporâneo, jovem e moderno!

Jardim da Flora | Macacos vão mudar para Seac Pai Van

O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) planeia transferir no início de Dezembro os 11 macacos do Jardim da Flora para o Pavilhão de Macacos no Parque de Seac Pai Van. Segundo um comunicado das autoridades municipais, a transferência irá “proporcionar um habitat mais confortável” aos animais.

Além disso, foi referido que a zona que estava reservada aos símios já era usada “há muitos anos” e as gaiolas apresentavam danos, “como desprendimento de betão e exposição das armaduras de aço”. O IAM referiu também que “há ainda visitantes que dão comida aos macacos, o que constitui um risco para a saúde dos animais e pode favorecer a transmissão de doenças”.

Os macacos transferidos vão ficar numa zona separada dos outros primatas, equipada com “um sistema de ajustamento de temperatura, apto para fornecer aos animais um espaço confortável de habitação e repouso, de acordo com diferentes climas”.

Consumo | Campanha de descontos acaba domingo

A campanha de descontos para estimular o consumo termina no domingo, após 13 semanas de sorteio de cupões para gastar no comércio e restauração dos bairros comunitários. Até 16 de Novembro, foram gastos cupões de desconto num valor acumulado de 328 milhões de patacas

Chega ao fim no domingo mais uma edição do Grande Prémio do Consumo, que arrancou no passado dia 1 de Setembro, que desta feita teve um orçamento reforçado de 458 milhões de patacas para distribuir em benefícios de consumo atribuídos ao longo das 13 semanas. O orçamento desta edição aumentou 190 milhões de patacas, em relação à edição que decorreu entre Março e Maio deste ano, o que representou um incremento de 64,4 por cento.

A Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) emitiu ontem um comunicado a revelar que entre o início de Setembro e 16 de Novembro (durante 11 das 13 semanas da campanha), “o valor acumulado dos benefícios electrónicos utilizados na actividade ultrapassou as 328 milhões de patacas”.

Em relação aos descontos imediatos de 500 patacas atribuídos a idosos e/ou portadores de deficiência, o Governo alertou os residentes que ainda não carregaram os seus cartões antes da campanha terminar.

Assim sendo, termina hoje o prazo para residentes portadores do Cartão de Registo de Avaliação da Deficiência carregarem o Cartão de Cuidados Sociais nas instituições e centros coordenados pelo Instituto de Acção Social. Para os residentes com mais de 65 anos, o prazo para carregar as 500 patacas no Macau Pass para Idosos termina no domingo, o último dia em que se podem usar os benefícios.

A organização, conjunta entre a DSEDT e a Associação Comercial de Macau afirmou ontem que pretende “incentivar continuadamente os residentes a consumirem nos bairros comunitários durante os fins-de-semana, promovendo assim o ciclo de consumo local e reforçando a confiança das pequenas e médias empresas na sua operação”.

O fim será mesmo o fim?

O Grande Prémio do Consumo foi um dos mais frequentes pedidos de deputados, e de dirigentes associativos, durante os debates e depois da apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o próximo ano.

Na passada segunda-feira, aquando da apresentação das LAG para a tutela da Economia e Finanças, o secretário Tai Kin Ip não respondeu directamente aos deputados que pediram a continuidade da campanha. Sem se comprometer, o governante afirmou que o Executivo terá de “analisar cuidadosamente o ambiente de negócios” e se a situação melhora até ao fim do ano.

Imobiliário | Centaline diz que visitas e pedidos de informação dispararam

O director da agência imobiliária acredita que as novas medidas para o imobiliário vão ter impacto a curto prazo, impulsionando as vendas de casas. Contudo, admite a insuficiência para inverter a tendência negativa

O director da Agência Imobiliária Centaline de Macau e Hengqin, Roy Ho, afirmou que desde a semana passada o número de visitas de potenciais compradores de casa triplicou. O responsável considera que o crescimento se deve às medidas anunciadas pelo Executivo no âmbito das Linhas de Acção Governativa (LAG).

Segundo o Governo, na compra de imóveis para habitação os primeiros seis milhões de patacas vão ficar isentos do pagamento de imposto de selo, num limite máximo de 120 mil patacas. Ao mesmo tempo, o limite do valor dos empréstimos hipotecários para habitação vai subir de 70 para 80 por cento do valor do imóvel.

Roy Ho considerou que o aumento das visitas a imóveis é positivo, porque mostra que há mais gente interessada e que os compradores procuram a oferta ideal. O agente imobiliário acrescentou também que, nesta altura, não se espera um aumento de transacções, porque a data de entrada das novas medidas ainda não foi anunciada. No entanto, após a entrada em vigor, espera-se que os interessados avancem para a concretização dos negócios.

Roy Ho revelou que logo na semana do anúncio da primeira medida apresentada com as LAG, que o número de visitas duplicou. Porém, o fluxo continuou a subir na semana seguinte, com a segunda ronda de medidas.

Recuperação lenta

Apesar do maior optimismo, o director da imobiliária reconheceu que não deverá haver uma recuperação imediata do preço dos imóveis.

Neste sentido, o responsável previu que as habitações que terão sofrido aquilo que definiu como “uma queda excessiva” de preços entrem finalmente numa fase de estabilização. Em relação ao próximo ano, Roy Ho espera que o número de transacções aumente, mas considerou difícil antever a flutuação de preços dos imóveis.

Ho antecipou ainda que os vendedores recuperem parte do poder negocial, depois de “longos anos” em que se viram forçados a diminuir os valores pedidos e a ceder quase sempre nas negociações. Com estas medidas, Roy Ho antevê que os vendedores apenas tenham de ceder até 5 por cento face ao preço anunciado.

Esperar para ver

Quanto à duração do impacto das medidas mais recentes, o director da Agência Imobiliária Centaline de Macau e Hengqin mostrou-se cauteloso.

Roy Ho duvida que as duas medidas alterem a tendência de queda no mercado imobiliário a longo prazo. O responsável exemplificou que no ano passado o Governo retirou algumas restrições à procura, como isenções fiscais, o que levou a melhorias de curto prazo no mercado, mas que os efeitos desapareceram passados três meses.

Face a este contexto, o agente imobiliário defendeu que o Governo deve continuar atento à tendência dos preços dos imóveis e promover novos incentivos.

Gravidez | Novo serviço informativo na Conta Única

Os Serviços de Saúde (SS) lançaram, no sábado, um serviço informativo destinado às grávidas na plataforma da Conta Única de Macau. Trata-se da “Plataforma de Gestão da Saúde de Grávidas e Puérperas”, com serviços “one stop” de “gestão integrada de saúde no âmbito do ciclo completo de gravidez”.

Assim, através da Conta Única, as grávidas podem ter acesso aos “dados integrados do ciclo completo de gravidez”, sendo exibidos “os diversos indicadores e dados, bem como os exames e relatórios de digitalização dos registos de exames pré-natais das grávidas e parturientes”.

As mulheres podem ainda monitorizar o peso e fazer orientação nutricional, dado que a aplicação de telemóvel permite fornecer “informações instrucionais nutricionais, tais como aconselhamento alimentar e ementas de referência, de acordo com a monitorização da evolução do peso da mulher grávida”. Haverá ainda espaço para “avaliação psicológica”, graças à “cooperação interdepartamental na criação de uma rede de apoio à saúde psicológica”, e ainda facilidade de marcação de exames e outros serviços necessários à gravidez.

Os SS afirmam ainda, em comunicado, estar a trabalhar com o Instituto de Acção Social para o estabelecimento de uma ligação “com vários centros de serviços integrados de apoio à família na comunidade, desenvolvendo sinergias e optimizando os serviços de saúde física e mental das grávidas e parturientes”. Os SS dizem ter criado “uma rede abrangente de apoio às grávidas e parturientes”.

Parque das Ciências e Tecnologias | Arrancou consulta pública

A Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) começou ontem o período de recolha de opiniões sobre o planeamento do Parque das Ciências e Tecnologias, que se irá estender até 26 de Dezembro, com duas sessões públicas marcadas para os dias 3 e 14 de Dezembro.

Para já, foram escolhidos dois locais para as instalações do Parque das Ciências e Tecnologias: o terreno da Avenida Wai Long e a parcela oeste da Zona E1 dos Novos Aterros Urbanos.

O terreno na Avenida Wai Long, no nordeste da Taipa, fica entre o Aeroporto Internacional de Macau e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, tem uma área de cerca de 83 mil metros quadrados. Para este local, afastado de zonas residenciais, estão pensadas instalações dedicadas à indústria biomédica, centros de investigação aplicada de investigação e desenvolvimento, “fábricas personalizadas e serviços de apoio industrial”.

Na parcela na Zona E1 dos Novos Aterros, com 177 mil metros quadrados, será dada prioridade “à construção de zonas funcionais para tecnologias digitais, zona de circuitos integrados, zona de tecnologias aeroespaciais”, e ainda um “centro de dados e de computação, sala urbana de recepção, centro de serviços públicos e zona de vitalidade ribeirinha”.

O Governo garante que vai “auscultar amplamente as opiniões e sugestões dos diversos sectores da sociedade sobre a localização do parque, o posicionamento do objectivo, proposta da selecção do local, o quadro de planeamento geral, o sistema de instalações complementares e a direcção de desenvolvimento industrial”.

Saúde Mental | Pedido reforço de psicólogos nas escolas

Face ao grave problema da saúde mental dos jovens, a deputada das Mulheres, Loi I Weng, pede mais psicólogos nas escolas e alerta que se tem de se adoptar uma nova abordagem mais focada na prevenção

Loi I Weng defende que o Governo deve reforçar o número de psicólogos, no âmbito das medidas de promoção da saúde mental dos jovens. O assunto é abordado através de uma interpelação escrita da deputada ligada à Associação das Mulheres.

Recorrendo aos resultados do estudo de 2018, a legisladora indica que na altura se chegou à conclusão de que era aconselhada a existência de um psicólogo por cada 21 a 40 estudantes nas escolas do ensino integrado. Este é o tipo de ensino que permite aos alunos com necessidades especiais frequentarem as escolas com outros alunos, sem este tipo de necessidades.

Apresentando os dados mais recentes, Loi I Weng aponta que actualmente há cerca de 2.900 alunos do ensino integrado, pelo que são necessários 70 psicólogos para acompanhar estes estudantes.

No entanto, Loi I Weng alerta que face às necessidades indicadas, restam apenas 330 psicólogos para lidar com 85 mil alunos do ensino não superior, o que gera uma média de um psicólogo por cada 258 alunos.

“Face a uma procura por um serviço tão essencial, e embora a proporção global de psicólogos seja superior à das regiões vizinhas, a pressão da carga de trabalho sobre o pessoal da linha da frente não pode ser ignorada”, indica a deputada. “É imperativo que as autoridades planeiem proactivamente e dotem as escolas de recursos e uma melhor organização do trabalho, para optimizar tanto a quantidade como a qualidade destes serviços”, vincou.

Mudar de estratégia

Além de indicar que o número para acompanhar os alunos é insuficiente, a deputada pede uma nova estratégia no apoio às crianças e jovens, focada na prevenção.

“As autoridades devem mudar as medidas de apoio, passando do ‘tratamento das condições existentes’ para a ‘prevenção de potenciais problemas’, estabelecendo um sistema de apoio à saúde mental mais proactivo, diversificado e voltado para o futuro”, escreve a legisladora. “Este esforço colectivo salvaguarda o bem-estar físico e mental dos adolescentes”, frisou.

Por outro lado, a deputada espera que as autoridades recorram à Inteligência Artificial para anteverem problemas entre os jovens. “Com a crescente maturidade das tecnologias mais desenvolvidas, como a inteligência artificial, as autoridades vão considerar implementar ferramentas modernas para realizar exames regulares de saúde mental a todos os jovens em Macau?”, questiona. “Isto estabeleceria um mecanismo de monitorização psicológica frequente e um sistema de alerta, criando uma rede de apoio para a identificação e intervenção precoces”, indicou.

Em 2024, entre um total de 91 suicídios, 13 foram cometidos por crianças e jovens com idades entre os 5 anos e os 24 anos. Além disso, no ano passado registaram-se 249 tentativas de suicídio, das quais 97 foram cometidas crianças e jovens com idades entre os 5 anos e os 24 anos.

O problema da saúde mental tem sido identificado como uma das áreas de investimento do Governo nos últimos anos. No entanto, nos últimos meses os Serviços de Saúde deixaram de publicar dados. A informação passou apenas a ser actualizada com o relatório da Segurança.

Incêndio HK | Sam Hou Fai manifestou “profundo pesar”

Chefe do Executivo manifestou ontem “profundo pesar” pelas vítimas do incêndio que atingiu na quarta-feira um complexo residencial na região vizinha de Hong Kong.

“Informado do grave incêndio ocorrido […] nos edifícios residenciais do distrito de Tai Po, em Hong Kong, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, manifestou, esta noite, condolências e profundo pesar pelas vítimas mortais entre os residentes”, indicou o Gabinete de Comunicação Social, sobre a reacção do dirigente.

De acordo com a mesma mensagem, Sam Hou Fai “afirmou que o incêndio provocou muitas vítimas entre os residentes de Hong Kong, incluído um bombeiro que se encontrava de serviço no combate às chamas e expressou que sentiu absoluta tristeza e consternação”.

O líder do Executivo apresentou assim, “em nome do Governo da RAEM” as “mais sinceras condolências pelas vítimas mortais e transmitiu a sua sentida solidariedade para com as suas famílias, bem como pelos feridos e as respectivas famílias”. Sam Hou Fai afirmou ainda que já entrou em contacto com o homólogo de Hong Kong, John Lee Ka-chiu, “sublinhando que as relações estreitas” entre as duas regiões “são como as de irmãos que sentem a mesma tristeza e compartilham o mesmo pesar”.

Incêndio | Governo apela a atenção redobrada e inspecciona andaimes

Na manhã de ontem, enquanto em Hong Kong se contavam os mortos do maior incêndio desde a Segunda Guerra Mundial, em Macau o Governo pedia atenção às medidas contra incêndios e mandava inspeccionar os andaimes de bambu

Após o gigantesco incêndio em Hong Kong, o Governo da RAEM apelou à “sociedade” para verificar a implementação das medidas locais de prevenção contra incêndios. A mensagem foi deixada na manhã de ontem, e horas depois foi acompanhada por várias campanhas de verificação dos estaleiros locais e das condições dos andaimes.

No comunicado, o governo alertou que as “actuais condições meteorológicas de tempo seco” aumentaram “significativamente o risco de incêndio”, pelo que é esperado que “que a população e os diversos sectores da sociedade de Macau respondam ao apelo de reforço conjunto e de maior consciência contra incêndios na implementação de medidas preventivas”. O Executivo indicou igualmente que as medidas preventivas são importantes para “salvaguardar a segurança da vida e da estabilidade social”.

Ao mesmo tempo, o governo descansou a população, porque apesar de indicar que o “Outono e o Inverno são considerados um período de alta incidência de incêndios” garantiu que os “serviços competentes […] efectuaram adequadamente as necessárias disposições de trabalho”.

Apesar destas garantias, horas depois o Corpo de Bombeiros, a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais, a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana e o Instituto para os Assuntos Municipais foram enviados para as ruas para “reforçarem as inspecções conjuntas nas obras com andaimes” de forma a “garantir a satisfação dos padrões de segurança”.

Fogo e electricidade

Na mensagem, o Executivo defende que “a população deve também elevar a consciência sobre a prevenção de catástrofes, prestar atenção à segurança do uso diário do fogo e da electricidade e familiarizar-se com as rotas de fuga na sua residência e local de trabalho”. “Caso detectem quaisquer potenciais riscos de incêndio, devem contactar de imediato as empresas de administração de condomínio e os serviços competentes para acompanhamento”, foi indicado.

Finalmente, o Governo prometeu “reforçar o trabalho de sensibilização” para “aumentar a consciência das pessoas na prevenção de incêndios e catástrofes” e “reforçar a capacidade de resposta a toda a população de Macau”.

Inspecções avançam

O Executivo decidiu avançar com várias acções de inspecção a estaleiros de obras onde se utiliza andaimes em bambu, nomeadamente a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU), o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) e o Corpo de Bombeiros (CB), no contexto do incêndio ocorrido em Hong Kong.

Segundo o canal chinês da Rádio Macau, os responsáveis prometem mais acções de fiscalização a curto prazo. O chefe da Divisão de Fiscalização de Riscos da DSAL, Chan Ka Hou, apontou que actualmente existem cerca de 556 estaleiros de obras, sendo que, em cerca de 60, são usados andaimes em bambu.

Chan Ka Hou disse também que será exigido aos empreiteiros as provas do uso de materiais resistentes ao fogo, enquanto o chefe da Divisão de Fiscalização da DSSCU, Lei Kin Fong, explicou que serão exigidas correcções imediatas em todas as obras em que as regras não sejam cumpridas nesse sentido.

Já o chefe substituto da Divisão de Fiscalização de Higiene Ambiental e Licenciamento do IAM, Hoi Io Man, apontou que este organismo é responsável pelos pedidos de licença de vedação ou da colocação da rede de protecção de andaimes que ocupam os espaços públicos, sendo que os funcionários vão verificar se os materiais dos estaleiros correspondem aos pedidos feitos. Por seu turno, o chefe substituto da Divisão de Verificação de Instalações do Departamento de Prevenção de Incêndios do CB, Ieong Sai On, revelou que os Bombeiros já elaboraram estratégias de resgate para tratar a ocorrência de incêndios e fogos em diversos locais.

Hong Kong | Fogo mais mortífero desde 1918 origina investigação

Já se contabilizam 128 mortos e 200 pessoas desaparecidas naquele que foi o maior incêndio da história de Hong Kong, nos Novos Territórios. As autoridades avançaram, entretanto, para uma investigação anti-corrupção dada a dimensão do incidente em Tai Po. A agência Lusa noticia o desespero de muitas famílias

A tragédia está longe de abrandar em Hong Kong. O incêndio ocorrido esta quarta-feira na zona de Tai Po, nos Novos Territórios, num complexo de edifícios em construção, já é considerado um dos maiores da história do território e as vítimas ainda estão a ser contabilizadas – à hora do fecho desta edição contavam-se 55 mortos e 250 pessoas desaparecidas. Já hoje, sexta-feira, os números subiram para 128 mortos e 200 desaparecidos. Ontem, ao final do dia, o incêndio estava, gradualmente, a ficar controlado, com mais 55 sobreviventes a serem resgatados.

Segundo uma reportagem da agência Lusa, os familiares desses desaparecidos permaneciam ontem num sentimento de desespero, dada a ausência de respostas. “Viu esta menina?” pergunta uma mãe, em cantonês, ao jornalista da Lusa, antes de mudar para inglês. “Viu a minha filha ou a ‘ajudante’?”, diz, usando a expressão usada em Hong Kong para as empregadas domésticas.

A mulher, de apelido Cheng, acena com um papel onde imprimiu uma fotografia da filha de cinco anos, Hannah Cheng, e uma cópia da autorização de trabalho da empregada, a indonésia Maryan. A família vivia em Wang Tai House, parte do complexo residencial Wang Fuk Court que incendiou.

Uma porta-voz do consulado da Indonésia em Hong Kong confirmou ao jornal South China Morning Post que entre as vítimas mortais estão duas empregadas domésticas indonésias.

“Não as vejo desde que o incêndio começou. Por favor, viram-nas?”, suplica Cheng a todas as pessoas que encontra à entrada do Alice Ho Miu Ling Nethersole, o hospital situado mais perto do complexo de habitação social, em Tai Po.

O corpo de bombeiros disse que já tinha conseguido entrar em contacto com várias das 279 pessoas que estavam inicialmente listadas como desaparecidas. A temperatura “está muito elevada e há pisos onde não conseguimos contactar as pessoas que ligaram a pedir ajuda, mas vamos continuar a tentar”, assegurou o vice-director do corpo de bombeiros, Derek Armstrong Chan.

Nas redes sociais circulava uma publicação de uma outra mãe, desesperada por não conseguir contactar os sogros, que estavam a tomar conta da filha de seis meses, em Wang Fuk Court.

“Já passaram quase 24 horas [desde o último contacto] (…) A minha filha precisa de ser amamentada senão vai morrer. Alguém me consegue dizer se ela foi salva ou não?”, escreveu Winnie Hui.

Este é já o incêndio mais mortífero desde 1918, quando Hong Kong ainda era uma colónia britânica. Nesse ano, um incêndio causou o colapso da bancada principal do hipódromo de Happy Valley, causando mais de 600 mortos. Mais de 700 bombeiros estão envolvidos no combate às chamas, além de equipas de socorro e polícia.

População ajuda

Com o passar das horas começaram a chegar apoios da população, tanto ao nível da presença física como financeira, a diversos abrigos para desalojados. Serena, de 16 anos, carregava uma caixa com garrafas de água para entregar numa escola secundária de Tai Po, convertida num dos abrigos temporários para os afectados pelo incêndio.

Além dos 900 residentes do complexo residencial Wang Fuk Court, as autoridades ordenaram aos habitantes do vizinho Kwong Fuk Estate que abandonassem as casas por precaução.

“Esta é a minha escola, mas hoje não temos aulas por causa do incêndio”, explica à Lusa a jovem, que se juntou a vários colegas para comprar e doar mantimentos, incluindo bolachas e massa instantânea. A escola fica a pouco mais de dois quilómetros do complexo residencial que se incendiou.

No segundo dia, colunas de fumo continuavam a subir aos céus, com o cheiro a queimado a sentir-se no ar. “Toda a gente conhece alguém que vivia em Wang Fuk”, sublinha Serena. “Nunca pensámos que isto pudesse acontecer aqui”, acrescenta.

Mas não é só em Tai Po, situado mais perto da fronteira com a metrópole de Shenzhen do que do centro de Hong Kong, que a população se tem mobilizado para ajudar. Uma idosa veio de Tuen Mun, a 30 quilómetros de distância, com cobertores e roupa. “É pouco para quem perdeu tudo o que tinha”, lamenta a residente, de apelido Fong.

O bairro social, construído nos anos 80, é composto por oito torres com perto de 30 andares e um total de 1.984 apartamentos, onde viviam cerca de quatro mil pessoas. De acordo com a imprensa local, o incêndio levou também muitas pessoas a tentar doar sangue, esgotando ontem as marcações no centro de Causeway Bay.

Entretanto, o Governo de Hong Kong criou esta quinta-feira um fundo com 300 milhões de dólares de Hong Kong para as vítimas. Numa conferência de imprensa, adiada por duas vezes, o chefe do Executivo, John Lee Ka-chiu, disse que o fundo, criado no banco estatal Banco da China, começou a aceitar donativos a partir das 19h.

John Lee anunciou ainda que o Governo iria distribuir ontem, em todo o dia, 10 mil dólares de Hong Kong a cada família afectada pelo incêndio no complexo de habitação social Wang Fuk Court.

Investigações em curso

A dimensão da tragédia já levou as autoridades de Hong Kong a avançar com uma investigação anti-corrupção. A Comissão Independente Contra a Corrupção de Hong Kong criou “um grupo de trabalho para iniciar uma investigação completa sobre a possível corrupção no grande projecto de renovação do Wang Fuk Court em Tai Po”.

Num comunicado, a comissão justificou a decisão com “o imenso interesse público envolvido”. Há, agora, três grupos de trabalho: um para investigar o incêndio, outro para lidar com os recursos de emergência de doações e mais um para o realojamento das famílias afectadas.

A polícia deteve, entretanto, três homens por suspeita de homicídio involuntário, após a descoberta de materiais inflamáveis deixados durante trabalhos de manutenção que levaram o fogo a propagar-se rapidamente pelos andares de bambu.

John Lee, Chefe do Executivo da RAEHK, disse que o Departamento de Assuntos Internos e da Juventude reservou mil apartamentos em pousadas da juventude e hotéis para que os residentes afectados fiquem, por um período máximo de duas semanas. Em seguida, serão transferidos para 1.800 apartamentos subsidiados reservados para que se instalem temporariamente, acrescentou.

O governante indicou também que o Governo está a elaborar uma lista de bens que Hong Kong irá pedir ao Governo central da China, incluindo aeronaves não tripuladas (‘drones’) para inspecções e materiais para testes laboratoriais.

Entretanto, estão também a ser feitas inspecções a todos os complexos imobiliários que estão a ser alvo de obras de grande dimensão. “O Governo mandou inspeccionar todos os complexos imobiliários da cidade que estão a passar por grandes reformas, para verificar a segurança dos andaimes e dos materiais de construção”, disse John Lee Ka-chiu numa mensagem publicada na rede social Facebook. O complexo de oito edifícios de 31 andares encontrava-se a ser alvo de reformas na fachada.

Campanha suspensa

O líder do Governo de Hong Kong admitiu ontem que as eleições para o Conselho Legislativo de Hong Kong, marcadas para 7 de Dezembro, poderão ser adiadas. “Faremos uma análise completa e tomaremos uma decisão dentro de alguns dias, com base nos interesses gerais de Hong Kong”, disse John Lee Ka-chiu, após uma reunião de emergência com dirigentes de vários departmentos governamentais. O Chefe do Executivo acrescentou que os debates entre candidatos ao Conselho Legislativo de Hong Kong que estavam marcados para quinta-feira e hoje foram adiados, sem previsão de nova data. As restantes actividades da campanha eleitoral foram também suspensas, disse John Lee aos jornalistas. “O Governo está empenhado em lidar com este grande desastre. A nossa prioridade agora é combater o incêndio”, sublinhou o dirigente. “A prioridade máxima é extinguir o incêndio e resgatar os residentes presos. A segunda tarefa é tratar dos feridos, a terceira é lidar com as consequências e depois realizaremos uma investigação completa”, acrescentou Lee. “Quanto aos outros assuntos, decidiremos o que fazer daqui a uns dias, depois de coordenarmos o nosso trabalho”, referiu o líder do Governo.

Líderes reagem

Xi Jinping, Presidente chinês, expressou ontem condolências pelas vítimas do incêndio, pedindo “esforços intensos no resgate para minimizar as perdas”, noticiou a agência Xinhua. O Presidente declarou ainda dar grande importância ao acidente, tendo solicitado de imediato actualizações permanentes sobre os trabalhos da equipa de resgate. Xi Jinping deu instruções ao director do Gabinete de Ligação do Governo Central em Hong Kong para a transmissão de condolências. Outro líder político que também se pronunciou sobre a tragédia foi o primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão. Este referiu-se à morte das 128 pessoas como “trágica” e “profundamente dolorosa”. “Os nossos corações estão com as famílias e amigos de todos quantos perderam a vida, bem como com aqueles que permanecem desaparecidos”, salientou, num comunicado à imprensa. Xanana Gusmão prestou também homenagem à “extraordinária coragem dos bombeiros, dos primeiros socorros e de todos os que trabalham incansavelmente nas operações de resgate e recuperação”.

‘Casinos-satélite’ | Kam Pek fecha portas em Macau

A concessionária de jogo em Macau SJM Resorts anunciou ontem que o ‘casino-satélite’ Kam Pek Paradise, com quase 600 funcionários, irá encerrar em 01 de Dezembro. A SJM disse que o Kam Pek Parasise “vai cessar oficialmente operações às 23:59 (de segunda-feira, 01 de Dezembro”, tornando-se assim o sétimo ‘casino-satélite’ da região a fechar portas.

Num comunicado, a SJM, fundada pelo magnata do jogo Stanley Ho Hung Sun (1921-2020), sublinhou que todos os funcionários locais dircetamente contratados pela empresa têm emprego garantido. A SJM explicou que o pessoal com estatuto de residente em Macau será “transferido para outros casinos da empresa para desempenhar funções relacionadas com o jogo, de acordo com as necessidades operacionais”.

Já os funcionários locais que não foram contratados directamente pela SJM Resorts “são convidados a candidatarem-se a vagas relacionadas” dentro do grupo, “com prioridade para contratação” e com condições iguais às que tinham. Também ontem, a Direção de Inspeção e Coordenação de Jogos (DICJ) de Macau assegurou que vai “supervisionar rigorosamente, in loco, os procedimentos de encerramento” do Kam Pek Paradise.

No que diz respeito aos 584 funcionários do casino, a DICJ garantiu, numa nota à imprensa, que vai manter a comunicação com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais, para assegurar o cumprimento das garantias dadas pela SJM, nomeadamente “a recolocação de todos os referidos trabalhadores”. A SJM sublinhou que “todas as mesas e máquinas de jogo actualmente em funcionamento no local vão ser transferidas para outros casinos da empresa”.

Gaza | Xi defende que Faixa fique sob controlo palestiniano

O Presidente chinês pediu que a reconstrução da Faixa de Gaza seja realizada sob o princípio “palestinianos governam a Palestina” e exortou a comunidade internacional a promover um “cessar-fogo abrangente e duradouro”.

Xi Jinping afirmou que a questão palestiniana “afecta a equidade e a justiça internacionais” e constitui “um teste à eficácia do sistema de governação global”, referiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Numa mensagem enviada para uma reunião da ONU, na terça-feira, o líder chinês defendeu que a comunidade internacional deve “assumir responsabilidades, corrigir injustiças históricas e defender a justiça”.

Por ocasião do Dia internacional de solidariedade com o povo palestiniano, Xi sublinhou que qualquer estrutura pós-guerra deve respeitar “a vontade do povo palestiniano” e ter em conta as preocupações legítimas dos países da região. O líder chinês insistiu que os esforços devem “ancorar-se na solução de dois Estados”, para alcançar um acordo político “abrangente, justo e duradouro”.

O Presidente chinês referiu que a prioridade imediata é melhorar a situação humanitária e aliviar o sofrimento dos civis em Gaza, e reiterou que Pequim, enquanto membro permanente do Conselho de Segurança, “continuará a apoiar a causa justa do povo palestiniano para restaurar os seus direitos nacionais legítimos”.

TUI | Reduzida pena a homem que tentou matar ex-mulher

O Tribunal de Última Instância (TUI) decidiu reduzir a pena de prisão de 11 anos e seis meses para oito anos a um homem condenado por tentativa de homicídio da ex-mulher, por não ter sido “provada circunstância agravante”. O homem passou, assim, a estar condenado pelo crime tentado de homicídio simples, na sua forma tentada, e decretado em primeira instância pelo Tribunal Judicial de Base (TJB), e não o crime de homicídio qualificado, também na forma tentada.

O TUI entendeu que o homem “só resolveu atacar B [a ex-mulher] depois de a ter inquirido e percebido que não pagaria a indemnização” exigida por este. “Apesar de se verificar que lhe veio a ideia de matar B [a mulher] desde 2017, trata-se apenas de um pensamento que tinha mente, e no período de 2017 a Abril de 2023 não ocorreu, de facto algum, a tomada de acções para concretizar a ideia de matar”, lê-se ainda.

Os juízes consideraram também, segundo o acórdão ontem divulgado, que “não se verifica que A [o homem acusado] agiu com frieza de ânimo ao agredir B [a mulher]”, pelo que se deu provimento ao recurso apresentado pelo homem, considerando-se a “severidade excessiva da pena determinada” na segunda instância.

O caso remonta a 2017, sendo que a mulher já era vítima de violência doméstica durante a relação. O homem “guardava rancor” à mulher “por esta ter denunciado os actos de violência doméstica dele e outras disputas familiares, surgindo-lhe a ideia de a matar”.

Após o divórcio, o homem entendeu que a ex-mulher só tinha obtido o Bilhete de Identidade de Residente (BIR) graças ao casamento, pelo que “deveria pagar-lhe uma quantia a título de indemnização”.

A hora do crime

O crime começava então a entrar nos planos deste homem, que desde Abril de 2023 “guardava um martelo metálico na caixa do seu motociclo”. A 26 de Junho desse ano, parou a mota perto da residência da ex-mulher e “vagueou à sua espera nas proximidades”, depois, aproximou-se dela e “exigiu o pagamento da referida indemnização”.

A mulher ignorou o homem e afastou-se, e foi aí que o homem “retirou o martelo metálico da caixa do seu motociclo, correu atrás [dela] e desferiu-lhe um golpe com o martelo na cabeça”, tendo esta “consequentemente caído no chão”. Descreve o acórdão que, “apesar da queda dela, [o homem] continuou a golpear a vítima com o martelo na cabeça por cinco vezes no total, só parando quando notou que [a mulher] estava deitada no chão com diminuição de consciência”.

Na primeira instância, a 31 de Julho de 2024, o TJB condenou o homem pela prática de um crime de homicídio na forma tentada e um crime de detenção e uso de arma proibida, o que, em cúmulo jurídico, deu a pena de oito anos. Tanto o homem como o Ministério Público recorreram para a segunda instância, que aumentou a pena para 11 anos e seis meses pela prática de um crime de homicídio qualificado tentado, crime de detenção e uso de arma proibida. A 14 de Fevereiro deste ano, o TUI aceitou o recurso do condenado e enviou de novo o processo para o Tribunal de Segunda Instância (TSI), que repetiu o julgamento e manteve a sentença dos 11 anos e seis meses de prisão, mas o homem não aceitou a decisão e pediu novo recurso, alegando que o TSI “não cumpriu a obrigação de realização de novo julgamento, incorrendo no erro de interpretação e aplicação da lei”, determinando-se “uma pena excessivamente severa”. O agressor conseguiu agora conseguiu ver a sua pena reduzida.

O Despertar Estratégico da Alemanha (II)

“The claim that a state’s security interest necessarily coincides with that of its citizens appears downright absurd.”

Ole Nymoen

Se os ditames draconianos do Plano Morgenthau proposta dos Estados Unidos em 1944 para desmilitarizar e desindustrializar a Alemanha após a II Guerra Mundial, transformando-a num país agrário e incapaz de iniciar novos conflitos ficaram letra morta, foi apenas porque, nesses mesmos meses, começava a amadurecer nos Estados Unidos a consciência de um conflito de fundo na Europa com a União Soviética. Com o passar das semanas, a prioridade deixou de ser a neutralização da Alemanha e passou a ser impedir que Moscovo a absorvesse na sua esfera de influência. Na interpretação de vários responsáveis americanos da época, antes de alcançar o Atlântico, o Exército Vermelho teria de se apoderar das capacidades industriais da Renânia e da região do Ruhr coração histórico da indústria alemã, com destaque para os sectores do carvão, aço, química, energia e logística.

Daí a necessidade de reerguer um Estado alemão ocidental e de orientar o seu potencial económico, humano e tecnológico contra o expansionismo soviético. Resumido num documento da CIA de 1949, o objectivo dos Estados Unidos passou a ser “o controlo permanente do poder alemão”. Oitenta anos depois, mudaram os contornos, não a substância. Hoje, para Washington, o desafio do século chama-se China, e os custos da defesa do Velho Continente devem recair sobre os europeus. A margem de manobra financeira da França e do Reino Unido é limitada, também devido aos seus dispendiosos arsenais nucleares. E, do ponto de vista dos polacos, bálticos e escandinavos, a Rússia é uma ameaça existencial, a conter e desgastar por todos os meios. Tudo aponta numa única direcção que é do rearmamento alemão. Segundo esta lógica, caberá à Alemanha assegurar a massa crítica de recursos económicos e forças convencionais que os restantes parceiros ocidentais não podem ou não querem mobilizar.

Naturalmente, pressuposto essencial desta aposta é que Berlim não aja por conta própria, construindo uma esfera de influência ou perseguindo interesses estritamente nacionais. Só assim se compreende que a República Federal, cujo ordenamento jurídico teoricamente proíbe até o envio de armas para zonas de conflito armado, esteja actualmente a debater se deve colocar tropas no terreno na Ucrânia. Nos últimos anos, os alemães quebraram vários tabus alguns de longa data, como o travão ao endividamento mas este seria, por razões evidentes, o mais clamoroso. Assim, em Agosto, no final da cimeira de Washington, Merz sublinhou que a Alemanha tem um “interesse fundamental” em cooperar para oferecer garantias a Kiev, com a imagem do chanceler nos papéis de um sinistro Tio Sam, acompanhada da legenda de que “Merz quer mandar-te para a Ucrânia? Nós não!” Até hoje, trata-se de uma perspectiva não só impopular segundo uma sondagem recente, pois 51 por cento dos alemães são contra e apenas 36 por cento a favor mas também tecnicamente impraticável.

Apesar do aumento significativo das despesas militares, o efectivo das Forças Armadas Alemãs continua a diminuir e a envelhecer. Parece fora de alcance até o objectivo de 203 mil unidades até 2031, meta que a comunidade estratégica de Berlin-Mitte, o distrito mais central e histórico de Berlim, considerado o coração político, cultural e turístico da capital alemã considera totalmente insuficiente para satisfazer as actuais necessidades de segurança alemãs. Nos últimos três anos, os cerca de 180 mil efectivos diminuíram ligeiramente. É difícil imaginar que a reforma do serviço militar recentemente aprovada pelo governo federal possa representar a solução, pois o recrutamento, por agora, continuará a ser voluntário. Não estamos, portanto, perante um processo linear. Mas convém recordar que, por mais que diariamente legiões de especialistas se esforcem por apresentar o rearmamento alemão como a panaceia para todos os males do Ocidente, continua a ser uma aposta de alto risco.

Sobretudo porque o contexto estratégico europeu é radicalmente diferente daquele que, no pós-guerra, levou Washington a deixar-se convencer por Londres e Paris a não abandonar a Europa. Na altura, foram os líderes franceses em particular figuras como Robert Schuman e Jean Monnet que defenderam com firmeza que qualquer retirada das tropas americanas teria “consequências desastrosas” para a segurança nacional dos vencedores. E nos Estados Unidos havia plena consciência de que a reaproximação entre França e a Alemanha era condição fundamental para dar solidez ao bloco ocidental. Como estabeleceu o secretário de Estado Dean Acheson que desempenhou um papel central na formulação da política externa americana durante os primeiros anos da Guerra Fria, afirmaria em 1949 de que “Só a França pode assumir a liderança decisiva na integração da Alemanha na Europa Ocidental… se quiser evitar um domínio russo ou alemão ou talvez russo-alemão na Europa.”

Tendo toda a consideração pela retórica europeísta, sem as garantias de segurança dos Estados Unidos não teria existido qualquer eixo franco-alemão, verdadeiro motor da integração europeia. A prova está à vista de todos e será coincidência que o parcial descomprometimento americano com o continente coincida hoje com uma crise nas relações entre a Alemanha e a França? Washington parece cada vez mais distante. Reemergem feridas antigas, nunca totalmente saradas. Em particular, a origem das tensões entre as duas margens do Reno reside numa percepção oposta do rearmamento alemão. Paris receia que possa se transformar a República Federal numa potência assertiva e desvinculada de qualquer controlo. Berlim, por sua vez, suspeita que os franceses pretendem utilizar os fundos alemães para promover as suas ambições dispendiosas. Trata-se de uma fractura estrutural, impossível de colmatar por completo, independentemente da boa vontade de Merz e Macron.

(Continua)

Seul | Apresentado projecto de lei para reduzir taxas dos EUA

O partido no poder na Coreia do Sul apresentou ontem um projecto de lei para apoiar o compromisso de investimento sul-coreano nos Estados Unidos em troca da redução das tarifas norte-americanas.

O projecto de lei prevê a criação de um fundo especial para financiar o investimento prometido de 350 mil milhões de dólares aos Estados Unidos, em troca da redução das tarifas aduaneiras de Washington sobre veículos e peças de veículos, entre outros, de 25 por cento para 15 por cento.

Do valor total, 150 mil milhões de dólares destinam-se ao sector naval norte-americano, enquanto os restantes 200 mil milhões de dólares vão ser investidos, em tranches anuais de até 20 mil milhões de dólares, em vários sectores estratégicos dos EUA.

Embora a proposta legislativa ainda vá ser analisada pelo parlamento sul-coreano, com a mera apresentação do documento aplica-se a redução tarifária com efeitos retroactivos a 01 de Novembro, em linha com o memorando de entendimento bilateral assinado em meados deste mês.

O Ministério do Comércio da Coreia do Sul enviou uma carta ao secretário do Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, a informar que a proposta de lei para aplicar o memorando de entendimento já foi apresentada à Assembleia Nacional sul-coreana e a solicitar que a redução retroativa seja aplicada em conformidade.

Timor-Leste | Revolução de Abril deixou “memórias difíceis”

Marisa Ramos Gonçalves, investigadora da Universidade de Coimbra, aborda, em estudo, as vivências e experiências dos timorenses no período do 25 de Abril

A investigadora do Centro de Ciências Sociais da Universidade de Coimbra Marisa Ramos Gonçalves considerou que a revolução de Abril em Timor-Leste deixou “memórias difíceis “e que a reconciliação é fundamental para a “coesão nacional”.

“Quando falamos do 25 de Abril em Timor sabemos que estamos a falar sobre memórias difíceis que deixaram marcas até hoje devido ao conflito interno e da violação dos direitos humanos durante a ocupação”, afirmou à Lusa Marisa Ramos Gonçalves, que se encontra actualmente a fazer um estudo sobre aquele período no país.

Marisa Ramos Gonçalves é também membro do Conselho Consultivo Internacional do Centro Nacional Chega (em Timor-Leste), que, entre outras actividades, documenta a história do conflito de Timor-Leste entre 1974 e 1999.

A investigadora explicou à Lusa que o objectivo é perceber o outro lado da história a “partir das experiências e vivências dos timorenses do 25 de Abril e deste período de transição, que dá origem a uma proclamação da independência, mas que é muito curta relativamente à ocupação”.

“Esta memória colectiva dos timorenses é indissociável, quer do conflito interno, quer da tragédia humana que é a invasão e ocupação indonésia”, salientou Marisa Ramos Gonçalves.

A proclamação unilateral da independência de Timor-Leste, em 28 de novembro de 1975, aconteceu após um período marcado por confrontos entre os timorenses e já sob a sombra da possibilidade da ocupação do território pela Indonésia, o que se concretizou em 7 de Dezembro de 1975. Questionada sobre a reconciliação entre timorenses, a investigadora disse que o “assunto tem estado em cima da mesa”.

“É preciso fazer a reconciliação entre timorenses que estiveram em lados opostos durante o conflito civil com opções diferentes para o futuro de Timor. Na altura, a UDT queria uma associação a Portugal durante mais alguns anos antes da independência, a Fretilin queria uma independência imediata, e a Apodeti, que queria uma integração na indonésia e todos são timorenses”, afirmou.

Segundo Marisa Gonçalves, o Centro Nacional Chega quer que “isso comece a estar em cima da mesa, porque não foi fácil até agora para os timorenses que sofreram torturas ou que foram perseguidos durante o período do conflito interno falar abertamente”.

“Mas já se começa a ver essa possibilidade a falar da violência e da tortura, que existiu num período muito curto em 1975, mas que deixou marcas fortes. Existe também uma reconciliação ao nível da liderança política que está por fazer e penso que essa também é complicada. É uma reconciliação de toda a sociedade”, afirmou Marisa Ramos Gonçalves.

Maior abertura

Considerando a reconciliação entre timorenses como fundamental para a coesão social, a investigadora destaca, por outro lado, que as novas gerações formadas no período indonésio e as mais jovens “estão completamente preparadas para essa reconciliação”.

“Não estão tão presas a conflitos anteriores e eles querem mesmo reconciliar-se e, portanto, acho que já estão a olhar para esse futuro, já pensam que todas as pessoas fazem parte da Nação timorense, inclusivamente os timorenses que estão em Timor Ocidental”, onde há uma comunidade de cerca de 80.000 pessoas, salientou.

“É importante também que a geração mais velha se reconcilie, até porque continua a ser uma geração, a chamada geração de 75, que continua no poder. Seria também interessante que eles tomassem a iniciativa de se aproximar”, acrescentou.

Sobre o estudo que está a realizar, Marisa Ramos Gonçalves disse que há falta de investigação histórica em Timor-Leste e que é bom perceber as expectativas que as pessoas tinham não só em relação ao 25 de Abril, mas como também em relação à transição política.

“É conhecer as narrativas, as experiências, as memórias dos timorenses de várias origens geográficas, ocupações profissionais e filiações partidárias sobre o mesmo momento histórico”, explicou, salientando que a reconciliação também se faz via escrita da história.

China diz que esmagará ingerências em Taiwan

A China voltou ontem a acusar o Japão de aumentar a tensão regional com a anunciada implantação de mísseis em ilhas próximas de Taiwan, advertindo que “esmagará” qualquer tentativa de interferência externa no que considera um assunto interno.

O porta-voz do Gabinete para os Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado (Executivo chinês), Peng Qing’en, classificou a decisão de Tóquio como uma “provocação extremamente perigosa” e acusou o Japão de estar “a criar tensão e a alimentar o confronto militar” numa zona a apenas 110 quilómetros de Taiwan.

“Temos a firme vontade, determinação e capacidade de salvaguardar a soberania e a integridade territorial da China e de esmagar qualquer tentativa de interferência externa”, afirmou Peng numa conferência de imprensa em Pequim. O porta-voz acusou Tóquio de violar o espírito da Constituição pacifista do país e de avançar para a “expansão militar”, impulsionado por “forças de direita, que procuram libertar-se das restrições do pós-guerra”.

Peng recordou que a Declaração de Potsdam (1945) proibia o rearmamento japonês, sublinhando que esta evolução “despertou a preocupação da comunidade internacional”.

A data concreta para a implantação desse sistema antimíssil numa cadeia de ilhas próxima de Taiwan, capazes de interceptar ameaças aéreas a uma altitude de cerca de 50 quilómetros, ainda não foi decidida, mas corresponde a 14 novas unidades antimísseis terra-ar que o Governo japonês planeia instalar até 2031 para triplicar os sistemas de protecção numa zona de especial interesse estratégico.

A reacção da China ocorre num momento de máxima tensão diplomática entre Pequim e Tóquio, após declarações recentes da nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que declarou que um ataque chinês contra Taiwan pode justificar a intervenção das Forças de Autodefesa japonesas.

A China exigiu a retratação da chefe do Governo nipónico, convocou o embaixador japonês e emitiu avisos oficiais desaconselhando os cidadãos chineses a viajar para o Japão, o que provocou centenas de milhares de cancelamentos de voos e afectou o sector turístico e cultural japonês.

Tóquio, por sua vez, defendeu que a implantação de mísseis terra-ar nas ilhas do arquipélago Nansei responde exclusivamente a fins de defesa e faz parte da estratégia de segurança adoptada em 2022, em plena inflexão histórica de Tóquio no sentido do rearmamento.

O Ministério da Defesa japonês denunciou ainda esta semana a incursão de um drone chinês entre a ilha de Yonaguni e Taiwan, o que justificou o envio de caças.

Sem avanços

A tensão diplomática mantém-se, apesar dos recentes apelos do Presidente norte-americano, Donald Trump, tanto ao líder chinês, Xi Jinping, como a Takaichi.

Durante uma conversa telefónica com Trump, Xi insistiu que o “retorno” de Taiwan à China constitui uma “parte importante” da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial, enquanto Tóquio insiste que a sua posição não mudou e que qualquer disputa sobre a ilha, autogovernada desde 1949, deve ser resolvida pacificamente.

Tóquio e Pequim têm mantido reuniões bilaterais de alto nível em busca de formas de desaceleração da tensão actual, sem sinais claros de progresso, segundo analistas.

Investimento no imobiliário comercial em HK triplica no terceiro trimestre

A captação de capital no sector imobiliário comercial de Hong Kong registou um aumento histórico no terceiro trimestre de 2025, com um incremento homólogo de 231 por cento, segundo dados da Morgan Stanley Capital International (MSCI). O volume negociado atingiu 4,9 mil milhões de dólares, colocando a cidade como o segundo mercado com maior expansão na região Ásia-Pacífico, atrás apenas da Malásia.

De acordo com o fornecedor de serviços de dados, que compila operações avaliadas em mais de 10 milhões de dólares, trata-se do maior montante trimestral desde 2019, reflectindo uma recuperação progressiva no sector imobiliário do enclave financeiro, duramente atingido nos últimos anos.

O relatório detalha que o capital se concentrou em escritórios, centros de dados, espaços comerciais, hotéis e residências para idosos. A MSCI sublinhou que as principais operações em Hong Kong abrangeram tanto activos corporativos como tecnológicos, impulsionadas por uma melhoria gradual dos fluxos de investimento provenientes da China continental.

Este ‘boom’ ocorre após anos de depreciação de activos e restrições financeiras, acentuadas pela escalada das taxas de juro, que atingiram máximos não vistos desde 2007. No entanto, a recente decisão da Autoridade Monetária de Hong Kong de reduzir em um quarto de ponto a taxa de juros de referência, para 4,25 por cento, aliviou os encargos com crédito e sustentou a actividade de investimento.

Bons números

Entre Janeiro e Setembro, o investimento imobiliário no território acumulou 6,2 mil milhões de dólares, um aumento anual de 39 por cento, de acordo com cálculos da Morgan Stanley publicados ontem no jornal South China Morning Post. Desde o início do ciclo de flexibilização monetária, em Setembro do ano passado, várias operações importantes foram concluídas.

Em Julho, Mike Cai Wensheng, co-fundador da aplicação chinesa Meitu, uma plataforma popular de edição fotográfica e retoque digital, adquiriu um terreno para reurbanização no distrito de Causeway Bay por 750 milhões de dólares de Hong Kong, a segunda compra da empresa em três meses.

Por sua vez, o Alibaba Group e a associada Ant Group desembolsaram em outubro 7,2 mil milhões de dólares de Hong Kong na compra de vários andares de um projeto promovido pela Mandarin Oriental International, no terreno do antigo hotel Excelsior. O acordo constituiu a maior transação imobiliária da cidade desde 2021.

Entretanto, o mercado de escritórios continua ativo. Esta semana, foi registada a venda de uma unidade no 35.º andar da Bank of America Tower, no distrito de Central, por 27,31 milhões de dólares de Hong Kong, enquanto o 52.º andar do The Center foi transferido para a Prosperous Global Investment por 565,29 milhões de dólares de Hong Kong.

“As expectativas globais são mais optimistas do que no início do ano”, avaliou Benjamin Chow, chefe de pesquisa de activos privados para a Ásia na MSCI, citado pelo diário de Hong Kong. “Os rendimentos voltam a ser positivos e a actividade recupera na maioria dos grandes mercados. Tudo indica que 2025 terminará com um saldo favorável”, sublinhou.