Bloomsday – O dia de Joyce

«Música de Câmara XX»
“No escuro pinhal,
Na sombra fria,
Aos dois eu punha
No pleno dia.
Quão doce beijar
Pôr-se ali
Onde os pinhos altos
Se enavilham!
Teu beijo pousando
E mais tenro
Junto ao caos macio
Dos cabelos.
Ó, no bosque dos pinhos,
No dia do meio,
Vem junto agora,
Amor ao pleno”.
James Joyce (1882/1941)

 

[dropcap]O[/dropcap] dia 16 de Junho, o «Bloomsday», é o dia instituído na Irlanda para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista de «Ulisses», de James Joyce. Em todo o Mundo, é o único dia dedicado ao personagem de um Livro.

«Nós» portugueses somos os únicos que comemoramos o Dia Nacional – 10 de Junho – através da data que assinala a morte (1580) do «príncipe dos poetas portugueses», o Homem que «cantou» o dobrar do cabo das Tormentas, «para servir a Pátria, ditada minha amada».

Honrar Camões, poeta da «Bíblia da Pátria», foi o objectivo inicial ao adoptar o «10 De Junho» como o «Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas».

Apesar de não ser feriado, o «Bloomsday» é comemorado um pouco por todo o Mundo – é o dia dedicado a Leopold Bloom, protagonista do livro «Ulysses», de James Joyce, em vários lugares e em várias línguas.
Em Dublin, os fãs da obra refazem o percurso dos personagens pelas ruas da cidade conforme descrito por Joyce.

«Ulisses», nome latinizado do herói, é uma recriação moderna da «Odisseia» de Homero. É uma personagem eterna. Publicado a 2 de Fevereiro de 1922, dia do seu aniversário, em Paris, o romance – epopeia (tragédia do quotidiano) – «Ulysses», escrito entre 1914 e 1921, em Trieste, Zurique e Paris, foi um livro proscrito em todos os países anglo-saxónicos, incluindo os Estados Unidos da América e o Reino Unido, por conter alguns aspectos impublicáveis, nomeadamente obscenidades.

James Augustine Aloysius Joyce, escritor irlandês, nasceu em Rathgar, subúrbios de Dublin, a 2 de Fevereiro de 1882, filho de família rica católica. Entra numa escola jesuíta, passa pela Universidade de Dublin, onde se forma, e parte para Paris com a intenção de estudar Medicina. Desiste e passa todo o seu tempo a escrever. Modernista, um inovador – a linguagem é a personagem principal – e um dos autores de maior relevância do século XX, tornou-se um dos marcos da literatura ocidental contemporânea. Joyce foi romancista, contista e poeta.

A história de «Ulisses» (um «monstro», nas palavras do autor) narra um dia – 18 horas (dezoito capítulos – começa por volta das 8 horas da manhã e termina após as 2 da madrugada seguinte) – na vida do irlandês Leopold Bloom. «Bloomsday» vem do sobrenome da personagem carismática do livro, e passa-se no dia 16 de Junho de 1904. Bloom, amigo de Joyce, 38 anos, filho de pai judeu, agente de publicidade, imigrante, homem comum, sente-se deslocado na comunidade xenófoba de Dublin, capital da Irlanda – um expatriado tal como Joyce quando escreveu o livro.

James Joyce escolheu o dia 16 de Junho para ser imortalizado na sua obra «Ulisses» – um livro revolucionário no estilo e na concepção -, porque foi nesse dia que fez amor pela primeira vez com Nora Barnacle, jovem camareira do condado de Gallway, que viria a ser a sua companheira para o resto da vida.

As suas obras de maior referência são: «Música de Câmara» – uma antologia de 36 poemas líricos curtos – (Poesia) 1907; «Gente de Dublin» (Contos) 1914 e, os romances «Retrato de um Artista Quando Jovem» (1916) – livro autobiográfico, «Ulisses» (1922) – uma obra de esforço «homérico» e o intrigante sonho «Finnegans Wake».

Fernando Pessoa, num curto rabiscado comentário crítico à leitura de «Ulysses», comparou a arte de James Joyce à de Mallarmé, chamando-lhe «a arte fixada no processo de fabrico, no caminho. A mesma sensualidade de Ulysses é um sintoma de intermédio. É o delírio onírico, dos psiquiatras, exposto como fim.», sentenciando em jeito de conclusão: «Uma literatura de «antemanhã», porventura adivinhando nele a revelação de um novo estilo literário, um novo alvorecer, pressagiando, quiçá, o que iria ser o futuro literário:

«Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia…» (in «Começa, no ar da antemanhã»), a escrita de Joyce como “[…] aquela fria Luz que precede a madrugada, E é já o ir a haver o dia […]” (in «Mensagem»).

Joyce faleceu em Zurique, na Suíça, a 13 de Janeiro de 1941. Atrevo-me a encomendar-vos um exercício de imaginação para o fim-de-semana:

E se James Joyce estivesse em Macau, agora mesmo, a escrever o Ulisses? Que trajecto tomaria Bloom (chamar-se-ia como? Nome chinês? português?), que pessoas do dia-a-dia da nossa cidade serviriam para ele retratar as sereias que agora nos encantam, os ciclopes dos nossos temores, as feiticeiras que nos traçam destinos, os deuses com que hoje nos cruzamos…??? Que língua ou línguas falaria? Que batalhas travaria? Que armas escolheria? Também «silence, exile and cunning» (silêncio, exílio e astúcia) do jovem Dedalus?

E se tivéssemos por cá, agora mesmo, um ‘James Joyce’ de verdade, de carne e osso, prestimoso, que se abalançasse a reescrever a epopeia nesta exígua curva recortada na orla meridional do país do meio?…

Macau já teve (e tem) os seus heróis, porventura escassos, demasiado na sombra e humildes, apagados e pouco idolatrados com certeza, para o bem social que precisávamos. Mas as suas vidas, rectidão de carácter e postura mereciam ser contadas e cantadas como a de Ulisses, à visa de inspiração e exemplo para nós, simples mortais.

Sem precisarmos de recuar muito no tempo, muitos de nós já cá viveram anos suficientes para assistir à generosidade, bondade, alegria, humanidade, resiliência, talento e sensibilidade de muitos heróis das causas nobres e justas. Eu próprio tive a honra de acompanhar o passo com alguns heróis que me marcaram profundamente: Lancelote Rodrigues, Carlos d’Assumpção, Manuel Teixeira, Adé, Leonel Barros, Domingos Lam, Silveira Machado, Tomás Bettencourt Cardoso, Henrique de Senna Fernandes, Alberto Alecrim… e os, tantos, sem nome sabido, que praticam o bem em silêncio…

Rejubilo e sensibilizo-me com a força de vontade e abenegação de heróis do presente, aqui, entre nós, como a Irmã Juliana Devoy… ou que partiram recentemente, como o filantropo Stanley Ho. Macau teve, nas suas ruas e pó, heróis que ficaram para a História, como Sun Yat-sen, Wenceslau de Moraes, Camilo Pessanha, João Paulino de Azevedo e Castro, José da Costa Nunes, Arquimínio Rodrigues da Costa, Xian Xinghai…, esperemos que apareçam muitos mais.

Parece que hoje em dia ninguém quer confessar que o outro é melhor que si próprio, que alguém suplanta a mediania, é mais valoroso, solidário, generoso, esforçado, temerário, e nos dá alento, com o seu testemunho, para persistirmos nos valores em que acreditamos e no que realmente vale a pena lutar nesta vida. Todos enfrentamos lutas e chegamos a encruzilhadas, mas poucos lutam as lutas dos outros e vão à luta por todos.

Quem me dera acordar um dia destes e ser (ou não…) feriado – o “Lancelote Day”!!! Aliás, o seu nome até se coaduna com a ideia, nome de outro herói, o lendário cavaleiro da Távola Redonda. Quis o destino que o «nosso» saudoso Lancelote, o do Lac de cá, o Lago Nam Van de Macau, se apressasse a juntar-se aos outros heróis de tarefas cumpridas, no dia seguinte ao Dia de Bloom, a 17 de Junho, faz agora sete anos.

Desafio a pluma mais talentosa da praça a transportar para os séculos XX-XXI tal figura do imaginário e redesenhá-la na pessoa do alegre, bonacheirão e bondoso padre, que foi nosso conterrâneo, e na altura nem sabíamos a sorte que tínhamos de o ter por perto!

 

“Mais do que a obra de um só homem, Ulisses parece de muitas gerações (…). A delicada música da sua prosa é incomparável”
J. Luís Borges, sobre o «Ulisses»de James Joyce, 1937

O combate do século

[dropcap]N[/dropcap]uma entrevista recente, a propósito de Murder Most Foul, quando perguntam a Bob Dylan sobre os riscos da hiperindustrialização e da tecnologia se virarem contra a vida humana, o cantor responde:

«Definitivamente, há muito mais ansiedade e nervosismo agora do que costumava existir. Mas isso só se aplica a pessoas de uma certa idade como eu e você, Doug. Temos a tendência de viver no passado, mas isso somos nós. Os jovens não têm essa tendência. Eles não têm passado, então tudo que sabem é o que vêem e ouvem, e acreditam em qualquer coisa. Daqui a 20 ou 30 anos, eles estarão na vanguarda. Quando você vê alguém com 10 anos, ele estará no controle em 20 ou 30 anos, e ele não terá ideia do mundo que conhecíamos. Os jovens que estão na adolescência agora não têm memórias suficientes para se lembrar.

Então provavelmente é melhor entrar nessa mentalidade o mais rápido possível, porque essa será a realidade. No que diz respeito à tecnologia, ela torna todos vulneráveis. Mas os jovens não pensam assim. Eles não poderiam se importar menos, porque telecomunicações e tecnologia avançada são o mundo em que nasceram. O nosso mundo já está obsoleto.»

Gosto do diagnóstico, mas não da resignação do artista, contraditória com a lucidez da primeira parte da resposta; talvez seja típico de um americano.

Sim, os jovens hoje crescem num ambiente em que as ciências humanas e as suas pautas simbólicas foram desvalorizadas e preteridas pelos saberes técnicos e de imediata operacionalidade e vivem sob o jugo do “eterno presente” da esfera mediática. Trump é o exemplo de alguém que é absolutamente fruto de uma educação temperada pelos inputs das indústrias culturais, sem qualquer filtragem de uma cultura humanística que coloque o presente e os seus valores em perspectiva.

Trump é um espelho das patologias da sociedade de consumo e da equívoca relação do mercado – hipervalorizado como única instância reguladora – com os princípios da democracia, porque, afinal, tem sido esquecido, uma democracia será mais do que um sistema financeiro.

A surpresa de Boris Johnson – um cínico, que beneficiou ainda de uma educação aristocrática e assente nos referenciais de uma cultura humanista – sobre a motivação dos que vandalizaram a estátua de Churchill é genuína, daí ter lembrado que apesar de algumas das ideias defendidas pelo seu histórico antecessor serem “inaceitáveis para nós hoje”, «Churchill continua a ser uma figura heróica que salvou o país de uma “tirania racista e fascista”». Indesmentível, e isso torna absurda a situação dos anti-racistas tomarem a figura de Churchill como alvo da sua ira e da estátua do estadista ser defendida por milícias e holligans de extrema-direita.

Assistimos aos sintomas da desordem mental que resulta de sermos expostos há décadas a um avassalador fluxo informativo sem filtro, sem a mediação de qualquer pensamento crítico ou a ambição de articular essa amálgama informativa sob o guarda-chuva de um sistema cognitivo que re-ligue os padrões e nos possa orientar no seio de Babel. A educação como grande projecto iluminista pulverizou-se: o efeito disto traduz-se mais nos “legumes” de Archimbold e Pilipe Haas que num mundo mais igualitário.

A facilidade com que hoje os líderes convencem os seus fanáticos de que quem se opõe às suas ideias é “comunista” ou “fascista” assinala o triunfo do slogan contra qualquer possibilidade de reflexão. O eleitorado prefere a velocidade, a adrenalina, à ponderação, ao juízo.

Um verdadeiro líder democrático é quem nos ensina: a contingência habita o cerne do poder – mais cabal não há que o exemplo de Churchil, derrotado à boca das urnas logo a seguir a ter ganho a guerra, perdeu e retirou-se. Hoje, com Trump e Bolsonaro, assiste-se ao contrário: napoleonicamente, apresentam-se como providenciais, e, grotescamente, estão convencidos disso.

A democracia, mais do que o exercício da alternância democrática (que apela ainda a uma disputa entre os diferentes sentimentos de pertença cristalizados nos partidos), deve antes promover um sentimento de não-pertença e de distância analítica que se reforça pela persuasão com que novos direitos e sensibilidades emergentes ganham novos focos de mediação, novos intermediários e impõem as suas razões narrativas.

O movimento social é como um tecido corrompido que só se sara quando se instauram novas mediações.
Socorramo-nos de Alain Badiou:

«… chame-se movimento a uma acção colectiva que obedece a duas condições: em primeiro lugar, esta acção não está prevista nem regulada pela potência ou o poder dominante. Logo, esta acção pressupõe algo imprevisível, que rompe com a repetição. Chamamos movimento a algo que rompe com a repetição colectiva, social. É a primeira condição.»

O que tivemos com as espontâneas reacções à morte de George Floyd. E o movimento, deve romper com a unanimidade mimética – pura condição.

Embora, para se tornar fecundo, a sua segunda condição seja «que se proponha dar um passo mais, adiante, no que respeita à igualdade. A consigna de um movimento, o que diz, o que propõe, vai, de una maneira geral, no sentido de uma maior igualdade».

O seu efeito é a emergência de um novo “intermediário”, de uma nova sensibilidade em relação às decisões políticas e às instâncias de mediação. Nesta pequena nuance da mediação joga-se a superação de uma democracia representativa para uma democracia re-encantada e este salto é vital.

A validade e inteligência desta mutação ficam enfraquecidas com os gestos demagógicos de vandalizar as estátuas. Restituir ao social a dignidade que aponta para uma “maior igualdade” supõe simultaneamente respeitar os símbolos da ideologia adversária e mobilizar a energia para a mudança política, posto estar o debate lançado.

A explosão e a fúria sem a reflexão redundam numa oportunidade perdida. Pichar as estátuas, mutilá-las, censurar filmes ou livros, só mostra como o colectivo e as suas unanimidades são permeáveis à estupidez e intolerância que germinou nos regimes autoritários e discriminatórios e como a educação volta a ser o combate do século.

A travessia perigosa

[dropcap]U[/dropcap]ma época é um grão de areia ao vento no meio do Atlas. Se se preferir, uma época é um breve recorte na continuidade do fio de Ariadne, mas de uma versão falsa que nunca nos chegará a revelar a topografia do grande labirinto que respiramos.

Desde o pós-guerra que a ideia de época passou a designar-se correntemente por tempo geracional. Mais uma designação sem sentido, se recuássemos cem anos.

Uma época vive de retenções de memórias e de tematizações que estão sempre a alterar-se. Numa época existe sempre um naipe de palavras e um conjunto de conceitos que são dominantes e que depois, pouco depois, logo se perdem, transformam ou adulteram, porque todo o contexto se renova.

Uma época vive atada a uma moldura muito fixa, do mesmo modo que uma pessoa se sente atada a um pára-quedas naqueles escassos minutos, depois de ter saltado do avião.

Uma época é uma insularidade, um pequeníssimo mundo que tenta auscultar a dimensão universal e que acredita mesmo que o faz, mas sem conseguir sequer tacteá-la ou entendê-la.

Uma época é a grande metáfora do efémero e da tentação de fazer corresponder a um fragmento do tempo sequencial aquilo que por trás mais o trama: a duração.

A ideia de época é, ela mesma, um produto do mundo moderno que germinou, na sua origem, no lado ocidental do globo. É uma ideia secular que escapa ao modelo da eternidade, de que o tempo divino seria a feição perfeita.

No mundo moderno, uma época é um lugar de desdém face a outras épocas como se o esquecimento, o momentâneo e a simples passagem fossem sinónimos de um ascendente a caminho de um pseudo-vórtice luminoso mais justo e sabedor.

Uma época vive de objectos culturais que lhe são próprios: máquinas, modas, dispositivos mecânicos ou electrónicos, arquitecturas, utensílios domésticos, faixas de asfalto que cortam a paisagem, palavras de ordem que se repetem e os mais variados media que aproximam e afastam as pessoas.

Uma época é um campo de forças que conjectura, que prevê e que antecipa, embora o faça com um olhar que é inevitavelmente limitado ao seu campo de visão.

Uma época é um ‘locus’ magnético que reinventa o passado, servindo-se, há cerca de dois séculos e meio, de todo aquele aparelho conceptual que passou a designar-se por “História”, tendo-se-lhe emprestado o cognome de ciência.

Uma época reinventa o passado através de redes ficcionais que enfatizam certas zonas que confortam o presente e as ideias aí dominantes. Essas redes e essas zonas estão continuamente em metamorfose, embora, em cada patamar da caminhada, beneficiem de dogmatismos errantes.

Numa época há certas questões, dúvidas e perguntas que se impõem e o fundamental passa por lhes responder com aquilo que, na altura, os humanos têm à mão. Todo esse vaivém se altera de época para época e a tarefa que se segue consistirá inevitavelmente em reconstituir, traduzir, reenquadrar. Razão por que uma época nunca acede ao espelho exacto de uma outra época e, por isso mesmo, não a pode julgar.

Uma época insiste sempre em ter um espectro de coisas visíveis que se contrapõe a outras que devem manter-se fora da vista de todos.

Uma época dificilmente sabe conviver com tudo o que está à vista, porque a geração que a habita sonha-se sempre no cume da “História” e ousa dispor do tempo e sobretudo da natureza como se outras gerações não tivessem existido ou nunca viessem sequer a existir no futuro.

Uma época nunca é uma eco-época, justamente por causa desta intolerância extrema que é, em última análise, a intolerância da finitude.

Uma época julga-se, por isso mesmo, no direito de arrancar estátuas, de queimar livros e de interditar palavras.

Uma época pode matar. Uma época é uma travessia perigosa.

Covid-19 | A resposta de Pequim ao ressurgimento de casos

[dropcap]V[/dropcap]oos cancelados, escolas encerradas e um regresso ao confinamento são algumas das medidas que Pequim está a avançar para travar a disseminação de um novo surto de covid-19 que tem vindo a evoluir nos últimos dias na capital chinesa.

Esta quarta-feira, a China diagnosticou 44 novos casos da doença covid-19, incluindo 31 em Pequim, após um surto detectado no principal mercado abastecedor da capital do país.
A cidade com 21 milhões de habitantes aumentou o nível de emergência na terça-feira, visando conter a disseminação deste novo surto, que soma 137 casos nos últimos seis dias, após dois meses sem registos de novos contágios.

Origem desconhecida

No início do ano, no auge da epidemia do novo coronavírus na China, Pequim foi classificada como uma espécie de “Grande Muralha Sanitária”, uma vez que todos aqueles que chegassem de fora eram colocados imediatamente e obrigatoriamente em quarentena.

Como resultado, e segundo os dados oficiais disponíveis, foram apenas registados 597 casos de infecção e nove vítimas mortais na capital chinesa.

Em Maio, várias medidas de restrição seriam suspensas, num sinal de normalização gradual no país.
Apenas as ligações aéreas internacionais se mantiveram como excepção. As companhias aéreas continuam a não poder aterrar diretamente em Pequim para evitar os chamados casos de contaminação “importados” do estrangeiro.

O aparecimento de um novo caso na semana passada na metrópole chinesa veio reavivar os receios de uma nova vaga de contaminação.

Dezenas de pessoas que trabalham ou frequentam o mercado abastecedor de Xinfadi (na zona sul de Pequim) acabaram por testar positivo para o novo coronavírus.

O local, o principal mercado abastecedor de produtos frescos da capital chinesa, terá sido frequentado por mais de 200 mil pessoas desde 30 de Maio, de acordo com as autoridades locais.

A origem deste novo foco de contágio mantém-se, até ao momento, desconhecida.
Os ‘media’ chineses avançaram que o novo coronavírus tinha sido detectado, nomeadamente, nas tábuas utilizadas para cortar o salmão importado neste mercado.

No entanto, segundo realçou o epidemiologista e chefe do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, Wu Zunyou, “isso não é suficiente para certificar que (o vírus) provém de produtos do mar importados”.
“Poderá (também) ter vindo de uma pessoa infectada”, admitiu o especialista, em declarações citadas pelas agências internacionais.

Plano de actuação de Pequim

A capital chinesa está a regressar às medidas de confinamento e ao encerramento de várias estruturas, como escolas, que já tinha reaberto maioritariamente e ontem voltaram a ser encerradas. Os pavilhões desportivos também voltaram a ser fechados.

Bares, restaurantes e lojas terão novamente de fechar portas ou impor restrições aos clientes, como a medição da temperatura corporal ou limitar o número de pessoas nos respectivos espaços.

Também está em curso uma operação de desinfecção nos restaurantes da capital e 11 mercados de Pequim estão totalmente ou parcialmente fechados.

As autoridades locais lançaram uma vasta campanha de rastreio, e, desde sábado, foram testadas cerca de 356 mil pessoas, de acordo com informações oficiais.

Na terça-feira, as autoridades de Pequim exortaram os habitantes a evitarem as viagens “não essenciais” para fora da cidade, proibindo os residentes das áreas afectadas pelo novo surto a saírem da capital.
Neste momento, 27 bairros de Pequim estão em quarentena.

Muitas cidades e províncias já estão a impor, neste momento, o cumprimento de uma quarentena aos viajantes procedentes de Pequim. Ontem, os dois aeroportos da capital cancelaram mais de mil voos e a capacidade de lotação dos transportes públicos foi reduzida para 75%.

“Um passo à frente”

Um porta-voz das autoridades locais, Xu Hejian, afirmou ontem que Pequim está empenhada nesta “corrida contra o tempo” face ao novo coronavírus. A capital chinesa deve “estar sempre um passo à frente da epidemia e tomar medidas mais restritivas, decisivas e determinadas”, reforçou o representante.

Na segunda-feira, um alto funcionário chinês chegou a admitir que o encerramento das escolas pode durar até ao Outono e, perante tal eventualidade, foi pedido às escolas que fornecessem mais conteúdos educativos através da Internet.

Apesar do ressurgimento de casos da doença covid-19, as agências internacionais descreveram ontem que Pequim se mantém uma cidade movimentada, apesar de um expressivo decréscimo no tráfego diário, e sem uma aparente sensação de pânico.

As autoridades “aumentaram o nível de risco de epidemia em algumas ruas ou bairros, mas não em toda a cidade”, afirmou Lu Jiehua, professor de sociologia na Universidade de Pequim, citado pela agência France Presse (AFP).

Semana da Cultura Chinesa | Reflexão sobre a tradição da pintura chinesa

Foram ontem apresentados na Semana da Cultura Chinesa dois volumes que reúnem textos sobre teoria da pintura chinesa, uma forma de arte sobre a qual é preciso aprender antes de se apreciar, entende Leong Iok Fai

“As memórias dos tempos passados despertam à nossa frente quando desenrolamos uma pintura”, é das primeiras frases do livro “Os eixos da tradição”. Este é o primeiro volume de dois livros focados na teoria da pintura chinesa, cuja tradução para português foi ontem apresntada pela primeira vez. O segundo é “O fascínio do gesto”. E foi precisamente um olhar sobre o passado e a evolução da pintura chinesa que ontem se deu, no âmbito da Semana da Cultura Chinesa. “Primeiro temos de aprender sobre a pintura chinesa, só assim podemos apreciá-la. Como o povo dizia há 1000 anos, a pintura só pode ser entendida, não pode ser descrita”, disse ao HM Leong Iok Fai, que apresentou os textos traduzidos por Paulo Maia e Carmo.

Para o presidente da Associação de Pintura e Caligrafia de Macau, esta semana permite promover a vertente tradicional desta cultura no território. “Os pintores mencionados nos dois livros lançados são muito antigos (têm mais de 1000 anos), poucas pessoas os investigam, por isso é significativo divulgar estes pintores no exterior”. Para além disso, o académico destacou a herança teórica de alguns pintores, como Xie He: “é magnífico, hoje em dia quem quer apreciar ou analisar pinturas chinesas, tem de o fazer segundo os princípios da sua teoria”.

A iniciativa decorre até sexta-feira na Fundação Rui Cunha, numa organização conjunta entre o jornal Hoje Macau e a editora Livros do Meio. Carlos Morais José – proprietário do Hoje Macau e da editora Livros do Meio – explicou que os textos nunca foram traduzidos para português e “mesmo noutras línguas europeias não é muito comum encontrá-los”.

No seu entender, os textos de diferentes autores que abordam pintura clássica chinesa do século VI ao XVIII vão permitir às pessoas ter uma maior proximidade daquilo que, nomeadamente para os ocidentais, “por vezes é estranho ou difícil de entender”.

Arte mutável

Uma das características que Leong Iok Fai apontou às pinturas chinesas é o facto de serem “a reflexão do coração ou do espírito do pintor”, conseguindo transmitir o sentimento do artista. Algo que descreve acontecer também com a caligrafia.

Do lado do público, esteve presente Hong San San, da Associação das Calígrafas, Pintoras e Escultoras de Selos de Macau, que observou como “a caligrafia é uma tradição chinesa antiga” que existe há cinco mil anos.

Mas ao longo do tempo sentiram-se mudanças. A influência das pinturas ocidentais na pintura chinesa foi um dos temas que gerou maior curiosidade junto do público. De acordo com Leong Iok Fai, a aproximação existe há mais de 100 anos, com essa influência a expressar-se, por exemplo, através de pinturas mais coloridas.

Ainda assim, teve limites. “Acho que houve influência, mas não é tão comum como noutras pinturas. (…) Neste caso se calhar a pintura já não pode ser classificada como pintura chinesa, mas pintura a óleo, a aguarela, etc”.

Hoje decorre a apresentação de o “Divino Panorama – Um Inferno Chinês”, um texto que reúne influências do budismo, taoísmo e confucionismo.


Turismo | Governo optimista quanto à recuperação da crise

[dropcap]O[/dropcap] sector do turismo de Macau atravessa uma crise sem precedentes, mas é possível recuperar, diz Helena de Senna Fernandes. Porém, a directora dos Serviços do Turismo (DST) aponta a retoma para uma situação anterior à covid-19 só para 2023.

Em declarações ao Macau Fórum da TDM, Helena de Senna Fernandes indicou que de Janeiro a Maio entraram em Macau 3,25 milhões de visitantes, e chegou a registar-se um dia com menos de 200 movimentos fronteiriços. Esta contabilidade melhorou nos últimos dias, para cerca de 1000 entradas diárias, mas que mesmo assim se reflecte numa anémica ocupação hoteleira, de cerca de 10 por cento.

“É uma situação sem precedentes,” referiu a directora da DST, acrescentando que estamos a atravessar uma fase pior do que em 2003, o que representa um enorme desafio para o sector do turismo que, para Senna Fernandes, tem mostrado solidariedade.

Nesse contexto, a responsável realça a resposta do sector ao plano de apoio às agências de viagens através das excursões locais. Sobretudo as agências de maior dimensão, que mostraram vontade de terem à mesa empresas com menos volume de negócios. Além disso, também os guias se disponibilizaram para adaptar os métodos de trabalho para ir ao encontro do cliente local e do turismo de comunidade.

Senna Fernandes entende que a pandemia terá um outro efeito transformador na indústria do turismo a nível mundial, mais vocacionada para a redução de escala, aquilo que no trade se designa como travel bubble. A recuperação será parcial, virá de forma faseada e progressiva, incidindo em locais específicos e nas redondezas dos visitantes. A escala mundial da indústria do turismo só deverá voltar ao modelo anterior em 2023, no óptica da directora dos Serviços de Turismo. Até lá, o novo normal será a comunicação estreita entre as autoridades do turismo e os departamentos de saúde, em cooperação regional.

Excursões | Executivo quer criar itinerário “Hengqin-Macau” 

[dropcap]H[/dropcap]elena de Senna Fernandes, directora da Direcção dos Serviços de Turismo (DST), adiantou, em resposta a uma interpelação escrita da deputada Wong Kit Cheng, que está a ser planeada a criação do itinerário turístico “Excursão Hengqin-Macau”.

“Com base no plano de viagens locais, a DST irá colaborar com as três associações [Associação da Indústria Turística de Macau, Associação das Agências de Turismo de Macau e Associação das Agências de Viagens de Macau] para coordenar com as agências de viagens de Macau com o intuito de promover a ‘Excursão a Hengqin-Macau’, estendendo desta forma as actividades turísticas até à Ilha de Hengqin, e alargando a experiência turística dos residentes de Macau”, pode ler-se.

A responsável frisou que o planeamento deste percurso turístico foi adiado devido à pandemia e que “os pormenores serão divulgados logo após a confirmação do plano”, uma vez que “as ligações fronteiriças entre Macau e Zhuhai continuam a ser restritas”. Helena de Senna Fernandes disse ainda que, no futuro, “e na sequência do funcionamento do novo posto fronteiriço da Ilha de Henqgin, iremos incentivar os operadores turísticos a explorarem, mais os itinerários multi-destinos”.

Guangzhou | Lançado subsídio até 4,5 milhões para atrair startups de Macau

O município de Guangzhou subiu a parada em relação a 2019 e elevou para 4,5 milhões de yuan os subsídios para jovens empreendedores das regiões administrativas especiais. Para empresas já estabelecidas que queiram mudar para a capital de província, o incentivo é de 200 mil yuan

 

[dropcap]A[/dropcap] Grande Baía continua a tentar atrair empresas das regiões administrativas especiais. Nesse contexto, Guangzhou subiu a parada no incentivo à captura de jovens empreendedores, principalmente das áreas das novas tecnologias, em Macau e Hong Kong. De acordo com uma nota divulgada ontem pelo departamento de ciência e tecnologia do município de Guangzhou, os jovens empresários das duas regiões administrativas especiais vão ter à disposição 4,5 milhões de yuan de subsídio para fixarem negócios na capital de província.

Os apoios subiram em relação ao ano passado, em especial no número alargado de empresas apoiadas. Em 2019, o incentivo financeiro máximo era de 5 milhões de yuan para as três melhores propostas, com as restantes a receberem 1,75 milhões de yuan de apoios nacionais, provinciais e municipais.

As empresas de Macau que se fixem nos centros de incubação, inovação e empreendedorismo de Guangzhou vão beneficiar de isenção de renda para espaços de escritórios nos dois primeiros anos de actividade e 50 por cento de desconto no terceiro ano. Para estes casos, os apoios ascendem a 500 mil yuan.

Ao abrigo do Fundo de Desenvolvimento da Juventude os apoios são direccionados para três áreas: subsídios a startups, incentivo ao crescimento e apoios ao a projectos de investigação e desenvolvimento.

Escopo alargado

Em 2019, estes apoios foram direccionados para os ramos da inteligência artificial, biomedicina e cidades inteligentes, mas este ano deixaram de haver restrições de áreas específicas, algo que as autoridades de Guangzhou entendem como um incentivo à inovação.

O programa de apoios conta este ano com o financiamento adicional de fontes como o Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia de Macau, criado em 2004 por regulamento administrativo assinado por Edmund Ho.

De acordo com as autoridades de Guangzhou, as inscrições no programa foram simplificadas e a papelada exigida às empresas foi optimizada, tornando o processo mais flexível e inclusivo em comparação com anos anteriores.

Outra mudança nos requisitos deste ano, prende-se com o valor do capital mínimo das empresas detido por residentes de Macau e Hong Kong, que no ano passado era 50 por cento e que este ano passou para 30 por cento, para empresas já estabelecidas no mercado. Se a candidatura for aceite, estas companhias recebem 200 mil yuan.

PME | Apoios com juros ultrapassam quatro mil milhões de patacas

Já foram aprovados 80 por cento dos pedidos de pequenas e médias empresas para adesão ao Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários, lançado pelo Governo para reforçar a liquidez destas empresas. O valor é superior a 4 mil milhões de patacas

 

[dropcap]J[/dropcap]á foram dados mais de 4.259 milhões de patacas no âmbito do Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários para as Pequenas e Médias Empresas (PME), com o Governo a suportar uma despesa de cerca de 262 milhões de patacas com bonificação de juros. O objetivo é reforçar a liquidez das PME, comunicou a Direcção dos Serviços de Economia (DSE).

O programa lançado pelo Governo pretende ajudar as PME no combate à crise causada pela pandemia. Entre 17 de Março e 16 de Junho, houve 3.944 pedidos de adesão ao Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários para as Pequenas e Médias Empresas. Foram aprovados 3.272, o que representa 80 por cento do número total.

“As PME podem, de acordo com a situação dos seus negócios e a sua capacidade de reembolso, negociar com os bancos sobre o prazo de reembolso adequado e a taxa de juro de empréstimo adequada”, explica a nota. O organismo descreve que a adesão ao plano permite reduzir “quase totalmente” os juros a pagar pelas empresas beneficiárias, já que menos de um em cada 100 casos aprovados tem taxa de juro superior a quatro por cento, enquanto 34,1 por cento têm uma taxa de juro de empréstimo com uma taxa básica (prime rate) de 1,5 por cento.

Retalho mais beneficiado

Com base nas aprovações, o sector mais beneficiado foi o comércio a retalho (29,3 por cento), seguindo-se a construção civil e obras públicas (19,5 por cento), e a restauração (12,4 por cento). Os sectores com menor expressividade neste programa de apoio foram a educação e instituições médicas.

A DSE explica que foram indeferidos 17 pedidos, justificando que isso se deveu principalmente, “ao facto de as empresas não possuírem licença adequada para exercício das actividades ou não reunirem os requisitos para a sua candidatura”.

O prazo de candidatura ao plano termina a 17 de Setembro. Na prática, as PME que consigam um crédito bancário para combate à epidemia podem-se candidatar a um apoio, em que o limite máximo do crédito a bonificar é de dois milhões de patacas, com uma taxa até quatro por cento por um máximo de três anos.

Os principais requisitos de candidatura são a declaração do início de actividades feita junto da Direcção dos Serviços de Finanças antes de 16 de Março, um número máximo de 100 trabalhadores e no caso de o empresário ser pessoa singular, ser um residente de Macau.

Trabalho ilegal | Ella Lei quer sanções mais pesadas para empregadores

[dropcap]A[/dropcap]través de uma interpelação escrita, a deputada Ella Lei pediu ao Governo que reveja os regulamentos relacionados com o trabalho ilegal, nomeadamente se estão previstas sanções mais pesadas para empregadores que acolham trabalhadores não residentes (TNR) em situação ilegal.

Segundo a deputada ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), o montante reduzido das multas aplicadas às entidades empregadoras não contribui para demover a prática das ilegalidades. Em 2018, exemplifica Ella Lei, foram acusadas 397 entidades empregadoras por violação da lei de contratação de TNR ou do regulamento de trabalho ilegal, sendo que, em média, os empregadores foram multados em pouco mais de 11 mil patacas.

“A multa cobrada por empregador ou entidade empregadora foi, em média, de 11.486 patacas, sendo o valor desta pena inferior aos lucros avultados obtidos com a contratação ilegal e através da prestação de trabalho”, referiu a deputada.

Outro dos pontos avançados por Ella Lei está relacionado com a baixa eficácia das acções de combate ao trabalho ilegal levadas a cabo pela CPSP e pela DSAL. Isto porque das 4.521 investigações feitas em 2019, foram interceptados 795 trabalhadores ilegais.

Numa altura em que “o desemprego aumentou” e o trabalho ilegal afecta o já de si fragilizado ambiente económico, Ella Lei aponta ainda que, apesar de “a insuficiência da lei e a fraqueza das sanções” ser algo para o qual o Governo já está desperto desde Maio de 2019, até hoje, ainda “não teve uma resposta clara”, deixando a lei por aperfeiçoar.

Desta forma, apontando que entre 2012 e 2018 a taxa de punição para este tipo de casos foi inferior a 2,0 por cento, a deputada pergunta se o Governo vai fixar critérios claros relativos à questão.

“Qual é o progresso no processo de revisão e a orientação legislativa em relação ao aumento do valor máximo das multas, a introdução de regulamentos de reincidência e à introdução de circunstâncias agravantes?”, questionou Ella Lei.

TNR | Mudar de emprego implica sair de Macau e reiniciar processo

Se for aprovada, a proposta de alteração da lei da contratação de trabalhadores não residentes (TNR), vai obrigar, a quem mudar de empregador, a sair de Macau e reiniciar o processo para obtenção de um título de entrada

 

[dropcap]O[/dropcap]s trabalhadores não residentes (TNR) que pretendam mudar de trabalho em Macau vão ser obrigados a sair do território e a reiniciar o processo de obtenção do título de entrada para fins de trabalho. O esclarecimento foi feito ontem pelo presidente da 3ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL), Vong Hin Fai, após uma reunião onde foi assinado o parecer sobre a proposta de alteração à lei de contratação de TNR.

Desta forma, deixa de existir a possibilidade dos TNR aproveitarem os dias de permanência após terminada a relação laboral, para arranjarem um novo emprego.

“Se a relação laboral termina, o bluecard tem de ser devolvido à PSP. Senão, durante 10 dias quem é o empregador? No nosso entendimento, na mudança de empregador é preciso mudar também de bluecard porque depende do processo de título de entrada para fins de trabalho (…) e seguindo esta proposta de lei para obter o título de entrada a pessoa tem de vir do exterior, ou seja, pode entrar a partir Hong Kong ou Zhuhai”, explicou Vong Hin Fai.

O objectivo da proposta de lei que está pronta para ir a votos no plenário é evitar a entrada de turistas em Macau que tenham como finalidade procurar emprego.

“Para os não residentes que pretendem exercer trabalho não especializado e doméstico em Macau (…) o pressuposto é obter um título de entrada para fins de trabalho para obter o bluecard e ter uma autorização de permanência em Macau, a partir de local exterior à RAEM”, resumiu o presidente da 3ª Comissão da AL.

Vong Hin Fai esclareceu ainda que o facto de ter sido obtido um título de entrada “não quer dizer que os TNR quando entram na RAEM recebam automaticamente o bluecard”, mas sim que este é apenas “um dos requisitos para a obtenção do bluecard”. “Só depois de entrar na RAEM com um título de entrada é que é possível obter um bluecard, mas isto não é o único requisito”, rematou.

Limar arestas

Na reunião de ontem foram ainda prestados esclarecimentos quanto à data de início da relação laboral entre trabalhador e empregador, tema que levantou questões em sessões anteriores da Comissão, sobretudo porque a proposta de lei prevê que as despesas de repatriamento sejam da responsabilidade do empregador.

“A relação laboral começa no momento da emissão do título de entrada ou no momento em que o trabalhador entra na RAEM. É uma questão complexa. Segundo a resposta do Governo, quando o empregado obtém o título de entrada e no momento de entrada, a PSP emite uma autorização provisória de permanência. A partir deste momento vai começar a relação laboral e pode prestar serviços de forma legal para o seu empregador”, esclareceu Vong Hin Fai.

Segundo o parecer assinado ontem, esta “autorização provisória de permanência” é a uma medida que permite que os não residentes possam permanecer temporariamente em Macau na qualidade de TNR e possam prestar trabalho durante o período de espera do resultado final de apreciação do pedido em causa”.

Vong Hin Fai referiu ainda que esta proposta de lei é apenas “o primeiro passo” para se evitar que entrem turistas em Macau com a finalidade de procurar emprego. Isto porque é também preciso ter em conta “a proposta de lei sobre as agências de emprego e outros diplomas legais”.

TJB | Condenadas duas pessoas por violação de quarentena obrigatória 

[dropcap]O[/dropcap] Tribunal Judicial de Base (TJB) condenou duas pessoas por terem violado a quarentena obrigatória imposta pelas autoridades. Segundo os acórdãos das decisões, proferidas nos dias 12 e 16, um caso diz respeito a um estudante britânico em Macau que saiu do quarto onde realizava a sua quarentena a 23 de Março para se dirigir ao átrio do hotel.

“Mais tarde ele voltou para o seu quarto, mas nesse quarto passou 20 minutos com os seus amigos”, descreve o documento. Este arguido foi condenado pelo crime de violação de medidas preventivas com uma pena de dois meses de prisão, suspensa por um ano. Relativamente ao segundo arguido, este chegou a Macau vindo das Filipinas, tendo saído do território a 17 de Março pelas 15h15.

No dia 24 de Março, os agentes do Corpo de Polícia de Segurança Pública deslocaram-se à residência do arguido para a inspecção diária, tendo registado a saída. Neste caso, o TJB decidiu aplicar a pena de três meses de prisão efectiva. Desde Abril deste ano deram entrada no TJB um total de oito processos relacionados com a violação da quarentena obrigatória. Quanto aos restantes seis casos, aguardam julgamento.

Cinemateca Paixão | Empresa “desconhecida” vence concurso público e vai gerir espaço até 2023

A escolha da Companhia de Produção de Entretenimento e Cultura In Limitada como a proposta vencedora do concurso para a gestão da Cinemateca Paixão surpreendeu os cineastas locais ouvidos pelo HM. O IC prometeu explicações para amanhã, mas realizadores de Macau prepararam ontem uma carta para entregar ao Governo a questionar o resultado do concurso público

 

[dropcap]A[/dropcap] Companhia de Produção de Entretenimento e Cultura In Limitada vai gerir a Cinemateca Paixão até Agosto de 2023. A decisão foi anunciada ontem pelo Instituto Cultural (IC), que escolheu a proposta mais baixa das quatro admitidas no concurso público, com um valor de 15,4 milhões de patacas.

A escolha do IC acaba por ser surpreendente, uma vez que a actividade da empresa é desconhecida, assim como as pessoas responsáveis, entre os profissionais do sector. Este aspecto levou vários realizadores locais a admitirem intranquilidade por temerem que a qualidade da gestão e das actividades desenvolvidas na Cinemateca Paixão seja afectada.

Outro facto que causa preocupação é o orçamento apresentado pela empresa “desconhecida”. O valor da proposta é de 15,4 milhões de patacas, montante quase 20 milhões inferior ao apresentado pela Cut Limitada, a empresa que geriu até ao final do ano passado a Cinemateca Paixão e que tinha uma proposta de 34,8 milhões de patacas.

Por estes motivos, um grupo de profissionais do sector do cinema está a preparar uma carta a pedir explicações ao IC. A iniciativa foi revelada ao HM pela realizadora Peeko Wong, autora do filme “Gin, Sake and Margarita”.

“Estamos muito desiludidos porque não sabemos nada sobre esta empresa. Mas, sabemos que os últimos três anos foram muito bons, com óptima programação e relacionamento próximo com os realizadores locais e outros artistas”, afirmou Peeko Wong. “Vamos perguntar ao Instituto Cultural como chegou a esta decisão. Só conhecemos o nome da empresa, não conhecemos mais nada, nem o background, nem quem são os responsáveis. Por isso, queremos que o Governo nos esclareça sobre os motivos”, revelou.

Em declarações ao HM, Peeko Wong falou ainda de um apoio generalizado do sector ao documento e, apesar de reconhecer as dificuldades, não afastou o cenário de serem reunidas mais de 100 assinaturas. Ao mesmo tempo, vai ser realizado um vídeo com os melhores momentos da actividade desenvolvida pela Associação Audiovisual Cut, enquanto entidade gestora da Cinemateca nos últimos 3 anos e meio.


Questão de preço

Também Tracy Choi, realizadora de “Sisterhood”, admitiu alguma surpresa com o desfecho do concurso público lançado pelo IC. “Fiquei um pouco surpreendida com a escolha. Mas, logo na altura, depois de serem entregues as propostas, vi os valores das concorrentes e percebei que [a empresa vencedora] tinha um valor muito mais baixo que a entidade que estava a gerir… fiquei logo com o feeling que seriam os vencedores. Só pelo preço”, comentou.

De acordo com a visão de Choi, a Cinemateca Paixão tinha conseguido afirmar-se como uma instituição não só para os realizadores locais, mas também para a população. Por isso, elogiou o trabalho da Cut e revelou temer pelas actividades futuras, devido ao preço da proposta vencedora.

“O preço da proposta é uma preocupação, até porque ainda estou para tentar perceber quem é a companhia e quem são os responsáveis. Serão pessoas com experiência no cinema? Eu não sei, por isso não tenho uma opinião firmada sobre se têm capacidade para gerir o espaço com a qualidade da Cut”, confessou. “Mas quando olho para o orçamento ficou preocupada. Não sei se vai ser possível manter a qualidade anterior…”, desabafou.

Nos critérios anunciados no caderno de encargos, o preço da proposta valia 40 por cento, assim como o “grau de perfeição” das propostas para os três anos, e mais particularmente para o programa do primeiro ano. Além destes critérios que valem 80 por cento, a experiência dos concorrentes e da pessoa proposta para director de operações valia 14 por cento e a experiência do “consultor” seis por cento.

Empresa familiar

Além da empresa vencedora ser desconhecida, a mesma promoveu alterações ao registo comercial no passado dia 8 de Junho, o que impede que os dados possam ser consultados durante 15 dias. O HM questionou o IC sobre se estava ao corrente das alterações realizadas e o conteúdo das mesmas, mas não obteve resposta. Ao invés, o Governo prometeu dar as explicações amanhã, em conferência de imprensa.

O HM sabe que as concorrentes foram informadas sobre o resultado do concurso antes do anúncio público, mas não conseguiu apurar se as alterações promovidas ao registo foram realizadas antes desta ter sido informada dos resultados do concurso.

Segundo o registo comercial consultado a 1 de Junho de 2019, ainda antes das alterações e do lançamento do concurso, que só aconteceu em Janeiro deste ano, a Companhia de Produção de Entretenimento e Cultura In Limitada tinha dois accionistas, um homem com o nome Ieong Chan Veng, proprietário de 80 por cento da empresa, e uma senhora com o nome Tung Wing Ha, proprietária de 20 por cento.

Porém, a Companhia de Produção de Entretenimento e Cultura In Limitada foi criada em 2015, sendo que na altura tinha como accionistas Ieong Chan Veng e a esposa, Ho Sio Chan. Foi só em 2016, que Ho vendeu a sua participação a Tung.

Segundo o portal All About Macau, a Companhia de Produção de Entretenimento e Cultura In Limitada foi uma das participantes no concurso público de atribuição da concessão da loja de souvenires da Casa do Mandarim. Acabou ser excluída do concurso por não pagar a caução exigida. Além disso, terá também estado presente, sem sucesso, em concursos públicos promovidos pelos Serviços de Turismo para fazer filmes promocionais sobre a RAEM.

Chegaram mesmo a circular rumores nas redes sociais a ligar a empresa vencedora ao grupo SunCity e ao proprietário Alvin Chau. O HM tentou perceber se este cenário corresponde à realidade e contactou a empresa promotora do jogo, mas até ao fecho da edição não recebeu resposta. Importa recordar que o grupo SunCity é o principal patrocinador do Festival Internacional de Cinema realizado em Macau.

Desilusão apaixonada

Com a decisão anunciada ontem, a Cut Limitada fica afastada do espaço que geriu três anos e meio. Ao HM, Rita Wong, que foi a responsável pelo programa da Cinemateca, mostrou-se desiludida. “Estamos desapontados com a decisão. Durante mais de três anos e meio ficámos felizes com o que tínhamos conseguido alcançar com a Cinemateca Paixão, foi mais do que tinha sido planeado. E acho que o bom resultado ficou provado com o facto de o projecto se ter tornado tão popular junto do sector e da população”, reconheceu.

Rita Wong afastou ainda o cenário de haver recurso aos tribunais para contestar a decisão, e deixou os melhores desejos para o futuro da Cinemateca Paixão: “Resta-nos esperar que corra tudo bem com a gestão da Cinemateca, porque pessoalmente vou continuar a frequentar o espaço”, indicou.

Por outro lado, negou haver o sentimento de injustiça. “Não posso dizer que foi injusto, porque sabíamos as regras e o Governo usou os critérios do caderno de encargos. Tentámos fazer mais do que estava nos encargos, mas a decisão acabou por ser por outra proposta”, constatou.

Em relação à diferença de quase 20 milhões de patacas entre as duas propostas, Rita Wong insistiu que, segundo o projecto da Cut, a Cinemateca Paixão não se limitaria a mostrar filmes. “É difícil explicarmos uma diferença de orçamento como esta. Mas, o nosso valor foi apresentado com base na experiência de três anos e meio e não nos limitámos a cumprir os serviços mínimos”, explicou. “A nossa proposta tinha workshops e outras actividades de formação e educação sobre o cinema, para formar talentos locais. Não nos limitámos a passar filmes. Também organizávamos entre nove e 10 festivais temáticos de cinema por ano…”, acrescentou.

Projecto mal-amado

No final do ano passado, o IC, liderado por Mok Ian Ian, preparou tudo para encerrar de forma definitiva a Cinemateca Paixão. Os trabalhadores foram mesmo informados que seriam dispensados, uma vez que o contrato com a Cut não seria renovado.

Em causa estariam problemas relacionadas com o contrato de arrendamento do espaço na Travessa da Paixão. Quando a recém-empossada secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong U, se deslocou ao local confirmou a necessidade de proceder a obras no edifício.

No entanto, a forte reacção no sector cultural, que encara a Cinemateca Paixão como um espaço de acesso ao cinema local e alternativo, levou o Governo a voltar atrás. Assim sendo, entre Janeiro e Agosto, a gestão do espaço foi assumida pelo IC, enquanto decorria o concurso público de atribuição da nova concessão.

Mais de mil voos cancelados nos aeroportos de Pequim devido à pandemia

[dropcap]O[/dropcap]s dois aeroportos de Pequim cancelaram hoje, no conjunto, mais de mil ligações aéreas, depois de a capital chinesa ter somado 137 casos, nos últimos cinco dias, noticiou a imprensa estatal. Segundo o jornal oficial em língua inglesa China Daily, um total de 1.255 voos de e para os aeroportos de Pequim foram anulados.

Na terça-feira, Pequim instou os seus 21 milhões de habitantes a evitar viagens “não essenciais” para fora da cidade e ordenou o encerramento das escolas de ensino básico, médio e superior. Várias cidades e províncias passaram a impor quarentena a viajantes oriundos da capital chinesa.

A descoberta, nos últimos cinco dias, de mais de cem pacientes ligados a um mercado da cidade, foi um choque para Pequim, que há quase dois meses não diagnosticava um caso.

O surto foi detectado no principal mercado abastecedor da capital chinesa. Na últimas 24 horas, a China diagnosticou 44 novos casos da covid-19, incluindo 31 em Pequim. De acordo com os dados oficiais, desde o início da pandemia, a China registou 83.265 infetados e 4.634 mortos, devido à covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 438 mil mortos e infectou mais de oito milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Governo impõe quarentena obrigatória para quem chegue de Pequim

Apesar de ter decretado a quarentena obrigatória para todas as pessoas que venham a Macau depois de terem estado na capital chinesa, o Governo está confiante de que os números não serão significativos, uma vez que não há praticamente voos directos a operar. É também esperada a cooperação com Zhuhai para um maior controlo da situação

 

[dropcap]D[/dropcap]esde o meio-dia de ontem que todas as pessoas que tenham estado em Pequim nos 14 dias anteriores à sua chegada a Macau são obrigadas a cumprir uma quarentena de 14 dias. A medida, implementada pelo Governo de Macau surge, assim, como reacção ao novo surto de covid-19 na capital chinesa, onde foram detectados 137 novos casos nos últimos cinco dias.

“A partir das 12:00 horas do dia 17 de Junho, todos os indivíduos que nos últimos 14 dias anteriores à entrada em Macau tenham estado em Pequim, serão sujeitos a uma observação médica por um período de 14 dias”, indicou o Governo, em comunicado. “Os infractores podem estar sujeitos à medida de isolamento obrigatório, além da eventual responsabilidade criminal”, sublinharam as autoridades.

Apesar disso, Leong Iek Hou, coordenadora do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, assegurou que não se prevê a vinda de muitas pessoas para Macau.
“Não temos tido muitos voos de Pequim para Macau e não temos muitas pessoas em Pequim. Além disso, estamos a implementar várias medidas nas fronteiras para controlar e prevenir a contaminação na sociedade”, apontou.

O responsável do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) presente na conferência de imprensa de ontem não soube adiantar quantas pessoas chegaram a Macau vindas de Pequim nos últimos dias. “Temos uma comunicação estreita com os Serviços de Saúde e estamos a acompanhar a situação real. Quando for necessário faremos o rastreio, especialmente para as pessoas que vêm de Pequim que devem apresentar os documentos comprovativos”, explicou.

O agente do CPSP garantiu ainda que a comunicação com as autoridades de Zhuhai se mantém.
“Para os indivíduos que chegam a Zhuhai oriundos de Pequim as autoridades de Zhuhai têm medidas adequadas para controlar melhor o fluxo de pessoas, pelo que se pode garantir a saúde da população”, frisou.

Residentes querem voltar

Confrontado com a possibilidade de virem a ser cancelados os vistos individuais de viagem para cidadãos de Pequim, Alvis Lo, médico adjunto da direcção do Centro Hospitalar Conde de São Januário, frisou que eventuais novas medidas serão tomadas passo a passo.
“Todas as medidas têm os seus passos concretos. Temos várias medidas novas que vão ser implementadas de forma gradual e ordenada. Com os novos casos em Pequim alguns residentes de Macau querem voltar, mas não podemos baixar a guarda”, adiantou.
Ontem foram cancelados cerca de 1000 voos nos aeroportos da capital chonesa. Na terça-feira, Pequim instou os seus 21 milhões de habitantes a evitar viagens “não essenciais” para fora da cidade e ordenou o encerramento das escolas de ensino básico, médio e superior. Várias cidades e províncias passaram a impor quarentena a viajantes oriundos da capital chinesa.

Quase 100 pessoas entradas

Primeiro chegaram 48 pessoas durante o dia, depois mais 42 pessoas à noite. Eis os números relativos ao primeiro dia do funcionamento do corredor especial entre o aeroporto internacional de Hong Kong e Macau. As viagens são feitas de ferry com destino ao terminal marítimo da Taipa. A base de dados da Direcção dos Serviços do Ensino Superior possuía, até ontem, um total de 877 pessoas inscritas para o regresso ao território através do corredor especial.

Três mil inscrições

Inês Chan, responsável pela Direcção dos Serviços de Turismo, adiantou ontem que um total de 3.135 pessoas se inscreveram no plano de roteiros turísticos locais, intitulado “Vamos! Macau!”. Cerca de 40 por cento inscreveu-se no plano de viagens para a comunidade onde a maioria das escolhas recaiu no roteiro B, que teve 400 inscrições.

Pansexualidade não é uma moda

[dropcap]E[/dropcap]ste é o mês do orgulho de tudo aquilo que não é heterossexual. A heteronormatividade está demasiado presente no nosso dia-a-dia. As outras formas de sexualidade continuam escondidas, pouco discutidas, pouco visíveis. A supermodelo Cara Delevingne mostrou recentemente o seu orgulho pansexual numa daquelas revistas que até deve reforçar os sistemas binários e heterossexuais até ao tutano. Ainda bem que o mostrou lá. Não se pode continuar a dividir os espaços. É preciso tornar todos os espaços mais diversos e ricos em auto-definições dos confortos sexuais que existem – que são tantos e múltiplos, mas que ainda são vistos de forma limitada. Outros artistas e figuras públicas já se assumiram como pansexuais, a Janelle Monáe e a Miley Cyrus, são exemplos. Afirmaram-se no mundo binário que gosta de delimitar identidades, vivências e preferências. Um mundo que insiste que existe um “normal” e o resto. E a pansexualidade parece estar agora na boca do mundo.

Pansexual é já um conceito antigo, em tempos denominou uma condição de disfunção, mas agora libertou-se das tontices que sempre amarraram o sexo e o género. Pansexualidade faz parte da conceito guarda-chuva queer e é bastante semelhante à bissexualidade, mas com diferenças. A etimologia da palavra ‘pan’, significa ‘tudo’. Enquanto que a bissexualidade refere-se à forma como se sente atracção sexual e romântica por mais do que um género (que normalmente fica-se pelo feminino e masculino), o pansexual não define o seu interesse romântico e sexual por géneros, isto é, interessa-se por todas as formas de expressão sexual e de género – homens, mulheres, não-binários e além. Assim alinha-se com a ideia de que o sexo de supostos pénis e vaginas não é limitado, nem binário. O género é fluido e múltiplo, tal como a sexualidade pode ser.

Só que a discussão da pansexualidade entre as celebridades, não deve ser confundida com uma moda, da mesma forma como o lilás domina as cores da estação. Falará assim quem acredita na efemeridade de certas ideias, na sazonalidade das ideias, em detrimento de outras. Nunca ninguém julgou a heterossexualidade uma moda. Esta protege-se com a visão conservadora da biologia, da religião, e até da medicina. Poder ver e experienciar a fluidez do sexo e do género implica querer pôr em causa as caixas definidoras da sexualidade humana. Esta fluidez resulta do reconhecimento que o mundo não é imutável, estático ou incontestável. Não existem formas melhores do que outras de viver a sexualidade. A pansexualidade permite abraçar a diversidade, a quem lhe fizer sentido.

A desvalorização diária que tira a legitimidade de se amar ou sentir tesão por quem se quer, não é uma moda, é um facto social demasiado comum. A afirmação categórica da pansexualidade, como outras categorias orientadoras, é um caminho para desconstruir o binarismo que ainda assola o mundo. A sexualidade da libertação deveria oferecer a oportunidade de estar em contacto com o desejo e a intimidade. Estes poderiam manter-se no conforto da casa, mas também precisam de viver na boca do mundo, e nas capas de revista. Há quem acredita que a intimidade deve ser de algum modo secreta, entre quatro paredes. Mas a discussão continua a ser imperativa. Até se normalizar a diversidade sexual, de género e de orientação, interessa, sim, de quem se gosta e como – no mês do orgulho LGBTQI, e sempre.

Automobilismo | Badaraco vai tentar recuperar a Taça de Carros de Turismo de Macau

O vencedor da Taça de Carros de Turismo de Macau em 2017, na classe para viaturas com motores 1600cc turbo, Jerónimo Badaraco, vai tentar repetir o feito no próximo mês de Novembro. O experiente piloto macaense estava a contar participar nesta mesma corrida do programa do Grande Prémio de Macau em 2020, no entanto, o plano inicial, antes da pandemia da Covid-19, contemplava que alinhasse na categoria 1950cc ou Superior

 

[dropcap]“A[/dropcap]ntes da organização decidir que não havia qualificação este ano, era para correr na categoria 1950cc ou Superior. Mas como agora não vamos ter qualificação, a minha equipa, a Song Veng Macau Racing Team, decidiu continuar na classe 1.6T com o Chevrolet Cruze, o mesmo carro com que venci no ano de 2017”, explicou o “Nóni” ao HM.

Badaraco quer esquecer a prova do ano passado no Circuito da Guia, onde problemas técnicos no carro o afastaram de um possível lugar no pódio. Isto, após ter conseguido um promissor quinto lugar da geral na grelha de partida, sendo o terceiro mais rápidos dos concorrentes da categoria 1.6T. Em 2019, a corrida que junta dois tipos de regulamentos técnicos diferentes, algo que não é do agrado da generalidade dos pilotos, teve pela primeira vez como vencedor à geral um carro da categoria 1.6T – o Peugeot RCZ de Paul Poon.

“O ano passado se não tivesse um problema na caixa de velocidade nos treinos e depois um problema no motor na corrida, também teria conseguido chegar ao pódio. Por isso, acho que a minha equipa tomou uma boa decisão em manter-me na classe de 1.6T. Espero que este ano consigamos ter mais tempo para preparar melhor o carro e vamos ver se conseguimos conquistar mais um pódio”, afirma Badaraco que tem no seu currículo passagens pelo mundial (WTCC) e asiático (ATCC) de carros de Turismo.

Missão possível

Nos últimos anos, os Chevrolet Cruze da Song Veng Macau Racing Team provaram ser máquinas capazes de ombrear com os super-favoritos Peugeot RCZ da Suncity Racing Team, preparados pela equipa de Hong Kong Teamwork Motorsport. Esta luta prolongar-se-á, pelo menos, por mais dois anos, altura em que se espera que estes carros saiam de circulação.

“Tudo pode acontecer na pista, especialmente no Circuito da Guia”, realça o piloto de território que foi o último vencedor da Taça ACP (Automóvel Club de Portugal) em 1999. “Estamos confiantes, porque no ano 2017 vencemos os Peugeot da Suncity Racing Team. Isto quer dizer que nós somos capazes de os superar! Mas claro, nada é fácil, especialmente porque eles têm uma equipa boa e bons carros. Mesmo assim vamos lutar pela vitória”.

Antes da corrida mais importante de uma temporada que vai arrancar muito mais tarde que o previsto, Badaraco espera ainda colocar alguns quilómetros de treinos no seu carro, no entanto, por agora ainda não tem em mãos um plano concreto. “Como, por agora, não sabemos quando é que vai reabrir a fronteira, ainda não temos planos, mas de certeza que vou testar o carro quando pudermos passar a fronteira”.

A 67ª edição do Grande Prémio de Macau está agendado de 19 a 22 de Novembro, mas o programa de provas ainda não foi revelado.

Portanto

Santa Bárbara, Lisboa, terça, 19 Maio

 

[dropcap]M[/dropcap]al-entendido que talvez desse verso acaba engordando a croniqueta. O carteiro, que me traça o perfil da realidade ao coser em correria geométrica as margens de rua que vislumbro, de calções e ar tresloucado mesmo à chuva, achou que não estava ninguém em casa e levou de volta a pequena encomenda registada. O tangível achou que eu era casa, talvez mobília, talvez muro. Entre mim e as paredes já nem a voz nem as palavras. O envelope resgatado na estação parecia vir do passado, no seu couché agrafado, formato regular e temática futurista. «Orion é um fanzine de sci-fi e fantasia com uma versão electrónica (web) e uma impressa (apenas para os colaboradores)». Assim se apresenta o projecto do Renato [Abreu] que insiste em fórmula imorredoura, alguém que diz por palavras ou imagens e teima em partilhá-lo. E dizem das confusões dos tempos, de muitos modos, para para afirmar o inevitável fim: darkness, nightmare, fim. Ainda antes da pandemia, o futuro estava bastante passado. Portanto, catastrófico.

Santa Bárbara, Lisboa, quarta, 3 Junho

Mais alegria em formato de encomenda, daquelas pueris. É livro! Mas teve que dobrar a espinha para entrar na caixa do correio, nada a fazer, que o carteiro lá vai de calções furta-cor. Chega-me «Selva!!!» (ed. Umbra), a experiência na qual o Filipe [Abranches] se perde a reconstruir cada objecto de que é feita a aventura para a geração dos 50 anos: os airfix, o exotismo dos lugares de combate, os aviões, os vilões, os espiões, as armas em detalhe, o companheirismo viril de quem enfrenta a morte no papel, as frases e as expressões das línguas amigáveis e inimigas, a letra a fingir-se manuscrita e atirada para diante, a amizade manifesta, as recordações pessoalíssimas, a família desfeita em cenário, a traição, os movimentos com o corpo para evitar as balas, as paisagens de atiçar realizações, os dedos a fazer enquadramentos que gritam acção. O pano de fundo acaba sendo a melancolia. Ainda uma vez, os tempos mesclam-se, os bonecos viram homens, as paisagens agitam-se para permitir o regresso algo doloroso àquele passado do tudo possível e mais além. Não há cor, mas trama e traço, reconstituição ágil do nevoeiro húmido da memória. Onde, portanto, se torna fácil, tão fácil, sumirmo-nos.

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 8 Junho

Estou em plena ressaca da Torpor, que me fez mesmo interromper por várias vezes este diálogo comigo mesmo, tão útil para mim quão indiferente para os restantes. A revista impôs-se de tal maneira que eclipsou o real: o novo site da abysmo continua atrasado, sem conseguir escoar velhos e novos títulos, não fomos capazes de aproveitar os fluxos para recolher contactos e estreitar relações. Portanto, tudo na mesma, na perspectiva prática, agravado pelo adiamento do mergulho nas contas e nas avaliações antes de ensaiar a planificação dos dias que se adivinham. Um dia de cada vez, oiço a cada hora o mantra enervante do Zen Povinho. No editorial da versão em pdf (https://torpor.abysmo.pt/wp-content/uploads/2020/06/Torpor_edicao0_web.pdf), mais revista que a antologia do online, que já ultrapassou por esta altura o milhar de descarregamentos, evoquei Roland Topor, por causa do erro de simpatia que faz com que o seu nome se confunda com o da revista, mas não apenas. O seu labor artístico tem tudo a ver com a forma de estar de quem se quer lúcido, e espelha como poucas estes confusos dias. (Sem ser preciso lembrar que foi co-arguentista do filme, realizado por Peter Fleischmann, «O Síndroma de Hamburgo», em torno de uma pandemia que acaba em ditadura). Atente-se na figura cujo corpo se fez noite com lua e tudo, e que caminha perigosamente perto de falha com o rosto voltado para quarto crescente. Santo padroeiro, portanto.

A revista vai continuar, por isto e por aquilo, pela urgência de novos temas. No regresso a alguns textos e outros trabalhos, que reverberam. A cumprir o que se anunciava no bloco C da edição zero. «Não será um loop, nem rodopio de entontecer até à queda livre, mas aqui chegados podemos recomeçar. Este em suma ressoa a um vamos lá. De novo a casa e a cidade, as paisagens, interiores e de horizonte, o desejo e o rosto, o ensaio improvável e o desenho concreto, seres que voam e outras matérias voláteis, pensamento a propósito e fotografia da raiva, revisitação dos clássicos e interpretação dos contemporâneos, sítios que parecem nenhures, documentário e delírio. Sobre o magma incandescente e em movimento, passa em corda esticada, o funâmbulo. Sem perder o equilíbrio, nem por sombras cedendo às pressas, levando a sombra por companhia na linha estreita que faz ponte entre isto e aquilo, que estabelece nexos. A linguagem é um vírus, por vezes amigável. Investigue-se, isso e os numerosos nomes para acabamento e finitude. A morte e o medo são vizinhos e da família, à vez. Parceiros de dança, também. Vá de esculpir-lhes rostos, corpos.

Torná-los ainda mais próximos. Dão assim para desmontar, dizem os artistas, para ver por dentro. Não se descobre logo como funcionam, que o coração continua enigma, mas recolhemos as peças e logo se verá. Eis, afinal, o labor labuta do equilibrista que é o leitor, de um lado para o outro, em busca das peças ponham o sentido a mexer. Vai de roda!»

Santa Bárbara, Lisboa, segunda, 9 Junho

Circula desde ontem a notícia venenosa do «apoio» governamental face à crise: insultuoso. Contas feitas, será para aí 1/5 do prometido, que era nada. Vai sair-nos, portanto, caro este alinhamento com ideia de que a (suposta) ajuda da Ajuda mudará alguma coisa, que o Estado fez o que lhe era exigido. Não o devolvo por cansaço. O facto da (des)dita ser a troco de livros para os leitorados de português, no que deveria ser prática rotineira de compra na vez de cravanço, talvez possa constituir sementeira de alguma coisa. Pudera eu acreditar nisso.

Santa Bárbara, Lisboa, domingo, 14 Junho

Um pára-raios não os atrai, limita-se a recebê-los se acontecerem por perto. «A visagem do cronista» foi o mais pantanoso cabo dos trabalhos, causando dores em várias partes editoriais, da barriga ao coração, dos pés à cabeça. Aos atrasos aceitáveis em obra gigantesca, acolhendo centenas de nomes, de Almeida Garrett a João Pereira Coutinho, somaram-se, da burocracia à má-vontade, do azar fortuito à desgraça completa, as mais variadas ocorrências que desembocaram agora nesta: no exacto momento em que as 900 páginas dos dois volumes chegam da gráfica acontece a quarentena; no preciso instante em que o diário se torna o género de eleição este percurso por mais de dois séculos de crónica autobiográfica fica preso nos armazéns.

Deve a culpa ser assacada ao editor, que ganha agora a missão de, mais do que desconfinar, libertar prisioneiro que não merecia tal pena. Nem ele, nem a Carina Infante do Carmo, que através de exemplar trabalho de recolha, fixação e enquadramento, desenha panorama que diz muito da riqueza dos olhares, da escrita, da imprensa. Da de antanho, que a de hoje irá ignorar, como de costume – nem que fosse para discutir a escolha, que tem tanto de conservador como de surpreendente. Voltaremos ao assunto, hipnotizados pelo efeito combinado das duas magníficas capas (algures nesta página) do Bruno [Mantraste], na qual o manuscrito da palavra «cronista» contrasta com a pose monumental de mão que sustenta a cabeça e outra que ergue uma caneta. Usando-a, portanto, que nem pára-raios.

Dores de parto

[dropcap]O[/dropcap]lhem, amigos: pode parecer truque velho de escriba e muitas vezes é. Quantas vezes foram escritos textos insípidos sobre a dificuldade de escrever servindo de desculpa para preguiça ou falta de arte. É muito provável que este que estejam a ler seja apenas mais um. Mas para benefício da minha auto-estima e até porque a vida está muito difícil peço-vos o favor de me mentirem mesmo que esse seja o vosso julgamento. Não faz mal, a sério. Não seria nem a primeira nem a última vez e toda a gente ficaria contente.

Mas a verdade é esta: a agrafia é flagelo que aflige os melhores e os piores, como eu. A coisa está registada e, de uma forma ou de outra, quem tem por ofício escrever regularmente alguma coisa que interesse o leitor pode cair nessa armadilha recorrente. As razões podem ser muitas: a musa que não aparece, a vidinha que se mete pelo meio e sim, até mesmo o próprio nojo da escrita, do acto de escrever. Isto dá trabalho e o mito clássico do daemon que entra pela alma dentro e sai em frases ordenadas e obedientes às convenções sintáticas e gramaticais não passa disso: um mito. Génio, existe; mas é preciso burilá-lo e percebê-lo. O famoso aforismo de Dorothy Parker sobre esta actividade continua a valer: “Detesto escrever, adoro ter escrito”. Entre o início e o final da oração existem vários mundos e desertos que é necessário atravessar com maior ou menor facilidade. Parece-me que o mesmo se aplica a todo o processo criativo mas por agora e aqui fiquemo-nos pelas palavras. Sobretudo as nado-mortas, uma população enorme de fantasmas descartáveis que assombram qualquer texto que se preze.

De nada nos vale nestas alturas – nós, os que escrevemos a partir dos dias e do que é próximo e pequeno – soltar o vampiro benigno que nos habita: sugar as conversas, os olhares, as maneiras. Quando nos sentamos para tentar transformar o que vimos e ouvimos existe sempre um obstáculo. Para variar consultei os grandes campeões desta modalidade que modestamente pratico e fiquei surpreendido com a quantidade de textos sobre o assunto. Tudo parece existir para atrapalhar: a rua, a mulher, o marido, as crianças, o barulho da máquina de escrever (de uma crónica dos anos 50…), o piano demasiado alto do vizinho. Dos que vi só Clarice Lispector proclamava a dádiva de um impulso para escrever, o “impulso puro – mesmo sem tema”. Enfim, era Clarice.

Então como explicar? Nos grandes, a aparente falta de assunto é uma ilusão de impotência, destinada a seduzir o leitor e depois arrebatá-lo com um texto de antologia. Mas eu estou longe de ser grande e esta crónica, descubro, não é um exercício de estilo mas uma confissão.

Explico: há muito para escrever. Assunto não falta. E um desses grandes que admiro, Paulo Mendes Campos, punha a sua mesa de trabalho perto de uma janela sempre que ia escrever porque, dizia ele, “a janela faz parte do equipamento profissional do escritor”. E assim consegui compreender e apaziguar esta sensação de aridez, amigos: é que não gosto nada mas mesmo nada do que estou a ver da minha janela. E nessas alturas o silêncio pode dizer mais.

Hong Kong | Confiança nas notícias caiu graças aos protestos de 2019 

A mais recente edição do Reuters Digital News Report dá conta de uma queda de 16 por cento na confiança que a população de Hong Kong deposita nas notícias, números que se devem em grande parte aos protestos sobre a lei da extradição. Os telejornais e a rádio continuam a dominar em termos de procura de informação, com destaque para o crescimento do portal informativo Stand News

 

[dropcap]A[/dropcap] população de Hong Kong confia hoje menos nas notícias do que em 2018, e a culpa deve-se, em parte, à complicada situação política que se vive no território. Dados do relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism, ontem divulgado, mostram que a confiança nas notícias teve uma quebra de 16 por cento, com 30 por cento dos inquiridos a afirmar que confia nas notícias que lê, vê ou ouve.

“Os protestos que se prolongaram durante meses contra a proposta de lei da extradição parecem ter influenciado a confiança em geral (menos 16 por cento), tal como a confiança em títulos individuais”, lê-se no relatório. “Os canais de televisão e as estações de rádio continuaram a ser os mais confiáveis, mas o portal online Stand News obteve uma atenção significativa e aprovação pela sua cobertura. No início de 2019 estava em penúltimo lugar em termos de confiança, mas um ano depois passou para o sexto lugar”, acrescenta o documento.

Olhando para a confiança por órgão de comunicação, o canal Now TV News lidera com 67 por cento da confiança dos inquiridos, enquanto que em segundo lugar surge o canal de televisão estatal RTHK, com 63 por cento. Em terceiro surge o I-cable News com 61 por cento. O jornal Apple Daily, fundado por Jimmy Lai, tem uma confiança de 48 por cento. No último lugar surge o Bastille Post, com apenas 39 por cento da confiança dos inquiridos. Durante a semana, o canal TVB News é o mais visto, com 39 por cento dos inquiridos.

Mais a pagar

Apesar de a confiança da população nas notícias ter diminuído, isso não significa que as plataformas de informação online tenham registado uma crise. Bem pelo contrário: mais 12 por cento dos inquiridos diz consumir informação paga online, num total de 29 por cento das pessoas entrevistadas.

Relativamente às redes sociais, destaque para o Facebook, que foi consultado por 58 por cento dos entrevistados para fins informativos, mais seis por cento face a 2018, e usado por 79 por cento das pessoas para questões gerais. Em segundo lugar surge a plataforma de mensagens WhatsApp com um uso de 50 por cento para a consulta de notícias, mais nove por cento face ao ano anterior.

“Uma série de protestos nas ruas contra a proposta de lei de extradição apresentada pelo Governo capturou a atenção dos media, com um crescimento nas plataformas online em geral e no uso das redes sociais em particular. O serviço de mensagens encriptadas do WhatsApp teve um uso para questões gerais de 84 por cento e de 50 por cento para as notícias. O uso do YouTube e do Instagram para as notícias também teve um aumento”, aponta o relatório.

O Reuters Digital News Report 2020 é o nono relatório anual do Reuters Institute for the Study of Journalism. A pesquisa foi levada a cabo em 40 países, o tamanho total da amostra foi de mais de 80 mil adultos, cerca de 2.000 por país, tendo o trabalho de campo sido realizado entre Janeiro e Fevereiro deste ano.

Exposição / 10 de Junho | Monocromático de António Mil-Homens na Casa Garden

[dropcap]D[/dropcap]o nada se fez tudo. Este pode ser o mote de António Mil-Homens, fotógrafo há décadas radicado em Macau a quem a crise causada pela pandemia da covid-19 trouxe o enorme desafio de conseguir sobreviver sem trabalho. Tendo realizado apenas dois trabalhos desde Janeiro, António Mil-Homens decidiu pegar nas telas de pequena dimensão que tinha em casa, adquiridas há vários anos, e dar-lhes vida.

Assim surgiram os trabalhos que dão agora corpo à exposição “Monochrome”, uma mostra que integra a celebração do 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, e que pode ser visitada pelo público a partir desta quinta-feira, 18, na Casa Garden.

Nesta exposição não há cor. O preto e o branco assumem-se como protagonistas principais por vontade expressa do fotógrafo agora tornado pintor. Os quadros podem inserir-se numa corrente abstraccionista que vai buscar inspiração às imagens captadas, mas a decisão do uso de tons exclusivamente monocromáticos surgiu de forma espontânea.

“Gosto muito da fotografia a preto e branco, mas em termos de pintura as coisas começaram a surgir assim e conclui que se calhar em termos de opção, quer queiramos quer não, são as opções iniciais, no sentido de estabelecer um tipo de trabalhos, que determinam a diferença”, contou Mil-Homens ao HM.

“Esta é a minha primeira exposição, mas a pintura é para continuar como forma de expressão artística, e sinto que vai ser com cada vez mais força. Portanto é uma opção estética”, frisou.

Uma vez que a pandemia da covid-19 obrigou as entidades que organizam as celebrações do 10 de Junho a virarem-se para os talentos de Macau, foi o próprio António Mil-Homens que falou, não só com Paulo Cunha Alves, cônsul-geral de Portugal em Macau, mas com outras pessoas no intuito de mostrar o seu trabalho ao público. Se não fosse através das celebrações oficiais do 10 de Junho, seria de outra forma, garante.

Nada é por acaso

Pintar surgiu como um instinto para António Mil-Homens, que assume não ter qualquer formação na área. “Esta é das tais coisas que são difíceis de explicar. São coisas que estão cá dentro que, quando saem, saem com esta força toda. De tal maneira que me levou a achar, e as pessoas a quem tenho mostrado os trabalhos concordam comigo, que valia a pena mostrar.”

Expor com “Monochrome” é também uma oportunidade para o autor garantir algum sustento financeiro, uma vez que o cancelamento de alguns eventos faz com que continue sem trabalho devido à covid-19.

“Isto acontece não só como forma de expressão artística, mas também como uma solução em termos financeiros. Desde Janeiro que fiz apenas dois trabalhos de fotografia e estamos a meio de Junho. Quero acreditar que a pintura seja uma via alternativa mesmo em termos financeiros.”

Apesar de esta ser a primeira vez que expõe a título individual, António Mil-Homens foi fazendo pequenas tentativas na área da pintura. A primeira foi em 2010, com uma exposição no bairro de São Lázaro, onde apareceu a pintar o seu próprio retrato em tempo real.

Grande e pequeno

Há quatro anos, chegou a pensar em pintar quadros de grande dimensão. “Estava em fase de arrancar com um projecto megalómano. Tenho apenas uma peça que nem considero concluída. Entretanto não me renovaram o aluguer do estúdio e a minha ideia era pintar a uma escala que é incomportável em termos de habitação, e isso caiu por terra.”

Depois da ideia de pintar grandes quadros, António Mil-Homens decidiu virar-se apenas para quadros pequenos, e por uma razão muito prática, uma vez que a venda será mais fácil, bem como o transporte das obras.

“Está a dar-me um prazer incrível, de tal maneira que acabei por preterir alguns dos trabalhos iniciais para incluir a todos os que se seguiram e já tenho mais coisas além daquelas que vão constituir a mostra”, acrescentou.

Numa celebração do mês de Junho diferente do habitual, António Mil-Homens recorda que as coisas não acontecem por mero acaso. “A diferença é obrigar-nos a concentrar naquilo que somos enquanto comunidade em Macau. Se calhar isso é o lado bom de entre os aspectos negativos da pandemia e do confinamento. É bom olhar em volta e ver que há valores aos quais, muitas das vezes, não se dá a devida importância. Marca também o arranque da utilização efectiva da Casa de Vidro por parte da Casa de Portugal, portanto nada acontece por acaso”, rematou.

Semana da Cultura Chinesa trouxe primeira tradução de “As Leis da Guerra”, de Sun Bin

Uma obra que vai além da guerra e se cruza com filosofia, convivência social, postura ética e a moral. Foi desta forma que o orador Frederico Rato descreveu As Leis da Guerra, livro que foi ontem apresentado na Semana da Cultura Chinesa

 

[dropcap]S[/dropcap]un Bin escreveu As Leis da Guerra no século IV antes de Cristo e durante mais de dois milénios a obra esteve perdida. Foi preciso esperar até 1972 para que o livro, que muitos acreditavam ser um mito, fosse finalmente redescoberto, através de um trabalho de escavações na Província de Shandong.

Ontem, também Macau entrou para esta história, ao ser o local do lançamento da primeira tradução para a língua portuguesa de “As Leis da Guerra” no âmbito da Semana da Cultura Chinesa. A iniciativa decorre até sexta-feira na Fundação Rui Cunha, numa organização conjunta entre o jornal Hoje Macau e a editora Livros do Meio.

Mas, mais do que um livro que se limita apontar estratégias militares, esta é uma forma de pensar sobre vários aspectos da vida. É essa a opinião do advogado Frederico Rato, que apresentou a obra do familiar de Sun Zi, traduzida por Rui Cascais Parada.

“É um livro que dá gosto de ler e é pioneiro relativamente à guerra, porque aborda as questões tácticas e estratégicas, mas que vai mais além”, considerou Frederico Rato. “É um livro que alcança as regras da filosofia, da convivência social e a postura ética e moral face às sociedades que usam a guerra e que também sofrem com essa guerra”, acrescentou.

A continuação da arte
A abrangência para lá da guerra foi também um dos motivos que levou Carlos Morais José, proprietário do Hoje Macau e da editora Livros do Meio, a optar pela tradução desta obra.

“É um livro que nunca tinha sido traduzido para português e é muito curioso porque é de um descendente do Sun Zi, que escreveu a “Arte da Guerra”. Viveu dois séculos depois, mas tem o mesmo nome e é da mesma família, e escreveu também um livro sobre a guerra, é quase uma continuação do outro”, começou por justificar.

“É também um livro interessante porque os preceitos que lá estão escritos não se aplicam só à guerra, mas também a coisas do dia-a-dia. Era um homem extremamente inteligente com tácticas fantásticas e conselhos muito interessantes”, considerou.

Aproximar de culturas

Entre os presentes na planteia de ontem esteve Anabela Ritchie, antiga presidente da Assembleia Legislativa, que elogiou a iniciativa pela oportunidade das culturas portuguesa e chinesa se aproximarem.

“É uma iniciativa muito louvável e com muito para ensinar a todos os que somos ou vivemos em Macau. É um evento muito interessante porque é dedicado a temas como o pensamento chinês, a cultura, a arte temas imensos e muito ricos e profundos”, afirmou Anabela Ritchie, ao HM.

Esta aproximação foi igualmente elogiada pelo orador Frederico Rato: “É uma iniciativa altamente dignificante e simpática e um bom indicador da recuperação cultural que sempre houve relativamente a esta coexistência entre portugueses e chineses há mais de 450 anos”, considerou. “A atracção recíproca dos portugueses pela cultura chinesa e dos chineses pela cultura portuguesa cada vez está a aumentar e a estender e esta iniciativa enquadra-se nesta expectativa”, sublinhou.

A Semana da Cultura Chinesa continua esta tarde, às 18h30, na Fundação Rui Cunha, com a apresentação de dois volumes de ensaios fundamentais sobre pintura clássica chinesa, do século VI ao século XVIII. As traduções ficaram a cargo de Paulo Maia e Carmo e a apresentação vai ser feita por Leong Iok Fai, presidente da Associação de Pintura e Caligrafia de Macau.

Corredor especial | Ferries para o Aeroporto de Hong Kong arrancam hoje 

[dropcap]C[/dropcap]omeçam hoje as ligações marítimas através do corredor especial entre Macau e o Aeroporto de Hong Kong. A Direcção dos Serviços para os Assuntos Marítimos e da Água (DSAMA) afirmou ontem em comunicado que tem coordenado os serviços com as duas operadoras dos ferries, a Shun Tak e a Cotai Water Net, para assegurar as medidas de controlo sanitário.

Além disso, todos os barcos serão desinfectados mal terminem a viagem. No Terminal da Taipa haverá uma área especial dedicada a todos os residentes de Macau que cheguem de Hong Kong, estando estes sujeitos ao controlo da temperatura corporal e outras medidas de despistagem à covid-19. O Corpo de Polícia de Segurança Pública irá dar o apoio necessário a quem necessitar cumprir quarentena obrigatória à chegada do território.

Direitos LGBT | Mudança de género no BIR a ser estudada há mais de 5 anos

Já passaram cerca de cinco anos desde que o Governo mostrou intenção de fazer uma consulta pública sobre a mudança do indicador de género nos documentos de identificação. Ao HM, o gabinete do secretário para a Administração e Justiça diz que os trabalhos ainda estão a decorrer. A Arco-Íris de Macau pondera pedir uma reunião com André Cheong

 

[dropcap]E[/dropcap]m Julho de 2015, a Direcção dos Serviços da Reforma Jurídica e do Direito Internacional (DSRJDI) – que, entretanto, se fundiu com a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça – indicava que queria levar a consulta pública a possibilidade de mudança de género nos documentos de identificação. Quase cinco anos depois, “os trabalhos estão ainda em curso”, indicou ao HM o gabinete do secretário para a Administração e Justiça.

“O Governo da Região Administrativa Especial de Macau tem estudado a partir do nível jurídico, médico e social, bem como do regime jurídico adoptado noutros países e regiões vizinhas em matéria de reconhecimento da identidade de género. Os trabalhos estão ainda em curso”, disse o gabinete de André Cheong. Não foram dados detalhes sobre quando a consulta pública vai ser feita, ou se o secretário vai dar seguimento à revisão legislativa durante o seu mandato.

Anthony Lam, da Associação Arco-Íris de Macau, reiterou que mantém a posição dos últimos anos de que “é necessário Macau criar um quadro jurídico para as pessoas transgénero mudarem o marcador de género” no documento de identidade e passaporte de Macau. Apontando que a China Continental já tem uma lei que permite a alteração nos documentos de identificação, o activista disse ao HM que “podemos aprender uma lição com a [sua] experiência”.

Abertura para reunião

A Arco-Íris entende que o Governo demorou demasiado tempo a estudar o assunto. “A sociedade fica com a impressão que neste assunto não estão a ser muito eficientes e parecem não estar totalmente cientes das dificuldades enfrentadas todos os dias pela comunidade transgénero em Macau”, observa Anthony Lam.

Assim sendo, a associação está disponível para se encontrar com o Governo e dar conselhos sobre a direcção que o quadro legal pode seguir. Anthony Lam indicou que chegaram a pensar pedir um encontro com André Cheong, mas, com o desenvolvimento da epidemia pelo novo tipo de coronavírus em Macau no final de Janeiro, a ideia foi posta em espera. “Provavelmente, quando a situação acalmar, podemos pedir uma reunião com o secretário André Cheong para discutir o tema”, observou.

Além disso, o activista espera que o Governo possa “mostrar mais respeito a este grupo de pessoas”, destacando que muitas viveram uma vida bastante longa em Macau, apoiaram a economia e que também devem cuidar delas uma vez que são parte da população.