Um segundo na história do universo

Poder-se-ia dizer que nascemos entubados, porque este pequeno passeio a que damos o nome de vida, a nível cósmico, não chega a ser um piscar de olhos. Para complicar mais, nascemos nus – em todos os sentidos. Ao contrário dos bichos que legam aprendizagem por via da hereditariedade, o humano aparece no mundo absolutamente desprovido de qualquer competência. É puro acontecimento de curiosidade. Essa plasticidade primordial é na verdade a sua grande vantagem evolutiva e, e simultaneamente, um dos focos fundamentais de ansiedade do sujeito, pois quanto mais história da espécie vai ficando para trás, mais há para aprender e o dispositivo pelo qual se dá essa aprendizagem é basicamente o mesmo há milénios. O cérebro não acompanha em termos evolutivos a sedimentação acumulativa do saber. É como escavar uma mina cada vez maior com a mesma colher com que se começou a fazer um buraco na terra.

A sobrevivência da espécie tal como a conhecemos implica a sobrevivência de um grande número de indivíduos e dos suportes de conhecimento adquiridos ao longo dos séculos. Acaso um cataclismo varresse o planeta e levasse com ele, para além da maior parte da humanidade, tudo quanto esta se socorre para não estar constantemente a reinventar a roda, outra espécie de humano surgiria, condenado – como está desde sempre – a resolver progressivamente a natureza que o rodeia. Desta feita, sem consulta aos manuais. Todo o básico da física, biologia, química e restantes áreas do saber teriam de ser redescobertos. A notícia feliz – a haver uma –, é que o conhecimento – pelo menos científico – parece ser unívoco e as suas conquistas parecem resistir ao tempo.

Para os gregos antigos, o humano é uma criatura que caminha de costas para o futuro com os olhos postos no passado. Criatura às arrecuas, condenado a desconhecer o sítio para onde caminha e impedido de voltar para trás nos seus passos. E ainda assim, mal-grado a sua aparente insignificância na ordem geral das coisas, cada sujeito comporta em si a possibilidade de mudar tudo. O conhecimento é a tentativa e erro de muitos consagrado no acerto de um. Formiguinhas laboriosas, cada uma com a sua pequena colher, procurando fendas nas rochas para se abrigarem. Cada descoberta individual beneficia toda a humanidade. Do mesmo modo, cada descoberta individual pode condená-la.

Temos a responsabilidade de proteger o nosso património de adquiridos. De cuidar do edifício que começou a ser construído muito antes de nascermos e que continuará a ser edificado muito depois de já termos desaparecido. E essa responsabilidade não se limita a preservar o conhecimento e as suas formas de transmissão do olvido mas também – e cada vez mais – dos ataques do achismo pandémico que o século XXI tem vindo a revelar. Não, a terra não é plana. As vacinas não provocam autismo. Não há nenhuma conspiração mundial que se interesse por tudo quanto fazes e dizes.

Nos últimos cem anos temos estado a assistir a dois movimentos inteiramente distintos: por um lado, a indústria do entretenimento de massas tem vindo a promover uma imbecilização crescente nos conteúdos que produz. Por outra parte, o conhecimento científico tornou-se tão complexo e especializado que para se falar sobre determinado assunto com propriedade é necessária uma precisão subatómica e uma vida dedicada a áreas cada vez mais reduzidas e precisas em âmbito.

Essas duas culturas totalmente distintas chocam quotidianamente. Não são aldeias vizinhas, são continentes distintos com linguagens mutualmente ininteligíveis. Os efeitos desses choques sentem-se de forma cada vez mais profunda, seja nas políticas de saúde ou energéticas, seja no modo como as pessoas se arriscam a contrariar tudo quanto não compreendem, confundido uma pueril revolta adolescente com um acto de liberdade. A humanidade, quando não acha perigos com que se entreter, inventa-os. E este, ao contrário do meteorito possível ou do desastre climático, está em cada um de nós.

7 Ago 2020

O encontro que nunca mais acontece

Uma das poucas coisas por que ansiava possíveis no meu tempo de vida era finalmente encontrarmos vida inteligente extraterrestre. Quando nasci, em 1974, a última missão tripulada à lua tinha ocorrido há dois anos. A febre das conquistas espaciais, alavancada em grande parte pela guerra fria, dissipava-se lentamente. Ainda assim não faltavam literatura, filmes e séries de ficção científica sobre o tema do espaço e da sua exploração, e sentia-se que de algum modo havia uma equivalência entre a produção de um fantástico aparente irrealizável e os romances de Júlio Verne acerca dos mais incríveis feitos humanos: era uma questão de tempo.

Quando se perguntava aos miúdos da minha geração o que eles queriam ser, bombeiros e astronautas estavam no topo das respostas mais frequentes. De algum modo, ambas profissões estavam ligadas por uma espécie de abnegação heróica presente em cada uma delas. A maior parte dos putos conhecia apenas um ou dois astronautas – e provavelmente apenas o nome – e quase certamente nenhum bombeiro. Mas o que fascinava a gaiatada não era o lado concreto e desformalizado destas profissões mas, outrossim, a aura que elas transportavam e que claramente remetia para uma heroicidade com contornos de modéstia: uma propunha-se a salvar o mundo civilizado, uma casa de cada vez; a outra almejava expandir esse mesmo mundo, primeiro dentro dos limites das nossas parcas capacidades tecnológicas “um pequeno passo para um homem, mas um passo de gigante para a humanidade”, nas palavras de Neil Armstrong, mas – e sobretudo – mediante o alargamento ciclópico daquilo que era doravante concebível.

Com 45 anos agora e espero que ainda algo longe do dia que sempre chega, já não nutro grande esperança de no meu tempo de vida a espécie humana encontrar qualquer sinal de vida inteligente lá fora. Não é só uma questão de pessimismo estrutural, condição que vai recrudescendo à medida que um tipo se aproxima da morte, mas sobretudo de uma manifesta incapacidade de encontrar quaisquer evidências, sejam estas directas ou indirectas, da presença, nem que seja arqueológica, de uma civilização extraterrestre algures.

Apesar da quantidade propriamente astronómica de estrelas no universo que albergam planetas possivelmente habitáveis, não há qualquer notícia de que a vida tenha surgido e evoluído num deles ao ponto de podermos detectá-la. A esta contradição entre termos – biliões de estrelas por um lado, zero notícia de vida inteligente por outro – chama-se paradoxo de Fermi.

As razões elencadas para justificar este silêncio ou dormência do universo são muitas. A terra parece ser, de facto, um planeta excepcional, a muitos níveis, e talvez a confluência de motivos pelos quais a vida floresceu neste cantinho não seja facilmente repetível. Talvez as civilizações tenham tendência para se autodestruírem antes de conseguirem explorar o espaço em seu redor – sabe Deus como caminhamos sobre esse fio de navalha há largos anos. Talvez as distâncias cósmicas sejam impeditivas da comunicação: olhar para fora, na perspectiva astronómica, equivale a olhar para trás no tempo, e as distâncias são tão avassaladoras que um pingue-pongue de mensagens trocadas pode facilmente levar mais de mil anos a cumprir-se. Talvez o ponto de vista humano seja tão primitivo que não consegue perceber uma possível presença não tão rara de civilizações extraterrestres evoluídas. Ou talvez estas existam, e em abundância, e nos considerem incapazes de as compreender adequadamente – pelo menos por ora. Talvez sejamos apenas a colónia de formigas de uns tipos que se entretêm a olhar para nós quando não têm mais nada que fazer.

Por minha parte, e independentemente da justificação que melhor se adequa ao silêncio do universo, reduzi grandemente as expectativas com a idade e proponho-me a uma tarefa bem mais humilde, ainda que igualmente espinhosa: encontrar vida inteligente aqui mesmo, neste cantinho, coisa que parece ser cada vez mais rara.

10 Jan 2020

As quatro mãos do meu piano

Tudo o que faço é por causa do Presidente, para o bem e para o mal, foi ele que me trouxe até aqui. Desde que me lembro de existir. Quando atravessava a rua e me atirava para cima dos cisnes negros que nadavam no lago em frente a casa, era o Presidente que determinava o horizonte desse acontecimento. Sempre que fazia o contrário daquilo que me pediam, não era birra, não era mau feitio. Diziam que não entrava na linha, que era rude e que tratava mal os outros meninos – e as meninas também, puxava-as pela mão, contra as suas vontades – e que dava cabeçadas e murros na parede quando estava com os azeites. Não era bem assim, mas era quase, e o quase tinha um cognome. Pedalava por precipícios, num carro sem travões. Explorava moradias em ruínas e bichos estranhos que, claro, me atacavam e por isso tinha que dar corda aos sapatos. Não era que me apetecesse, não era por minha vontade. Na verdade, odiava tudo isso. Odiava automóveis e fazer corridas de carrinhos e caricas em talhões de terra, mas tinha de ser. O Camisola Amarela, o Prémio da Montanha, nenhum faltava à comparência. A classificação por pontos e por uma jogada abaixo do par. Detestava também partir tijolos com a cabeça e os cinturões de artes muito pouco marciais. As viagens a meio da noite para clareiras de florestas cheias de gente não identificada. E alguns objectos voadores. Isso tudo tinha uma razão de ser. O ser que não tinha nome, só tinha fama. Levava-me pela mão.

Não era fácil e o troco não estava garantido. A maioria das actividades era um esforço tremendo. Mas como a vida era assim desde o seu início, não duvidei que pudesse acontecer de outra forma, que o cinto tivesse um aperto mais largo. Fosse de que lado caísse a chuva, ou soprasse o vento, o espectro estava sempre lá, como um banho de água gelada. Bom ou mau, era para cumprir. Não que refilasse ou coisa assim, não tinha nada contra, porque não tinha nada dentro de mim e não conhecia o favor. Ia apenas enchendo o recipiente que formava o meu ser em absoluto, o involucro que o Presidente segurava e que tentava vedar cheio de determinação. Foi sempre assim, em todos os estágios por que fui passando. Escolas, trabalhos, amizades, lutas. Relações quentes e frias. Viagens, festas de aniversário, casamentos e baptizados. Tudo o que inseria para dentro do meu corpo, quem me enfiava a colher na boca ou a pica da imunização? Os pesadelos, as noites mal dormidas, os vizinhos aos gritos, que conversas eram essas, quem as encenava? A família que me arranjaram, os amores, o suor e as lágrimas. Compromissos por terminar, tarefas do tamanho do mundo, coisas vãs? Era a pressa. Era o relógio que estava a tiritar. Era o dedo no cronómetro, que me fazia chegar muito depois do último. Ou antecipando o primitivo. Aqui e ali ao mesmo tempo, cala-te agora, neste devias falar. Quem tinha o microfone em riste? Não é preciso dizer quem era a personalidade. Nem apontar o dedo, porque é feio.

Questionava-o sobre muito do que sucedia. Mesmo depois da idade dos porquês, continuava a perguntar-lhe a razão de ser de tudo aquilo que se erguia à minha volta. Seriam cenários? E os figurinos, quem os vestia? Porque haveria de me colocar em dificuldades quando tudo corria bem e sem tormentos? Ele replicava que era mesmo assim, enquanto me levava ao dentista que me assassinou. Que não podia ser de outro modo. “É assim que o mundo foi feito”, convencia-me. Não me instruiu em religiões ou noutras crenças dissimuladas. Que o mundo era quadrado. O que existia estava à vista. O oculto era também uma ciência, era para apreender e descobrir ao longo do tempo. Que no chão que pisávamos existia uma crosta esférica com várias camadas de matéria incandescente em plena ebulição e que, aglomerado no centro, a mais de três mil quilómetros de distância – Lisboa > Bielorrússia -, um eixo redondinho com a temperatura do Sol que nos mantinha numa rota precisa no céu, impedindo-nos de cair na latrina de sémen do Universo. A paternidade. O vazio sem fundo.

“Nada de pressas”, dizia em muitas ocasiões.

Uma vez no ar, ia eu disparado ao embater no tampo de uma viatura que circulava no sentido errado, ainda não havia telemóveis por isso não pude utilizar o serviço de mensagens curtas, comuniquei-lhe no éter, por alguma frequência: “Porquê isto?” A geometria descritiva a gostar dela própria. Mundo quadrado, sim. “Aguenta!”, ripostou, por entre os estilhaços de vidro, um segundo antes de esborrachar um capacete novinho e o seu conteúdo – isso era o menos! – no alcatrão.

Antes de me apagar: “Aguenta!”

Em meados dos anos 90, declarou: “Deixa tudo e desaparece!” Não pestanejei. A directiva não trazia remetente nem carimbo. Nem formulário para contestação. Mas também não fui para a rua lutar. O meu lacre tinha uma existência regular: a vidinha. Um trabalho, uma namorada, quatro rodas de um automóvel. Ia ao cinema, aos concertos, aos jantares. Conduzia-me pela cidade, noite dentro, e pelo país, de Norte a Sul. Tinha um pé no chão, outro no acelerador. A cabeça no ar. E o Presidente orientou-me, à temperatura do sol nascente, a remoer o meu magma com as ferramentas todas do jardim. Desapareci e aprendi a nadar nessa superfície incandescente. E aguentei!

Na viagem, um homem coberto com uma manta na coxia ao lado, sem lhe ver o rosto, sem lhe ver o corpo. Seria ele? Seria um mantra? Não ousei levantar o véu, não lhe queria ver a cara. Nunca esteve longe, tenho a certeza. Mesmo nos momentos em que tinha de fazer as coisas sozinho, quando tudo andava ao contrário e a crosta no solo parecia romper-se em pedaços, deixando tudo em carne viva, permanecia agarrado ao meu ombro, com o seu visto de rapina. Num olhar que era só meu.

Já não espero por muito. Habituei-me. Agora, em terra de turcos, sem geometrias e deveres ocultos, aguento. Disperso. Um dia após o outro. Há sempre um que vem a seguir, não é?

Já dentro do caldeirão, falei com quem tinha de falar, nada foi por acaso. O algoritmo, o serviço de mensagens longas, os pagers. Deram-me logo isso para a mão, para que não faltasse nada. Associado a pessoas estranhas ao meu estabelecimento, que me acolheram, prossegui. Os caminhos traçados no chão. Um sistema luminoso como na pista de um aeroporto, fitas coloridas atadas aos ramos das árvores, pequenos truques de algibeira. Casas e mais casas, para o conhecimento da palma do território. Sociedades secretas. A história da Guerra do Ópio. Transatlânticos. Mais mantras, iogas e mandalas. O Presidente, a partilhar informação confidencial, elucidava-me sobre o desafio total. A liberdade a passar por ali. Na face da minha cara.

Às tantas, mandou-me para perto do General, para aprender como se fazia. “Vai!”, e eu fui, como um animal irracional que abana a cauda. Não precisava da Razão, podia viver bem sem isso, o fogo ardia sempre ao meu lado. Pensava, fazia relatórios, ouvia conversas. Carregava em botões. Observava a vida por dentro de um rectângulo que materializava em figurinhas planas de papel extorquidas da realidade. Guardava. Acumulava sabedoria. Para quê? Dizia-me que algures lá à frente, no eixo redondinho do céu, o meu dia iria chegar. Que um dia seria eu. Que a maré se iria levantar.

Next!

Um dia, pede-me para chegar a horas. Envia-me bilhetes de avião. Outros, para chegar atrasado. Grito. Para que se afaste. Mas ele não foge. Reclama, que devo ver e observar tudo com atenção, ou que ignore um conhecido de outros tempos com quem me cruzo e, se mais tarde o encontrar numa festa, que invente o pretexto de que tenho dioptrias.

Já não espero por muito. Habituei-me. Agora, em terra de turcos, sem geometrias e deveres ocultos, aguento. Disperso. Um dia após o outro. Há sempre um que vem a seguir, não é? Para lá da colina, para lá do sol posto. Traz sempre o tabuleiro recheado de iguarias a tiritar. Tic. Tac. O gravador em riste, para que permaneça a fita na memória. Sessenta aqui, sessenta ali. Os cisnes negros a atravessar a rua. Sem conserto e sem jantares. O lago seco. O salto à vara. A enfiar-me o capacete. Na paz de quem me dá a mão. E a alma.

Como sempre, está aqui. O Camisola Amarela, em fuga solitária e já muito perto da montanha. Onde está o prémio? A casca solta a sua lava. Cega-me por todo o lado. Tic. Tac. Um copo meio vazio. Meio cheio. Sem sombras. A percorrer as teclas do meu piano. Com ele, o Presidente, perpetuamente astuto, que não fez mais do que me segredar para escrever esta crónica. Jurando nunca se render. Ditando-a.

9 Mai 2019

Uma diferença de escalas

A velocidade da luz é de 299.792.458 metros por segundo. Comummente arredondada para 300.000 km/s, a velocidade da luz – no vácuo – parece corresponder ao limite de velocidade do universo. Para se ter uma ideia da magnitude deste número – e simultaneamente da sua incrível insuficiência perante as distâncias cósmicas – veja-se o seguinte: a distância entre a terra e a lua é de aproximadamente 384.400 km (dependendo da posição orbital do nosso satélite), à velocidade da luz levaríamos apenas 1,255 segundos a lá chegar e uma ida e volta tardaria menos de 3 segundos (um desfasamento que aliás podemos verificar nas comunicações com os astronautas que foram à lua, todas elas apresentando desfasamento entre emissão e recepção).

Já a distância média entre a terra e o sol é de uns consideráveis 149.597.871 km – o correspondente a uma Unidade Astronómica, outra unidade de grandeza para distâncias cósmicas. À velocidade da luz, levaríamos 8 minutos e 20 segundos para percorrer essa distância.

A estrela mais próxima do nosso sistema solar é Alfa Centauri, um sistema de três estrelas gravitacionalmente unidas. Fica a 4,37 anos-luz de distância, cerca de 4.1343392 x 1013 quilómetros. Um ano-luz equivale – como o nome indica – à distância percorrida pela luz em vácuo num ano (9.4607 x 1012 km). À velocidade da luz – velocidade que não conseguimos atingir nem de muito longe, levaríamos 4 anos e qualquer coisa a percorrer a distância da terra ao sistema Alfa Centauri. A velocidade da luz, absolutamente avassaladora na escala da terra e mesmo no sistema solar, é ridiculamente lenta quando consideramos distâncias cósmicas.

Na verdade, a nível cósmico tudo parece-me mover-se com extraordinária lentidão, mesmo que à nossa escala não o pareça. Mesmo a uns nada despiciendos 230 km/s (quase um milhão de quilómetros por hora), o sol leva cerca de 255 milhões de anos para completar uma órbita à volta do centro da Via Láctea. Na verdade, no nosso tempo medido em anos e não em milhões de anos, as coisas parecem estar em câmara lenta ou mesmo paradas.

Quando penso na piada cósmica que é a nossa métrica humana – fadada a perguntar o que não pode saber e a postular abstractos que é incapaz de compreender vivencialmente – sinto-me esmagado pelo tanto e tão inacessível que temos em nosso redor. Postula-se existirem cerca de um septilião de estrelas no universo (é um 1 seguido de 24 zeros). Todas elas a distâncias a que humanamente não temos acesso. Todas elas orbitando centros de galáxias a velocidades tão elevadas do nosso ponto de vista e tão irrisórias de um ponto de vista cósmico. Algumas destas estrelas são tão grandes por comparação com o nosso sol e queimam tão rapidamente o seu combustível que durarão um ínfimo do tempo que este tem previsto durar (uns modestos dez mil milhões de anos).

À infinidade horizontal pode corresponder peculiar infinidade vertical. Como no filme Animal House de 1978 se diz: “então o nosso sistema solar pode ser apenas um átomo na unha de um gigante?”. Podemos ser apenas uma instância que aos olhos de um observador noutra escala se mexe muito rapidamente – tal como os átomos parecem fazê-lo à nossa escala. Podemos ser apenas um átomo numa molécula de dióxido de silício num copo de vidro que se está a estilhaçar por ter caído ao chão. Podemos ser ainda mais ridiculamente pequenos do que pensamos.

8 Mar 2019

Espaço | Lançado satélite de retransmissão para lado oculto da Lua

A China lançou ontem um satélite de retransmissão para assegurar a comunicação com a sonda lunar Chang’e-4, que será lançada em breve, para explorar o lado oculto da Lua.

O satélite Queqiao foi transportado por um foguetão Longa Marcha-4C, a partir do centro de lançamento de satélites Xichang, no sudoeste da China, informou a agência noticiosa oficial Xinhua, que cita a Administração Nacional Espacial da China.

“O lançamento é um passo chave para que a China atinja o seu objectivo, de ser o primeiro país a enviar uma sonda para aterrar no lado mais longínquo da Lua”, afirmou Zhang Lihua, responsável pelo lançamento. Vinte e cinco minutos após o lançamento, o satélite separou-se do foguetão e entrou em órbita.

Está previsto que o satélite, que pesa uns 400 quilos, opere durante os próximos três anos. O país prevê iniciar, em 2019, a construção de uma estação espacial, que deverá estar concluída em 2022, e terá presença permanente de tripulantes.

23 Mai 2018

Espaço | Faltam quatro dias para estação espacial chinesa atingir a Terra

As últimas previsões apontam para que seja a 1 de Abril que os detritos da estação espacial chinesa, Tiangong-1, atinjam a Terra. A maior parte deverá desintegrar-se na reentrada na atmosfera

A estação espacial chinesa, Tiangong-1, que pesa oito toneladas, deverá cair na Terra a 1 de Abril. A maior parte da infraestrutura deverá ser consumida na reentrada da atmosfera terrestre, devido às altas temperaturas, mas é provável que alguns detritos consigam sobreviver e atingir o Planeta.

Fora de controlo desde 2016, o laboratório especial chinês, também conhecido por “Palácio Celestial”, deverá reentrar na atmosfera no próximo fim-de-semana, de acordo com as últimas estimativas da ESA. Uma estimativa, que diz o organismo, é “altamente variável”.

As possibilidades de ser atingido por um detrito do Tiangong-1 são zero, refere o jornal britânico The Guardian. “Se qualquer uma das estações espaciais chegar à superfície, é improvável que acerte em pessoas”, é referido na publicação.

Aliás, a Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) referiu que não há registo de uma pessoa ter sido ferida por lixo espacial.

“Existe mais probabilidade de se ser atingido por um carro ao atravessar uma rua de Sydney hoje do que de ser atingido pela estação espacial chinesa”, garante o engenheiro espacial Wareick Holmes, director executivo do Departamento de Engenharia Espacial da Faculdade de Aeronáutica da Universidade de Sidney. Citado pelo site ABC News, este especialista refere que cerca de 70 por cento da Terra é coberta por água e, por isso, há poucas hipóteses de os detritos da Tiangong-1 caírem em solo terrestre.

Local de aterragem

Segundo o The Guardian, a China não revelou todos os pormenores sobre a estação espacial, pelo que se torna difícil perceber quais as partes que podem sobreviver às altas temperaturas que se fazem sentir na reentrada da atmosfera terrestre.

A ESA prevê que a reentrada na atmosfera possa acontecer sobre qualquer ponto da terra entre as latitudes 43ºN e 43ºS. “Áreas acima ou abaixo destas latitudes estão excluídas”, pode ler-se na página da Agência Espacial Europeia.

O especialista espacial norte-americano William Ailor, citado pelo ABC News, afirma que será possível ver no céu os detritos da estação espacial como se fossem pequenas bolas de fogo em Adelaide, Camberra, Melbourne e Sidney. “É como um meteorito, mas é muito mais pequeno. Por isso é uma imagem bonita de se ver”, diz.

A Tiangong-1 é a primeira estação espacial chinesa, lançada no espaço em Setembro de 2011. Pesa cerca de oito toneladas e mede 12 metros de comprimento. É descrita por um conselheiro da NASA, aquando do seu lançamento, como “um potente símbolo político” do país e parte de um ambicioso projecto científico da China em tornar-se uma superpotência espacial. Tiangong-1 é composta por dois módulos laboratoriais para experiências, revelou, em 2011, a agência de notícias chinesa Xinhua. Foi criada para durar uma década e apoiar astronautas em vários trabalhos científicos.

A estação espacial recebeu várias missões, numa das quais fazia parte a primeira mulher chinesa astronauta, Liu Yang, em 2012.

28 Mar 2018

Uma história de outro mundo

Era um pequeno planeta muito semelhante ao nosso, no qual hominídeos em tudo semelhantes a nós tinham chegado ao topo da cadeia evolucionária e alimentar. Tinham aprendido muito cedo a dominar a natureza; faziam chover onde era necessário chuva, o sol acontecia onde era necessário o sol acontecer e debelavam tempestades e terramotos com comandos vocais que accionavam complexas contra-medidas.

Tecnologicamente, eram muito mais avançados do que somos hoje. Como tinham inventado o teletransporte, não havia acidentes de trânsito ou engarrafamentos. Mas, como contrapartida, não havia ninguém na rua ou nas praias, ou junto dos lagos e das montanhas. As pessoas eram transportadas de uma casa para outra casa, consoantes as suas necessidades. O trabalho tornara-se obsoleto. O complexo industrial de produção de tudo quanto podia ser produzido entrara em autogestão. Não havia guerras, não havia doenças, não havia poluição. Quando as pessoas morriam, eram desintegradas e convertidas numa sopa de partículas que reencontrava o seu lugar no universo.

Existia um Deus, embora fundamentalmente não interventivo, ao contrário do nosso. E esse Deus estava tão velhinho que a sua omnipotência já não era o que a omnipotência deve ser. Já não conseguia, por exemplo, ver dentro de espaços cujo revestimento fosse sólido. Esta aberração óptica – comum a muitas divindades de provecta idade – aliada à tendência de recolhimento que progressivamente se instaurara naqueles hominídeos, faziam com que este Deus desfrutasse cada vez menos da sua condição divina. Era como ter um formigueiro de estimação num terrário, em casa, no qual as formigas evitassem teimosamente fazer túneis junto dos vidros.

Tremelico – tanto quanto uma alma pode tremer – e míope, Deus contentou-se durante alguns milénios em olhar para aquele mundo tão organizado e funcional como uma criança olha para as luzes de Natal. À medida que o planeta rodopiava sobre si próprio na órbita de um sistema binário de duas estrelas anãs brancas, as cidades que deixavam de receber luz solar acendiam as múltiplas luzes pelas quais pintalgavam a superfície do planeta imersa na escuridão.

Mas um dia, Deus desconfiou. E quando um Deus desconfia, a desconfiança tem um tamanho e alcance incomensuráveis. E se as criaturas dele tivessem perecido de uma qualquer doença arqueológica incapaz de ser debelada mesmo com recurso às tecnologias de que dispunha esta civilização? E se tivessem sido involuntariamente envenenados? E se tivessem pura e simplesmente renunciado àquela vida completa e perfeita em todos os sentidos menos no da imortalidade (o único atributo que Deus optara sempre por guardar exclusivamente para si próprio)?

A dúvida e a desconfiança entranharam-se como uma nódoa, e Deus não mais conseguiu ter sossego. Incapaz de perceber, pelo estado muito condicionado da sua audição e da sua visão, a verdadeira condição daqueles a quem chamava seus, o divino entregou-se a um desespero lento como quem se entrega à bebida. Deixou de ter vontade de ser, o que, para Deus, implica conseguir, de facto, não ir sendo, e, como uma estrela que parece infinita e intemporal até perecer, por vezes numa explosão frouxa e morna, Deus deixou-se ir até se anular.

Passados apenas alguns dias, as pessoas começaram a sair das suas casas.

17 Out 2017

Falhar menos

02/02/17

Não escrevo para que me interpretem. Como Melville acredito que o mundo e o mistério são maiores que eu. Há, por isso, momentos em que uma leve sintonia me faz bem como quando leio numa conferência de Foucault de 1966, intitulada O corpo utópico, que o pensador francês opõe a utopia ao corpo. Diz ele que «o corpo é o único que não se pode trasladar para um espaço imaginário perfeito», porque todas as manhãs o espelho mostra-me mais calvo e que os músculos me caem lassos e a pele começa a ter manchas inarredáveis e que o que se passa com o meu corpo se afastou milhas do modo com que imagino todas as minhas construções. Ou seja, o que eu idealizo e por outro lado a minha presença que, dia a dia, se desvanece. Bom, a clivagem desta consciência toda a gente a adquire por experiência própria. Até aí nada de novo. O que me parece inédito é a chamada da utopia para um contraponto com o corpo, habituados que estamos a localizá-la no campo das ideias. Seja pois a utopia o inverso do corpo, a sua sombra: isto supõe que todas as outras ideias, porque menos radicais, se inscrevem no corpo, florescem à margem do seu desgaste, como órgãos, extensões daquele, ou vidas virtuais possíveis, para o que aprende a ausentar-se. Suponho que esta será a melhor das maquilhagens.

Em relação a este aspecto são interessantes as reflexões com que Michel Onfray demonstra a presença do corpo (ou a sua censura) no delineamento do pensamento, mesmo em Deleuze, que quis teorizar o «corpo-sem-orgãos».

05/02/17

Nina Simone, vi-o agora, teve direito à sua biopic. Vale o filme o que vale a sua intérprete – Zoe Saldana, magnífica – e por três ou quatro pormenores que iluminam uma vida e as suas circunstâncias. Uma entrevista na rádio de Nina com um jornalista francês funciona como a vértebra do filme, voltando-se repetidamente a ela; a uma pergunta sobre porque decidiu Nina ir viver para França, onde é adorada, Nina responde: “A América falhou. Falhou com o meu povo, e comigo. A América falhou como país”. Fala evidentemente do racismo. Noutro filme sobre Miles Davis, o genial trompetista, que a dado momento se exilou em Paris, onde é idolatrado como artista, também diz que na “cidade luz” vive uma liberdade que nunca conheceu na América. A América falhou.

Se formos vinte anos atrás, à história de Josephine Baker temos outro exemplo de uma vida extraordinária e fustigada pelo racismo e que encontra em Paris o porto de abrigo. Porque em Paris é respeitada e no seu país era perseguida. Três exemplos que atravessam um século mas que atestam pelo menos que a meritocracia na Europa tem menos cor – é de artistas que falo, gente comum terá mais problemas, mas o modo como se tratam os artistas é um indicador civilizacional.

Entretanto sabemos: a América de Obama falhou, a América de Trump, já se viu, vai falhar melhor. Hoje, no essencial, o racismo mudou o seu foco mais encadeante, é menos étnico que islamofóbico, contudo, o que está em jogo nas eleições europeias deste ano é saber se a Europa – que, na generalidade, resolveu melhor a condição pós-colonial que a América as suas tensões internas – vai continuar a ser um porto de abrigo ou se as restrições que decorrerão de resultados contrários aproximarão a Europa de um modelo afim do americano, racista, xenófobo e áspera e orgulhosamente clivado. Às vezes era preciso falhar menos.

06/02/17

A descoberta dos sete exoplanetas semelhantes à Terra, com possibilidades de ter água, excitou meio mundo. Era uma descoberta que faltava à necessidade de descomprimir a solidão do homem no vasto, álgido, universo que nos rodeia. Digamos que, no meu caso, foi o modo mais feliz da realidade contrariar o convincente mas terrível diagnóstico que o ensaista de arte e poeta de Barcelona, Rafael Argullol, fez em Maldita Perfección/ Escritos sobre o sacrifício y la celebración de la belleza (2013), e que nos colocava à beira de uma depressão irredimível. Num texto intitulado A Solidão de Shakespeare, Argullol sustenta o seguinte: «Nenhum poeta posterior ao século XVII teria podido escrever como o fez Shakespeare sem ser acusado de inverosimelhança total. Se um escritor actual, por exemplo, vinculasse as paixões humanas a supostas paixões dos astros, ventos ou moléculas, seria justamente culpável de um maneirismo que lhe faria perder toda a eficácia literária. Ninguém imagina um cenário deste tipo como campo metafórico de um poeta contemporâneo. Todo o contrário acontecia com Shakespeare, cujo enorme potencial de metáforas há que entendê-lo, em boa medida, como consequência da sua disposição, convergente com uma consciência todavia era da sua época, para enlaçar os fenómenos da natureza humana com os fenómenos do conjunto do cosmos». E a seguir Argullol mostra como a grande fronteira do espaço se revelou um poço sem fundo: «Inalcançado qualquer indício de diálogo, nunca como agora parece evidente a consciência de solipsismo. O homem é um relato sem ouvintes no qual se conta o seu solitário protagonismo no mundo».

E esta viragem das esperanças antigas para um horizonte tão abissal como mudo, este confinamento, imaginei eu a partir da leitura de Argullol, foi desde a desilusão da aventura espacial, destapando (como uma Caixa de Pandora) todas as depressões, com correspondências visíveis desde a sensação de uma «falta de alternativas políticas», à crença de que os fármacos podiam substituir a psicanálise, até à suposta incapacidade da poesia sair do beco do quotidiano: atravessávamos um mundo sem exterior fora da alucinação, sem saídas, gélido e destituído de – lá está – utopias.

Esta descoberta da astronomia, de sete planetas com condições para ter vida, devolve-nos um ponto de fuga, uma ilusão que nos faz de novo exigir o impossível: a derrota das distâncias insalváveis.

9 Mar 2017