UM | Orange Post recebe carta para retirar fotos de artigo Hoje Macau - 26 Jul 2021 O jornal Orange Post, da Universidade de Macau, recebeu uma carta do restaurante Next Kitchen para remover de um artigo as fotografias do espaço sob pena de sofrer consequências legais. A carta foi enviada após a publicação de um artigo que dava conta que os funcionários do espaço ficavam a consumir álcool depois do encerramento, o que alegadamente viola os regulamentos internos do campus. De acordo com o mesmo artigo, houve ainda várias queixas de alunos relacionadas com a actividade do restaurante, que terá organizado um encontro para carros desportivos, em Maio, que resultaram em ruído no campus, estacionamentos ilegais e condução perigosa. Charles Chang, chefe-de-redacção da publicação universitária, considerou que o artigo é preciso e imparcial e que o Orange Post, enquanto jornal da Universidade de Macau, se limitou a cumprir o papel de quarto poder no campus.
EPM | Manuel Machado inicia novo mandato focado na evolução digital João Santos Filipe - 26 Jul 2021 Manuel Machado assumiu um novo mandato à frente da Escola Portuguesa e prometeu apostar na tecnológica. A EPM conta actualmente com 668 alunos matriculados, mas o número pode subir para 690 Manuel Machado, director da Escola Portuguesa de Macau, tomou posse para mais mandato na passada sexta-feira e promete focar as atenções na evolução digital. A nova direcção foi alargada face aos mandados anteriores, e além de Zélia Baptista, que se encontra da EPM desde 2013, a par de Manuel Machado, passa também a integrar Olívia Remédios. Após a tomada de posse, Machado indicou que a aposta para o novo mandato passa pela digitalização. “A aposta na digitalização enquanto ferramenta útil da qual devem ser retirados os utensílios para melhorar o processo de ensino e aprendizagem é muito importante. Essa é uma aposta futura, a aposta no digital”, apontou o director, ao Canal Macau da TDM. Contudo, Manuel Machado recusa que a digitalização possa ser uma ameaça ao ensino de carácter humanista, que diz ser um dos traços da EPM. “É uma aposta no digital no sentido de aproveitar o que é útil para o processo de ensino e aprendizagem […] mas, sem nunca pôr em causa a relação próxima entre alunos e professores, sem nunca pôr em causa o pendor fortemente humanístico do nosso projecto educativo”, ressalvou. A aposta na digitalização vai ser feita em duas fases e com recurso ao subsídio da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ). “Estamos a procurar melhorar a nossa rede com o subsídio dos Serviços de Educação e Juventude, vamos melhorar, quer este ano quer no próximo ano, em duas fases, o hardware, de forma a que depois possam ser aplicadas as competências digitais que estão a ser trabalhadas pelos docentes e que futuramente vão ser trabalhadas pelos alunos”, apontou. Os próximos anos, segundo o Canal Macau, vão igualmente ser utilizados para apostar no desenvolvimento linguístico focado para a língua portuguesa, na consolidação da disciplina de educação cívica e desenvolvimento e na divisão da disciplina de língua chinesa em dois níveis. Mudanças legislativas O aumento do número de membros da direcção de dois para três foi explicado com o novo estatuto das escolas particulares do ensino não-superior, que entra em vigor em Setembro. É por esse motivo que Olívia Remédios passa a fazer parte da direcção. Ainda em relação às mudanças nos recursos humanos, Manuel Machado explicou que a saída de oito professores foi colmatada com duas contratações. “Foram oito [os professores] a abandonar a RAEM, desses oito, um professor estava colocado numa outra escola ao abrigo do protocolo que a Fundação Escola Portuguesa de Macau tem com a DSEDJ e os outros estavam e funções da EPM”, começou por explicar. “Dois já foram substituídos, um por um docente residente em Macau e outro por um docente que estava em Portugal, uma vez que tem BIR. Quantos aos restantes foi possível a substituição, porque no âmbito do protocolo é possível a mobilidade de professores”, acrescentou. Manuel Machado indicou também que uma das soluções passou por reajustar os horários dos docentes, o que permite que nem todos os oito profissionais tivessem de ser substituídos. Em relação ao ano lectivo 2021/2022, o director da EPM avançou que há 668 alunos matriculados, mas que o número pode subir para próximo dos 690.
Habitação Social | Moradores queixam-se de sujidade em apartamentos João Santos Filipe e Nunu Wu - 26 Jul 2021 Duas dezenas de moradores queixaram-se da sujidade que encontraram nos novos apartamentos de habitação social em Mong Há. O jornal Ou Mun considera que a entrega das casas foi apressada, sem dar tempo para operações de limpeza Os arrendatários de 20 habitações sociais no Edifício Mong Tak, do novo complexo de habitação social de Mong Há, queixaram-se ao Instituto de Habitação (IH) do estado de sujidade e desgaste das fracções, de acordo com dados oficiais disponibilizados ao jornal Ou Mun. Os moradores começaram a mudar-se para as novas fracções a partir de 19 de Julho e, desde então, houve uma média diária superior a duas queixas. Segundo o relato de alguns moradores, quando entraram nas novas casas encontraram várias pedras e materiais deixados pelos pedreiros, mas também canos entupidos, manchas que indiciam o uso das casas de banho e pontas de cigarros nas varandas. As fotografias publicadas no jornal mostram a situação, já depois de os arrendatários terem feito parte das limpezas. A situação levou alguns residentes a dizerem ao jornal que caso tivessem sido eles a comprar a fracção que o nível de imundice na altura da entrega era inadmissível. No que diz respeito à sujidade, houve ainda quem desabafasse que nunca tinha imaginado que a casa “nova” conseguisse ser mais suja que a velha. Segundo o jornal Ou Mun, na origem do problema terá estado o facto de o Governo ter optado por apressar a entrega das casas, sem que tivesse havido tempo para verificar o estado de limpeza das fracções. Apesar das críticas, alguns arrendatários optaram por não apresentar queixa ao IH e não entram para a conta dos 20 apartamentos. Alguns moradores que não se queixarem reconheceram que a possibilidade de habitarem em fracções sociais é um privilégio, face à situação de muitas pessoas desfavorecidas. Por isso, no final das contas admitiram não ter apresentado queixa ao IH. Questões para o empreiteiro Após a revelação do caso, o Ou Mun ouviu o engenheiro Addy Chan que alertou os moradores para fazerem uma limpeza inicial e procurarem a existência de entupimentos e outros problemas de construção. O profissional do sector da engenharia afirmou ainda que os arrendatários devem fazer um registo das alterações necessárias, relatar tudo ao IH, e evitar fazer qualquer tipo de obra, de forma a que o Governo possa responsabilizar os empreiteiros, que assim terão de assumir os custos da correcções necessárias. Addy Chan explicou ainda que no caso das manchas na pintura das casas, erosão química das cores ou manchas de cigarros nos azulejos ou na pedra do chão que os custos das reparações têm de ser assumidos pelos empreiteiros. Após as queixas, o jornal Ou Mun relatou ainda que o IH procedeu de urgência à verificação de fracções que ainda não foram entregues e que pediu aos empreiteiros para corrigir irregularidades, pedido extensível aos apartamentos dos moradores queixosos.
Solidariedade | Mak Soi Kun doou três salários a Henan Hoje Macau - 26 Jul 2021 Mak Soi Kun anunciou a doação de três salários para ajudar nos trabalhos de recuperação na província de Henan, gravemente assolada por cheias. Os deputados recebem cerca de 49.949 patacas por mês de salários básico, ao qual acrescem 1.248 patacas por cada reunião de comissão. No caso de presidirem às comissões, como acontece com Mak Soi Kun, na Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Finanças Públicas, o pagamento por reunião é de cerca de 2.497 patacas. O montante exacto da doação não foi revelado pelo jornal Ou Mun, mas Mak justificou o acto com a vontade de retribuir à sociedade o que recebeu e de ver a província de Henan regressar à normalidade. Por outro lado, o residente de Macau considerou que a prosperidade da RAEM depende da situação do Interior e que por isso há a obrigação de ajudar o país. Também os representantes de Macau à Assembleia Popular Nacional doaram um total de 600 mil dólares de Hong Kong, através da conta bancária do Gabinete de Ligação do Governo Central. As doações foram coordenadas por Lao Ngai Leong, José Chui Sai Peng e Kou Hoi In e justificadas com a atenção que a população de Macau presta ao Interior e aos residentes do Interior. Além disso, os representantes de Macau à APN enviaram condolências às famílias enlutadas e afirmaram sentirem-se orgulhosos e emocionados por verem soldados e populações participarem no esforço conjunto de recuperação.
Sida | Subida de casos por contacto homossexual preocupa SSM Pedro Arede - 26 Jul 2021 Das 34 infecções por HIV registadas entre residentes de Macau até Junho de 2021, 23 foram causadas por contacto homossexual. Os Serviços de Saúde dizem que a tendência “não pode ser ignorada” e que as medidas de controlo e prevenção vão ser alargadas a este grupo. Por outro lado, a DSEDJ quer apoiar alunos a “criar valor sexual e consciência de género correctos” Os Serviços de Saúde (SSM) estão preocupados com o aumento do número de casos de infecção por HIV que resultaram de contacto homossexual. Isto, quando, das 34 infecções por HIV registadas entre residentes de Macau até Junho de 2021, 23 foram causadas por contacto homossexual ou entre pessoas transgénero. A estatística revelada na passada quinta-feira pela secretária-geral da Comissão de Luta contra a Sida, Leong Iek Hou, aquando da 1.ª reunião de trabalho de 2021 do organismo, contabiliza ainda que, dos 34 casos registados entre Janeiro e Junho deste ano, 29 dizem respeito a homens e cinco são mulheres. A faixa etária onde foram registados mais casos (13) situa-se entre os 30 e os 39 anos, seguindo-se as faixas etárias dos 20 aos 29 anos (11 casos), 40 a 49 anos (sete casos) e mais de 50 anos (três casos). Além dos 23 casos causados por contacto homossexual, revelou a responsável, oito infecções foram causadas por contacto heterossexual e três casos estão a ser acompanhados no exterior. Fazendo um balanço sobre a ameaça que as doenças infecciosas como a Sida e a Covid-19 colocam a Macau, o Director dos Serviços de Saúde, Lo Iek Long prevê que a prevenção e controlo deste tipo de doenças no futuro, seja mais difícil. Especificamente sobre a Sida, Lo Iek Long lembrou que “não há método para cura completa” e que esta é uma doença que não se manifesta através de sintomas óbvios por um longo período de tempo após a infecção. Ao mesmo tempo, o director dos SSM, apontou que o “acréscimo de casos de infecção por contacto do mesmo sexo” é uma tendência que “não pode ser ignorada”. Isto, apesar de Macau ser uma região de baixa incidência. Face à tendência crescente, os SSM vão alargar os serviços de prevenção e controlo da Sida a este grupo, revelou também. Sobre o programa piloto de autoteste de HIV, foi anunciado que, entre 9 de Março e o final de Junho, foram vendidos 115 kits de autoteste, sendo que mais de 80 por cento dos compradores são homens entre os 31 e os 40 anos. Desde a implementação do programa foi encontrado um caso confirmado de HIV. Com base no volume de vendas e do “feedback positivo do todas as partes”, os SSM revelaram que os resultados iniciais do programa piloto foram alcançados, estando agora a ponderar “a sua implementação contínua”. Educação ao centro Sobre a promoção da educação sexual, o chefe do Centro de Educação Moral da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) apontou que foram realizadas actividades preventivas a pensar nos estudantes. “Quanto ao apoio pedagógico, foram realizadas actividades pedagógicas, preventivas e desenvolvidas para alunos e disponibilizado aconselhamento por caso concreto para alunos com necessidades, a fim de apoiar os alunos a criar valor sexual e consciência de género correctos”, pode ler-se numa nota oficial. Além disso, foi ainda estipulado que as escolas de ensino não superior devem disponibilizar educação sexual em todas as fases e foi criada uma base de recursos pedagógicos de Educação Moral e Cívica. A fim de criar “harmonia” no ambiente escolar, o responsável reportou ainda que foram tomadas medidas como a divulgação de mensagens relacionadas com a educação moral, a subsidiação de escolas para o desenvolvimento da educação moral na escola, a realização de exposições e a criação da Comissão para a Promoção da Igualdade de Género das Instituições de Ensino Superior de Macau.
Bandeira nacional e regional obrigatórias em mais ocasiões Pedro Arede - 26 Jul 2021 O Governo aumentou o número de dias, locais e ocasiões em que as bandeiras da China e de Macau devem ser exibidas e hasteadas. O dia Nacional da Constituição passa a ser “dia de festa importante” e há regras mais específicas para cerimónias que incluam o Hino Nacional. Na esfera digital, o emblema nacional passa a ser obrigatório em alguns websites do Governo Nem o digital escapa ao âmbito da lei da utilização e protecção da bandeira e hino nacionais. O Conselho Executivo (CE) anunciou na passada sexta-feira a conclusão do diploma complementar da referida lei, que aumenta o número de dias, locais e ocasiões em que a bandeira da China e de Macau devem exibidas ou hasteadas. O novo regulamento administrativo vem dar “cumprimento às decisões do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional” chinesa “relativas à alteração à Lei da Bandeira Nacional e à Lei do Emblema Nacional” chinesas, disse o secretário para a Administração e Justiça e porta-voz do CE, André Cheong, em conferência de imprensa. Quanto a locais, o novo regulamento administrativo estabelece como obrigatória a exibição da bandeira nacional nas escolas de ensino infantil “que reúnam as condições necessárias”, nos dias em que se realizem actividades educativas. Além disso, também as instalações culturais e desportivas públicas de grandes dimensões passam a ter que exibir ou hastear a bandeira nacional e a bandeira regional. O Dia Nacional da Constituição, assinalado a 4 de Dezembro, passa a ser “um dia de festa importante”, em que as bandeiras devem também estar à vista nos locais indicados, como nos espaços públicos (praças e jardins de grandes dimensões) geridos pelo Instituto dos Assuntos Municipais. André Cheong explicou ainda que, durante as cerimónias do hastear da bandeira nacional, o hino nacional deve ser executado “instrumental e vocalmente”, devendo todos os presentes estar virados para a bandeira e permanecer respeitosamente de pé, olhar para a Bandeira Nacional ou prestar saudação. Enquanto a bandeira nacional é hasteada, ficam proibidos actos que atentem contra a sua dignidade. “Já explicámos que actos podem ser definidos como prejudiciais à dignidade da bandeira. Não temos formas muito claras, é uma decisão da população”, afirmou o porta-voz do Conselho Executivo, segundo a agência Lusa. André Cheong acrescentou ainda que “os referidos actos” serão dados a conhecer mais tarde, através “da promoção da Direção dos Assuntos de Justiça”. Alcance digital As normas de utilização dos símbolos nacionais estendem-se ainda ao mundo digital, prevendo-se que o emblema nacional seja utilizado “em local bem visível” na página inicial de websites institucionais como o do Gabinete do Chefe do Executivo, do Portal do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, da Assembleia Legislativa, dos Tribunais, do Ministério Público e outros a indicar pelo Chefe do Executivo. Recorde-se que a proposta de alteração à lei da utilização e protecção da bandeira, emblema e hino nacionais deu entrada na Assembleia Legislativa em Maio. Na altura André Cheong indicou que a proposta previa “um novo ajustamento” para se conformar com as alterações aprovadas por Pequim, “tais como a proibição de hastear ou colocar de forma invertida” a bandeira chinesa, uma nova infracção que passará a ser punida com multa de “2.000 a 10.000 patacas” tal como já acontecia noutros casos de desrespeito dos símbolos nacionais chineses.
Covid-19 | Registados mais três infectados e quatro casos de contacto próximo João Santos Filipe - 26 Jul 2021 Duas pessoas que voaram para Macau vindas das Filipinas e outra que viajou da Alemanha foram diagnosticadas com covid-19 à entrada na RAEM. As autoridades anunciaram ainda que quatro cidadãos foram submetidos a quarentena devido a contacto próximo com uma pessoa infectada no Interior Macau registou mais três casos importados de covid-19, o que fez subir o número de infecções desde o início da pandemia para 59 infectados. Os casos reportados dizem respeito a um residente de 31 anos que estuda na Alemanha, e outros dois residentes, uma mãe, de 28 anos, e um filho, de 8 anos, que viajaram para Macau vindos das Filipinas. Nos três casos o diagnóstico foi logo feito à entrada. O caso do estudante que viajou da Alemanha, que partiu de Paris e fez escala em Singapura, foi revelado ontem à tarde. Segundo a informação revelada, “após a chegada a Macau, foi imediatamente encaminhado para a Urgência Especial do Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ), devido a febre baixa”. Antes de partir, o individuo tinha feito um teste com resultado negativo. Uma situação idêntica aconteceu com as duas pessoas (mãe e filho) vindas das Filipinas. “Ambos negaram terem sido, anteriormente, diagnosticados com a COVID-19. A mãe foi vacinada em 25 de Junho e 23 de Julho com duas doses da vacina”, pode ler-se no comunicado do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus. “Os resultados do teste de ácido nucleico que efectuaram nas Filipinas em 20, 21 e 22 de Julho foram negativos”, acrescentam as autoridades. Além dos dois casos, o centro revelou outras duas situações de recaída, também relacionadas com pessoas vindas das Filipinas. “Foram, ainda, registados, outros dois casos positivos no teste de ácido nucleico. Um caso diagnosticado a funcionária do Consulado Geral das Filipinas em Macau, com 27 anos de idade, e outro a uma bebé, de um ano, filha de um outro membro do mesmo consulado”, foi indicado. “Em ambas situações acusaram positivo no resultado do teste de ácido nucleico, mas como tinham sido diagnosticados em Maio como casos confirmados, foram ambos classificados como casos de recaída”, foi explicado. Também no caso da mulher de 27 anos a infecção aconteceu apesar da inoculação com duas doses já ter sido realizada. Segundo o comunicado do Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus as pessoas infectadas estão “em condições consideradas normais” e a ser tratadas no Centro Clínico de Saúde Pública. Contactos próximos Além dos casos confirmados, as autoridades anunciaram também a existência de quatro pessoas em Macau que tiveram contacto próximo com um infectado do Interior. A mulher de 23 anos foi diagnosticada a 22 de Julho, como assintomática, num Hospital de Zhuhai, onde fez o teste de ácido nucleico e para onde tinha viajado a partir de Nanjing. Na cidade vizinha, a mulher utilizou os transportes públicos para Zhongshan, onde esteve em contacto com um trabalhador não-residente em Macau, de 32 anos, e três residentes: uma mulher de 64 anos, uma mulher 53 anos e um homem de 28 anos. Por sua vez, os contactos próximos originaram três contactos gerais e 11 contactos próximos por via secundaria, num total de 17 pessoas. “Todas concluíram o primeiro teste de ácido nucleico e teste de anticorpos. Todos os resultados deram negativo e sem capacidade de transmissão”, afirmou a médica Leong Iek Hou, na sexta-feira, durante a conferência semanal sobre a situação pandémica. Ainda segundo o Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, não existem motivos para preocupação uma vez que foram encontrados “os residentes que estiveram em contacto estreito com os contactos próximos” a quem foi “aplicadas medidas preventivas de observação médica”. Vacinação é “gravemente baixa” A conferência de imprensa de sexta-feira serviu igualmente para o Governo insistir no apelo à vacinação, principalmente por entender que a taxa de vacinação entre idosos e jovens é “gravemente baixa”. Nesse sentido, Tai Wa Hou, médico-adjunto da Direcção do Centro Hospitalar Conde São Januário, anunciou novas medidas como a vacinação nas escolas secundárias e autorização para que as pessoas com mais de 60 anos, ou doenças crónicas, se possam vacinar sem terem de fazer marcação. Segundo os dados apresentados, desde o início da administração de vacinas, há seis meses, a taxa de vacinação é de 40 por cento. Quando são consideradas as pessoas com mais de 12 anos, a percentagem de vacinados sobe para 45 por cento. Os residentes têm uma taxa de vacinação de 55 por cento e os não-residentes de 45 por cento. No entanto, Tai Wa Hou alertou que devido ao fluxo fronteiriço entre Guangdong e Macau o risco de infecção “está a aumentar gradualmente” e que as pessoas devem vacinar-se o mais depressa possível. Quarentena obrigatória para quem esteve em Nanjing Foi decretada, desde ontem à tarde, quarentena obrigatória de 14 dias para todos os indivíduos que nos 14 dias anteriores à entrada em Macau tenham estado em Nanjing, na província de Jiangsu. O Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus especificou ontem que quem “tenha estado no Subdistrito de Yongyang do Distrito de Lishui, no Subdistrito de Yaxi do Distrito GaoChun, no Subdistrito de Nanyuan do Distrito de Jianye ou no Distrito de Jiangning da Cidade de Nanjing” terá de se sujeitar a 14 dias de observação médica em local designado pelas autoridades de saúde. As quarentenas obrigatórias estendem-se a quem tenha estado na cidade de Ruili e Condado de Longchua, da Sub-região Autónoma das Etnias Dai e Jingpo de Dehong, na província de Yunnan, ao Bairro Residencial Rongle do Subdistrito de Jinqiao do Distrito de Dodong da Cidade de Shenyang, na província de Liaoning e na Zona de Fábrica N.º1 situada na Rua Huike da Vila Wujia do Distrito de Fucheng da Cidade de Mianyang, na província de Sichuan. Arranca hoje nova ronda de venda máscaras A partir de hoje os residentes e não-residentes podem deslocar-se às farmácias do território para comprarem mais 30 máscaras por 24 patacas, no âmbito do programa de aquisição do Governo. Durante a ronda do plano que terminou ontem, foram vendidas mais 3,67 milhões de máscaras, de acordo com a médica Leong Iek Hou, o que faz com que desde o início da pandemia tenham sido vendidos 210 milhões de máscaras.
China confirma visita de vice-secretária de Estado norte-americana Hoje Macau - 23 Jul 2021 A vice-secretária de Estado norte-americana, Wendy Sherman, vai visitar a cidade de Tianjin, no nordeste da China, nos dias 25 e 26 de julho, onde reunirá com diplomatas chineses, confirmou ontem o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Em comunicado, o Ministério detalhou que Sherman vai reunir com o responsável pelas relações entre os Estados Unidos e a China da diplomacia chinesa, Xie Feng, e posteriormente com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi. Segundo a mesma fonte, a diplomacia chinesa vai deixar claro aos Estados Unidos os seus “princípios de desenvolvimento das relações” entre os dois países, com uma “atitude firme para proteger a sua soberania” e exigir que os Estados Unidos “parem de se intrometer nos assuntos internos da China”. O Departamento de Estado dos EUA já anunciado, na quarta-feira, a visita, que visa, segundo o comunicado, “manter conversas sinceras” com a China e “administrar com responsabilidade” a relação entre as duas potências. O encontro entre Sherman e Xie é o primeiro presencial entre emissários de alto nível dos Estados Unidos e da China após a cimeira realizada em março passado, no Alasca, na qual o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, e o chefe das relações externas do Partido Comunista Chinês, Yang Jiechi, protagonizaram uma tensa discussão. Esta semana, os dois países trocaram acusações sobre ciberataques. As relações entre Pequim e Washington deterioraram-se, nos últimos anos, devido a uma prolongada guerra comercial e tecnológica e diferendos na questão dos direitos humanos ou sobre o estatuto de Hong Kong e Taiwan e a soberania do Mar do Sul da China.
Covid-19 | Índia rejeita estudo que aponta para 10 vezes mais óbitos que os dados oficiais Hoje Macau - 23 Jul 2021 As autoridades indianas rejeitaram ontem as conclusões de um estudo que refere que o número real de mortes por covid-19 seja dez vezes maior do que os dados oficiais. Segundo um estudo, divulgado na terça-feira e publicado por Arvind Subramanian, antigo conselheiro económico do governo indiano, e dois investigadores do Centro para o Desenvolvimento Global e da Universidade de Harvard, o excesso de mortes – a diferença entre os óbitos registados e os que seriam esperados em circunstâncias normais – ronde entre três e 4,7 milhões entre janeiro de 2020 e junho de 2021. Para o Ministério da Saúde indiano, o relatório “assume que todos os números de excesso de mortalidade são mortes por covid-19, o que não é baseado em fatos e é totalmente falacioso”. A Índia, que calculou sempre a baixa mortalidade de cerca de 1,5% causada pela covid-19 em comparação com outras nações afetadas, questiona os métodos de cálculo do CDG. “A extrapolação das mortes foi feita na audaz suposição de que a probabilidade de que uma pessoa infetada morra é a mesma em todos os países, descartando a interação de fatores diretos e indiretos, como raça, etnia, constituição genómica, níveis de exposição associados a outras doenças e imunidade desenvolvida por essa população”, criticou. Porém, o Ministério da Saúde não deu detalhes sobre as causas que poderiam ter causado o excesso de mortes. O estudo recorreu a três métodos de cálculo: dados do sistema de registo civil, que regista nascimentos e mortes em sete estados, testes de sangue que mostram a prevalência do vírus na Índia, juntamente com as taxas globais de mortalidade devido à covid-19, e um inquérito económico a perto de 900.000 pessoas, realizado três vezes por ano. A Índia é o segundo país do mundo com mais casos de covid-19, depois dos EUA, contabilizando mais de 31 milhões de infeções desde o início da pandemia, de acordo com o último balanço da Universidade norte-americana Johns Hopkins.
O Jogo das Escondidas – Capítulos 40 ao 50 Fernando Sobral - 23 Jul 20218 Ago 2021 – E a tua protegida, Wei Zi, já soube algo do subordinado de Max Wolf? Antes de responder Ding Ling foi em busca de um roupão de seda e vestiu-o. – Ele sabe alguma coisa. Mas não sabe tudo. Se o soubesse teria dito a Wei Zi. A questão resume-se a uma: ópio ou heroína? É isso que separa Macau do senhor Wolf. Se ele introduzir aqui a heroína destrói o negócio de muita gente. Mas ele está disposto a isso, mesmo que tenha de destruir os seus opositores. Para isso promete riquezas sem fim a piratas e elementos das tríades. É assim que se cegam os homens sem princípios. É preciso fazê-los acreditar, não no presente, mas no futuro. Desviar a sua atenção para o que ele vos pode vir a dar. E não o que ele te dá agora. Assim conquistam-se os tolos. Poderá ser uma luta terrível. – Acho que estávamos mesmo a necessitar de um beco sem saída. – Querido tenente, o problema não está muitas vezes na infinita crueldade de alguém. Está mais na sua cordialidade. Talvez por isso o senhor Wolf tenha escolhido a estratégia errada. E é isso que o pode fazer perder a guerra que se adivinha. Ding Ling não lhe contou que Wei Zi conseguira saber a estratégia de Wolf para conseguir dinheiro. Ele tinha a mesma intenção que ela: assaltar o barco que transportaria ouro e dinheiro de Macau para Hong Kong. Wei Zi soubera quando, como e onde ele atacaria. O tenente começou a vestir-se, sem deixar de olhar para ela. A voz da chinesa voltou a escutar-se: – Recorda que uma cobra nunca se pode transformar num dragão. Houve um sábio na China que nos disse que um sábio que se dedica a pôr ordem no mundo deve saber de onde vem a desordem, e só assim poderá cumprir a sua missão. – Quem disse isso? – Um senhor chamado Mozi. Para ele era claro que a desordem tinha origem na falta de amor mútuo. – É isso que separa as pessoas? – Sempre o será, não te parece querido tenente? – Para isso é necessário que elas saibam distinguir o sabor amargo do que é doce. E nem sempre o sabem. 43 – Esse será sempre o eterno problema dos homens. Por isso, na história da China quem atacou bem sempre ganhou. Quem teve dúvidas, perdeu. A vida também é assim. Foi assim que me conquistaste o coração. – A ti ninguém te conquista. Tu deixas-te conquistar. – Às vezes tu não me compreendes. E eu não te compreendo. Há assim algo de comum entre nós. Amoroso sorriu. – Não podes cometer um erro sem aprender uma lição, adorável Ling. – Já pareces um chinês a falar, querido tenente. – Aprendi contigo. – Talvez. Mas não esqueças que quem nada deve é sempre senhor do seu destino. Amoroso sentiu que alguém estava na escuridão. Não se enganou. Bei Li aproximava-se. Trazia um vestido transparente que deixava visível todo o seu corpo. Aproximou-se de Ding Ling e os seus corpos tocaram-se, por momentos. Ambas ficaram a olhar para ele. Mas o tenente não reagiu e saiu. 11. O Bazar guardava segredos que nunca revelaria. Quando a noite caía e os silêncios e a escuridão convidavam ainda mais ao sigilo, as suas ruas estreitas e becos sem saída escondiam ainda mais um mundo que não se regia pelas leis escritas nos centros do poder. Ainda não anoitecera, mas o Bazar recordava, a Félix Amoroso, Alfama. Talvez fosse isso que aproximasse os portugueses dos chineses, o seu gosto pelos labirintos de onde não sabiam sair. Caminhava calmamente, mas sentia que olhos invisíveis o seguiam. Voltou-se mas não viu ninguém. Era uma sensação estranha, mas sabia que alguém seguia a sua sombra. O tenente tinha consciência do seu erro. Não fora prudente e tornara-se um alvo. O calor impiedoso ofuscava o seu pensamento. Não tinha nenhum mapa do tesouro entre mãos, que pudesse ser cobiçado. Era apenas o senhor de suspeitas que ameaçavam alguém. Percebera que, ao alertar Sofia Palha e, eventualmente, Max Wolf, poderia estar a pôr em causa um grande negócio. E quem queria lucros não se importava de colocar alguns prejuízos alheios nas contas finais. 44 Chegou à Rua do Matapau e escutou o som de diferentes pássaros, cantando o que parecia uma pequena ópera. Vinha de uma loja que conhecia, e onde há algum tempo adquirira um periquito. Parou por um momento para escutar a agradável disputa entre os pássaros, fechados em gaiolas. Depois passou por um pagode, de onde vinha um cheiro agradável do sândalo das oferendas queimadas. Lá dentro, sabia, um Buda observava os que ali vinham depositar as suas preces num altar. Entrou depois na rua das Estalagens. A actividade ainda era ruidosa e frenética. Chineses andavam de um lado para o outro, transportando mercadorias e produtos diversos. Muitos deles destinavam-se aos juncos do Porto Interior, que não ficava longe. Numa das lojas viu algumas pérolas, colares e braceletes. Pensou em comprar uma para Ding Ling. E assim fez. Adquiriu uma bracelete de jade, depois de ter regateado o preço. Pagou em patacas e dólares de Hong Kong. Sentiu uma espécie de felicidade quando colocou a bracelete no bolso do casaco. No ar notava-se um odor de ópio que vinha de uma casa de chá. Muito perto estava a cozinha aberta para a rua assinalada pelo padre Benedito Augusto para o encontro entre os dois. Pediu um pouco de arroz com porco assado e um chá. O chinês ficou a vê-lo comer e beber e, depois, fez-lhe sinal para avançar até dentro do beco. Amoroso seguiu por um corredor muito estreito entre paredes esverdeadas da humidade até que chegou a uma porta que estava entreaberta. Entrou e, ao fundo, na semi-obsuridade, estava sentado um homem, com um cigarro que não estava aceso entre os lábios, e uma navalha na mão direita que ia retalhando um pedaço de madeira. Levantou a cabeça e fez um sorriso acolhedor. Benedito Augusto, de vez em quando, marcava encontros em locais que o tenente desconhecia, mas que faziam parte da cidade chinesa de Macau, o seu Bazar. Ali o padre movia-se como se estivesse em casa. E quem ele convidava entrava num labirinto de que não conhecia a saída. Era a sua forma de mostrar que controlava os movimentos e as informações. Amoroso não tinha dúvidas que ele criara uma rede de contactos muito rica e secreta. 45 – Não sou um fantasma, tenente. Pode aproximar-se e ver que sou real. Se quiser tem aqui uma cadeira e uma cerveja para beber. Ou um cigarro, se quiser fumar. Ao contrário do que dizia, Benedito gostava de se mostrar como um fantasma que governava as almas a partir do mundo subterrâneo. O universo que muitos não conheciam e outros não desejavam conhecer. Não era inocente esta escolha. No seu jogo, Benedito gostava de ser dono do baralho de cartas ou das das peças de mahjong. Ali não se estava num território neutro. Amoroso sentou-se e agarrou na garrafa de cerveja que o padre lhe estendeu. Bebeu um pouco e voltou a focar a atenção nele. – Este mundo é curioso, não é tenente? Hipnotiza-nos. Vai mudar, não tenhamos dúvidas. Eu, por certo mudarei com ele. Mas ao contrário da sua amiga Ding Ling, não o quero mudar. Vou adaptar-me ao que me espera. E o tenente, que pretende fazer? Adaptar-se ou mudar o mundo? – Eu já tentei mudar o mundo, meu caro Benedito. Mas sobre o futuro tenho apenas uma certeza: não conheço as respostas para a pergunta que me estás a fazer. Benedito fez um sorriso e acendeu o cigarro. O seu rosto, por momentos, pareceu ficar rijo, como pedra. – Realmente a minha pergunta era errada. E é inútil procurar respostas para questões como esta. Ninguém sabe que decisões tomará. Eu compreendo-o, tenente. Percebo como se sente. Não há muito tempo, eu também me sentia perdido. Sem amigos. Sem identidade. Achava que não havia vida para mim que fizesse sentido. Melhor, sentia que não havia via nenhuma. Depois houve um momento, em Singapura, em que descobri o meu espaço. Fungou, antes de continuar: – Não me pergunte o que aconteceu. Não lho vou dizer. Mas há sempre uma vida. Há sempre um futuro, se o quisermos construir. Mas há limites para o que sonhamos sozinhos. E se amamos alguém compreendemos melhor esses limites. Mas eu não sou como o tenente. Acho que há vida para lá do amor por uma mulher. – Acha mesmo isso? – Para percebermos essa dura realidade temos de ter informação. E termos bons espiões. 46 Deu uma pequena risada. E tentou ver a reacção que as suas palavras despoletavam na cara de Amoroso. Este manteve-se silencioso. – Esta conversa não nasceu do acaso, ou porque me apetecia vê-lo. Tenho uma uma informação útil para lhe dar. Fu Xing colocou ao serviço do alemão Max Wolf a sua rede de espiões e de marinheiros. O negócio de heroína parece-lhe ter futuro. Pelo que sei, Macau será apenas um entreposto discreto para Hong Kong. Ali é que pensam fazer dinheiro. Aqui têm já um depósito bem defendido. Max prometeu-lhe que este pode ser o início de outros negócios. Legais. E ele quer a minha colaboração. Amoroso fez um sorriso cínico e olhou-o fixamente. Seria possível ler a alma do padre Benedito? As suas motivaçõs eram obscuras e a sua história também. O tenente tinha recebido um relatorio de um dos seus novos agentes, colocado em Singapura. E percebera que o homem que tinha defronte dele tinha outras vidas. Não eram cartas que utilizaria agora, porque o jogo era outro. Mas, no futuro, nunca se saberia. Até porque ele sabia demasiado sobre o tenente. – E que vais fazer, Benedito? – Não tenho como fugir à teia de Fu Xing. Ele sabe que caminhos trilho e onde me encontrar. É um inimigo que não desejo ter. – Compreendo. Farás o seu jogo. E o meu. E, sobretudo, o teu. Será um equilíbrio difícil, senão impossível. Tu o saberás. A luz é só a outra face das trevas. – Também tem de decidir de que lado do tabuleiro está, meu caro tenente. O senhor Palha e a mulher não lhe darão tréguas. E investigar a morte do senhor Silva não lhe traz amigos. Pelo contrário. Eles cercam-no. Já descobriu mais alguma coisa? – Não. Mas há indícios. – Cuidado, tenente. Era uma despedida. Benedito acendeu outro cigarro e ficou a olhar para Amoroso, enquanto este caminhava para a saida. Cá fora, a noite conquistara o Bazar. A única luz que via era a de um candeeiro de petróleo, junto a um local onde alguém vendia comida. Ouviu vozes abafadas. Na sombra estavam homens, mulheres e crianças sentadas em pequenos bancos ou no chão a comer o que as pequenas taças que tinham na mão continham. 47 Continuou a caminhar para sair do Bazar. Ouviu um sussurro à sua esquerda. E um estronho, seguido de um silvo. Sentiu um impacto forte no ombro esquerdo. Caíu com o embate. Levou a mão ao braço e depois retirou-a cheia e sangue. Procurou a sua pistola, mas antes de o conseguir fazer, levou um pontapé na mão direita. Olhou para cima. Viu o cano de uma pistola apontada a ele e, mais acima, o de um chinês que o olhava fixamente. Ouviu a sua voz: – Zōi gīn! Ia puxar o gatilho. Mas o som do tiro não saíu da sua pistola e o homem que estava defronte de si caíu. O seu sangue jorrou para cima do tenente. Espantado, viu o rosto de Li Bei e de outros dois chineses que empunhavam pistolas. Agarraram-no e puxaram-no. Do nada apareceu um riquexó para onde o transportaram. Percebeu que seguiam a caminho da Rua da Felicidade. Antes de chegarem à “Noite Tranquila” pararam numa casa sem luz à porta e levaram-no para dentro. Amoroso deitou-se numa cama e procurou tirar a sua pistola Luger do coldre. Não lhe servira para nada, porque o ataque fora rápido. Alguém começou a tratar-lhe da ferida. – A bala entrou e saíu do seu braço esquerdo. Não vai haver problemas. A voz de Li Bei era reconfortante. A do tenente, um murmúrio: – Como sabiam que estava ali? – Ding Ling estava preocupada consigo. Tem sido seguido, dia e noite, tenente. Para seu bem. Descanse um pouco. Depois levá-lo-ei até ela. Passada quase uma hora, em que dormitou, Bei Li veio acordar o tenente. Depois levou-o até ao “Noite Tranqila”. Ding Ling esperava-o. Agarrou num copo com vodka e deu-lho. – Bebe. Faz-te bem. Ele assim fez. O olhar dela era preocupado, mas doce. Disse, com uma voz aveludada: – Sabes, às vezes sonho que quando estamos na cama, colados um ao outro, há algo no meio. Uma pistola. Pergunto-me: será sempre uma pistola o que nos junta e nos separa? Ding Ling atravessava a fronteira do silêncio que tinham jurado respeitar. Falava do passado e, também, do presente. Fora uma pistola que os juntara. Aquela Luger que agora não lhe servira para nada. – Queres falar disso, querida Ling? – Não. Mas penso nisso. – Porque me mandaste seguir? – Foi o que fiz de bem, não foi? – Talvez. Neste momento estaria morto, por certo. 48 Ela não respondeu. Ele fechou os olhos e depois procurou no bolso do casaco cheio de sangue e tirou uma bracelete de jade. Deu-a a Ding Ling: – É para ti. Comprei-a antes do atentado. Ela aceitou-a e retorquiu. Não simulou os seus sentimentos: – Já não sabemos o que é a bondade. Ficamos surpreendidos quando nos confrontamos com ela. Obrigado. Ele sorriu e depois disse: – Imaginas quem foi? Só vejo três hipóteses. Max Wolf. Joaquim Palha. Sofia Palha. – Eu riscaria o primeiro. Não lhe interessa problemas com as autoridades portuguesas. Os outros, sim. Podem ter tudo a perder com a tua interferência. Amoroso levou a mão ao braço. A dor continuava lá, para o recordar dessa noite. – Precisas descansar, querido tenente. Eu estarei aqui. Mas tens de dormir. Ding Ling falou com doçura. O seu rosto enigmático estava agora exposto à luz que iluminava a sala. Amoroso sentiu-se protegido. Algo que não acontecia há muito tempo. Muitas horas depois, Félix Amoroso foi levado até a um riquexó por Bei Li. Esta, com voz cândida, disse-lhe: – Tanto somos filhos do que queremos recordar como do que queremos esquecer. Mas é bom que o tenente não esqueça o que se passou. – Não esquecerei. – Faz bem, tenente. O problema não é a dor nem o amor. É sempre as desculpas que as pessoas dão para ficarem com o dinheiro. E sobre o que fazem para o ter. O resto, seja a violência, as traições ou a guerra não são os problemas principais. Só o dinheiro o é. Amoroso concordou. A luz encadeava-o. Despediu-se e partiu. O caminho, cheio de solavancos, foi penoso. Quando chegou a casa deitou-se, relembrando as últimas horas. Depois foi lavar-se e mudar de roupa. Quando voltou à rua foi até ao Grémio Militar para almoçar. Comeu um bacalhau cozido com grão que lhe fez recordar uma velha tasca junto ao quartel do Carmo, em Lisboa. Cumprimentou colegas militares e depois saiu, procurando evitar o sol inclemente que queimava as ruas e os prédios de Macau. Sentia-se dorido mas mais determinado do que nunca. 49 12. Às vezes as coisas são o que parecem. Para Ding Ling isso era óbvio. Sentiu a presença de Bei Li e o seu corpo ganhou vida. Olhou para a bracelete de jade verde que Amoroso lhe oferecera e colocou-a no pulso esquerdo. Era luz num mundo de escuridão, onde forças contrárias se opunham. Como num poema antigo chinês, sentia-se muitas vezes a dançar com a sua própria sombra. Mas, em momentos como aquele, parecia que a vida poderia ser um romance. A vida era sempre a história de um caminho e de um caminhante. A dela, sempre entre a força da água e a do fogo. Não sabia, nem podia renunciar, à missão a que se comprometera. Mas olhava para Amoroso ou para Bei Li e sentia que havia um espaço para a esperança. Nas longas noites observava muitas vezes aqueles que no “Noite Tranquila” buscavam a fortuna e que estavam perdidos num mundo sem passado e sem futuro. Presos por fios num presente onde eram simples marionetas. Personagens de um jogo de sombras que não manipulavam. Eram refugiados do tempo, sobreviventes de um mundo que não tinha contemplações, muitas vezes fantasmas de si próprios, incapazes de ver o reflexo dos seus fracassos. Jogavam a vida numa noite. Viam-se ali, com dinheiro e com uma garrafa e uma mulher nas mãos, e julgavam-se eternos. E senhores de algo que nunca seria seu. Tal como aqueles que se viam ao espelho e imaginavam ser estadistas ou líderes. Mas então chegava o vento forte e destruía esse país de fantasia onde reinavam. A quem é que interessava a verdade? A ninguém. Bei Li aproximou-se e passou-lhe a mão pelo pescoço e pelo cabelo. Arrepiou-se e Bei Li não deixou de notar isso. – Os nossos homens estão prontos, Ling. – Está na hora, não é? Pensas que temos a hipótese de sobreviver a tudo isto? Penso nas coisas que destruí para chegar a este momento. – Que destruímos. – Não me esqueço de ti, querida Bei Li. A confiança é uma coisa estranha. Quando te conheci percebi que haveria uma ligação indestrutível entre nós. Não me enganei. – Nem eu. – Sim, foi um prémio para ambas. Porque muitos vêem a vida como um tráfico. É certo que passamos a vida a fazê-lo. Traficamos tudo. Mercadorias, ideias, afectos, recordações, amizades. Alguns fazem-no por gosto. Outros, por necessidade. Outros ainda por obrigação. Nós traficamos confiança e lealdade. É uma coisa bela. 50 Bei Li nada disse mas o seu olhar mostrava o que sentia. Amor. – Vamos? O caminho até ao Porto Interior foi feito através das ruas mais escuras. Quando ali chegaram, Li Bei dirigiu-se aos homens e disse-lhes o que esperava deles. O ataque à casa dos seus inimigos teria de ser inesperado, rápido e fulminante. Aquela hora Amoroso regressara ao refúgio de Benedito, aquele local escondido da rua dos Mercadores. Este, quando o tenente entrou, não se mostrou surpreendido. – Já sabia que tinhas sobrevivido. Sentia o que poderia acontecer. Mas estava longe de imaginar que te tentariam matar aqui, no coração do Bazar. – Talvez tenham tentado por ser aqui. Para a polícia seria o resultado de um assalto numa zona onde os portugueses não costumam vir à noite. – Mas tu és militar. Tens uma missão secreta. Não acredito que o Governador não mandasse investigar o que te pudesse ter acontecido. – Quem sabe? Benedito não respondeu. Sentou-se para fumar um cigarro. – Percebeste agora o perigo que corres. E que eu também me arrisco a correr. Quem sabia que estavas aqui, estava ciente de que vinhas ter comigo. – Quem sabe que vives aqui? – Fu Xing. Alguns dos meus contactos. Quem vive aqui perto. Eu espio. Mas também sei que posso ser espiado. A sala onde estavam praticamente não tinha móveis. Três cadeiras, uma mesa onde estava uma lamparina que pouca luz dava e uma escrevaninha encostada a uma das paredes. A simplicidade perfeita. Se tivesse de fugir, Benedito pouco tinha para levar. Este disse: – A luz garante a segurança na escuridão. Por isso gosto de me refugiar nas sombras. Mas não é suficiente. Especialmente neste mundo onde todos preferem evitar mostrar a cara. Meu caro tenente, estás a aprender uma arte muito difícil e arriscada. Ver sem ser visto, saber sem dar nada, ou quase nada, em troca, seduzir sem ser seduzido. Há quem tenha lido os mesmos livros. Amoroso aconchegou-se na cadeira de bambu onde se sentara. O formigueiro gerado pela ferida no braço não ajudava à sua concentração. Sentia a falta de ópio para afastar as dores. As físicas e as da alma. Mas isso agora era secundário. Sentia que estava próximo do assassino de João Carlos da Silva. O atentado não fora por causa dos negócios de Max Wolf, estava convicto. (Continua)
Covid-19 | Estudante oriunda do Reino Unido é o 56.º caso Pedro Arede - 23 Jul 2021 Uma residente de 21 anos de idade que chegou a Macau vinda do Reino Unido na quarta-feira, foi diagnosticada com covid-19 tendo sido classificado como o 56º caso confirmado no território (caso importado). Segundo uma nota divulgada ontem pelo Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, a paciente encontrava-se a estudar no Reino Unido, onde tinha sido entretanto inoculada com a primeira dose da vacina contra a covid-19 produzida pela farmacêutica Moderna. O Centro de Coordenação dá ainda nota para o facto de o teste de ácido nucleico realizado no dia 18 de Julho no Reino Unido ter sido negativo. No dia seguinte, a residente de Macau seguiu viagem para Singapura no vôo da Singapore Airlines SQ319, tendo ocupado o assento 42A. Após efectuar escala em Singapura, a estudante rumou por fim a Macau através do vôo da Scoot TR904, onde viajou no assento 23F. Também ontem, tendo em conta a evolução epidemiológica da Cidade de Nanjing da Província de Jiangsu, o Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus anunciou que todos os indivíduos que nos 14 dias anteriores à entrada em Macau que tenham estado no Subdistrito de Lukou passam a estar sujeitos a quarentena obrigatória em locais a designar, aquando da sua chegada a Macau. A medida entrou em vigor às 9h00 de ontem.
Sands China com prejuízo de 166 milhões de dólares no 2.º trimestre Hoje Macau - 23 Jul 2021 A operadora de jogo Sands China em Macau anunciou ontem um prejuízo de 166 milhões de dólares no segundo trimestre deste ano. Em comunicado, a Sands China indicou que as receitas aumentaram, em termos anuais, para 849 milhões de dólares comparativamente aos 40 milhões de dólares registados no segundo trimestre do ano passado, quando o impacto da pandemia da covid-19 foi mais sentido em Macau. O EBITDA (lucros antes de impostos, juros, amortizações e depreciações) foi, no segundo trimestre, de 132 milhões de dólares. No segundo trimestre de 2020, o EBITDA registou perdas de 312 milhões de dólares, referiu o grupo na mesma nota. O impacto da pandemia da covid-19 continua “a prejudicar o desempenho financeiro” do grupo, que “continua confiante na eventual recuperação em termos de viagens e de turismo”, sobretudo em Macau e em Singapura, afirmou o presidente e director-executivo da Las Vegas Sands, a empresa norte-americana que detém a maioria do capital da Sands China, Robert G. Goldstein. No início de Março, a operadora de jogo Las Vegas Sands anunciou a venda de propriedades no valor de cerca de 5,19 mil milhões de euros, incluído o icónico The Venetian Resort Las Vegas, para se focar em Macau. Casinos solidários As operadoras do jogo em Macau anunciaram ontem a doação de 10 milhões de patacas, cada uma, para Zhengzhou, capital da província Henan, onde as inundações causaram já 33 mortos. A Sands China, MGM China, Wynn, Galaxy, Melco e, na quarta-feira, a Sociedade de Jogos de Macau (SJM), indicaram que o objectivo destas doações é apoiar os esforços de reconstrução das zonas afectadas pelas inundações. As seis operadoras lamentaram as vítimas registadas e disseram que as doações foram feitas em “coordenação com o Gabinete de Ligação do Governo Central” da China em Macau. As inundações no centro da China fizeram pelo menos 33 mortos e oito desaparecidos, de acordo com os dados mais recentes difundidos pela televisão estatal chinesa CCTV. As chuvas mais intensas dos últimos 60 anos na cidade de Zhengzhou deixaram parte do sistema de metropolitano submerso e transformaram estradas em canais, com rápido fluxo de água.
Hierarquia das leis Paul Chan Wai Chi - 23 Jul 2021 Fui deputado na Assembleia Legislativa (AL) durante quatro anos e nesse período aprendi muito sobre legislação. Por exemplo, em que circinstâncias é que uma lei se sobrepõe a outra, ou seja, tudo o que se relaciona com a hierarquia das leis. Durante o período de transição para a soberania chinesa, quando a Lei Básica de Macau estava a ser elaborada, formei um Grupo de Reflexão com amigos cristãos e convidei especialistas e universitários para darem algumas palestras. Foi assim que fiquei a saber que a Contituição da República Popular da China (RPC) obedece rigidamemente ao Sistema Jurídico de Direito Continental, e que a Lei Básica de Macau deriva dos postulados desta Constituição. Por isso, a Lei Básica é também referida como a “mini-constituição” de Macau, encontrando-se no topo hierárquico de todas as leis da cidade. É a pedra ângular que assegura o princípio “Um País, Dois Sistemas”. No Capítulo III (Direitos e Deveres Fundamentais dos Residentes) da Lei Básica de Macau, o Artigo 25 estipula claramente que “os residentes de Macau são iguais perante a lei, sem discriminação em razão de nacionalidade, ascendência, raça, sexo, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas”. O Artigo 26 estipula ainda que “os residentes permanentes da Região Administrativa Especial de Macau têm o direito de eleger e de ser eleitos, nos termos da lei”. Mas o que são os “Direitos Fundamentais”? De acordo com o sumário do acórdão do Tribunal de Última Instância relativo ao Processo n.º 81/2021, “os ‘direitos fundamentais’ podem ser entendidos como ‘direitos inerentes à pessoa humana e essenciais à sua vida (digna)’; são direitos ‘irrenunciáveis’, ‘inalienáveis’, ‘invioláveis’, ‘imprescritíveis’, ‘universais’, ‘concorrentes’ (na medida em que podem incidir em concomitância a outros direitos fundamentais), e ‘complementares’, pois que devem ser interpretados em consonância e em conjunto com o sistema jurídico”. A decisão da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL) de desclassificar 21 candidatos, pertencentes a seis grupos, à próxima eleição por sufrágio directo para Assembleia Legislativa abalou Macau, uma pequena e pacífica cidade. Como a CAEAL apenas deu uma conferência de imprensa durante a tarde do dia em que a decisão foi anunciada, quando os candidatos desqualificados e os grupos a que pertencem pediram a documentação que suporta a decisão da CAEAL, para ficarem a par dos critérios subjacentes, as pessoas ficaram com a sensação que esta tinha sido uma decisão de última hora. É preciso que se compreenda que privar os residentes permanentes da RAEM do direito de serem eleitos equivale à privação de direitos políticos na China continental, e terá um grande impacto nos “Direitos Fundamentais” dos residentes da RAEM, especialmente naqueles que são considerados “ilegíveis” para se candidatarem a deputados da Assembleia Legislativa. Neste grupo estão incluídos actuais e antigos deputados da AL e algumas caras novas. Quando a “desclassificação de deputados” é feita de forma incorrecta, as principais vítimas serão o princípio “Um País, dois Sistemas” e a Lei Básica de Macau. Se as autoridades continuarem a estreitar cada vez mais o conceito de “patriotismo” e a acrescentarem mais claúsulas e critérios à Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa da RAEM, em que é que se irá transformar o processo eleitoral? Na informação facultada pelo Governo, recolhida através de redes sociais e outras plataformas, protestos e outras actividades, e também disponibilizada pela CAEAL, através da Secretaria para a Segurança para “análise e apreciação”, que provas concretas se podem encontrar? Acredito que essas provas serão reveladas uma a uma depois de os candidatos desqualificados terem apelado ao Tribunal de Última Instância. As diversas provas devem ser reveladas ao público; para que os residentes da cidade possam ficar a saber em que sociedade estão a viver. Assim sendo, quando a Lei Básica se confronta com a Lei Eleitoral, qual delas deve recuar?
A fenda Luís Carmelo - 23 Jul 2021 O homem conhecia como poucos a diferença que existe entre um submundo, mesmo se branco e polido, e o mundo com o seu esplendor das coisas ditas reais, claras e correntes. Uma cidade levanta-se ao fim de muitos séculos a esgrimir a pedra. Uma pedreira explora-se durante poucas décadas também a esgrimir a pedra, mas logo é abandonada. Uma cavidade que se deita contando apenas consigo ao invés de uma cidade que se avoluma em altura e que conta – de modo indefectível – com quem a perfilha, com quem nela reside e assim se imagina a defender-se do caos. O homem caminhava todos os dias para o fundo da antiga pedreira onde não havia ninguém. Fazia disso uma missão, uma prédica ou um sermão a sós que resgatava do eco em cadeia que advinha das profundidades, sempre que se movia com a presteza de um felino. Levava consigo vários cadernos e enchia as folhas com traços que reproduziam os vestígios da violência com que os blocos de mármore tinham sido atingidos durante anos. Poliedros incompletos, rectas quebradas, rectângulos fugidios, extractos lascados, cubos torcidos, triângulos dobrados, texturas fendidas, curvas desfeitas, linhas pendidas, pontos soltos e arestas arruinadas. No fundo de tudo, uma água verde, vagamente turquesa ao centro, definia a alma da imensa cúpula invertida. Meses e meses de prospecção e de desenhos fizeram com que o homem percebesse que esta ferida gigante se movia. Era um tectonismo lento que emprestava ao vale da pedreira uma locomoção de carrossel, uma suave translação. Quando chegava a casa, revia a evolução dos desenhos em certas secções e tornava-se claro que os traçados reflectiam um movimento circular. Numa mesma parede – que descia a mais de cem metros até à base, – os mesmos contornos ora se concentravam numa dada direcção, ora irradiavam, ora evidenciavam estranhos paralelismos. O homem tomou a sério estes avisos e agiu em conformidade como se fosse uma prece plagiada. Reuniu amigos há muito tempo afastados, dispersou pensamentos terríveis, mas manteve-se sempre distante do mundo como se ambos fossem rasgos paralelos. Até que, um dia, descobriu a fenda e se maravilhou. Entrou pela estreita fenda com dificuldade, pois foi preciso entrar de lado com os membros afastados e a cabeça inclinada copiando a pena de pavão de Krishna. Sem que o pudesse prever, viu-se subitamente no fundo de um mar de água muito densa e foi preciso nadar até à superfície para poder voltar a respirar. Pelo meio desvendou um navio afundado, preso entre rochas, taludes e algas de cor azulada. Regressou para rever a embarcação e imediatamente descortinou o estranho habitáculo. Atravessou as portadas hidráulicas, penetrou na câmara pressurizada e sentiu o que seria a gravidade zero. Deslizou ainda pelo ar, flutuou como uma raia e na sua frente sonhou ter visto uma mulher louca, parecida com lady Macbeth no início do quinto acto quando não pára de repetir que “o inferno é sombrio”. Ele e a mulher sonhada regressaram à pedreira. O perpétuo retorno é sempre o regresso a uma morada diferente. De tanta silenciosa translação, a pedreira já desabara e nela haviam ficado retidas várias pessoas que confraternizavam. Ter-se-ão salvado, soube-se mais tarde. Mas a mulher sonhada não arredou pé das suas falas e repetiu que, se tudo se tivesse passado em cena, fosse no teatro ou em filme, de certeza que haveria mortos, muitos mortos. E riu-se para que o eco soçobrasse e inundasse todo aquele firmamento de pedra falante. O homem ficou para sempre com essa falha: bastar-lhe-ia apenas pensar em regressar à velha pedreira dos arredores da vila, e logo aquele riso maldito lhe enchia a cabeça como se fosse um entulho metálico a explodir nas membranas do tímpano. O inferno nem sempre é sombrio.
Cinemateca Paixão | Seis filmes e documentários em cartaz para Agosto Hoje Macau - 23 Jul 2021 A Cinemateca Paixão apresenta, no próximo mês de Agosto, seis longas-metragens e documentários de países como o Vietname, Japão ou a China, entre outros. Quatro deles são deste ano, como é o caso de “Threads – Our Tapestry of Love”, de Takahisa Zeze; “Striding into the Wind”, de Wei Shujun; “Mr. Bachmann and His Class”, de Maria Speth; e “Listen Before You Sing”, de Yang Chih-Lin. As exibições prolongam-se até ao mês de Setembro Está fechado o cartaz da Cinemateca Paixão para o próximo mês de Agosto, com os bilhetes já disponíveis para venda. O público poderá ver seis películas, que vão desde o género longa-metragem ao documentário, quatro delas estreadas deste ano. O cartaz inclui produções asiáticas, mas também algumas feitas em parceria com países europeus. O primeiro filme a ser exibido, já a 5 de Agosto, e que repete novamente nos dias 7 e 11, é “Threads – Our Tapestry of Love”, de Takahisa Zeze, realizador japonês. Esta película foi nomeada para a categoria de Melhor Partitura Musical dos Prémios da Academia Japonesa deste ano, e conta a história de um menino e uma menina que nasceram no primeiro ano de Heisei, cujo período terminou em 2019 ao fim de 31 anos. Os dois encontram-se na infância, apaixonam-se mas separam-se ao longo da vida, vivendo “em circunstâncias totalmente diferentes”, embora continuando “a manter-se nos seus pensamentos”, descreve a sinopse. Desta forma, este filme “conta a história de trinta anos na vida de duas pessoas ligadas por um fio do destino” e “certamente despertará naqueles que o vêem uma nova apreciação por conhecer pessoas”. “Striding into the Wind”, de Wei Shujun, é outro filme que compõe o cartaz e que será exibido nos dias 19 e 27 de Agosto, bem como no dia 1 de Setembro. O filme do realizador chinês conta a história de Kun, que “parece estar a estragar quase tudo”, tal como “o último ano na escola de cinema, o trabalho no filme de formatura do amigo e a relação com a namorada”. “Mas o Kun acabou de tirar a carta de condução e, com ela, o carro em segunda mão, o mais barato que encontrou: um velho naufrágio de um Jeep Cherokee que pode vir a ser a chave para os seus sonhos mais loucos”, revela a sinopse. Este filme teve nomeações em vários festivais de cinema, incluindo a nomeação para o Grande Prémio do Concurso Internacional de Novos Talentos na edição deste ano do Festival de Cinema de Taipei. Na Europa, “Striding into the Wind” foi nomeado na categoria de Melhor Filme – Atena Dourada no Festival Internacional de Cinema de Atenas, o ano passado. Também em 2020, foi nomeado para a Gold Hugo New Directors Competition do Festival Internacional de Cinema de Chicago. A película teve ainda duas nomeações em festivais de cinema na China. Olhar internacional Como exemplo do cinema internacional, a Cinemateca Paixão escolheu o documentário “Mr. Bachmann and His Class”, de Maria Speth, que será exibido no dia 24 de Agosto e nos dias 2 e 12 de Setembro. Este é um “documentário íntimo”, que “retrata a ligação entre um professor do ensino fundamental e os seus alunos”. “Os seus métodos não convencionais chocam com as complexas realidades sociais e culturais da cidade industrial alemã provincial em que vivem”, aponta a sinopse. Este trabalho de Maria Speth é falado em alemão e conta com legendas em chinês e inglês. Na edição deste ano do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o documentário ganhou o prémio do público da competição, o Urso de Berlim prateado e o prémio do júri, além de ter recebido uma nomeação para a categoria de melhor filme. Também este ano, mas no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, ganhou o prémio Golden Firebird. De Taiwan, chega “Listen before you sing”, de Yang Chin-Lin, exibido nos dias 20, 22 e 29 de Agosto. No Festival Internacional de Cinema de Crianças de Hong Kong deste ano o filme foi apresentado nas sessões de abertura e de encerramento. “Dad, I’m Sorry” é a película vinda do Vietname, de Tran Thanh Vu Ngoc Dang, e que será exibida nos dias 22 e 25 de Agosto, bem como no dia 4 de Setembro. Tida como uma campeã de bilheteira na história do cinema do Vietname, ultrapassando o sucesso de “Avengers 4: Endgame”, “Dad, I’m Sorry” conta a história de Ba Sang, o “segundo de quatro irmãos barulhentos”. Segundo a sinopse, “o filme dá uma perspectiva multifacetada sobre a família através dos destinos de cada personagem e da forma como levam as suas vidas”. “Collective”, uma produção conjunta entre a Roménia e o Luxemburgo, da autoria de Alexander Nanau, encerra as escolhas da Cinemateca Paixão para o próximo mês. “Collective” é considerado como “um olhar intransigente sobre o impacto do jornalismo de investigação no seu melhor”, relacionado com um incêndio ocorrido em 2015 no Colectiv de Bucareste, que deixa 27 mortos e 180 feridos. A morte de várias vítimas de queimaduras faz com que os médicos dêem o alerta junto dos jornalistas sobre uma eventual fraude nos cuidados de saúde, cujo sistema pode mudar com a nomeação de um novo ministro no país. No entanto, para reformar um sistema corrupto, ele vai enfrentar muitos obstáculos. “Collective” ganhou o prémio de melhor longa-metragem internacional e melhor longa-metragem documento nos Óscares, além de ter sido nomeado para melhor documentário nos British Academy Film Awards. A estreia mundial de “Collective” aconteceu este ano no Festival de Cinema de Veneza. A película é exibida nos dias 15, 17, 20, 22, 26 e 29 de Agosto.
EPM | Manuel Machado toma hoje posse como director até 2024 Andreia Sofia Silva - 23 Jul 2021 Manuel Machado, director da Escola Portuguesa de Macau desde 2013, toma hoje posse para um novo mandato de quatro anos. José Sales Marques destaca os bons resultados nos rankings escolares, mas a associação de pais gostaria de ver uma mudança Presidente da direcção da Escola Portuguesa de Macau (EPM) desde 2013, ano em que substituiu Edith Silva, Manuel Machado toma hoje posse para um novo mandato como director até 2024. A tomada de posse acontece na biblioteca da escola às 18h30, tendo sido enviados convites para alguns membros da comunidade escolar por parte do conselho de administração da Fundação da EPM (FEPM). Em declarações ao HM, José Sales Marques, administrador e porta-voz da FEPM, destaca os bons resultados escolares que a instituição de ensino de matriz portuguesa tem tido nos últimos anos. “O Dr. Machado e a sua equipa procurou sempre fazer o melhor possível para garantir que a EPM continuasse a oferecer um ensino de qualidade, mesmo em circunstâncias difíceis, o que tem conseguido e com muito mérito”, apontou. Sales Marques dá como exemplo o “ranking anual da EPM, no contexto das escolas portuguesas no estrangeiro, mantendo-se nos lugares cimeiros, ou ocupando até o primeiro lugar”. “O mesmo se pode dizer quanto ao bom desempenho nos resultados do PISA para Macau, que como se sabe são avaliações conduzidas pela OCDE”, acrescentou ainda. Desta forma, José Sales Marques considera que “a nomeação do Dr. Manuel Machado para director da EPM é uma consequência natural dos resultados acima indicados e da sua vontade, que muito apreciamos, de continuar a servir a EPM e o ensino em Macau”. Mudança, precisa-se Esta opinião não é partilhada pela Associação de Pais da EPM. Filipe Regêncio Figueiredo, presidente, defende uma mudança, uma vez que é “a favor da limitação de mandatos no exercício de quaisquer cargos”, algo que “promove a transparência e força a mudança, independentemente das qualidades e competências de quem ocupa os cargos”. “É uma grande tentação pretender enfrentar os desafios do futuro com as respostas do passado, por muito boas que elas tenham sido. A EPM, graças ao seu corpo docente, é uma boa escola, mas quem a dirige e lidera o corpo docente não se pode eternizar, sob o risco de a escola ficar parada no tempo, principalmente quando as mudanças na comunidade educativa saltam à vista”, frisou ainda. À luz do novo estatuto das escolas particulares do ensino não superior, que entra em vigor a 1 de Setembro, Filipe Regêncio Figueiredo lamenta que a FEPM “não se tenha adiantado e aproveitado para fazer uma nomeação ou recondução de acordo com as novas regras”, apesar de as propostas de gestão já terem sido entregues junto da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ). O diploma estabelece que pais e docentes passam a fazer parte do conselho de administração da escola, que tem como competências nomear o director. Tal iria permitir “uma discussão mais alargada” mas, no entanto, “manteve-se a direcção nomeada em funções após o início do funcionamento dos novos órgãos”. Filipe Regêncio Figueiredo apontou ainda que a FEPM “não pode pôr-se à margem, demarcar-se e alegar desconhecer o que se passa na EPM, como o fez diversas vezes em reuniões com a APEP, uma vez que apoia o status quo existente”.
TUI | Sulu Sou, Scott Chiang e Chan Wai Chi entregaram recurso João Santos Filipe - 23 Jul 2021 Scott Chiang, cabeça da lista Associação de Próspero Macau Democrático, considerou que Macau está numa fase de escuridão que abrange todas as liberdades. Por sua vez, Sulu Sou defendeu que a CAEAL primeiro decidiu excluir os candidatos e só depois pediu à PJ para arranjar as “chamadas provas” Os candidatos às eleições Sulu Sou, Scott Chiang e Paul Chan Wai Chi entregaram ontem o recurso para o Tribunal de Última Instância (TUI), após terem sido desclassificados pela Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL). Os representantes das listas Associação do Progresso de Novo Macau, Associação do Novo Progresso de Macau e Associação de Próspero Macau Democrático contestam terem praticado “actos que não defendem a Lei Básica ou não são fiéis à RAEM”. À saída do tribunal, Sulu Sou considerou que a exclusão foi uma casa construída a partir do telhado. “Entendemos que o relatório da CAEAL com as objecções [à nossa candidatura] foi uma casa feita a partir do telhado. Eles primeiro decidiram que nos queriam excluir e depois foram pedir ajuda à polícia para arranjarem as chamadas ‘provas’ para sustentarem a conclusão”, afirmou Sulu Sou, deputado. “Entendemos que a CAEAL serviu um objectivo político, mas não seguiu a lei”, acrescentou. O deputado foi ainda questionado sobre se acreditava na independência do TUI e recusou tirar conclusões antecipadas: “Ninguém pode adivinhar o resultado até ao final do jogo. Até esta fase, podemos dizer que a CAEAL e o Governo da RAEM têm uma missão política”, indicou. “Sinceramente, tenho a esperança que o tribunal seja independente. É a minha esperança mais sincera, para o bem da nossa cidade e da nossa sociedade”, desejou. Sulu Sou revelou que a viagem a Paris para debater a situação do património de Macau com a UNESCO foi considerada conluio com “forças externas”. Também uma intervenção, como deputado, durante a discussão de uma lei sobre as polícias foi considerada discurso anti-Partido Comunista. As acusações levaram Sulu Sou a reconhecer que não pode afastar o cenário de haver democratas presos. “Li as chamadas provas da polícia, e tenho a certeza que já não sei onde estão as linhas vermelhas. Só por partilhar algumas notícias sobre o incidente do 4 de Junho e por pedir na rua e na Assembleia Legislativa que as pessoas apoiem o sufrágio directo estamos a ser acusados [de não defender a Lei Básica]”, justificou. “Eu não sei se o que estou a dizer agora não vai ser utilizado pela polícia para me incriminar. Ninguém pode ter a certeza. É uma grande mudança, após a transição”, concluiu. O pôr do sol Por sua vez, Scott Chiang considerou que a apresentação do recurso é uma obrigação. “Se legalmente existe a possibilidade de recorrer, então temos de usar todos os meios legais ao nosso dispor. É imoral julgar o sistema sem tentar, por isso temos de dar o benefício da dúvida”, disse o democrata. Apesar disso, Chiang reconheceu que o histórico do TUI não é favorável. “Nos últimos anos temos visto que as decisões do TUI, surpreendentemente, estão em linha com as decisões das autoridades. E isso talvez não seja uma coisa boa, esta cooperação entre os poderes”, vincou. “A cooperação não é ideal para mim, mas para outros é uma harmonia boa”, acrescentou. O ex-presidente da Novo Macau frisou ainda não ter cometido qualquer crime e prometeu lutar até ao fim. “Eles estão a retirar os direitos civis de toda a população, o que para nós é inaceitável. Não vamos cair sem lutar… Não consigo ver como vamos fazer a diferença, mas temos de tentar”, desabafou. “Estamos num momento do pôr do sol, está tudo a tornar-se escuro, não só em termos das eleições, mas a nível da liberdade de imprensa e de outras liberdades, aliás das liberdades como um todo”, completou.
Ecologia | Macau deve atingir neutralização de carbono até 2030 Pedro Arede - 23 Jul 2021 O Chefe do Executivo Ho Iat Seng revelou ontem que Macau irá lutar por atingir, o quanto antes, o pico das emissões de dióxido de carbono, para alcançar a chamada “neutralização de carbono” até 2030. “Em articulação com as estratégias de desenvolvimento ambiental do País, iremos promover escrupulosamente as medidas relativas ao ‘pico das emissões de dióxido de carbono’ e à ‘neutralização do carbono’. Tendo em conta a realidade de Macau, vamos concretizar de forma programada o aproveitamento de energias limpas e lutar por atingir o pico das emissões de dióxido de carbono até 2030”, apontou o líder do Governo. Ho Iat Seng prometeu ainda, impulsionando a execução do Plano Director, promover “de forma mais precisa, ecológica e segura” a construção de infra-estruturas urbanas e o melhoramento das infra-estruturas ambientais. O objectivo passa por encontrar o “equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e a protecção ambiental”, permitindo criar boas condições de habitabilidade e construir uma “Macau verde”.
Jogo | Lei Wai Nong confiante nos resultados do 2.º semestre Pedro Arede - 23 Jul 2021 Apesar dos resultados pouco auspiciosos na primeira metade de 2021, o secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong mostrou confiança no cumprimento dos objectivos traçados ao nível das receitas de jogo estimadas, fixadas pelo Executivo em 130 mil milhões de patacas. Segundo Lei Wai Nong, os resultados do segundo semestre podem melhorar consideravelmente, alavancados, não só pelos grandes eventos e feriados que estão no horizonte, mas também pela melhoria da situação pandémica nas regiões vizinhas. “Os resultados no primeiro semestre do ano atingiram apenas 49 mil milhões de patacas. Em comparação com as nossas previsões é um resultado muito mais baixo do que se esperava. No segundo semestre, estamos confiantes que os resultados vão melhorar porque ainda vem aí o período de férias, o dia nacional, o Grande Prémio. Além disso, a situação pandémica nas cidades vizinhas também está a melhorar”, apontou o secretário para a Economia e Finanças, segundo a TDM-Rádio Macau. Lei Wai Nong referiu ainda que o turismo de Macau está a recuperar, movido por diversas acções de promoção em cidades como Xiamen, Tianjin e Chongqing. Houve ainda tempo para confirmar que a consulta pública sobre a nova lei do jogo terá lugar no segundo semestre de 2021, assinalou o secretário. Quanto à lei sindical, Lei Wai Nong referiu que o Governo prevê concluir a recolha de opiniões no final de Setembro e realizar uma consulta pública, a partir do quarto trimestre do ano.
AL | Recusada análise a petição de residente “por falta de tempo” João Santos Filipe - 23 Jul 2021 A Comissão de Regimento e Mandatos da Assembleia Legislativa recusou analisar a petição de um cidadão que pretendia que as comissões permanentes fossem realizadas à porta aberta. O grupo de trabalho do hemiciclo reuniu ontem para falar da petição de um residente chamado Adelino Sousa e concluiu que não há tempo para ouvir todos os deputados antes do fim da Legislatura. “A reunião foi feita e sentimos que houve discussão suficiente. Como estamos perto do final da Legislatura, e para discutir as alterações ao regimento temos de ouvir todos os deputados, consideramos que não há tempo para alterar o regimento. É um procedimento que leva muito tempo”, afirmou José Chui Sai Peng, presidente da comissão. Segundo as regras do hemiciclo, a Legislatura termina a 15 de Agosto e qualquer diploma que fique pendente e tem de ser apresentado novamente ao hemiciclo. Joé Chui Sai Peng justificou a não discussão da petição com a necessidade de os deputados se focarem nos outros diplomas, que ainda têm de ser discutidos e votados na especialidade. No caso de petição, o deputado explicou que pode ser deixada uma recomendação para que a futura Comissão de Regimento e Mandatos se volte a debruçar sobre o assunto. “No relatório vamos deixar uma nota à futura comissão sobre a possibilidade de analisar a petição. Mas, não podemos impor essa análise, só podemos deixar mesmo uma recomendação”, explicou. O texto da comissão não foi disponibilizado aos jornalistas, porém, segundo Chui Sai Peng, o objectivo seria a abertura das comissões. Face à questão se havia planos para trazer de volta o assunto na próxima Legislatura, tanto Chui Sai Peng como Vong Hin Fai preferiram não se comprometer com a matéria.
Eleições | Ho Iat Seng respeita CAEAL e garante a salvaguarda da liberdade de expressão Pedro Arede e Nunu Wu - 23 Jul 2021 O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng apontou ontem que a desqualificação de 20 candidatos pela Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL) está de acordo com a concretização do princípio “Macau governado por patriotas” e respeita a alteração à Constituição da República Popular da China aprovada em 2018. Ho Iat Seng não se alongou em análises por considerar não ser conveniente tecer comentários mais aprofundados acerca de uma decisão que está a ser tratada pela justiça. “Não posso comentar. Respeito a decisão da comissão eleitoral e a independência da Justiça. Respeito a decisão [baseada] nos sete aspectos que foram tidos em conta. Há-que respeitar”, referiu ontem, de acordo com a TDM-Rádio Macau. Recorde-se que na quarta-feira, a CAEAL rejeitou as reclamações apresentadas pelas listas lideradas por Scott Chiang, Paul Chan Wai Chi e Sulu Sou, confirmando assim a desqualificação de 20 candidatos por, de acordo com sete novos critérios de elegibilidade, não serem fiéis a Macau e não defenderem a Lei Básica. O Chefe do Executivo reiterou ainda que a alteração à Constituição da República Popular da China aprovada em 2018 reforçou a liderança do Partido Comunista da China (PCC) e que respeitar a constituição é uma obrigação de todos os chineses. “Seguindo a constituição da República Popular da China não haverá problema. A clarificação da posição do PCC [aponta] que, enquanto chinês, existe o dever de respeitar a constituição. Esta é a mínima exigência”, reforçou. Críticas são bem-vindas Na mesma ocasião, Ho assegurou também que a liberdade de expressão não foi restringida e que não existem contradições em relação ao afastamento de actuais deputados por críticas feitas ao Governo. Pelo contrário, defendeu, se o desempenho do Governo está abaixo do expectável, deve ser criticado “Não há problema em criticar o Governo. O Governo está disponível para aceitar as críticas. Por exemplo, eu estive 10 anos na Assembleia, e muitos deputados ralharam com o Governo, criticaram-no e eu sempre o aceitei, nunca deixei de o permitir. Quando o Governo não faz os trabalhos devidos, aceita as críticas. Não é por criticar o Governo que nós não os deixamos participar nas eleições. Esse não é um critério”, disse o Chefe do Executivo, segundo a mesma fonte. Segundo o canal chinês da TDM-Rádio Macau Ho Iat Seng enfatizou ainda que “nunca se opôs ao sufrágio universal”, mas que a sua implementação não pode ser imediata, pois está dependente do contexto.
Hengqin | Macau vai receber “boas notícias” do Governo Central Pedro Arede e Nunu Wu - 23 Jul 2021 O Chefe do Executivo revelou que o Governo Central vai anunciar em breve uma “boa notícia” relacionada com a zona de cooperação entre Guangdong e Macau em Hengqin. Segundo a imprensa em língua chinesa, o presente poderá passar pela autorização de aquisição por arrendamento do território da Ilha da Montanha Há boas notícias no horizonte. O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, revelou ontem à margem da cerimónia de abertura do 12.º Fórum Internacional sobre o Investimento e Construção de Infra-estrutura, que o Governo Central irá oferecer, em breve, uma prenda a Macau relacionada com a zona de cooperação aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin (Ilha da Montanha). “Sobre a zona de cooperação, temos que esperar pelo Governo Central, mas é uma boa notícia. Não sei quando vai ser anunciada, mas está para breve. Se não for este mês, será no próximo, esperamos. Apenas nessa altura será possível divulgar o conteúdo”, apontou o Chefe do Executivo. Aos jornalistas, Ho Iat Seng pediu paciência, assegurando que a informação será divulgada num curto espaço de tempo, de acordo com os timings do Governo Central. Segundo avançaram ontem alguns órgãos de comunicação social em língua chinesa, como Exmoo e Click2Macau, a “grande prenda” poderá passar pela autorização de aquisição por arrendamento, total ou parcial, do território da Ilha da Montanha, materializando a delegação de poderes na RAEM para o exercício de jurisdição na região, à semelhança do que acontece na Universidade de Macau. Segundo as publicações, as informações foram reveladas por algumas fontes que não se quiseram identificar. Momentos antes, na inauguração do Fórum Internacional sobre o Investimento e Construção de Infra-estrutura, Ho Iat Seng já tinha referido à Ilha da Montanha, para dizer que serão feitos esforços ao nível do desenvolvimento de algumas áreas como a medicina tradicional chinesa ou a indústria financeira moderna. “[Iremos desenvolver] diversas indústrias, designadamente a indústria da saúde vocacionada para a investigação, o desenvolvimento e produção de medicamentos tradicionais chineses, a indústria financeira moderna, a indústria da tecnologia de ponta, as indústrias de convenções e exposições e comercial, e as indústrias cultural e desportiva. Iremos igualmente incentivar a construção da zona de cooperação aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, enquanto nova plataforma promotora do desenvolvimento adequado e diversificado da economia de Macau”, referiu. Escrito nas estrelas Por ocasião da apresentação do Relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) 2021, foram feitas inúmeras referências com o objectivo de acelerar a construção da zona de cooperação aprofundada em Hengqin, nomeadamente “nos domínios do turismo, da investigação, da inovação e do bem-estar da população”. As LAG 2021 prevêem mesmo que seja iniciada uma “nova etapa na exploração de Hengqin”, concretizada com uma “mentalidade aberta e inovadora” e dotada das vantagens dos “dois sistemas”, em convergência com as regras internacionais. Com o objectivo de promover a diversificação económica de Macau e a “abertura do país” será feita uma aposta no turismo, na saúde, na integração de serviços públicos e na construção do projecto “Novo Bairro de Macau”.
Tóquio2020 | Arrancam hoje uns dos mais estranhos Jogos Olímpicos da Era Moderna João Luz - 23 Jul 2021 Realiza-se hoje a cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos Tóquio2020, com o habitual cortejo das comitivas dos países participantes e quatro horas de espectáculo. Tudo o resto será inédito nestas olimpíadas, das medidas sanitárias, à ausência de público, passando pela possibilidade de cancelamento e o estado de emergência em Tóquio. Até ontem, a organização dava conta de mais de 90 infecções de covid-19 entre pessoas credenciadas para os jogos, enquanto Tóquio Ao final da tarde de hoje, 19h de Macau, arrancam oficialmente os Jogos Olímpicos Tóquio2020. A cerimónia de inauguração terá como palco o novo Estádio Olímpico da capital japonesa, e seguirá o protocolo tradicional com a abertura oficial a cargo do Imperador Naruhito, seguido dos juramentos da praxe e da habitual parada das comitivas de todos os países participantes. A primeira nação a entrar no Estádio Olímpico será, como dita a tradição, a Grécia, seguida de uma comitiva de atletas refugiados e dos restantes países por ordem alfabética do país organizador. O cartaz prossegue com a apresentação de uma série de espectáculos. A grande diferença para as edições anteriores é a ausência de público nas bancadas e as medidas sanitárias de controlo da propagação da covid-19. Como não poderia deixar de ser, a pandemia tem sido o foco principal das olimpíadas, depois de adiamento no ano passado, dos protestos contra a realização e dos múltiplos casos de infecção. Aliás, o próprio chefe do comité organizador do Tóquio2020 Toshiro Muto, afirmou na quarta-feira que não excluía a possibilidade do cancelamento dos Jogos Olímpicos, que estaria atento aos números de infecção. Importa referir que mais de 90 pessoas credenciadas para as olimpíadas testaram positivo à covid-19 antes da cerimónia de abertura. Além disso, a capital japonesa atravessa um novo pico de infecções, com o registo de 1.832 novos casos na quarta-feira. A cidade anfitriã dos Jogos Olímpicos vive, neste momento, o seu quarto estado de emergência, que se manterá até 22 de Agosto, abrangendo a duração total dos Jogos Olímpicos, que terminam a 8 de Agosto. Especialistas da área da saúde alertaram que o número de novos casos de infecção pelo coronavírus em Tóquio vai agravar-se nas próximas semanas. O médico Norio Ohmagari, membro do painel de especialistas do governo da área metropolitana de Tóquio, considera que a média diária de casos na capital poderá atingir cerca de 2.600 em duas semanas, se continuarem a surgir ao mesmo ritmo. Apesar de tudo, o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) Thomas Bach afirmou na quarta-feira que o cancelamento “nunca foi uma opção”. Portugueses na aldeia olímpica “Se há um país que consegue organizar uns Jogos Olímpicos no meio desta pandemia é o Japão. Na semana de treinos em Kaga era ridículo o pormenor a que chegavam”, elogiou Rui Bragança, representante único do taekwondo luso em Tóquio2020. O atleta vimaranense, que também é médico, recordou a zona isolada em que a comitiva viajou no avião, com direito a instalações sanitárias privadas, e contou que, já no Japão, os guias “controlam tudo”, para que nada falhe em termos de segurança sanitária. “Os nossos guias controlavam tudo ao máximo. Todos os voluntários fazem tudo por tudo para as regras serem seguidas. Fui treinar ao local oficial e estava tudo desinfectado, com divisórias no ringue e tudo. Estes Jogos Olímpicos são uma amostra de que com esforço e dedicação tudo é possível”, vincou o lutador, que compete amanhã. A judoca Catarina Costa, igualmente formada em medicina, garante que se tem sentido “bastante segura” na aldeia olímpica, uma vez que “quase todos os atletas cumprem as regras”. “É raro ver alguém sem máscara. Tenho alguma preocupação extra e evito estar tão perto de outras pessoas, como no refeitório. Está tudo a correr muito bem e todos estão a tomar as devidas medidas”, assegurou a atleta, oitava classificada no ‘ranking’ de qualificação na categoria de -48 kg, que também se estreia amanhã. O nadador José Paulo Lopes, de apenas 20 anos, entende que a pandemia “está controlada” na aldeia olímpica, uma vez que “quase toda a gente cumpre com os requisitos”. “Não nos afecta assim tanto, pois já estamos habituados a viver assim. Não foge à normalidade que estamos a viver em Portugal”, desdramatizou o bracarense, que vai competir nos 800 metros livres e 400 metros estilos. Se a segurança em termos de saúde pública não é preocupação para estes competidores lusos, já a falta de público limita um pouco a experiência e até a preparação. Por exemplo, no Rio2016, Júlio Ferreira, que falhou a qualificação, foi parceiro de treino de Rui Bragança, situação que se repete agora em Tóquio2020, com a diferença do companheiro não poder, desta vez, ficar instalado no complexo que alberga os competidores. “A família e amigos que não vieram (…), mas isso até pode ser motivação extra, pois continuaram a apoiar-nos neste ano e meio. Nos momentos mais difíceis estiveram sempre lá e agora vamos lutar por eles. As bancadas estão vazias, mas eles estão em casa de madrugada a gritar por nós”, disse o nono classificado no Rio2016. Glória ao pescoço Portugal chega a Tóquio2020 com o judoca Jorge Fonseca com o estatuto de bicampeão do mundo de -100 kg e outros ‘vices’, como os irmãos velejadores Diogo Costa e Pedro Costa, o marchador João Vieira, a lançadora Auriol Dongmo e a surfista Yolanda Sequeira. Também Pedro Pichardo detém a melhor marca mundial no triplo salto, numa lista de ‘candidatos’ que tem de incluir o canoísta Fernando Pimenta e a judoca Telma Monteiro, ambos já medalhados, mas também o skater Gustavo Ribeiro, a selecção de andebol e o ‘eterno’ Nelson Évora, o único campeão olímpico português em actividade, apesar dos recentes resultados menos positivos. “O ano de 2019 foi muito forte com resultados em Mundiais. Também não deixámos de ser mais ambiciosos quando assinámos o contrato-programa do que aquilo que já tínhamos logrado alcançar, com uma medalha em cada uma delas. Contratualizámos duas medalhas para Tóquio, e essa ambição foi sendo acompanhada pelos resultados conquistados”, afirmou o Chefe de Missão de Portugal, Marco Alves. O presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Manuel Constantino, admitiu que esperava o apuramento de atletas em karaté, tiro e futebol, ficando, por isso, aquém do objectivo de 19 modalidades em prova nesta edição dos Jogos Olímpicos. “Estou satisfeito em relação aos objectivos atingidos, de número de atletas, percentagem de género, tínhamos estabelecido como limite os 60 por cento de homens. Com algumas boas surpresas que o apuramento suscitou, como a questão do andebol, as duas mulheres no surf, o jovem das águas abertas [Tiago Campos], mas não estou satisfeito relativamente ao número de modalidades previstas”, afirmou. O presidente do COP considera que o valor da missão “está em linha” com a apresentada no Rio2016, onde Portugal conquistou uma medalha de bronze, pela judoca Telma Monteiro, e 10 diplomas (classificações entre o quarto e oitavo lugares), confirmando que as expectativas de resultados estão “em consonância com essa avaliação”. Dias bizarros “[Vão ser] uns Jogos estranhos, difíceis, muito diferentes do que estamos habituados, porque os constrangimentos, limitações, dificuldades estabelecidas criam-nos a expectativa de que as coisas vão correr bem, mas num quadro completamente diferente”, advertiu o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP). Apesar das dificuldades anunciadas, e da oposição por parte da maioria da população japonesa, Constantino disse esperar que as exigências sejam amenizadas. Na véspera do início dos Jogos Olímpicos, Tóquio parece viver alheado do maior evento desportivo do mundo, algo só possível numa sociedade altamente respeitadora, face a um vírus que levou ao inédito adiamento da competição. As 43 infraestruturas alocadas aos Jogos Olímpicos estão devidamente ‘protegidas’ dos japoneses, impedidos de assistir ao evento presencialmente – depois de já ter sido negada essa possibilidade aos estrangeiros -, pelo que o habitual ‘circo’ olímpico, que apaixona milhões, funciona absolutamente fechado, como nunca aconteceu. Os XXXII Jogos vão ter bancadas despidas de entusiasmo, ficando entregues somente a atletas, dirigentes, árbitros, jornalistas, organizadores e milhares de voluntários, transformando o evento global e agregador de culturas e povos num produto, apenas e só, mediatizado. Pela primeira vez desde a primeira edição, em Atenas1896, não haverá o que os Jogos têm de mais especial, o intercâmbio e partilha entre culturas, em espírito de tolerância, compreensão e harmonia, enquanto são desafiadas as melhores aptidões do Homem. Com ou sem o mais puro espírito olímpico, serão cerca de 11.000 os desportistas a lutarem pela honra de ser um dos 339 campeões olímpicos, em provas distribuídas por 33 modalidades. De Portugal viajaram 92 atletas, em representação de 17 desportos, com o objectivo de atingirem, pelo menos, duas medalhas, 12 diplomas, com lugares até ao oitavo, bem como 26 resultados até ao 16.º. A esperança lusa O atletismo é a modalidade com mais portugueses em prova, com 20 atletas, um acima de Pequim2008, mas longe dos 24 no Rio2016 e dos 25 em Londres2012. Aos 37 anos, Nelson Évora, campeão no triplo salto em Pequim2008, vai estar pela quarta vez nos Jogos Olímpicos, depois de um sexto lugar no Rio2016 e do 40.º em Atenas2004, tendo falhado Londres2012 por lesão. Também Pedro Pablo Pichardo e Patrícia Mamona, que se sagraram campeões europeus em pista coberta, asseguraram a presença no triplo salto, tal como os estreantes Evelise Veiga e Tiago Pereira. Auriol Dongmo, campeã continental em pista coberta, vai participar no lançamento do peso, assim como Francisco Belo e Liliana Cá, no disco, novatos em Jogos. João Vieira, aos 45 anos, vai estar nos 50 quilómetros marcha, na sexta vez em Jogos — apesar de qualificado, por motivos de doença, não chegou a participar na prova de marcha (20 km) em Sydney2000 —, tornando-se no segundo luso com mais presenças, a uma do velejador João Rodrigues. Ainda na marcha, Ana Cabecinha assegurou a quarta participação olímpica e na maratona Portugal estará representado por Carla Salomé Rocha, Sara Catarina Ribeiro e Sara Moreira. A estes nomes juntam-se Salomé Afonso, nos 1.500 metros, distância a que regressa Marta Pen, 36.ª no Rio2016. Carlos Nascimento estreia-se nos 100 metros, assim como Ricardo dos Santos nos 400, distância que Cátia Azevedo, 31.ª no Rio2016, volta a correr. Irina Rodrigues, que falhou Rio2016 por lesão, também se qualificou, e Lorene Bazolo, a mulher mais rápida de Portugal e que também já foi aos Jogos pelo Congo, somou aos 100 metros por marca os 200 por ‘ranking’. Transmissão grátis A cerimónia de inauguração do Tóquio2020 é transmitida hoje às 19h na TDM. O HM tentou apurar junto do Gabinete de Comunicação Social se o Governo da RAEM terá pago para transmitir os Jogos Olímpicos na TDM. O organismo liderado por Inês Chan revelou que relativamente ao “acordo entre a TDM e o China Media Group para a transmissão dos Jogos Olímpicos de Tóquio e dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, tratou-se de uma das políticas do Governo Central favoráveis a Macau e os direitos de transmissão são gratuitos”. Com Lusa e J.S.F.
Autores de livros infantis detidos em Hong Kong por alegada sedição Hoje Macau - 22 Jul 2021 Cinco membros de um sindicato de terapeutas da fala de Hong Kong foram detidos, acusados de sedição, por uma série de livros infantis sobre uma aldeia de ovelhas que resiste aos lobos, disse hoje a polícia. As detenções foram efetuadas pela unidade de polícia responsável pela aplicação da lei da segurança nacional. De acordo com a agência de notícias France-Presse (AFP), as autoridades acusam três mulheres e dois homens, com idades entre os 25 e 28 anos, de “conspirar para publicar, distribuir, mostrar ou copiar publicações sediciosas”. Segundo as autoridades, o grupo procurou “incitar o ódio do público, especialmente das crianças pequenas, contra o Governo e o poder judicial de Hong Kong, e encorajar a violência e as ações ilegais”, escreveu a polícia, em comunicado. Os cinco detidos fazem parte do Sindicato Geral de Terapeutas da Fala de Hong Kong, disse fonte policial à AFP. A polícia disse ainda que congelou 160.000 dólares de Hong Kong. O sindicato publicou nos últimos meses três livros eletrónicos ilustrados, com o objetivo de explicar o movimento pró-democracia às crianças, descrevendo os militantes como ovelhas que vivem numa aldeia rodeada de lobos. O primeiro livro, intitulado “Os protetores da Aldeia das Ovelhas”, explica a enorme mobilização popular em Hong Kong, em 2019, contra uma lei de extradição que permitiria que suspeitos de crimes fossem enviados para a China para enfrentar acusações. O segundo, “Os Guardiões da Aldeia das Ovelhas”, conta a história de uma greve lançada pelo pessoal de limpeza da aldeia para protestar contra os lobos, que deixam resíduos por todo o lado. Na introdução, explica-se que se trata de uma referência à greve que o pessoal médico de Hong Kong iniciou em 2020 para exigir o encerramento das fronteiras com a China continental, a fim de proteger o território, no início da pandemia. A última obra, “Os 12 corajosos da Aldeia das Ovelhas”, sobre um grupo que foge de barco, para escapar aos lobos, é uma referência clara aos 12 ativistas pró-democracia, incluindo o luso-chinês Tsz Lun Kok, detidos em agosto de 2020, quando a lancha em que seguiam com destino a Taiwan, onde procuravam asilo, foi interceptada pela guarda costeira chinesa.