Fotografia | Pandemia é o mote para nova edição do concurso promovido pela Somos!

A Somos! – Associação de Comunicação em Língua Portuguesa lança, em Fevereiro, uma nova edição do seu concurso anual de fotografia, intitulado “Somos – Imagens da Lusofonia”. Em ano de pandemia o tema não podia ser outro e, por isso, são aceites imagens que se subordinem à temática “Alma lusófona em tempos de covid-19”

 

É já a partir do próximo mês que a associação local Somos! lança a terceira e nova edição do seu concurso de fotografia, desta vez com o tema “Alma lusófona em tempos de Covid-19”. Segundo um comunicado divulgado pela associação, as fotografias a concurso devem “ser capazes de espelhar o combate à doença dentro do universo lusófono, as dificuldades enfrentadas, as perdas, as mudanças profundas trazidas pela covid-19, designadamente em termos culturais, mas podem também exaltar actos de altruísmo, de coragem, de resistência, de fé, e de compaixão nestes tempos difíceis”. A inscrição no concurso fotográfico é gratuita e pode ser efetuada através do formulário que se encontra no website da Somos! (www.somosportugues.com) entre 1 e 28 de Fevereiro de 2021.

Desta forma, este concurso “procura documentar através de imagens o combate à doença nas comunidades dos países de língua portuguesa e em Macau, bem como as transformações socio-culturais que originou”.

O júri do concurso irá depois escolher três vencedores, com prémios que variam entre as 3.500 patacas para o último classificado e dez mil patacas para o vencedor. O concorrente que ficar em segundo lugar ganha um prémio no valor de cinco mil patacas. O concurso destina-se a todos os cidadãos dos países e regiões da lusofonia ou residentes de Macau que possuam fotografias de qualidade, e enquadradas com o tema selecionado, tiradas em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Goa, Damão e Diu.

Exposição em Março

Escolhidos os vencedores, a Somos! irá, ainda este ano, organizar uma exposição com as imagens seleccionadas entre os dias 26 de Março e 10 de Abril, com a curadoria do fotógrafo António Mil-homens. O júri é constituído por fotógrafos como Gonçalo Lobo Pinheiro, residente em Macau; José Carlos Carvalho, de Portugal; Raphael Alves, do Brasil; Roy Choi, de Macau e Miguel A. Lopes, de Portugal.

A exposição integra também outras fotografias seleccionadas pelo júri “pela sua relevância ou valor para o tema do concurso fotográfico e para o propósito da Somos!, bem como o papel de Macau enquanto plataforma”.

Uma vez que, o ano passado, não foi realizada a exposição de fotografia relativa à segunda edição do concurso, a associação decidiu adicionar essas fotografias na exposição de Março, bem como “outras relevantes do concurso anterior”.

Casal detido por assaltar um apartamento

Um casal oriundo da China continental foi detido por suspeitas de furtar um apartamento na zona do NAPE. Segundo o jornal Ou Mun, o homem terá assaltado uma residência no dia 18 de Novembro do ano passado, subtraindo um anel de diamantes, joalharia em ouro e dinheiro, com o valor total de 170 mil patacas.

O suspeito foi visto a entrar e sair do prédio onde se verificou o assalto, tendo permanecido no edifício cerca de 45 minutos. Segundo informações veiculadas pela Polícia Judiciária, o casal terá saído da RAEM, regressando cerca de dois meses depois, sob vigilância das autoridades. Os suspeitos acabaram por ser detidos numa altura em que se preparavam, de acordo com videovigilância, para assaltar outra residência no NAPE.

As autoridades revelaram que a mulher tinha em sua posse, à altura de detenção, o anel e a joalharia em ouro, produto do assalto de Novembro, além de outros artigos de dinheiro, anéis, um relógio e ferramentas para forçar fechaduras.

Caso Sautedé | Tribunal dá razão à USJ, mas académico recorre da decisão

O Tribunal Judicial de Base deu razão à Universidade de São José no caso do despedimento de Eric Sautedé, professor de ciência política, em 2014. Os juízes entenderam que o despedimento foi “legítimo”, porque defendeu os valores da instituição e que não esteve em causa uma violação da liberdade académica ou de expressão. Éric Sautedé vai recorrer da decisão para o Tribunal de Segunda Instância

 

Os juízes do Tribunal Judicial de Base (TJB) entenderam que o despedimento sem justa causa de Éric Sautedé da Universidade de São José (USJ) foi “legítimo” e que em nenhum momento esteve em causa uma violação da liberdade académica. Esta é, assim, mais uma derrota para Éric Sautedé, que desde 2014 trava uma batalha na justiça contra a instituição de ensino superior privada.

A decisão do TJB foi ontem tornada pública depois da leitura das alegações finais do caso em Novembro. Foi o próprio académico que divulgou a decisão através de um comunicado publicado nas redes sociais, prometendo agora recorrer da mesma para o Tribunal de Segunda Instância (TSI).

“Claramente, apesar de aceitar a sentença na primeira instância, depois de seis anos, não tenho outra escolha se não recorrer”, frisou. Também o advogado de Sautedé, Miguel Quental, confirmou o recurso, declarando apenas que a decisão do TJB é “injusta”.

Um dos argumentos usado pelos juízes do TJB, descrito no comunicado de Sautedé, é que “as declarações públicas feitas pelo reitor [da USJ, à data, Peter Stilwell] como as verdadeiras razões apontadas por mim para a minha saída são totalmente irrelevantes e que foi perfeitamente legítimo despedir-me sem justa causa”. Além disso, “as leis e regulamentos relacionados com ‘discriminação’ não se aplicam mesmo que o reitor tenha ‘confessado’ várias vezes as verdadeiras ‘razões’, de forma oral e escrita, aos jornalistas, público e ao juiz”, descreveu.

A decisão do TJB também afasta a conotação da violação de liberdade académica que desde o início esteve associada ao despedimento do docente. Segundo Sautedé, o acórdão refere que “a liberdade académica e de expressão, garantidas na Lei Básica, não foram infringidas, uma vez que o reitor não me proibiu de fazer comentários políticos”. “Se a demissão não é uma restrição, façam-no em outro lugar!”, comentou.

Manter os “valores” da USJ

O acórdão refere também que o despedimento sem justa causa “foi a forma correcta de proceder” para que a USJ “pudesse defender os seus valores fundamentais”. Eric Sautedé recorda o facto de nunca ter feito comentários políticos em contexto de sala de aula.

O TJB entendeu ainda não estar em causa “abuso de direitos” por parte da USJ em matéria laboral, uma vez que foi atribuída uma indemnização equivalente a cinco semanas de salário e 30 dias. “Obviamente que isto é mais do que suficiente”, ironizou Sautedé sobre a decisão.

A defesa de Sautedé alegou o incumprimento das convenções da Organização Internacional do Trabalho neste caso, mas o TJB não teve o mesmo entendimento. Os juízes defendem que convenções “não têm qualquer validade uma vez que não foram adaptadas às leis locais”.

Sautedé adiantou ainda que o TJB considerou não haver “responsabilidade civil ou irregularidade” e que não houve danos à reputação do docente, uma vez que este “poderia empregar-se depois [do despedimento]”. Um argumento sempre contestado por Sautedé e por um amigo do docente que, em tribunal, disse que este esteve em vias de ser contratado pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, mas que tal nunca aconteceu.

Ao HM, o advogado de defesa da USJ, Filipe Regêncio Figueiredo, disse concordar com a decisão dos juízes do TJB. “Ainda não li o acórdão todo, mas a decisão parece-me justa e correcta atendendo à legislação de Macau.” Questionado sobre o facto de não estar em causa uma violação do direito à liberdade de expressão e académica, o causídico diz que a lei de Macau é clara no que diz respeito aos despedimentos sem justa causa.

“Concordo com o tribunal. A partir do momento em que a lei permite despedir uma pessoa sem justa causa, não tem de haver uma razão para legalmente se poder despedir alguém. Não se pode invocar princípios de liberdade de expressão ou do direito ao trabalho porque a lei permite isso.”

Éric Sautedé vive actualmente em Hong Kong, onde possui a sua própria empresa, além de colaborar com o portal Planet Labor – Employment Relations Intelligence.

Escritório de Frederico Rato ensina Direito de Macau em Portugal

Há três anos que o escritório de advocacia fundado por Frederico Rato tem presença em Portugal e a sua actividade só parou mais por causa da pandemia. A assessoria feita aos investimentos do empresário Kevin Ho em Portugal levou a Lektou ajudou a criar um escritório permanente no país, mas há outros projectos, tal como a formação em Direito de Macau e do jogo na Universidade Católica Portuguesa

 

De Macau para a Ilha de Hengqin e depois para Portugal. O salto feito pelo escritório de advocacia fundado por Frederico Rato, o Lektou – Rato, Ling, Lei & Cortés – Advogados e Notários, para uma presença permanente em Portugal fez-se há três anos perante o aumento de investimentos e do interesse no país, na área do imobiliário mas a nível empresarial.

Mas nem só de negócios vive o escritório, que assinou um protocolo com a Universidade Católica Portuguesa (UCP) que visa o ensino do Direito de Macau e do jogo no âmbito da licenciatura em Direito, que conta com muitos alunos de Macau.

Óscar Madureira, advogado da Lektou em Portugal, fala de uma aposta ganha. “Existem mais de cem estudantes na UCP mas estudam o Direito português. Quando regressam a Macau não têm a formação de base em Direito de Macau, e o nosso escritório teve essa preocupação”, disse ao HM.

Mas não são apenas os alunos de Macau que se inscrevem nas aulas. “Em três anos tem havido imenso interesse por parte dos alunos portugueses sobre a realidade de Macau e isso orgulha-nos”, frisou.

Frederico Rato faz um balanço “muito positivo” destes três anos em Portugal, apesar das “vicissitudes do último ano” provocadas pela pandemia da covid-19. “Pretendemos reforçar a nossa presença na Grande Baía e nos países de língua portuguesa, quer através do estabelecimento de um escritório próprio, quer com o estabelecimento de joint-ventures”, descreveu.

O trabalho com Kevin Ho

Os investimentos feitos pelo empresário de Macau Kevin Ho em Portugal, nomeadamente no grupo Global Media e na aquisição do edifício do Jornal de Notícias (JN) na cidade do Porto levaram a Lektou a firmar-se no país. “Não negamos que foi a vontade de investir em Portugal por parte de alguns empresários de Macau que deu o empurrão decisivo para a estratégia de internacionalização para essa jurisdição”, admitiu Frederico Rato.

Também Óscar Madureira apontou que os investimentos de Kevin Ho levaram a Lektou a pensar em abrir um escritório de forma permanente e foi mesmo “a pedra de toque” em todo o processo de mudança. Quanto ao processo relacionado com a transformação do edifício do JN num hotel de cinco estrelas, continua à espera do licenciamento por parte da Câmara Municipal do Porto.

“Esse projecto está em curso, mas não há uma data para a inauguração do hotel. Aguardamos pelo licenciamento do projecto”, disse.

Outra área com a qual a Lektou tem trabalhado é com os vistos gold. Óscar Madureira nota que “ainda existe algum interesse” por parte de residentes de Hong Kong para investir e viver em Portugal, mas menos do que há uns meses.

“Esse interesse já foi mais efectivo, provavelmente por causa dos vistos para o Reino Unido, e isso fez afastar um pouco a curiosidade e o apetite para investir em Portugal.”

Frederico Rato defende que “Portugal continuará a ser um destino apetecível para investimento por parte de investidores de Hong Kong, de Macau, da China e de outras paragens, não obstante as recentes alterações na legislação portuguesa nesta matéria”.

A Lektou está também a trabalhar na liberalização do jogo no Brasil. “Estabeleceram-se contactos importantes e temos, nesta altura, no escritório uma equipa que se pretende cada vez mais especializada nesta área de prática”, disse Frederico Rato.

O advogado destaca a evolução que a Lektou teve em 35 anos de existência desde a sua fundação com o já falecido Francisco Gonçalves Pereira. “Aquilo que foi preconizado pelo meu amigo e por mim antes de 1999, com altos e baixos e vicissitudes de vária ordem, teve sucesso e pensamos que estrategicamente podemos replicar noutras jurisdições e mercados, cumprindo o papel de Macau”, rematou.

Agnes Lam defende uso de vales de saúde para seguros

A deputada Agnes Lam defendeu, em interpelação escrita entregue ao Governo, que deve ser ponderado, a curto prazo, o uso de vales de saúde para a aquisição de seguros de saúde no privado. “Vai o Governo adoptar, a curto prazo, medidas como permitir que os residentes utilizem os vales de saúde para a aquisição de seguros de saúde privados e aumentar o valor dos vales de saúde destinados a toda a população ou apenas aos idosos e deficientes?”, questionou.

Agnes Lam defendeu também a realização de uma consulta pública sobre as conclusões do estudo desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau, intitulado “Pesquisa do sistema de segurança médica de Macau”, e que foi tornado público em 2019. “O Governo tem de acompanhar as medidas propostas e iniciar, o quanto antes, uma consulta pública para recolher as opiniões da sociedade”, disse a deputada, que lembrou que há cada vez mais procura pelo serviço público de saúde.

“Nos últimos seis anos (2014-2019) o número de utentes das instituições públicas de saúde aumentou de 650,1 mil para 939 mil. Nos consultórios privados o número de utentes diminuiu de 3,327 milhões para 3,173 milhões. Isto demonstra que os utentes tendem a recorrer às instituições de saúde públicas e que a triagem dos serviços de saúde, tanto de públicos como de privados, carece ainda de melhorias.”

Saúde mental | Chan Hong pede mais psicólogos e terapeutas nas escolas

A deputada Chan Hong interpelou o Governo sobre a necessidade de reforçar o número de psicólogos, assistentes sociais e outros terapeutas nas escolas a fim de lidar com o aumento dos problemas de saúde mental nos jovens, além da implementação de outras medidas.

“Faltam dados oficiais sobre a saúde psicológica dos alunos. Porém, segundo o ‘Inquérito sobre o grau de felicidade e pressão dos estudantes de Macau’, efectuado por uma associação de jovens em 2019, quase cinco por cento dos alunos inquiridos apresentaram sintomas de depressão moderada e cerca de 13 por cento apresentaram sintomas de stress moderado”, apontou.

Estes números podem explicar-se com o facto de, nos últimos anos, se ter registado “um aumento das famílias monoparentais ou em que ambos os cônjuges trabalham, pelo que são cada menos os cuidados e a educação em família”. “Alguns alunos apresentam problemas de comportamento, instabilidade psicológica e há até registo de automatizações”, descreveu a deputada.

Chan Hong frisou o facto de, nos últimos anos, se registarem “casos sucessivos de suicídio envolvendo jovens alunos, uma situação preocupante”. Além disso, faltam profissionais, uma vez que “os assistentes sociais destacados nas escolas são contratados com financiamento da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude e o rácio é de 1 para cada 500 alunos e 1,5 para cada 1000”, números que “não são suficientes para a maioria das escolas”.

Plano de videovigilância em mercados públicos foi suspenso

Face a preocupações dos deputados com as câmaras de videovigilância nos mercados públicos, o Governo respondeu que o plano de instalação foi suspenso e que vai fazer ajustes, seguindo a lei da protecção de dados pessoais. Um dos alertas foi a existência de câmaras no Bairro do Iao Hon viradas para bancas de vestuário

 

O plano de instalação do sistema de videovigilância nos mercados públicos foi suspenso pelo Instituto de Assuntos Municipais (IAM). A informação foi ontem avançada pelo presidente da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, no seguimento de uma reunião com representantes do Governo. “Todos nós queremos saber como será tido em conta o princípio de adequabilidade e, por isso, o Governo disse que vai então reponderar todo o plano de instalação do sistema de videovigilância”, disse Ho Ion Sang.

A proposta de lei sobre o “Regime de gestão dos mercados públicos” inclui que o IAM pode fazer gravação em vídeo nesses espaços para efeitos de fiscalização. Em Dezembro do ano passado, os deputados levantaram dúvidas quanto à utilização de gravação em vídeo para efeitos de fiscalização, por existirem outras leis a regular a matéria, para além de ser preciso seguir a lei de protecção de dados pessoais.

As preocupações foram novamente manifestadas ontem. “Se em cada banca [houvesse] uma câmara de videovigilância, isso seria adequado? (…) Não será um gasto muito volumoso para o erário publico?”, observou Ho Ion Sang. O trabalho preliminar para instalação de câmaras já tinha avançado em alguns locais, como o Bairro Iao Hon e o mercado de São Lourenço, mas foi, entretanto, suspenso.

Ângulo de observação

Durante o encontro com o Governo, os deputados apresentaram questões levantadas por arrendatários dos mercados. “O número de câmaras já instaladas e os locais [de instalação] podem levar a alguma preocupação, quer dos arrendatários quer dos residentes. Por exemplo, o mercado no Bairro Iao Hon tem algumas câmaras de vigilância viradas para as bancas que vendem vestuário”, comentou o presidente da Comissão.

Entre opiniões de arrendatários e de deputados, a conclusão é de que as câmaras já instaladas “são muitas”, tendo o Governo dito que vai “ajustar” o seu número. De acordo com Ho Ion Sang, os membros da Comissão concordam com a instalação do sistema de videovigilância, por entenderem que “é bom para facilitar o trabalho dos fiscais do IAM”. Também consideram ser positivo para os arrendatários, nomeadamente em caso de conflito com fiscais, situações em que “as imagens captadas poderão servir de prova”. Mas deixa um alerta: “há que ter em conta um princípio de adequabilidade na instalação do número de câmaras de videovigilância”.

O IAM comprometeu-se com alterações. “O Governo concordou por isso em fazer um ajustamento do número de câmaras e também seguir o disposto da lei da protecção de dados pessoais, encontrando aqui um equilíbrio”, notou o deputado. Dados sobre quantas câmaras vão ser instaladas no futuro foram remetidos para as próximas reuniões.

Colina da Penha | Novo Macau contra “exterminadores de paisagem”

A Associação Novo Macau (ANM) voltou a manifestar a sua insatisfação com a aprovação dos dois projectos para edifícios na zona do lago Nam Van, com alturas máximas entre os 34,1 e os 50,8 metros. Em comunicado, defende que o Governo actual deve ser apelidado de “exterminador de paisagem”. A associação considera que a construção destes edifícios vai destruir a paisagem ‘colina-mar-cidade’ histórica e cultural da Colina da Penha. “A atitude dominadora do Governo magoa os sentimentos de muitas pessoas que amam Macau”, descreveu a ANM.

A Novo Macau observou que o Governo não revelou o relatório de avaliação de impacto paisagístico e os dados de investigação, e critica uma repetição de explicações. O comunicado denuncia que “os dois projectos carecem de base científica e apoio popular”. Além disso, acrescenta que a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes e o Instituto Cultural reconheceram que no futuro não haverá uma vista desimpedida de todo o mar a partir da Colina da Penha. Entre as críticas, aponta ainda que o Governo teve “desconsideração” pelo processo de consulta do Plano Director.

Face ao resultado, a associação apelou aos cidadãos com apreço pela cidade para permanecerem “persistentes” e “constantemente vigilantes”. “Devemos proteger a nossa cultura local e os tesouros em Macau, e pressionar por desenvolvimento sustentável”, remata o comunicado.

Governo propõe que detenção de imigrantes ilegais possa chegar a dois anos

O prazo de 60 dias para detenção de imigrantes ilegais passa a poder ser suspenso até que a sua liberdade fique restringida por um máximo de dois anos. É o que propõe o Governo no regime jurídico do controlo de migração

 

O Governo quer alargar para um máximo de dois anos a detenção de imigrantes em situação ilegal, durante o procedimento de expulsão de Macau. Já tinha sido anunciada a vontade de suspender a contagem do prazo actual, que limita as detenções a 60 dias, mas não era conhecido se haveria outros limites temporais.

António Pedro, assessor do secretário para a Segurança, esclareceu ontem que nunca foi intenção do Governo eliminar de vez o prazo actual, mas que a sua rigidez pode acarretar riscos. “No limite, podia implicar ter de libertar uma pessoa ao fim de 60 dias, (…) sem que se soubesse a identidade exacta dessa pessoa. Isto pode representar um perigo em termos de segurança”, referiu.

A proposta do regime jurídico do controlo de migração e das autorizações de permanência e residência na RAEM estipula que o prazo de detenção “não pode, em nenhum caso, exceder o limite de 24 meses contados do início da detenção”.

No documento, prevê-se que seja permitida a suspensão do prazo em vigor, de cerca de dois meses, enquanto o detido estiver impossibilitado de viajar por motivos de doença, desde a data em que se pedem informações a representações diplomáticas da nacionalidade do indivíduo até serem recebidas, ou durante o período necessário para se confirmar a sua identidade. No entanto, a suspensão do prazo fica sujeita a autorização jurisdicional a cada período de 120 dias.

“Estarem ali anos? Não. E por isso, até por instruções do senhor secretário, tomámos por referência a legislação europeia e impomos um prazo de dois anos. Na União Europeia são 18 meses, mas nós considerámos a circunstância especial da Ásia, em que há países que têm grandes dificuldades no seu sistema de registo civil, nos seus arquivos, e pensámos acrescentar um prazo de seis meses de segurança. Mas a garantia está lá, em termos de direitos humanos, [em como] não ultrapassa 24 meses”, explicou António Pedro, em declarações à margem de uma reunião na Assembleia Legislativa.

O assessor do secretário para a Segurança descreveu que o centro de detenção tem “óptimas” condições e apontou que há quartos com capacidade para acolher famílias. As crianças deverão ficar com os pais no centro de detenção.

Pôr pressão

O secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, apontou que há pessoas com permanência caducada que não saem do território e chegam mesmo a rasgar documentos de identificação, o que coloca um entrave à verificação da sua identidade e, consequentemente, à sua deportação. A medida sugerida é apresentada pelo secretário como “uma pressão” para imigrantes ilegais e uma forma de “salvaguardar a segurança de Macau”. Além disso, Wong Sio Chak apontou que outras regiões têm detenções indefinidas, dando Hong Kong como exemplo, e acrescentando que em Macau já existe “um equilíbrio”.

Passados os 24 meses propostos, se o processo de saída do território não estiver concluído, é passada uma certidão de permanência temporária aos indivíduos em causa. “Depois de aprovada essa lei, queremos reduzir essas certidões temporárias”, disse o secretário.

De acordo com um comunicado do Gabinete de Comunicação Social, dados do Corpo de Polícia de Segurança Pública apontam que o centro de detenção localizado no edifício dos Serviços de Migração, no Pac On, tem capacidade para 188 pessoas. A 15 de Janeiro deste mês encontravam-se 30 pessoas detidas no centro, sendo que o custo médio das refeições diárias por pessoa se fixa em cerca de 69 patacas.

Davos | Xi Jinping apela ao fim da arrogância e da mentalidade isolacionista

O Presidente chinês pediu no Fórum Económico Mundial, em Davos, unidade internacional no combate à pandemia e do fim da mentalidade de “nova Guerra Fria” no contexto. Sem nunca mencionar Trump ou Biden directamente, Xi apelou ao reforço a organizações multilaterais e à remoção de barreiras ao comércio internacional, enquanto António Guterres sugeriu uma resposta “verde” para a crise provocada pela covid-19

Com agências 

 

Ao longo desta semana, muitos dos líderes mundiais, políticos e económicos, participam no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, este ano fortemente marcado pela pandemia da covid-19, não só porque as intervenções são on-line, mas também no que toca à agenda.

O fórum deste ano arrancou com discursos de personalidades como Xi Jinping, Christine Lagarde, António Guterres, Anthony Fauci e Greta Thunberg.

Uma das mensagens inaugurais de destaque no arranque da cimeira foi do Presidente da China, incitando os restantes líderes na luta contra o clima de confronto e sublinhando a importância de unidade global no combate à pandemia.

“Construir clãs ou iniciar uma nova Guerra Fria, rejeitar, ameaçar ou intimidar os outros, impor a dissociação, interromper cadeias de abastecimento ou impor sanções para causar isolamento só vai empurrar o mundo para mais divisão e até para o confronto”, alertou Xi Jinping. “O confronto apenas nos conduzirá a um beco sem saída”, concluiu o líder chinês, que apontou a importância deste momento histórico que o mundo atravessa. “As escolhas e as medidas que tomarmos hoje vão moldar a forma do futuro do mundo”, disse o Presidente chinês.

Numa toada de compreensão pela complexidade dos problemas globais, Xi defendeu a aposta forte no multilateralismo e na construção do sentido de comunidade e de futuro partilhado entre todos os povos.

“Multilateralismo assenta na resposta a assuntos internacionais através da consulta de todos, trabalhando em conjunto”, renunciando à mentalidade estreita e egoísta.

Sem mencionar ninguém, em especial Donald Trump ou Joe Biden, Xi Jinping referiu que “decisões políticas não devem ser tomadas simplesmente mostrando músculos fortes ou punhos cerrados”. O líder chinês fez questão de vincar que todos os países têm uma história e cultura única, assim como um sistema social, sem que nenhum seja superior ao outro. “As relações entre estados devem ser coordenadas e reguladas através de instituições e leis próprias. Os mais fortes não devem fazer bullying aos mais fracos”, disse Xi.

Mundo a arder

Além das referências às relações entre países, Xi Jinping não esqueceu os desafios ambientais com que o mundo se depara. Assim sendo, reafirmou o ambicioso compromisso ambiental de Pequim no corte de emissões de carbono em 65 por cento até 2030 e atingir a neutralidade de emissões de carbono até 2060. Ambas as metas têm repercussões globais, uma vez que a China emite um quarto dos gases com efeito estufa em termos globais.

Ainda no capítulo das questões ambientais, a mensagem da jovem activista Greta Thunberg tirou a tónica diplomática dos discursos, muito ao seu estilo. “O meu nome é Greta Thunberg. Não estou aqui para negociar. Reparem, não represento nenhum interesse financeiro ou partido político. Portanto, não posso negociar ou chegar a acordos. Só estou aqui, para mais uma vez, vos recordar da emergência em que nos encontramos. A crise que vocês e os vossos antecessores criaram e nos impuseram. A crise que vocês continuam a ignorar.”

A jovem acusou os líderes mundiais de ignorarem também os protestos de jovens que acorreram a Davos para pedir uma mudança política que renuncie aos combustíveis fósseis, mais especificamente ao seu uso, exploração, investimento e subsídios que promovam a indústria. “Enquanto a ciência for ignorada, factos não forem tidos em conta e a situação não for tratada como crise, o mundo e os líderes dos negócios vão continuar a ignorar a situação”.

Citada pelo The Guardian, a activista ambiental alemã Luisa Neubauer, de 23 anos, anunciou ter participado numa reunião em Davos com o CEO da Siemens, Joe Kaeser, a quem apelou para abandonar o contrato de construção de um caminho-de-ferro num complexo mineiro na Austrália. O projecto é um dos maiores no sector da mineração de carvão. Um grupo de jovens activistas estão em Davos a tentar parar alguns contratos que, alegam, colocar em perigo os objectivos estabelecidos no Acordo de Paris.

Resposta verde

O secretário-geral da ONU António Guterres argumentou no seu discurso que os desafios que o mundo enfrenta podem conter as suas próprias soluções e que a crise económica gerada pela paralisia a que a covid-19 votou a economia global deverá ser respondida seguindo um modelo de “recuperação sustentável”. O ex-primeiro ministro português declarou a urgência de “acabar com a guerra contra a natureza, inverter a catástrofe climática e a restaurar o planeta” e acrescentou que o “objectivo para 2021 é construir uma coligação global para atingir um saldo zero na emissão de dióxido de carbono”.

Além da agenda verde, Guterres apontou a direcção dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, a agenda da ONU que tem 17 metas, como a erradicação da pobreza e da fome, redução de desigualdades, equidade nos direitos civis, entre outros ambiciosos objectivos até ao ano 2030.

“A recuperação inclusiva e sustentável em todo o mundo vai depender da disponibilidade e eficácia das vacinas para todos, do apoio fiscal e monetário imediato em países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento e de medidas de estímulo a longo prazo”, declarou António Guterres.

O responsável português frisou também que apesar de as vacinas estarem a ser distribuídas a um ritmo rápido nos países mais ricos, que o oposto se verifica nos países mais pobres do mundo, desigualdade que importa corrigir.

Adeus Trump

A presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen felicitou os Estados Unidos da América pela nova liderança na Casa Branca e acrescentou estar “satisfeitíssima por terem voltado ao Acordo de Paris”. A dirigente europeia afirmou ainda na sua intervenção no fórum que as redes sociais estão a devorar a sociedade e apelou ao estreitar da regulação das maiores empresas tecnológicas do mundo.

Outro dos destaques do discurso de Ursula von der Leyen foi o argumento de que existem provas científicas que ligam a perda de biodiversidade à pandemia. Muitos destes apelos são entendidos pelos activistas ambientais como palavras ocas, vazias de acção.

O Fórum Económico Mundial, de Davos, prossegue hoje com a intervenção por vídeo do Presidente russo, Vladimir Putin, de quem se espera uma mensagem crítica em relação à possibilidade de imposição de sanções contra a Rússia devido ao tratamento dado pelo Kremlin ao activista da oposição Alexei Navalny.

 

Covid-19 | Presidente da AstraZeneca lamenta falta de colaboração

O presidente da farmacêutica britânica AstraZeneca lamentou a falta de colaboração dos governos no combate à pandemia de covid-19, criticando o comportamento egoísta de alguns países. “Poderia ter sido um momento do género do 4 de Julho, ou dia da independência (dos Estados Unidos), mas infelizmente não foi o caso, porque houve uma ligeira postura de ‘eu primeiro’”, disse o francês Pascal Soriot no Fórum Económico Mundial, em Davos.

As declarações de Soriot foram feitas numa altura em que o seu grupo é questionado na Europa sobre a falta de transparência relativamente aos atrasos nas entregas da sua vacina contra a covid-19.

Soriot não deu exemplos específicos de países, embora a pandemia tenha dado origem a uma corrida mundial para obter acesso o mais rapidamente possível primeiro a equipamentos de protecção e depois a vacinas. “É justo dizer que poderíamos e deveríamos estar globalmente mais bem preparados para esta pandemia”, acrescentou.

“O que não funcionou, a meu ver, foi a colaboração do mundo”, mesmo que evoque “bons exemplos” de ajudas entre os sectores privado e o público, como o caso da vacina de AstraZeneca, desenvolvido com a Universidade de Oxford.

“Mas posso ver que as coisas estão a mudar e que uma colaboração internacional está a surgir”, disse, apelando a que sejam feitos investimentos “em prevenção, detecção e tratamento precoce” para que o sistema de saúde esteja pronto para o futuro.

A AstraZeneca admitiu, no final da semana passada, que as entregas seriam menos numerosas do que o previsto, devido a uma “queda do rendimento” de uma fábrica. A declaração causou preocupação na Europa, que está a correr contra o tempo devido ao aparecimento de novas e mais perigosas variantes do coronavírus que provoca a covid-19.

Analistas dizem que pressão sobre a China vai continuar com Administração Biden

O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, não vai confrontar a China imediatamente, mas a pressão sobre o país asiático deve manter-se, prevêem analistas. Biden parece determinado a abordar as queixas sobre as práticas comerciais da China, que levaram o seu antecessor, Donald Trump, a lançar uma guerra comercial contra Pequim, em 2017.

A administração de Biden deve reduzir o foco de Trump no défice comercial com o país asiático e fazer maior pressão para que a China abra a sua economia, que permanece dominada pelo Estado. Não são esperadas, no entanto, grandes mudanças nas relações entre Washington e Pequim.

“Acho que Biden vai-se concentrar mais em tentar reformas estruturais”, escreveu Louis Kuijs, analista da consultora Oxford Economics, num relatório. Biden está a avaliar as taxas alfandegárias sobre produtos chineses e quer coordenar medidas futuras com aliados, disse a porta-voz da Casa Branca Jen Psakim, na segunda-feira. “O presidente está comprometido em impedir os abusos económicos da China”, disse Jen Psaki.

Washington tem poucos resultados para mostrar com a guerra comercial iniciada por Trump. Esta trouxe o Governo chinês à mesa de negociações, mas turvou o comércio global, aumentou os preços ao consumidor e eliminou empregos.

O último grande desenvolvimento foi há um ano, quando os dois lados assinaram o acordo “Fase Um”, no qual a China se comprometeu a comprar mais produtos aos EUA e a melhorar a proteção dos direitos de propriedade intelectual no país.

A China enfrenta mais oposição do que nunca em Washington devido ao seu histórico comercial, disputas territoriais com vizinhos, repressão em Hong Kong, relatos de abusos contra chineses de origem muçulmana e acusações de roubo de tecnologia e espionagem.

“O terreno mudou de maneira significativa”, disse Nathan Sheets, ex-vice-secretário do Tesouro para assuntos internacionais no governo de Barack Obama.
Katherine Tai, a escolha de Biden para lidar com os assuntos do comércio externo, fez já uma crítica à China, durante um discurso este mês.

“Enfrentamos uma competição cada vez mais acirrada, de uma China crescente e ambiciosa”, disse Tai. “Uma China cuja economia é dirigida por planeadores centrais, que não estão sujeitos às pressões do pluralismo político, eleições democráticas ou opinião popular”, descreveu.

Isto significa que a China precisa fazer mudanças se quiser progredir, disse Raoul Leering, analista de comércio global no ING.

Este analista defendeu que, embora muitas das declarações de Trump tenham sido “quase absurdas”, ele esteve certo ao dizer que a China tem mais barreiras comerciais e intervenção oficial na economia do que os Estados Unidos.

“Dependerá da China, da velocidade com que implementa reformas e muda as políticas, para ver se Biden vai reverter as barreiras comerciais”, disse.

Citado pela agência noticiosa oficial Xinhua, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse esperar que Washington “recupere a sua racionalidade”.

Europa, Japão e outros governos criticaram as táticas de Trump, mas ecoam as reclamações de que Pequim rouba tecnologia e quebra as promessas de abertura de mercado, ao subsidiar e proteger as empresas domésticas.

A China está a construir “campeões nacionais”, como a PetroChina Ltd., o maior produtor de petróleo da Ásia, e a China Mobile Ltd., a maior operadora de telecomunicações do mundo. O Partido Comunista declarou, em 2013, a indústria estatal o “núcleo da economia”.

Fora do setor estatal, o partido está a subsidiar líderes industriais em setores como energia solar, carros elétricos ou telecomunicações de última geração.

Trump aumentou ainda a pressão ao cortar o acesso da Huawei, o grupo chinês de equipamentos de telecomunicação, a tecnologia norte-americana, incluindo componentes essenciais para os seus produtos.

Cidadãos norte-americanos foram ainda obrigados a vender ações de empresas chinesas que Washington diz terem ligações às forças armadas chinesas.

O Partido Comunista respondeu ao acelerar a sua campanha para tornar a China numa “potência tecnológica” auto-suficiente.

Psaki, a porta-voz da Casa Branca, disse que Biden também está a rever estas questões, mas não deu nenhuma indicação de possíveis mudanças.

Biden quer responsabilizar Pequim por “práticas injustas e ilegais” e garantir que a tecnologia norte-americana não facilita a ascensão militar da China, disse Psaki.

“É difícil ver os EUA a reverem as recentes tendências na política para a China”, apontou num relatório Sylvia Sheng, do JP Morgan Asset Management.

É improvável que as restrições à tecnologia sejam atenuadas porque Washington “considera a China um concorrente”, lembrou Tu Xinquan, diretor do Instituto de Estudos da Organização Mundial do Comércio, na Universidade de Negócios Internacionais e Economia de Pequim.

Polícia lança gás lacrimogéneo em marcha de protesto de agricultores na Índia

A polícia indiana lançou gás lacrimogéneo e jactos de água contra agricultores que participavam numa marcha de protesto em Nova Deli contra leis que liberalizam o sector, enquanto decorre paralelamente o desfile nacional do Dia da República.

Apesar de os líderes da marcha terem apelado à não-violência, pedindo aos manifestantes para respeitarem a rota designada pelas forças de segurança, alguns grupos terão removido barricadas de betão com a ajuda de tratores, enquanto a polícia de choque disparava canhões de água e lançava gás lacrimogéneo.

Um vídeo divulgado na rede social Twitter por um dos líderes do protesto, Yogendra Yadav, mostra os distúrbios entre a polícia e os manifestantes. O objectivo da marcha é pressionar o Governo indiano a revogar três leis que liberalizam o sector agrícola.

Os organizadores esperavam uma participação de cerca de “250.000 tratores e veículos e mais de um milhão de agricultores”. A rota, que deveria contornar a capital indiana, de acordo com as instruções da polícia, desviou-se em algumas zonas da cidade, levando a confrontos entre a polícia de choque e os manifestantes.

Os organizadores da marcha tinham apelado aos manifestantes para que mostrassem um comportamento exemplar, de forma a que nada “manchasse” um momento “histórico”.

“A nossa vitória depende de o desfile decorrer pacificamente, sem quaisquer acontecimentos indesejados. Lembrem-se que o nosso objetivo não é conquistar Deli, mas conquistar os corações do povo deste país”, sublinharam.

A marcha na capital está a ser apoiada por milhares de manifestações em toda a Índia, após dois meses de protestos contra o Governo do primeiro-ministro indiano Narendra Modi, exigindo que revogue leis que liberalizam tanto os preços de venda como a quantidade de algumas colheitas vendidas.

A situação obriga os agricultores a negociarem os preços com grandes empresas da cadeia de distribuição.

O Governo indiano, que chegou a propor uma moratória de 18 meses na aplicação das leis, rejeitada pelos sindicatos, defendeu, no entanto, a reforma, afirmando que permitirá aos agricultores negociar nos seus próprios termos. Os agricultores dizem, no entanto, que os diplomas os deixam indefesos e nas mãos das grandes empresas.

China regista segunda morte por covid-19 este mês

A Comissão de Saúde da China anunciou hoje uma nova morte no país devido à covid-19, a segunda em Janeiro, após quase oito meses sem registar vítimas mortais. O óbito ocorreu na província de Jilin, palco de um dos surtos recentes no país, onde o número oficial de mortos é agora de 4.636.

Em 14 de janeiro, as autoridades chinesas tinham anunciado a primeira morte em cerca de oito meses, de acordo com as estatísticas oficiais. As autoridades de saúde registaram 82 novos casos, entre os quais 69 por contágio local, em contraste com 117 infeções locais identificadas na segunda-feira.

Os casos foram detetados nas províncias de Heilongjiang (53), Jilin (sete) e Hebei (cinco), enquanto as cidades de Pequim e de Xangai registaram dois casos cada.

As autoridades chinesas redobraram os esforços para conter os surtos que atingiram aquelas três províncias situadas no norte do país, onde várias áreas foram isoladas e a população testada para o vírus.

Os dois casos em Pequim foram detetados no distrito de Daxing, onde as autoridades estão a tentar conter um surto, por meio de confinamentos seletivos e da realização de testes.

A China quer evitar nova onda de contágios no período de férias do Ano Novo Lunar, a principal festa das famílias chinesas, que este ano decorre entre 11 e 17 de fevereiro e durante o qual centenas de milhões de trabalhadores regressam à terra natal.

O país registou ainda 13 casos, nas últimas 24 horas, diagnosticados em viajantes oriundos do exterior, nas cidades de Xangai (oito) e nas províncias de Guangdong (dois), Fujian (um), Hunan (um) e Shaanxi (um).

Da mesma forma, a Comissão de Saúde da China indicou que o número total de infetados ativos no país é de 1.885, 110 dos quais em estado grave. Desde o início da pandemia, as autoridades registaram 89.197 casos de covid-19.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 2.129.368 mortos resultantes de mais de 99,1 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

A lentidão do papel

Queria ser lento como o papel mas tudo me ultrapassa. Tudo se esvai, tudo se esgaça. As coisas tendem a desaparecer no digital. Passar como se não tivessem importância, apesar de transportarem os sentimentos mais básicos. Lembro-me de uma carta que nunca cheguei a escrever. Era suposto que ela deslizasse pelo mundo devagar. Que fosse de barco pelos oceanos, que fosse entregue em mão por um carteiro. E gostava da ideia de uma carta te perseguir, meu amigo, ainda que eu não soubesse bem onde realmente estás e qual a tua verdadeira morada — eu escrevi “João em Almada”, como se fosse para mim. Mesmo que a carta nunca te chegasse, talvez te perseguisse, talvez te procurasse e, por um acaso mero, te encontrasse. Aí talvez a lesses e nela ainda reconhecesses o teu amigo, ainda que ferido do muito tempo que a carta demorou para chegar.

Sim, eu gostava desta ideia: da impossibilidade da certeza, da carta que viaja de navio, de avião, de comboio, de carrinha. Talvez a carta nunca te encontre, talvez tudo o que eu escrevi nunca seja lido e a tua vida não mude realmente. Mas, penso eu delicado, talvez o carteiro saiba onde geralmente te deitas e das maleitas que a missiva talvez pudesse evitar.

Podia mandar-te um email – e entredentes o faço – mas preferia a carta lenta, paciente nos transportes, manuscrita verdadeira, sem a versão altaneira que pela net te envio. Isto não passa de um rio onde nunca pela segunda vez me banharei. E assim pretendo ser rei de um reino já esgotado. A carta segue e eu espero, tu talvez esperes, ainda que o faças sentado, distraído, entretido a dobar, para sempre o mesmo novelo. Queres lá tu saber de mim, a não ser no digital e na rede social que tão depressa nos une como o vento nos esquece. Dá para negócios, bem sei. E não tens de me lembrar. Estou aqui a afinar a minha certa fortuna. Existem as apostas, o lance da sorte pedante, impante de ter certezas que se afundam pelas mesas.

Mas existe aquela parte esquecida que o papel dava à vida. A parte táctil, o toque da árvore nos dedos, o deslizar da faca a rasgar o envelope. A folha que ainda pouco se mostra, a caligrafia adivinhada. A tua letra, a minha letra.

“Espero que esta carta te encontre bem de saúde”, dizia-se. Assim começava o discurso. Lento. Pausado. Por vezes apaixonado. Mas com ritmo de mar que avança e se despenha em sucessivas ondas de encontro à falésia. Sem pressas. Seguro de ter o seu lugar, de sempre acabar por abraçar a costa.

A carta que nunca chegou e, por essa simples razão, houve um mundo que mudou. A carta – lida à luz da tocha, do candeeiro hesitante, vela bruxuleante, sol de inverno magoado. A carta que há-de chegar; da espera, na estação férrea, no cais marítimo, no terminal de autocarros. E ela por ali virá, dia há que chegará e nas mãos de alguém brilhará tanto que será dia de lua noiva e não a noite rente da solidão. “Ainda penso em ti, meu amor. Fazes-me falta. E esta guerra que não termina.”

Não terminou nunca. “A política é a guerra por outros meios.” Interminável. Mas o papel cumpre-se como cegamente se cumpre um destino. O papel é lento, sedento de leitura e a caligrafia incerta uma prova de vida torta.

A vida descrita, a tinta azul ou negra, a vida possível de descrever a quem se gosta. A mão já trémula, hesitações. Risco ainda uma palavra mas esse risco é a prova do meu cuidado por ti porque, por vezes, saem ásperas as palavras. E não é isso que eu quero. Quero-te dizer que estou bem, ainda que chore sobre o papel, que penso em ti, que és importante para mim. E a carta leva os meus beijos. Vai lenta, talvez não chegue. Não sei. Algo de mim vai nela e deste lado fico morto, despido nas frases que te escrevi.

O papel viaja lentamente e repete-se. Provavelmente, nunca te encontrará, meu amigo. Agrada-me a ideia de uma carta minha a perseguir-te, a procurar-te pelas cidades, pelos campos, pelos quartéis, já suja de carimbos vários, de mãos generosas de gorduras, do latido irado dos cães do outro lado dos portões. A minha carta é lenta e, provavelmente, nunca às tuas mãos chegará. Mas nela mora ainda a beleza das coisas impossíveis. E todas as crenças digitalmente perdidas.

Os bárbaros chegaram

d’après Kavafis

Há quanto tempo nos quedamos, sentados nos bancos da praça, e esperamos para ver os bárbaros chegar? Eles enviaram os seus guardas avançados, os seus espiões, os seus sofistas, mas nós não acreditámos que algum dia pudessem franquear as portas da nossa cidade, que cuidávamos sagradas.

Por isso, esperar os bárbaros podia até ser um passatempo divertido, como se os bárbaros não existissem ou existissem apenas num outro mundo, chamado América, por exemplo, e desfilassem como histórias de estarrecer nos ecrãs das nossas televisões.

Esperar os bárbaros era um modo de se mostrar contra o sistema que nos permitia estar sentados na praça da cidade e discutir os nossos ornamentos, as fivelas de ouro ou pechisbeque, e vilipendiar os nossos vizinhos, insinuando que algum sangue bárbaro lhes corria nas veias adormecidas pelo álcool dos trabalhos e dos dias.

E ríamos, sem realmente ter vontade de rir. E chorávamos, sem realmente ter vontade de chorar. Porque realmente rir e realmente chorar é ainda fazer alguma coisa e sentir alguma coisa e nós nada fazíamos e nós nada sentíamos, a não ser esperar os bárbaros como se a sua potencial chegada nunca se viesse a resumir em acto e nos servisse apenas como hipótese divertida de considerar.

Por vezes, um bárbaro passava e bradava, mas nós não acreditávamos que ele, na nossa cidade, pudesse erguer a sua tenda e com sucesso vender a sua mercadoria. Assim nos limitámos a esperar os bárbaros, com a certeza íntima de que os bárbaros não chegariam.

Mas os bárbaros foram chegando. Não em hordas como no passado, não em manadas como as vacas do Velho Oeste ou em cáfilas como os comerciantes. Ululavam, é certo, mas faziam-no com as mesmas palavras que nós em tempos idos usáramos e depois esquecêramos de usar.

E daí termos com eles alguma complacência porque acreditávamos que estes bárbaros não nos pretendiam destruir e talvez nos despertassem o sangue adormecido de tanto nos sentarmos na praça à espera deles e nunca mais nos termos dado ao trabalho de nos encontrarmos a nós próprios.

E os bárbaros aos pouco foram ocupando as ruas, as praças, as mentes das gentes simples. E mesmo de outros que, mais finos, rapidamente perceberam que seria melhor converterem-se ao barbarismo pois sempre haviam sonhado ser carrascos de alguém, ainda que esse alguém fosse a sua mãe, o seu primo, o seu vizinho ou mesmo o amor da sua vida.

As mulheres sonhavam que os bárbaros as arrebatassem nos seus cavalos de aço e as transportassem para castelos de pesadelo, mas ainda assim castelos e não as vivendas de tédio que os seus homens haviam construído nos arredores da cidade.

Contudo, na praça, nós, firmemente sentados, ainda esperávamos os bárbaros sem compreendermos que eles já estavam no meio de nós, e discutíamos o que haveríamos de fazer se um dia eles pretendessem invadir-nos a cidade e apoderar-se da praça onde permanecíamos sentados, sem saber como realmente rir ou como realmente chorar.

Era como se precisássemos da ideia dos bárbaros para fingir que podíamos ainda sentir coisas como a indignação ou a vergonha.

Na verdade, não conseguíamos nunca chegar a um consenso ou ter sequer uma ideia comum, entabular em conjunto uma acção. A cada um de nós horrorizava a ideia de podermos concordar com o outro porque, afinal, não éramos bárbaros.

Gritávamos poemas sem que alguém nos ouvisse (isso também não interessava) e assim decretámos a morte da poesia.

Foi então, à saída do cemitério, que os bárbaros se mostraram. Sopraram nas trompas, que a todos ensurdeciam, esgrimiram palavras como punhais, que a todos assustavam. E por todo o lado eles andavam.

Entravam no tédio das nossas vivendas e levavam as nossas mulheres para os seus castelos de pesadelo. Sentavam-se nas esplanadas, que enchiam com a sua música bárbara. Destruíam as nossas arruinadas livrarias, que há muito haviam perdido a força para lhes resistir. Rasgavam as nossas leis, que lhes haviam permitido franquear as portas da nossa cidade. Serviam-se dos aquedutos onde se dessedentavam para depois os sujarem no seu cretino afã de parecerem civilizados.

Percebemos então que os bárbaros há muito haviam deixado de usar as suas roupagens de peles e se vestiam como nós. Sem elegância, é certo, mas com os atavios que inventáramos para nos distinguirmos uns dos outros, como faz a gente civilizada.

E aí compreendemos que o desejo íntimo de todo o bárbaro é parecer civilizado, ainda que para isso se veja obrigado a destruir a civilização que, superior, o irrita e enxovalha.

Não sei se conseguirei fugir a tempo ou serei capaz de reunir forças e bens para o fazer. Ou se terei de me fingir bárbaro para sobreviver.

Ouvi falar em terras distantes onde talvez os bárbaros não tenham chegado, mas onde ainda nada foi construído. Será difícil alcançá-las. Quantos desertos, quantas montanhas, teria agora de atravessar?
Estou velho e cansado para começar tudo de novo. Mas aqui, na minha cidade de sempre, não cederei à barbárie.

Resistirei em silêncio. Uma vez mais fechado, confinado, na minha biblioteca, agora proibida.
Por certo, morrerei no momento em que me baterem à porta. E comigo tudo morrerá.

Covid-19 | Vacina da Moderna eficaz contra novas variantes

A empresa biotecnológica norte-americana Moderna anunciou esta segunda-feira que a sua vacina contra a covid-19 mantém a eficácia contra as variantes britânica e sul-africana do novo coronavírus, consideradas mais contagiosas.

Em comunicado, que cita resultados preliminares, a Moderna sustenta que a sua vacina “mantém atividade neutralizadora” para as variantes do SARS-CoV-2 com origem no Reino Unido e na África do Sul, e já detetadas em Portugal.

Segundo a empresa de biotecnologia, “é esperado que o regime de duas doses” da vacina “proteja contra as estirpes emergentes detetadas até à data”.

O comunicado refere que, em relação à variante britânica, não foi verificado “nenhum impacto significativo nos títulos [níveis de anticorpos] neutralizadores”.

Quanto à variante sul-africana, “foi observada uma redução de seis vezes nos títulos neutralizadores”, mas tais níveis “permanecem acima” dos que “se espera que configurem uma proteção”.

A Moderna adianta, porém, que, “por precaução”, está a desenvolver uma “variante de reforço” da sua vacina contra a estirpe sul-africana e que irá testar “uma dose adicional de reforço” da vacina para avaliar “a capacidade de aumentar ainda mais os títulos neutralizadores contra estirpes emergentes”.

Os resultados hoje divulgados, que carecem ainda de revisão pelos pares para efeitos de publicação científica, foram obtidos a partir de um estudo ‘in vitro’ que analisou, a partir de soro sanguíneo humano e de macacos, a capacidade da vacina de induzir a formação de anticorpos neutralizadores potentes contra as duas variantes.

Tanto as pessoas, oito ao todo, com idades entre os 18 e os 55 anos, como os macacos foram inoculados com duas doses (as recomendadas) da vacina da Moderna contra a covid-19.

O trabalho foi feito pela empresa de biotecnologia em colaboração com o Centro de Investigação de Vacinas do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, nos Estados Unidos.

“Estamos entusiasmados com estes novos dados, que reforçam a nossa confiança de que a vacina da Moderna contra a covid-19 deve trazer proteção contra estas novas variantes detetadas”, disse, citado no comunicado, o patrão da Moderna, Stéphane Bancel.

A vacina contra a covid-19 da Moderna foi aprovada, para uso condicionado, na União Europeia no início de janeiro. Portugal recebeu as primeiras 8.400 doses desta vacina em meados do mesmo mês.

Covid-19 | Coreia do Sul pretende alcançar “imunidade de grupo” em Novembro

A Coreia do Sul pretende alcançar a chamada “imunidade de grupo” contra a covid-19 em Novembro, após ter vacinado 70% da sua população até ao terceiro trimestre, de acordo com um plano de acção apresentado esta segunda-feira pelas autoridades.

O programa divulgado pela Agência de Controlo e Prevenção de Doenças Infecciosas (KDCA) prevê que, antes do final do primeiro trimestre, os profissionais de saúde (de alto risco devido ao seu maior potencial de exposição ao vírus) e os que trabalham em lares de idosos já terão recebido a vacina.

A previsão é de que as primeiras vacinas cheguem ao país em fevereiro e a vacinação comece imediatamente, de acordo com o documento, explicando que no segundo trimestre as vacinas serão aplicadas a todos os maiores de 65 anos e ao restante dos trabalhadores do sector da saúde. Depois, no terceiro trimestre, será a vez dos portadores de doenças crónicas e das pessoas entre 19 e 64 anos.

Este plano de acção, coordenado pelo KDCA e pelos Ministérios da Saúde e Segurança Alimentar e Farmacologia, inclui os primeiros dados do plano de vacinação, cujos detalhes completos serão apresentados no dia 28 de Janeiro e com o qual está prevista a inoculação gratuita ao 51 milhões de habitantes do país.

Por meio do programa Covax (Fundo de acesso para vacinas contra a covid-19) e de contractos com quatro empresas farmacêuticas (AstraZeneca, Pfizer, Johnson & Johnson e Moderna), o Governo sul-coreano afirma ter vacinas suficientes para os 56 milhões de habitantes este ano.

O plano apresentado hoje também inclui disposições para fortalecer o combate ao vírus, como o aumento da capacidade de testes que, até meados de fevereiro, permitirá à Coreia do Sul realizar até 240 mil testes de diagnóstico por dia.

O número de funcionários encarregados da investigação epidemiológica para rastreamento de contactos passará de 325 para 385, segundo o documento. A Coreia do Sul, que nunca recorreu a confinamentos ou encerramentos de fronteiras, é um dos países que melhor lidou com a pandemia.

O país, que actualmente regista entre 300 e 400 infecções diárias e tem uma incidência cumulativa em 14 dias de 11,7 casos por 100.000 habitantes, tem no total pouco mais de 69.000 infeções locais e 1.360 mortes desde o início da pandemia.

Davos | Xi Jinping alerta para riscos de uma “nova guerra fria”

O Presidente chinês, Xi Jinping, alertou esta segunda-feira contra a possibilidade de uma “nova guerra fria”, avisando que apenas levará a “um beco sem saída”, numa mensagem de vídeo para o Fórum Económico Mundial em Davos.

Sem nunca nomear os Estados Unidos, Xi apresentou-se como o grande defensor do multilateralismo e da globalização, tal como tinha feito no mesmo fórum, há quatro anos, pouco depois de Donald Trump ter chegado à Casa Branca.

Ontem, menos de uma semana depois de Joe Biden ter tomado posse como Presidente dos EUA, o Presidente chinês parece ter querido avisá-lo dos riscos da continuação de uma política de confronto entre os dois países, nomeadamente na área comercial e tecnológica.

Donald Trum e Xi Jinping encetaram uma dura guerra comercial, que ainda permanece, e Joe Biden prometeu manter um rumo de limitações às ambições expansionistas de Pequim, nomeadamente com a criação de uma liga de países democráticos que faça frente aos planos chineses.

Na mensagem endereçada ao Fórum Económico Mundial, o Presidente da China lançou avisos contra essa estratégia de criação de blocos.

“Construir clãs ou iniciar uma nova guerra fria, rejeitar, ameaçar ou intimidar os outros, impor a dissociação, interromper cadeias de abastecimento ou impor sanções a fim de causar isolamento só vai empurrar o mundo para a divisão e até para o confronto”, alertou Xi Jinping. “O confronto apenas nos conduzirá a um beco sem saída”, concluiu o líder chinês.

Automobilismo | Rui Valente subiu ao pódio em Guangdong

Rui Valente deu início à temporada desportiva de 2021 da mesma forma como terminou a época de 2020, subindo ao pódio. O primeiro piloto de Macau a correr no ano 2021, terminou na terceira posição da geral, vencendo a sua classe, na prova de abertura do “GIC Challenge”, realizada durante o fim de semana no Circuito Internacional de Guangdong.

O veterano piloto português alinhou na primeira das dez corridas de uma hora que compõem a competição organizada pelo segundo circuito permanente da Província de Guangdong. Depois de ter arrancado do quarto lugar da grelha de partida, Rui Valente rapidamente ascendeu à segunda posição, posição essa que parecia confortável na posse do representante da RAEM, mas infelizmente a mecânica do seu tradicionalmente fiável Honda Integra DC5 traiu-o já ao cair do pano.

“Eu andei em segundo durante toda a corrida, mas a doze minutos do fim a bomba de gasolina ou os filtros pregaram-me uma partida”, esclareceu Rui Valente ao HM. “O carro começou a falhar nas (mudanças) altas, pois a gasolina falhava e o velhinho Type R começou a fazer birra” e o piloto do DC5 nº14 não conseguiu fazer mais do que levar o carro em ritmo lento até à bandeira de xadrez. “Resultado, fiquei sem o segundo lugar batido por um outro Honda”, lamentou o piloto de matriz portuguesa de Macau há mais tempo no activo.

Apesar do terceiro lugar da geral, Rui Valente subiu ao lugar mais alto do pódio entre os concorrentes da categoria do seu Honda; carro que ainda ostenta no tejadilho o autocolante da sua última corrida no Circuito da Guia, em 2013. O piloto de Macau já pensa na próxima corrida, “que em princípio será em Março, pois em Fevereiro não há nada devido ao período festivo”.

A prova foi ganha pelo KTM X-BOW GT4 de Chan Shien Shang, o mesmo carro que terminou no segundo lugar na edição passada da Taça GT – Corrida da Grande Baía.

Depois do terceiro posto na categoria 1600cc Turbo, na última edição da Taça de Carros de Turismo de Macau, Rui Valente vê ainda margem de progressão no seu MINI Cooper S e vai aproveitar os meses que antecedem à maior prova do ano – o Grande Prémio de Macau – para preparar condignamente o carro inglês. Neste momento, o Cooper S está a recuperar das mazelas sofridas no passado mês de Novembro na RAEM, até porque as datas para as corridas de apuramento para o Grande Prémio ainda não são conhecidas.

Nos últimos dois anos, Rui Valente fez questão de tirar do descanso ex-rivais de outros tempos e este ano espera fazer o mesmo. Ricardo Lopes, Belmiro Aguiar e José Mariano da Rosa – pilotos que escreveram várias páginas do desporto automóvel local nas últimas quatro décadas – tiraram o fato e o capacete do armário e participaram ao lado de Rui Valente em provas de maior duração no circuito dos arredores da chinesa continental de Zhaoqing. Ricardo Lopes e Belmiro Aguiar assistiram à prova de Rui Valente “in loco”, enquanto José Mariano Rosa ficou retido em Macau por motivos pessoais.

Este ano, segundo Rui Valente, “o plano passa por fazermos mais provas, de seis e quatro horas de duração, que não contam para o GIC Challenge”. Obviamente, o incansável Honda Integra DC5 será o “cavalo de batalha”.

Ex-director da Faculdade de Direito da UM condenado a seis anos de prisão

John Mo, ex-director da Faculdade de Direito da Universidade de Macau (UM) foi condenado pelo Tribunal de Segunda Instância (TSI) a seis anos de prisão pelo crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência. A decisão, conhecida ontem, data do passado dia 14.

De frisar que, a 15 de Fevereiro de 2019, o Tribunal Judicial de Base (TJB) resolveu absolver John Mo do crime de violação, tendo também absolvido mais dois arguidos, Lei Iok Pui e Yang Manman, do crime de violação e do crime de omissão de auxílio. No entanto, o Ministério Público (MP) decidiu recorrer desta decisão para o TSI.

Além da pena de prisão, John Mo terá de pagar à ofendida uma indemnização, por danos não patrimoniais, no valor de 100 mil patacas. Além disso, o segundo arguido foi condenado a uma pena de cinco meses de prisão, suspensa na sua execução por três anos. Enquanto que a terceira arguida foi condenada ao pagamento de 30 dias de multa.

A decisão do TSI vem condenar John Mo por um crime pelo qual não estava inicialmente acusado.
John Mo pode ainda recorrer da decisão para o Tribunal de Última Instância, tendo em conta que a decisão do TSI é contrária à que foi proferida pelo TJB. O HM tentou contactar Oriana Pun, advogada de defesa de John Mo, no sentido de obter uma reacção a esta condenação ou a confirmação de um possível recurso, mas até ao fecho desta edição não foi possível estabelecer contacto. Já depois do fecho da edição, a advogada disse estar ainda a analisar o acórdão, não tendo mais informações a acrescentar.

Vítima não reagiu

Em 2019, quando John Mo foi absolvido na primeira instância, os juízes do TJB entenderam que a vítima não só não tinha procurado socorro como também não mostrou vontade de abandonar o local onde ocorreu o crime. Foi também argumentado que a vítima se sentou no colo de John Mo e que poderia ter feito a queixa pelo facto de ser casada e temer que a sua relação extraconjugal fosse descoberta.

A violação aconteceu a 23 de Junho de 2018, num bar de karaoke no território, tendo sido aplicada a medida de prisão preventiva a John Mo. John Mo foi escolhido para liderar a Faculdade de Direito da UM em 2011, uma decisão envolta em polémica pelo facto de o académico não ter formação em Direito de Macau.

Um fósforo e era fogo

Era uma vez uma senhora que escrevia cartas de amor. Sobretudo. Por ofício. Por encomenda e por medida, como um bom alfaiate. Uma história que começou na infância. E lá, aonde eu vou, quando se definia brincar a algo, combinava-se as personagens previamente. Agora eu era e tu eras. Nunca pensei, então, porque o dizíamos assim.

No pretérito imperfeito porque era um mundo perfeito em que habitava aquela fantasia e em que o único defeito era o de não existir. Imperfeito, mas pouco. De era uma vez. E algo nos suspendia inocentes nesse presente do passado, que não existindo nem tendo existido, ainda assim era como se fosse uma história antiga a encenar. Porque nem havia como demonstrar não ter existido, já que se inventava com efeitos para trás, um presente contemporâneo desse passado. Que não queríamos ver concluído, passado e perfeito.

Mesmo as histórias de embalar começavam com este pretérito tão imperfeito como tantos passados. E nele se mantinham todos os verbos. O que era e não era. Talvez porque nunca nada se concluiu, foi também onde começou aquele fenómeno estranho e que assim ficou para sempre no presente do presente. Abeirar-se do telefone, ou de um olhar, como quem se colocava à beira do abismo. Um espelho de água, uma poça de água da chuva, afinal sem demais profundidade. Em tudo do quotidiano parecia dizer-se que “a ordem visível das esferas mais altas virá mirar-se na profundeza mais sombria da terra”. Era o que parecia. Hesitar abismada no medo. Por isso as cartas de amor, por ofício. Por encomenda. Tecia ou talvez bordasse, como sabia ou tentando melhor, com tudo o que a vida lhe punha ante os olhos, fios de luar ou feromonas.

Era uma vez. Um tempo. Eu era a senhora que escrevia cartas de amor, sobretudo. Comecei na infância com coisas cerimoniosas em postais de cartolina branca com o cavalinho em sangue de boi dos correios portugueses. Eu tinha duas avós e a ambas cortei o cabelo, na idade avançada, mas somente a uma escrevia cartas. Por ela, que as não sabia mas ditava. Até um certo ponto e depois eu tinha que inventar e esticar o assunto para encher o exíguo espaço dos postais porque tinha letra pequena e porque o ditado ainda era mais curto do que o espaço em branco. Para a avó chegava, mas para mim era uma questão de brio. Pelo menos encher o espaço. Minhas queridas irmãs, dizia ela.

Uma minha querida a cada uma das duas e em cada postal, porque quando escrevia a uma escrevia a outra. Deus queira que ao receberes este meu postal. Sempre assim do mesmo modo e com as mesmas palavras. E por ali fora, sempre igual porque estava bem. Outras vezes de pêsames naqueles envelopes pequeninos contornados a negro como aquela fita que se colocava nas mangas e se chamava fumo. O do luto a ensombrar a fronte. Mas nem chegavam a ser tristes naquela formalidade longínqua aos sentimentos.

Ensaio e pergunto ruborizada se está bem se é assim o sentir: Estou a perder-me sem ti. Sinto-me uma não habitação neste espaço só de te retirar. Perco-me sem fito sem sentido sem fim quero acabar em ti deixar-te tudo e para mim ter-te se é demais se devo ser mais sóbria mais contida menos emoção ou mais romantismo mais mistério ou mais exotismo. Pergunto, sentada, a roer o lápis de nervosismo, como o que sempre o amor provoca. Mesmo o de quem está na minha frente e explicou e encomendou. Escrevem-se cartas de amor. Diz o anúncio que aqui traz estas pessoas que me dão o nome o amor e o nome do seu amor. Para que o escreva numa carta em papel como antigamente. Selada e fechada em envelope de papel bom. Imito a caligrafia sem grande preocupação mas para ser uma espécie de verdade. Querem-nas bonitas e eu quero-as verdadeiras e quero-as profundas. Puxo por um fiozinho com jeito, a espreitar interiores. Que se prendam às palavras que virão depois. É o que desejo. Que seja tudo verdade. Mesmo a voz. Tento retê-la com atenção. Tem que se colar à folha e aos intervalos de silêncio. Aos espaços entrelinhas. Tenho este anseio. De escrever o que não escrevi. De me empenhar e ruborizar em todas as palavras difíceis. De me encarniçar – o vermelho é uma cor de guerra às palavras difíceis de dizer – do rosto à alma.

Ferozmente encontrar o termo exacto. E esconder os olhos na textura grossa do papel fresco. E na tinta permanente em azul, da caneta em repouso para depois do lápis, que serve para as primeiras impressões. E apetece-me dizer entrelinhas, para o caso de surgir uma dúvida uma hesitação ou desconfiança: esta é a voz que te ama. Se não a caligrafia, a voz. Que tento adivinhar no rosto á minha frente.

Sento-me no banco do jardim e olho aquele rosto de óculos, por detrás do fumo e penso no que será capaz, ao ler-me no rosto pensamentos resistentes. Ela que as escreve. Aquelas difíceis e doces, que começam como as histórias de embalar, num pretérito imperfeito: eu gostava de te dizer. E depois, o resto. Que as mulheres mais velhas da família lhe ensinaram a não dizer, de sentimentos, mas a sentir com pudor e a esconder sentir. Tudo. Procurava nas palavras difíceis que são as do amor. Ensaios sem fim à vista. Quando tudo se resume á palavra que são duas pessoas. Com hífen. Sem mais. Sem saber a dor no impacto. E a dor do ressalto, como o da coronha de uma arma.

Quero-te, desaconselha. Porque intimidante. O lugar da emoção é o mais difícil de dizer. Fica a ouvir todas as palavras de cada um, antes da síntese ideal.

Era uma senhora que escrevia cartas. De amor. Prometeu que a encontrava no Jardim Botânico e por ali vagueio até descobri-la. Sentava-se num banco, para além de intrincados atalhos, como para se perder de ser encontrada sob a cumplicidade discreta e murmurejante das árvores. Pensa ou penso adivinhar o que diz quando perguntam: As pessoas que me tocaram, as que me marcaram, as que rasgaram cicatrizes e escaras. A história nunca está acabada na escrita que lhes faço. Talvez por isso.

Depois, á minha frente, o rosto redesenhado de linhas a mais, as pálpebras, os contornos a descair amolecidos pela vida e as asas despidas como de folha caduca ou radiografia em demasiado inverno para voar e sinto afeição por essa senhora e é com ela que me apetece escrever. Cartas de amor. A lembrar Machado de Assis: “Depois…depois (…), queimaremos o mundo”, (…) “e eu vivo e morro por ti”. E é nestes verbos que sobrevivo. Acrescento.
E, era ilusão minha, ou ela sorria.

A resenha de Immanuel Kant

Em 1764, Johann Georg Hamann, amigo e antigo aluno de Immanuel Kant, escreve uma carta a Moses Mendelssohn, onde diz que o filósofo estaria a escrever uma resenha da obra do sueco Emanuel Swedenborg, «Arcana Coelestia», oito volumes publicados durante oito anos, um por ano, acerca dos espíritos, e de como essa relação do autor com os espíritos o leva a uma nova interpretação do Antigo Testamento, conduzindo-o a uma nova religião. Essa resenha seria uma espécie de antídoto contra a crendice que se levantava na Europa acerca desse tipo de assuntos em geral e dessa obra em particular. A obra do sueco foi sendo publicada entre os anos de 1749 e 1756 e cedo criou uma aura de genialidade à sua volta, contrariando todo o trabalho do iluminismo. Tornou-se, aliás, uma espécie de arma de arremesso contra as teses iluministas. Segundo Kant, a obra do sueco em oito volumes não passava de uma espécie de sortido de crenças cristãs ao longo dos séculos, que ele pretendia desmontar, de modo a reconduzir as mentes no caminho são da razão. Na verdade, essa resenha seria publicada em 1766, em dois números da revista fundada e editada por Johann Georg Hamman, Revista de Estudos Académicos e Políticos de Königsberg, com o título «Sonhos de um Vidente de Espíritos, Ilustrado por Sonhos de Metafísica» e seria muito mais do que uma resenha à obra do autor sueco. Nesse texto, Kant ironicamente critica a posição de Swendenborg acerca da sua ideia de espírito, mais do que a sua interpretação da Bíblia a sua nova versão religiosa, e começa por desmontar a falsa autoridade do conhecimento metafísico. Mais do que a questão religiosa, Kant estava interessado em arrasar o ponto de vista pseudo-metafísico do sueco. Leia-se uma passagem desse texto: «Vive em Estocolmo um certo Swedenborg, cavalheiro de posses, financeiramente independente. Nos últimos vinte anos ou mais tem, palavras suas, se dedicado exclusivamente a cultivar um contacto próximo com os espíritos e com as almas dos mortos, para obter deles informações sobre o outro mundo […] e compõe volumosos volumes dedicados às suas descobertas […] Mas a longa obra de Swedenborg é completamente vazia e não contém uma pequena gota de razão.» E veja-se o que um dos seus biógrafos, Moritz Kronenberg, escreve a respeito deste episódio, nas páginas 161 e 163 de «Kant; Sein Leben und Sein Lehre / [Kant; Vida e Ensino]» (Beck, 1897): «Kant traçou um paralelo surpreendente entre as visões de Swedenborg e as dos metafísicos de seu tempo. Swedenborg acreditava estar tão familiarizado com o além quanto com a sua própria casa. Mas não também isso que acontecia com os filósofos? Kant acreditava estar em posição de explicar esses delírios, os de um pelos dos outros, e assim se livrar de ambos. Kant desprezou tão completamente Swedenborg e os metafísicos contemporâneos, acabando por fazer piada deles […]. Tal tom só é assumido por quem vê seu assunto muito abaixo de si. Assim se considerava Kant em relação aos metafísicos […].»

Tudo isto são factos que servem de base a um romance de Anna Scheler, publicado em 2018, «Espanta Espíritos e Outros Males», onde a jovem Anna von Knobloch, estudante de filosofia – e octaneta da senhora Anna Charlotte von Knobloch que trocou correspondência com Kant, a propósito de Swendeborg –, descobre uma longa carta de Kant entre papéis perdidos na casa da avó materna, Charlotte von Knobloch, em que o filósofo alarga a crítica que levara a cabo na revista de Hamann e na correspondência conhecida. É assim que ao longo das duzentas e quinze páginas seguimos não apenas a resenha de Kant aos oito volumes da obra do autor sueco, mas também a carta do filósofo à octavó de Anna von Knobloch e as reflexões desta acerca do nosso tempo e da leitura de Kant. Não estamos perante um romance muito original, mas para além do estimulante contexto histórico, o mais interessante é a forma como a resenha de Kant e a carta ao antepassado de Anna se cruzam com a descrição política dos seus dias, que são os dias em que vivemos. Quase no início da carta lemos estas palavras: «Entregando-se aos seus instintos mais baixos, o homem tem tanta necessidade de dizer mal de alguém quanto de endeusá-lo. Deriva daqui a facilidade com que os homens seguem os fanáticos. E isto é tão válido para os assuntos religiosos quanto políticos ou artísticos. Espero que ao longo da minha resenha o leitor tenha visto que só a razão e o conhecimento podem servir de antídoto para tamanha doença do espírito.»

Segundo Anna Scheler, a ideia de escrever este romance veio quando assistia aos noticiários das notícias do Brasil e à eleição de Jair Bolsonaro como presidente do país. Diz a escritora numa entrevista: «Nessa altura estava debruçada no estudo de Kant, particularmente o “Ensaio Sobre as Doenças da Cabeça” – texto de Kant também publicado na revista de Hamann em 1766, em cinco números, em que também critica Swedenborg – quando vejo aquelas notícias, que de imediato se ligaram à eleição de Donald Trump e ao crescimento dos governos autoritários e de partidos de extrema direita. Pensei na necessidade de voltarmos a Kant. Na necessidade de razão que o nosso tempo tem. Nestes tempos sombrios, estamos muito necessitados de voltar a ler Kant, que se bateu pela sanidade humana como poucos filósofos o fizeram.»

Independentemente da escritora e professora de antropologia filosófica na Universidade de Berlim poder estar certa ou errada, o que aqui nos traz é o seu romance. E no romance está tudo certo e cristalino. Na sua carta, Kant desmonta a falácia e o fanatismo de Swendenborg, explicando melhor do que na resenha, segundo ele mesmo escreve, ao mesmo tempo que Anna nos mostra a sua perplexidade com este tempo em que vivemos. Escreve Kant na carta: «Quanto mais anódina é uma vida, mais ela sente vontade de pertencer a algo irracional, o que justifica o enorme apreço que o livro do senhor Swendenborg acerca dos espíritos vem tendo. A vida anódina quer acreditar que já foi uma vida destacada no passado e voltará a ser no futuro. E esta aceitação da existência dos espíritos por parte dessas vidas é a prova de que, no fundo, o estar a ser actualmente anódina é um intervalo entre espíritos mais elevados. A sua vida não começou quando nasceu e nem vai terminar quando morrer. Este tempo em que vive é apenas um momento em que espera por voltar a ser um espírito destacado, que ainda não pode saber qual é, como se estivesse à espera da assinatura de um funcionário público na requisição que entregou num departamento do estado.» Depois de nos apresentar esta passagem da carta de Kant, Anna von Knobloch escreve: «Talvez não sejam apenas as vidas anódinas que necessitam de pensar que pertencem a algo que é maior que elas. Talvez estejamos todos a milímetros de resvalar para uma irracionalidade pura, bastando para isso algum contratempo com que não conseguimos lidar. A adesão às teorias da conspiração não é uma forma de pensarmos que de algum modo alguém nos quer fazer mal? E não será isso atribuir-nos uma importância que não temos?»

O livro de Anna Scheler leva-nos pelo mundo do iluminismo e seus inimigos, ao mesmo tempo que nos mostra o pensamento humanista de Kant. Mostra também como nos dias de hoje estamos a ficar cada vez mais longe desses ideais. Ou, como ela prefere dizer, através da narradora: «Estamos cada vez mais a ficar longe do que poderia ser o nosso melhor.» Há também passagens hilariantes acerca de alguns livros da moda actual, não apenas de auto-ajuda, mas também extensos romances, colocados ao nível da obra de Swedenborg e que poderiam ser alvo de uma resenha de Kant, mas que não transcrevo aqui para não estragar a surpresa, aquando da vossa leitura.

Hong Kong | Nova companhia aérea procura levantar voo

A Greater Bay Airlines, uma nova companhia aérea sediada em Hong Kong, inscreveu-se para 104 rotas, um passo mais perto de competir oficialmente com as suas rivais numa cidade que serve como um dos principais centros internacionais do Sudeste Asiático. No pedido, 48 das rotas são para cidades do continente, incluindo Pequim e Xangai. A companhia aérea pretende voar para 13 destinos no Japão, além de voos para Singapura e outros grandes países do sudeste asiático.

A Greater Bay solicitou em Julho uma licença de operação de aviação. Índia, Coreia do Sul, Guam e Saipan também estão entre as rotas previstas. Ao todo, a malha aérea cobrirá 19 países e territórios. O fundador da Greater Bay, o magnata do sector imobiliário chinês Bill Wong Cho-bau, tem sido chamado da versão de Shenzhen do magnata de Hong Kong Li Ka-shing. Tal como Li, Wong fez a sua fortuna no mercado imobiliário. Wong acabou por se distanciar do negócio de propriedades e fundou a Donghai Airlines, com sede em Shenzhen.

Para erguer a Greater Bay, Wong levou para o conselho da companhia aérea nomes importantes da China e de Hong Kong, de acordo com documentos corporativos. Um director, Wang Wei, é o bilionário fundador do grupo chinês de logística SF Express. De Hong Kong, vem o conselheiro executivo Arthur Li Kwok-cheung, juntoamente com Andrew Leung Kwan-yuen, o presidente do Conselho Legislativo.

Também a bordo está Stanley Hui Hon-chun, o ex-presidente-executivo da autoridade aeroportuária de Hong Kong. Algernon Yau Ying-wah, que servia como chefe da Cathay Dragon, a companhia aérea de Hong Kong que encerrou abruptamente as operações, também se juntou à equipa.

Um tom claramente político dá cor à sala de reuniões de nove membros da Greater Bay. Pelo menos cinco estão envolvidos no Congresso Nacional do Povo da China ou na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, o principal órgão consultivo do país conhecido como CCPPC.

Wong, conhecido como Huang Chubiao na China continental, tornou-se próximo de Hui porque ambos são membros da CCPPC. Hui, um veterano da indústria da aviação, disse que o entidade funcionou como uma “plataforma” que os uniu, numa entrevista ao Nikkei Asia. Hui tem aconselhado Wong ao longo do novo empreendimento.

O nome da empresa “Greater Bay” refere-se à ambiciosa iniciativa da China de desenvolver uma esfera económica massiva que abrange a província de Guangdong no continente, bem como as regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau. A literatura de recrutamento de empregos da transportadora diz que a empresa apoiará a plataforma de companhias aéreas de Hong Kong, de acordo com a “política de desenvolvimento nacional”.

“Se [a Greater Bay] tiver uma relação próxima com o governo local [de Hong Kong] ou do continente, isso ajudará no desenvolvimento da empresa”, disse Andrew Yuen, director associado do Centro de Política e Pesquisa de Aviação da Universidade Chinesa de Hong Kong. “Na indústria da aviação, a disposição dos direitos de tráfego é um factor importante.”

A Greater Bay assinou contratos de arrendamento de três aeronaves Boeing em segunda mão. A empresa está a contratar cerca de 500 pessoas, principalmente as que têm experiência no sector da aviação. Há planos de expandir a frota para 30 aeronaves nos próximos cinco anos, e aumentar a força de trabalho para entre 2.500 e 3.000 pessoas nesse período.

Excluindo os serviços de carga e helicópteros, há três transportadoras com sede em Hong Kong: a Cathay Pacific Airways, a Hong Kong Express Airways e a Hong Kong Airlines. Como a Hong Kong Express, uma operadora de baixo custo, é uma subsidiária da Cathay Pacific, Greater Bay será essencialmente o terceiro grupo de companhias aéreas.

A Hong Kong Airlines, afiliada do conglomerado chinês HNA Group, já enfrentava dificuldades financeiras antes da pandemia do coronavírus. A transportadora foi em parte reduzida ao abandonar os voos de longo curso.

A única barreira para o sucesso de Greater Bay é a Cathay Pacific. Com uma história em Hong Kong que remonta a mais de sete décadas e com laços a um conglomerado britânico, a Cathay Pacific tem sido a imagem da estrutura de “um país, dois sistemas” que governa o território. Mas em 2019, a empresa foi avisada pelas autoridades chinesas que alguns de seus funcionários haviam participado de protestos antigovernamentais.

No ano seguinte, a pandemia prejudicou seriamente as viagens aéreas. A Cathay Dragon, transportadora de médio curso da Cathay Pacific, está a cortar cerca de 8.500 empregos. Enquanto isso, Greater Bay está ocupada a contratar ex-pilotos da Cathay Dragon. A companhia aérea procura oferecer rotas da Cathay Dragon no continente, cedidas pelas autoridades de aviação, bem como voos para destinos japoneses, que têm sido o ponto forte da Hong Kong Express. Autoridades de Hong Kong responsáveis pela atribuição de rotas disseram que a decisão sobre as rotas será feita tendo em consideração factores como a competição saudável, fortalecimento da posição da cidade como um centro de aviação e desenvolvimento da indústria aérea.

China supera os EUA como maior receptor de investimento estrangeiro

Em 2020, o valor do investimento estrangeiro na China ultrapassou pela primeira vez o dos EUA. Entretanto na Europa a crise vapora, alimentada pelos maus resultados da Alemanha

 

A China subiu para o primeiro lugar no ranking global de investimento estrangeiro directo (IED), obtendo US $ 163 mil milhões em 2020, durante a pandemia global, de acordo com o último relatório da ONU sobre investimento global, tirando os EUA, que só atraíram US $ 134 mil milhões, do primeiro lugar .

O IED global caiu 42% em 2020 para uma estimativa de US $ 859 mil milhões no ano passado, de US $ 1,5 biliões em 2019, e ficou mais de 30 por cento abaixo do valor após a crise financeira global em 2009, um novo relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) mostrou no domingo.

Apesar da queda, a China contrariou a tendência com US $ 163 mil milhões em investimento estrangeiro, um aumento de 4% em relação a 2019, tornando-se o maior receptor do mundo em 2020, seguido pelos EUA.

Em 2019, os EUA receberam US $ 251 mil milhões e a China, US $ 140 mil milhões.
“O IED na China, onde a fase inicial da pandemia causou uma queda acentuada nos gastos de capital, terminou o ano com um pequeno aumento”, disse o relatório.

Apesar da interrupção causada pelo vírus no início de 2020, os investidores estrangeiros não diminuíram o ritmo de entrada no mercado chinês e expansão do investimento.

Grandes projetos com investimento estrangeiro em muitos lugares da China foram implementados de forma intensiva no ano passado.

Entre eles, centros globais de pesquisa e desenvolvimento, projectos de sedes e centros de operação de cadeias de abastecimento tornaram-se na primeira escolha de investidores estrangeiros que foram atraídos pelo potencial significativo do mercado chinês e pela resiliência da sua economia, a única que registou resultados positivos de crescimento apesar do COVID-19 no ano passado.

“Um retorno ao crescimento positivo do PIB e o programa governamental de facilitação de investimentos ajudaram a estabilizar o investimento após o bloqueio precoce (coronavírus)”, disse James Zhan, director de investimentos e empresas da UNCTAD, de acordo com a Agência de Notícias Xinhua.

“A dependência global das cadeias de abastecimento de empresas multinacionais na China durante a pandemia também sustentou o crescimento do IDE chinês”, disse Zhan.

A queda global do IED, como mostram os dados, concentrou-se nos países desenvolvidos, onde os fluxos de IED caíram 69%, para cerca de US $ 229 mil milhões, o nível mais baixo em 25 anos.

Os influxos para a Europa caíram em território negativo em US $ 4 mil milhões negativos. Entre os membros da UE, 17 viram o seu IED diminuir, com a Alemanha a registar uma grande queda, apesar de um salto nas fusões e aquisições internacionais, enquanto o Reino Unido não registou novos ingressos no ano passado.

O declínio nas economias em desenvolvimento foi de 12%, para uma estimativa de US $ 616 mil milhões, mostrou o relatório. A parcela das economias em desenvolvimento no que se refere ao IED global atingiu 72%, a maior parcela já registada.

Olhando para o futuro, é esperado um crescimento lento adicional para o IDE global em 2021, colocando em risco uma recuperação sustentável, de acordo com o relatório.