Covid-19 | Itália com mais 1.648 casos e 812 mortes, ritmo dos contágios em baixa

[dropcap]A[/dropcap] Itália registou nas últimas 24 horas 1.648 novos casos de infecção pelo novo coronavírus e 812 mortes adicionais, números que traduzem uma clara redução dos contágios, segundo dados divulgados hoje pela Protecção Civil.

O aumento de casos de infecção de domingo para hoje, 1.648, representa menos de metade do aumento dos dias anteriores, tendo passado de 8,3% de novos casos em média nos últimos quatro dias para 4% nas últimas 24 horas, segundo as autoridades. O número de novos casos é por outro lado quatro vezes mais baixo que há 15 dias.

Desde que foi detectado o primeiro caso em Itália, a 20 de fevereiro, 101.739 pessoa foram infectadas pelo vírus que provoca a covid-19. Desse total, 11.591 morreram, 14.620 já recuperaram da doença e 75.528 permanecem infectadas.

A maioria dos infectados, 58%, recupera isolada em casa, apresentando sintomas ligeiros ou mesmo ausência de sintomas, e cerca de 4.000 estão internadas em unidades de cuidados intensivos. Outro sinal positivo, apontam, é o aumento do número de pessoas consideradas curadas em todo o país, 1.590 de domingo para hoje, número que nunca foi tão alto num só balanço diário.

“Podemos esperar atingir o pico em sete ou 10 dias e, depois, razoavelmente, uma descida do contágio”, estimou o vice-ministro da Saúde, Pierpaolo Sileri. As autoridades destacam também que, pela primeira vez desde o início da pandemia em Itália, o número de novos casos na Lombardia (norte), a região mais atingida do país, baixou de 25.392 no domingo para 25.006 hoje.

“Na Lombardia observamos uma diminuição do número de casos, mas sobretudo pressão nas urgências e na atividade das ambulâncias. Nestes últimos quatro dias mudou muita coisa. É o sinal de que o enorme esforço que estamos afazer está a funcionar”, disse por seu lado Giulio Gallera, o ministro da Saúde da região lombarda.

O continente europeu, com mais de 396 mil infectados e perto de 25 mil mortos, é aquele onde se regista actualmente o maior número de casos de infeção pelo novo coronavírus, com Itália, Espanha e França como países mais afectados.

Covid-19 | Quase 34 mil mortos e mais de 715 mil infectados em todo o mundo

[dropcap]A[/dropcap] pandemia de covid-19 matou pelo menos 33.568 pessoas no mundo inteiro desde que a doença surgiu em Dezembro na China, segundo um balanço da AFP às 08:00 desta segunda-feira, a partir de dados oficiais.

De acordo com a agência de notícias francesa, já foram diagnosticados pelo menos 715.204 casos de infecção pelo novo coronavírus, que provoca a doença covid-19, e a pandemia espalhou-se por 183 países ou territórios.

A Itália continua a ser o país mais afetado em número de mortes (10.779), seguido da China (3.304 mortes), o foco inicial do contágio. Os Estados Unidos registam 143.025 casos e 2.514 mortes.

A AFP alerta que o número de casos diagnosticados reflete apenas uma fração do número real de infecções, já que um grande número de países está agora a testar apenas os casos que requerem atendimento hospitalar.

Covid-19 | Mais de mil mortes no estado de Nova Iorque, há nove dias eram 35

[dropcap]O[/dropcap] estado norte-americano de Nova Iorque superou no domingo as mil mortes de infectados com a covid-19, um mês após se detetar o primeiro caso e quando há nove dias se registavam apenas 35 mortos. Só a cidade de Nova Iorque informou na noite de domingo que o número subira para os 776 mortos. O surto da covid-19 espalhou-se por Nova Iorque a uma velocidade assustadora.

O primeiro caso de infecção conhecido no estado foi descoberto a 1 de Março num profissional de saúde, que regressara recentemente do Irão. Dois dias depois, o estado anunciou o segundo caso, um advogado do subúrbio de New Rochelle.

A 10 de Março, o governador Andrew Cuomo declarou uma “área de contenção” em New Rochelle que obrigou ao fecho de escolas e espaços de culto. Nesse mesmo dia, a região metropolitana registou a sua primeira fatalidade: um homem que trabalhava em Yonkers e morava em Nova Jersey.

A 12 de Março, o estado proibiu todas as reuniões de mais de 500 pessoas e encerrou os teatros da Broadway e as arenas desportivas. O prefeito da cidade de Nova Iorque, Bill De Blasio, ordenou o fecho das escolas a 15 de Março.

Restrições mais severas ocorreram cinco dias depois, quando Cuomo ordenou que todos os trabalhadores não essenciais ficassem em casa, barrou reuniões de qualquer dimensão e instruiu qualquer pessoa no espaço público a ficar a pelo menos um metro de distância das outras pessoas.

Por essa altura, somente 35 nova-iorquinos infectados com a covid-19 tinham morrido. Ou seja, apenas nove dias antes destes últimos números.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infectou mais de 697 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 33.200. A Espanha é o segundo país com maior número de mortes, registando 6.528, entre 78.747 casos de infeção confirmados até hoje, enquanto os Estados Unidos são o que tem maior número de infectados (mais de 124 mil). Dos casos de infecção, pelo menos 137.900 são considerados curados.

Covid-19 | China regista 31 novos casos de infecção

[dropcap]A[/dropcap] China anunciou hoje 31 novos casos da Covid-19, quase todos oriundos do exterior, numa altura em que o país suspendeu temporariamente a entrada no país de cidadãos estrangeiros, incluindo residentes. As autoridades de saúde chinesas indicaram que 30 casos são importados, ou seja, pessoas que estão a regressar do exterior, e apenas um caso de contágio local, na província de Gansu, no noroeste da China.

A Comissão de Saúde da China indicou que, até à meia-noite na China, morreram mais quatro pessoas no país, devido à infeção pelo novo coronavírus, o que fixa em 3.304 o número de vítimas mortais.

Segundo os dados oficiais, o número de casos diagnosticados na China continental – que exclui Macau e Hong Kong -, desde o início da pandemia, é de 81.470, entre os quais 75.700 pessoas receberam alta, fixando o número de pacientes em 2.396.

Desde o início do surto, em Dezembro passado, 704.190 pessoas em contacto próximo com infectados estiveram sob vigilância médica, incluindo 16.235 ainda sob observação, de acordo com dados oficiais.

Quando a doença começou a atingir o resto do mundo, muitos chineses regressaram ao país, que passou assim a registar centenas de casos oriundos do exterior.

A partir de sábado, a China suspendeu temporariamente a entrada no país de cidadãos estrangeiros, incluindo quem possui visto ou autorização de residência, como medida de prevenção contra a propagação do novo coronavírus.

Para impedir uma segunda vaga de contágios no país, o Governo chinês impôs ainda uma quarentena rigorosa de 14 dias a quem entrar na China.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infectou mais de 697 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 33.200. Dos casos de infeção, pelo menos 137.900 são considerados curados.

Depois de surgir na China, em Dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Covid-19 | Macau anuncia mais um caso de infecção e eleva total para 38

[dropcap]A[/dropcap]s autoridades de Macau anunciaram mais um caso de contágio da covid-19, elevando o número de infectados para 38 desde o início do surto do novo coronavírus.

Trata-se de um homem, residente de Macau, de 44 anos, que no dia 18 de Março chegou a Hong Kong vindo do Reino Unido, entrando no território através do transporte institucionalizado para apoio aos residentes, informou em comunicado o Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus.

“No dia 21 de março foram recolhidas amostras de saliva do doente e no dia 22 de março a amostra de zaragatoa nasofaríngea foi negativa para teste de novo tipo de coronavírus”, detalharam.

Só que do domingo as autoridades realizaram um novo teste e “os resultados foram positivos para a pneumonia causada pelo novo tipo de coronavírus, confirmando a pneumonia causada pelo novo tipo de coronavírus”, apontaram.

Após Macau ter estado 40 dias sem identificar qualquer infecção, nas últimas duas semanas foram identificados 28 novos casos, todos importados.

Em Fevereiro, Macau registou uma primeira vaga de 10 casos da covid-19, já todos com alta hospitalar. Após a deteção de novos casos, as autoridades reforçaram as medidas de controlo e restrições fronteiriças, assim como a obrigatoriedade de quarentena de 14 dias imposta a praticamente todos aqueles que entrem no território.

Trilogia

Aqua

[dropcap]C[/dropcap]ustei a encontrar aquele desenho antigo, recuar quatro décadas de pastas e memórias. Sou a figura sentada. Não essa, a outra mais atrás e que não se vê.
Como agora, enquanto caminho ao seu encontro.

Não há nada tão profundo e misterioso como uma figura densamente de costas. Quieta numa impressão de imutabilidade. Absolutamente desconhecida, mesmo se no recorte em desenho sobre a tela limpa do céu, é única e ímpar. De quem se vai ao encontro e que chega sempre antes e está ali. De mãos nos bolsos a um metro da vedação à beira do perigo da arriba e, inevitavelmente com o olhar na lonjura. E de frente para o todo. Seria sempre diferente se eu viesse ao longo do carreiro que debrua a falésia e o apanhasse de perfil.

Não há nada mais distante do que um perfil. Não se revela a quem vê, nem revela o que vê. E, no entanto, contém como se inevitável, a possibilidade do movimento. De o rosto se voltar num olhar que nos vê chegar.

Uma coisa estranhamente desconfortável, penso.

Eu tinha aquela paixão antiga. Uma pintura de Magritte. O homem em grande plano, de olhar invisível e costas estanques para o observador e aquela rosa enorme e evidente. Onde só ela se expõe num olhar luxuriante de exorbitância e desafio. Um recorte nítido frio e cortante de rigor. Ali, naqueles ombros que escondem o olhar invisível do homem, o observador vê-se a olhar-se a si próprio. Ultrapassa-os numa paradoxal dificuldade em simultaneamente se ver e ser visto. Tudo numa única figura. E a imagem, de um absoluto congelamento, torna-se inquietante lugar dessa substituição que se sucede sem parar.

E a rosa, quase esboça um sorriso enigmático. Às vezes – muito raramente – surpreende-se numa pessoa esse rigor frio num olhar furtivo e nu, apressado e real, que de outras vezes se protege. Momentos fugazes de uma nitidez aleatória no meio de outras fugas. Mas naquela rosa, a abertura de todos os mistérios. A crua incisão do que pode ser um olhar de dentro para fora, ou a dura perspectiva que da paisagem se intromete olhos a dentro. O perigo que reside escondido no olhar de cada um, ela denuncia e repõe. O enigma que é o olhar do outro, o risco sem erro. Quanto muito coberto de desconhecimento mas sempre num desenho que é uma forma alternativa de realidade. O olhar do outro sobre o nosso olhar de nós. Esse o mais lancinante de hermetismo à beira da desconstrução. Como na falésia ali, a subtil erosão.

Avanço lentamente em silêncio, a prolongar a eternidade contida nos sinais que fazem o momento. Nestas costas voltadas para mim, a oferecer a vista ampla do lugar. E do olhar como se tornado o meu. Eu via o que me era dado ver naquele reverso de outro olhar. E nada pode ser mais completo e entendido do que ver o que o outro vê. Caminho devagar e nunca amei tanto. Tamanho desconhecido à minha frente e tamanha paisagem em frente a nós.

Tive medo de que ao aproximar-me acontecesse tornar-me numa daquelas personagens de Borges numa noite à beira rio – num conto que já não sei – talvez o rio da prata. Que se encontram no mistério da sua deambulação solitária. E um deles desencanta perante a perplexidade do olhar do outro o misterioso e irreprimível livro de areia. Numa imagem poética a lembrar similitudes de Foucault. O abismo incomensurável presente em cada microcosmos, o abismo de eternidade num segundo. O de profundidade numa ínfima paragem de tempo. Enquanto avanço tudo isto me vem à memória e tenho medo de ver mais do que me é mostrado neste olhar que não vejo mas aponta ao horizonte.

O que é grande torna-nos ínfimos e calmos e faz sentido. Chega aqui, longínquo o estampido espumoso das ondas em baixo. Mas ao longe e olhando adiante, o mar é calmo, uniforme, enorme. Protege inúmeros e infinitos segredos subaquáticos. Como se nada mais do que uma manta turquesa ou esmeralda consoante a luz. E isso dá-lhe uma espessura quase quente, mesmo nesta manhã fria de primavera.

É tudo uma questão de escala e acuidade do olhar na textura complexa que se nos apresenta. O que é grande permanece imutável. Só as circunstâncias se movem. O imponderável persiste.
Da próxima vez, o meu lugar. Aquele lugar estranho que ando para te mostrar. Mas tenho que tentar entendê-lo. E chegar antes, para que o vejas.

Fachadas

[dropcap]U[/dropcap]m vírus não discrimina. Não pede um extracto bancário antes de afectar uma pessoa. Não liga a títulos académicos. Não vê a cor da pele, nem o género ou a idade. Mas as circunstâncias em que as pessoas vivem a epidemia não estão isentas de diferenças económicas, sociais, ou mesmo geográficas.

Só ficam escondidas atrás das fachadas dos edifícios. Quem ficou a fazer quarentena no domicílio em Macau dificilmente o fez numa vivenda, com um pequeno quintal onde se pudessem gastar energias a fazer exercício ou, por exemplo, a estudar o melhor pedaço de terra para plantar os vegetais da época, aproveitando o isolamento para se reconectar com a natureza.

O mais provável é que tenha ficado num apartamento, com vista para outros apartamentos, onde pode espreitar o céu apenas pela janela e vídeos num qualquer ecrã. O que também pode ser confortável. Mas há quem tenha uma casa preparada para viver, e quem tenha uma casa onde ir dormir.

Se o dinheiro não representa imunidade, talvez se possa repensar um pouco a sua redistribuição para que todos possam passar pela ansiedade de um período de quarentena com um colchão igualmente ergonómico.

Reflexão perdida

[dropcap]O[/dropcap] mundo é um bêbedo agarrado a um poste de electricidade a tentar perceber porque razão a gravidade o odeia tanto. Não acredito que algum dia a clarividência ganhe terreno à boçalidade, a ponderação à estupidez. Mas creio que nunca estivemos tão perto de um acontecimento catalisador de reflexão global, que impulsione ponderação, que leve a um balanço, a avaliação da forma como organizamos as sociedades.

A mais básica reflexão é tentar entender quanto vale uma vida. Meter um preço neste item que jamais deveria estar à venda deveria ser abjecto por si só, mas pertinente face ao que se passa.

De que vale uma economia se ela não só não funcionar para as pessoas, quão assassino é um sistema que prefere a morte à destabilização dos mercados?

Não estou a inferir que a covid-19 começou esta mórbida dialéctica. Já não existem muitos segredos quanto à economia de guerra de lucros perpétuos através do conflito, à discrepância de poder entre o consumo dos países ricos e a produção dos países pobres que cria novas formas de escravidão, ao luxo que se sustenta na miséria, à economia que defende crimes bancários com o sangue dos pobres. Tudo isto é bem real e aceite com complacência de todos.

Mas esta crise é diferente, a microbiologia não discrimina entre pobres e ricos e isso une-nos no sofrimento ao mesmo tempo que nos separa para reduzir a propagação.

Esta pode também ser uma boa oportunidade para pensarmos enquanto espécie, e anteciparmos o que aí vem em termos de crises climáticas. Uma boa oportunidade que não tenho qualquer dúvida será desperdiçada.

Outra área que merece reflexão é a verdadeira força e integridade das uniões e projectos que integram nações ou territórios. Começo pelo local.

O novo coronavírus deixou à mostra as fraquezas que já se adivinhavam no projecto da Grande Baía. Sempre que se faz um estudo sobre mobilidade de jovens entre Guangdong, Macau e Hong Kong, os resultados são invariavelmente negativos para o projecto de integração, principalmente nas regiões administrativas especiais. Fracturas que antes ficavam na esfera individual tornaram-se visíveis agora, com os respectivos governos a impor restrições uns aos outros sem aviso prévio, ou com poucas horas de antecedência.

Mesmo que a política obrigue aos paninhos quentes posteriores, estas respostas unilaterais não são bons pronúncios de entendimento, além de que as pessoas conseguem ver a milhas a mitigação política que clama que tudo está bem e em harmonia, enquanto multidões correm para as Portas do Cerco, ou enquanto polícias de duas províncias do Interior trocam murros e pontapés devido à discriminação a que os habitantes de Hubei são sujeitos.

Na Europa a desunião é ainda mais gritante, com a total ausência de voz de comando centralizado e as velhas retóricas de povos inferiores versus povos superiores em crescendo, numa altura em que solidariedade é sinónimo de sobrevivência. Além disso, um dos pilares constitutivos da União Europeia (livre circulação de pessoas e bens) implica fronteiras abertas, ou seja, gasolina e vento no fogo descontrolado da propagação do novo coronavírus.

Infelizmente, isto dá força aos isolacionistas que temem tudo o que lhes é externo. Calcifica os vários tipos de nacionalismos, numa altura em que o amparo mútuo é essencial.

Tantas oportunidades de reflexão que serão desperdiçadas, ou que vão ficar contidas em círculos académicos e conversas de iluminados.

Sei que vou meter este texto na página e lembrar-me de mais gritantes exemplos de necessidade de ponderação e balanço sobre quem somos. Mas aqui vai mais um motivo para reflectirmos, antes que a frustração se instale.

Até que ponto vivemos afastados do essencial e damos primazia ao supérfluo. Para já, não experimentamos escassez de bens a um nível global, além dos golpes desferidos aos sistemas de saúde de todo o mundo.

Mas, quando começarmos a sentir a falta de água, um cenário que vai muito para lá do provável, veremos o quão afastados vivemos do essencial.

Quando faltar arroz não vamos matar a fome com telemóveis, não vamos guardar legumes na cloud, nem vamos saciar a sede com apps. Na vertiginosa velocidade tecnológica, que marca o avançar da história pela capacidade de processamento, parece que deixámos de processar o essencial.

Faleceu Pedro Ascenção, ex-director do jardim de infância D.José da Costa Nunes

Ex-director do jardim de infância D. José da Costa Nunes, Pedro Ascensão morreu este domingo vítima de cancro. Depois de vários anos dedicado à educação de corpo e alma, primeiro em Portugal e depois em Macau, Pedro dedicou-se à vida de empresário, sempre com duas paixões: a culinária, no café Xina, e a música, com os bares Che Che e Mico

 

[dropcap]P[/dropcap]ara beber um copo fora do ambiente de jogo, havia os bares do Pedro. Primeiro o Che Che, atrás das ruínas de São Paulo, onde se fumaram vários cigarros na calada da noite à porta e se ouviu boa música lá dentro. Depois apareceu o Mico, na mesma rua, mas uns metros mais acima. O Che Che continuou de portas abertas, com outra gerência e o mesmo espírito independente. Pelo meio funcionou o Café Xina onde Pedro Ascensão revelou a sua paixão pela cozinha. Uma vida numa rua.

Empresário e ex-director do jardim de infância D. José da Costa Nunes, Pedro Ascenção morreu este domingo vítima de cancro. Discreto mas frontal, será pouco conhecido da nova geração da comunidade portuguesa, mas para quem vive em Macau desde os anos 90 era uma figura incontornável.

Sempre esteve ligado ao mundo da noite, primeiro no antigo bar Rio, nas docas, e depois no bar do Jazz Clube de Macau, do qual foi presidente. Mas Pedro Ascensão foi também, durante anos, educador de infância; primeiro em Portugal e depois em Macau, no Costa Nunes, logo a seguir à transferência de soberania.

Um papel importante no Costa Nunes

Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), entidade gestora do Costa Nunes, destaca o papel que Pedro Ascensão teve na gestão da escola. “Reconheço-lhe um papel importante nos primeiros anos do Costa Nunes na RAEM em termos da estabilização do funcionamento do estabelecimento de ensino pré-primário. Não o cheguei a conhecer a nível profissional, mas como pessoa sempre foi muito discreto com ideias fortes. Foi um bom amigo de quem lamento a morte”, disse ao HM.

Cristina Ferreira, uma amiga de longa data, recorda-se do período em que Pedro Ascensão esteve à frente do Costa Nunes. “Como educador sempre teve uma atitude muito profissional, e também gostava muito do cargo de gestão. O Pedro tinha a sua profissão mas depois tinha a outra parte, pois sempre gostou muito de cozinhar e de música.”

O bar do canto

Tanto o Che Che como o Mico sempre foram bares de circulação restrita, com clientes das comunidades portuguesa, macaense e chinesa. Pedro Ascensão não fazia questão que o seu espaço fosse muito conhecido e chegava a rejeitar alguns clientes a altas horas da noite.

“Há muitas pessoas que acham que ele tinha mau feitio, mas também era uma pessoa muito generosa e muito amigo do seu amigo. A verdade é que depois as pessoas ultrapassavam essas coisas”, acrescentou Cristina Ferreira, que considera Pedro Ascenção “uma figura de Macau”.

Como empresário sempre manteve espaços diferentes e marcantes na vida nocturna do território.  “Os bares dele sempre tiveram excelente música. Ele tinha um gosto musical muito bom e não gostava que as pessoas colocassem música no bar”, frisou Cristina Ferreira.

A amiga recorda o Che Che, um “bar mais mediterrâneo”, e depois o Mico, com “um conceito mais urbano”. Num território onde todos os espaços nocturnos foram fechando portas à mercê da abertura dos casinos, Pedro Ascensão “foi um resistente”. “Encontrou um espaço que era o único alternativo em Macau. Manteve o seu cantinho, à sua medida, com a sua clientela”, aponta Cristina Ferreira.

“O que fez foi mágico”

Gabriel Yung, actual gerente do bar Che Che, assume que Pedro foi uma pessoa importante na sua vida. Gabriel começou por ser cliente e não conseguiu ver um dos seus bares preferidos fechar portas.

“Quando tinha cerca de 25 anos costumava ir ao Che Che com alguns amigos. Sempre falámos muito. Ele era uma pessoa muito interessante que contava muitas histórias. O que ele viveu, a forma como tratou as pessoas, mudou a minha vida.”

A abertura do bar Che Che foi uma lufada de ar fresco na vida nocturna do território. “Ainda hoje não há muitos bares onde possamos ir, ouvir boa música. O mais importante é o espírito das pessoas, um sítio onde possam comunicar. É parte importante da história dos bares de Macau, e foi uma das razões pelas quais eu quis ficar com a gerência do Che Che. O que ele fez foi mágico para esta cidade”, contou ao HM.

Agora, aos 54 anos, finou-se essa magia, que fazia de Pedro Ascenção um personagem único da comunidade portuguesa de Macau. O que nos fica, além da sua memória e da sua obra, é uma profunda saudade.

Por debaixo da porta

[dropcap]N[/dropcap]o fim de semana recebi, por debaixo da porta, uma carta da gerência do hotel. “Agradecemos a sua colaboração e estamos a fazer o que podemos para tornar a sua estadia o melhor possível”. Gostava de poder agradecer pessoalmente o gesto. Os gestos todos de quem está a tentar tornar melhor a existência, não minha, mas nossa.

“Bom dia vizinha” cumprimenta-me diariamente o Faustino. No quarto ao lado, tem visto “O Atirador” e fala-me do quotidiano. Reviu o “Ébola”, “mas agora é pior”. Recorda estes tempos que temos vivido. Recordamos juntos.

A Dona Adelina falou-me do choro das hienas que se tinha perdido na memória e que agora volta a situar ali, num tempo de infância por terras de África. Gosto de ouvir as suas histórias. Dentro, tem uma vida delas.

O Sr. Virgílio hoje está mais bem-disposto. Tem estado um bocadinho cansado. O telefone que nos une aqui dentro tem mais do que uma linha. Tem muitas. Cruzam-nos as existências e confortam-nos os receios.

Vi “The Legend of 1900”, recomendado pelo Mário. Tornattore conta a história de um homem que nasceu num navio cruzeiro onde cabia a vida toda. O mundo lá fora era demasiado infinito e assustador.

Quando saí de Lisboa, um dos funcionários do aeroporto perguntou-me para onde ia. “Vou voar para Hong Kong” respondi. “Isso é longe. Boa sorte”. “Protejam-se por aqui”, acrescentei. “Vou aproveitar para estar mais com a minha filha. Tem 4 anos. Agora só posso pensar nisso. Já recebi a carta de despedimento e tenho trabalho até ao final do mês” disse-me a sorrir, a tentar disfarçar a angústia que se avizinhava. Calei-me. Recordo a situação e olho lá para fora. Um mundo parado, num silêncio assustador.

Outros mundos

Há um ano atravessava a pé a pequena estrada entre Mae Sai, nas montanhas verdes do norte da Tailândia, e Tachilek, pequena cidade fronteiriça da Birmânia e de todo um outro mundo. Uma fronteira que esteve anos fechada. Agora está outra vez. Voltei a ver o posto de emigração birmanês. As paredes azuis claras com muitas falhas na pintura. As janelas abertas para afugentar o calor com alguma corrente de ar. As cadeiras eram brancas, de plástico, e o computador, sem ninguém que lhe soubesse mexer estava coberto para estar protegido. Recordei a espera por uma agente da emigração enquanto admirava o altar que misturava Budas e Ganeshas, todos com flores. O agente chegou. Leu o papel que tinha nas mãos e carimbou-me o passaporte.

Um dia, levo a Sara comigo, e vamos ver Bagan de balão. De manhã cedo, que é mais fresco. Depois vamos pedalar as aldeias que abraçam o lago Inle e no final de um dia, cansadas e felizes, pomos as bicicletas numa canoa que nos vai levar a comer um caril de amendoins ou de folhas de tamarindo.

Os meus pais seguem religiosamente os exercícios da Rita e sentem-se bem, apesar do corpo estalar. “É bom sinal”, digo, contente. Já o meu irmão, na sua sala airosa em Lisboa, trabalha mais que o normal, para ajudar o mundo a comunicar.

A Sónia mandou-me um poema, a Fátima fez o jantar comigo e o Pedro continua a sair de bicicleta para espantar os males. Tenho saudades. A Carla encontrou lugar para o quadro que tinha guardado. Mandou-me uma fotografia e entrei em casa dela. A Vera precisa de descansar e a Cristina também.

Até amanhã
Macau, 29 de Março de 2020

WTCR | Melhores condições para os pilotos locais

A Taça do Mundo FIA de Carros de Turismo (WTCR) está a atravessar um calvário que começou mesmo do início do surto do novo tipo de coronavírus. Com metade do calendário decepado e dúvidas sobre se este irá mesmo arrancar, o promotor da competição, a Eurosport Events, tenta encontrar soluções para vários os problemas, como oferecer melhores condições aos pilotos e equipas

 

[dropcap]D[/dropcap]epois de ter perdido o maior patrocinador do campeonato, a Oscaro, a WTCR viu Marrocos cancelar o seu evento porque a sua estrela, o piloto marroquino Mehdi Bennani, não conseguiu reunir apoios para agarrar um volante a tempo inteiro. Depois, com a propagação do novo coronavírus, perderam-se as provas da Hungria, Alemanha, enquanto que as viagens à Eslováquia e a Portugal estão em sério risco de não se concretizarem.

“Estamos a monitorizar de perto a situação em cada um dos nossos eventos da WTCR e estamos em contacto com os organizadores para recebermos actualizações sobre as decisões das autoridades nacionais e locais”, disse Xavier Gavory, Director da WTCR, quando questionado pelo portal SportMotores.com.

Com um cenário de recessão a assombrar a economia mundial, a Eurosport Events tomou uma série de medidas. Em vez de três corridas, a WTCR terá, como tinha o WTCC, duas corridas por fim-de-semana, ambas a serem realizadas no domingo de cada evento. Contudo, devido à anulação de provas, a organização do campeonato tem procurado encaixar as corridas perdidas em eventos posteriores. As provas passam agora a ser de apenas dois dias, em vez de três, podendo haver excepções, como será o caso de Macau. Sábado fica para as sessões de treinos-livres e qualificação, sendo que no domingo realizam-se as corridas. A qualificação única terá três fases.

“Temos que actuar decisivamente e de forma responsável para proteger a WTCR, mantendo-a forte para as partes interessados, apelativa junto dos fãs e da imprensa e assegurar que continua atractiva e acessível a novas equipas privadas”, explicou François Ribeiro, o CEO da Eurosport Events, sobre as providências implementadas.

Outras medidas introduzidas em Fevereiro, com o objectivo de cortar nas despesas, ditaram uma redução no pessoal por equipa a trabalhar nas provas e no número de pneus “slicks” novos a usar por fim-de-semana.

Tiago Monteiro confirmado

Antes mesmo da crise causada pela pandemia em curso, a Taça Mundial já estava com dificuldades quanto ao número de inscritos. A Volkswagen e Audi retiraram o apoio às suas equipas no campeonato e a formação que tomava conta dos Alfa Romeo irá concentrar-se num outro projecto, decisões que totalizaram oito baixas. Sendo assim, apenas estão confirmadas as presenças de quatro Lynk & Co, de quatro Hyundai, de quatro Honda e de dois Audi.

Este os pilotos confirmados está o português Tiago Monteiro. O portuense que venceu no Circuito da Guia em 2016 vai regressar este ano ao campeonato com a equipa Munnich Motorsport, visto que a equipa KCMG de Hong Kong abandonou o campeonato para se focar noutras categorias. A estrutura alemã irá ocupar-se dos quatro Honda Civic Type-R inscritos na WTCR e Monteiro terá como companheiros de equipa os argentinos Esteban Guerrieri e Néstor Girolami e o húngaro Attila Tassi.

Atrair os locais

Como ninguém acredita que as grelhas de partida irão ter números nem sequer próximos aos obtidos nos dois primeiros anos, a organização do campeonato decidiu melhorar as condições para os pilotos convidados, aqueles que não participam no campeonato, mas que gostam de fazer uma ou outra prova, como acontece habitualmente no Circuito da Guia, onde alguns pilotos locais aproveitam para medir forças com os melhores do mundo.

Os “wildcards” terão agora uma inscrição mais acessível, passando esta a custar 5,000 euros/evento, um montante inferior em metade ao preço praticado em 2019. Por outro lado, estes “convidados” terão apenas que carregar 10kg de lastro suplementar nas suas viaturas, em vez dos 20kg obrigatórios anteriormente e que os tornava muito pouco competitivos logo à partida.

Recorde-se que na primeira vez que a WTCR visitou Macau, a prova contou com seis representantes do território, incluindo três de matriz portuguesa – André Couto, Filipe Souza e Rui Valente – mas o ano passado, devido aos elevados custos da participação e às limitações que têm os pequenos concorrentes privados, apenas um piloto da RAEM alinhou na prova.

DSAL | Garantida compensação por acidente no Galaxy Hotel

[dropcap]N[/dropcap]o seguimento do acidente de trabalho que ocorreu na semana passada num estaleiro do Galaxy Hotel no Cotai, que causou a morte de três trabalhadores, a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) reuniu com representantes das diferentes empresas envolvidas.

O organismo comunicou que o pedido de retoma das obras não será autorizado sem alterações às condições de segurança e a apresentação de um relatório sobre o acidente. De acordo com a nota, os responsáveis do estaleiro, em conjunto com a empresa intermediária e a associação de agência de emprego vão prestar apoio aos familiares das vítimas que perderam a vida, “nomeadamente no adiantamento da compensação por acidente de trabalho e no tratamento dos restos mortais”.

A DSAL emitiu orientações a 11 associações do sector da construção para tomarem medidas de prevenção e vai organizar uma formação sobre a segurança nos trabalhos em altura aos profissionais do estaleiro onde ocorreu o acidente.

Macau Legend | David Chow substituído por Melinda Chan na posição de CEO

[dropcap]D[/dropcap]avid Chow foi substituído pela esposa Melinda Chan na posição de CEO da empresa Macau Legend, que gere a Doca dos Pescadores.

A informação foi divulgada em comunicado na passada sexta-feira, e que tem conta de perdas da empresa na ordem de 190 milhões de dólares de Hong Kong no ano passado, em comparação com ganhos de 1.966 milhões de 2018.

Melinda Chan está nos quadros da empresa desde Outubro de 2017, depois de ter perdido o cargo de deputado na Assembleia Legislativa, onde cumpriu dois mandatos. Segundo a informação disponibilizada, vai auferir de um salário mensal de 187 mil patacas por mês, além de outros bónus e subsídios.

Quanto a David Chow, fica como co-presidente da direcção, mas passa a ter outras prioridades como a “definição das políticas” do grupo. Continua ainda a ser membro da direcção.

Outra das alterações anunciada na direcção da empresa foi a reforma da mãe de David Chow, Lam Fong Ngo, conhecida na indústria como “Madam Lam”. Após 40 décadas, e agora com 96 anos, Lam destacou-se quando trabalhou com Stanley Ho na Sociedade de Turismo e Diversões de Macau. Em 2014, fez parte da lista de multimilionários da Forbes com fortuna avaliada em mil milhões de patacas. Confessa admiradora da arte da ópera chinesa, em 2008 foi agraciada com a Medalha de Mérito Cultural.

Covid-19 | BNU fundamental a ajudar Portugal na compra de ventiladores à China

O negócio da compra à China de 500 ventiladores pelo Governo de António Costa concretizou-se graças à ajuda do BNU, com o embaixador português em Pequim a fazer a prova do pagamento junto à empresa chinesa vendedora. A notícia, avançada pelo jornal Público, adianta que os ventiladores estiveram perto de ser desviados para o Canadá

 

[dropcap]P[/dropcap]ortugal encomendou 500 ventiladores à China, mas teve de fazer o pagamento a pronto de 10 milhões de dólares americanos entre domingo, 22 de Março, e as 9h, hora à Pequim, da segunda-feira da semana passada. A operação só foi possível graças a uma transacção feita em tempo recorde que assegurou a compra dos ventiladores, caso contrário a encomenda seguiria para o Canadá.
Coube ao Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Macau agilizar a transacção para que fosse feita a tempo e horas, conforme exigido pelo fornecedor chinês, escreve o diário português Público. As autoridades portuguesas tinham também de fazer prova de que o depósito tinha sido efectuado.

Uma fonte governamental descreveu ao jornal uma situação de “sufoco” vivida pelos governantes para que fosse assegurada a vinda do material para Portugal. “Este mercado está uma selva!”, disse.

“O contrato estava feito para os 500 ventiladores e tinha sido sinalizado pelo Executivo através de uma garantia. Mas, no domingo, o Executivo foi informado, pelo vendedor chinês, de que se não pagasse o total da encomenda, à cabeça e até segunda-feira de manhã, ela seria entregue ao Canadá. Ou seja, o Governo tinha até às 2h da madrugada de segunda-feira em Lisboa, quando são 9h na China, para transferir dez milhões de dólares americanos para a conta do vendedor”, escreve o jornal.

Millenium e Sonae eram opções

António Costa começou então a accionar todos os meios de que dispunha, mas todos os bancos e departamentos estatais fecham portas ao domingo. O Governo chegou a abrir o Instituto de Gestão e Crédito Público para ter acesso aos 10 milhões de dólares americanos na hora, mas depois foi necessário apoio de outras entidades para transferir o dinheiro para a China.

Foi aqui que entrou o BNU Macau, embora, numa primeira fase, se tenha ponderado contactar a sucursal em Macau do Millenium BCP ou a Sonae, que tem uma central de compras na China.

“A solução acabou por ser fazer o depósito através do BNU de Macau. Mas mesmo assim, em contra-relógio. As autoridades tiveram de esperar que o administrador deste banco acordasse para tratar da transferência. Em cima da hora limite, 2h da madrugada em Lisboa e 9h da manhã na China, o pagamento foi feito”, adianta o Público.

Coube depois ao embaixador português em Pequim, José Augusto Duarte, a apresentação do comprovativo de transferência que iria assegurar o envio dos ventiladores para Portugal. “O comprovativo do depósito chegou ao Governo [português] às 2h30 da madrugada de Lisboa.

Foi imediatamente enviado ao embaixador português na China que tratou de o ir apresentar pessoalmente ao vendedor para assegurar que Portugal não perdia a encomenda de 500 ventiladores”, acrescenta o jornal.

Governo defendeu porte de arma para agentes de investigação criminal

[dropcap]O[/dropcap] Executivo acolheu várias opiniões da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa quanto à proposta de alteração à lei que regula as competências e autoridade da Polícia Judiciária (PJ), e vai fazer ajustamentos.

A proposta prevê que as autoridades de polícia criminal e o pessoal do grupo de investigação criminal tenha direito à detenção, uso e porte de arma de serviço. Para além disso, após aposentação, caso estes profissionais tenham um tempo de contribuição não inferior a 25 anos têm direito a uso e porte de arma, sendo obrigatório o seu manifesto.

“Tendo em conta as políticas penais, o Governo esclareceu sobre esta matéria. A política criminal destina-se a salvaguardar a segurança pessoal dos agentes de investigação criminal. Esta política abrange ainda um conjunto de medidas de prevenção criminal, punição e correcção do autor do crime entre outras”, disse Ho Ion Sang.

No entanto, a correcção nem sempre resulta, tendo sido dado como exemplo casos de criminalidade organizada em que há possibilidade de retaliação contra a polícia, com implicações de segurança para este e a sua família. “Pretende-se com este artigo salvaguardar apropriadamente o pessoal em causa”, foi justificado.

De acordo com os dados providenciados, há actualmente 1900 pessoas com porte de arma de defesa, ao abrigo do regulamento de armas e munições, um documento que data de 1999. O Governo terá indicado que vai fazer estudos para realizar alterações, mas dada a complexidade do trabalho de revisão, a proposta em cima da mesa “mantém provisoriamente esse regime”. A maioria de quem tem porte de arma de defesa são ex-polícias. “Nos últimos anos, o Governo tem reforçado a gestão e forma mais rigorosa, porque há 5 anos havia 2500 pessoas, e actualmente são só 1900. E o Governo disse que vai reforçar a fiscalização para os indivíduos que têm [esse] direito”, comentou o deputado.

Um copo a mais

Discutiu-se ainda um dos pontos das infracções disciplinares muito graves, referente à embriaguez, quando esta prejudica o desempenho normal das funções do trabalhador. “Claro que se uma pessoa estiver em casa e beber um copo de vinho não cai neste âmbito, desde que não esteja em funções nessa altura”, apontou Ho Ion Sang, salientando, porém, que “para os efectivos da PJ há maior exigência”, dado que têm dever de disponibilidade permanente. Os membros da Comissão consideraram o esse ponto adequado, mas sugeriram uma melhoria ao nível da redacção para clarificar a norma.

Fundação Macau | Novo Macau quer informações para fiscalização de apoios

A divulgação de documentos que permitam ao público monitorizar a atribuição de apoios da Fundação Macau. Foi este o apelo da Associação Novo Macau no seguimento do relatório do Comissariado da Auditoria sobre a entidade

 

[dropcap]A[/dropcap] Associação Novo Macau reagiu aos resultados do relatório do Comissariado da Auditoria (CA), em particular no que diz respeito à Fundação Macau, considerando que a entidade devia publicar na sua página electrónica os regulamentos internos para a aprovação de financiamento. O objectivo é que pessoas e associações conheçam o conteúdo e consigam “monitorizar” a fundação.

“Sabemos pelo novo relatório do Comissariado da Auditoria que a Fundação Macau tem regulações internas para a aprovação de financiamento, mas não conseguimos saber o conteúdo deste regulamento interno”, lamentou Sulu Sou, vice-presidente da Novo Macau. Em causa está a “flagrante insuficiência” ao nível da fiscalização por parte da Fundação Macau às contas dos beneficiários de apoios financeiros, revelada pelo CA.

O relatório de auditoria anterior à entidade datava de 2012. Sulu Sou indicou que nessa altura a associação seguiu o assunto e reportou o caso ao Comissariado Contra a Corrupção (CCAC). O deputado considera que desde então a Fundação Macau “não melhorou a gestão e uso adequado dos recursos do erário público”, apelando à reforma da instituição. Defendeu ainda que o CCAC deve “dar seguimento para investigar mais”, recordando o caso da atribuição de um financiamento da Fundação Macau à Universidade de Jinan em 2016.

Montante máximo

No entender do vice-presidente da Novo Macau, está em causa o regime geral do direito de associação. Este prevê que “as associações que beneficiem de subsídios ou de quaisquer outros contributos de natureza financeira de entidades públicas, em montante superior ao valor fixado pelo Governador, publicam anualmente as suas contas no mês seguinte àquele em que elas forem aprovadas”.

Assim, considera que o Chefe do Executivo devia definir anualmente um montante, devendo as associações com fundos públicos superiores anunciar essa informação. “Mas depois de 1999 (…), o Governo não cumpriu este requerimento legal de definir o montante anualmente”, explicou o deputado, apontando que “não podemos monitorizar como as associações usam os fundos públicos”. Apontando para a existência de cerca de 20 fundos públicos, Sulu Sou comentou que apesar da promessa do Governo em criar uma legislação específica para a sua monitorização, não é conhecida qualquer calendarização.

Cultura | Novas medidas incluem isenção de rendas

[dropcap]O[/dropcap] Instituto Cultural (IC) vai lançar um pacote de medidas destinado aos grupos culturais e artísticos de Macau afectados pela covid-19, que incluem, entre outras, a isenção do pagamento de rendas dos espaços do IC entre Abril de 2020 e Março de 2021.

Além disso, segundo uma nota do IC divulgada no passado sábado, está também prevista a abertura o Centro de Arte Contemporânea de Macau – Oficinas Navais Nº2, para actuações dramáticas, a reabertura de duas salas de ensaio no Centro Cultural de Macau (CCM) durante o próximo mês e a transmissão gravada ou ao vivo de produções locais finaciadas.

Foi ainda garantido o reembolso total para os espectáculos cancelados. O objectivo das novas medidas, segundo o IC, passa por “oferecer os recursos necessários para as produções (…) locais e apoiar as indústrias relevantes e os trabalhadores freelancer”. O IC anunciou ainda o cancelamento do espectáculo “Hush!! Concerto na Praia”.

Ensino | Deputado Mak Soi Kun quer medidas para compensar falta de aulas

[dropcap]O[/dropcap] deputado Mak Soi Kun quer saber que medidas vão ser adoptadas pelo Governo para garantir que os padrões de ensino não são afectados pelo facto de não ter havido aulas presenciais, devido à pandemia da covid-19.

Segundo o legislador, o facto de não poderem ter aulas presenciais afecta os padrões de ensino em disciplinas como a química, devido à ausência de experiências, ou a educação física, onde é necessário fazer exercícios.

Porém, para Mak estas falhas devem ser compensadas com aulas. Por isso questionou o Executivo sobre os planos para estas compensações. Finalmente, o deputado questionou se vai haver matérias relacionadas com protecção ambiental e sensibilização para a protecção colectiva e individual de saúde.

Secretário considera restrições na fronteira necessárias

As restrições fronteiriças foram apertadas do lado da Província de Guangdong, com a imposição de quarentena a quem entre a partir de Macau. Uma medida que o secretário para a Segurança considerou ser necessária, rejeitando dizer que não há “um risco grande” na sociedade em Macau

 

[dropcap]O[/dropcap] Governo de Macau foi avisado das restrições fronteiriças na Província de Guangdong algumas horas antes das medidas serem noticiadas, na quinta-feira, embora sem esclarecimentos sobre os pormenores. “Não podemos dizer que é uma medida muito rigorosa para nós porque eles têm as suas ponderações. (…) Penso que ponderaram muito bem antes de tomar esta medida. Eu acho que é necessária”, comentou o secretário para a Segurança na sexta-feira. Sobre a necessidade de Macau adoptar mais medidas, Wong Sio Chak não colocou a hipótese de parte, mas respondeu que as actuais “já são muito rigorosas”.

Desde as seis da manhã de sexta-feira que os visitantes chegados à Província de Guangdong vindos de Macau, Hong Kong e Taiwan passaram a ter de fazer o teste da covid-19 e a ficar 14 dias de quarentena. Os cidadãos estrangeiros com vistos e autorização de residência também são abrangidos pela medida.

A diferença temporal entre o anúncio e a entrada em vigor das medidas levou a uma corrida às fronteiras da RAEM. E no dia seguinte, Wong Sio Chak admitiu que a política criou dificuldades à população de Macau:

“Também achamos que é um pouco rápida essa implementação, especialmente para os residentes que estão a viver no Interior e em Zhuhai. Vão ter algumas dificuldades e enfrentar alguns obstáculos quando voltarem para o Interior. Mas segundo sei, haverá medidas especiais, para os residentes de Macau na China e para os alimentos que são importados”, explicou, na sexta-feira, à margem de uma reunião na Assembleia Legislativa.

Na tarde do mesmo dia, e durante a conferência de imprensa diária, Wong Sio Chak falou de negociações entre Macau e a província vizinha no sentido de permitir excepções. Os menores de 14 anos, idosos com mais de 70, comerciantes, transportadores de bens essenciais e condutores de carros com matrículas duplas devem ficar isentos da quarentena, mas a situação não é muito clara para as autoridades de Macau e a aprovação é vista caso-a-caso pelas autoridades do Interior.

Descida de criminalidade

Questionado sobre se as restrições de entradas podem motivar uma diminuição dos crimes leves, o secretário para a Segurança respondeu afirmativamente. Mas apesar de acreditar que um menor fluxo de pessoas vai diminuir a incidência de crimes, defendeu a necessidade de atenção à situação. Em causa está a possibilidade de surgirem outros crimes tendo em conta o estado da economia. “Será que vai haver mais roubos, furtos, esses crimes? Temos de estar atentos. Mas por enquanto sim, os crimes baixaram”, disse.

SSM | Lei Chin Ion diz que situação “não é melhor que em Fevereiro”

O discurso mudou. Os Serviços de Saúde admitem existir risco de surto na comunidade e não afastam a hipótese de vir a aplicar novas medidas depois de um novo caso suspeito identificado em Hong Kong, ter estado em Macau. Foi ainda revelado que a paciente do 18º caso se encontra em estado grave

 

[dropcap]O[/dropcap]s Serviços de Saúde (SS) de Macau admitiram ontem existir risco de propagação comunitária, após terem sido informados da existência de um novo caso preliminar de contaminação por covid-19 confirmado em Hong Kong. Trata-se de uma mulher filipina de 40 anos que esteve em Macau durante cinco dias.

Na base das preocupações das autoridades de Macau está ainda a evolução da situação epidémica a nível mundial. Isto, no mesmo dia em que a situação clínica do 18º caso confirmado em Macau (ver caixa) passou a ser considerada grave.

“Há hoje [ontem] um caso grave e também há um caso suspeito preliminar que deve ter apresentado sintomas em Macau porque esteve cá durante cinco dias. Isto significa que há risco de propagação da epidemia na comunidade e este risco não é baixo. Agora a situação epidémica de Macau não é melhor do que a primeira ronda em Fevereiro. Em muitos lugares da Europa, a situação epidémica está cada vez mais grave e em Hong Kong há também registos de vários casos”, explicou o director dos SS, Lei Chin Ion, por ocasião da conferência de imprensa diária sobre a covid-19.

Sobre o caso suspeito identificado em Hong Kong, as autoridades de saúde revelaram que a mulher esteve em Macau entre os dias 22 e 26 de Março e que existe ligação com o caso da banda musical de Hong Kong, associada a vários outros casos no território vizinho. Enquanto esteve em Macau, a mulher almoçou no restaurante Jollibee, fez compras no mercado de São Domingos e contactou com uma trabalhadora não residente, entretanto identificada como contacto próximo e colocada em isolamento no Alto de Coloane.

Lei Chin Ion aproveitou ainda a ocasião para fazer um apelo à população para evitar concentrações. O director dos SS admitiu ainda que podem vir a ser tomadas novas medidas restritivas em Macau, à semelhança de Hong Kong.

“Não afastamos a possibilidade de haver casos locais se continuarem a existir concentrações e (…) aplicar medidas como as de Hong Kong, mas eu não gostaria. Se os residentes conseguirem diminuir essas concentrações, podem diminuir o número de casos ou o risco de contaminação local”, apontou.

Quarentena alargada?

Lei Chin Ion afastou para já o cenário de estender o período obrigatório de duas semanas de quarentena. Isto, depois de o 36º e o 37º casos dizerem respeito a pessoas que estavam prestes a concluir o período de isolamento.

Os dois casos foram importados de Portugal, tratando-se o primeiro de um residente de Macau de 21 anos, estudante, que chegou de Lisboa no dia 15 de Março e o segundo, do noivo da 11ª paciente, uma TNR sul coreana, em tratamento desde 15 de Março.

“Recentemente temos dois casos que foram detectados nos últimos dias de quarentena. É necessário estender o período? Isto cabe à ciência, não pode ser determinado com um ou dois casos. Olhando para o exterior (…) todos estão a cumprir um isolamento de 14 dias, mas não afastamos a hipótese de estender o período (…), mas primeiro temos de ver os critérios da OMS e do Interior da China”, explicou.

Em estado grave

As autoridades de saúde anunciaram ontem o primeiro caso grave de covid-19 em Macau. Trata-se de uma residente de 50 anos, diagnosticada como o 18º caso no território, tendo chegado a Macau no dia 21 de Março, vinda de Nova Iorque. Os exames da paciente foram apresentados por Lo Iek Long a direcção do Centro Hospital Conde de São Januário. “A infecção ocupa mais de metade do pulmão (…) e podemos ver que há inflamação notória nos pulmões e é por isso que hoje ela tem dificuldades respiratórias e baixo teor de oxigénio no sangue”, explicou. Sobre o caso, Lei Chin Ion, afirmou mesmo que “se os sintomas continuarem a agravar-se poderá correr o risco de morrer”.

Covid-19 | Criado fundo de 10 mil milhões

[dropcap]C[/dropcap]om o objectivo de combater o novo tipo de coronavírus, o Governo vai criar um fundo de apoio adicional no valor de 10 mil milhões de patacas. A medida é destinada especificamente a residentes de Macau, empresas e estabelecimentos comerciais que, devido ao impacto da situação epidémica, “enfrentem dificuldades de sobrevivência ou de exploração dos seus negócios”, pode ler-se numa nota publicada ontem pelo Executivo.

Segundo o Governo, a nova ronda de medidas irá permitir “um apoio mais rápido e mais forte nos trabalhos de prevenção e combate à epidemia, em termos financeiros” e surge no seguimento das novas medidas fronteiriças anunciadas nos últimos dias, tanto pelo Governo de Hong Kong, como pela província de Guangdong.

“Como a situação fora do país continua a ser de propagação epidémica e no sentido de evitar o aumento de casos importados do exterior, a Região Administrativa Especial de Hong Kong e a província de Guangdong tomaram, nos últimos dias, novas medidas de controlo de entradas e saídas, que afectarão ainda mais a economia de Macau”, pode ler-se no comunicado.

A nova ronda de medidas de apoio serão anunciadas no decorrer da semana. Recorde-se que anteriormente, o Governo já tinha adoptado uma série de medidas no valor de 40 mil milhões de patacas que visaram sobretudo a redução e isenção de impostos, apoios à concessão de empréstimos e incentivos ao consumo.

Anja Visini, residente em Bergamo e doente recuperada de covid-19: “A cada dez minutos passa uma ambulância, noite e dia”

Arquitecta, natural de Bergamo, Anja Visini vive num dos epicentros da covid-19 em Itália, país que diariamente soma centenas de mortes causadas pela doença. Em casa a recuperar da patologia causada pelo novo coronavírus, Anja fala de “indecisão” por parte das autoridades italianas na hora de adoptar medidas de combate à pandemia e descreve o cenário caótico vivido pelos profissionais de saúde, que não têm tempo para atender todos os doentes

[dropcap]Q[/dropcap]ual é a sua situação clínica actual? Está totalmente recuperada da covid-19?
Aqui os médicos não faziam os exames da covid-19 porque a situação já estava tão grave que só faziam testes aos casos de pneumonia. Então há muitíssimas pessoas que estão contagiadas e que não sabem disso, porque não fazem testes e porque estão em casa. Uma vez que fecharam tudo há três semanas ninguém pode sair de casa a não ser para urgências de trabalho, para comprar comida ou medicamentos. A região de Lombardia não estava preparada para fazer exames a toda a população que se suspeitava infectada com o vírus. Pediram às pessoas para não irem ao hospital e ligarem para médicos que, por telefone, diriam o que fazer. Eu tive uma gripe em meados de Fevereiro, antes de rebentar todo este problema. A minha médica disse-me que era uma gripe normal, então tive três ou quatro dias com febre não muito alta, à volta dos 37,5, 38 graus, e depois tive dois dias com febre mais baixa. Depois estive mais três semanas com dificuldade em respirar e tive um dos sintomas fundamentais [da covid-19] que é não ter paladar ou olfacto. Fiquei em casa a pensar que tinha uma gripe normal, mas comecei a falar com amigos sobre os sintomas que tinha. Um amigo teve os mesmos sintomas que eu, e também o pai e a mãe dele, mas a mãe acabou por ir para os cuidados intensivos no hospital. Nessa altura, decidi falar com médicos e confirmaram que, provavelmente, eu também teria a covid-19. Tive de uma forma leve, que não levou a pneumonia ou a graves dificuldades respiratórias. Mas há muitíssimas pessoas que estão na mesma situação que eu, ou seja, tiveram alguma coisa e não sabem o quê, e quando saem para ir às compras transportam o vírus. Há pessoas com febres altas e que estão em casa, porque nos hospitais já não há espaço e os médicos de clínica geral vão monitorizando a situação destes pacientes que ficam em casa com uma bomba de oxigénio ou máscaras para respirar. Os casos mais graves vão para o hospital.

Como acha que apanhou covid-19?
Acho que apanhei o vírus no dia 15 de Fevereiro, porque tive um encontro com colegas de uma associação da qual faço parte e uma rapariga da associação tinha febre, 37,5º, e foi à reunião, porque tínhamos uma votação. Ela vive numa aldeia que é um dos locais onde houve mais infectados. Ela chegou e contagiou metade da associação, cerca de 50 por cento das pessoas que lá estavam. Mas ninguém pensou que podia ser isto, porque nessa altura, em meados de Fevereiro, havia dois ou três casos e as pessoas pensavam que o vírus era apenas um problema chinês. Em Bergamo e Milão todos pensavam continuar a trabalhar e a fazer a sua vida normal. Eram partilhados hashtags como #milaonaopara ou #bergamoisrunning, ninguém pensava que seria uma coisa assim.

Ficou com algumas sequelas da doença?
Depois de um mês e meio ainda tenho tosse e alguma dificuldade em respirar. Os cheiros e os sabores ainda não estão recuperados, mas estou bem. Obviamente, fico sempre em casa e não faço muito esforço, não me apercebo se estou muito cansada ou não, mas estou bem agora.

Anja Visini é arquitecta e vive num dos epicentros da covid-19 em Itália, na cidade de Bergamo..

Está a ser acompanhada por um médico à distância?
Liguei a minha médica, não temos nenhuma atenção particular. Eles estão cheios de pedidos e é uma situação muito crítica, pois há muitos doentes com formas mais graves de covid-19. Não há tempo para atender toda a gente. Ontem liguei à minha médica e ela quis terminar a chamada rapidamente, disse-me que não comia desde o dia anterior devido ao excesso de trabalho. A situação dos médicos cá é grave, porque têm muitíssimo trabalho, muitos não têm protecção e já não vão a casa dos doentes para não se infectarem.

As autoridades italianas têm culpa do que está a acontecer no país, por não terem agido a tempo?
Seguramente subestimaram o problema. Aqui na região da Lombardia temos um sistema sanitário que foi privatizado e que não estava preparado para esta emergência. O Governo provavelmente não tomou as medidas necessárias. Alguns políticos pediram desde o começo o encerramento das fronteiras e a suspensão dos voos vindos da China, mas não fizeram isso. Aqui, na região de Bergamo, temos o quarto aeroporto mais importante do país e é uma das zonas industriais mais importantes do país e da Europa. Não podiam parar tudo assim desta maneira. Algumas empresas e fábricas fecharam, mas muitas estão abertas e isso constituiu também um veículo de contágio muito grande. Quando a covid-19 começou a rebentar em Bergamo, o presidente da câmara municipal pediu para fechar e fazer uma zona vermelha, mas o Governo não concordou com a proposta.

Como é o dia-a-dia em Bergamo neste momento?
Agora pode-se sair para fazer compras, uma pessoa por família, ou para ir à farmácia ou para urgências médicas. Também é possível sair para ir trabalhar, mas é necessário ter um certificado. Foram impostas sanções. Se uma pessoa estiver infectada e for encontrada na rua pode ser acusada criminalmente. Não se vê quase ninguém na rua, há poucos carros e a qualidade do ar melhorou muitíssimo. A cidade é silenciosa. Normalmente, noutras zonas de Itália às seis da tarde ou nove da noite as pessoas vão cantar para as janelas, mas isso nunca aconteceu aqui, porque a situação sempre foi muito trágica. O ambiente é bastante silencioso. Passam os carros da protecção civil com altifalantes a avisar as pessoas para ficarem em casa e o pior de tudo é que a cada dez minutos passa uma ambulância, noite e dia. Agora um pouco menos, mas nas últimas três semanas estávamos sempre a ouvir o barulho das ambulâncias.

Até que ponto esta experiência, não apenas como doente, mas também como observadora, mudou a sua vida?
A minha experiência como doente não foi assim tão problemática. Primeiro, porque não foi muito grave em termos clínicos, mas também porque estava convencida de que tinha uma gripe normal e só depois tive esta revelação. Não foi muito chocante porque já tinha passado. Vejo que muitas pessoas que conheço têm parentes, conhecidos ou amigos que morreram e quando abrimos o Facebook vemos muitas fotos de pessoas que já estão mortas. Aí uma pessoa olha para trás e começa a analisar se a vida que fazia antes valia a pena, se uma pessoa se dedicava a coisas que valiam a pena.

É arquitecta. Como está neste momento a sua situação profissional?
Trabalho num estúdio muito pequeno onde fazemos trabalho de curadoria, produzimos livros de arquitectura e organizamos projectos para museus e exposições. Por agora, não temos muitos problemas relacionados com o trabalho, porque o estúdio não é formado por muitas pessoas, somos apenas seis, e podemos trabalhar a partir de casa. O que mudou foi o cancelamento de todos os eventos que estávamos a preparar. O estúdio fica em Milão e todos os eventos estavam relacionados com a Bienal de Veneza ou com a Semana de Moda de Milão, e todos foram cancelados ou adiados. Se a situação continuar assim por muitos meses, obviamente vamos ter problemas porque os contratos vão ser cancelados. Todos os que trabalham no estúdio fazem-no em regime de freelance, não têm contratos e não têm subsídio de desemprego. Esse aspecto pode ser problemático.

Qual foi o maior erro das autoridades italianas no combate a esta pandemia?
A indecisão. Às vezes há que tomar medidas que parecem pouco populares, mas que são medidas responsáveis. O nosso Governo não teve muita clareza nesse aspecto.

Como olha para a forma como a China lidou com esta enorme crise?
Os chineses têm uma organização diferente da organização italiana. Pode ser mais duro, mas neste caso revelou-se mais eficiente. Os italianos têm uma forma de gozar a liberdade que, por vezes, pode ser um pouco desordenada. Acho que aqui sofremos devido a essa desordem. Por outro lado, nos últimos 10 ou 15 anos o investimento público na saúde diminuiu muito e isso também foi problemático.

Covid-19 | Embaixada portuguesa na China numa “corrida” para assegurar equipamento médico

[dropcap]O[/dropcap] embaixador português em Pequim admitiu estar numa “corrida contra o tempo” para garantir equipamento médico vital na luta contra a epidemia do novo coronavírus, numa altura de forte aumento da procura a nível mundial.

“Queremos lutar pelos nossos cidadãos e ter a capacidade de cumprir com a nossa obrigação. O problema é que o mundo está cá todo”, afirmou à agência Lusa José Augusto Duarte, à margem de um encontro comemorativo da doação de quase quatro milhões de euros em equipamento médico pela EDP e pela sua acionista chinesa, a estatal China Three Gorges (CTG), ao Ministério da Saúde português.

A EDP e a CTG entregaram esta manhã na embaixada portuguesa em Pequim 50 ventiladores, 200 monitores médicos e outros equipamentos, que serão agora enviados para Portugal. Lembrando que o montante oferecido “não é brincadeira”, Augusto Duarte revelou que a CTG foi a primeira empresa do país asiático a oferecer ajuda às autoridades portuguesas.

A oferta surge numa altura em que os ‘stocks’ mundiais se têm mostrado insuficientes para a elevada procura, à medida que a doença se alastra por todo o mundo, fazendo mais de 31 mil mortos e paralisando países inteiros.

A crise de saúde pública, que começou em Wuhan, no centro da China, alastrou-se, entretanto, à Europa e aos Estados Unidos, resultando numa escassez global de ventiladores ou máscaras cirúrgicas.

“Se hesitássemos cinco segundos a fechar o contrato, estes ventiladores não estariam aqui”, admitiu Zhang Dingming, vice-presidente executivo da CTG, durante a cerimónia.

A pandemia da covid-19 está também a expor as consequências da centralização das cadeias de produção globais na China, primeiro ao paralisar a indústria eletrónica ou de automóveis, devido ao encerramento de fábricas, portos e cidades inteiras no país asiático, e a seguir a demonstrar a incapacidade dos países ocidentais de se auto-abastecerem com equipamento médico crucial, à medida que a doença de alastrou além-fronteiras.

Depois de dois anos marcados pela guerra comercial e tecnológica entre Washington e Pequim, analistas prevêem que a crise de saúde acelere a dissociação entre as cadeias de distribuição globais.

José Augusto Duarte admitiu “não ter a menor dúvida de que há muita coisa que está a ser questionada e debatida”, mas ressalvou que a “meio de uma crise, não é a melhor altura para se tomarem decisões”, porque “temos tendência para ver só a parte negativa”.

“Nesta altura estamos a ver um aspeto que consideramos menos positivo, que é a concentração num país desta capacidade produtiva de determinados aparelhos que fazem falta, mas também que foi esse processo que permitiu ter produtos mais baratos e a criação de outros tipos de emprego em outras partes do mundo”, resumiu.

A televisão estatal chinesa CGTN compareceu no encontro na embaixada. As autoridades e entidades chinesas têm realizado doações de equipamento médico, quase sempre acompanhadas de cerimónias mediatizadas pelos órgãos oficiais de Pequim.

Esta semana, Josep Borrell, alto representante da União Europeia para a Política Externa fez um alerta contra a “política de generosidade” da China, que identificou como uma “luta por influência” e uma “batalha global pelo domínio da narrativa”.

“Na batalha das narrativas, temos visto também tentativas de desacreditar a União Europeia e alguns casos em que europeus foram estigmatizados como se fossem todos portadores do vírus”, disse.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infectou mais de 667 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 31.000. Dos casos de infecção, pelo menos 134.700 são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

A China, sem contar com os territórios de Hong Kong e Macau, conta com 81.439 casos (mais de 75 mil recuperados) e regista 3.300 mortes. A China anunciou hoje 45 novos casos, dos quais 44 oriundos do exterior, e mais cinco mortes, numa altura em que o país suspendeu temporariamente a entrada no país de cidadãos estrangeiros, incluindo residentes.

Em Portugal, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 119 mortes, mais 19 do que na véspera (+19%), e registaram-se 5.962 casos de infecções confirmadas, mais 792 casos em relação a sábado (+15,3%).

Covid-19 | Portugal com 119 mortes e mais de 5.900 infectados

[dropcap]P[/dropcap]ortugal regista hoje 119 mortes associadas à covid-19, mais 19 do que no sábado, e 5.962 infectados (mais 792), segundo o boletim epidemiológico divulgado pela Direcção-Geral da Saúde (DGS).

O relatório da situação epidemiológica em Portugal, com dados actualizados até às 24:00 de sábado, indica que a região Norte é a que regista o maior número de mortes (61), seguida das regiões do Centro e de Lisboa e Vale do Tejo, com 28 cada, e do Algarve, que hoje regista dois mortos. Relativamente a sábado, em que se registavam 100 mortes, hoje observou-se um aumento de 19%. De acordo com dados da DGS, há 5.962 casos confirmados, mais 792 (um aumento de 15,3%) face a sábado.

Das 100 mortes registadas, 70 tinham mais de 80 anos, 27 tinham idades entre os 70 e os 79 anos, 15 entre os 60 e os 69 anos e cinco entre os 50 e os 59 anos. Pela primeira vez o boletim regista mortos na faixa etária dos 40 aos 49 anos (duas mulheres).

Os dados da DGS, que se referem a 75% dos casos confirmados, precisam que Lisboa é a cidade que regista o maior número de casos de infecção pelo coronavírus SARSCov2 (594), seguida do Porto (317 casos), Vila Nova de Gaia (351), Maia (296), Matosinhos (294), Gondomar (242) e Braga (208). Desde o dia 1 de Janeiro, registaram-se 38.042 casos suspeitos, dos quais 5.508 aguardam resultado laboratorial.

O boletim epidemiológico indica também que há 26.572 casos em que o resultado dos testes foi negativo e que 43 doentes recuperaram. Das 5.962 pessoas infectadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), a grande maioria (5.476) está a recuperar em casa, 486 (mais 68, +16,2%) estão internadas, 138 (mais 49, +55%) dos quais em Unidades de Cuidados Intensivos.

A região Norte continua a registar o maior número de infecções, totalizando 3.550, seguida da região de Lisboa e Vale do Tejo, com 1.478 casos, da região Centro (709), do Algarve (108) e do Alentejo, que hoje apresenta 41 casos. Há ainda 33 pessoas infectadas com covid-19 nos Açores, 43 na Madeira.

A DGS regista ainda 17.785 contactos em vigilância pelas autoridades (menos 2.142). A faixa etária mais afectada é a dos 40 aos 49 anos (1.146), seguida dos 50 aos 59 anos (1.084), dos 30 aos 39 anos (902) e dos 60 aos 69 anos (850).

Há ainda 64 casos de crianças com idades até aos nove anos, 138 de jovens com idades entre os 10 e os 19 anos e 588 com idades entre os 20 e os 29 anos. Os dados indicam também que há 611 casos de pessoas com idades entre os 70 e os 79 anos e 579 com mais de 80 anos.

Segundo o relatório da DGS, 124 casos resultam da importação do vírus de Espanha, 93 de França, 41 do Reino Unido, 28 de Itália, 24 da Suíça, 21 dos Emirados Árabes Unidos, 13 de Andorra, 10 do Brasil, oito Países Baixos, sete da Alemanha, seis da Bélgica, cinco da Argentina, cinco dos EUA, quatro da Áustria, quatro em Cabo Verde e quatro no Canadá.

O boletim dá ainda conta de três casos importados da Índia e outros três de Israel e dois casos do Egito, dois da Irlanda e outros dois da Jamaica. Foram ainda importados um caso da Áustria/Alemanha, Austrália, Chile, Cuba, Dinamarca, Indonésia, Irão, Luxemburgo, Malta, Maldivas, Noruega, Paquistão, Polónia, Qatar, República Checa, Tailândia, Venezuela e Ucrânia.

Segundo a DGS, 62% dos doentes positivos ao novo coronavírus apresentam como sintomas tosse, 52% febre, 35% dores musculares, 29% cefaleias, 24% fraqueza generalizada e 20% dificuldade respiratória. Esta informação refere-se a 73% dos casos.

Portugal, onde o primeiro caso foi confirmado a 2 de Março e que está em estado de emergência até quinta-feira, entrou já na terceira e mais grave fase de resposta à doença (Fase de Mitigação), activada quando há transmissão local, em ambiente fechado, e/ou transmissão comunitária.