Hong Kong | Detidos nove suspeitos por conspiração terrorista

A polícia de Hong Kong informou ontem que deteve nove pessoas suspeitas de envolvimento em actividades terroristas, afirmando que estariam a tentar fabricar explosivos para colocar bombas em toda a cidade. Dos nove detidos, seis são estudantes do ensino secundário, informou a polícia.

Segundo as autoridades, o grupo estava a tentar fabricar o explosivo triperóxido de triacetona (TATP) num laboratório caseiro, num ‘hostel’. A polícia disse que planeavam utilizar o material para bombardear tribunais, túneis, caminhos-de-ferro e fazer explodir caixotes do lixo na rua, “para maximizar os danos causados à sociedade”.

Os nove detidos, cinco homens e quatro mulheres, têm entre 15 e 39 anos de idade, segundo o superintendente sénior Li Kwai-wah, do Departamento de Segurança Nacional da Polícia de Hong Kong, citado pela agência de notícias Associated Press (AP).

As autoridades apreenderam aparelhos e matérias-primas utilizados para fazer o explosivo, além de manuais de instruções e cerca de 80.000 dólares de Hong Kong. A polícia disse que o grupo planeava deixar Hong Kong e sabotar a cidade antes da partida.

Desde 2019, a polícia de Hong Kong prendeu várias pessoas pelo fabrico de bombas, incluindo de TATP. Em Dezembro de 2019, as autoridades desativaram duas bombas numa escola católica local.

Cooperação | Pequim apela a consenso com a Europa

O Presidente chinês, Xi Jinping, pediu uma “expansão do consenso e cooperação” com os países europeus, para “enfrentar desafios globais em conjunto”, noticiou ontem a televisão estatal chinesa. Xi Jinping fez o apelo durante uma videoconferência, realizada na segunda-feira com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o Presidente francês, Emmanuel Macron, na qual foram abordadas as relações bilaterais entre a China e a União Europeia (UE).

Citado ontem pela televisão estatal CCTV, o líder chinês apelou ao “respeito mútuo” e “busca por interesses comuns”, e a uma “gestão adequada” das diferenças, visando desenvolver os laços entre a China e a Europa.

“Esperamos que a Europa desempenhe um papel mais activo nos assuntos internacionais, reflectindo verdadeiramente a sua autonomia estratégica”, exortou Xi.

O apelo surge após uma visita do Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, à Europa, que visou formar uma frente comum para desafiar a China em questões económicas e de Direitos Humanos.

A cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) apontou também, pela primeira vez, a China como um adversário.

Xi ressaltou o seu compromisso com um “verdadeiro multilateralismo”, que permita resolver os problemas internacionais “através de consultas”.

Outras matérias

Apesar de a União Europeia reclamar há vários anos reciprocidade no acesso ao mercado, apontando que as suas empresas enfrentam regulamentos discriminatórios no país asiático, Xi pediu aos países europeus que “proporcionem um ambiente de negócios transparente e não discriminatório para as empresas chinesas”.

O Presidente chinês pediu também às nações europeias para apoiarem a celebração dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, em 2022, numa altura em que existe a possibilidade de alguns países boicotarem o evento.

A conferência entre os três líderes, que não foi anunciada antecipadamente, serviu também para abordar o comércio internacional, o combate às mudanças climáticas, a protecção da biodiversidade e a cooperação internacional no contexto da pandemia da covid-19.

Merkel e Macron apoiam investimento

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o Presidente francês, Emmanuel Macron, apoiaram a ratificação do acordo para a protecção de investimentos entre a China e a União Europeia, numa videoconferência com o homólogo chinês, Xi Jinping. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China garantiu que Macron expressou o seu “apoio à conclusão do acordo de investimentos China-UE” e que Merkel mostrou esperança de que “seja aprovado o mais brevemente possível”. “A Alemanha apoia que a cimeira entre a UE e a China seja antecipada e espera que o acordo de investimento seja aprovado o mais brevemente possível”, disse a chanceler alemã, de acordo com a agência noticiosa oficial Xinhua.

Creative Macau | Obras de Luna Cheong expostas a partir de amanhã

A partir de amanhã, a Creative Macau recebe a exposição “Rituality”, de Luna Cheong. A mostra, que reúne 18 pinturas e instalações da artista local, parte em busca de compreender “a necessidade que o ser humano tem de manter a prática de rituais” no dia-a-dia, mesmo depois da perda do simbolismo

 

“Porque razão continuamos a praticar diariamente alguns rituais religiosos e em privado, quando a nossa cultura já mudou tanto ao longo dos anos?”. A questão, que serve de base para a exploração da prática de novos e ancestrais rituais nos dias de hoje, é de Luna Cheong, artista plástica de Macau responsável pela exposição “Rituality”, que abre ao público a partir de quinta-feira no espaço da Creative Macau.

Ao HM, Luna Cheong apontou que a mostra versa sobretudo “sobre os rituais da vida”, dando como exemplo, não só hábitos de subsistência antigos realizados em nome de boas colheitas, como as “danças da chuva”, mas também tendências dos novos tempos como o facto de muitas pessoas não prescindirem de tirar uma fotografia à refeição que estão prestes a tomar, quer seja para partilhar nas redes sociais ou para guardar num qualquer arquivo digital.

“Comecei a pensar na necessidade que o ser humano tem de manter os seus rituais. Os rituais fazem parte de algumas práticas antigas do Homem, realizadas em nome da sua própria subsistência. Por exemplo, quando havia secas, faziam-se danças da chuva para que as colheitas crescessem, mesmo não sabendo que isso iria resultar em consequências práticas. À medida que o tempo foi passando, rituais mais pessoais, como juntar as mãos para rezar e outros, passaram também a fazer parte do nosso dia-a-dia”, partilhou a artista.

A exposição que vai estar patente na Creative Macau até ao próximo dia 21 de Agosto inclui 18 pinturas e instalações de Luna Cheong. De acordo com a artista, as obras seguem o estilo desenvolvido durante percurso o universitário realizado entre o Instituto Politécnico de Macau (IPM) e a Universidade Nacional de Artes de Taiwan, que coloca em destaque “as emoções das relações sociais resultantes da interação entre o público e o trabalho artístico”.

A mostra, que elabora sobre rituais e eventos como o Natal que acontecem ao longo das diferentes estações do ano, está dividida em duas partes: “Life” e “Ritual”. Enquanto que a primeira explora as actividades realizadas em grupo durante algumas festividades, a segunda foca-se na exploração de ritos pessoais.

Um sinal de vida

Das 18 obras, três são instalações que enquadram elementos audiovisuais. Uma dessas instalações, conta Cheong, recria um espaço onde a luz chega de forma tímida e onde há troncos de madeira e um assento orientado em direcção a uma imagem.

Segundo a artista, a instalação pretende recriar um momento especial vivenciado por si e que expressa “a fé na vontade que o ser humano tem em sobreviver”. “A instalação usa vídeo, um assento e troncos de madeira para recriar um espaço com pouca luz (…) que expressa a fé na vontade que o ser humano tem em sobreviver. A obra foi feita numa altura em que me sentia deprimida. Naquele preciso momento, enquanto pensava, uma imagem surgiu de repente na minha cabeça para me transmitir uma mensagem. Fiz esta obra para que as pessoas também possam receber essa mensagem”, contou Luna Cheong.

Euro 2020 | Inglaterra recebe Dinamarca na 2.ª meia-final

Com o Euro perto do fim, muitos não acreditavam que dinamarqueses e ingleses pudessem chegar tão longe. Os nórdicos só garantiram o apuramento no último jogo da fase de grupos. Os Três Leões, mesmo com a vitória frente aos alemães, não se mostraram tão perigosos quanto os outros gigantes europeus. Ambas as equipas têm pela frente uma oportunidade única para colocar fim ao rótulo de não favoritos e voltarem ao sucesso de outrora

 

Por Martim Silva

Não há como sentir saudade se não houver distância e Dinamarca e Inglaterra não se encontravam, em Mundiais ou Euros, desde 2002 quando disputaram os oitavos de final do Mundial desse ano. Os ingleses levaram a melhor, tendo vencido os nórdicos por uma margem de 3-0. Desde então defrontaram-se, em competições oficiais, apenas duas vezes e para a Liga das Nações. Um empate a zeros e uma vitória dinamarquesa por 1-0, poderia levar a equipa de Kasper Hjulmand a colocar-se na posição de favorito, visto que os dois encontros realizaram-se no final de 2020.

Mas com a goleada da equipa de Gareth Southgate frente à Ucrânia, para os quartos de final do Euro, por 4-0 e o 4.º lugar no ranking FIFA das selecções, os ingleses são claros favoritos no embate das meias finais.

Para os vermelhos e brancos, há muito fardo emocional do seu lado. A queda de Christian Eriksen, à frente do povo dinamarquês, podia ter feito da equipa de Hjulmand um mero participante que no fim da fase de grupos ia, simplesmente, para casa. A Dinamarca quer repetir o feito de 1992, quando conquistou o Euro, e não deixar que o colapso de Eriksen seja uma nuvem negra a pairar sobre a cabeça dos jogadores. O espírito e a resiliência que os nórdicos demonstraram depois do acontecimento foi a base do sucesso que se vê hoje. “Eu acredito no carácter da minha equipa e no amor e compaixão que temos recebido dos nossos adeptos, algo que nos dá asas. Estamos a jogar com o coração do Eriksen. Acreditamos fortemente em nós e iremos lutar.”, referiu o seleccionador dinamarquês que também rejeitou comparações à equipa de 1992. “Não quero falar mais de 1992. Eram tempos diferentes, o Euro era diferente e o futebol era diferente. Nós queremos escrever a nossa própria história.”.

Do outro lado, os ingleses estão bem cientes do perigo dinamarquês. Os pupilos de Southgate também fizeram grande parte dos jogos do Euro em terreno caseiro e sentem a pressão do país nos ombros. Inglaterra não levanta um troféu desde o Mundial de 1966 e muitos acreditam que este possa ser, finalmente, o ano da glória inglesa. Mas de acordo com o seu treinador, os cuidados terão de ser redobrados porque do lado nórdico não há só qualidade futebolística. “Eles estão nas costas de uma onda de emoção, com toda a certeza, e essa é uma força poderosa que vem a Wembley. Essas coisas têm um impacto no nosso pensamento. Mas eu sei que os nossos jogadores estão no seu melhor quando estão calmos a jogar outro jogo e a pensar de forma clara.”, referiu Gareth Southgate.

Chave do sucesso

No seguimento de ambos os jogos dos quartos de final, Dinamarca e Inglaterra tiveram desempenhos vitoriosos. Os nórdicos passaram por algumas dificuldades frente aos checos, especialmente nos momentos finais, e os ingleses tiveram um triunfo confortável. Ambas as equipas têm jogadores capazes de desbloquear a partida, mas as tropas de Southgate têm sido um autêntico monstro a defender. Inglaterra é a única equipa da prova que ainda não sofreu qualquer golo. A baliza do guardião Jordan Pickford tem estado fechada a sete chaves.

Não obstante, o ataque dinamarquês não tem tido escassez de golo. O avançado Kasper Dolberg, que desde que assumiu a titularidade tem marcado sempre, e o lateral Joakim Mæhle formam uma dupla jovem e perigosa e com pontaria afinada. Há ainda o atacante Yussuf Poulsen e o médio criativo Mikkel Damsgaard a formar um ataque capaz de marcar a qualquer equipa.

Do lado inglês, Harry Kane tem, finalmente, encontrado o fundo das redes adversárias e mostra ser um verdadeiro líder dentro de campo. Raheem Sterling e Jadon Sancho mostraram todo o seu talento frente à Ucrânia. O lateral Luke Shaw também tem estado à altura dos seus companheiros, tendo feito duas assistências no último jogo.
O embate entre ambos está marcado para a madrugada de 7 para 8 de Julho às 3h de Macau. Será jogado no estádio de Wembley, palco que receberá também a final da competição.

Bandeira gay confiscada em Baku

Após sucessivas polémicas, por causa da UEFA e do governo da Hungria, em torno da bandeira que representa a comunidade LGBT, em pleno jogo entre Dinamarca e República Checa em Baku, no Azerbaijão, dois adeptos dinamarqueses trouxeram para o estádio a bandeira em questão, mas esta foi removida por oficiais da UEFA.
Kristoffer Føns, um dos sujeitos que mostrou a bandeira, falou ao canal público da Dinamarca, o DR, sobre o sucedido. “Um guarda oficial veio ter comigo e tirou a bandeira das minhas mãos. Antes de ir para Baku sabia que íamos para um sítio onde os direitos humanos não são importantes. Tinha tido algum cepticismo acerca do Mundial (2022) ser jogado no Catar e pensei que seria um hipócrita se nada fizesse.”.

Após o encontro, e de acordo com a claque de adeptos da Dinamarca, a bandeira regressou à posse de Føns mas a UEFA, em comunicado, negou qualquer tipo de envolvimento na situação. “Nunca instruímos os stewards em Baku, ou em qualquer outro estádio, para confiscarem bandeiras de arco-íris. Assim que a UEFA soube do incidente, contactámos o nosso delegado e o nosso segurança no estádio para investigarem e clarificarem o assunto junto dos stewards locais.”, esclareceu o organismo que tutela o futebol europeu.

Thomas Delaney divulgou daltonismo em 2018

A Dinamarca tem surpreendido tudo e todos dentro e fora de campo neste Euro 2020. É especialmente fora das quatro linhas que os dinamarqueses têm encontrado exemplos de superação e onde tem residido o sucesso da caminhada europeia. Depois do jogo contra a República Checa, que apurou os nórdicos para as meias finais da competição, Thomas Delaney marcou um golo e foi eleito Homem do Jogo. Apesar da sua qualidade dentro de campo, o médio do Borussia Dortmund defende também outras cores, a dos daltónicos.

Em 2018, e segundo uma reportagem da BBC focada no daltonismo dos jogadores do Mundial desse ano, o nome de Delaney foi o mais sonante. No dia que a Dinamarca viajava para a Rússia para entrar em estágio, o médio dinamarquês telefonou para a estação de rádio dinamarquesa DR P3 para mostrar o seu apoio perante um jovem daltónico que, momentos antes, tinha dito à mesma estação de rádio não ter conseguido distinguir as cores das equipas no jogo amigável entre Dinamarca e México.

Depois de se identificar no início da chamada como Thomas e jogador da Dinamarca, Delaney explicou a sua situação. “Eu sou vermelho-verde. Eu diria que não é tão mau, mas acontece. No outro dia, dentro do campo, foi um pouco difícil ver quem estava na minha equipa e quem estava na outra.”, confessou o médio

No mesmo artigo, Kathyrn Albany-Ward, fundadora do grupo Colour Blind Awareness, enalteceu o exemplo do médio. “Ele é o primeiro jogador ao mais alto nível, ainda a jogar, que admitiu ser daltónico. Acho que ele não se apercebeu das implicações positivas daquilo que fez.”. A Dinamarca continua a ser motivo de inspiração para muitos.

Burla | Desfalcados em cerca de 1 milhão para ingressar na universidade

Um designer gráfico de 27 anos é suspeito de burlar os pais de quatro estudantes do Interior da China em cerca de 1 milhão de renminbis, levando-os a acreditar que teria ligações privilegiadas com a direcção de uma universidade de Macau. O residente é ainda acusado de falsificar certificados de admissão e forjar o envio de emails em nome da instituição de ensino

 

Os maus resultados obtidos no Exame Nacional Unificado de ingresso no Ensino Superior pelos filhos, levaram quatro encarregados de educação do Interior da China a recorrer aos serviços de um designer gráfico de Macau que alegou ter contactos privilegiados dentro do Conselho Escolar de uma universidade de Macau, para facilitar a admissão de alunos.

Como resultado, para além de ver os filhos falhar o ingresso ao Ensino Superior em Macau, as vítimas acabaram burladas em cerca de 1 milhão de renminbis e confrontadas com um esquema de falsificação de documentos emitidos em nome da instituição de ensino. O residente de Macau foi detido pela Polícia Judiciária (PJ) na segunda-feira, praticamente dois anos depois da queixa apresentada pelos lesados e da detenção de outras três suspeitas.

O caso remonta a Agosto de 2019, altura em que os encarregados de educação entraram em contacto com uma residente de Macau de apelido Cheong que se prestou a estabelecer alguns contactos para garantir que, apesar dos resultados insatisfatórios, os estudantes fossem admitidos na universidade em questão, que não foi identificada pela PJ.

Em contrapartida, as quatro vítimas prontificaram-se a pagar, por cada estudante, respectivamente, 200.000 dólares de Hong Kong, 246.300 renminbis, 243.500 renminbi e 264.500 renminbis, ou seja, cerca de 1 milhão de renminbis no total. Contudo, após apresentarem a notificação de admissão nos serviços da universidade, os encarregados de educação foram informados que nenhum dos estudantes sido autorizado a ingressar no estabelecimento de ensino.

O acontecimento levou as vítimas a apresentarem queixa à polícia, desenrolando-se daí uma investigação que concluiu que, além de Cheong, outras duas intermediárias estariam envolvidas no esquema. Detidas e interrogadas pela PJ em Setembro de 2019, as três vítimas admitiram ter seguido as instruções de um homem que era, nada mais, nada menos, que o designer gráfico de 27 anos detido na passada segunda-feira e que saiu de Macau no dia 4 de Agosto de 2019. Pelo trabalho efectuado, as arguidas admitiram ainda ter lucrado montantes entre as 36.000 e as 400.000 patacas.

Tal e qual

Através do Gabinete de Acesso ao Ensino superior, a PJ verificou que, tanto o certificado como a notificação de admissão eram falsas. Além disso, ficou ainda provado que as vítimas receberam emails falsos enviados em nome da universidade.

Através da acção da Interpol, a PJ pediu ajuda à polícia do Interior da China para interceptar o principal responsável pelo esquema, facto que veio mesmo acontecer na passada segunda-feira, dia em que o designer de Macau viria a ser detido em Zhuhai.

Interrogado pela PJ, o suspeito admitiu não ter qualquer ligação com a universidade em causa e que, em conjunto com uma das detidas em 2019, foi responsável por forjar a notificação de admissão a partir de um software online, enviar os emails falsos e criar um falso certificado de admissão.

O suspeito foi presente ontem ao Ministério Público onde irá responder pela prática dos crimes de burla de valor elevado e falsificação de documentos.

Parque Guangdong-Macau quer promover medicamentos chineses no Brasil

O Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong-Macau quer montar uma plataforma de comércio de medicamentos com o Brasil.

A promessa foi feita pela presidente do parque, Lu Hong, durante uma sessão de bolsas de contactos que, após três horas e meia, terminou com acordos assinados entre 15 fabricantes e oito distribuidores brasileiros.

Num comunicado, o parque situado na ilha da Montanha, junto a Macau, revela que o evento reuniu reguladores médicos de Macau e do Brasil para discutir o registo e supervisão de medicamentos tradicionais chineses.

O cônsul-geral do Brasil em Macau, Rafael Rodrigues Paulino, disse que um reforço da cooperação com o Brasil nesta indústria é particularmente importante no contexto da pandemia de covid-19.

Mais de 70 pessoas participaram na sessão de bolsas de contactos, que incluiu uma componente presencial, na ilha da Montanha, e videoconferência, tendo promovido 87 medicamentos de empresas de Macau, Hong Kong e da China continental.

Lu Hong lembrou que o parque tem vindo a apostar na formação de técnicos em medicina tradicional chinesa em Moçambique.

Mais de 300 profissionais de saúde moçambicanos já receberam formação nesta área, tendo o parque também apoiado empresas de Macau e da China continental na obtenção de licenças de comercialização de seis medicamentos tradicionais chineses em Moçambique.

Cooperação em alta

Espera-se que a nova lei de Macau que concede benefícios fiscais à produção de medicamentos tradicionais chineses intensifique a exportação para países africanos de língua portuguesa, disse em Março o presidente da Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos.

“A informação que tenho é que há pelo menos 25 empresas que se chegaram à frente a pedir emissão de alvarás para produção” de produtos associados à medicina tradicional chinesa, adiantou Eduardo Ambrósio.

Em 2019, o Ministério da Saúde do Brasil e a Administração Nacional de Medicina Tradicional Chinesa assinaram um acordo de cooperação, com foco em medicina tradicional, durante uma visita do Presidente chinês, Xi Jinping, a Brasília.

Renovação Urbana | Governo rescinde contrato de consultoria com Deloitte

O Executivo decidiu antecipar o fim do contrato com a Deloitte por considerar que não faz sentido fazer uma nova consulta pública. O vínculo tinha um valor de 14,5 milhões de patacas

 

O Governo vai rescindir o contrato de consultadoria na área da Renovação Urbana com a empresa Deloitte. O anúncio foi feito ontem pelo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, após a primeira reunião do ano do Conselho para a Renovação Urbana.

“Foi apresentada aos membros a situação do estudo que tínhamos encomendado a uma consultora sobre a Renovação Urbana. E fizemos um ponto da situação que se resume no seguinte: o trabalho que está feito, está feito. O trabalho que falta fazer… Vamos interromper o contrato porque o que falta fazer não faz muito sentido”, afirmou o secretário. “O trabalho que está por fazer não faz sentido, porque basicamente a consulta pública já foi feita em 2019 e não faz sentido fazer outra consulta”, acrescentou.

Raimundo do Rosário não avançou a compensação que terá de ser paga à empresa, mas garantiu que o valor a pagar pelos trabalhos feitos e rescisão não vai ultrapassar o montante da adjudicação, ou seja 14,5 milhões de patacas.

Os resultados apurados da consultadoria vão agora ser utilizados para elaborar a lei da Renovação Urbana, que o secretário confirmou ser o próximo passo de um processo que se discute há anos.

Água reciclada avança

À margem do encontro, Raimundo do Rosário comentou os planos para construir uma Estação de Tratamento de Água reciclada, que poderá ser utilizada para fins domésticos, como no autoclismo. Quando assumiu a pasta dos Transportes e Obras Públicas, o secretário suspendeu um projecto semelhante e explicou a mudança de posição:

“Quando tomei posse havia um estudo para fazer uma estação de água reciclada em Coloane e, na altura, suspendi a obra. Achava o preço da água reciclada muito caro. […] Agora vamos fazer uma estação com um tratamento mais ligeiro e por conseguinte mais barato”, explicou.

Por último, o governante comentou também a polémica em torno da repetição do concurso público para a construção da Linha de Seac Pai Van do Metro Ligeiro. A necessidade de repetição foi explicada com a ausência de definição de metas temporais para a construção de certas fases do projecto.

Raimundo do Rosário não quis comentar as propostas entregues na repetição, mas pediu a compreensão da população. “Queria só dizer que em seis anos, quase sete, foi a primeira vez, e espero que única, que se cancelou um concurso e se voltou a fazer. Espero que nos seja permitido de vez em quando errar”, desabafou. Como o concurso ainda está a decorrer, o secretário recusou fazer mais comentários por considerar que seria “prematuro”.

PCC | Exposição de fotografias recebeu mais de 16 mil visitantes

Nos dias que se seguiram à comemoração do centésimo aniversário do Partido Comunista da China, o número de visitantes da exposição de fotografias alusiva ao acontecimento mais que triplicou. Para a organização, o sucesso da exposição é o reflexo da “vontade das pessoas que vivem em Macau”

 

Desde a inauguração a 23 de Junho, a exposição de fotografias “Os 100 anos do Partido Comunista da China” recebeu até segunda-feira 16.701 visitantes e contou com a inscrição prévia de 38.213 pessoas, tendo recebido mais de 1.000 organizações e associações. De referir que, em pouco mais de três dias e desde a comemoração do centenário do Partido Comunista da China, assinalado a 1 de Julho, o número de visitantes mais que triplicou. Isto, tendo em conta que até à passada quinta-feira a exposição tinha acolhido cerca de 5.000 visitantes.

De acordo com a vice-presidente da Fundação Macau, Zhong Yi Seabra de Mascarenhas, o sucesso da exposição que vai estar patente até 15 de Julho no Complexo da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, “traduz a vontade das pessoas que vivem em Macau”, incluindo as diferentes comunidades que vivem no território, como a portuguesa ou a macaense.

A responsável frisou ainda que a liderança do Partido Comunista da China (PCC) foi “muito importante” para a concretização da transferência de soberania de Macau e para que o território gozasse das vantagens do princípio “Um País, Dois Sistemas”, permitindo “fazer um bom trabalho de intercâmbio com os países lusófonos e manter o convívio entre a cultura ocidental e oriental”.

“Gostávamos que as pessoas que vivem em Macau pudessem apreciar a história e este momento, porque até a China chegar onde está hoje foram precisas muitas gerações, muitos líderes, muitos jovens e muitas pessoas que perderam a vida e contribuíram para cada passo do desenvolvimento da China. A nova geração tem de se lembrar e guardar um sentimento de gratidão (…) cabendo-nos a nós procurar a paz e construir Macau de forma benéfica”, apontou Zhong Yi ao HM.

Atrás do sonho

A vice-presidente da Fundação Macau sublinhou ainda ser fundamental que os jovens conheçam a história do PCC e das suas figuras, de modo a que possam contribuir para o sonho de tornar toda a nação chinesa numa nação próspera.

“[Quando eram jovens], líderes como Mao Zedong ou Deng Xiaoping (…) já tinham ideias para que, não só eles, mas também toda a nação chinesa pudesse viver bem. É um sonho impressionante, acho que a juventude é muito importante”, partilhou Zhong Yi.

“Cada nação tem de ser patriota. Os Chineses têm de ser patriotas assim como os portugueses também devem ser patriotas em relação ao seu próprio país. Sem amar o país como é possível ser-se um verdadeiro cidadão?”, questionou.

Eleições | Wong Wai Man diz que a sua exclusão prejudicou a população

A comissão de candidatura Ajuda Mútua Grassroots foi recusada por ter sido considerado que não reunia as 300 assinaturas necessárias. Porém, o candidato diz que a população é que saiu prejudicada com a decisão

 

Wong Wai Man foi excluído de participar nas eleições por não ter conseguido constituir uma comissão de candidatura com 300 pessoas. O homem que em 2017 se destacou na campanha como o “Soldado de Mao”, por usar as roupas de soldado comunista, ainda recorreu da exclusão, mas o Tribunal de Última Instância (TUI) acabou por validar a primeira decisão da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL).

Ao HM, Wong diz que a decisão só prejudica a população. “Eu não perdi nada, quem ficou a perder foi a população”, afirmou sobre a exclusão.

A declaração foi justificada com a postura que diz que os outros candidatos adoptam nas eleições. Segundo Wong, normalmente as listas fazem muitas promessas extravagantes durante a campanha, quando precisam de reunir votos, mas depois não têm qualquer intenção de cumprir.

Também por aquela que considera ser a postura dos outros candidatos, Wong aponta que a sua lista, que tinha o nome Ajuda Mútua Grassroots, apresentava as melhores respostas para os problemas da população.

De acordo com o “Soldado de Mao”, no seu programa político constavam ideias como a criação de condições para que todos pudessem ter acesso a uma habitação e a um emprego com um salário elevado. Como consequência da resolução das questões da habitação e emprego, Wong afirma que os problemas do trânsito e do ambiente vão ser também resolvidos.

Críticas à CAEAL

Foi a 25 de Junho que a CAEAL anunciou que a lista Ajuda Mútua Grassroots tinha sido excluída, uma vez que os 300 membros da comissão de candidatura não cumpriam os requisitos necessários. Segundo a primeira explicação, a CAEAL apenas teria validado 190 das 300 assinaturas, por considerar que as recusadas tinham informações incorrectas, envolviam pessoas que não podiam votar ou por haver pessoas que assinaram mais do que uma vez.

No entanto, Wong diz que ficou provado pelo TUI que apenas 16 dos assinantes não cumpriam os requisitos e que 284 foram validadas. Para o cidadão a postura deixa motivos para questionar a actuação da CAEAL. “Porque é que os 158 assinantes não podiam ser convocados para se verificar as informações? A CAEAL só disse de forma pouco clara que as informações não correspondiam à verdade…”, desabafou.

À luz da aprovação de 284 das assinaturas, Wong considerou ainda que a sua conduta de levar o caso para tribunal contribuiu para “valorizar o processo”.

Fora das eleições, Wong foi questionado sobre quem considerava ser os deputados que melhor tinham desempenhado as funções desde 2017. Para o “Soldado de Mao”, destacam-se os deputados Ella Lei e Leong Sun Iok, da Federação das Associações dos Operários de Macau, e ainda Sulu Sou e José Pereira Coutinho.

Wong foi condenado em Março de 2020 ao pagamento de uma multa 10.800 patacas, pelo crime de violação da liberdade de reunião e manifestação. Os factos levam-nos a 2017, quando Wong interrompeu a campanha da lista de Sulu Sou. Porém, sobre a avaliação positiva ao deputado com quem teve problemas legais, o ex-candidato explicou que apenas teve em consideração “os factos e não a pessoa”.

Eleições | Fão acredita que Agnes Lam e Operários podem dar voz à APOMAC

Com Melinda Chan fora da corrida ao hemiciclo, a influência da APOMAC pode reduzir-se. No entanto, Jorge Fão acredita que há alternativas e candidatos com interesses muito semelhantes aos da associação

 

Pela primeira vez desde 2009, nem Melinda Chan, nem qualquer candidato apoiado por David Chow, vão participar nas eleições para a Assembleia Legislativa. Devido à proximidade histórica ao empresário Chow, a Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) pode enfrentar dificuldade para se fazer ouvir no hemiciclo. Contudo, Jorge Fão presidente da Mesa da Assembleia Geral da APOMAC, acredita que existem alternativas.

Numa posição que sublinhou ser pessoal, Jorge Fão disse ao HM que os candidatos ligados à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), Ella Lei e Leong Sun Iok, e a ainda a independente Agnes Lam têm muitos interesses em comum com a APOMAC, sendo lógica uma aproximação política.

“Não é uma posição de direcção, mas como tenho estado ligado às eleições e à política gostava de apontar os nomes da professora Agnes Lam e também os candidatos dos Federação das Associações dos Operários de Macau, Ella Lei e Leong Sun Iok”, afirmou. “Creio que são candidaturas mais credíveis, pessoas que lutam por benefícios e interesses comuns e que não estão na Assembleia Legislativa a defender motivos populistas”, acrescentou.

No que diz respeito à lista de Agnes Lam, Jorge Fão destacou a presença do arquitecto Rui Leão. “É uma voz da comunidade portuguesa e macaense, e pelo menos a lista tem uma pessoa das comunidades. Eu considero o arquitecto Leão um membro da nossa comunidade, que cresceu em Macau. É também um bom profissional, discreto e não embarca em populismos ou demagogia”, explicou.

Questões operárias

Em relação aos deputados da FAOM, Jorge Fão destaca a defesa das questões laborais, às quais também dedicou grande parte da sua vida, tendo sido um dos membros fundadores e presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM). “Embora tenha tido um caminho diferente do deles, sempre defendi a causa trabalhadora. Eles estão a trabalhar nesse sentido, sem lançarem grandes foguetes, e têm uma máquina bem oleada”, reconheceu o dirigente da associação. “São deputados energéticos, com alguma discrição, sem demagogia, populismo, sem promessas que não são para cumprir”, realçou.

Apesar dos elogios, Jorge Fão não deixa de considerar que os dois poderiam ter feito mais na AL. “Os deputados fizeram o trabalho possível. Podiam ter feito mais, mas nós sabemos que é difícil. Sempre disse que em Macau quem manda são os patrões e não acho que isso tenha mudado”, indicou.

Eleições concorridas

No que diz respeito às eleições pela via directa, são 19 as listas que vão participar, no caso de não haver exclusões por parte da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa nem desistências.

Em relação à mudança de Angela Leong do sufrágio directo para o indirecto, Fão diz que Cloee Chao, candidata ligada aos trabalhadores do sector do jogo, pode sair a ganhar. “Ela avançou com uma candidatura, tem feito trabalho e pode beneficiar da mudança. Há apoios no sector à lista dela”, considerou.

O ex-deputado crê ainda que a lista da Associação do Bom Lar, ligada à Associação das Mulheres de Macau e liderada por Wong Kit Cheng, vai sair reforçada das eleições com a possibilidade de eleger dois deputados.

Finalmente, sobre a candidatura do macaense José Pereira Coutinho, Jorge Fão diz que vai ser eleito “sem nenhum problema” e que a grande questão é a capacidade de eleger o segundo deputado, apesar de ser “difícil”.

Bienal Internacional de Arte arranca a 15 de Julho em toda a cidade

A segunda Bienal Internacional de Arte de Macau está à porta, com a cidade inteira a transformar-se numa galeria. Além dos espaços expositores normais, a arte vai invadir locais como a Praça do Tap Seac, as Casas-museu da Taipa, Anim’Arte Nam Van ou o Largo da Barra. A partir de 15 de Julho, até ao final de Outubro, podem ser visitadas 30 exposições espalhadas por 25 locais

 

A segunda edição da Bienal Internacional de Arte de Macau está prestes a começar, com o dia 15 de Julho a colocar a RAEM no calendário da arte contemporânea asiática. Até ao final de Outubro, Macau irá mergulhar num oceano de cultura, transfigurar-se numa galeria e jardim de arte, aberto a residentes e turistas e gratuito para quem quiser desfrutar das exposições.

“A nossa intenção, alicerçada na participação colectiva de entidades públicas, empresas, artistas e público geral, é estimular diálogos sobre tópicos relacionados com a cidade”, afirmou ontem Mok Ian Ian, presidente do Instituto Cultural (IC) durante a apresentação da bienal.

A responsável adiantou que o Governo vai entrar com oito milhões de patacas para o orçamento global da bienal, “para a exposição principal e divulgação do evento”. O financiamento da mostra internacional será da responsabilidade das operadoras Galaxy Entertainment Group, Melco Resorts & Entertainment, MGM, Sands China Ltd., SJM RESORTS, Wynn Macau, e do grupo empresarial Nam Kwong.

As empresas, além de financiarem exposições públicas, incluindo a mostra de trabalhos de artistas locais, atribuem prémios e cedem as instalações. Questionada sobre o orçamento global do evento, Mok Ian Ian confessou não saber, “porque as empresas não revelaram ao Governo quanto investiram”, mas garantiu que apesar do reduzido orçamento público, a dedicação do pessoal do IC será total.

O tema da bienal é “criar para o bem-estar”, respondendo às naturais aspirações e metas na busca pela felicidade.
“Muitos países e regiões mergulham ainda no sofrimento provocado pela conjuntura pandémica. Por isso, um intercâmbio de nível espiritual entre pessoas de diferentes origens, estabelecido através da beleza criada pela sua arte, torna-se particularmente significativo”, afirmou Mok Ian Ian.

Nesse aspecto, Helena de Senna Fernandes, directora dos Serviços de Turismo, aproveitar a oportunidade para convidar turistas a visitar Macau durante os meses da bienal, algo que considera possível devido ao trabalho de promoção da RAEM enquanto cidade saudável e segura. Convém recordar que Macau continua com severas restrições fronteiriças.

“Entre Junho a Outubro é o momento ideal, temos as férias de Verão e semana dourada de Outubro. Espero que um evento desta envergadura possa atrair mais turistas e disponibilizar experiências culturais à população de Macau”, projectou a presidente do IC.

O que aí vem

A bienal deste ano vai estar dividida entre várias secções. O ex-líbris será a exposição principal, terá mostras espalhadas pelos espaços das operadoras de jogo, o Pavilhão de Cidade Criativa (que une Macau a outras cidades), exposições em espaços públicos, mostras de artistas locais e colaborações experimentais de docentes e alunos do ensino superior.

O foco principal desta bienal está dividido em três sessões de exposição: “O Sonho de Mazu”, “Labirinto da Memória de Matteo Ricci” e “Avanços e Recuos da Globalização”. No total, vão estar patentes, a partir de dia 16 de Julho, no Museu de Arte de Macau, mais de 100 trabalhos da autoria de mais de 40 artistas do Interior da China e estrangeiros oriundos de mais de 20 países e regiões.

Em “O Sonho de Mazu”, artistas portugueses, chineses, coreanos e do Médio Oriente reinterpretam com um olhar contemporâneo porcelana chinesa das dinastias Ming e Qing, combinando as tradicionais cores azuis e branca e materiais onde se incluem azulejos lusos. Esta exposição vai estar patente ao público até 15 de Agosto no Museu de Arte de Macau.

Outro dos focos das mostras principais é “Labirinto da Memória de Matteo Ricci”, uma secção que “descreve o olhar do Ocidente sobre a China, escrito, reescrito e subvertido ao longo de 500 anos”, com destaque para um trabalho do artista Vasco Araújo composto por uma mesa de madeira, 15 fotografias digitais enquadradas em molduras de madeira e metal.

O terceiro vector das mostras principais intitula-se “Avanços e Recuos da Globalização”, que procura reflectir a forma como a pandemia forçou o mundo a parar, apesar do caracter irreversível da globalização. Neste capítulo, será exibido entre 16 de Julho e 17 de Outubro, no Museu de Arte de Macau, um trabalho da colecção Tate em vídeo de autoria da franco-argelina Zineb Sedira intitulado “Língua Materna”.

A obra centra-se nas trocas de memórias de infância da artista, da sua mãe e da sua filha em três diferentes línguas nativas: francês, árabe e inglês. O trabalho reflecte a narração de histórias como forma de preservar a identidade cultural através das gerações e sublinha a dificuldade de manter um património partilhado através das divisões nacionais e linguísticas e reconhece a complexidade da identidade.

A prata da casa

A Arte Macau 2021 irá exibir também trabalhos de artistas locais, cuja escolha resultou da selecção de 12 peças de criadores de Macau, entre pintura, instalações tridimensionais, escultura e fotografia. O local que irá reunir estes trabalhos, entre 29 de Agosto e 24 de Outubro, será o Antigo Estábulo Municipal de Gado Bovino.

Entre os artistas locais estão João Miguel Barros, Konstantin Bessmertny, Cheong I Kuan, Fok Hoi Seng, Ieong Man Pan, Kun Wang Tou, Leong Lam Po, Mak Kuong Weng, Sit Ka Kit, Wong Soi Lon e Wong Weng Io.
Nesta segunda edição, a bienal vai extravasar para as ruas com a exibição de seis obras de artistas do Interior da China, Tailândia, Argentina, Egipto e Itália.

A Praça do Tap Seac recebe “Chacra”, uma obra do italiano Riccardo Cordero. Feito em aço, a escultura forma um círculo (como uma praça dentro de uma praça), proporcionando a sua apreciação a partir de diversas perspectivas. A criação de “Chacra” teve como objectivo guardar a memória de um mercado público de alimentos, que foi transferido para dar lugar à Aldeia Olímpica na cidade de Turim e representar o centro do espírito humano.

“Encontro” é outra escultura de grande dimensão que irá trazer uma nova vida à Praceta da Arte do Centro Cultural de Macau. Da autoria do chinês Su Xinping, esta obra em cobre representa enormes mãos numa combinação de expressão figurativa com dimensões surreais evocando uma imagem de montanha.

“Cidade Global” estará na zona das Casas Museu da Taipa. A obra do argentino Leandro Erlich, feita de aço e resina, transmite o conceito da aldeia global, da indivisibilidade da vida humana e de partilha. Visualmente, “Cidade Global” materializa-se numa esfera de onde despontam formas geográficas de diversas alturas, que se assemelham a prédios.

O homem e o conceito

A segunda edição da bienal de Macau conta com a curadoria de Qiu Zhijie, um dos artistas contemporâneos chineses mais influentes, director da Faculdade de Arte Experimental da Academia Central de Belas Artes, que durante a sua estadia na RAEM irá apresentar duas palestras temáticas, “trazendo a inspiração ao pensamento curatorial e explorando as manifestações da “Ásia” na arte”, informa o IC.

Apesar de ainda não estar em Macau, Qiu Zhijie demonstrou em vídeo a felicidade pela missão curatorial e explicou as ideias que formaram o fio condutor da Arte de Macau 2021, naturalmente influenciada pela pandemia em termos artísticos.

“Devido ao surto da epidemia, fomos forçados a isolar-nos uns dos outros, ficamos em casa e mantemos distância social”, cenário que o curador encarou como desafio à globalização e incentivo ao nativismo tribalista e ao isolacionismo. Porém, por detrás da integração global, Qiu Zhijie encontra a tecnologia como fonte de ferramentas para fazer avançar o mundo. “Há 500 anos, a bússola e a tecnologia naval iniciaram as grandes navegações e trouxeram uma onda de globalização; 200 anos atrás, as ferrovias promoveram a comunicação das pessoas, e 50 anos atrás, os aviões a jacto e depois a Internet trouxeram a conectividade global.”

Além das obras já mencionadas nas exposições principais, o curador destacou “pinturas a óleo do pintor Liu Xiaodong quando esteve preso na Nova Iorque durante a epidemia, a obra sobre a logística global “Aeroporto” dos artistas suíços Peter Fischli e David Weiss” e o vídeo “Kids” do suíço Michael Frei, uma animação superficialmente simples que explora a relação entre indivíduos e grupos”.

Por esses resorts fora

No capítulo das exposições organizadas pelas operadoras de jogo, nos seus espaços, importa referir que a mostra “Justapor”, que reúne esculturas em varão de aço da autoria de malaio Tang Mun Kian, Com a coordenação do Galaxy Entertainment Group, esta exposição retrata detalhes de arquitectura, do comércio de outros tempos e festivais de Macau. A visão de Tang Mun Kian contem laivos de cartoon e, imbuída de espirituosidade e humor, faz um esboço do cenário histórico e cultural de Macau.

“O MAR”é a exposição que estará a cargo da Melco Resorts & Entertainment, que utiliza o cenário de um teatro aquático (onde era exibido o espectáculo “The House of Dancing Water”) que pretende criar uma experiência sensorial através de uma série de instalações que incluem vídeos, música, inteligência artificial e efeitos à base de água.

Com a imagem do despertar do Leão, a MGM expõe “Despertar”, um conjunto de obras dos artistas Xue Song, Liu Guofu e Hung Yi inspiradas na figura desse animal rei da selva.

Como o nome indica, o “Projecto Sands X: Para Além do Azul – Uma Exposição de Cerâmica Extraordinária” é a mostra coordenada pela Sands China Ltd. Sob a curadoria de Caroline Cheng, obras de arte de mais de 20 artistas e instituições internacionais exploram a ligação entre tecnologia e arte de cerâmica, com uma apresentação inovadora.

A SJM RESORTS terá a seu cargo a série de exposições sob o tema de “Arte · Criação · Nova Ambiência – Pensamento Transformador, Entre numa Era de Extraordinária Inovação” e “Harmonia do Oriente e Ocidente – Exposição de Famosos Artistas Locais” e a “Reformulação do Império – Exposição Individual de Heidi Lau”. As mostras centram-se “na fusão de elementos chineses e ocidentais, por artistas locais, dando a continuidade a obras clássicas intemporais”.

A exposição do Wynn Macau Limited, intitulada “Ilusões e Reflexões – Através do Olhar dos Mestres”, é constituída por dois tesouros artísticos nacionais: “A Morada das Ilusões: O Jardim de Zhang Daqian” e “Reflexão da Vida: Cerâmica Contemporânea de Zhu Legeng”.

Por fim, a exposição coordenada pela Nam Kwong (Group) Company Limited, “Exposição de Arte do Bordado Shen da China”, tem o bordado no papel principal com o intuito de difundir a cultura tradicional chinesa. Ao longo de três meses não vão faltar ofertas culturais gratuitas para todos os gostos, espalhadas um pouco por toda a cidade.

O Jogo das Escondidas – Capítulos 31 ao 40

XXXI

Amoroso não percebia o que Benedito invejava na sua vida. Mas não replicou. Mudou de assunto:
– Bem, se Max Wolf quer guerra, vai tê-la. Ela não dará a outra face. Se é só uma forma de pressão, não resultará. O bom senso de Ding Ling é escuro. Selvagem.

– Sabe, tenente, Macau é apetecível. Não sei qual é o verdadeiro jogo de Wolf. Se quer só aproveitar esta desorientação portuguesa aqui e em Lisboa. Não sabemos se há mesmo negociações para vender o território à Alemanha. O dinheiro decidirá. E o patriotismo também. Só que Max pode querer aproveitar a brecha e abrir espaço para se estabelecer. Sabe como é. Dêem poder a um homem sobre os outros, e não demora muito até que ele perceba que não há limites para o seu próprio poder. E nenhum homem a quem se der esse comando será honesto durante muito tempo.

Amoroso tossiu. Estava demasiado fumo.
– Sim, qual é mesmo o jogo de Wolf? E qual será o futuro de Macau?

Os dedos da mão direita de Benedito Augusto cirandaram à volta do copo de cerveja que tinha à sua frente. Disse:
– Portugal, para mim, já não existe. É só uma ideia. Está lá longe. Macau está aqui. E sempre se salvou. E isso interessa-me. É a minha promessa de salvação na Terra. Quando cheguei à Ásia, buscava um clarão, que me iluminasse o caminho. Como dizia alguém, até aí só me tinham dado uma pequena vela para acender. Vi então as cores de um panchão. Encheu-me o coração. Percebi que era possível viver mais perto dos céus.

– Porque te tornaste jesuísta, Benedito?
– Fui um miúdo desobediente. Queria ordem. Com os jesuítas aprendemos a obedecer. É a nossa formação. Funcionamos como algo sem vontade ou juízo, que pode ser mudado de um lado para o outro sem resistência. Sentimo-nos leves. Depois foi a sua história. No século XII viviam na pobreza e abdicavam de qualquer adorno.

Vestiam-se de modo simples, só com batina e capuz, aprendiam a suportar a fome, a sede, a dormir sem tecto. Eram despojados de tudo. A simplicidade perfeita. Que coisa pode ser melhor do que podermos sair daqui para irmos embora, sem nada para transportarmos, para além do nosso corpo e espírito?
– E como concilias isso com o dinheiro que te pago?
– Por um espírito de missão. Só é pecado o que se julga que é. E acredito numa salvação que não tenha medo da fogueira.

XXXII

Amoroso já não tinha a certeza que existia a virtude. Os seus olhos brilharam.
– Onde andará Max Wolf?
– Ele vai aparecer. Ou me engano muito ou, uma noite destas, irá visitar Ding Ling. Ele precisa dela.
– Vou esperar uns dias. Mas depois terei de actuar. O Governador vai perguntar-me o que se passa. E eu não sei.
– Saberemos. É certo que, neste mundo, somos apenas ladrões do tempo. Um dia destes tornamo-nos dispensáveis e colocam-nos uma armadilha onde cairemos que nem tordos.
– Somos fortes, Benedito.
– É bom que pensemos isso.
Quando Amoroso o deixou, Benedito Augusto pediu outra cerveja. Não esperava ninguém. Queria estar sozinho e esconder-se, mais uma vez, do mundo. E da sua vida. Preferia a noite às horas mais malignas do dia, do calor. Pensou no tenente Amoroso, já corrompido, sem o perceber, pelo Oriente. Mesmo que dissesse o contrário, não queria trocar esta vida, de álcool, de mulheres, do jogo, das sombras, pelo que restava do império português. Mas a solidão e a bebida e o ópio deixavam marcas. Mesmo se tinha uma mulher forte a seu lado, Ding Ling. Não conseguira contar tudo o que sabia ao tenente. Talvez porque quisesse ter os seus próprios trunfos nas batalhas que se desenhavam. Ou por medo. Ou porque o seu seu instinto de sobrevivência era superior a qualquer lealdade.
Benedito Augusto pensou na sua própria vida e nos segredos que não partilhava com ninguém. Nem podia partilhar se queria continuar a dizer-se padre jesuíta. Desaparecia durante semanas de Macau. Secretamente, ia até Hong Kong ou Singapura, onde conhecera uma rapariga de remota origem portuguesa a que prometera vezes sem conta que deixaria de ser padre e casaria com ela. Nem sempre se sentia cómodo com estas diferentes máscaras. Mas eram elas que davam sentido ao conjunto de segredos que acumulara desde que deixara Portugal em 1910. Agora sabia que já não abandonaria a Ásia. Aqui perdera uma vida e ganhara algumas outras.
Bebeu o resto da cerveja e pediu outra. Recordou o seu encontro, nessa tarde, com Fu Xing no Grande Hotel, que ficava no extremo oriental da Avenida Almeida Ribeiro. Reformara-se da pirataria e, agora, pensava dedicar-se a negócios legais em Macau. Falava-se que iriam ser licitados os monopólios do tráfico de ópio e da lotaria. E Fu Xing, que tinha dinheiro para investir, desejava ter uma percentagem nesse lucrativo negócio.

XXXIII

Tudo era um jogo, como ele dissera com um sorriso maldoso:
– Vendemos as nossas almas, jogamos com elas e voltamos a ganhá-las.
Fu Xing deixara de usar camisas encarcadas de suor devido ao calor sufocante. Agora vestia um fato de linho claro e ia deixando crescer um bigode. Não cortara, claro, os laços com os antigos companheiros. Estes tinham juncos e lorchas cheias de armamento em pleno Porto Interior, incluindo modernas espingardas Winchester. Pareciam barcos de pesca ou de transporte de mercadorias mas, na realidade, a sua actividade era outra. A polícia não ía ali, por isso não era necessário estarem muito disfarçadas. Fu Xing não temia o passado. Afinal, por ali os piratas eram prezados. Gastavam muito dinheiro e os portugueses desviavam o olhar se eles circulassem, sem muito ruído, pela Rua da Felicidade ou pelo Porto Interior, como se não os vissem.
Fu Xing ocupava agora parte do seu tempo a encontrar-se com comerciantes chineses. O seu centro de operações era o Grande Hotel, onde também podia jogar fantan. Perto do mar, encontrara um refúgio perfeito em terra: um lugar com amplas salas e confortáveis quartos. Só o cenário mudava, porque o resto era igual: ópio, mulheres, falsos amores e traições. Benedito Augusto era agora o seu correio em Xangai e Singapura. Levava mensagens para os seus contactos e trazia as respostas de volta. Ninguém o pressionava, porque andava disfarçado de padre. Perguntara a Benedito:
– Quando partes para Xangai? Tenho recados para levares.
– Dentro de dias, mas ainda não sei. Tenho, primeiro, de resolver um problema aqui.
– Tu tens problemas?
– Soou-me que os alemães poderão comprar Macau. E se isso acontecer…
– Estarás seguro.
– Como sabes?
– Ontem esteve aqui um alemão. Como se chama ele…? Max Wolf. E fez-me uma bela proposta.
– Um negócio?
– Sim. Ele não sabe se Portugal vai vender Macau. Se vender, muito bem. Se não vender, nada correrá mal. O seu objectivo é outro. Ganhar dinheiro. Muito dinheiro.
Benedito viu o olhar guloso de Fu Xing.
– Que te propôs o alemão?

XXXIV

O chinês olhou-o desconfiado, mas depois deu uma pequena risada.
– Posso contar-te. Tu poderás ser muito útil. O alemão tem heroína, uma droga muito mais potente do que o ópio. Traz euforia e também conforto. Os mais novos vão preferi-la. Ele tem uma fábrica que transforma ópio em morfina e, depois, em heroína. Falta a distribuição. E é isso que ele quer que eu faça. Ele tem o produto e eu os meios. Acho que é um bom negócio. E muito rentável.
– E como sabes que isso não é uma grande mentira?
– Padre, eu fui pirata, mas sei mais do que aparento. E sei ler as pessoas. Também tenho bons informadores. Max Wolf tem um químico alemão a trabalhar com ele em Xangai. Numa fábrica escondida, de que nem as tríades desconfiam. Fica numa fábria de cerveja. Wolf e o químico trabalharam numa empresa alemã, a Bayer. Onde aprendeu a extrair a heroína. Eles são negociantes, padre. Eu também o sou. O dinheiro une-nos.
Nos olhos de Fu Xing havia determinação. Por ali não navegavam fantasias contadas por marinheiros e soldados da fortuna, e que muitas vezes embalavam os sonhos de quem as escutava. Estava certo das suas escolhas e elas tinham a ver com o poder e a riqueza. Nada mais. Benedito levantou-se e saíu. Inspirou o aroma da noite, ainda contaminado pelo odor da pólvora queimada. O incêndio ainda não se tinha extinguido. Vivia-se uma falsa paz. Parou, fascinado pelas as águas do delta do Rio das Pérolas e olhou para os barcos chineses com a sua cobertura arrendondada, onde se abrigavam as famílias. Pequenos face às lorchas e aos poderosos juncos de grandes velas. Fora o mar que trouxera os portugueses até Macau. Fora ele que permitira que muitos deixassem Portugal, terra onde era difícil deixar de ser pobre. Mas o mar cansa os povos. Alguns, como ele, queriam afastar-se do mar e dos seus fascínios e encontrar a paz em terra. Onde as águas revoltas não o perturbassem. O mar tudo prometia. E tudo afogava.
Caminhou pelas ruas, polvilhavas de chineses, sentados em pequenos bancos, ou no chão, a comer arroz branco, cozido e sem sal, com pequenos edaços de carne e de peixe e legumes salteados. Habituara-se ao aroma forte das comidas chinesas, dos seus fritos, que como noutas cidades orientais, eram omnipresentes. Sabia para onde se dirigia. O pequeno quarto onde dormia não ficava longe.

XXXV

O mundo muda. Isso é inevitável. Talvez isso seja a única coisa que é inevitável, dizia, com voz serena, o governador Rodrigo Rodrigues. E acrescentou:
– Gosto da forma como vê o mundo e as suas mudanças, tenente. No fundo, como ele é. Observa as verdades e as mentiras e sabe como navegar entre essas duas grandes ondas sem ser submerso.
Félix Amoroso sentiu-se tocado pela amabilidade:
-O senhor tem uma visão demasiado bondosa de mim e das minhas acções.
– Até agora não me desiludiu.
Estavam na varanda do hotel Boa Vista, um local que parecia atrair ambos quando necessitavam de falar de coisas que consideravam importantes. O tenente transmitira-lhe as novidades sobre o assassinato de João Carlos da Silva. Tinha algumas pistas, mas não tinha certezas. Disse que tinha ido à casa deste e a inspeccionara mas escusou-se a mencionar o que descobrira lá. Especialmente uma carta de amor escondida por detrás de um espelho e assinada apenas com uma inicial. Amoroso não tinha certezas sobre quem a enviara. Mas suspeitava.
Lá dentro a festa continuava, num daqueles fins de tarde irrepetíveis de Macau. Escutava-se o som da banda de Borromeo Lou, um pianista de grande talento. Viera das Filipinas, e era a maior atracção do Bodabil, uma espécie de jazz. O sucesso que alcançara em teatros de Manila, como o Savoy e o Lux, e também no Carnaval da capital filipina, fora presenciado por Ana Ledesma, uma filipina que casara com um advogado português de Macau. Para ela era mais do que uma banda, porque eles prometiam um espectáculo total. Aproveitando uma ida de Lou a Hong Kong, tinha conseguido desviá-lo até ao Boa Vista, prometendo-lhe um público entusiástico. Muitos dos temas eram baladas sensuais cantadas por Miss Toytoy, a vocalista chinesa e uma artista completa. Convidavam à dança e ao amor. Mas o espectáculo era mais vasto. Amoroso gostara muito do barítono Datu Mandi (de origem Moro, que também cantava excertos de óperas).

XXXVI

Barromeo Lou, no início do espectáculo, dissera: “Se estiverem doentes, venham e ficarão curados. Se estiverem quase a morrer, venham e dêem uma boa gargalhadas antes disso acontecer. Se estiverem bons, venham e ajudem a transportar as vítimas da fobia do Jazz”. Ninguém deixara de rir. A boa disposição reinava. E depois dançara-se. Lá estava a nata da sociedade macaense, incluindo Joaquim José Palha e a mulher, Sofia. Palha aproximara-se de Amoroso e inquirira-o sobre o acordo que lhe propusera. O tenente respondera-lhe que falaria em breve com o Governador. Não se tinha esquecido. Palha afagara-lhe o braço e sussurara:
– Tem tudo a ganhar, tenente. Sabe que sim.
Deixara-o e voltara para conviver mais um pouco com os seus amigos. E dera espectáculo, quando dançara com Miss Toytoy. Era um excelente dançarino, como Amoroso podia testemunhar.
O Governador colocou um cigarro entre os lábios e acendeu-o. Após a primeira baforada, olhou para o tenente e disse:
– Uma das primeiras coisas que aprendi na vida é que é uma má ideia conheceres os teus heróis porque, geralmente, eles decepcionam-te.
– Aconteceu-lhe isso, Governador?
– Acontece a todos nós. Na política é fácil isso suceder.
Amoroso sentiu que o Governador perdera algumas ilusões que tvera no passado. Talvez com outros republicanos e membros da Maçonaria como ele.
– Ainda assim as pessoas precisam de memórias. Tal como as nações. Sem elas, o que resta? Nada. O que seria de Portugal sem as suas memórias? Sem um passado de que nos possamos orgulhar, como podemos ter alguma fé no futuro? Não é por acaso que nos agarramos a ele. Talvez porque não haja mais nada a que nos podemos segurar para não cairmos de vez. Foi esse o trunfo dos republicanos. Quando a Monarquia não soube o que fazer face ao Ultimato inglês, os republicanos recuperaram Luís de Camões, o patriotismo e o passado. Isso conquista os corações e as almas quando sentimos que o mundo está a ruir à nossa volta. Só que isso não chega.
Eram palavras de um homem cansado. Talvez desiludido. Ou então, isso era fruto daquele entardecer e daquela música que fazia ecoar imagens que o tempo tentara, sem o conseguir, apagar.

XXXVII

– Gosta de história, tenente? Aprendemos muito com ela. Pense numa coisa. Quando os impérios Ming e Otomano fecharam a Rota da Seda, os portugueses descobriram o seu destino. Dobraram o Cabo da Boa Esperança e fizeram da geografia comercial o seu legado à Europa. A Rota da Seda portuguesa fez-se por mar, evitando desertos, seduzida por sereias e atormentada por monstros marinhos. Lisboa tornou-se, por momentos, Veneza e Constantinopla. Foi uma utopia, tão sedutora como a que Camões cantou nos “Lusíadas”. Por momentos os portugueses foram deuses. Portugal deve parte do seu passado à Rota da Seda. Por isso Macau é tão especial para mim. E para si, não?
– Passou a ser quando conheci esta cidade melhor. E em especial as suas pessoas. Tão diferentes, com cada um à procura do seu destino. Uma das coisas especiais aqui é que as coisas nunca acontecem como se espera.
– Nunca acontecem. Não conseguimos manobrar o futuro. Bem, chega de conversa séria. Este é um dia para nos divertirmos. Vou voltar para dentro. Fica?
– Fico mais um pouco.
O Governador cruzou-se com Sofia Palha que caminhava altiva, como sempre. O seu vestido fazia jus à sua estrutura física. Era alta e musculada. A sua face ainda transmitia juventude. Aproximou-se do tenente e, sorridente, disse:
– Gostei muito da apresentação de tango há uma semana. Veio? Não o vi. É a dança do amor. Há demasiado contacto carnal para o gosto do meu marido, mas eu senti a força que transmite. Gostaria de aprender a dançá-lo. Mas, para isso, precisava de um bom par. Dizem-se que agora o que está na moda é o foxtrot. Pelo menos em Xangai. Aquilo é uma cidade…
Mostrava ter ideias firmes, mas a sua voz era sedutora. Aproximou-se mais do tenente.
– O seu nome é curioso. Amoroso. Aplica-se à sua vida?
– A necessidade, minha senhora, não conhece leis. Essa é uma das primeiras normas da diplomacia. Considere o seu marido, por exemplo. O costume, que é quase sempre a base de qualquer lei, dirá que, numa festa em sua casa, ele deve estar presente para entreter os convidados. Mas, imaginemos, que não está, porque tem necessidade estar a trabalhar num dos seus negócios. A necessidade, ignorando o costume, obriga-o a ficar longe, desapontando quase todas as pessoas. Mas alguém pode ter vantagens com base nessa necessidade.

XXXVIII

Ela fitou-o, espantada:
– O que quer dizer com isso, tenente?
O olhar de Sofia era mortal.
– A sua consciência está tranqula, minha senhora?
– Sempre esteve. Mas não compreendo as sua palavras. Elas parecem implicar que não deveria estar.
Amoroso tirou do bolso do casaco uma carta. Abriu-a e colocou-a defronte da face de Sofia Palha. Esta não disse nada, mas os seus olhos mostravam tudo.
– Reconhece a letra? É sua?
– Onde encontrou essa carta, senhor tenente?
– Onde pensa que foi?
Sofia Palha desviou a cara para o horizonte, onde a luz começava a desaparecer.
– E o que pretende fazer com ela? Fazer com que me sinta culpada de algo e comece a chorar?
– Eu só quero descobrir quem matou o senhor João Carlos da Silva. Não me interessa levantar o véu sobre outros segredos. Só aqueles que têm a ver com esse assassinato. Foi a senhora que o matou?
Ela fez um gesto de repulsa:
– Eu? Nunca? Eu amava-o.
– Há, como sabe, uma linha muito fina entre o amor e o ódio. Entre a morte e a vida.
– Não, tenente. Amei-o até ao fim. Foi uma paixão que durou meses. Até à sua morte.
– Sem o senhor Palha saber?
– Sem ele saber. Era um segredo só nosso. E o João era um homem em quem se podia confiar. Eu mandava-lhe pequenas cartas. Só assinadas com a inicial S. E ele sabia que as tinha de destruir logo a seguir.
– Esta ficou.
– Uma recordação. Não o deveria ter feito, mas compreendo-o. Era um homem apaixonado.
Sofia Palha voltara a ganhar a segurança que perdera momentaneamente. Os seus olhos aceitavam o desafio do tenente. Fez um sorriso triste:
– Eu também quero descobrir quem o matou. Mas, diga-me, tenente. Já estamos a falar há algum tempo. Se alguém nos vir aqui, só os dois, o que pensará? Eu espero que goste de estar comigo. Não consigo pensar em nada melhor do que isso. Mas se andarmos um pouco e formos para um local onde todos nos podem ver, não levantaremos suspeitas. E não estaremos sujeitos a mexericos, como se continuarmos aqui e alguém nos surpreender. Eu posso contar-lhe alguns segredos.

39

O tenente sabia que Sofia Palha detinha informação muito útil. Mas o seu jogo era perigoso. E Amoroso, nesse momento, não queria arriscar.
– Podemos ficar por aqui na nossa agradável conversa. Irei saber se o que me diz corresponde à verdade.
– É a verdade.
O tenente fez uma ligeira vénia e foi em direcção do local onde ainda se dançava. Foi despedir-se do Governador e da sua mulher. A noite chegava. À porta do hotel entrou num riquexó que o levou até à Rua da Felicidade.

10.

Os olhos de Ding Ling eram muito escuros. Mas, para Félix Amoroso, olhá-los era como ver o fundo do mar. Vemos tudo, sem saber nada. Tal como eles, a sua alma era insondável. Se fossem claros, de um jade muito límpido, poderiam deixar ler o que ela pensava? O tenente não tinha a certeza, mesmo naquele momento em que a sua mão estava colada em cima do seio esquerdo dela e Ding Ling parecia vulnerável como nunca. Os seus corpos estavam quentes, cobertos de transpiração e colados um ao outro. Ela soergueu-se e beijou-o na boca e no peito. Depois voltou a deitar-se, totalmente encostada a Amoroso. A sua respiração voltara a ganhar a serenidade que ele conhecia, depois de momentos de exaltação.
Quando se tinham deitado ela colocara-se em cima dele. As suas mãos seguraram-lhe o peito. Tinha soltado o cabelo e, enquanto se movia lentamente, este caíra-lhe para a face, escondendo-lhe os olhos. Amoroso tentou erguer-se para se perder nos cabelos dela, procurando os seus lábios para a beijar. Não conseguiu, porque a força de Ding Ling empurrava-o para trás. E ela, parecendo frágil, era mais forte porque também usava a força do tenente. Havia algum desespero na forma como os seus corpos chocavam. Depois deixaram-se cair, em silêncio.
Nem sempre os sentimentos podem esperar, sussurrou Ding Ling. Como se admitisse alguma culpa, coisa que nela era improvável. A sua fortaleza erguia-se sobre a intimidade e a lealdade. Era isso que, mesmo contra o vento, oferecia a Amoroso. Não era pouco. A mão dele voltou a explorar a pele dela, deslizando até ao sexo, onde ficou. Ela não se mexeu. Mas ele sentiu que o seu corpo passara a estar vigilante.

40

“Formosa como um anjo, mas com um punhal na boca”, dissera-lhe ele um dia. Era sorrira. Ding Ling nunca lhe pedira nada em troca das noitas em que o seu corpo oferecia o prazer que Amoroso ambicionava para poder repousar.
Durante quase uma hora deixaram-se estar ali, murmurando perguntas e respostas, com o coração a responder ao coração, os olhos a ler os olhos, e as mãos procurando o corpo do outro. Até que por fim Ding Ling se levantou e foi acender uma vela que deixava apenas um pequeno rasto de luz. Assim o seu corpo nu era mais misterioso e ela deixou-se ficar, por momentos, encostada a uma parede enquanto ele a contemplava.
– Gostarias que eu cantase para ti?
– Não. Isto é, gostaria, mas tu também estás cansada.
– Disparate. Dormi bastante esta manhã. Posso cantar, muito baixinho.
Assim fez. A sua voz recordou uma canção melancólica que aprendera, talvez em Xangai. Falava de amores perdidos na noite, que desapareciam como fantasmas e depois regressavam através de outros corpos. Mas o amor era o mesmo. Depois sentou-se numa cadeira de bambu e deixou ficar-se ali, sem se vestir.
– Está escuro. Queres mais luz?
– Gosto de te ver assim. Impossível de decifrar totalmente.
Ele levantou-se e aproximou-se dela. Afagou-lhe a face e o pescoço e ela encostou a cabeça ao corpo dele. Ele contou-lhe a conversa que tivera nesse final de tarde com Sofia Palha. Ding Ling levantou-se para o fitar nos olhos.
– É difícil que confies neles. Nela ou no marido. Cada um faz o seu jogo. Talvez o mesmo jogo, com cartas diferentes. Eles são mestres do subterfúgio, idolatram a intriga, a sedição. E a sedução. Trairão qualquer pessoa para conseguirem o que querem. Amanhã serás tu. No dia a seguir o senhor Wolf. Ela poderia ter interesse no corpo do senhor Silva. Mas a carne é, muitas vezes, a porta de entrada para a alma. E o senhor Silva era muito frágil. Li Bei sabia isso.
– Achas que algum está ligado ao alemão?
– Não duvido. Se chegasses a Macau com uma ideia de negócio como o senhor Wolf, quem procurarias conhecer? Palha é um homem com muitas conexões. E a mulher não olha a meios para conseguir atingir os seus fins. Um deles, senão os dois, estão ligados a ele. E talvez o senhor Silva estivesse também, por via disso.

(continua)

Covid-19 | Levantamento de restrições com Hong Kong só com “consenso” de Pequim

O levantamento das restrições de circulação entre Macau e Hong Kong está dependente do aval do Governo Central. A revelação foi feita ontem por Tai Wa Hou, coordenador do plano de vacinação contra a covid-19, que indicou existirem negociações online entre as três jurisdições.

“Temos uma ligação estreita com Hong Kong e as medidas de passagem de fronteira têm de passar pelo Interior, Hong Kong também precisa de autorização do Interior [para reestabelecer a circulação]”, informou Tai Wa Hou. “Temos feito reuniões online entre as partes envolvidas, e quando houver dados concretos vamos fazer o anúncio”, acrescentou.

Tai Wa Hou explicou que Macau e o Interior estão a negociar um plano em conjunto porque existe uma “uniformização das medidas”.

Em relação às metas de 14 dias e 28 dias sem casos de infecção comunitária em Hong Kong, que tinham sido traçadas anteriormente para a reabertura da circulação, os responsáveis admitiram que já não existem, e que a uniformização das medidas depende do Interior. “Não temos um plano definido sobre o número de dias sem casos para reabrir a circulação sem restrições. Não temos um plano…”, apontou Tai. “Primeiro, temos de ponderar a situação de Hong Kong com os casos recentes. É uma situação nova que tem de ser acompanhada. Em segundo lugar, temos de negociar com o Interior, porque temos de manter as medidas uniformizadas”, realçou.

Afastada está ainda a criação de um canal especial com o aeroporto de Hong Kong. Segundo o coordenador do plano de vacinação contra a covid-19 a questão foi levada à mesa das negociações, mas não há ainda qualquer conclusão.

Trabalhadores protegidos

Na conferência de imprensa de ontem foi também abordada a queixa de uma trabalhadora grávida da Melco Resorts que se sentiu pressionada a ser vacinada e a quem alegadamente terá sido pedido que deixasse de amamentar. Segundo o portal em língua chinesa All In, no caso de a trabalhadora não seguir as orientações da empresa não teria direito a receber o bónus de fim de ano.

Sobre a situação em particular, Tai Wa Hou recusou fazer julgamentos por não ter provas. Contudo, deixou um aviso: “É uma verdade absoluta que os funcionários não podem ser forçados a levar a vacina. Isso viola os nossos princípios. Se as pessoas forem forçadas pelas empresas a levar a vacina, podem apresentar queixa nos SSM, e nós reencaminhamos para as autoridades competentes”, indicou.

Tai explicou também os três princípios do Governo para a vacinação. Segundo a clarificação, a vacinação tem de ser em condições de segurança, tem de ser tomada de forma voluntária e com a possibilidade de os vacinados escolherem o produto com que querem ser inoculados.

Inundações na RAEM (II) – Dos tipos de redes de drenagem e dos usos autorizados

Por Mário Duarte Duque, arquitecto 

 

Importa ter presente que as normas do Regulamento de Águas e de Drenagem de Águas Residuais de Macau de 1996 (o RADARM) só passaram a ser aplicáveis a obras cuja concepção ou licenciamento se iniciou a partir da entrada em vigor desse diploma.

Ou seja, que a obrigatoriedade de os sistemas de drenagem de águas domésticas e de águas pluviais serem separativos, tendo em vista o tratamento dos esgotos domésticos e industriais, e o descarregamento das águas pluviais pudesse ser feito directamente no estuário livre de poluentes, só passou a ser obrigatório para tudo o que se realizou a partir dessa data.

Disso resulta que a observação de regras relativas aos lançamentos permitidos nas diferentes redes de drenagem são condições de base e são essenciais para o lógico, correcto e seguro funcionamentos de todos os sistemas de drenagem.

Assim, não é permitido que entrem esgotos domésticos em redes pluviais, para que esgotos domésticos não sejam lançados no estuário sem tratamento sanitário. Não é permitido que entrem esgotos pluviais numa rede de esgotos domésticos, para que não seja exorbitante e desnecessário o caudal enviado para tratamento sanitário. Como não é permitido certos lançamentos nas redes domésticas que danifiquem as canalizações ou que inviabilizem os processos das centrais de tratamento sanitário do esgoto.

Os materiais que não estão autorizados a entrar nas redes têm que ser separados logo nas instalações onde são produzidos, e têm de ser recolhidos nessas instalações de outro modo.

Nas redes domésticas não podem entrar produtos que sejam quimicamente ou biologicamente incompatíveis com o tratamento que é feito a esses esgotos em estações de tratamento, não podem entrar materiais que danifiquem mecanicamente ou quimicamente as canalizações, objectos de determinadas dimensões, substâncias corrosivas e gorduras, que danificam as paredes, obstruem o fluxo e são origem de “aneurismas” e de “tromboses” dos sistemas de drenagem, tal como acontece no sistema vascular do corpo dos humanos.

Assim, na rede pluvial só entra água da chuva, de lavagem de pavimentos, de despejo de tanques ou piscinas, também de arrefecimento de torres de refrigeração, mas desde que não excedam determinada temperatura.

Para fácil identificação da presença dessas redes no espaço público, tudo o que é sumidouro ou sarjeta de pavimento (público ou privado), ou vala aberta, deveria pertencer a um sistema de drenagem pluvial.

Assim, sempre que a capacidade de drenagem dessas redes seja excedida, o refluxo, o transbordo ou o assomo de águas no espaço público, a partir desses dispositivos, deveriam ser apenas águas pluviais.

A questão importa porque o colapso de uma rede de drenagem pode ser admissível ou mesmo inevitável, disso resultarem inundações, mas a capacidade dos humanos conviverem com essas inundações depende de condições que não constituam perigo para a vida, tais como a profundidade da água, a velocidade com que corre, a temperatura e, principalmente, os níveis de poluição.

O apuramento das condições em que uma inundação acontece permite estabelecer a linha divisória entre o que constitui mera perturbação e o que constitui perigo para a vida.

Permite ainda avaliar se, na impossibilidade de resolver o problema das cheias a outra escala, ou por outros meios, a “inundação controlada”, ou monitorizada, é solução a ponderar.

Desde já podemos interpretar comportamentos que atentam contra o bom funcionamento dessas redes quando vimos alguém largar as beatas de cigarros, ou lojas fazerem despejos, nas sargetas à sua porta.

O que já não conseguimos identificar é o que se passa por debaixo do solo e nas instalações privadas onde os resíduos são produzidos, o obsoletismo das normas por que essas instalações ainda se pautam, ou as modificações ilegais feitas no interior dos edifícios.

Sabemos contudo que quando as inundações ocorrem, as águas que correm à superfície estão poluídas com esgoto doméstico, e que isso constitui perigo para a vida.

A entrada em vigor do Regulamento de Águas e de Drenagem de Águas Residuais de Macau em 1996 teve em vista um cenário em que o esgoto doméstico é para ser tratado, e que o território de Macau mantém ainda em funcionamento redes unitárias de drenagem de esgotos.

Com o mesmo regulamento a DSSOPT ficou encarregada de manter actualizados os cadastros dos sistemas públicos de drenagem, assim como os cadastros dos sistemas prediais onde deve constar, pelo menos, a ficha técnica do sistema predial, com a síntese das suas características principais;

A entrada em vigor do mesmo regulamento pressupõe o início de um processo de evolução, de actualização e de apetrechamento da rede.

Nomeadamente nas zonas antigas, ainda servidas por redes públicas unitárias, qualquer nova construção já está obrigada à separação dos sistemas prediais de drenagem de águas residuais domésticas dos de águas pluviais, até às câmaras de onde sai o ramal de ligação à rede pública.

A partir daí, essas câmaras ligam-se ao colector único, mas também passam a ligar-se separadamente, logo no dia em que a via seja remodelada e infra-estruturada com uma rede de drenagem separativa.

Num cenário de contingência de inundações urbanas, a questão mais pertinente é saber qual é presentemente a predominância de redes unitárias ainda em funcionamento, e para onde essas redes são conduzidas ou despejadas.

Ou seja, se todo esse caudal, composto por águas sujas e limpas, é tratado, o que se afigura um desperdício, ou se todo esse caudal é antes lançado directamente no estuário sem tratamento e, nesse caso, qual é a concentração média de poluentes na rede num evento de chuvas intensas.

Na certeza porém que, qualquer rede unitária, que esteja a ser despejada no estuário, assoma necessariamente à superfície, nas ocasiões em que não há condições de entrega desse caudal no estuário.

Muito do conteúdo que aqui se reúne prende-se com disposições construtivas obsoletas, comportamentos e obras não autorizadas, e a necessidade de tarefas de fiscalização.

Tarefas de fiscalização são primordialmente tarefas de “monitorização”. Servem para conhecer comportamentos e o estado de coisas. Atingem a esfera da “fiscalização” quando quilo que se apura colide com o ordenamento jurídico que regula esses comportamentos e esse estado de coisas, consubstanciando infracções, à qual está atrelada uma consequência específica, i.e. uma a sanção.

Muito do que corre aos olhos do público em geral poderia regular-se por via de uma consciência cívica e ética onde os próprios cidadãos podem desaconselhar outros cidadãos a práticas incorrectas e a exortá-los à prática correcta que se impõe.

Todavia, para tudo o que é complexo, e muitas das vezes sequer é visível, a supervisão já depende de meios especializados.

Na RAEM essa fiscalização está demarcada entre (1) o IAM, que é responsável pela reparação, conservação, aperfeiçoamento e limpeza da rede pública de drenagem de águas residuais domésticas e pluviais, assim como do licenciamento de actividades onde os efluentes são produzidos industrialmente, nomeadamente estabelecimentos de restauração, e (2) a DSSOPT, que é responsável pela concepção de todas as redes, nomeadamente pelo licenciamento das redes no domínio privado, e pela supervisão do estado em que as mesmas se encontram, integrada na obrigatoriedade de manter as edificações em bom estado de conservação na sua generalidade, e de as defender de disposições não autorizadas.

Desta demarcação resultam também tradições diferentes. Enquanto os fiscais do IAM andam efectivamente na rua porque têm de aí realizar tarefas rotineiramente, os fiscais da DSSOPT já não estão obrigados a qualquer rotina no exterior. Só saem dos seus gabinetes quando são feitas denúncias ou quando têm que recolher elementos para informar processos.

São esses moldes de cultura administrativa que resultam de inércia, e que dependem de um exército de residentes “bufos” para o desempenho do dever funcional.

Mas muito do que importa conhecer e cuidar numa rede drenagem é hoje possível monitorizar pelo recurso à tecnologia.

É possível conhecer à distância a composição química do efluente que corre, em determinado troço de canalização, em determinado momento, para se conhecer que nessa canalização estão a entrar despejos não autorizados.
É possível conhecer a frequência da turbulência resultante de chuvas intensas numa canalização, para apurar a agressão mecânica, o atrito e a degradação acelerada das canalizações.

É ainda possível conhecer a cada momento a ocupação das canalizações abaixo do solo, para que, muito antes que tudo isso assoma à superfície, e se deflagre ume inundação urbana, se possam produzir avisos mais úteis à população.

As Viagens de Gulliver – Primeira Parte

Jonathan Swift começa a publicar no início do século XVIII e cedo começa a ser lido como um escritor político, como alguém que antes de mais e acima de tudo está interessado em desmascarar a sociedade em que vivemos e a política que a sustenta. Desde os seus primeiros livros, publicados no ano de 1704, A Fábula de um Barril e A Batalha dos Livros, que a sua escrita mostrava uma sátira contundente a tudo o que lhe parecia ridículo, perverso e tirânico, embora a sua escrita não fosse apenas política, aquilo que ressaltava aos olhos dos leitores do seu tempo era a faceta política e cáustica dos textos. Swift criticava a corrupção dos homens de estado, criticava os juízes e os advogados, criticava o pseudo-conhecimento, como no caso da acérrima contenda com o astrólogo Patridge ou dos romances de viagem que estavam na moda na época. Mas esta leitura ao tempo em que viveu foi-se alastrando no tempo.

Também George Orwel, que considera As Viagens de Gulliver um dos melhores livros da história da humanidade e o seu escritor o melhor prosador de língua inglesa, fez acima de tudo uma leitura política deste livro, não deixando de sublinhar a sua excelsa ironia.

Que Swift estava em guerra contra o seu próprio tempo, isto é, contra a organização da sociedade e da política, ao mesmo tempo que nutria um enorme desagrado pelos livros de viagens, pois sabia que eles eram um poderoso veículo de ignorância, são factos inolvidáveis. A organização da sociedade, antes como agora, é corrupta, irracional, e estimula a desenvolvermos o pior de nós, ao invés de procurarmos sermos melhores do que somos, de um ponto de vista ético e científico. E Swift mostrou-nos isso como ninguém, pelo menos até Orwel. Também é verdade que os livros que Swift criticava, tanto ontem como hoje, reproduzem aquilo que as pessoas incultas querem ouvir, isto é, aquelas que não se preocupam em investigar mais acerca daquilo que se pronunciam ou acerca daquilo que lêem. Ao tempo do escritor irlandês, esses livros especulavam acerca de seres e terras estranhas sem qualquer relação com a plausibilidade; ao nosso tempo, especulam formas de auto-conhecimento sem aprofundamento da palavra ou do número, sem um aprofundamento daquilo que somos, como se pudéssemos chegar a nós por determinados gestos ou rituais. Ou os novos livros de viagem, que são as teorias da conspiração. Estes livros não só mantêm as pessoas entretidas com fantasias absurdas como as afastam do conhecimento. Tanto ao tempo de Swift quanto ao nosso. No fundo, aquilo que podemos ver nas montras das grandes livrarias. Jonathan Swift atacou tudo isto de modo implacável. Tudo isto são factos e podemos sem sombra de dúvidas encontrar nos livros de Swift em geral e neste em particular.

Mas aquilo que me parece mais importante neste livro de Swift é do foro ontológico e não político ou social. Talvez mais do que em qualquer outro livro de literatura se possa aplicar literalmente estes versos de Álvaro de Campos:

«O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. / O que há é pouca gente para dar por isso.» No final do livro, no último capítulo da quarta parte, o narrador, Gulliver, escreve: «Assim, caro leitor, te ofereci a narração fiel da história das minhas viagens durante dezasseis anos e mais de sete meses, relato em que me preocupei mais com a verdade do que com o estilo. Eu poderia, como outros, ter-te causado espanto com histórias estranhas e improváveis, mas preferi relatar fielmente os factos, na maneira e estilo mais simples, porque o meu principal propósito era informar-te, e não divertir-te.» (A edição utilizada em todas as citações é a da Relógio D’Água, na tradução de Luzia Maria Martins, p. 275). Reparem na tripla ironia da passagem: poderia contar histórias improváveis, mas preferiu não o fazer, mas antes contar apenas a verdade. Uma dupla ironia surge porque na verdade as histórias são completamente improváveis, ao mesmo tempo que mostram a verdade; por fim, a terceira parte da ironia aparece quando pede desculpa de não cuidar do estilo, quando a sua prosa é sublime. No fundo, o que Swift nos está a dizer, que faz ao longo de todo o livro, é que o problema dele não é a imaginação, mas a falta de verdade. Imaginação não é contrário a verdade. Ver-se-á adiante aonde isto nos vai levar. Assim, Swift vai traçar em

As Viagens de Gulliver uma poderosa ironia acerca dos romances de viagem, à semelhança do que um século antes Cervantes havia feito com Dom Quixote de La Mancha acerca dos romances de cavalaria. É bom recordar aqui que, a meio do tempo em que escrevia As Viagens de Gulliver, é publicado Robison Crusoé, de Daniel Defoe, que rapidamente se torna um sucesso de vendas, como que a dar ainda mais razão ao genial Swift.

Mas antes da passagem do último capítulo da quarta parte, que vos li anteriormente, Swift vai à página 89, no final do primeiro capítulo da segunda parte, já em Brobdingnag, nos colocar no sentido mais radical deste livro. Veja-se onde podemos ler as palavras do narrador em que explica a razão de ter escrito o livro que escreveu, sendo ele adverso aos livros de viagens: «Espero que o amável leitor me desculpe o facto de mencionar estes incidentes e outros semelhantes, os quais, parecendo insignificantes aos espíritos baixos e às mentalidades ordinárias, ajudarão, contudo, um filósofo a aumentar o âmbito dos seus pensamentos e da sua imaginação, podendo aplicá-los em benefício público ou particular. Aliás, foi este o meu único objectivo ao apresentar ao mundo este e outros relatos das minhas viagens, nos quais tentei exclusivamente servir a verdade, sem afectar quaisquer ornatos de erudição ou estilo.» O narrador tem a noção clara de que o seu relato, num espírito atento, servirá para alargar-se a si mesmo.

No fundo, o que Gulliver / Swift nos está a dizer é que este livro serve para nos vermos a nós mesmos. É uma viagem ao nosso interior, isto é, ao modo como nos vemos a nos mesmos. O que está em causa, mais do que uma visão política do seu tempo, que também há, ou uma visão de crítica literária, que também há, é uma visão filosófica do humano, isto é, um olhar radical acerca do ser humano. A viagem de Gulliver é uma viagem ao ser humano. Os países distantes e estranhos somos nós mesmos, os humanos, não apenas uns para os outros, como no caso dos diferentes povos ou diferentes estratos sociais ou ainda diferentes interesses culturais, mas nós para nós mesmos.

Nós não fazemos ideia de como nos vemos a nós mesmos, nem de como o nosso olhar sobre nós é configurado pelo que vemos nos outros. A artista plástica e poeta Leonor Hipólito escreve estes versos no início do poema 46 do livro A Natureza Que Esquecemos: «Tanto já se escreveu na primeira pessoa do singular / sabendo tão pouco sobre a nossa pessoa […]».

Não deixa de ser curioso que, para nos mostrar a nós mesmos, Gulliver tenha feito viagens a países inimagináveis.
(Continua na próxima semana)

Frutos do bosque

Ou do pinhal. Cidade. Caminho de pessoas que encerram pequenos frutos secretos no cimo da sua verticalidade funcional. Os delicados elementos doces, protegidos em capa duríssima e mascarrada que suja os dedos e que se desprendem das pinhas caídas elas também, tendo como destino terra. Por entre agulhas. Às vezes vejo estes conjuntos aleatórios de pessoas como se transportassem a caixa do gato de Schrödinger, equilibrada sobre os ombros. Talvez por isso tanta intuição de peso sobre estes, na atitude corporal.

Pinhal de paradoxos. É onde crescemos e vivemos. Esse lugar que somente um dia mais tarde, mais tarde do que os primeiros efeitos que se confundem com indecisões, reconhecemos. Como uma coisa a estimar e preservar porque nos prende nos afectos e na razão. Ou então porque é a coisa que nos liberta. Desse preconceito de se ser eternamente conciso e consistente a cortar a direito na vida, sobre tudo e contra todos. Há que estimar os paradoxos que nos definem e identificam aquele pedaço em nós que sim mas também. Ou que não mas mesmo assim. Há que respeitar as luzes e sombras como as contradições que se aquecem no conforto mútuo de pele contra pele. Delas sobra, bem vistas as coisas, o essencial. E do essencial que tarde ou cedo emerge, é afinal a vida, naquilo que não controlamos, que tem um daqueles pequenos poderes que sempre decidem por nós. Às vezes contra nós. Um paradoxo é o conforto de ter duas certezas opostas e contraditórias a cantar em uníssono. O melhor de dois mundos conceptuais ou afectivos. O predomínio crítico da palavra “mas” e o império do “no entanto” e do “apesar de tudo”. A abrangência do “também” e do “que se dane”. O efeito de sobreposição que não exige escolha.

Gostava de saber como se traduz em fórmula química ou por um nome que se possa soletrar, este conforto com o qual não se pode viver senão juntando-nos a ele. Não será, talvez, felicidade. “Uma inundação de ocitocina”, como a designa Coimbra de Matos. Destilada no cérebro por existência de uma presença de amor dentro dessa caixa. Ou: “A constância do sujeito no interior do seu objecto”. Mas é o equilíbrio possível, numa balança que se assume não pender para um dos lados, por mais que recheada de opostos em densidade, peso e medida. Ou na aparência.

Caminhamos pelos caminhos não delineados no bosque denso, avançando pelo sinuoso possível que se nos depara ao contornar cada tronco. Delimitado e redondo como cada ser. E nos intervalos de vazio avançamos. Mas olhando para cima, o tronco de cada individualizada árvore que ao nível do solo se mantém una, divide-se e multiplica exponencialmente por finos ramos. E estes entrelaçam-se e confundem-se ao olhar. Numa amálgama de espécies até. Mas não nas funções que as alimentam. A seiva de uma, somente amarinha pelos caminhos de uma e não de outra. A confusão é apenas aparente, visual. É a visão de fora. E é nesse emaranhado em convivência serena que repousa o sentido de bem-estar, já que nada nos obriga a discernir qual dos pequenos ramos pertence a um troco de sentido e qual ao outro.

Olho para cima e de acordo com as particularidades da hora pode refulgir ou não em estrela uma divergência crua e cortante de raios visíveis que nunca o são, senão assim, filtrados. Obrigados a um grito sonoro de luz. Uma refulgência como se por aproximação pontual de um sol de outro modo ausente na sua distância.

Já de saída do Jardim botânico, lembro-me, deparo com aqueles corpos abatidos mas que conservavam a tepidez visual das formas orgânicas e antropomórficas, sem mácula. Musculatura e meneios de referência ao sentido da linguagem de corpo humano. Quando se exprime. Em dramático desalento ou espera ou desistência. Uma certa sensualidade na languidez das fibras. Um mamilo subtil ou uma axila descontraída, vegetal, um braço a quebrar um olhar não existente. Árvores tombadas pela força de vontade alheia. Corpos acumulados como em vala comum. Metáforas de corpos e silêncio. A morte do conforto dos paradoxos é o abate. Porque as árvores nem sempre morrem de pé. E os cavalos, também se abatem.

Tanta caminhada, hoje. Os pés um pouco doridos a clamar por um banco. Os sapatos que os protegem são os mesmos que começam a causar dor. O paradoxo de sentir e das vontades sobrepostas é o que nos faz descalçar os sapatos mentais de salto alto, suspirar de alívio ou não e dar um laço nas sapatilhas. Mas ambos provocam dor quando se dança a sério. Juntos na escuridão do roupeiro negro de prateleira ampla. A cada um reservado o seu suspiro, a sua carícia. Alternadamente, mas sobrepostos no desejo. E as caixas em que desconhecidos repousam, como a outra caixa que transportamos sobre os ombros e que define os sapatos que levamos calçados. Talvez uns e os outros. Enquanto a caixa permanece fechada.

China | Sector dos serviços cresce ao menor ritmo em quatro meses

O sector dos serviços na China cresceu, em Junho, ao ritmo mais lento desde Abril de 2020, após ter desacelerado significativamente, em comparação com o mês anterior, segundo o jornal de informação económica Caixin. De acordo com a Caixin, que reúne as estatísticas em colaboração com a consultora britânica IHS Markit, o índice de gestores de compras (PMI) do setor dos serviços fixou-se em 50,3 pontos, em Junho, face aos 55,1 registados em Maio. Neste indicador, uma marca acima dos 50 pontos implica expansão e, abaixo, uma contracção.

O PMI do sector dos serviços elaborado pela Caixin ficou pelo décimo quarto mês consecutivo em território positivo.
Segundo o economista da Caixin, Wang Zhe, a desaceleração foi impulsionada principalmente pelos subíndices que medem a actividade das empresas do sector e pelas novas encomendas, que foram afectados pelos recentes surtos de covid-19 na província de Guangdong, sudeste da China.

“O emprego no sector dos serviços ficou sob pressão. Os surtos, combinados com a fraca oferta e procura, prejudicaram o mercado de trabalho”, explicou Wang sobre o subíndice do trabalho, que entrou na zona de contracção pela primeira vez em quatro meses.

Sentimento positivo

Os preços no sector dos serviços mantiveram-se “estáveis”, em Junho, devido ao abrandamento da pressão inflacionária, embora os custos para as empresas tenham subido, devido ao aumento das matérias-primas e da mão de obra.

“O sentimento do mercado permanece optimista, mas o indicador de expectativas de negócios caiu para o nível mais baixo em nove meses, em Junho. Algumas das empresas pesquisadas ainda estão preocupadas com o estado da pandemia no país e a nível internacional num futuro próximo”, disse Wang.

Muitas das empresas estão também confiantes de que a pandemia será controlada e que as condições de mercado e a procura global vão “renascer” no próximo ano.

A desaceleração do crescimento no sector dos serviços fez com que o PMI composto, que reúne medições com as empresas do sector manufactureiro, caísse de 53,8, em Maio, para 50,6 em Junho.

Euro 2020 | Itália defronta Espanha na 1.ª meia-final

O futebol era das áreas onde espanhóis e italianos mais diferiam. Uns gostavam mais do jogo de posse e os outros mais do catenaccio, isto, historicamente falando. Hoje, ambos partilham mais semelhanças do que diferenças. Umas delas é a procura de vingança. Quer seja o nariz partido de Luis Enrique em 1994 ou a goleada sofrida pelos azzurri na final do Euro 2012, a proximidade da final de 2020 promete um jogo com mais garra do que nunca

Por Martim Silva

Já se defrontam desde 1924, não podia existir maior equilíbrio. Em 35 jogos, Espanha venceu 10, Itália venceu 10 e registou-se um empate em 15 ocasiões. Duas das melhores selecções, não só da Europa como do mundo, não podiam estar em melhor posição para desempatar esta igualdade histórica. O palco será em Londres, no estádio Wembley, do dia 6 para 7 de Julho às 3h de Macau.

Em 9 jogos disputados entre Itália e Espanha, em Euros ou Mundiais, os espanhóis arrecadaram apenas 2 vitórias, mas uma delas foi na final do Euro 2012 por 4-0. Este foi o resultado mais expressivo de todas as finais da competição europeia de selecções. A humilhação na Ucrânia, palco da final desse ano, não parece ser uma espada de Dâmocles para as tropas de Roberto Mancini, que afirmou estar mais preocupado com o desafio de chegar à final do que com qualquer adversário específico. “Vamos desfrutar da vitória (contra a Bélgica) e depois pensamos na Espanha. São eles quem se segue e, num torneio como este, quanto mais se avança mais complicado fica.”.

Na madrugada de terça para quarta-feira, há um jogo entre duas equipas muito semelhantes. As selecções de Mancini e Luis Enrique são das que mais golos marcaram, têm das maiores percentagens de posse de bola e de acerto de passe. São também as duas equipas que mais remataram nesta edição do Euro. Do lado da Espanha, o avançado Álvaro Morata é quem mais faltas sofreu (15), Aymeric Laporte é quem lidera em toques na bola (569), Jordi Alba e Ferran Torres são os dois jogadores com mais cruzamentos para a grande área (6) e Dani Olmo é o jogador com mais remates (17). Não há falta de munição na equipa espanhola.

Troféu à vista

Espanhóis e italianos, em 2021, partilham ideias semelhantes. Gostam de ter bola e não gostam de a perder. Quando isto acontece, são duas das equipas que conseguem, rapidamente, recuperar o esférico. Têm médios e defesas centrais criativos com a bola nos pés e quando toca a defender, os italianos Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci quase que parecem não ter comparação no mundo do futebol. Os dois veteranos da Juventus (36 e 34 anos, respectivamente) não têm botão de desligar e Bonucci sabe da dificuldade do embate contra La Roja. “Temos mais dois jogos pela frente, o mais difícil é contra Espanha, que são parecidos à Bélgica. Parecia que não iam passar (frente à Suíça) mas conseguiram erguer-se, portanto vamos ter uma batalha até ao fim.”. Apesar da dificuldade da tarefa, o central da Juventus fala num objectivo maior que o confronto das meias. “Eles são uma grande equipa, mas nós começámos o torneio com um sonho nos nossos corações e esperamos continuar assim.”, sentenciou o central italiano.

Do outro lado, e relembrando a fúria de Luis Enrique no Mundial de 1994 após a cotovelada do defesa italiano Mauro Tassotti que partiu o nariz ao actual seleccionador espanhol, o extremo Mikel Oyarzabal mostrou-se descontente com a falta de apoio à sua equipa. “Ninguém nos apoiou. Houve toneladas de críticas quando as coisas não estavam a correr tão bem, mas agora nós sentimos que as pessoas estão do nosso lado.”, referiu o jogador da Real Sociedad.

O jogo de terça para quarta-feira colocará, frente a frente, duas equipas com 5 Mundiais, 4 Euros e dois Jogos Olímpicos entre si, esperando-se um jogo equilibrado e com várias questões em aberto, nomeadamente, a de quem vai assumir o jogo e ficar mais tempo com a bola. A primeira meia-final promete ser um embate histórico não só por ser entre dois gigantes europeus, mas porque está em jogo um bilhete para a final do Euro 2020 em Wembley, e quer Itália quer Espanha não levantam troféus há algum tempo e, certamente, querem sair desta competição com algo mais dentro da bagagem.

 

Petição quer reverter apuramento suíço

Uma petição online no site francês Les Lignes Bougent alega que no penálti falhado por Kylian Mbappé, no jogo frente à Suíça para os oitavos de final do Euro 2020 e que ditou a eliminação de França da prova, o guarda-redes helvético Yann Sommer estava em posição irregular. A petição já tem cerca de 270 mil assinaturas e há confiança na ilegalidade do posicionamento do guarda-redes suíço. “Durante a marcação de penáltis do jogo entre França e Suíça, o guarda-redes Sommer não estava na sua linha durante o remate de Mbappé. Pedimos o cancelamento da qualificação suíça e a repetição do encontro. Desporto tem de ser jogado dentro das regras, mas naquela noite as regras não foram respeitadas.”

Ora, de acordo com as regras do jogo, elaborado pela International Football Association Board (IFAB), a lei 14, referente à marcação de penáltis, é clara. “Quando a bola é chutada, o guarda-redes que defende tem de ter pelo menos parte de um pé a tocar na linha de golo”. O vídeo do penálti em questão mostra que Yann Sommer tem, de facto, parte do seu pé esquerdo na linha de golo quando Mbappé efectua o remate. A polémica em torno do posicionamento de Sommer é agora um não assunto e, desta maneira, os gauleses podem ir para casa descansados.

 

Covid-19 | OMS recomenda melhor acompanhamento de adeptos

Durante quase um mês, o Euro 2020 parecia imune ao vírus silencioso. Mas agora, a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) chegou num tom mais severo e com doses de aconselhamentos. “Precisamos de olhar muito além dos estádios. O que temos que ver é à volta dos estádios e como é que as pessoas chegam lá. Se estão a deslocar-se em comboios, de autocarro ou em meios individuais.” foi assim que Catherine Smallwood, responsável pelo Departamento de Emergência Sanitária da OMS, deixou o alerta sobre o possível aumento de casos do covid-19 devido à competição europeia de selecções.

O aviso vem no seguimento de se detectarem cerca de 2 mil casos relacionados com o jogo entre Inglaterra e Escócia, em Wembley, no dia 19 de Junho. Foram atribuídos cerca de 1.300 casos positivos só a este jogo.

De acordo com a Public Health Scotland, o organismo escocês que gere a saúde pública, houve 1.991 pessoas que testaram positivo e que admitiram ter ido a um ou mais jogos do Euro 2020. O organismo afirmou também estar a tomar todas as medidas de saúde pública na proximidade que estes casos, vindos do Euro, possam ter tido com o resto da população da Escócia.

Na Finlândia foram também reportados 80 casos provenientes da Rússia, após o último jogo dos finlandeses frente à Bélgica, em São Petersburgo, no dia 21 do mês passado. O Instituto Finlandês da Saúde e Bem-Estar advertiu também que podem existir mais casos devido à proximidade com estes adeptos.

Macau no Coração | Há 15 anos a dançar folclore português

Fundado em 2006, o grupo Macau no Coração tem portugueses, chineses e macaenses a dançarem o típico folclore português. Em ano de pandemia e sem espectáculos, a presidente do grupo, Ana Manhão, quer melhorar o espólio de trajes do grupo e até abrir uma escola de danças tradicionais portuguesas

 

Não sabe dançar nem cantar, mas como apaixonada pela cultura portuguesa, Ana Manhão acabou por criar, em 2006, o grupo Macau no Coração. Trata-se de um grupo que, sem grandes apoios institucionais, tem vindo a actuar localmente e na China revelando algumas danças do folclore tradicional português. As associações portuguesas de folclore têm dado uma ajuda ao nível dos trajes, mas Ana Manhão quer desenvolver mais o projecto.

“Queremos ter músicas e trajes em número suficiente para termos um tema em cada espectáculo, porque agora muitas vezes estamos vestidos à moda minhota mas dançamos as músicas da Nazaré. Isso em Portugal não acontece. Nós queremos mostrar as diferentes regiões de Portugal, mas não conseguimos mudar os trajes. Se tivéssemos mais elementos conseguíamos fazer espectáculos diferentes”, contou ao HM.

“Além de dançarmos, estamos também a fazer um estudo dos trajes”, frisou. Mas Ana Manhão pretende também desenvolver o projecto de uma escola de folclore. “Queria ver se conseguíamos, porque em Portugal há escolas de danças tradicionais, mas em Macau não há. E queria abrir uma escola de danças folclóricas, mas como se fosse um centro, onde divulgaríamos também os trajes e os costumes.”

Ana Manhão assume que criar uma escola de raiz pode ser difícil, por isso tem vindo a contactar as universidades do território onde se ensina português para que os cursos possam ter esta componente do folclore e de outros elementos da cultura portuguesa. “Poderia ser mais fácil do que montar uma escola. Já marcamos algumas reuniões mas não nos parece fácil porque os currículos são feitos com aprovação do Governo e conforme as necessidades. Não é algo que se faça de um dia para o outro.”

Falta de aceitação

O grupo Macau no Coração tem um espaço nas Casas Museu da Taipa, onde habitualmente expõe alguns dos trabalhos que os membros vão fazendo. “Estamos mais focados nos elementos culturais, como o lenço dos namorados, os cabeçudos, os azulejos. Queremos desenvolver mais estes elementos.”

Como exemplo, Ana Manhão refere um lenço dos namorados de grande dimensão bordado à mão por sete pessoas em quatro meses, e que pode ser visto nas Casas Museu da Taipa, juntamente com outros trabalhos.

A responsável confessa que o grupo tem evoluído nos últimos 15 anos, mas que gostaria de ter feito mais. “No início tivemos problemas com os trajes, embora agora estejamos um pouco melhor nesse campo, graças às deslocações a Portugal.”

No entanto, a fundadora do grupo lamenta que, 15 anos depois, este ainda seja visto como uma cópia, pelo facto de os seus membros não serem todos portugueses. “Ainda há aquele pensamento de que só é original se forem apenas os portugueses a dançar as danças folclóricas. E sofremos com isso. Espero que esta mentalidade seja ultrapassada. Esperamos ter mais apoio dos portugueses que estão cá.”

Todos os anos há mais pessoas interessadas em fazer parte deste grupo, e a divulgação é um ponto chave. “Fazemos actuações em escolas secundárias e universidades, e depois convidamos os alunos a participar.”

Membros do grupo Macau no Coração fazem também parte do Macau Talent Academy, mais virada para as artes performativas. Esta iniciativa, também de Ana Manhão, tem colaborado com o grupo Macau Artfusion, mas devido à pandemia não há novos projectos.

“Os jovens já estavam no grupo Macau no Coração mas tinham os seus próprios talentos, uns faziam filmagens, outros fotografia. Decidimos separar os dois projectos e formar a Macau Talent Academy. Quando os eventos começarem somos um dos melhores grupos para participar nas paradas de rua. Eles [os membros] podem fazer mais do que no Macau no Coração, por exemplo, pois não há aquela conotação de se pertencer às danças folclóricas”, concluiu.

UM | Estudantes locais questionam justiça de admissão em dormitório

Estudantes da Universidade de Macau queixam-se de injustiça nos processos de admissão para os dormitórios da instituição e da alegada prioridade dada a alunos de fora. Além disso, dá conta de falsos testemunhos de estudantes locais para conseguirem vagas no dormitório

 

“É uma injustiça”, foi assim que um residente e aluno da Universidade de Macau comentou o processo de admissão aos dormitórios da instituição. O estudante, que não se identificou, publicou uma carta no jornal universitário Orange Post, no final de Junho e no domingo no All About Macau, a queixar-se dos critérios de ingresso nos dormitórios, afirmando que os direitos e interesses dos estudantes locais não são devidamente protegidos. Esta não foi a primeira queixa de alunos da instituição em relação à política de admissão à residência universitária.

O All About Macau perguntou à Universidade de Macau quantos pedidos de admissão foram submetidos e aprovados para dormitórios entre 2019 e 2021 de estudantes locais e de fora. Em resposta, a instituição apenas repetiu as regras de inscrição para a residência universitária e garantiu tratar todos os estudantes com justiça.

Face à sensação de injustiça, o estudante seguiu a candidatura de três colegas, todos residentes, para a residência universitária. Apesar de terem casa na RAEM, os estudantes justificaram a necessidade de acomodação no campus com a distância a que as suas residências ficam.

Como tal, e para poupar tempo em viagens, as vidas dos estudantes locais seriam bem mais fáceis se pudessem ficar no dormitório, principalmente tendo em conta a participação em actividades académicas, associações de estudantes ou desporto universitário. Os três estudantes não foram aceites nas residências, enquanto alunos oriundos do exterior, que não se envolvem em actividades universitárias, foram aceites, de acordo com a declaração do aluno.

Depois de caloiro

A política de integração académica da Universidade de Macau contempla o registo de alunos do primeiro ano nos dormitórios, excepto para estudantes com mais de 23 anos, com licenciatura já completas, que tenham a seu cargo pessoas dependentes ou que tenham necessidades especiais.

Conforme a oferta de vagas e ponderadas as condições de selecção, a reitoria decide a admissão ao dormitório.
Porém, neste ponto da decisão da reitoria reside outra crítica do aluno que não se identifica na carta publicada no All About Macau. A avaliação pouco rigorosa terá levado a que alguns alunos locais, que mentiram na candidatura negando ter casa em Macau ou ter problemas familiares, tenham sido aceites na residência universitária. Além disso, outra crítica partilhada por outros alunos queixosos refere-se ao facto de a Universidade de Macau alegadamente ignorar factores como o tempo gasto em transportes, participação em actividades académicas e extra-curriculares que levem à necessidade de dormitório.

De acordo com a informação no site da instituição de ensino superior, o custo de um ano na residência universitária no ano lectivo 2020/2021 era de 15.300 patacas para alunos locais e 25.100 patacas para não-residentes, incluindo 15 refeições por semana e participação em actividades académicas e workshops. De acordo com o All About Macau, no próximo ano lectivo as refeições deixam de estar incluídas.

Eleições | Latonya Leong lidera lista focada nas relações com os PLP

A Plataforma para os Jovens submeteu uma lista com seis candidatos às eleições legislativas de Setembro. Ao HM, a cabeça de lista, Latonya Leong quer ver uma maior aposta nas políticas de promoção de Macau como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa e aponta que na AL não há qualquer deputado que dê voz à causa. A Aliança para a Promoção da Lei Básica de Macau oficializou também a sua candidatura

 

A lista encabeçada pela vice-presidente da Associação Comercial Internacional de Empresários Lusófonos, Latonya Leong, oficializou ontem a candidatura da Plataforma para os Jovens. Segundo a candidata, a lista composta por seis nomes está focada na promoção de Macau como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, sobretudo porque “a população acha que estas políticas não têm nada a ver com eles” e que nenhum dos actuais deputados da Assembleia Legislativa (AL) está verdadeiramente preocupado com o tópico.

“Na AL, nenhum dos deputados dá voz ao facto de Macau ser uma plataforma entre a China e os países da língua portuguesa. O Governo já investiu muitos recursos no desenvolvimento da plataforma e, por isso, gostava de saber porque é que não se avança mais?”, partilhou com o HM.

Para Latonya Leong é necessária a criação de uma base de formação de quadros qualificados bilíngues em áreas como o direito, cuidados de saúde, finanças, construção e arte, de forma a “impulsionar o desenvolvimento da diversificação em Macau.”

A candidata, ela própria bilíngue, explicou ainda que tem vindo a sedimentar o conhecimento que tem sobre o assunto através de trabalho feito no terreno ao longo dos últimos anos, tanto a leccionar português, como na promoção de workshops de produtos e actividades comerciais de países de língua portuguesa.

Sobre os membros escolhidos para a lista de candidatura, a também vice-presidente da Associação Comercial Internacional de Empresários Lusófonos frisou que a equipa da Plataforma para os Jovens, apesar de não ter experiência política é composta por “caras novas” com perspectivas “inovadoras”.

Latonya Leong sublinhou também que a candidatura que encabeça irá prestar atenção à revitalização da economia em contexto de pandemia, à educação, às características especiais de Macau e às medidas de impulsionamento destinadas aos jovens que pretendem viver e fazer carreira em Macau.

A candidata apontou ainda que a média de idades da lista é de 35 anos, abarcando “gerações nascidas entre os anos 70 e 90” que, segundo a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, são as gerações capazes de assumir a “artéria económica e empreendedora” do território.

Os últimos são os primeiros

No último dia destinado à apresentação de candidaturas, a Aliança para a Promoção da Lei Básica de Macau apresentou uma lista com sete candidatos, encabeçada por Zhou Xinzheng. De acordo com o canal chinês da TDM-Rádio Macau, as prioridades da candidatura passam sobretudo pela promoção do conteúdo e do espírito da Lei Básica junto do público, promovendo a reforma da Assembleia Legislativa e a construção de uma sociedade de Direito.

Trânsito | Wong Kit Cheng preocupada com acidentes em passadeiras

No seguimento dos acidentes com crianças em passadeiras localizadas nas redondezas das escolas, Wong Kit Cheng quer saber se o Governo está a “acelerar a optimização” das mesmas, especialmente das que se encontram em curvas e locais de visibilidade reduzida.

Em interpelação escrita, a deputada quer ainda saber se o Governo pondera instalar sistemas de detecção inteligente nos pontos críticos onde os acidentes que envolvem peões têm acontecido com maior frequência.

“Face aos recentes acidentes de viação em passadeiras nas proximidades de escolas, é necessário instalar sistemas de detecção inteligente nos pontos negros de trânsito e nas proximidades das escolas para monitorizar os condutores e os peões nas passadeiras, ajudando a polícia a aplicar as leis e a manter a ordem do trânsito, e, consequentemente, elevar a consciência da população em relação à segurança rodoviária. O Governo vai fazê-lo?”, questionou.

Sobre o tema, Wong Kit Cheng lembra que o processo de inspecção das passadeiras regista “uma certa morosidade”, já que desde 2019, “só foi concluída a inspecção de 62 passadeiras”.

“Face à ocorrência, com alguma frequência, de acidentes de viação nas passadeiras, o público espera que os trabalhos respectivos avancem com mais rapidez, de forma a acabar com os defeitos de concepção e a criar um ambiente de segurança para os utentes”, acrescentou. Para a deputada é também necessário instalar passadeiras oblíquas nos cruzamentos.
Segundo a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, entre 2010 e 2020, registaram-se treze acidentes de viação fatais.

Incêndios | Porteiros podem ser encarregados de segurança

A proposta de lei sobre a segurança contra incêndios em edifícios e recintos, em análise na 2ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL) prevê que os encarregados de segurança contra incêndios, figura que passa a ser obrigatória para os edifícios altos (classe A), possam acumular a função com a de porteiro.

De acordo com o deputado que preside à comissão, Chan Chak Mo, a possibilidade consta da nova versão do diploma apresentada pelo Governo no passado dia 29 de Junho, havendo sanções mais leves para quem não cumprir as regras.

“Essa função vai ser normalmente assumida por um porteiro porque existe uma regra na proposta de lei que diz que os encarregados de segurança contra incêndios podem acumular funções de porteiro. Se não cumprirem os respectivos deveres serão multados (…) entre 500 a 2.000 patacas [em vez de 2 mil a 20 mil patacas]”, apontou ontem o deputado.

Após a reunião, Chan Chak Mo disse ainda que o novo texto distingue com clareza de que forma deve ser repartida a competência entre as Obras Públicas (DSSOPT) e o Corpo de Bombeiros (CB) nas situações em que são detectados objectos, materiais, resíduos ou sujidade no pavimento dos caminhos de evacuação.

Segundo o deputado, após alguns deputados questionarem como é que os pequenos proprietários podem ter conhecimento das infracções cometidas pelas empresas de administração predial, o Governo decidiu acrescentar que “o empresário infractor passa a estar obrigado a publicar um aviso em dois jornais diários da RAEM, um de língua chinesa e outro de língua portuguesa durante cinco dias seguidos”.

Recorde-se que o diploma prevê que a verificação e manutenção dos sistemas passe para o Corpo de Bombeiros, que terá poder de fiscalizar e sancionar. Isto, dado que o actual diploma em vigor desde 1995 atribui também à tutela das Obras públicas poder sancionatório.

Obras | Ella Lei preocupada com qualidade do asfalto

A deputada ligada aos Operários critica as obras viárias por considerar que são intermináveis. Para Ella Lei, as obras perpetuam-se devido à falta de qualidade dos materiais usados, razão pela qual reaparecem rapidamente buracos nas estradas

 

Ella Lei considera que o asfalto utilizado nas estradas do território tem pouca qualidade e defende que está na altura de o Executivo ser rigoroso e aplicar padrões mais elevados. A ideia faz parte de uma interpelação escrita partilhada ontem pela deputada ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM).

“Os cidadãos queixam-se que pouco tempo depois das estradas serem asfaltadas que os grandes buracos e desníveis regressam quase imediatamente. O Governo também reconhece o problema e concorda que é necessário melhorar a qualidade das obras de repavimentação”, começou por argumentar. “Para melhorar a durabilidade do asfalto das estradas é necessário que o Governo reveja os procedimentos adoptados e os materiais utilizados, assim como clarificar os padrões de engenharia e recomendar novos métodos e materiais de construção”, acrescentou.

Neste contexto, Ella Lei quer saber quando se podem esperar mudanças: “Há problemas óbvios com a qualidade das estradas, incluindo com o asfalto. […] Quando é que o Governo vai apresentar actualizações às respectivas leis e regulamentos para melhorar o asfalto?”, perguntou. “Que outros procedimentos complementares têm de ser adoptados e quando vamos ver os resultados nas estradas”, insistiu.

Falta de coordenação

A qualidade das obras não é o único problema a preocupar a deputada ligada à FAOM. Ella Lei mostra-se igualmente preocupada com o facto de o território ser transformado num estaleiro todos os anos, por altura do Verão.

“‘Asfaltar, escavar; escavar e asfaltar’. É este o retrato de Macau”, atirou Ella Lei. “E, apesar de muitos dos projectos serem realizados em resposta às necessidades do desenvolvimento urbano, a pressão para o trânsito e os congestionamentos motivam queixas da população. Todos os Verões o território vive o pico das obras”, queixou-se.

Face à situação recorrente, Ella Lei quer saber o que vai ser feito para alterar o panorama e melhorar a qualidade das vias de Macau. Além disso, a deputada considera que o Grupo de Coordenação das Obras Viárias está a falhar na sua missão. “Será que o Governo vai levar as medidas necessárias para melhorar a coordenação e reduzir o tempo necessário para as obras? O que consideram necessário fazer para melhorar a situação”, questiona.