Relatório diz que queda nos lucros agrava crise de liquidez no imobiliário chinês

As principais construtoras da China não estão a conseguir gerar dinheiro suficiente para cumprir com as suas obrigações, segundo uma análise dos seus resultados, sugerindo um agravamento da crise de liquidez no setor imobiliário do país.

Os lucros líquidos das construtoras caíram, em média, 188%, nos primeiros seis meses de 2022, em termos homólogos, de acordo com um relatório do United Overseas Bank (UOB), banco de investimento com sede em Singapura. O UOB analisou os resultados das 32 construtoras chinesas cotadas em bolsa.

As construtoras estatais apresentaram melhores resultados, com uma queda homóloga dos lucros de 27%, em média, segundo o banco. Entre os 32 construtores privados, o total de dinheiro em caixa encolheu 13,8%, prejudicando a sua capacidade de pagar dívidas, apontou o UOB.

A CR Land, subsidiária de um dos maiores conglomerados estatais da China, o China Resources Group, foi a única construtora a relatar um aumento do dinheiro em caixa.

“É uma situação geral difícil. As construtoras têm muito menos dinheiro para pagar as dívidas e não conseguem obter financiamento”, escreveu Raymond Cheng, analista imobiliário da CGS-CIMB Securities.

No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um teto de 70% na relação entre passivo e ativos e um limite de 100% da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no setor, que foi agravada pelas medidas de combate à covid-19.

O colapso do grupo Evergrande, cujo passivo supera o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal, é o caso mais emblemático.

O UOB considerou que, sem mudanças nas políticas de apoio do governo central ou uma mudança repentina nos níveis de confiança no mercado, mais construtoras chinesas vão provavelmente entrar em incumprimento num futuro próximo.

A crise no imobiliário tem fortes implicações para a classe média do país. Face a um mercado de capitais exíguo, o setor concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70%, segundo diferentes estimativas.

Esta crise surge também num momento político sensível. O Presidente chinês, Xi Jinping, está prestes a assumir um terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista Chinês, quebrando com a tradição política das últimas décadas.

O mercado imobiliário está em contração desde julho de 2021. Entre as 27 construtoras chinesas cotadas na Bolsa de Valores de Hong Kong, o lucro por ação do Agile Group Holdings foi o que mais caiu, com uma queda de 59%, em termos homólogos. As construtoras KWG Group Holdings e China Vanke viram os seus lucros por ação caírem mais de 40% em relação ao ano anterior.

8 Set 2022

Imobiliário | Compra de habitação caiu quase para metade

Aos preços praticados no mercado, uma casa que custou seis milhões no ano passado, vale agora menos 500 mil patacas. Os dados oficiais mostram que a compra de casas está ao ritmo mais baixo desde 1985

 

O mercado do imobiliário de habitação registou uma quebra de transacções na ordem dos 50 por cento nos primeiros seis meses do ano. Segundo os dados da Direcção de Serviços de Finanças (DSF), entre Janeiro e Junho foram vendidas 1.632 habitações, o que representa praticamente menos metade, em relação ao período homólogo, quando foram concretizadas 3.297 transacções.

Com o arrastar da crise criada pelas medidas de controlo da pandemia e o isolamento do território, o mercado mostra uma tendência negativa e que se está a agravar.

Junho foi um mês particularmente afectado pela crise, com a DSF a anunciar 173 transacções, menos 490 do que no mesmo período do ano passado, quando foram vendidas 663 casas. A este respeito, note-se que a Direcção de Serviços e Estatística e Censos (DSEC) indica que apenas foram vendidas 168 unidades, o que faria com que a queda fosse maior, de 495 unidades.

Também os preços, calculados por metro quadrado, apresentam uma redução. Na primeira metade do ano passado, o metro quadrado custava em média 100.346 patacas. Esteve valor apresenta uma redução de oito por cento, face à média da primeira metade deste ano, que foi de 92.290 patacas, o que se traduz em menos 8.056 patacas.

O número ganha maior dimensão se tivermos em conta que uma casa com 60 metros quadrados custava 6,02 milhões de patacas, na primeira metade do ano passado, e agora está avaliada em 5,54 milhões de patacas. No espaço de um ano, o imobiliário desvalorizou cerca de 480 mil patacas.

Ritmo destrutivo

Segundo os dados da DSEC, que tem uma base da dados mais abrangente do que a da DSF, desde Janeiro de 1999 o pior mês para compra de casas foi Fevereiro de 2020. Com 161 transacções (a DSF fiz terem sido registadas 208), Fevereiro de 2020 viu batido o recorde negativo estabelecido em Janeiro de 2009. Nessa altura o território era afectado pela grave crise financeira global, originada nos Estados Unidos, e o número de transacções não foi além das 172 unidades.

Em Fevereiro de 2020, o território atravessava uma situação de confinamento, no início da pandemia, com as pessoas aconselhadas a ficar em casa e os casinos fechados. Junho deste ano também foi afectada por um cenário semelhante, mas não houve restrições à circulação durante grande parte do mês, o que contrasta com Fevereiro de 2020.

No entanto, este ano pode mesmo ficar na história do território como aquele em que menos casas se compraram desde 1985. Nos primeiros meses deste ano foram transaccionadas 1.632 habitações. A este ritmo (dados da DSF para Julho e Agosto mostram um abrandamento) no final do ano as vendas terão sido de 3.264 unidades.

Além da quebra de quase 50 por cento face ao ano passado, este valor bate o recorde negativo de 1985, quando apenas foram compradas 3.490 habitações. É o valor mais baixo desde que há registo, que começam em 1984, ano em que em foram concretizadas 3.699 transacções.

7 Set 2022

Sistema chinês ‘hukou’ torna investir num imóvel assegurar futuro dos filhos

Por João Pimenta, da agência Lusa

 

Emaranhados de fios elétricos, paredes descascadas e rabiscadas com anúncios, tralha amontoada nas escadas: estes são os “atributos” de um dos mais caros bairros de Pequim, cujo preço por metro quadrado ronda os 15.000 euros.

Construído nos anos 1980, o bairro número 42 da Dongzhongjie é uma herança do passado operário da capital chinesa, com as paredes de tijolo nu e as escadas em betão a dar-lhe um aspeto inacabado. O pátio resume-se a um espaço estreito, sem verde, quase todo ocupado por automóveis.

Um detalhe, contudo, torna este lugar apetecível: a propriedade aqui confere, à criança do comprador, vaga numa das melhores escolas básicas de Pequim, a Shijia Shiyan.

Os alunos daquele estabelecimento de ensino “têm maiores probabilidades de acesso direto à prestigiada Beijing Erzhong (Escola Secundária Número Dois de Pequim)”, explica Xing, um agente imobiliário local, à agência Lusa.

A Beijing Erzhong aceita todos os anos cerca de 800 alunos.

É assim que, naquele quarteirão degradado, um T2 de 75 metros quadrados custa 8,5 milhões de yuan (1.234.700 euros). “E vende-se muito bem!”, garante Xing.

O fenómeno explica, em parte, a origem da bolha imobiliária na China, que começa agora a desinsuflar, após o Governo chinês ter exigido maiores rácios de liquidez ao sector.

O colapso do Evergrande Group, o segundo maior construtor da China, é o caso mais emblemático, mas dezenas de outros grupos imobiliários chineses faliram nos últimos meses, ou entraram em incumprimento.

O rácio entre o preço dos imóveis e o valor das rendas no país asiático está entre os mais altos do mundo, sugerindo um retorno negativo sobre o capital investido. Em Pequim ou Xangai, o valor médio dos imóveis ascende a cerca de 23 vezes o vencimento médio anual dos residentes.

Isto deve-se, em parte, ao mercado de capitais exíguo da China: o setor imobiliário concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70%, segundo diferentes estimativas.

Mas é também resultado do restrito sistema de residência do país, conhecido como ‘hukou’, que limita o acesso a serviços públicos ao local onde o cidadão tem propriedade, tornando o valor do imóvel em algo menos tangível do que a métrica do retorno sobre o activo.

Ter propriedade em Pequim ou Xangai garante assim acesso ao sistema de ensino, saúde e segurança social locais, com padrões superiores aos de outras cidades, num país onde as discrepâncias regionais permanecem acentuadas. Em contraste, um ‘hukou’ rural fornece apenas acesso a terras agrícolas e a estruturas débeis de educação ou saúde.

“O sistema de ‘hukou’ constitui um ‘muro invisível’ nas cidades chinesas: de um lado os trabalhadores migrantes e do outro os residentes locais”, resume o académico chinês Chen Zheng.

A educação dos filhos é particularmente valorizada pelas famílias chinesas.

O chinês Zhang Jian, por exemplo, vendeu o apartamento de 110 metros quadrados onde vivia há 10 anos, no norte do município de Pequim, por 230 mil euros, e comprou por 340 mil euros um T1 de 56 metros quadrados, no centro da capital. “Não quero que a minha filha seja inculta como eu”, explica à Lusa.

De um total de quase dez milhões de adolescentes que este ano se submeteram ao ‘Gaokao’ – o exame de acesso ao ensino superior na China – 3,25 milhões conseguiram entrar na universidade. E, entre aqueles, só alguns milhares obtiveram vaga numa universidade chinesa de topo, garantia de um bom futuro profissional ou académico.

Perante estes números, Zhang Jian faz prontamente as contas. “Gastei um pouco de dinheiro”, reconhece. “Mas se a minha filha não frequentasse uma boa escola, as perdas seriam para toda a vida”, nota.

5 Set 2022

Imobiliário | Mais 2 mil habitações privadas em construção

Durante o segundo trimestre estavam em construção em Macau 2.146 habitações privadas, num total de 57 prédios, de acordo com as estatísticas divulgadas ontem pela Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU).

Estes empreendimentos contam ainda com 926 estacionamentos para automóveis e 338 para motociclos. Apesar dos vários prédios em construção, apenas foi emitida uma licença de utilização para um empreendimento, que corresponde a seis fracções habitacionais. Além disso, foram concluídos, mas em fase de vistoria, 11 prédios, num total de 100 casas, 61 parques de estacionamento para automóveis e 8 para motociclos.

A estatística revela também que se encontram em fase de projecto 104 empreendimentos habitacionais, num total de 7.620 casas, 4.919 lugares de estacionamentos para automóveis e 1.577 para motos.

Em termos de hotéis, estavam em construção no segundo trimestre do ano 12 unidades, que correspondem a 4.737 quartos, com 2.106 lugares de estacionamento para automóveis ligeiros e 677 motociclos. Além disso, havia 16 empreendimentos em fase de projecto que vão acrescentar à cidade mais 1.723 quartos, 278 estacionamentos de automóveis e 125 de motos.

19 Ago 2022

Habitação | Proprietários de casas inacabadas na China recusam pagar prestações

Proprietários de habitações na China, cuja obra ficou inacabada devido à situação precária das construtoras, estão a recusar pagar as prestações dos imóveis, disseram fontes do sector que atravessa uma crise de liquidez

 

Em pelo menos uma centena de projectos imobiliários na China, os donos de casas estão a recusar pagar as prestações mensais, de acordo com dados da empresa especializada no sector CRIC, publicados ontem. Estes projectos estão espalhados por 50 cidades diferentes.

“A lista [de projectos afectados] duplicou nos últimos três dias”, apontaram, num relatório, analistas do banco de investimento norte-americano Jefferies, estimando um défice para as construtoras em 388 mil milhões de yuans.
As pré-vendas são a maneira mais comum na China de vender imóveis.

A crise no imobiliário tem fortes implicações para a classe média do país. Face a um mercado de capitais exíguo, o sector concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70 por cento, segundo diferentes estimativas.

As incertezas ligadas à política da China de ‘zero casos’ de covid-19, que penaliza a actividade económica e pesa no rendimento das famílias, estão a fragilizar o mercado, numa altura em que muitos grupos imobiliários no país se encontram já em dificuldades financeiras.

No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um tecto de 70 por cento na relação entre passivo e activos e um limite de 100 por cento da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no sector.

Devido à falta de dinheiro em caixa, algumas construtoras não conseguem terminar projectos e entregar propriedades que foram já vendidas.

Tijolo e cimento

O sector imobiliário e a construção pesam mais de um quarto no PIB (Produto Interno Bruto) da China e foram um importante motor do crescimento económico do país nas duas últimas décadas.

Nos últimos meses, as construtoras Sunac e Shimao tornaram-se as mais recentes construtoras chinesas a entrar em incumprimento. O caso mais emblemático envolve a Evergrande Group, cujo passivo supera o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal.

A crise da Evergrande, a maior construtora da China, está a penalizar indirectamente os seus concorrentes, com os compradores a mostrarem-se cada vez mais relutantes em investir em imobiliário.

A recusa em pagar as prestações é “particularmente preocupante”, porque ameaça também o sistema financeiro, alertou ontem o banco Nomura.

Segundo a agência de informação financeira Bloomberg, o ministério da Habitação chinês realizou esta semana várias reuniões de emergência com os reguladores financeiros e os grandes bancos do país.

15 Jul 2022

Imobiliárias chinesas oferecem descontos em troca de melancias ou alho

Imobiliárias chinesas estão a aceitar melancias, trigo ou alho, em troca de descontos para compradores, informou hoje um jornal de Hong Kong, face à contração no mercado e ao limite imposto pelas autoridades na redução dos preços.

Segundo o jornal South China Morning Post, a Nanjing Seazen Holdings, empresa de construção do leste da China, oferece um desconto de 100 mil yuans em troca de cinco mil quilos de melancias.

Isto significa que a construtora está a pagar cinco vezes mais pelo quilo de melancia do que o preço atual no mercado de vendas por grosso.

Na cidade de Wuxi, também no leste da China, outra construtora está a aceitar pêssegos em troca de descontos até 188.888 yuans. Na província central de Henan, uma imobiliária baixou os preços em até 160 mil yuans em troca de trigo ou alho. A empresa acumulou 430 mil quilos de alho com a venda de 30 apartamentos, de acordo com o jornal.

Como os governos locais puseram um limite no corte dos preços dos imóveis, visando evitar o colapso do mercado e uma crise no sistema bancário, as construtoras têm que encontrar formas criativas de fazer descontos, explicou Zhang Dawei, analista da agência imobiliária Centaline, citado pelo SCMP.

O setor foi um dos mais importantes motores de crescimento da economia chinesa nas últimas décadas.

No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um teto de 70% na relação entre passivo e ativos e um limite de 100% da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no setor, que foi agravada pelas medidas de combate à covid-19.

Várias construtoras chinesas entraram em incumprimento, nos últimos meses, suscitando a desconfiança dos potenciais compradores, o que se traduziu nas primeiras quedas homólogas dos preços da habitação nova no país em vários anos.

“Em algumas cidades, se a redução dos preços não for bastante significativa, não vai haver compradores. Em algumas áreas, as vendas não são satisfatórias, então os compradores estão com pouca liquidez”, disse Andy Lee, CEO da Centaline.

De acordo com o SCMP, entre janeiro e maio, as vendas conjuntas das cem maiores imobiliárias do país registaram uma queda homóloga de 50%.

No entanto, as autoridades de dezenas de cidades colocaram um “piso” nos preços dos imóveis, limitando os descontos que as construtoras podem fazer, para evitar uma “perturbação da ordem normal” do mercado imobiliário e do setor, cujo peso no PIB (Produto Interno Bruto) do país ronda os 30%, segundo alguns analistas.

O Presidente chinês, Xi Jinping, insistiu em várias ocasiões que as casas “devem servir para habitação e não especulação”, mas a crise no imobiliário tem fortes implicações para a classe média e para a economia do país. Face a um mercado de capitais exíguo, o setor imobiliário concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70%, segundo diferentes estimativas.

Em entrevista à agência Lusa, Michael Pettis, professor de teoria financeira na Faculdade de Gestão Guanghua, da Universidade de Pequim, vê na contração do setor imobiliário um sinal de que a China se está a afastar do modelo de crescimento assente no investimento em ativos não produtivos.

“Há muito crescimento fictício na China”, notou Pettis. “O excesso de investimento em todo o tipo de projetos de construção inflaciona o crescimento da economia chinesa há vários anos”, descreveu.

5 Jul 2022

Construtora chinesa Shimao falha pagamento de título no valor de mil milhões de dólares

A construtora chinesa Shimao anunciou hoje que falhou o pagamento de um título, no valor equivalente a mil milhões de dólares, e de outras obrigações emitidas no exterior.

Em comunicado enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, onde está cotada, a empresa informou que falhou o pagamento de quase 1.204 milhões de dólares, incluindo juros, sobre um título emitido na Bolsa de Valores de Singapura, com juro fixo anual de 4,75%.

A Shimao assegurou que, até agora, não recebeu qualquer reclamação, e prometeu “esforçar-se para continuar a colaborar ativamente” com os credores, visando alcançar uma solução que satisfaça ambas as partes.

No mesmo comunicado, a construtora indicou que “não cumpriu os principais pagamentos de algumas outras dívidas emitidas ‘offshore’” para além da obrigação referida, embora não dê detalhes. A empresa afirmou que está a negociar uma “resolução amigável” com os credores.

Entre janeiro e maio, as vendas da imobiliária caíram 72%, em termos homólogos, para 34,26 mil milhões de yuans, um declínio que a empresa atribuiu a “mudanças significativas no ambiente macro para o setor imobiliário na China, a partir do segundo semestre de 2021, e ao impacto de [surtos de] covid-19”.

Isto obrigou a empresa a vender ativos, para “melhorar” a liquidez do grupo, ou a renegociar as condições de algumas das suas linhas de financiamento, o que não impediu que a sua posição fosse comprometida “por incertezas do mercado, face ao refinanciamento de dívida, e a condições operacionais e de financiamento complicadas”.

No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um teto de 70% na relação entre passivo e ativos e um limite de 100% da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no setor, que foi agravada pelas medidas de combate à covid-19.

Em maio passado, a Sunac tornou-se a mais recente construtora chinesa a entrar em incumprimento. O caso mais emblemático envolve a Evergrande Group, cujo passivo ascende ao equivalente a 300 mil milhões de dólares.

No mês passado, a agência de notação financeira S&P baixou também a classificação da dívida do grupo Greenland, que tem o município de Xangai como acionista, devido aos crescentes “riscos” de incumprimento.

A Greenland é um dos maiores grupos imobiliários da China, com forte presença internacional, particularmente nos Estados Unidos. De acordo com a agência de notícias Bloomberg, o grupo solicitou recentemente o adiamento por um ano do pagamento de 488 milhões de dólares em juros de títulos de dívida.

4 Jul 2022

Habitação | Preços das casas novas com primeira queda em seis anos

A crise imobiliária continua a agravar-se. Política de ‘zero casos’ de covid-19 e consequente desaceleração económica contribui para a contração do sector

 

Os preços das casas novas na China caíram em Maio, pela primeira vez em seis anos, segundo dados oficiais ontem divulgados, numa altura em que a crise de liquidez do sector é exacerbada pela desaceleração económica.

Segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, os preços da habitação nova contraíram em maio 0,1 por cento, face ao mesmo mês do ano anterior. Trata-se da primeira queda homóloga, desde Novembro de 2015, neste índice, que agrega o preço médio em 70 cidades da China.

A crise no imobiliário tem fortes implicações para a classe média e para a economia do país. Face a um mercado de capitais exíguo, o sector imobiliário concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas – cerca de 70 por cento, segundo diferentes estimativas.

O sector foi um dos mais importantes motores de crescimento da economia chinesa nas últimas décadas.
No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um tecto de 70 por cento na relação entre passivo e activos e um limite de 100 por cento da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no sector.

Este mês, a Sunac tornou-se a mais recente construtora chinesa a entrar em incumprimento. O caso mais emblemático envolve a Evergrande Group, cuja dívida, que supera o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal, vai ser reestruturada.

As dificuldades foram agravadas pela política de ‘zero casos’ de covid-19, que obriga ao bloqueio de cidades inteiras, pesando fortemente na actividade da segunda maior economia do mundo.

Riscos e ficções

Em entrevista à agência Lusa, Michael Pettis, professor de teoria financeira na Faculdade de Gestão Guanghua, da Universidade de Pequim, vê na contração do sector imobiliário um sinal de que a China se está a afastar do modelo de crescimento assente no investimento em activos não produtivos.

“Há muito crescimento fictício na China”, notou Pettis. “O excesso de investimento em todo o tipo de projectos de construção inflaciona o crescimento da economia chinesa há vários anos”, descreveu.

No mês passado, a agência de notação financeira S&P baixou também a classificação da dívida do grupo Greenland, que tem o município de Xangai como accionista, devido aos crescentes “riscos” de incumprimento.

A Greenland é um dos maiores grupos imobiliários da China, com forte presença internacional, particularmente nos Estados Unidos.

De acordo com a agência de notícias Bloomberg, o grupo solicitou recentemente o adiamento por um ano do pagamento de 488 milhões de dólares em juros de títulos de dívida.

17 Jun 2022

Imobiliário | Jiayuan Group com dois pedidos de insolvência em Hong Kong

Em 2017, a companhia do Interior deu 3,51 mil milhões de dólares de Hong Kong por dois terrenos na Taipa, naquele que foi o valor mais alto alguma vez pago. A vendedora foi uma empresa de William Kuan

 

A Jiayuan International Group, empresa que comprou o terreno mais caro de sempre no território, está a enfrentar dois pedidos de insolvência nos tribunais de Hong Kong. A revelação foi feita pela companhia através de um comunicado à Bolsa de Hong Kong, após a venda das acções ter estado suspensa nos últimos dias.

A informação sobre os pedidos é escassa, mas em causa estão dívidas de 15 milhões de dólares de Hong Kong relacionadas com juros de um empréstimo. No entanto, a empresa afirmou que “segundo a informação disponível” os pedidos de insolvência “não vão ter um impacto material ou significante nas operações ou na situação financeira”.

Apesar disso, a Jiayuan International Group destacou que tem “a intenção de se defender vigorosamente” contra os pedidos.

Também na sexta-feira, foi revelado que uma subsidiária do grupo chegou a acordo para vender um projecto de imobiliário identificado como Chengnan Real Estate, em Yancheng City, na província de Jiangsu. A venda foi feita à empresa Jiaxing Yuetai, a troco de 879 milhões de yuan. Sobre a transacção, a Jiayuan International Group justificou que “é uma boa oportunidade para o Grupo transformar em dinheiro o investimento inicial, e num ciclo muito mais curto do que o esperado”, caso fosse cumprido o processo de construção e vendas das habitações e lojas.

Vida negra

Os problemas da Jiayuan International Group estão ligados à crise do imobiliário que se vive no Interior. A situação ganhou maior visibilidade com o caso da gigante Evergrande, mas têm sido várias as empresas de construção em dificuldades e a falhar o pagamento de empréstimos, como a Fantasia, China Properties Group ou a Modern Land.

Os problemas da Jiayuan tinham sido antevistos pela Fitch Ratings, que no mês passado baixou o rating da empresa para “C”, um nível para empresas “em incumprimento ou “em vias de incumprimento”, e que fica abaixo do nível visto como “lixo”.

A descida do rating pela Fitch foi justificada com o facto de a empresa ter falhado o pagamento dos juros de um empréstimo de 200 milhões de dólares americanos, a 30 de Abril. Porém, para a empresa de notação financeira, o principal problema é que este empréstimo tem de ser devolvido na totalidade em Outubro de 2022. Além disso, na primeira metade do próximo ano a Jiayuan volta a ter de devolver dois empréstimos, no valor de 176 milhões de dólares americanos e 295 milhões dólares americanos. Sem acesso aos mercados financeiros, a Fitch antevê dificuldades para a Jiayuan fazer frente aos empréstimos.

Negócio recorde

Foi em 2017 que a Jiayuan International Group adquiriu pelo preço recorde de 3,51 mil milhões de dólares de Hong Kong dois terrenos na Taipa, na Avenida Dr. Sun Yat-Sen. A compra foi feita à Companhia de Fomento Predial San Kin Tai, na altura detida a 40 por cento por William Kuan, empresário que está detido e a ser investigado por crimes de corrupção.

Os dois terrenos têm actualmente em construção o projecto Ocean Hill, composto por habitações e lojas. No total, implicam uma área de 5.597 metros quadrados, o que significa que o negócio foi feito com o pagamento de 627,1 mil dólares de Hong Kong por metro quadrado.

8 Jun 2022

Imobiliário | Sector apresentou 430 pedidos de apoio

Desde o início da pandemia, em 2020, e o final de Abril de 2022, o sector imobiliário de Macau submeteu, no total, 430 candidaturas aos planos de apoio destinados às pequenas e médias empresas (PME) da Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT).

Respondendo a uma interpelação de Song Pek Kei, o presidente do Instituto de Habitação (IH), Kuoc Vai Han, revelou que o sector apresentou 290 candidaturas ao Plano de Apoio a Pequenas e Médias Empresa e 140 candidaturas ao Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários para as PME.

Do grupo de 290 candidaturas ao primeiro plano, 229 foram aprovadas, envolvendo uma verba de cerca de 20 milhões de patacas. Já das 140 candidaturas afectas ao segundo plano, 138 foram aprovadas, envolvendo 137 milhões de patacas para montantes dos créditos bancários bonificados e cerca de 8,47 milhões de patacas de montante concedido para a bonificação de juros.

Segundo o IH, os apoios têm contribuído para “a redução dos custos de financiamento do sector, bem como para dar continuidade ao sector de mediação imobiliária”.

Kuoc Vai Han revelou ainda que o Governo não planeia rever a “Lei da Actividade de Mediação Imobiliária” actualmente em vigor, dado que o actual diploma tem alcançado um “efeito positivo na regulação do exercício da actividade do sector”.

31 Mai 2022

Angela Leong quer desfazer-se de seis fracções no Lake View Mansion

A deputada Angela Leong, que é também directora executiva da SJM, tenciona vender com alguma celeridade e abaixo do preço de mercado, seis fracções que detém no Bloco 3 do Edifício Lake View Mansion, localizado na Avenida da Praia Grande, junto ao lago Nam Van. Segundo a página de Youtube “ChuChu Channel”, fonte próxima do sector imobiliário terá confirmado a informação e que o valor pedido pela deputada “está bem abaixo do preço de mercado”.

Em causa, estão seis fracções com quatro quartos e uma dimensão entre os 1.769 e os 2.957 pés que estão à venda por valores entre as 8 milhões e as 18 milhões de patacas, ou seja, a cinco mil patacas por pé quadrado. Isto, quando, de acordo com actual preço de mercado, outras fracções do mesmo edifício estão a ser vendidas por um preço médio situado entre as 6.500 e 7.000 patacas por pé quadrado.

Além disso, a mesma fonte revelou que, ao contrário do que é habitual, as fracções foram postas à venda em praticamente todas as agências imobiliárias de Macau como a Centaline Property Agency, Ricacorp Properties e Midland Holdings.

Sinais de alerta

À luz de declarações de alguns intervenientes directos, a crise imobiliária poderá estar também relacionada com a pressão sentida pela banca. Recorde-se que, segundo o jornal Ou Mun, a Associação Industrial e Comercial de Macau apontou que os bancos estão a aumentar a pressão para que empresas que recorreram ao crédito paguem as respectivas dívidas.

Uma outra associação comercial que preferiu não ser identificada apontou que várias entidades bancárias, ao reavaliarem o risco dos devedores dos sectores do jogo e imobiliário, exigiram o pagamento antecipado dos empréstimos, estão a contribuir “indirectamente” para “acelerar o encerramento” das empresas.

Por seu turno, recentemente o presidente da Associação dos Empresários do Sector Imobiliário de Macau, Ung Choi Kun lamentou que o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, tenha refutado o lançamento de medidas de apoio destinadas ao sector e exemplificou que na zona do NAPE encerraram mais de 80 espaços comerciais nos últimos tempos. Além disso, devido ao ambiente desfavorável e o reduzido número de transacções, Ung Choi Kun apontou que o negócio está “difícil” e teme pelo sustento das agências imobiliárias.

27 Abr 2022

Residentes queixam-se de falta de apoio com problemas em Hengqin

Dois residentes locais, de apelido Hong e Lam, criticaram as autoridades locais por não conseguirem coordenar com Hengqin a resolução dos problemas dos residentes no outro lado da fronteira. Em causa, está uma disputa sobre o trabalho de remodelação de um imóvel.

Segundo as declarações prestadas ao Jornal Ou Mun, as vítimas encomendaram a uma empresa que fizesse obras de remodelação num imóvel. No entanto, depois de acabados os trabalhos, consideraram que o resultado final não correspondia ao apresentado no projecto.

Além da má qualidade dos materiais utilizados, os residentes queixaram-se de que metade dos móveis colocados no imóvel têm um tamanho muito inferior ao espaço ocupado e que a empresa até destruiu parte do tecto, para instalar a iluminação.

Após detectada a situação indesejada, os residentes apresentaram queixa contra a empresa que os ignorou. Contudo, ficaram a saber que apesar de a empresa estar presente na bolsa, não tinha sido esta a realizar os trabalhos em causa. Ao invés, estes tinham sido adjudicados a uma outra empresa.

Sem soluções no Interior, os residentes recorreram ao Conselho de Consumidores de Macau. Segundo Hong e Lam, as entidades locais também se mostraram incapazes de fazer alguma coisa, que não fosse reencaminhar a queixa para o Conselho de Consumidores de Zhuhai.

Cada um por si

Por sua vez, em Zhuhai, as autoridades de defesa dos consumidores informaram os residentes que não podiam fazer nada. As autoridades informaram ainda que o problema só pode ser resolvido com recurso aos tribunais.

Contudo, o recurso à Justiça também não está a ser eficaz. Segundo o relato dos residentes, a empresa tem feito tudo para não ser notificada, uma situação que se arrasta há mais de um mês. Por este motivo, os residentes não conseguem fazer valer os seus interesses.

Igualmente desanimador é o facto de o advogado contratado ter explicado aos residentes que mesmo que ganhem a acção o montante máximo de compensação é de 30 mil renminbis. Segundo o relato feito ao Jornal Ou Mun, este montante está longe de cobrir as despesas necessária para fazer face aos danos.

17 Fev 2022

Evergrande suspende negócio de acções. Empresa enfrenta ordem de demolição de 39 edifícios

As acções do Grupo Evergrande foram suspensas de negociação na bolsa, anunciou ontem o promotor imobiliário. A Evergrande não deu qualquer razão para a suspensão, mas esta surgiu depois dos meios de comunicação chineses terem avançado de que a empresa foi intimada pelas autoridades da província de Hainão a demolir 39 edifícios em 10 dias, porque as licenças de construção haviam sido obtidas ilegalmente.

A ordem diz respeito ao enorme projecto Ocean Flower, que é um empreendimento ao estilo de resorts construído em ilhas ao largo da costa de Hainão. Os edifícios cobrem 435.000 metros quadrados, acrescentam os relatórios, citando um aviso oficial à filial da Evergrande em Hainão.

Os reguladores da cidade de Danzhou disseram em Novembro que iriam bloquear o plano da Evergrande para pagar dívidas a empreiteiros e outros credores, dando-lhes propriedades.

A Evergrande está a lutar para pagar mais de $300 biliões em dívidas, incluindo quase $20 biliões de obrigações do mercado internacional que foram consideradas como estando em incumprimento cruzado por empresas de rating no mês passado, depois de ter falhado os pagamentos.

O promotor imobiliário falhou o pagamento de 255 milhões de dólares devidos na passada terça-feira, embora ambos tenham um período de carência de 30 dias. Em comum com uma sucessão de incidências de pagamentos falhados no último trimestre de 2021, a empresa não fez qualquer comentário.

A empresa criou um comité de gestão de risco com muitos membros de empresas estatais, e disse que se comprometeria activamente com os seus credores. Na sexta-feira, a Evergrande telefonou para os planos de reembolso dos investidores nos seus produtos de gestão de património, dizendo que cada investidor poderia esperar receber 8.000 yuan por mês como pagamento principal durante três meses.

4 Jan 2022

Hengqin | Residentes queixam-se de atrasos na entrega de casas

Um grupo de residentes de Macau e do Interior da China receia ter sido alvo de burla devido ao atraso na entrega das chaves de casas que compraram no “Centro de Fortuna Haoyi”, perto de Hengqin. Cerca de uma dezena de pessoas protestou nos escritórios dos promotores na sexta-feira

 

Na última sexta-feira, um grupo de residentes de Macau e do Interior da China protestou nos escritórios dos promotores imobiliários do empreendimento “Centro de Fortuna Haoyi”, alegando que ainda não receberam as casas nas quais investiram a partir de 2018.

Segundo o jornal Exmoo News, os alegados lesados levaram cartazes e t-shirts com frases como “promotor de empreendimentos sem escrúpulos” e “imóveis sem data de entrega”.

Os compradores alegam que lhes fora prometida a entrega das chaves na última sexta-feira, mas tal não aconteceu. Inicialmente, fora-lhe garantido que as casas seriam entregues no final de 2020, prazo que viria a ser adiado para 30 de Junho de 2021. No entanto, essa data também não foi cumprida. Os alegados lesados dizem que deixaram de ter um prazo concreto para aceder às fracções

Desaparecidos em combate

Os manifestantes afirmam que os promotores imobiliários do empreendimento, bem como os agentes de Macau que serviram de intermediários nas vendas, estão em parte incerta e incontactáveis. Além disso, não foram emitidos quaisquer documentos comprovativos da compra dos imóveis.

Uma proprietária, de apelido Ho, adquiriu um imóvel pelo valor de dois milhões de renminbis através de um agente imobiliário de Macau. Ho diz que ainda está a pagar o empréstimo contraído ao banco.

O “Centro de Fortuna Haoyi” situa-se perto do posto fronteiriço de Hengqin, tem uma área de 238 mil pés quadrados e, além de fracções residenciais, inclui ainda um centro comercial e escritórios.

4 Jan 2022

Finanças | Inaugurada central de depósito de valores mobiliários

Macau inaugurou ontem uma central de depósito de valores mobiliários, com o objectivo de desenvolver o mercado de obrigações e de consolidar a plataforma de serviços financeiros entre a China e os países lusófonos.

Presente na cerimónia, organizada pela Autoridade Monetária de Macau e pela China Central Depository & Clearing Co, o secretário para a Economia e Finanças no território afirmou que esta entrada em funcionamento “permite consolidar as bases para o desenvolvimento do mercado de obrigações de Macau e da plataforma de prestação de serviços financeiros entre a China e os países de língua portuguesa”.

Lei Wai Nong frisou ainda que o território vai conseguir responder “às necessidades manifestadas pelos emitentes do Interior da China e os investidores internacionais, no que respeita aos investimentos e financiamentos”.
A meta, observou, é a “diversificação adequada da economia de Macau”, num território com uma economia que depende praticamente em exclusivo do jogo em casino.

Por sua vez, o presidente e CEO do Banco Nacional Ultramarino (BNU), Carlos Cid Alvares, afirmou que com a chegada da central de depósito de valores mobiliários o objectivo do banco passa por “encontrar empresas que queiram emitir obrigações em Macau”. Carlos Cid Alvares sublinhou também a “ambição de ligar este mercado aos Países de Língua Portuguesa”.

16 Dez 2021

Acções da Evergrande caem para mínimos desde 2010

As acções da construtora chinesa Evergrande caíram hoje para mínimos desde 2010, na bolsa de Hong Kong, após o anúncio do grupo de que poderá não conseguir pagar as dívidas. Pouco depois das 11:00, os títulos da Evergrande caíram 10,2%, com uma perda acumulada de 85,7% este ano.

O gigante imobiliário chinês, com uma dívida de 310 mil milhões de dólares, avisou na sexta-feira que pode vir a não conseguir “cumprir as suas obrigações financeiras”.

De imediato, os reguladores chineses garantiram que os mercados financeiros chineses podem ser protegidos de um grande impacto.

Os economistas consideram baixa a probabilidade de uma crise nos mercados internacionais, mas bancos e obrigacionistas podem sofrer perdas pesadas, uma vez que os dirigentes de Pequim querem evitar o resgate da construtora.

Em comunicado divulgado na sexta-feira na bolsa de Hong Kong, a Evergrande informou que, depois de analisar as suas finanças com consultores externos, “não há garantias de que o grupo tenha fundos suficientes para continuar a cumprir as suas obrigações financeiras”.

Pouco tempo depois, os reguladores procuraram acalmar os investidores, assegurando que o sistema financeiro chinês é forte e que as taxas de incumprimento são baixas.

Acrescentaram que muitos promotores imobiliários são financeiramente saudáveis e que Pequim vai continuar a deixar funcionar os mercados de crédito.

“O risco de contágio dos eventos de risco do grupo no funcionamento estável do mercado de capitais é controlável”, asseverou a comissão reguladora do mercado de capitais chinesa, no seu portal na internet. O banco central e o banco regulador fizeram declarações semelhantes.

Os dirigentes de Pequim aumentaram no último ano as restrições aos níveis de endividamento dos promotores imobiliários, procurando controlar a crescente dívida empresarial, vista como uma ameaça para a estabilidade económica.

O Partido Comunista tem feito da redução dos riscos financeiros uma prioridade desde 2018. Em 2014, as autoridades autorizaram o primeiro incumprimento obrigacionista desde a revolução de 1949.

As autoridades chinesas têm permitido incumprimentos de forma gradual, na esperança de forçar credores e investidores a serem mais disciplinados.

Não obstante, o endividamento total de empresas, governo e famílias aumentou de cerca de 270% do Produto Interno Bruto de 2018 para cerca de 300% no ano passado, valores pouco vistos em economias de países com rendimentos médios.

A Evergrande, o maior devedor da indústria da construção, tem uma dívida de dois biliões de yuans, na maioria devido a bancos domésticos e investidores em obrigações. Também deve 19 mil milhões de dólares a obrigacionistas estrangeiros.

A companhia tem vendido ativos para pagar dívidas e anunciou planos para dar a alguns obrigacionistas apartamentos em projetos que está a construir.

O presidente da Evergrande, Xu Jiayin, foi chamado na sexta-feira para uma reunião com dirigentes da sua província, Guangdong, informou o governo, em comunicado. Na nota, adiantava-se que uma equipa governamental iria ser enviada para a sede da Evergrande para ajudar a gerir o risco.

Os problemas da Evergrande desencadearam alertas para a possibilidade de uma crise financeira no imobiliário – um setor que propulsionou o crescimento económico explosivo da China entre 1998 e 2008 — poder conduzir a problemas para os bancos e a um colapso súbito e politicamente perigoso do crescimento económico.

O comunicado da Evergrande adianta que a empresa enfrenta solicitações para honrar um pagamento de 260 milhões de dólares. Se não for capaz de cumprir, previu, então outros credores podem vir a exigir o reembolso antecipado.

6 Dez 2021

Imobiliário | Kaisa Group, da China, alerta para possibilidade de incumprimento no pagamento de dívida

Uma construtora imobiliária chinesa alertou hoje para a possibilidade de não conseguir pagar um título de 400 milhões de dólares, que vence na próxima semana, aumentando os receios num setor que atravessa uma grave crise de liquidez na China.

O Kaisa Group Holdings Ltd., que tem sede em Hong Kong, disse que tentou renegociar a dívida, que vence na próxima terça-feira, mas foram poucos os detentores de títulos que concordaram com os termos propostos pela empresa.

“Não existe garantia de que a empresa vai ser capaz de cumprir as obrigações de reembolso”, informou a Kaisa, num comunicado divulgado pela Bolsa de Valores de Hong Kong.

O grupo não informou se existe um período de carência, antes de entrar em incumprimento.

Alguns construtores chineses estão a tentar reduzir a sua dívida depois de os reguladores terem imposto limites na alavancagem no setor. Isto alimenta receios sobre possíveis incumprimentos e turbulência nos mercados financeiros.

Os investidores temem ainda que o grupo Evergrande, a construtora mais endividada do mundo falhe o pagamento das suas dívidas. Funcionários do banco popular da China (banco central) tentaram tranquilizar os investidores, ao afirmar que o sistema financeiro pode ser protegido dos problemas da Evergrande.

Economistas dizem que Pequim pode intervir para garantir que há liquidez suficiente nos mercados de empréstimos, mas que quer evitar enviar o sinal errado ao proteger a Evergrande e outras construtoras.

A Kaisa disse que vai analisar opções, incluindo a venda de ativos. A empresa afirma ter mais de 17.000 funcionários, 310 mil milhões de yuans em ativos e propriedades em mais de 50 cidades chinesas.

Em outubro, uma outra construtora, de média dimensão, a Fantasia Holdings Group, anunciou que não conseguiu cumprir o pagamento de 205,7 milhões de dólares aos detentores de títulos.

3 Dez 2021

Acções da construtora chinesa Evergrande afundam após voltarem a ser negociadas

As acções da construtora chinesa Evergrande tombaram hoje, com a retomada da negociação na Bolsa de Valores de Hong Kong, depois de a empresa ter revelado que o plano para vender a sua divisão de serviços imobiliários falhou.

As ações da Evergrande caíram até 13,6%, após o fim da suspensão de duas semanas, enquanto as ações da afiliada Evergrande Property Services, que também foram congeladas durante o mesmo período, caíram até 10,2%. As ações da Evergrande New Energy Vehicle, a subsidiária de veículos elétricos que negociou em Hong Kong sem interrupção nas últimas semanas, caíram até 14%.

A construtora de imobiliário mais endividada do mundo interrompeu a negociação das suas ações e da sua unidade de serviços imobiliários em 04 de outubro. A Evergrande Property Services informou na altura, que esperava uma “possível oferta” pelas suas acções.

Durante a suspensão, a Evergrande não comentou as perspectivas da transação, nem sobre cinco pagamentos de juros sob títulos de dívida emitidos em dólares, que falhou. No total, aquele valor ascende a 275 milhões de dólares.

A queda ocorre pouco depois de a empresa anunciar que não conseguiu vender 50,1% do capital de uma das suas subsidiárias a outra imobiliária chinesa, a Hopson. O negócio podia ter rendido 2,2 mil milhões de euros à Evergrande.

O preço das ações da Evergrande caiu mais de 80%, este ano, representando uma perda superior a 190 mil milhões dólares, em capitalização de mercado. A Evergrande disse que o negócio foi interrompido porque “tinha motivos para acreditar” que o comprador “não cumpriu o pré-requisito” para fazer a oferta.

A Hopson referiu em comunicado que estava “preparada para concluir a venda”, mas que não quis pagar diretamente pelas ações, até que as obrigações entre esta última e a Evergrande fossem liquidadas.

A construtora chinesa, que enfrenta passivos de quase 260 mil milhões de euros tem lutado para lidar com uma crise de liquidez que gerou preocupações sobre a saúde do setor imobiliário da China.

21 Out 2021

Evergrande | Banco Central diz que riscos são “administráveis”

O banco central da China considerou “administráveis” os riscos que a dívida da construtora Evergrande acarreta para o sistema financeiro chinês, numa altura em que o conglomerado ameaça entrar em incumprimento.

A maior imobiliária da China soma quase 260 mil milhões de euros em dívidas, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal.

A queda da construtora pode ter um efeito dominó no resto da economia: o imobiliário é o veículo de investimento favorito das famílias chinesas, pelo que uma crise sistémica no sector poderia ter fortes repercussões.

A Evergrande “tem sido muito mal administrada”, observou um alto quadro do Banco Popular da China, Zou Lan, citado pela imprensa local. O grupo luta há várias semanas para honrar o pagamento de juros e entregar apartamentos aos seus clientes. “No geral, o risco de contágio para o sistema financeiro é administrável”, disse Zou.

As autoridades “instaram a Evergrande a aumentar esforços para se desfazer de activos e acelerar a retomada das obras”, acrescentou.

Vários fornecedores subcontratados pela empresa reclamaram que não estão a ser pagos e alguns levaram os seus casos a tribunal.

Além do sector imobiliário, a empresa investiu nos sectores turismo, tecnologia digital, seguros, saúde e até veículos eléctricos. Fundada em 2019, a construtora automóvel Evergrande Auto tinha como ambição revolucionar o sector e competir com a norte-americana Tesla. Zou considerou agora que a empresa diversificou “às cegas”.

18 Out 2021

China | Evergrande vende parte da participação em banco comercial a grupo estatal

A construtora chinesa Evergrande anunciou hoje a venda de 19,93% das ações do banco comercial Shengjing Bank a um conglomerado estatal, por 9.993 milhões de yuans (1.322 milhões de euros), numa altura em que regista falta de liquidez.

Em comunicado, enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, a Evergrande indicou que, após a transação, a sua participação no Shengjing Bank caiu de 34,5% para 14,57%. A Evergrande vai transferir 1.753 milhões de ações um preço unitário de 5,7 yuans.

O dinheiro provavelmente não vai para a tesouraria da construtora, já que o Shengjing Bank exigiu que o lucro líquido que a Evergrande obtiver com a operação pague as dívidas que tem com o banco.

O conglomerado que adquiriu a participação é identificado no documento como Shenyang Shengjing Finance Investment Group, um grupo estatal, formado por diferentes instituições da cidade de Shenyang – onde o banco tem sede – e da província de Liaoning.

O motivo dado para a transação são os “problemas de liquidez” da Evergrande, que “afetaram material e adversamente o Shengjing Bank”.

Em maio, o portal de notícias económicas Caixin informou que os reguladores bancários chineses estavam a investigar mais de 100 mil milhões de yuans em transações entre a Evergrande e o Shengjing Bank, que detém “grande quantia” de títulos da, até agora, sua principal acionista.

Embora a Evergrande tenha assegurado que todas as operações com o Banco Shengjing cumpriram os regulamentos estabelecidos, o vice-presidente da câmara de Shenyang pediu às empresas públicas da região que aumentassem “gradualmente” a sua participação na entidade, para “acelerar a sua conversão para um bom banco”.

No comunicado emitido desta manhã, a Evergrande garantiu que a entrada do grupo estatal vai “ajudar a estabilizar as operações do banco” e “aumentar e manter o valor” da participação que a imobiliária manteve.

A notícia foi bem recebida pelos investidores na Bolsa de Valores de Hong Kong, com as ações da Evergrande a subir mais de 13,1%, na sessão da manhã.

A Evergrande, com um passivo total de cerca de 256.000 milhões de euros, tem de enfrentar hoje o pagamento de 47,5 milhões de dólares de juros sobre obrigações emitidas fora da China.

Na passada quinta-feira, terminou o prazo para o pagamento de 84 milhões de dólares de obrigações também emitidas no estrangeiro.

29 Set 2021

Um dos maiores accionistas da Evergrande anuncia que vai vender participação

A firma de investimento imobiliário Chinese Estates, a principal accionista do grupo Evergrande, anunciou hoje planos para alienar a sua participação na empresa, devido à sua débil situação financeira actual.

Em comunicado, enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, a Chinese Estates explicou que o Conselho de Administração está “preocupado” com os últimos dados fornecidos pela Evergrande sobre a sua liquidez e com as “possíveis consequências”, caso as medidas anunciadas para remediar a situação “não possam ser aplicadas de forma eficaz”.

A Chinese Estates é um dos principais investidores corporativos da Evergrande. Em final do mês passado, a sua participação era de 5,66%.

Desde então, vendeu quase 109 milhões de ações, representando cerca de 0,82% da participação na Evergrande, por um total de 246,5 milhões de dólares de Hong Kong.

Depois de consultar os accionistas, a empresa tem agora um máximo de 12 meses para se desfazer do restante da sua participação.

As acções da Evergrande desvalorizaram cerca de 80% desde o início do ano. Se conseguir vender toda a sua participação na Evergrande, a Chinese Estates estima um prejuízo de 9.486 milhões de dólares de Hong Kong no ano corrente.

Considerada a imobiliária mais endividada do mundo, a Evergrande tem graves problemas de liquidez e está em risco de entrar em incumprimento.

Hoje é um dia chave para o grupo, uma vez que expira o prazo para pagar cerca de 84 milhões de dólares correspondentes aos juros de algumas obrigações emitidas em dólares, aos quais se juntam, no próximo dia 29, outros 47,5 milhões de dólares.

Analistas afastam crise

Os analistas contactados pela Lusa descartam que se possa comparar o caso da chinesa Evergrande à queda do banco norte-americano Lehman Brothers, que marcou o início do último grande sismo financeiro, afastando uma crise mundial.

O analista do banco BIG João Lampreia disse que considerar esta situação “um momento Lehman Brothers não faz sentido”, ainda que a empresa Evergrande seja das maiores construtoras e imobiliárias da China.

A menção ao Lehman Brothers recorda a queda deste banco de investimento dos EUA em 2008, uma das instituições financeiras mais prestigiadas de Wall Street, que sucumbiu aos créditos imobiliários sem qualidade ou de qualidade fraca, os designados ‘subprime’. A sua falência precipitou a economia internacional em 2008 na pior crise financeira desde 1929, seguida de uma crise económica.

O analista estimou que haja perdas, sobretudo para accionistas e obrigacionistas da Evergrande, mas que tal já não é novidade para os mercados, que já o antecipavam. Além disso, o mercado imobiliário e o mercado financeiro tinham um nível de entrecruzamento nos Estados Unidos que não se compara com o que se passa na China, pelo que o impacto desta empresa não será o mesmo.

Contudo, afirmou, este caso demonstra como o abrandamento da economia chinesa representa um risco para o mundo, mas que também houve aqui um oportunismo dos mercados para corrigirem riscos excessivos.

Estimou ainda que, a médio e longo prazo, possa ter efeitos benéficos na economia, pois é provável que o Governo de Xi Jinping reverta a política de contração iniciada no início do ano e que para conter riscos mais graves dê como resposta uma política monetária mais favorável aos activos chineses.

Também o mercado imobiliário chinês, disse, não deverá rebentar, pois, apesar de relatos de cidades fantasma, nas grandes cidades há um grave problema de oferta para a elevada procura. Além disso, os 300 mil milhões de dólares de dívida da Evergrande representam só 2% do total do crédito imobiliário na China.

Segundo Eduardo Silva, analista da XTB, os mercados ficaram nervosos com a informação de que o Governo chinês não estaria disponível para resgatar a empresa e preocupados com o efeito sistémico deste conglomerado da segunda maior economia do mundo. Contudo, disse acreditar que haverá ajudas indiretas, que o executivo chinês irá arranjar maneira de intervir na sombra.

Ainda assim, afirmou, qualquer “tipo de solução arrasta problemas para alguém, que terão de assumir perdas”, mas afastou uma crise mundial decorrente da Evergrande.

Também Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades, considerou que a Evergrande “não é outro Lehman Brothers, nem nada que se pareça”, que a dívida emitida pela empresa é detida, sobretudo, por empresas chinesas e investidores chineses e que haverá medidas de menorização dos danos.

Sobre as consequências, considerou que no imediato o principal efeito poderá ser de alguma desaceleração da economia chinesa, poderá diminuir a confiança dos agentes económicos (por exemplo, reduzindo a compra de casas), mas que em poucos meses estarão ultrapassados os seus efeitos.

Depois do sobressalto nas bolsas de segunda-feira, esta quarta-feira já estiveram mais calmas, considerando mesmo Ricardo Evagelista que muita da ansiedade nos mercados se terá devido à expectativa face ao que a Reserva Federal dos EUA (Fed) iria anunciar.

Das casas ao futebol

Evergrande, o maior promotor imobiliário da China, assegura estar presente em mais de 280 cidades, empregar 200 mil pessoas e gerar indiretamente 3,8 milhões de empregos. A empresa cresceu graças ao fácil acesso a crédito na China e à especulação imobiliária.

Desde há uma dezena de anos que o grupo se diversificou e multiplicou as aquisições. Possui um clube de futebol, o Guangzhou FC (ex-Guangzhou Evergrande), que é treinado pelo italiano campeão do mundo Fabio Cannavaro.

Está também presente no florescente mercado do alimentar a água mineral, com a sua marca Evergrande Spring, e sonha abrir parques de diversão “ainda maiores” do que a Disney, bem como investir no turismo, internet e digital, seguros e saúde. Estas elevadas despesas foram financiadas por créditos negociados por Xu Jiayinn, o fundador da Evergrande que se tornou a quinta maior fortuna da China.

Em 2020, o Governo chinês tomou medidas severas dirigidas aos promotores imobiliários, para os obrigar a reduzir o endividamento. Agora, é-lhes interdito pré-vender bens imobiliários antes que a construção esteja terminada, um sistema que representava uma parte importante do modelo económico da Evergrande.

O grupo perdeu a capacidade de reembolsar os empréstimos contraídos, pondo em causa o reembolso de dois empréstimos. Perante os receios, muitos clientes pequenos que detêm dívida da Evergrande foram, nos últimos dias, a escritórios da empresa pedir para ser devolvido o seu dinheiro. A situação do grupo pôs as atenções na intervenção do Governo chinês.

23 Set 2021

Evergrande | Potencial falência pode levar a uma nova crise sistémica

O gigante chinês do sector imobiliário Evergrande Real Estate Group acumulou um passivo preocupante, com uma dívida cinco vezes superior à do banco de investimento Lehman Brothers em 2008, quando caiu. Economistas alertam para os muitos tentáculos do grupo empresarial na economia chinesa e para o potencial impacto a nível mundial e local

 

Há 13 anos os mercados financeiros entravam em pânico com a crise do subprime nos EUA. A queda do banco Lehman Brothers acabaria por rebentar numa enorme crise económica com repercussões mundiais, mas desta vez a bolha parece estar a rebentar deste lado do mundo.

Nos últimos tempos multiplicam-se as notícias do passivo estrondoso, e do consequente perigo de falência, do gigante imobiliário chinês Evergrande, que tem uma dívida na ordem dos 300 mil milhões de dólares americanos, cujos juros vencem esta semana, valor cinco vezes maior do que o Lehman Brothers devia em 2008. Esse montante é ainda sete vezes superior ao que os casinos de Macau ganharam no seu melhor ano em termos de receitas, 2013.

Outro dos aspectos que tem vindo a lume são as dívidas a empreiteiros e fornecedores de um grupo que, nos últimos anos, se dedicou a outras áreas de actividade que não apenas o imobiliário, incluído produtos de investimento. E esse pode ter sido o seu principal erro.

Com sede em Shenzhen e listado na bolsa de valores de Hong Kong há mais de uma década, o grupo Evergrande depara-se hoje com um enorme problema por resolver que pode causar um impacto em cadeia na economia chinesa.

O portal chinês Caixin, na edição de segunda-feira, falava de uma crise parecida com a queda do Lehman Brothers e referiu que nos últimos dois meses centenas de pessoas têm reclamado o dinheiro a que têm direito no 43º andar do Zhuoyue Houai Center, em Shenzhen. Segundo o jornal The New York Times (NYT), as palavras de ordem são o espelho da revolta dos lesados. “Evergrande, devolvam o dinheiro que ganhei com sangue e suor!”, gritavam alguns dos presentes.

A 14 de Setembro, o NYT noticiou que o grupo imobiliário admitiu enfrentar uma “tremenda” pressão financeira, tendo já contratado especialistas para “explorar todas as soluções possíveis” para resolver o quebra-cabeças.

No domingo, o diário noticiou que têm sido discutidas soluções para que o grupo devolva dinheiro investido pelos seus próprios funcionários. Jin Cheng, de 28 anos, disse ao jornal que investiu 62 mil dólares na Evergrande Wealth, o ramo do grupo dedicado a produtos de investimento. “Não temos muito mais tempo”, apontou. O grupo está ainda a tentar desfazer-se de 1,6 milhões de casas que tem em seu nome.

O grupo emprega hoje 200 mil trabalhadores directos e dá também trabalho, de forma indirecta, a 3,5 milhões de pessoas.

Analistas ouvidos esta terça-feira pelo South China Morning Post garantem que o grupo pode começar a liquidar alguma da sua dívida a partir de hoje, apesar de ser “pouco provável” que isso aconteça. Matthew Chow e Christopher Yip, analistas da Standard and Poor’s Global Ratings, não acreditam na intervenção estatal. Pelo menos, para já. “Não esperamos acções governamentais para ajudar a Evergrande a não ser que haja risco sistémico de instabilidade. Um resgate por parte do Governo iria abalar a campanha de disciplina financeira no sector imobiliário.”

Um risco “sistémico”

Ao HM, o economista Albano Martins declarou que a crise não surgiu com a pandemia, mas é “sistémica”. O grupo “cresceu, entrou para outros mercados e o seu negócio não produziu liquidez suficiente para pagar as dívidas a tempo. Tem vindo a recorrer à emissão de dívida, que nem tão pouco é garantida.”

O seu “crescimento fortíssimo”, com aposta em várias áreas que nem sempre o grupo dominou, pode levar agora a uma crise “com um risco sistémico” na economia chinesa.

“A China cresceu muito desde 1989 e a explosão da economia fez-se muito à base do investimento em imobiliário. Esta foi uma das grandes empresas que contribui para a explosão do PIB. O regulador [Banco Central Chinês] sabe que se houver incumprimento, e se gerar pânico, espalha-se a todo o sistema chinês e também lá fora”, acrescentou o economista.

Apesar das comparações com a crise do subprime serem imediatas, a economia chinesa não tem o mesmo posicionamento que a economia norte-americana tinha em 2008. “A China vai ter de se habituar a viver à custa de uma economia que é de mercado”, comenta.

O economista António Félix Pontes, que exerceu funções de direcção e administração na Autoridade Monetária e Cambial de Macau, acredita que as autoridades chinesas não vão deixar que esta crise se transforme num caos financeiro e económico.

“‘A Evergrande’ é dos casos que podemos tipificar como ‘Too big too fail’, mas, neste momento, todas as hipóteses estão em aberto. A intervenção das autoridades de supervisão chinesas tarda, o que está a criar sentimentos de pânico entre os clientes, investidores e demais credores, situação que se deveria conter.”

Félix Pontes está, no entanto, “convencido” de que “ainda há tempo para reverter a situação com a reestruturação da dívida [do grupo], o que implicará a injecção de fundos colossais”. O grupo “terá, em contrapartida, de ceder terrenos, edifícios e outros activos relevantes”, aponta.

“Só assim se salvará [a empresa] do desastre financeiro para que está destinada. No entanto, desconfio que a bolha imobiliária na China não começa e acaba no grupo Evergrande. Só se fosse ingénuo”, revela ainda o economista.

HK e Macau, que impacto?

Albano Martins não sabe até que ponto o risco de falência do gigante imobiliário pode ter repercussões em Macau. Desconhece-se a penetração dos bancos locais nesta rede e não existe uma bolsa de valores como em Hong Kong.

No entanto, a situação “pode afectar os bancos que estejam em Macau”, já que, mesmo que não tomem os activos das empresas de outros sectores, podem emprestar dinheiro ou colocar as suas obrigações no mercado.

A queda do grupo, a concretizar-se, terá “efeitos nefastos nos mercados imobiliário e financeiro da China e de Hong Kong, e o fenómeno de contágio para outras economias, incluindo Macau, tem alto grau de ocorrer”, alerta António Félix Pontes.

A nível local “estamos a viver um período de grande instabilidade financeira com a elevada quebra na cotação das acções das operadoras de jogo, e agora com uma eventual crise imobiliário e financeira regional”, rematou.

Rose Lai, docente da Universidade de Macau e especialista na área do imobiliário, defende que o mercado “será ligeiramente afectado devido à venda das casas com grande desconto para que haja saída de dinheiro. Propriedades semelhantes poderão ser afectadas e, consequente, os preços podem baixar um pouco, mas provavelmente não muito”.

EUA prontos a reagir

Na segunda-feira as bolsas registaram com quebras significativas, mas questionada sobre estas inquietações, a porta-voz do presidente dos EUA, Joe Biden, Jen Psaki, relativizou: “Trata-se de uma empresa chinesa, cujas actividades estão sobretudo concentradas na China”. Mas acrescentou: “Dito isto, acompanhamos sempre os mercados mundiais, incluindo a avaliação de todos os riscos para a economia dos EUA e estamos prontos a reagir de maneira apropriada, se necessária”.

Para Karl Haeling, do LBBW, “o risco de contágio só existe se as autoridades chinesas deixarem a Evergrande cair totalmente na falência, mas isto não faz sentido para a China, dados os problemas internos e os cortes de emprego que isso ia causar”.

Além do receio de um efeito dominó, outros factores enervaram os investidores, num panorama de instabilidade, avançou Gregori Volokhine, da Meeschaert Financial Services.

“Não estou convencido de que a China, um país comunista, intervencionista, deixe cair a Evergrande. Para mim, os ventos contrários ao mercado vêm nitidamente de Washington”, contrapôs o analista, citando o impasse sobre a subida do limite da dívida pública dos EUA, “que se tornou uma questão política”.

Pagar obrigações

A Evergrande disse ontem ter chegado a acordo com os detentores de obrigações para evitar o incumprimento de uma das suas dívidas. Numa declaração à Bolsa de Shenzhen, o grupo afirmou que uma das suas filiais, Hengda Real Estate, tinha negociado um plano de pagamento de juros sobre uma obrigação com vencimento em 2025.

Segundo a Bloomberg, Evergrande reembolsa hoje 232 milhões de yuan da dívida devida sobre a obrigação de 5,8 por cento, que se destina ao mercado obrigacionista doméstico. Mas o gigante imobiliário baseado em Shenzhen está longe de estar fora de perigo, dado o montante total da sua dívida. Outros reembolsos são devidos hoje e o grupo ainda não disse como planeia cumpri-los.

23 Set 2021

Imobiliária chinesa Evergrande enfrenta protestos devido a risco de incumprimento

A imobiliária chinesa Evergrande alertou ontem que está sob “tremenda pressão”, por falta de liquidez, numa altura em que enfrenta protestos de clientes e investidores, prevendo-se uma reestruturação da dívida da empresa.

Em comunicado enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, o grupo divulgou que as suas vendas mensais caíram quase para metade, entre Junho e Agosto, fixando-se em 38,1 mil milhões de yuans.

A Evergrande, que no mês passado alertou sobre o risco de entrar em incumprimento, devido a uma crise de liquidez, culpou “reportagens negativas da imprensa” pela falta de confiança de potenciais compradores de imóveis da empresa. A imobiliária disse que contratou Houlihan Lokey e Admiralty Harbor Capital para avaliar a sua liquidez e “explorar todas as soluções viáveis”, visando aliviar a sua crescente crise de dívida.

A imobiliária chinesa Evergrande sofreu esta semana dois cortes na classificação da sua dívida, pelas agências Fitch e Moody’s, provocando receios de falência da empresa, cuja dívida ascende ao equivalente a quase 260 mil milhões de euros, montante superior ao PIB de Portugal.

A Moody’s cortou a avaliação da empresa e, um dia depois, a Fitch fez o mesmo, ao baixar o rating de CCC+ para CC. O nível de ‘rating’ CC envolve grande probabilidade de incumprimento.

O possível incumprimento da empresa pode acarretar um risco mais amplo para o sistema financeiro do país e para o mercado de dívida internacional. Os crescentes problemas de crédito do grupo coincidiram com uma campanha regulatória do Governo chinês contra grandes grupos privados, nos sectores da tecnologia ou do imobiliário.

Consumidores em fúria

Nos últimos dias, as redes sociais chinesas foram inundadas com reclamações de compradores, que temem que as suas propriedades não sejam concluídas, e de investidores, que compraram obrigação emitidas pelo grupo para financiar projectos imobiliários.

A imprensa estatal informou que centenas de pessoas protestaram na sede da Evergrande, em Shenzhen, e reuniram com executivos do grupo, no domingo, depois de a empresa ter suspendido o pagamento dos cupões das suas obrigações.

A polícia foi enviada para manter a ordem, enquanto as manifestações se prolongaram na segunda-feira, de acordo com vídeos que circularam ‘online’.

No comunicado enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, a Evergrande também revelou que duas das suas subsidiárias não conseguiram “cumprir as suas obrigações”, que ascendem a cerca de 934 milhões de yuans, em produtos de gestão de fortunas emitidos por terceiros.

O grupo está a tentar cortar custos e vender activos, incluindo participações num negócio de veículos eléctricos e num grupo de serviços imobiliários, ambos listados em Hong Kong, bem como uma propriedade emblemática na região semiautónoma. As acções da Evergrande listadas em Hong Kong caíram até 11 por cento, na terça-feira, elevando a sua queda este ano para 80 por cento.

15 Set 2021

Zhuhai | Ho Iat Seng participa em reunião sobre epidemia, Hengqin e sector imobiliário

O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, teve ontem uma reunião de trabalho com o secretário do Comité Municipal de Zhuhai do Partido Comunista Chinês, Guo Yonghang, com o secretário do Comité do Partido Comunista da cidade e presidente do Município de Zhuhai, Yao Yisheng, e respectiva delegação. As partes trocaram ideias sobre o aperfeiçoamento do mecanismo conjunto de prevenção e controlo estabelecido entre Zhuhai e Macau e aprofundaram o tema da promoção de Hengqin.

Ho Iat Seng fez uma retrospectiva sobre o processo de implementação do mecanismo conjunto de prevenção e controlo estabelecido entre Zhuhai e Macau e dos resultados alcançados até agora. E lembrou as palavras do presidente Xi Jinping que afirmou que o governo da RAEM, ao deparar-se com a pneumonia causada pelo covid 19, reagiu com rapidez, adoptando medidas eficazes e num curto espaço de tempo, que permitiram o controlo da epidemia.

O Chefe do Executivo agradeceu o apoio de Zhuhai ao funcionamento do referido mecanismo e frisou que as partes devem consolidá-lo e continuar a proceder aos trabalhos de prevenção e controlo da epidemia, bem como a garantir a troca de informações atempada e a abertura e transparência na divulgação de informações.

Ho referiu ainda que os dois territórios irão continuar, conjuntamente, a impulsionar os trabalhos relacionados com Hengqin e que, simultaneamente, o Governo planeia iniciar estudos sobre políticas para quadros qualificados, no sentido de responder às necessidades de desenvolvimento de três indústrias: saúde, financeira, e ciência e tecnologia, que estão a ser planeadas pelo Governo.

Na reunião, o Chefe do Executivo também não deixou de mencionar os direitos e interesses dos residentes de Macau na aquisição de imóveis situados no interior da China e a questão em torno dos anúncios publicitários para a sua venda. Nesse sentido, expressou os seus agradecimentos aZhuhai pela adopção de medidas para garantir os interesses dos residentes de Macau, que diminuem o risco que enfrentam na aquisição de imóveis.

As partes abordaram igualmente a viabilidade de cooperação entre os aeroportos dos dois territórios, e a actual situação da indústria aeronáutica do Delta do Rio das Pérolas.

Por seu lado, Guo Yonghang destacou a “grande utilidade” do processo de troca de informações sobre a epidemia e fez ainda votos para que, no futuro, as partes possam consolidar e aperfeiçoar o mecanismo de análise científica já existente.

Quanto à promoção de Hengqin, Guo Yonghang emitiu opiniões sobre a elaboração de um regime jurídico, o apoio à optimização do sistema de gestão industrial, a promoção do desenvolvimento da medicina tradicional chinesa e o apoio aos jovens no domínio da inovação e empreendedorismo.

29 Jan 2021