Comércio | Song Pek Kei quer mais apoios

A deputada Song Pek Kei apelou ontem ao Governo que promova o prolongamento do Grande Prémio do Consumo para apoiar o mercado local. A posição foi tomada numa intervenção antes da ordem do dia, no Plenário da Assembleia Legislativa.

Na intervenção, Song começou por traçar um cenário de dificuldades no comércio local: “Devido aos múltiplos impactos decorrentes da fuga de consumo, da economia de internet e da mudança do consumo, a economia comunitária de Macau já não é tão próspera como antes”, apontou. “O espaço de negócios das lojas físicas está cada vez mais estreito, a pressão sobre a exploração está a aumentar, as oportunidades para ganhar dinheiro são menores, as empresas que se conseguem aguentar estão numa situação muito difícil, e muitas empresas até optam por fechar os seus negócios por sofrerem prejuízos consideráveis, por isso, há muitas lojas desocupadas em Macau”, descreveu.

Neste ambiente difícil, Song pediu mais medidas de apoio ao consumo dos residentes para promover a economia interna de Macau. “O Governo da RAEM deve, se as condições financeiras permitirem, estudar o lançamento de novos planos de subvenção no consumo […] no sentido de aumentar os planos de subvenção e benefícios específicos para produtos electrónicos, electrodomésticos, refeições, etc., com o objectivo de continuar a estimular a economia comunitária, estabilizando a confiança no desenvolvimento social”, apelou.

Jogo | Pereira Coutinho pede maior aposta face a concorrência regional

Apesar dos esforços de diversificação económica, José Pereira Coutinho alertou as autoridades para o desenvolvimento do sector jogo, para que a indústria não seja ultrapassada pela concorrência regional. O aviso do deputado ligado à Associação de Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) foi deixado numa intervenção na Assembleia Legislativa.

“Devido à excessiva dependência de uma única indústria, o Governo de Macau tem continuado a trabalhar na diversificação económica com objectivo de criar e aumentar outras receitas de provenientes de distintas actividades económicas para cobrir o constante aumento anual da despesa pública. Mas este trabalho não tem sido fácil”, indicou Coutinho. “As receitas públicas da RAEM continuam a ser desproporcionalmente provenientes da indústria do jogo, representando cerca de 86,2 por cento do total arrecadado entre Janeiro e Julho de 2025”, apontou.

Por isso, o legislador alerta que não vai ser difícil encontrar fontes alternativas de receitas, pelo que é necessário não esquecer os cuidados a ter com a indústria do jogo. “O Governo de Macau deve esforçar-se na implementação de políticas que permitam aumentar a competitividade da indústria do jogo face à elevada concorrência proveniente das regiões adjacentes que funcionam em condições muito mais vantajosas quer no âmbito fiscal quer no pagamento das comissões”, vincou.

Violência doméstica | Mulheres querem mudanças na lei

Depois de na década passada ter contribuído para chumbar a criminalização da violência doméstica, Wong Kit Cheng veio ontem defender uma revisão da legislação em vigor. A deputada das Mulheres escusou-se a indicar que aspectos devem ser melhorados, mas delegou essa tarefa para “os serviços públicos”, a quem pediu que se conciliem com associações locais para detectarem os pontos que devem ser melhorados.

Sobre o fenómeno, Wong indicou que as ocorrências têm diminuído de forma consistente em Macau, mas alertou que há casos envergonhados, em que os membros do casal não fazem queixa devido à cultura tradicional de manter os problemas domésticos dentro de portas. Segundo a deputada, também há situações em que não é apresentada queixa, porque as vítimas têm receio de ficar sem a custódia dos filhos em caso de divórcio.

Publicidade e Saúde | | Votadas duas propostas de lei na generalidade

A agenda do debate de ontem no hemiciclo pautou-se também pela aprovação de duas propostas de lei na generalidade, nomeadamente a Lei da Publicidade e Lei da actividade das instituições privadas prestadoras de cuidados de saúde. No que diz respeito ao diploma sobre a publicidade, o secretário para a Economia e Finanças, Tai Kin Ip disse que a “indústria publicitária é uma componente importante das actividades comerciais e económicas modernas”, e que havia necessidade de reformar um diploma de 1989, estando, portanto, em vigor há mais de 35 anos.

“Com a mudança das actividades económicas em diversos sectores e a inovação no desenvolvimento nas tecnologias de informação, o modelo de negócio, as formas de divulgação e os tipos de meios de comunicação social, entre outros, utilizados actualmente na publicidade, sofreram alterações significativas”, lembrou o secretário.

Habitação | Pedida revisão da política de ‘cinco classes’

Leong Hong Sai defende a necessidade de rever a política de habitação, que considera que está a ser ultrapassada pela realidade. Numa intervenção antes da ordem do dia na Assembleia Legislativa, o deputado dos Moradores indicou que a diferença nos preços entre a habitação privada e a habitação económica é cada vez menor. À luz deste desenvolvimento, Leong indica que pode deixar de fazer sentido apostar na habitação intermédia, que supostamente iria apresentar preços intermédios entre as outras duas classes de habitação. “Face ao impacto do ambiente macroeconómico [no mercado de habitação], muitos residentes consideram ser oportuno proceder a ajustamentos à política actual das ‘cinco classes de habitação’” defendeu.

“Ao mesmo tempo, a diferença de preços entre a habitação económica e a habitação privada está a diminuir, o que torna o problema da ‘habitação para a classe intermédia’ cada vez mais evidente. Tendo em conta as mudanças socioeconómicas registadas no período pós-epidemia, a política das ‘cinco classes de habitação’ deve ser redefinida, de forma a acompanhar a evolução da sociedade”, acrescentou.

Orçamento 2026 | Secretário não se compromete com previsão do PIB

O deputado Lao Chi Ngai bem insistiu, mas o secretário Tai Kin Ip não quis avançar uma previsão do Produto Interno Bruto da região para o próximo ano. A proposta de lei do Orçamento para 2026 foi ontem aprovada na generalidade com pedidos de prudência e de aumentos para funcionários públicos

Os deputados da Assembleia Legislativa (AL) aprovaram ontem, na generalidade, a proposta de lei do Orçamento para o próximo ano que apresenta receitas brutas do jogo na ordem das 236 mil milhões de patacas, um aumento de 3,5 por cento face a este ano.

As palavras de ordem no debate foram de prudência face a um cenário económico ainda algo instável no que diz respeito ao consumo interno e à manutenção de negócios locais. Um dos pontos altos foi o pedido, algo insistente, de uma previsão do Produto Interno Bruto (PIB) para 2026 por parte do deputado Lao Chi Ngai.

“Vemos que temos, para 2026, um orçamento que é muito prudente em termos de previsões. O Governo prevê um crescimento estável e antecipa uma trajectória de crescimento no sector do turismo e indústria de lazer. Como é que o Governo chegou ao valor de 236 mil milhões [de receitas brutas do jogo]? Se dividirmos pelos 12 meses, são 19,6 mil milhões por mês, e, portanto, qual será o valor do PIB? Se fixarmos as receitas brutas do jogo em 236 mil milhões de patacas, isso traduz-se num crescimento negativo do nosso PIB e não corresponde a uma tendência de crescimento estável referida pelo Governo.”

O deputado disse ainda concordar com “a situação de incerteza”. “Quando vejo essa evolução estável, não é assim tão certa”, salientou.

Da parte do secretário para a Economia e Finanças, Tai Kin Ip, não houve um comprometimento com o valor. “No que diz respeito à estimativa para as receitas brutas feita no ano passado, vimos que nos primeiros cinco de dez meses não atingimos as nossas expectativas, e olhando para a incerteza inerente à economia, poderá haver impactos significativos. Honestamente, é difícil fazer uma previsão acertada e correcta [do PIB].”

O secretário explicou ainda que “no ano anterior também não fizemos uma previsão tão optimista, e no fim viemos a saber que [os números] eram melhores do que prevíamos”.

Na proposta de orçamento lê-se que “a indústria turística de Macau possa continuar a trajectória de crescimento, sustentada por diversos factores favoráveis”, esperando-se a subida de 3,5 por cento nas receitas dos casinos, muito inferior ao ritmo de crescimento (8 por cento) registado até agora este ano. O Governo justifica isso com um “princípio de gestão financeira prudente”.

Aumento “proporcional”

Ainda durante o debate, ficou a garantia de que o dinheiro retirado dos cheques pecuniários que deixaram de ser atribuídos a uma parcela de residentes anteriormente elegíveis irá para apoios sociais. “Aumentámos em 3,8 por cento as verbas para medidas destinadas ao bem-estar da população, e com alteração do programa de comparticipação pecuniária o montante será revertido para o bem-estar da população, sendo usado para diferentes prestações e assistência.”

Segundo a proposta, as medidas relacionadas com o bem-estar da população acarretam uma despesa de 26 mil milhões de patacas, o tal aumento de 3,8 por cento face a 2025 que é considerado pelo secretário “adequado e proporcional”.

Não faltaram pedidos para novos programas de incentivo ao consumo, nomeadamente da parte do deputado Chan Hao Weng. “O saldo orçamental terá resultados satisfatórios no próximo ano. O mercado de consumo é fraco e as pequenas e médias empresas, e a população, debatem-se com dificuldades. Será atribuído o cartão de consumo em épocas baixas?”, questionou.

Também a ausência de aumentos salariais na Função Pública foi questionada. “É lamentável que não tenham sido aumentados os salários dos funcionários públicos. Depois da transição, e olhando a taxa de inflação, os salários teriam de ser aumentados várias vezes.”

Já a deputada Song Pek Kei lembrou as “despesas enormes no próximo ano”, tendo em conta os 50 mil milhões destinados às despesas com 30 mil funcionários públicos, entre outros gastos. “Trata-se de um aumento significativo face ao período de retorno [da transição]. Temos de poupar dinheiro internamente, mas é com a melhoria da equipa dos funcionários públicos, a reforma administrativa? Temos de libertar mais recursos, investindo na sociedade e na sua revitalização”.

Porém, o secretário garantiu que, no essencial, a estrutura de gastos se mantém em 2026. “Temos 30 por cento das nossas despesas que se destinam ao pessoal, e essa verba mantém-se. Quanto a despesas correntes operacionais, são taxativas e têm de ser feitas. Não há uma alteração significativa da estrutura de despesas”, rematou.

25 de Novembro | Manuel Geraldes recorda “momento de traição”

Portugal assinalou ontem os 50 anos do 25 de Novembro de 1975 com uma parada militar e uma sessão solene na Assembleia da República, entre polémicas e leituras políticas da direita à esquerda. Manuel Geraldes, ex-militar radicado em Macau, recorda o momento em que esteve preso na RTP

Para Manuel Geraldes, se a felicidade tivesse uma data seria 25 de Abril de 1974, juntamento com o dia do nascimento da sua filha. Mas foi a propósito da passagem dos 50 anos do 25 de Novembro de 1975, tentativa de golpe de Estado e uma das etapas do processo revolucionário iniciado com o derrube da ditadura em Portugal a 25 de Abril de 1974, que conversámos com o ex-militar.

Radicado em Macau desde os anos 80, Manuel Geraldes esteve preso na RTP no dia 25 de Novembro de 1975, mas, na qualidade de um dos mais jovens capitães de Abril, esteve envolvido na revolução desde o seu início, iniciado com o chamado movimento dos capitães, em 1973.

Ao HM, recorda o dia 25 de Novembro como “um momento tristíssimo, de traição dos camaradas, revolta, um momento horrível, sobretudo comparando com um dos dias mais alegres da minha vida, juntamente com o nascimento da minha filha, que foi o 25 de Abril”, tendo em conta os planos militares planeados para esse dia, que tomaram outro rumo. Manuel Geraldes trabalhava na RTP quando a estação foi controlada por uma das facções militares que fizeram o 25 de Novembro. O controlo da RTP, nos estúdios do Lumiar em Lisboa, contou com intervenção de figuras como Manuel Duran Clemente, então ligado à extrema-esquerda militar da 5ª Divisão.

“Quando falamos do dia 25 de Novembro temos de falar de um dia de traição. Quem foram traídos foram os militares que se mantiveram fiéis ao seu ideário do 25 de Abril e que juraram cumprir por ele, e que estávamos a cumprir. Houve um grupo de militares que, esquecendo a sua condição, e falo mais de oficiais do quadro permanente, tornaram esse dia de vergonha para qualquer oficial que se preze.”

Manuel Geraldes estava há cerca de um ano na RTP e foi “apanhado naquela armadilha”. Fui ter com os meus camaradas ao gabinete da direcção do telejornal e foi aí que fomos apanhados pelo capitão Duran Clemente”, conta ao HM.

“Posso falar daqueles que estiveram mais próximos de mim, e que estiveram na RTP nesse dia”, começou por dizer. “Os que estiveram no 25 de Abril e me prenderam, como prenderam mais seis oficiais, todos eles ‘perigosos fascistas, reaccionários’. Esteve preso nesse dia também um homem que foi um grande revolucionário, e que ainda como aluno da academia militar, a estudar no Técnico, cometeu o gesto nobre de deixar as forças armadas do regime fascista para emigrar para o norte da Europa. O ‘poderoso’ Marques, que tinha estado no golpe de Beja, e que esteve preso, e conseguiu exilar-se no Brasil. O capitão Canavilhas, um ‘perigoso’ que tinha estado no 25 de Abril e que estava ali a prestar um serviço à República na RTP como engenheiro electrotécnico.”

Duran Clemente apareceu nas instalações da RTP para controlar as emissões, proibir a divulgação de informação da Presidência da República, sendo que, à época, era Costa Gomes Presidente, e deixar passar as mensagens dos revoltosos ligados a uma facção do movimento. O conselho de administração da estação esteve retido durante várias horas. São conhecidas as suas imagens em directo na RTP, a ler um comunicado, quando foi subitamente interrompido e substituído na emissão pelo filme “O Homem do Diner’s Club”. Isto porque a facção vencedora do movimento do 25 de Novembro tinha assumido o controlo dos acontecimentos a partir dos estúdios da RTP do Porto.

Em declarações ao jornal Público, Duran Clemente também fala do dia 25 de Novembro como “uma traição do 25 de Abril, na maneira como ele tem sido interpretado e foi interpretado, na medida em que interrompeu o percurso natural de uma revolução que nunca é um percurso natural”.

Duran Clemente fala ainda, na mesma entrevista, da “história da fantasia de uma guerra civil” que muitos acreditam que esteve prestes a acontecer em Portugal nessa data. Diz ainda “não ter cometido crime nenhum”.

Para Manuel Geraldes, esses momentos de detenção “foram indescritíveis, inacreditáveis, para esquecer”. Quando saiu dos estúdios da RTP, Manuel Geraldes foi para casa ter com a esposa, “tentar descansar e tentar esquecer aquela tristeza enorme que foi aquela cena”, com “os soldados que tinha comandado no 25 de Abril de 1974 a observarem aquela prisão absurda que o Duran Clemente fez de nós”.

O culminar de tensões

O 25 de Novembro foi uma tentativa de golpe de Estado em que militares ligados à extrema esquerda tomaram vários pontos estratégicos, sobretudo em Lisboa, que levou o país a entrar em estado de sítio. Mas os moderados venceram e o país entrou numa fase mais tranquila, sobretudo a partir da nova Constituição de 1976. Tratou-se de um culminar do chamado “Verão quente”, ou os meses do PREC – Período Revolucionário em Curso, marcado por nacionalizações de bancos e empresas, o processo de Reforma Agrária, organização de comissões de trabalhadores, ataques a sedes do Partido Comunista Português e diversas acções conotadas tanto com a extrema-esquerda como com a extrema-direita.

Manuel Geraldes recorda que “a situação era complexa e não era propriamente o que tínhamos imaginado” com o 25 de Abril. “Tínhamos desenhado outros cenários que não aquele, mas sim de uma grande camaradagem.” Ainda assim, o antigo militar realça a “estabilidade e credibilidade” que Portugal ganhou após o 25 de Novembro de 1975. Contudo, não concorda com o facto de as autoridades portuguesas estarem, actualmente, a celebrar esta data.

“Há com certeza uma componente política e, para mim, não tem absolutamente nenhum sentido. Não devemos esquecer o passado para corrigir qualquer erro que tenha sido cometido, mas celebrar um dia triste não faz sentido nenhum. Devemos lembrar.”

Sobre as figuras importantes e decisivas para resolver o 25 de Novembro, Manuel Geraldes destaca “o general Costa Gomes, que viveu tão vasta violência, Sousa e Castro e outros que tiveram consenso e conseguiram trazer para a razão a grande maioria das forças armadas”. Mário Soares, como líder do Partido Socialista, “também teve [importância]” para estancar o movimento, sobretudo porque “tinha posições próximas do chamado ‘Grupo dos Nove’, os membros moderados da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas”.

Manuel Geraldes recorda ainda um dia em que as facções eram pautadas por “militares contra militares”, e quando se pôs “em risco a pátria”, num cenário “muito, muito perto da guerra civil”. Ontem decorreu, de manhã, uma cerimónia militar promovida pelas Forças Armadas, na Praça do Comércio, em Lisboa, presidida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Houve ainda uma sessão solene na Assembleia da República.

Vasco Lourenço: “Não estava em terreno um golpe de Estado”

Além das cerimónias oficiais do 25 de Novembro de 1975, têm decorrido diversas exposições, palestras e conferências que celebram todas as etapas da revolução do 25 de Abril de 1974. Uma delas decorreu na terça-feira, o seminário “25 de Novembro – 50 anos depois”, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde uma das figuras centrais do 25 de Novembro e toda a revolução de Abril, Vasco Lourenço, recordou o dia.

“É evidente que, passado todo este tempo, não podemos dizer que estava no terreno um golpe de Estado. Mas desafio alguém que seja capaz de dizer que, naquela altura, face ao que estava a acontecer, que não olhássemos para aquilo como se estivesse, efectivamente, a acontecer um golpe de Estado.”

Depois de várias movimentações militares, em que se dá um recuo das forças paraquedistas, os episódios do 25 de Novembro geraram três mortos, todos militares, “no início do dia 27 de Novembro”, lembrou Vasco Lourenço.

O papel das mulheres

Outra figura que participou no debate foi a médica Isabel do Carmo, que na altura do 25 de Novembro estava ligada ao grupo do COPCON – Comando Operacional do Continente, liderado pelo já falecido Otelo Saraiva de Carvalho.

Isabel do Carmo defendeu que “o que se passou depois do 25 de Abril foi a existência de um espaço das pessoas, organizações e protagonistas políticos, em que havia claramente duas tendências”, marcadas por “aqueles que queriam levar um movimento revolucionário ao socialismo de facto, e aqueles que queriam uma democracia liberal com uma economia regulada por um mercado”.

“O 25 de Abril foi, e para muitas pessoas da minha geração, os melhores tempos da minha vida. Oiço muitas pessoas dizerem isto, particularmente as mulheres, que até aí eram discretas. O que se passou a seguir [ao 25 de Abril] foram as sessões públicas, a liberdade de imprensa, a modificação total do ambiente nas escolas, houve uma grande transformação no país”, rematou Isabel do Carmo.

IPIM | Moçambique vai receber encontro sino-lusófono em 2026

O Governo de Macau disse ontem que a edição de 2026 do Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa vai decorrer em Moçambique. “O encontro será realizado em Moçambique no próximo ano”, disse o presidente do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), Che Weng Keong.

Este ano, o encontro empresarial da China e dos países de língua portuguesa decorreu pela primeira vez em Malabo, capital da Guiné Equatorial, durante três dias, no final de Julho. Em Julho passado, o IPIM disse num comunicado que o evento tinha reunido “mais de 500 representantes dos governos e do sector empresarial” da China e dos países de língua portuguesa.

De acordo com o IPIM, o encontro contou com “cerca de 40 empresários e representantes económicos e comerciais” da China continental, de Macau e da vizinha zona económica especial de Hengqin (ilha da Montanha). O evento anual tem sido realizado de forma rotativa nos países de língua portuguesa desde 2005, tendo, no entanto, sido suspenso durante quatro anos, durante a pandemia de covid-19.

O encontro regressou em 2024, tendo decorrido em Macau e coincidindo com a sexta conferência ministerial do Fórum de Macau, que incluiu a assinatura do plano de ação do organismo até 2027.

Num debate no parlamento local sobre as Linhas de Ação Governativa (LAG) na área da Economia e Finanças para 2026, Che Weng Keong falou ontem também sobre o programa para atrair empresas internacionais para a região. O Plano para o Desenvolvimento Económico no âmbito de Apoio ao Estabelecimento da Primeira Loja em Macau foi lançado em 01 de Novembro e a primeira fase de candidatura decorre até ao final de Janeiro de 2026.

Na sessão, Che disse que “mais de 500 empresas (…), incluindo marcas de Portugal” já contactaram o IPIM para saber mais sobre o programa, que fornece um apoio de até um milhão de patacas. A iniciativa foi apresentada em Lisboa e no Porto, no início de Outubro, por responsáveis do IPIM, que realizaram depois apresentações em Madrid e Barcelona.

Ouro | Isenção fiscal no Interior ajuda Macau

A Associação das Ourivesarias de Macau disse ontem à Lusa que o recente corte numa isenção fiscal à compra de ouro na China continental poderá beneficiar o mercado do território. Desde 1 de Novembro que as autoridades chinesas reduziram de 13 por cento para 6 por cento a isenção sobre o Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA) em certas compras de ouro efectuadas por empresas.

No entanto, Hong Kong e Macau não são abrangidas pela nova política. “Esta é uma boa notícia para a indústria”, disse a vice-presidente da Associação das Ourivesarias de Macau. “A diferença de preços entre a China continental e Macau alargou-se, levando a um aumento do negócio com visitantes que agora compram ouro aqui por necessidade”, acrescentou Lei Cheok Kuan.

Lei reconheceu que ainda não se registou um aumento imediato do volume de negócios, “devido a algumas pessoas da China continental não poderem vir imediatamente a Macau”.

Pequim impõe limites ao número e duração das visitas dos habitantes da China continental a Macau, assim como à vizinha Hong Kong. No entanto, Lei notou uma tendência clara: “entre aqueles que há muito se interessam por joalharia de ouro ou investem no metal, a diferença de preço é um factor significativo nas suas decisões de compra quando estão a visitar Macau”.

Impacto no outro lado

A mudança de política está a afectar o mercado da China continental. O World Gold Council notou nas redes sociais que os fabricantes e grossistas de joalharia de ouro chineses implementaram aumentos generalizados de preços, “com a subida a reflectir o encargo fiscal adicional suportado pelas empresas”.

O grupo joalheiro Chow Tai Fook anunciou a 3 de Novembro que “ajustou os preços” de alguns produtos e está a “gerir proactivamente o impacto do aumento dos custos na aquisição e produção de ouro”. O Chow Tai Fook, um dos maiores grupos chineses de joalharia, encerrou mais de mil lojas de retalho na China continental durante os primeiros nove meses de 2025, mantendo uma rede de 5.663 lojas.

Contudo, o World Gold Council esclareceu que os investidores em barras e moedas de ouro que comprem produtos de investimento directamente a membros da principal bolsa de ouro da China, a Shanghai Gold Exchange, “não serão afectados de forma alguma”.

O preço do ouro, historicamente considerado um activo de refúgio em tempos de incerteza, estava ontem a baixar 0,52 por cento, às 15h41, com a onça (equivalente a 31,1 gramas) a ser negociada a 4.094,5 dólares, longe do máximo histórico, 4.347,86 dólares, fixado a 20 de Outubro.

Comida pré-preparada(II)

A semana passada, analisámos a recente controvérsia desencadeada online a propósito da comida pré-preparada. A China continental tinha emitido um “Aviso sobre o Reforço da Supervisão da Segurança Alimentar dos Alimentos Pré-Preparados e a Promoção do Desenvolvimento de Alta Qualidade da Indústria.” O Aviso explicita o que é “comida pré-preparada” e adianta que os alimentos que são confeccionados nas cozinhas centrais das cadeias de restaurantes de acordo com as leis e regulamentos de segurança alimentar, e depois distribuídos pelas suas sucursais, não são, por isso, considerados comida pré-preparada.

Embora existam diferentes definições de comida pré-preparada, para a maior parte dos consumidores, desde que os alimentos não sejam cozinhados no restaurante, e se contiverem ingredientes que tenham sinal de ter sido processados industrialmente, quer sejam refeições prontas ou produtos semi-acabados, são considerados “comida-pré-preparada”. Ou seja, “se não são acabados de cozinhar, logo são pré-preparados” é a percepção generalizada.

As refeições pré-preparadas estão omnipresentes nas modernas de cadeias de restauração. O sabor padronizado garante que os consumidores tenham a mesma experiência, independentemente do restaurante do grupo que visitem. Este procedimento fomenta a lealdade dos consumidores à marca. Os restaurantes não ganham nem perdem clientes por causa da qualidade do chef. A comida pré-preparada reduz o pessoal necessário, diminuindo os custos com salários e aumentando a eficiência do restaurante. Temos uma sociedade onde as pessoas pedem todos os dias “take-away”; os restaurantes precisam de cronometrar a preparação da comida e os estafetas precisam de cronometrar o tempo das entregas. Se a preparação da comida não for suficientemente rápida, os restaurantes não sobrevivem à concorrência. Para garantir uma eficiente preparação dos alimentos, os restaurantes precisam inevitavelmente de recorrer à comida pré-preparada. Impulsionada pelas necessidades dos restaurantes, a procura de comida pré-preparada aumentou exponencialmente. Estudos indicam que este mercado na China continental atingirá em 2026 1.072 biliões de dólares, com potencial para se desenvolver para o próximo mercado avaliado em biliões de dólares. Desta forma, é essencial estabelecer padrões nacionais de segurança alimentar no país.

O foco dos restaurantes em servir a comida rapidamente leva a que os consumidores encarem a comida pré-preparada como “fast food”. Por isso, podem não estar dispostos a pagar preços elevados por este tipo de alimentos. Além disso, os clientes esperam sentir o “wok hei” (o aroma fumado transmitido por um wok quente durante a preparação das refeições) e desfrutar da cozinha “feita na hora” quando vão ao restaurante. Se a comida é confeccionada na cozinha central da cadeia com ingredientes pré-embalados os clientes vão experimentar uma “lacuna psicológica” que provoca uma série de questões. Por exemplo, a comida que estou a consumir já terá passado o prazo de validade? Será que contém conservantes? Estes conservantes são prejudiciais à saúde? Será que afectam o sabor dos alimentos? Se o sabor e a frescura forem afectados, o preço deve baixar? Estas questões dão facilmente origem a dúvidas. Se os consumidores forem forçados a pagar preços elevados por comida pré-preparada, podem sentir-se enganados e entrar em conflito com o restaurante.

Esta controvérsia fez a sociedade perceber que se os consumidores “comerem felizes e com tranquilidade” vão regressar, o que será vantajoso para os clientes e para o restaurante. Talvez se possa considerar indicar no menu se o prato é “feito na hora”, se provém da “cozinha central da cadeia de restauração” ou se é “pré-preparado”, dando assim ao consumidor a possibilidade de escolha. Uma destas cadeias de restauração da China continental, a “Lao Xiang Ji,” usa este método indicando se as refeições são “feitas no restaurante,” “semi-pré-preparadas,” ou se são “comida pré-preparada reaquecida.” Este método satisfaz os clientes, libertando-os de mal-entendidos e preocupações acerca da comida-pré-preparada e da segurança alimentar. A abordagem da Lao Xiang Ji impôs-se à industrialização conseguindo assim reter a clientela.

Além disso, os restaurantes devem compreender que um ambiente transparente e honesto informa melhor o consumidor, o que aumenta a sua confiança nos restaurantes. A confiança do consumidor é o alicerce de todas as marcas. Os consumidores são tanto participantes como motores da indústria alimentar. Esta controvérsia ajudará a indústria alimentar a desenvolver-se numa direcção mais padronizada e saudável.

Para apoiar este desenvolvimento, a China continental precisa de implementar o mais rapidamente possível normas nacionais para a segurança das refeições pré-preparadas e estabelecer um rigoroso mecanismo de controlo de qualidade e rastreio, o que será mais benéfico para a sociedade.

De acordo com a Lei n.º 5/2013 de Macau, a “Lei da Segurança Alimentar”, as refeições pré-preparadas devem ser embaladas de forma segura e os seus ingredientes devem estar etiquetados, mas os restaurantes não são obrigados a indicar se os seus pratos usam ou não ingredientes pré-preparados. Esta controvérsia demonstra que os consumidores estão preocupados com a possibilidade de os restaurantes servirem refeições pré-preparadas. Dada a actual tendência de os habitantes de Macau irem fazer compras à China continental, para sobreviver, a indústria da restauração precisa de se aperfeiçoar para atrair mais turistas. Talvez os restaurantes de Macau possam considerar explicar aos clientes que se usarem alimentos pré-preparados localmente, estão a servir pratos típicos, “Made in Macau.” Se usarem alimentos pré-preparados vindos da China continental e processados nas suas cozinhas, poderão identificá-los como “Made in China continental + Processado em Macau” como um slogan de marketing. Desta forma podem reduzir-se custos operacionais e aumentar-se a percepção do valor do que é “Made in Macau.” Afinal de contas, a nossa indústria do turismo depende dos turistas, E vender aos turistas produtos tipicamente locais é a chave da sobrevivência dos negócios da cidade.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Email: cbchan@mpu.edu.mo

Gás natural do Greater Sunrise deve ser processado em Timor-Leste, diz PM

O primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, insistiu ontem que o gás natural do Greater Sunrise deve ser processado em Timor-Leste e que aquele projecto é essencial para o desenvolvimento do país.

“A posição do Governo sobre o Greater Sunrise sempre foi clara. O gás natural do Greater Sunrise deve ser processado em terra, em Timor-Leste”, afirmou Xanana Gusmão, num discurso proferido na sessão de abertura do V Fórum de Energia, Mineração e Negócios de Timor-Leste.

O fórum, que vai decorrer até quarta-feira, junta parceiros internacionais, investidores e empresas de cerca de 70 países e visa apresentar as oportunidades de desenvolvimento nos sectores de energia e mineração. Segundo o primeiro-ministro timorense, aquele projecto é “essencial para o desenvolvimento nacional”, porque vai proporcionar novas oportunidades para os jovens timorenses adquirirem competências e participarem em indústrias emergentes.

“Garantirá que evitemos a chamada ‘maldição dos recursos’, o processamento em terra vai assegurar que o valor gerado pelo Greater Sunrise permanece em Timor-Leste e apoia a construção da Nação”, afirmou o líder do Governo timorense. O projecto vai também reforçar a segurança energética de Timor-Leste e criar milhares de empregos, salientou Xanana Gusmão.

O primeiro-ministro disse também que a posição de Timor-Leste é baseada em “avaliações especializadas” que “confirmaram que um gasoduto de águas profundas desde o campo até à costa sul é viável e consistente com os padrões internacionais de engenharia”. “Mantemos o nosso compromisso de avançar com o Greater Sunrise de maneira comercialmente sólida, tecnicamente robusta e alinhada com os interesses do nosso povo”, afirmou.

Outras recursos

Na intervenção, Xanana Gusmão destacou também as “novas oportunidades” no sector mineiro e dos minerais críticos, incluindo ouro, cobre, magnésio e outros recursos. “O desenvolvimento dos nossos recursos minerais em terra apoiará a diversificação económica, fortalecerá competências técnicas e criará empregos, especialmente nas comunidades rurais”, disse.

O Governo de Timor-Leste autorizou sábado a assinatura de um acordo de cooperação com a australiana Woodside Energy para estudos para processar e exportar gás do Greater Sunrise para o país. Segundo o Governo timorense, o acordo “representa um importante passo para a avaliação técnica, comercial e regulatória conjunta de uma futura unidade de LNG em território timorense”.

“As negociações conduzidas pelo Ministério do Petróleo e Recursos Minerais com a Woodside Energy, titular de direitos sobre o campo do Greater Sunrise, criaram as condições necessárias para formalizar esta cooperação, que permitirá aprofundar os estudos essenciais ao desenvolvimento do projeto”, salienta o comunicado.

A Austrália e Timor-Leste realizaram, em Outubro, negociações bilaterais para desenvolver o projecto Greater Sunrise, incluindo mecanismo de governação e os regimes fiscais do projecto.

O acordo de fronteira marítima permanente entre Timor-Leste e a Austrália determina que o Greater Sunrise, um recurso partilhado, terá de ser dividido, com 70 por cento das receitas para Timor-Leste no caso de um gasoduto para o país, ou 80 por cento se o processamento for em Darwin.

Bolsa | PCC expulsa ex-responsável de regulador de mercado

As autoridades disciplinares da China anunciaram ontem a expulsão do Partido Comunista Chinês (PCC) de Wang Huimin, ex-membro da direcção do regulador do mercado bolsista por “graves violações da disciplina e da lei”.

Wang cometeu várias infracções, incluindo abuso de poder, aceitação de subornos e uso de influência para favorecer terceiros em processos como ofertas públicas de venda e promoções profissionais, de acordo com comunicados publicados pela Comissão Central de Inspecção Disciplinar (CCDI, na sigla em inglês), o principal órgão anti-corrupção interno do PCC, e pela Comissão Nacional de Supervisão, o equivalente estatal.

A investigação concluiu que Wang, também antigo chefe da equipa de inspecção do órgão anti-corrupção da Comissão Reguladora do Mercado de Valores da China, “perdeu os seus ideais”, “traiu a sua missão original” e desviou-se das directrizes centrais do partido.

O comunicado sublinha que o ex-funcionário “violou a disciplina enquanto a fazia cumprir” e “violou a lei enquanto a aplicava”, expressões com as quais a CCDI descreve como especialmente graves estes comportamentos, num cargo responsável pela supervisão da integridade interna do regulador do mercado bolsista.

Wang, que também é acusado de manter uma “conduta familiar inadequada” ao não controlar os familiares, teria continuado a aceitar benefícios ilícitos mesmo após o XVIII Congresso do PCC, realizado em 2012, apesar das repetidas advertências da liderança central. O caso foi encaminhado para o Ministério Público para um eventual processo criminal.

Doze ligações aéreas entre China e Japão sem voos

Doze ligações aéreas entre a China e o Japão apareciam esta manhã com 100 por cento dos voos cancelados na plataforma independente de tráfego aéreo DAST, na sequência da crise diplomática entre os dois países devido a Taiwan.

As rotas sem operações incluem ligações entre cidades chinesas como Nanjing, Pequim, Shenzhen, Chengdu e Xangai, entre outras, com aeroportos japoneses como Kansai (Osaka), Fukuoka, Sapporo e Nagoya, de acordo com os dados da DAST. A plataforma, utilizada como referência por vários órgãos de imprensa chineses, mostra ainda que várias destas rotas preveem continuar com cancelamentos nos próximos dias.

Os dados da DAST indicam ainda que a taxa de cancelamento de voos programados para o Japão irá alcançar um pico de 21,6 por cento no dia 27 de Novembro, o índice mais elevado num mês. Entre as 20 rotas mais movimentadas, algumas apresentam taxas de cancelamento particularmente elevadas, como Tianjin-Kansai (65 por cento), Nanjing-Kansai (59,4 por cento), Guangzhou-Kansai (31,3%) e Xangai Pudong-Kansai (30,1 por cento).

As companhias aéreas chinesas têm vindo a ajustar as operações para o Japão há vários dias, depois de uma série de alertas emitidos, na semana passada, pelos Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ministério da Cultura e Turismo, Ministério da Educação e pelas missões diplomáticas chinesas, que recomendaram evitar viagens não essenciais para o país vizinho.

A reação chinesa surgiu depois de, em 07 de Novembro, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, ter declarado que um potencial ataque chinês a Taiwan poderia justificar a intervenção das Forças de Autodefesa do Japão, palavras consideradas por Pequim como “uma ameaça de uso da força”.

Impacto negativo

A tensão estendeu-se aos sectores do turismo e da aviação, com diversas agências de viagens chinesas a reportarem um aumento dos pedidos de cancelamento de viagens para o Japão, enquanto companhias aéreas chinesas, incluindo de Hong Kong e Macau, activaram políticas excecionais, oferecendo reembolsos ou alterações sem penalizações.

O Japão recebeu 7,49 milhões de visitantes chineses nos primeiros nove meses do ano, segundo dados da Organização Nacional de Turismo do Japão, fazendo da China o maior mercado emissor. Analistas citados pela televisão estatal chinesa CCTV alertam que uma queda substancial no número de turistas chineses poderá ter um impacto significativo na economia do Japão, numa altura em que parte da procura está a migrar para outros destinos asiáticos.

De acordo com plataformas de reservas chinesas como a Qunar, a Coreia do Sul tornou-se o principal destino para viagens internacionais a partir da China, enquanto Tailândia, Vietname, Malásia, Hong Kong e Macau também estão a registar um aumento do interesse dos viajantes.

HK: Relações com Japão devem respeitar “a dignidade” da China

O líder do Governo de Hong Kong disse ontem que os laços com o Japão devem respeitar “a dignidade” da China, mas recusou confirmar o corte de relações com o consulado-geral japonês na região. A relação com o Japão “deve estar alinhada com a dignidade da nação e com os benefícios dos habitantes de Hong Kong”, disse John Lee Ka-chiu aos jornalistas.

Horas antes, a imprensa japonesa avançou que Hong Kong tinha ordenado, no domingo, o corte imediato das relações oficiais com o consulado-geral do Japão e cancelou um programa de intercâmbio de estudantes, face ao agravamento da disputa diplomática sino-nipónica devido a Taiwan.

John Lee não confirmou o corte de relações, mas admitiu que “as declarações extremamente erradas” da primeira-ministra japonesa “deterioraram gravemente o clima para os intercâmbios entre a China e o Japão”. Em 07 de novembro, Sanae Takaichi disse que Tóquio poderia recorrer à força se Pequim tentasse ocupar ou bloquear Taiwan, algo que o Governo chinês classificou de “interferência intolerável”.

“Estas palavras feriram profundamente os sentimentos do povo chinês e põem em causa a ordem internacional do pós-guerra. Nenhum chinês as pode aceitar”, afirmou John Lee. “Isto faz-nos duvidar da eficácia de muitos intercâmbios. Vamos acompanhar de perto o desenvolvimento”, disse o chefe do Executivo da região semiautónoma chinesa.

Em suspenso

O gabinete de Educação de Hong Kong anunciou a retirada de 18 estudantes e professores do programa JENESYS, uma iniciativa lançada por Tóquio em 2007 e na qual a antiga colónia britânica participava desde 2008. A viagem, que deveria acontecer entre 07 a 13 de Dezembro, incluía aulas em escolas japonesas, alojamento com famílias japonesas e visitas a locais históricos.

“Depois de avaliar o aumento de incidentes contra cidadãos chineses e de dar prioridade à segurança dos estudantes e professores, foi decidido não participar”, declarou o organismo. Hong Kong suspendeu também, por tempo indeterminado, um fórum empresarial previsto para 18 de Novembro sob a égide da agência governamental Invest Hong Kong, depois de as autoridades locais proibirem a presença de pessoal consular japonês.

Foi igualmente cancelada uma reunião de alto nível sobre cooperação económica prevista para o início de Dezembro com o cônsul-geral japonês.

Taiwan | China avisa Japão para perigo de instalar mísseis em ilha próxima

As tensões entre Pequim e Tóquio continuam a evoluir após as declarações da nova primeira-ministra japonesa sobre a antiga Formosa. As autoridades chinesas avisam agora o governo nipónico sobre os perigos de instalar mísseis na região

A China advertiu ontem o Japão que o projecto de instalar mísseis perto de Taiwan é um desenvolvimento “extremamente perigoso”, depois de declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sobre a ilha.

“A implantação de armas ofensivas pelo Japão nas ilhas do sudoeste vizinhas de Taiwan visa deliberadamente criar tensões regionais e provocar um confronto militar”, disse a porta-voz da diplomacia chinesa Mao Ning em Pequim. Mao reagia a declarações do ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, que afirmou no domingo que o objecivo de colocar mísseis terra-ar em Yonaguni, a ilha japonesa mais próxima de Taiwan, estava “no bom caminho”.

A porta-voz chinesa acusou o Japão, cuja Constituição proíbe políticas belicistas, de ter ajustado “de forma considerável” a política de segurança nos últimos anos e de procurar dotar-se de capacidades ofensivas. Na opinião da China, estas tendências reflectem que “as forças direitistas japonesas estão a tentar activamente quebrar as restrições da Constituição pacifista”, o que, advertiu Mao, está a “empurrar o Japão e a região para o desastre”.

“Esta tendência, conjugada com as declarações erróneas da primeira-ministra, Sanae Takaichi, é extremamente perigosa”, disse Mao, citada pelas agências de notícias espanhola EFE e France-Presse (AFP). Os governos de Pequim e Tóquio estão envolvidos num clima de tensão desde que Takaichi afirmou em 07 de Novembro que operações armadas contra Taiwan podiam justificar uma intervenção militar japonesa para defender a ilha.

Pequim, que reivindica Taiwan como parte do território da China, vê nas palavras de Takaichi uma provocação. “A China está determinada e é capaz de defender a soberania territorial nacional”, disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China durante uma conferência de imprensa regular.

Mao recordou que o Acordo de Potsdam, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), “proibiu expressamente que o Japão voltasse a armar-se” e insistiu que a Constituição japonesa consagra o princípio de “defesa exclusivamente defensiva”. “A China nunca permitirá que as forças japonesas de extrema-direita subvertam o curso da história, nem permitirá a interferência de forças externas nos assuntos de Taiwan, nem o ressurgimento do militarismo japonês”, afirmou.

Encontros adiados

A porta-voz diplomática chinesa anunciou também o adiamento indefinido da décima cimeira entre a China, o Japão e a Coreia do Sul, prevista para janeiro, numa cidade japonesa.

“Nas circunstâncias actuais, não existem as condições para celebrar a cimeira”, disse Mao, referindo que as declarações japonesas sobre Taiwan prejudicaram a cooperação entre os três países asiáticos. Yonaguni alberga uma base das Forças de Autodefesa japonesas desde 2016, apesar das objecções iniciais dos habitantes.

Tóquio anunciou a intenção de instalar na ilha mísseis terra-ar de médio alcance para a defender contra ataques de mísseis e aeronaves. Mao Ning pediu de novo a Tóquio que “leve a sério” as preocupações da China, “retire as declarações erróneas sobre Taiwan” e mostre sinceridade através de “acções concretas”.

Na sexta-feira, a líder japonesa recusou-se a retirar as declarações sobre Taiwan, por considerar que se trata da “posição coerente” do Governo japonês. Takaichi reiterou ainda o desejo de ter relações benéficas com a China num novo apelo ao diálogo.

IIM | Visita aos bairros históricos marcada para 6 de Dezembro

O Instituto Internacional de Macau (IIM) vai realizar duas visitas comunitárias guiadas aos bairros históricos de Macau, no próximo dia 6 de Dezembro. Os passeios, intitulados “Bairros Macaenses: Raízes de uma Cidade Multicultural”, vão ter uma duração de cerca de uma hora e meia, com a primeira sessão marcada para as 14h30 e a segunda a partir das 15h.

Os passeios vão começar no Largo do Lilau, passando pela Rua Central, Largo de Santo Agostinho, Rua da Felicidade, e terminam no espaço Dimensões M, na Rua do Barão nas imediações do Seminário de São José, “onde haverá um convívio e um beberete”, indica o IIM. A iniciativa do IIM conta com o apoio da Fundação Macau, e será organizada em parceria com a Associação dos Embaixadores do Património de Macau, e colaboração da Associação dos Jovens Macaenses e da Language Exchange and Culture Promotion.

As visitas foram pensadas em conjugação com o vigésimo aniversário da inscrição do Centro Histórico de Macau na Lista do Património Mundial e os interessados já se podem inscrever nas redes sociais do IIM e da Associação dos Embaixadores do Património de Macau.

O evento é gratuito e terá um limite de participação de 50 pessoas para duas sessões separadas (25 pessoas em cada sessão). O IIM refere que o objectivo da iniciativa é proporcionar ao público, em especial às camadas mais jovens, conhecimento sobre as vivências e estórias dos bairros históricos, assim como a sua identidade cultural.

Comédia | Jimmy O. Yang regressa a Macau no Ano Novo Chinês

Depois da estreia em Julho, o comediante Jimmy O. Yang vai regressar a Macau no dia 21 de Fevereiro, para um espectáculo que irá além do stand-up, com actuações musicais e dança. Os bilhetes serão colocados à venda no próximo dia 4 de Dezembro e custam entre 380 e 880 dólares de Hong Kong

“Tenho uma grande novidade para dar. Vou regressar ao Galaxy Macau no dia 21 de Fevereiro para um mega-espectáculo de Ano Novo Chinês, que não vai ter apenas comédia. Eu vou fazer stand-up, mas haverá música, dança e alguns convidados especiais incríveis. Vai ser uma mega-festa de Ano Novo Chinês.”

Foi desta forma que Jimmy O. Yang, o comediante de Hong Kong que fez carreira nos Estados Unidos, anunciou nas redes sociais o seu regresso a Macau, depois de ter esgotado uma série de seis espectáculos no início de Julho no Broadway Theatre, que foi visto por mais de 13 mil espectadores.

Para já, foi só anunciado um espectáculo, mas em moldes que escapam ao tradicional show de comédia, incorporando “música ao vivo, múltiplos convidados especiais e surpresas divertidas”, adiantou ontem a Galaxy Macau.

Os bilhetes serão colocados à venda no próximo dia 4 de Dezembro, às 11h, e custam entre 380 e 880 dólares de Hong Kong, e podem ser comprados através da Galaxy Ticketing, e das plataformas Trip.com, Damai, Maoyan, uutix e MPay. Porém, os portadores de cartões de crédito do Banco da China terão direito a comprar bilhetes 24 horas antes através da plataforma Klook.

O comediante termina hoje a sua passagem por Singapura, depois de ter actuado em Kuala Lumpur. A tournée continua na Austrália com vários espectáculos, a partir de sábado, em Brisbane, Sydney, Melbourne, com uma paragem na Nova Zelândia, Auckland para dois espectáculos. De seguida, segue para o Japão e regressa a Singapura antes de uma série de espectáculos nos Estados Unidos a partir de Fevereiro.

Uma vida a fazer rir

Com 38 anos de idade, o comediante tem já uma carreira longa, não só na comédia de palco, mas principalmente em séries de televisão e cinema. A popularidade da comédia da HBO “Silicon Valley” apresentou Jimmy O. Yang ao mundo, interpretando um membro de uma equipa de programadores informáticos que tenta a sua sorte no mundo bilionário das aplicações móveis.

Outro papel recorrente no currículo de Jimmy O. Yang, foi na série da Netflix “Space Force”, onde contracena com actores como Steve Carell, John Malkovich, Ben Schwartz, Diana Silvers, Lisa Kudrow e o seu pai Richard Ouyang. O comediante de Hong Kong entrou ainda em séries como “Os Simpsons”, “It’s Always Sunny in Philadelphia”, “American Dad”, entre outras.

Em cerca de 12 anos, Jimmy O. Yang entrou em mais de duas dezenas de filmes. Na sua filmografia contam-se algumas longas metragens incontornáveis, como “Crazy Rich Asians”, “Love Hard”, “Like a Boss” e animações como “The Monkey King”, onde dá voz ao protagonista, “Minions: The Rise of Gru”, “The Lego Movie 2” e “Wish Dragon”.

No meio da uma carreira no palco e nos grandes e pequenos ecrãs, Jimmy O. Yang ainda teve tempo para escrever um livro: “How to American: An Immigrant’s Guide to Disappointing Your Parents”. A obra não só descreve um pouco a sua vida, enquanto alguém que no início da adolescência se muda de Hong Kong para a Califórnia, onde já tinha família, mas também desvenda os temas que costuma abordar nos espectáculos de stand-up.

Jimmy O. Yang nasceu em Hong Kong no Verão de 1987, depois de os seus pais se terem mudado de Xangai para a região vizinha. Em 2000, quando o comediante era um jovem de 13 anos, a família mudou-se para Los Angeles, onde vivia uma tia e uma avó do jovem.

Estacionamento | Mais parques com cobrança de meia hora

A partir de 3 de Dezembro vai ser possível pagar por apenas períodos de meia hora em mais sete parques de estacionamento públicos. A informação foi divulgada ontem pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT).

“Para melhor corresponder às necessidades de estacionamento de curta duração dos cidadãos e aumentar a eficiência na utilização dos recursos públicos, a DSAT irá alargar a partir de 3 de Dezembro a medida de facilitação da tarifação de meia hora a mais sete parques de estacionamento público”, foi comunicado.

Os sete parques onde a medida vai ser implementada são o Parque de Estacionamento Público do Parque Central da Taipa, Parque de Estacionamento Público da Rua da Ponte Negra, Parque de Estacionamento Público do Terminal Marítimo de Passageiros da Taipa, Parque de Estacionamento Público do Edifício Lago, Parque de Estacionamento Público do Edifício Iat Sang, Parque de Estacionamento Público de Chun Su Mei e Parque de Estacionamento Público do Edifício Iat Fai.

O modelo de pagamento de períodos de estacionamento de meia hora vai ser assim alargado para 22 estacionamentos públicos no total. Nos restantes espaços, os cidadãos vão continuar a ter de pagar pelo menos o período de uma hora, se pretenderem utilizar os parques.

Após a implementação do novo modelo, a tarifa de estacionamento durante o dia para veículos ligeiros será de 3 patacas por meia hora, e a tarifa nocturna de 1,5 patacas por meia hora. Para motociclos e ciclomotores, a tarifa de estacionamento de dia será de 1 pataca por meia hora, e a tarifa nocturna de 0,5 patacas por meia hora.​

Casinos-Satélite | Fortuna fecha portas a 10 de Dezembro

A informação começou a circular ontem após a empresa que explora o espaço ter revelado que os contratos dos trabalhadores vão ser extintos a partir dessa data

O casino-satélite Fortuna, integrado no hotel com o mesmo nome, vai encerrar as portas as 10 de Dezembro, de acordo com a informação divulgada ontem pelo portal GGR Asia. A notícia tem por base uma comunicação interna da empresa responsável pela exploração do espaço, a Kou Seng Holdings, a avisar os trabalhadores que vão ser despedidos.

O casino é gerido ao abrigo de um acordo de exploração entre a concessionária SJM Resorts e a Kou Seng Holdings. No passado dia 20 de Novembro, a Kou Seng divulgou um aviso a informar que vai “rescindir formalmente os contratos de trabalho com todos os funcionários no mesmo dia” do encerramento do espaço de jogo.

No alerta, é ainda indicado que a “compensação” pelos despedimentos vai ser calculada de acordo com a Lei das Relações de Trabalho, com o último salário e a compensação a serem pagos “até 26 de Dezembro de 2025”.

O despedimento deverá afectar apenas os trabalhadores residentes e não-residentes empregados directamente pela Kou Seng Holdings. Isto porque em relação aos trabalhadores do casino empregados pela SJM Resorts os postos de trabalho deverão ser salvaguardados.

Anteriormente, as concessionárias de jogo de Macau comprometeram-se com o Governo a absorver os trabalhadores afectados pela extinção dos postos de trabalho, na sequência do encerramento dos casinos-satélites. No entanto, em muitos casos os trabalhadores têm de aceitar posições muito diferentes das que desempenhavam no espaço a encerrar.

Mudança da lei

O encerramento dos casinos-satélites acontece três anos depois de a Assembleia Legislativa ter aprovado uma nova lei do jogo que obriga todos estes espaços a fechar portas ou a passarem a ser explorados directamente pelas concessionárias. A proposta da medida que vai extinguir milhares de empregos partiu do Governo.

O encerramento do Casino Fortuna a 10 de Dezembro vai fazer com que restem apenas dois casinos-satélites em Macau, ambos com acordo com a SJM Resorts, o Casino Landmark e o Casino Kam Pek Paradise.

Também na semana passada, foi tornado público que o Casino Ponte 16 vai encerrar, depois de inicialmente a SJM Resorts ter revelado a intenção de o comprar. No entanto, o acordo não foi alcançado e as portas do casino vão fechar a 28 de Novembro.

Desporto | Macau assina acordo com Governo Central, Cantão e Hong Kong

O Executivo de Sam Hou Fai promete implementar o acordo e seguir a “orientação da Administração Geral de Desporto do Estado”. A parceria visa a organização de eventos, formação de quadrados, e implica a “partilha de recursos”

Um acordo para servir a “estratégia global do Estado”. Foi desta forma que o Governo de Macau comunicou a nova parceria desportiva com a Administração Geral de Desporto do Estado, o Governo Popular da Província de Guangdong e o Executivo de Hong Kong.

De acordo com os objectivos indicados, o acordo “visa promover, de forma contínua, o desenvolvimento integrado do desporto entre os três locais [Guangdong, Hong Kong e Macau], sendo também uma exploração com acções práticas para maximizar as funções únicas e os valores pluralistas do desporto”.

Foi também explicado que a parceria vai “fortificar” o “intercâmbio e a cooperação entre o Interior da China e as regiões de Hong Kong e Macau em diversos domínios” como o desporto competitivo, desporto para todos, indústrias desportivas, desporto juvenil, governança desportiva internacional, ciências e tecnologias desportivas, cultura desportiva e assuntos jurídicos no desporto”.

A parceria vai ser implementada através de “projectos-pilotos conjuntos na Grande Baía” com “a partilha de recursos”, o que poderá significar que Macau vai investir fundos públicos no Interior da China, disponibilizar a utilização de instalações, organizar competições e formar quadros qualificados. As autoridades acreditam que assim podem impulsionar “o desenvolvimento integrado do desporto entre os três locais, a um nível mais elevado, num âmbito mais alargado e numa visão mais ampla, servindo a estratégia global do Estado”.

Jogos Nacionais

O acordo foi divulgado ontem, mas assinado a 21 de Novembro, na sequência da organização conjunta da 15.ª edição dos Jogos Nacionais entre Guangdong, Hong Kong e Macau. Em relação aos objectivos, o comunicado do Governo de Macau garante agir “sob a orientação da Administração Geral de Desporto do Estado” e em conjunto com as partes de Guangdong e Hong Kong.

O Governo de Sam Hou Fai prometeu ainda “implementar de modo integral o conteúdo do acordo”, apoiar “o desenvolvimento do desporto” e promover “a cooperação no sector”. “Irá também aproveitar as oportunidades, utilizando as competições como elo de ligação a fim de aprofundar continuamente a colaboração e a sinergia com Guangdong e Hong Kong nas áreas da cultura e do desporto, alcançar uma cooperação regional mais estreita, criar uma ecologia industrial mais dinâmica e promover uma identidade cultural mais forte”, foi acrescentado.

PME | Pedido centro de incubação na zona industrial

O deputado Ip Sio Kai defendeu ontem a revitalização da zona industrial do território, nomeadamente no Parque Concórdia, em Coloane, e no Parque Industrial Transfronteiriço Zhuhai-Macau, construído na Ilha Verde, ambos geridos pela Sociedade para o Desenvolvimento dos Parques Industriais de Macau.

“Tínhamos uma zona industrial, passaram-se 20 anos e a política não mudou. Essa zona está um bocado atrasada, e como não há comércio, começa a apagar-se. Não sei se podemos dialogar com as autoridades de Zhuhai para que haja políticas de apoio para melhorar essa zona.”

O deputado falou em incentivos às pequenas e médias empresas, para que seja criado “um local de encubação, e só depois desse período é que iriam para Hengqin e, num outro passo, para a Grande Baía”, à semelhança de projectos de incubação semelhantes em Shenzhen. Da parte do secretário Tai Kin Ip, foi referido que é necessário dialogar com o Governo Central.

Plano para seis zonas históricas terá colaboração de associações

O secretário para a Economia e Finanças, Tai Kin Ip, garantiu ontem que será reavaliado, no próximo ano, o plano de investimento para as seis zonas históricas do território que está a ser levado a cabo entre o Governo e as operadoras de jogo.

“Ao nível do planeamento, o Governo vai supervisionar os trabalhos a realizar pelas concessionárias. No futuro, as associações vão planear e organizar as actividades, e vamos reunir esforços com elas porque estas têm conhecimento e ideias sobre o desenvolvimento dessas zonas. Vamos ter um centro de desenvolvimento para essas zonas, reunindo esforços de todas as partes para melhorar a imagem dessas zonas históricas”, explicou.

No contexto deste debate, e tendo em conta o encerramento dos casinos-satélite e a necessidade de reconversão de algumas zonas no Porto Exterior, o deputado Ip Sio Kai defendeu a criação de novas zonas com atracções turísticas, nomeadamente uma “rua portuguesa”.

“Os casinos-satélite estão a fechar e muitos comerciantes estão preocupados com isso. Se houver um investimento de 120 a 130 milhões para as zonas comunitárias, isso será muito benéfico para o comércio. Podemos ter uma rua típica portuguesa, ou algo parecido. Podemos criar zonas específicas, ou mesmo uma zona de escritórios, pois muitas empresas estatais gostam de se fixar fora das zonas de jogo”, sugeriu.

Para Ip Sio Kai, cabe às operadoras de jogo apostar no investimento nestas novas zonas, indo além dos planos já anunciados para seis zonas do território, incluindo a zona do Porto Interior e ilhas. “Não sei se além das seis zonas se pode investir noutras. Além destas seis zonas vamos ter de criar um novo local, um festival de consumo no Porto Exterior”, defendeu o deputado, tendo em conta o encerramento dos casinos-satélite.

Avaliação contínua

O secretário garantiu, em primeiro lugar, que Macau pode ter novas zonas de atracção, mas só depois de uma avaliação aos investimentos já anunciados pelas operadoras.

“Desde 2023 e até este ano que temos feito um trabalho de avaliação do cumprimento dos compromissos pelas concessionárias. Há 11 módulos de investimento que se estão a fazer, na revitalização das seis zonas, e no futuro vamos ver se há possibilidade de haver mais zonas de revitalização”, disse Tai Kin Ip.

Quanto à quebra do turismo no Porto Exterior devido ao fecho dos casinos-satélite, o secretário demonstrou estar mais optimista do que Ip Sio Kai. “Há um trabalho de recuperação que leva algum tempo e durante a reconversão temos de ver quais os resultados das iniciativas a realizar nessa zona. Nessa zona [Porto Exterior] temos uma oferta de mais de mil quartos de hotel, e depois do encerramento dos casinos-satélite temos outras fontes de visitantes que ocupam esses quartos, como famílias ou grupos de excursionistas. Temos de atender a essas diferentes características de visitantes na exploração dessas iniciativas”, disse.

Entre residentes e TNR, deputados exigem medidas de estabilidade laboral

A situação do emprego em Macau voltou a dominar o debate em torno do relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para a área da Economia e Finanças, com os deputados a demonstrarem diferentes posições quanto ao binómio residentes / trabalhadores não residentes (TNR).

Se a grande maioria pede medidas para que os locais tenham maior acesso ao emprego, o deputado Ip Sio Kai lembrou que há empresas desfalcadas neste âmbito, enquanto Chui Sai Peng pediu medidas para os que não querem trabalhar. “Algumas pequenas e médias empresas (PME) dizem que as quotas para TNR não são renovadas pelo Governo, e quando isso acontece não conseguem contratar locais a tempo. Como podemos dar prioridade aos locais, mas também ter em conta os interesses das PME?”, questionou.

Ip Sio Kai falou na importância de “proteger os postos de trabalho” dos residentes, as PME “têm de saber quantas vagas de trabalho conseguem ter para os seus negócios, e há que haver uma situação ‘win-win’”. Já Chui Sai Peng, questionou o tipo de medidas “para quem não está interessado em trabalhar, para estimular essas pessoas”, além de ter defendido acções de formação não apenas para trabalhadores, mas também para empresas.

“Deve-se exigir que as empresas tenham oportunidade de formação, organizando-se cursos para reforçar a sua capacidade de negócio. Chui Sai Peng pede também “prioridade aos residentes” no emprego tendo em conta os futuros investimentos e os concursos públicos a realizar.

Da parte do secretário, ficou a garantia de reavaliação do panorama de contratação pública de locais para postos de limpeza e segurança. “Estamos a recolher opiniões e a fazer o levantamento da situação dos trabalhos adjudicados pelos serviços públicos nessas duas áreas. Estamos a ver se há possibilidade de aumentar o número de trabalhadores locais”, frisou.

Desemprego baixo

Por entre críticas e opiniões, a deputada Song Pek Kei defendeu que o Executivo “está a manter a estabilidade de emprego”, citando dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) que apontam para uma taxa de desemprego de 1,8 por cento no terceiro trimestre, o valor mais baixo desde Fevereiro.

“O nível de desemprego é relativamente baixo. Uma empresa que quiser investir [em Macau] tem de ter recursos humanos, e qual é o ponto de situação para estas quatro indústrias? Até ao terceiro trimestre deste ano a população activa de Macau era 382 mil pessoas, existindo 284,2 mil residentes empregados, e 6.800 pessoas desempregadas. Será que podemos transferir essas pessoas para as quatro novas indústrias e dar-lhes emprego? Se for assim, poderíamos resolver o problema do desemprego”, salientou.

Outro tópico abordado no debate de ontem, tem a ver com a alegada pouca eficácia dos cursos de formação promovidos pelo Governo para a área laboral. “Após concluírem as acções de formação, muitas pessoas não conseguem aplicar os conhecimentos no trabalho. Não sei se é possível reforçar o regime de credenciação, e para que seja possível convencer as pessoas [empresas] a contratar. Assim é possível garantir que as pessoas, depois das formações, conseguem aplicar os conhecimentos”, disse o deputado Lam Lon Wai.

Também Leong Sun Iok referiu que “há várias situações em que as pessoas não conseguem emprego”, já que “as empresas não contratam locais ou os locais não têm capacidade para ingressar em determinadas empresas”. “Não sei se o Governo pode ponderar a existência de quotas, para que haja um rácio a fim de as empresas poderem ter locais e também dar formação”, acrescentou.

Casinos-satélite | Secretário diz que três mil trabalhadores serão afectados

No debate sobre o relatório das Linhas de Acção Governativa para a área da Economia e Finanças, o secretário Tai Kin Ip garantiu que haverá cerca de três mil funcionários dos casinos-satélite afectados pelo seu encerramento, mas que será garantido emprego para todos

O Governo prometeu ontem que irá tentar garantir o emprego dos cerca de três mil funcionários dos quatro ‘casinos-satélite’ que ainda vão encerrar até ao final do ano. O secretário para a Economia e Finanças, Anton Tai Kin Ip, confirmou que, após o encerramento de seis ‘casinos-satélite’, 1.300 trabalhadores já foram reintegrados nos quadros das concessionárias de jogo. Além disso, 29 trabalhadores terão pedido apoio na busca por emprego, foi referido no hemiciclo.

O primeiro a encerrar foi o Grandview, no final de Julho, seguido do Grand Dragon, em 22 de Setembro. O Emperor Palace e o Waldo fecharam no final de Outubro, enquanto o Legend Palace encerrou em 12 de Novembro e o Casal Real na terça-feira passada. “Restam ainda quatro ‘casinos-satélites’ que vão encerrar, com cerca de três mil trabalhadores envolvidos”, disse Anton Tai, na Assembleia Legislativa (AL), durante o debate das Linhas de Acção Governativa (LAG) na área da Economia e Finanças para 2026.

O Ponte 16, com 1.025 funcionários vai encerrar na sexta-feira, depois da concessionária SJM Resorts ter desistido da compra da propriedade onde se situa o ‘casino-satélite’. Outro ‘casino-satélite’, o Fortuna, encerra a 10 de Dezembro, de acordo com uma nota interna da dona da propriedade, a empresa Kou Seng Holdings, citada ontem pelo portal de notícias de jogo GGRAsia (ver página 7).

Também devem fechar portas até ao final do ano mais dois ‘casinos-satélite’, Landmark e Kam Pek Paradise, ambos sob a tutela da SJM, fundada pelo magnata do jogo Stanley Ho Hung Sun (1921-2020). A 9 de Junho, o Governo anunciou que as concessionárias de jogo tinham comunicado o fim da exploração de todos os 11 ‘casinos-satélite’, onde trabalhavam cerca de 5.600 residentes.

Linha de contacto

“Ao longo dos anos, temos uma linha aberta para apoiar os trabalhadores dos casinos. Até agora, recebemos 29 casos de pedidos de ajuda” de funcionários de ‘casinos-satélite'”, revelou Anton Tai. “Vamos continuar a trabalhar, passo a passo, para uma transição suave dos trabalhadores dos ‘casinos-satélite'”, acrescentou o secretário.

Em Junho, o então secretário para a Administração e Justiça, André Cheong Weng Chon, exigiu às operadoras a garantia de um emprego para os trabalhadores locais afectados. O único dos 11 ‘casinos-satélite’ que deverá permanecer aberto é o Royal Arc. Em 20 de Novembro, a SJM confirmou a aquisição da empresa que detém o Royal Arc por 1,75 mil milhões de dólares de Hong Kong.

A empresa tinha inicialmente revelado planos para adquirir os hotéis onde se situam o Ponte 16 e o Royal Arc e pedir às autoridades para assumir a gestão direta dos espaços de jogo.

Luís Bernardino, académico: “Precisamos definir uma estratégia de cooperação-defesa” para a CPLP

O livro “25 Anos de Cooperação de Defesa na CPLP” foi lançado em 2023 em formato digital e, dois anos depois, chegou à versão impressa. Luís Bernardino, co-autor ligado à Universidade Autónoma de Lisboa, realça evoluções positivas desde a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, não obstante inacções e polémicas com a Guiné Equatorial

“25 Anos de Cooperação de Defesa na CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]” foi lançado em e-book e agora chega à versão impressa. Porquê editar este livro?

Este livro fala sobre os 25 anos de cooperação na área da defesa da CPLP e é da minha autoria, juntamente com uma colega do Brasil, Camila Rizzi. Resulta de um projecto de investigação desenvolvido no Centro de Análises Estratégicas da CPLP, sediado em Moçambique. Tem a componente de defesa da CPLP e faz reflexão estratégica sobre esse tema. Pelo facto de terem passado 25 anos de cooperação nessa área quisemos fazer uma avaliação e o livro para que ficasse para a história da organização. Em 2023, não houve condições financeiras para editar o livro em papel como queríamos, e foi agora lançado a 18 de Novembro, em Maputo.

Há críticas quanto à efectiva acção da CPLP. Considera que este organismo tem crescido de forma sustentável?

A avaliação que faço é na área da defesa. Quando a CPLP foi criada, a cooperação na área da defesa não constava nas seis áreas iniciais. Essa área só surgiu em 1998. A CPLP nasceu com seis áreas principais – cultura, língua, concentração político-diplomática – e tem actualmente 26 áreas de cooperação, o que é a prova de que cresceu de forma sustentada. Obviamente que com altos e baixos, situações mais fáceis ao longo destes quase 30 anos. Mas o que se salienta neste livro, na área da defesa, é que houve um crescimento bastante consolidado e participado. Nestes 25 anos fez-se muita coisa interessante e a avaliação é positiva.

E o futuro?

Precisamos de definir uma estratégia de cooperação-defesa e aquilo que queremos para a CPLP nesta área nos próximos 25 anos. É esse o desafio que temos pela frente, de uma maior actividade e iniciativa, para que a cooperação e defesa possam ser estratégicas naquilo que é a cooperação dentro dos Estados. Para que possa ser algo mais visível e permitir, de forma efectiva, um crescimento, participação e desenvolvimento, ou até maior empenho, em contextos regionais.

Mas olhando para passado, presente e futuro, como tem sido a dinâmica na área da defesa?

O livro mostra uma certa dinâmica de crescimento constitucional substancial numa primeira fase. Depois houve desenvolvimentos muito interessantes, com alguns protocolos e cooperação ao nível das Forças Armadas, mas há ainda muita coisa a fazer, nomeadamente olhar para a área da cooperação-defesa como uma área estratégica.

O sistema geopolítico mundial parece estar a mudar muito rapidamente, seguindo um caminho multipolar. A CPLP deveria ter outro papel neste contexto, com actores como a China, Rússia ou Estados Unidos?

A CPLP não é um instrumento multilateral, não é uma organização desse nível. Temos de colocar a CPLP ao nível da Commonwealth, por exemplo, de organizações de nível cultural, linguístico, de parceria entre países, de preocupação com o desenvolvimento. O que costumo dizer é que a CPLP é um bom instrumento diplomático de comunicação, um soft power relativamente a áreas relacionadas com a gestão e prevenção de conflitos. Não estejamos à espera que haja forças armadas, ou um exército, da CPLP. Este organismo é de diálogo e cooperação. O que fazemos, em termos de defesa, é isso mesmo, criar parcerias para que haja mecanismos de resposta a catástrofes, para dar capacidade de treino às forças armadas. Há até quem faça a pergunta: porque é a CPLP não interveio em Cabo Delgado, em Moçambique, na questão do terrorismo?

E porquê?

Porque a CPLP não é esse mecanismo de hard power, não tem capacidade, nem doutrina, logística, mandato ou viabilidade para ser empregue em operações de combate. E os Estados-membros da CPLP estão muito conscientes de que somos um mecanismo muito bom de cooperação, parceria e desenvolvimento, com contributos para a cultura e língua. Portanto, a CPLP não vai intervir no conflito entre a Rússia e Ucrânia, porque não é essa a sua área, nem tem mecanismos para essa dinâmica.

Justifica-se a existência da CPLP?

Acho que sim, obviamente, porque, como disse, a CPLP é um instrumento muito bom em termos de cooperação, da divulgação da língua portuguesa, da história. O facto é que temos cerca de 350 milhões de pessoas que falam português. Temos 30 países que são observadores associados, como a Ucrânia, o Chile, e a cultura portuguesa está representada nesta organização. Cada país tem o que quer da CPLP e dá-lhe a importância que acha que deve dar, e isso depende da política externa de cada Estado. Mas acho que a CPLP faz muito sentido no mundo em que vivemos, e fá-lo como representante multilateral da língua, da cultura, da cooperação entre os estados que falam português, e aqueles que de fim ao cabo têm alguma afinidade [com o mundo lusófono]. A questão de Macau é muito específica nesta organização.

Macau tem o papel de plataforma comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, e a China tem uma agenda para a lusofonia.

Antes de 1999 Macau tinha um estatuto próprio na CPLP, por ter administração portuguesa. Havia uma Declaração Conjunta que permitia que Macau, não sendo um Estado-membro, tivesse, de certa forma, um protocolo [com a CPLP]. Quando passou a ser RAEM, as coisas mudaram e perdeu esse estatuto de ligação, e Macau não é membro da CPLP, e obviamente não pode ser. A China também não, e não pode ser. Portanto, há aqui um estatuto de observador associado que surge para os países, organizações internacionais e regionais, e ainda as entidades territoriais dotadas de administração própria, que também não é bem o caso de Macau. O território está num limbo, entre ter uma história muito forte ligada à Lusofonia, e ter uma administração muito ligada à China, o que lhe dá, na minha perspectiva, duas dinâmicas.

Em que sentido?

Macau é um elemento fundamental na ligação entre os países da CPLP e a China. Por todos os motivos, mas pela questão da língua, história, e da sua representatividade, é um actor fundamental nesta cooperação. Macau deve ser visto, efectivamente, como um parceiro e como uma porta de entrada da China para os países da lusofonia. É isso que, de certa forma, já está a acontecer, e é a isso que a CPLP vai estar atenta, nesta relação em que Macau tem um estatuto especial. Quer queiramos, quer não, isso tem impacto. Macau é um factor de atractividade de facilitação de relações entre a China e Angola, Portugal ou o Brasil.

A permanência da Guiné Equatorial na CPLP levanta questões de credibilidade?

Concordo consigo. Terá sido, nestes 30 anos, um dos principais momentos difíceis na criação de consensos. Recordo que a Guiné Equatorial foi admitida em 2014, mas já havia um processo em fase de análise anterior. Havia sempre um prolongamento, ano após ano, e foi difícil chegar a um consenso no quadro dos países da CPLP. Em 2014, houve uma cimeira em Timor-Leste e, por acção do Brasil e Angola, houve, de certa forma, uma pressão muito grande para a entrada da Guiné Equatorial. Mas há dois princípios, para o bem e para o mal, que justificam a presença da Guiné Equatorial na CPLP.

Que são…

O primeiro argumento é que, de facto, a Guiné Equatorial tem o português como língua oficial na sua Constituição, apesar de nós sabermos que a língua portuguesa, por exemplo, abrange quatro ou cinco por cento da sociedade num todo, e já estou a ser bastante generoso. Mas há um compromisso das autoridades da Guiné Equatorial para desenvolver o português como língua de trabalho e há uma ligação histórica à cultura portuguesa e à lusofonia. Outro critério é a promessa de que, numa próxima revisão constitucional, firmar o compromisso da abolição da pena de morte. Quanto ao português, é uma coisa que leva gerações, não se faz de um ano para o outro. Nem nos próximos 10 ou 15 anos nós teremos o português perfeitamente implementado. Há alguma timidez, um compromisso, de certa forma. Quanto à pena de morte, o que é facto é que se conseguiu, parece, alguma alteração. Nunca mais houve uma acção de pena de morte [desde a adesão]. E há a esperança que, numa próxima revisão constitucional, este facto seja abolido da Constituição e que possa, efectivamente, deixar de existir. Na qualidade de membro da CPLP, estas mudanças serão mais fáceis e mais visíveis e, no futuro, a Guiné Equatorial pode, efectivamente, assumir o estatuto da CPLP tendo em conta estas premissas. Não sei se vai acontecer, deixo aqui uma reticência, e este é um momento de desafio para a própria CPLP. Há que fazer um trabalho a partir de dentro, para que a Guiné Equatorial possa estar ao nível dos outros países, principalmente nestas duas áreas.

O que é certo é que permanece uma certa falta de transparência em relação ao que se passa no país.

Temos consciência de que a Guiné Equatorial tem grandes problemas com questões da legitimidade democrática, das eleições. Há uma série de situações que reconhecemos que não são perfeitamente adequadas face ao estatuto dos países da CPLP. Acho que há uma esperança de que as coisas possam mudar, a tentativa de criar espaço para que o português possa crescer dentro da Guiné Equatorial, e ainda o compromisso para uma maior abertura e participação. O que é facto é que a Guiné Equatorial tem participado nas reuniões da CPLP, e eu tenho participado em algumas. Nas situações internacionais temos de ser pragmáticos, e temos esperança de que, só porque a Guiné Equatorial está na CPLP, isso possa dar o contributo para que a própria Guiné possa desenvolver alguns gestos mecânicos.

Mulheres timorenses vítimas de violência sexual da guerra exigem fim da discriminação

Reportagem de Domingos Freitas, da agência Lusa

A associação Pirilampo, que representa mulheres vítimas de violência sexual entre 1974 e 1999, exige que o Estado timorense as apoie, depois de anos de discriminação por parte da sociedade e das suas famílias.

“Continuamos a lutar sozinhas porque fomos vítimas no passado, não por vontade própria. Sofremos as consequências da política deste país desde 1974, por querermos a autodeterminação. Por causa dessas decisões políticas, nós, mulheres, fomos alvo de muitas violações sexuais”, disse à Lusa Maria Isabel da Silva, presidente da Pirilampo, no âmbito dos 50 anos da declaração unilateral da independência e da ocupação indonésia.

Maria Isabel da Silva acusou o Estado timorense de não lhes ter concedido reconhecimento que possa ajudar a recuperar a sua coragem e dignidade.

“Criámos a Pirilampo porque sabemos que não somos sobreviventes de pouca importância. Somos sobreviventes de violência sexual ocorrida durante a guerra, entre 1974 e 1999. Queremos recuperar a dignidade, porque muitas enfrentam estigmas nas suas comunidades e até dentro das próprias famílias”, explicou Maria Isabel da Silva.

A presidente da Pirilampo explicou que a organização tem como missão apoiar mulheres sobreviventes de violência sexual através da assistência social, legal e económica para que se tornem cidadãos fortes e independentes. A associação defende também os direitos das vítimas e sobreviventes que continuam sem voz, para que possam obter reconhecimento e atenção do Estado ou do Governo.

Maria Isabel da Silva esclareceu que a visão da Pirilampo é contribuir para que a sociedade timorense nunca mais permita que ninguém seja vítima de graves violações dos direitos humanos, sobretudo de violência sexual, incluindo assédio, abuso, violação ou casamento forçado.

A presidente da Pirilampo lamentou também que os aspetos culturais discriminem mulheres que engravidaram ou tiveram filhos de homens não identificados. “Por vezes são consideradas prostitutas, restos dos militares indonésios. Estes são insultos que nos foram dirigidos durante muito tempo”, disse.

Com apoio da Associação Chega Ba Ita (ACBIT) e da Asia Justice and Rights (AJAR), várias vítimas participaram em atividades diversas e, em 22 de outubro de 2022, estas organizações ajudaram-nas a criar o Klibur Sobrevivente Feto Pirilampo 1974-1999, para aliviar o sofrimento e as dificuldades enfrentadas.

A Pirilampo já registou 455 mulheres sobreviventes de violência sexual, das quais 87 deram à luz crianças resultantes dessas violações. Até hoje aquelas crianças, muitas vezes apelidadas “crianças da guerra”, enfrentam uma vida muito difícil, devido à discriminação por parte da família, da sociedade e, sobretudo, na administração pública.

“Chamam-lhes filhos de pais desconhecidos, filhos de homens do mato, de milícia. Isso afeta muito a sua autoestima e muitos recusam ir à escola”, alertou a presidente. Maria Isabel Silva explica que muitos destes jovens também não conseguem obter documentos básicos, como certidões de batismo da Igreja ou documentos do Estado. Vivem em zonas remotas, dependem da agricultura e não têm acesso adequado à saúde e à educação.

A presidente apelou ao Governo para prestar atenção e reconhecer estas pessoas como qualquer outro cidadão, para que também os seus filhos possam viver em liberdade e igualdade. “Estamos vivas. Não pedimos nada, não pedimos dinheiro. O dinheiro do Estado não chega para pagar a nossa dignidade. Perdemos o corpo, carregamos dor e o trauma. Só queremos recuperar o nosso ser completo. Não pedimos dinheiro”, disse, emocionada, Maria Isabel Silva.

Ainda há discriminação

Fernanda Guterres e Maria Gusmão nasceram depois de as suas mães terem sido violadas por soldados indonésios, durante a ocupação de Timor-Leste, e até hoje continuam a enfrentar discriminação no seu país. As duas carregam o estigma de serem “crianças da guerra”, nome que é atribuído a pessoas que nasceram de mulheres violadas entre 1974 e 1999, durante o conflito entre várias fações timorenses e durante a ocupação indonésia.

“Eu não me sinto livre, porque continuo a enfrentar discriminação da sociedade. Os colegas dizem-me palavras que me magoam, e eu própria tenho receio de fazer amizades devido às palavras duras que me dizem”, afirmou à Lusa Fernanda Guterres, que trabalha na organização não-governamental ACBIT, que apoia, com a Asia Justice and Rights (AJAR), as “crianças da guerra” e as mulheres vítimas de violência sexual durante a ocupação a ultrapassarem as dificuldades e traumas que marcaram as suas vidas.

“Sinto um pouco de liberdade apenas quando participo em sessões de oratória ou em formações dadas pelas irmãs, que encorajam os jovens a enfrentar a realidade”, salientou. O relatório da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), divulgado há 20 anos, e que recolheu testemunhos de centenas de vítimas de violência sexual, refere que a maioria foi cometida pelas forças de ocupação da Indonésia.

“Somos Crianças da Guerra porque as nossas mães foram forçadas e engravidadas por outros homens durante a ocupação. Caso contrário, os invasores teriam matado toda a família. Para salvar a própria vida, muitas mulheres timorenses sofreram violência sexual”, explicou Fernanda Guterres. Como consequência dessa violação forçada, as “crianças da guerra” continuam a ser alvo de insultos e estigmas. “Não tens pai”, “és filho do inimigo” ou “filho de milícia”, são alguns dos insultos que aquelas mulheres continuam a ouvir.

Quando era pequena, a mãe de Fernanda Guterres dizia-lhe que o pai estava vivo, mas ela nunca o conheceu. Mais tarde, descobriu que ele não existia, mas a mãe nunca o admitiu explicitamente. “Perguntei muitas vezes pela minha mãe e pelo meu pai. A minha mãe dizia sempre ‘o teu pai está aí’, e dizia para não acreditar se alguém dissesse o contrário. Mas nunca o conheci. No fim, percebi que não tinha pai”, disse.

Fernanda Guterres recorda também, com mágoa, as tentativas de violência sexual de membros da comunidade, unicamente devido ao passado da sua mãe. “A família e também alguns vizinhos tentaram abusar de mim. Quando já era adulta, deixei de ficar calada e pedi à minha família para enfrentarmos quem tentasse fazer-me mal”, contou a jovem de 28 anos.

Hoje, Fernanda tem a sua própria família, com três filhos, e disse ter encontrado um companheiro que a apoia plenamente. “Conheci o meu marido graças ao plano de Deus. Ele soube do passado da minha mãe e toda a sua família soube também, mas nunca me discriminaram. Sempre me acolheram bem. O meu marido apoia-me, dá-me coragem. O passado ficou para trás. Agora olhamos para o futuro e para os nossos filhos. É isso que me dá força”, afirmou.

“Vivemos uma vida simples. Não temos empregos formais, mas mantemos sempre respeito e entendimento mútuo. Quando surge algum problema em casa, conversamos e procuramos solução juntos”, disse. Fernanda Guterres conseguiu obter documentos da Igreja ou do Estado, graças ao apoio de pessoas que a ajudaram a regularizar tudo.

Maria Gusmão também reconheceu que a sua mãe foi vítima de violência sexual por militares indonésios. “Quando era pequena, na escola primária e no pré-secundário, sofri discriminação devido ao conflito que a minha mãe enfrentou. Diziam que eu era filha de milícia, filha do inimigo. Ouvia isso com os meus próprios ouvidos”, afirmou a jovem de Covalima.

Recorda igualmente que alguns elementos da sua comunidade chegaram a proibir as crianças de brincar consigo. Mais tarde, na universidade e até dentro da família, continuou a enfrentar discriminação. Apesar disso, Maria Robinson apelou às outras jovens para não perderem a vontade de lutar, nem a esperança, mesmo perante a discriminação, salientando que o Estado deve dignificar as mulheres que foram vítimas de violência sexual e também os seus filhos.

Maria Robinson conseguiu obter documentos porque o seu padrasto aceitou colocar o seu nome nas certidões de nascimento. Questionada sobre o sentimento de liberdade, respondeu que apenas se sente “um pouco livre”, sublinhando que ainda hoje enfrenta discriminação, estigma e injustiça. “Desde a família, à sociedade, à comunidade e até ao nosso próprio Estado”, afirmou a jovem de 25 anos. Maria Robinson completou recentemente a licenciatura na Universidade da Paz (UNPAZ) e trabalha também na organização não-governamental ACBIT.

Timor-Leste assinala em 28 de novembro os 50 anos de declaração unilateral da independência e da ocupação indonésia, em 7 de dezembro de 1975. A restauração da independência aconteceu em 20 de maio de 2002, depois da realização de um referendo pela autodeterminação em 30 de agosto de 1999.