Jogo | Receitas caíram quase 80 por cento em 2020 Hoje Macau - 13 Set 2021 Em 2020, as receitas globais do sector do jogo foram de 63,94 mil milhões de patacas, menos 78,4 por cento em termos anuais, de acordo com os Serviços de Estatística e Censos. Na publicação dos Resultados do Inquérito ao Sector do Jogo 2020, a redução foi justificada com a “queda significativa do número de visitantes entrados em Macau, gerada pelo impacto da pandemia da pneumonia causada pelo novo tipo de coronavírus”. No ano passado, as receitas provenientes do jogo (60,32 mil milhões de patacas) e do arrendamento (38,00 milhões de patacas) diminuíram 79,4 por cento e 29,1 por cento, respectivamente. Além destas, os juros recebidos foram de 2,65 mil milhões de patacas, menos 1,9 por cento.
Crime | Detido por suspeitas de homicídio e violação Hoje Macau - 13 Set 2021 Um homem de 36 anos foi detido no sábado por suspeitas de ter morto, violado e enterrado na Praia de Hác Sá uma mulher, de 29 anos, ambos do Interior da China. Antes dos alegados crimes, as partes encontraram-se num quarto de hotel para troca ilegal de dinheiro, segundo as autoridades. O encontro foi combinado através de uma rede social, após o indivíduo se ter mostrado interessado em receber 200 mil dólares de Hong Kong. No entanto, as autoridades acreditam que o suspeito nunca teve intenção no negócio e, por isso, assim que a mulher entrou no quarto foi atacada com um cinzeiro na cabeça, golpe que levou à perda dos sentidos e mais tarde se revelaria fatal. Após a morte, o homem retirou da mala da vítima um telemóvel e 200 mil dólares de Hong Kong e fugiu para o Interior da China. No outro lado da fronteira, desfez-se do telemóvel, antes de regressar a Macau. Novamente na RAEM, o suspeito colocou o corpo da vítima numa mala de viagem, apanhou um táxi para Hác Sá e enterrou a mala na areia da praia. As autoridades foram alertadas para o desaparecimento da vítima pelo seu namorado. Na sequência da investigação o corpo viria a ser encontrado no areal da Praia Hác Sá a 1,5 metros de profundidade. O caso foi reencaminhado para o Ministério Público e o indivíduo está indiciado por roubo, violação e homicídio.
Polícia condenado a 16 anos de prisão por passar informações aparece morto João Santos Filipe - 13 Set 2021 Um ex-polícia condenado por passar informações sobre operações das autoridades e alterar registos de entrada e saída na fronteira a troco de subornos, apareceu morto na Prisão de Coloane. O caso foi tratado como suspeita de suicídio, mas, de acordo com um comunicado da Direcção dos Serviços Correccionais (DSC), foi reencaminhado para a Polícia Judiciária (PJ) para investigação. Segundo a DSC, o corpo foi encontrado pendurado com as próprias roupas, às 15h50, quando “os guardas efectuavam a patrulha das celas”. No mesmo local foi encontrada uma carta, alegadamente escrita pelo recluso. Face ao alegado enforcamento foi chamado o pessoal médico da prisão e o ex-polícia de 48 anos foi levado para o Hospital Conde São Januário, onde foi declarado o óbito às 17h. O enforcamento terá acontecido, apesar das autoridades saberem que o recluso estava deprimido, devido à condenação, e ter deixado de tomar a medicação. “Recentemente, a parte da prisão descobriu que o recluso havia parado de usar medicamentos receitados por iniciativa própria, com a intenção de suicidar-se”, foi admitido. As autoridades dizem ter reforçado a inspecção ao ex-polícia, mas a medida não terá sido suficiente para evitar o desfecho. Morte aos 48 anos A decisão judicial que condenou o indivíduo de 48 anos a pena de prisão de 16 anos transitou em julgado no passado mês de Junho. O polícia foi considerado culpado pelos crimes de falsificação informática, violação de segredo, corrupção passiva para acto ilícito e acolhimento. No julgamento da primeira instância, segundo um artigo do jornal Ou Mun, o indivíduo optou por ficar em silêncio face às acusações de que havido revelado operações de fiscalização das autoridades e “espiar” as entradas e saídas de certos indivíduos, a troco de subornos ligados a salas VIP. Em tribunal, foi dado como provado que o homem terá por mais de 50 vezes passado informação confidencial. Quanto aos subornos recebidos, envolviam não só dinheiro, mas também o pagamento de serviços de saunas. Na leitura da sentença, o juiz destacou que o condenado não demonstrou arrependimento, que devia sentir vergonha dos crimes de que foi acusado e “aprender a lição”.
EUA | Xi Jinping adverte que mundo sofrerá em caso de confronto Hoje Macau - 13 Set 2021 O Presidente chinês, Xi Jinping, disse ao homólogo norte-americano, Joe Biden, numa conversa telefónica, que os dois países e o mundo “sofrerão” em caso de confronto entre a China e os Estados Unidos “Quando a China e os Estados Unidos trabalham juntos, os países e o mundo beneficiam, mas ambos os países e o mundo sofrerão se os dois países se confrontarem”, sublinhou Xi, de acordo com um comunicado difundido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da China. “A política dos EUA em relação à China tem causado sérias dificuldades ao relacionamento” entre as duas potências, acrescentou o secretário-geral do Partido Comunista Chinês. Foi a segunda conversa por telefone entre os líderes das duas maiores economias do mundo, desde que Joe Biden assumiu a presidência dos Estados Unidos, no início do ano. Em comunicado, a Casa Branca disse que os “dois líderes tiveram uma discussão ampla e estratégica, na qual abordaram áreas em que os interesses convergem e áreas em que os interesses, valores e perspectivas divergem”. Os Estados Unidos manifestaram vontade que os dois lados possam trabalhar juntos em questões de interesse mútuo, incluindo as alterações climáticas e a prevenção de uma crise nuclear na península coreana, apesar das crescentes diferenças. Antes da conversa por telefone, um responsável do executivo norte-americano, citado pela agência de notícias Associated Press (AP), disse que a Casa Branca não estava satisfeita com os contactos iniciais com Pequim. O responsável, que pediu o anonimato, disse que a Casa Branca esperava que uma conversa entre os dois líderes fosse benéfica. Acertar agulhas O comunicado emitido pela diplomacia chinesa destacou que “ambos os líderes mantiveram uma comunicação estratégica sincera, ampla e profunda, e abordaram as relações bilaterais e questões pendentes de interesse comum”. “A comunidade internacional enfrenta muitos problemas comuns. A China e os EUA devem assumir maiores responsabilidades e continuar a olhar em frente e demonstrar valor estratégico e político”, acrescentou Xi Jinping, de acordo com a mesma nota. Xi citou em particular as iniciativas chinesas para combater as alterações climáticas, dias após a visita à China do enviado especial dos Estados Unidos para o clima, John Kerry. Xi e Biden “concordaram em manter uma comunicação regular por meio de vários canais”, no âmbito das questões do clima, enquanto orientam responsáveis dos respectivos governos, em diferentes níveis e áreas, para fazerem o mesmo, destacou o comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. Na semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, alertou John Kerry que a deterioração das relações entre os dois países pode prejudicar a cooperação na questão do clima. Wang disse a Kerry que a cooperação não pode ser separada do relacionamento mais amplo e pediu aos EUA que tomem medidas para melhorarem os laços.
Hengqin | Chefe do Executivo afirma que projecto de cooperação é inédito João Santos Filipe - 13 Set 202113 Set 2021 Ho Iat Seng afirmou que o modelo de gestão partilhada entre a RAEM e o Governo de Cantão é inovador e inspira confiança. Por outro lado, tudo indica que os residentes com nacionalidade portuguesa vão precisar de visto para irem à Ilha da Montanha Uma experiência nova que nunca foi tentada em nenhum país ou território. Foi desta forma que o Chefe do Executivo se referiu à experiência de gestão da Ilha da Montanha, em parceria com o Governo de Cantão. “Sabemos que não é uma zona de cooperação normal. É uma medida sem precedentes, não há um exemplo que se possa seguir”, começou por explicar Ho Iat Seng, questionado sobre o modelo de gestão. Será criada a Comissão de Gestão da Zona de Cooperação com elementos de Macau e de Cantão, que tem como principais responsáveis Ho Iat Seng e Ma Xingrui, Governador de Guangdong. A Comissão de Gestão vai depois escolher os membros da Comissão de Executiva, responsáveis por executar os objectivo do plano. “Partimos de um modelo com um chefe, para a cooperação entre o Chefe da Província de Cantão e o Chefe do Executivo de Macau […] É um novo capítulo e não há casos semelhantes no mundo”, reconheceu. “É uma nova tentativa e peço a compreensão”, apelou o governante. Sobre os elementos que vão constituir a equipa da comissão executiva e representar a RAEM no órgão de cooperação, Ho disse que são “jovens, capazes e familiarizados com os assuntos das duas regiões”. Contudo, os nomes não foram revelados, porque, por um lado, é necessária autorização do Governo Central e, por outro, ainda não foi tomada uma decisão final. Pouco muda para os portugueses Durante a conferência de imprensa, Ho Iat Seng foi questionado sobre a hipótese de os residentes com passaporte português irem a Hengqin sem necessidade de visto. Sem responder à questão, o Chefe do Executivo deu a entender que não há alterações à situação actual. “Na realidade, a China faz parte da Organização Mundial do Comércio e estamos abertos ao mundo. É a nova conjuntura do Estado”, limitou-se a declarar. “Qualquer pessoa vai poder investir e ter os seus interesses garantidos. Para participar nos investimentos não é necessário ter Bilhete de Identidade de Residente”, acrescentou. A gestão do território será regida por uma mistura de sistemas jurídicos. Segundo o Chefe do Executivo, o modelo de Macau vai ter primazia em todas as áreas à excepção da segurança, que é um exclusivo da província de Cantão. “Não vamos fazer um regime de copy e paste em Hengqin. Vamos fazer uma harmonização do sistema e trabalhar para aproveitar o melhor de cada região, numa lógica reformista. O melhor do nosso lado e do deles”, sustentou. No entanto, todo o ordenamento jurídico da RAEM não será aplicado directamente na zona de cooperação, mas uma selecção de leis em “matéria civil e comercial”. Em jeito de exemplo, Ho Iat Seng referiu o acesso à internet vai ser praticamente livre, “desde que os conteúdos não sejam vincadamente anti-China”. Este aspecto foi justificado com as vantagens da circulação da informação para a indústria de alta tecnologia. Importância da diversificação De acordo com o líder do Governo, a importância da diversificação económica, um dos objectivos do projecto de cooperação, ficou mais clara com a pandemia da covid-19. “Após vários anos de desenvolvimento, Macau tem sofrido, desde o ano passado, o impacto da pandemia do novo coronavírus, e toda a nossa sociedade tomou consciência da fragilidade de uma estrutura económica única”, considerou. O projecto é assim visto como essencial para “manter a estabilidade, a longo prazo”. Apesar de não te aliviado restrições fronteiriças com Hong Kong, um dos mercados mais importantes para a RAEM onde a pandemia está controlada, Ho lamentou a situação vivida pela indústria do jogo. “[A diversificação] é uma política para que a economia não seja afectada por pandemias. Os trabalhadores do jogo estão a perder o trabalho e a ter cortes salariais. Não gostávamos de ver essa situação continuar”, afirmou. Bolsa mais longe O do Chefe do Executivo não deixou dúvidas que a diversificação vai passar por áreas como os serviços financeiros, a medicina tradicional chinesa e indústrias de tecnologias de ponta. No entanto, e embora não tenha sido propriamente confirmado, a possibilidade de criar uma bolsa de valores em Macau ou na Ilha da Montanha parece estar mais longe. “Vamos seguir as exigências do Estado e implementar as medidas definidas. Esta Zona Conjunta é inovadora também para o sector financeiro e vamos focar-nos na gestão e criação de riqueza, assim como no mercado de obrigação. Se houver outros desenvolvimentos, vamos estudar as possibilidades”, contou. Valor acrescentado Outro assunto abordado prende-se oportunidades para empresas e jovens locais. No que diz respeito ao comércio, Ho Iat Seng sublinhou que não quer que as empresas locais fechem em Macau para se mudarem para Hengqin. O objectivo é uma lógica de expansão. “Até os supermercados podem ir para Hengqin vender os seus produtos e praticar os mesmos preços de Macau. Mas, não queremos que os negócios se mudem e que deixem Macau”, vincou. “Queremos que haja uma expansão e acreditamos que vai ser facilitada com a circulação total e livre”, destacou. A expansão em vez da realocação foi um dos pontos frisados várias vezes pelo Chefe do Executivo, em mais do que uma ocasião. Ao mesmo tempo, o líder do Governo vincou também que ninguém vai ser obrigado a ir viver ou trabalhar no Interior. “Há pessoas que não gostam do Interior, que não visitam as cidades e nós não podemos forçá-las a ir”, reconheceu. Ho sublinhou igualmente a necessidade de a Ilha da Montanha ser uma zona com empresas internacionais e não apenas um destino para empresas do Interior, que procuram tirar vantagem da menor taxa de impostos, que será de 15 por cento. “Não queremos que seja uma zona para onde as empresas do Interior se vão instalar. Não é uma transição das empresas de Guangzhou para a Ilha da Montanha. Queremos que sejam negócios novos, por isso não vamos aprovar que as fábricas se instalem sem critério”, disse Ho. “Este aspecto é uma indicação muito clara do plano e até já recebemos muitos pedidos para instalações. Podemos dizer que há uma base sólida”, acrescentou. Erros do passado A utilização da Ilha da Montanha para a diversificação da economia não é uma ideia nova. Ao longo da história da RAEM tem sido um tema debatido, e Ho reconheceu que os resultados ficaram muito aquém do esperado. “Passaram mais de 20 anos após o retorno e com todos os esforços obtivemos resultados positivos. Mas, francamente, sabemos que não alcançamos a diversificação económica”, admitiu. Sobre o passado, o Chefe do Executivo não teve problemas em reconhecer os erros e indicou que houve demasiado investimento focado apenas no sector do imobiliário. “Os 400 mil milhões de patacas investidos foram para o imobiliário, porque muito queriam investir nesse sector e proporção ficou assim bem maior”, reconheceu. Porém, a aposta falhada não foi inconsequente. Ho Iat Seng explicou que o investimento resultou na construção de muitas infra-estruturas como bairros habitacionais e edifícios para escritórios que vão finalmente ser aproveitados.
Óbito | As mensagens que Jorge Sampaio deixou durante as visitas oficiais a Macau Andreia Sofia Silva - 13 Set 2021 A preservação da vida das gentes locais, garantia do Estado de Direito e continuidade do bilinguismo nas instituições públicas. Estas foram algumas das ideias deixadas por Jorge Sampaio nos discursos que proferiu em várias ocasiões públicas nas duas visitas oficiais que realizou a Macau antes de 1999. A documentação dos arquivos da Presidência da República traça uma rota de memórias dos momentos antes do retorno de Macau para a China. Em Fevereiro de 1997, na cerimónia de inauguração do edifício dos tribunais de primeira instância, Sampaio destacou a importância da Declaração Conjunta, que estabeleceu “a preservação da maneira de viver [do território], servida por um largo grau de autonomia das suas instituições, nas quais se compreende o poder judicial independente”. Sampaio referia que é nos tribunais que “sempre residirá a última garantia de que Macau é um território submetido ao Estado de Direito e aos inalienáveis princípios que o integram”. Era importante “dotar os tribunais dos meios adequados para o bilinguismo ser uma realidade integral”. O Presidente da República alertava, na mesma ocasião, para a importância do respeito dos princípios consagrados “para que os tribunais de Macau possam ser, agora e no futuro, os garantes da aplicação da justiça e o lugar seguro em que sempre encontrarão protecção os direitos, liberdades e garantias dos residentes neste território”. Uma AL multicultural Também em Fevereiro de 1997, Jorge Sampaio falou numa sessão solene na Assembleia Legislativa (AL), onde lembrou que a Declaração Conjunta acarretava “a prudência de quem sabe não poder comandar todo o destino de toda a História”, mas que tinha um “inequívoco apreço pelos valores essenciais desta comunidade”. O limite temporal de 50 anos estabelecido pelo documento, assinado dez anos antes por Portugal e China, deixava “caminho aberto, transcorrido tal período, para a vontade dos homens e para as oportunidades do tempo”. A declaração, lembrou Sampaio, estabelecia um “paradigma essencial”, que era a “preservação da maneira de viver de Macau”. Dirigindo-se aos deputados, Jorge Sampaio destacou a importância de estes “trazerem ao debate político o que melhor se poderá adequar ao aperfeiçoamento das condições de exercício da actividade económica” e “à mais proficiente definição de uma política de trabalho e de segurança social”. O discurso dava conta de alguns dos problemas de que já então o território sofria, tal como a necessidade de “ultrapassagem de bloqueios do comércio imobiliário” e “da atribuição a todos de habitação condigna”, sem esquecer a “redefinição da política industrial”, a “hierarquização das prioridades sectoriais de desenvolvimento e de iniciativa cultural” e “o aperfeiçoamento da escolaridade e dos seus sistemas”. O lugar dos macaenses No contexto global do final de milénio, Jorge Sampaio dava conta do lugar que Macau poderia ocupar, tal como Hong Kong, num seminário internacional em 1997. O pequeno território representava “um singular elo de união entre os dois extremos do grande continente”, passando “a ocupar uma posição central na política internacional, onde se revelará o futuro das relações entre as duas principais entidades regionais do pós-Guerra Fria”. Já em Março de 1999, a meses da transição, Jorge Sampaio marcava presença na abertura do terceiro Encontro das Comunidades Macaenses, onde começava por alertar que a transferência do exercício da soberania que se avizinhava não podia ser vista, em caso nenhum, “como o fim de Macau e das comunidades que aqui, ou pelo mundo além, têm esta terra como sua”. “Portugal deixará em breve de administrar Macau. Mas os laços que o ligam às suas gentes e ao seu destino, vivam elas no território, ou algures no mundo, vão manter-se”, assegurava o então Presidente, destacando o lugar importante da comunidade macaense. “A plena viabilidade da autonomia convencionada para Macau depende, em larga medida, da participação, em todos os domínios, dos ‘filhos da terra’, intérpretes fiéis daquela identidade”, concluiu.
Óbito | Morreu Jorge Sampaio, o Presidente que testemunhou a transferência de Macau Andreia Sofia Silva - 13 Set 202113 Set 2021 Faleceu na sexta-feira Jorge Sampaio, Presidente da República portuguesa no momento da transferência de soberania. Várias personalidades ouvidas pelo HM destacaram a perda de “um bom amigo” de Macau, que quis assegurar “uma transição suave e tranquila” Jorge Sampaio faleceu na sexta-feira, aos 81 anos, no Hospital de Santa Cruz em Carnaxide na sequência de problemas respiratórios e cardíacos. O antigo Presidente da República portuguesa e Chefe de Estado no momento da transferência da administração de Macau para a República Popular da China, a 20 de Dezembro de 1999, é recordado como alguém que fez de tudo para que a transição decorresse sem sobressaltos e de acordo com a Declaração Conjunta, assinada em 1987. “Nessa altura, já quase tudo o que era importante estava decidido”, lembrou ao HM Vitalino Canas, membro do Partido Socialista (PS), partido de Sampaio, e à data secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Foi nessa qualidade que Vitalino Canas acompanhou de perto o dossier Macau. “Ele teve a vontade de assegurar uma transição suave, tranquila, cumprindo o que estava internacionalmente acordado entre o Estado português e a China. Jorge Sampaio era uma pessoa muito rigorosa e tinha muito o sentido de responsabilidade.” Fernando Lima, ex-assessor de Cavaco Silva, recorda que Jorge Sampaio “foi sempre uma pessoa muito interessada e empenhada para que tudo corresse bem, porque [Macau] era a última referência do tempo do Império português”. Nesse sentido, Jorge Sampaio “fez tudo para que Portugal saísse com a maior dignidade de Macau e para que os portugueses sentissem orgulho por tudo o que tinham feito em Macau”. Em declarações à TDM Rádio Macau, Anabela Ritchie, ex-presidente da Assembleia Legislativa, falou da perda de “um bom amigo” de Macau. “Recordo-me de ter falado muito com ele, sobretudo nos últimos anos antes da transição. Tivemos muitas ocasiões para conversar, trocar impressões sobre assuntos de Macau e sempre vi no Doutor Jorge Sampaio o mesmo empenho, o mesmo interesse, a mesma atenção aos assuntos de Macau.” Anabela Ritchie destacou também a preocupação de Sampaio com o projecto da Escola Portuguesa de Macau. “A maneira como ele lidava com as pessoas, o carinho, a amizade, é uma coisa que eu guardo de uma pessoa que deixa memórias muito especiais”, afirmou. Visão longínqua Arnaldo Gonçalves, que fez parte da Administração de Rocha Vieira, lamenta a falta de visão de Jorge Sampaio relativamente à manutenção de alguns quadros portugueses após 1999. Havia “a imposição de Lisboa de se fazer um levantamento dos quadros portugueses que estavam na Administração de Macau e pôr fim a contratos. O Presidente era contra a continuação de uma comunidade portuguesa significativa em Macau. A mim pareceu-me mau e uma falta de estratégia. Porque é que os portugueses tinham de sair de Macau, se havia o conceito de autonomia associado à continuação da presença portuguesa?”, questionou. Apesar desta “pedra no sapato”, Arnaldo Gonçalves recorda Jorge Sampaio como “uma pessoa afável, que tinha uma relação franca e simpática com a comunidade portuguesa”. A ligação de Sampaio ao processo de transição ficaria ainda marcada por tensões políticas com o Governador Rocha Vieira. Arnaldo Gonçalves disse ter sentido “alguma preocupação [do Presidente] para tentar saber tudo o que se passava e dar orientações muito concretas em aspectos relativos à transição”. Mesmo com as tensões, Rocha Vieira manteve-se, em 1996, à frente do último Governo português em Macau, decisão elogiada por Jorge Neto Valente, que preside à Associação dos Advogados de Macau. Dessa forma foi possível que “a transição fosse tranquila, efectivamente, como se fez”, disse à TDM Rádio Macau. “Teria sido muito mau para Macau e para os portugueses ter havido uma alteração” dessa natureza, destacou. Numa nota de pesar publicada nas redes sociais, a secção do PS em Macau lembrou um político que “institucionalmente sempre respeitou Macau” e “tratou sempre com alto nível de consideração todas as autoridades”. “No momento da transição de Macau para China conseguiu estabelecer uma transição harmoniosa, pacifica e respeitadora da história de Portugal, evitando uma via de afrontamento e usando uma estratégia de cooperação. Sempre atento aos problemas da comunidade, Sampaio colocou-se na linha da frente daqueles que protegiam os valores de Macau e censurou os que do território se aproveitavam”, acrescenta a mesma nota. De Lisboa para a presidência Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau e ex-secretário adjunto de Rocha Vieira, destacou que “o papel de Jorge Sampaio não foi determinante, nem especialmente relevante”, pois tudo já estava decidido. “Creio mesmo que ele, por tudo quanto pude ver e sentir, nem terá alguma vez compreendido Macau, nem terá acreditado no papel que o território poderia desempenhar, após a transição, como plataforma de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa”, criticou. Formado em Direito, Jorge Sampaio foi secretário-geral do PS entre 1989 e 1992, presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1990 e 1995 e depois Presidente da República, tendo cumprido dois mandatos entre 1996 e 2006. Após a passagem pela Presidência da República, Sampaio foi nomeado em 2006 pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas enviado especial para a Luta contra a Tuberculose e, entre 2007 e 2013, foi alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações. Actualmente, presidia à Plataforma Global para os Estudantes Sírios, que fundou em 2013 com o objectivo de dar resposta à emergência académica que o conflito na Síria criara, deixando milhares de jovens sem acesso à educação. A última homenagem O funeral de Jorge Sampaio realizou-se ontem com honras de Estado. Um longo aplauso marcou a paragem do cortejo fúnebre de Jorge Sampaio junto ao Palácio de Belém, Lisboa, residência oficial do Presidente da República, cargo que ocupou entre 1996 e 2006. Também à chegada aos Jerónimos foi aplaudido por centenas de pessoas, que permanecem no exterior para assistir ao funeral através de um ecrã gigante. A urna foi retirada do antigo picadeiro real, local onde decorreu o velório do antigo Presidente da República, pelas 10h04, de Lisboa, por cadetes das Forças Armadas, e seguiu em cortejo com escolta de honra, parando minutos depois à porta do Palácio de Belém, como estava previsto no programa das cerimónias. Rosas brancas adornaram a charrete da GNR que transporta a urna, coberta pela Bandeira Nacional, e puxada por quatro cavalos brancos, num cortejo escoltado pela Guarda de Honra da GNR a cavalo. O cortejo fúnebre do antigo Presidente da República Jorge Sampaio chegou ao Mosteiro dos Jerónimos às 10h35 e foi aplaudido por centenas de pessoas, que permanecem no exterior para assistir ao funeral através de um ecrã gigante. Alexis Tam presente Numa nota divulgada ao final da noite de domingo, o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, disse “lamentar profundamente” o falecimento de Jorge Sampaio, tendo enviado uma carta de condolências ao actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Na carta, foram enviadas “as mais sentidas condolências” à família. A RAEM destacou ainda Alexis Tam, chefe da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, para participar nas cerimónias fúnebres.
Eleições | Ron Lam U Tou, da Poder de Sinergia, eleito pela primeira vez Andreia Sofia Silva e Nunu Wu - 13 Set 2021 Ron Lam U Tou, candidato pela lista Poder da Sinergia, conseguiu ser eleito pela primeira vez para a Assembleia Legislativa (AL), tendo obtido um total de 8.763 votos. O líder da lista agradeceu aos eleitores e apoiantes e prometeu “fazer muito trabalho na AL e da melhor forma, tal como prometido na campanha”. “Não me vou tornar mais agressivo ou conservador tendo em conta os diversos assuntos”, acrescentou. Sobre a elevada abstenção nestas eleições, Ron Lam U Tou frisou que a desqualificação de alguns candidatos e a pandemia poderão ter sido factores principais. “Apesar de ter caído a taxa de votação, nós ganhamos mais votos, o que foi um reconhecimento”, disse o candidato, que destacou o facto de ter obtido um assento na AL mesmo sem ligação às associações mais tradicionais. “Queríamos criar um novo fenómeno e um novo conceito na AL, que resultasse em mudanças concretas e visíveis para Macau”, referiu. A primeira vez que a lista Poder da Sinergia se candidatou às eleições foi há quatro anos, mas não obteve qualquer assento no sufrágio directo. Actual presidente da Associação Sinergia Macau, Ron Lam U Tou esteve ligado, durante vários anos, à tradicional Federação das Associações dos Operários de Macau, tendo saído para fundar este novo movimento político.
Os aeroportos não se entendem André Namora - 13 Set 2021 Todos nós sabemos os milhões de euros que envolvem a construção de um aeroporto e as centenas de interesses económicos que estão por trás da decisão final para a edificação de um empreendimento desta envergadura. Portugal é um país tão pequeno e nunca se ouviu falar num número tão exagerado de possíveis aeroportos, já não referindo os aeródromos que poderiam ser transformados em aeroportos. Temos o aeroporto Sá Carneiro, no Porto, cujos gestores queixam-se a toda a hora da discriminação da TAP relativamente aquela unidade aeronáutica. Em Lisboa, está o busílis da questão, se atendermos que aeroporto de Faro é destinado a uns aviõezinhos destinados aos turistas que vêm mergulhar nas águas do Algarve. Em Lisboa, o aeroporto da Portela, agora denominado Humberto Delgado, é um verdadeiro milagre, possivelmente com origem em Fátima. Custa a acreditar como é que em tantos anos ainda não aconteceu uma tragédia enorme com a queda de uma aeronave no centro da capital, o que seria uma desgraça. O aeroporto de Lisboa está esgotado, não comporta mais o registo de aumento no seu movimento. Como dizia um comandante da TAP “Isto está a rebentar pelas costuras”. Ainda me recordo da primeira vez que aterrei no aeroporto de Banguecoque, na Tailândia, e demorei de autocarro uma hora a chegar ao hotel. O aeroporto tailandês estava situado a muitos quilómetros de distância da capital. Não se concebe que tenham passado décadas e os nossos governantes nunca tenham pensado numa solução viável e alternativa à pista existente na Portela. De há uns poucos anos a esta parte é que se iniciou o reboliço sobre a construção de um novo aeroporto que servisse Lisboa. Lembram-se da Ota? Ui, o que foi aquilo. Um descalabro vergonhoso. Sem estudos realizados por grandes especialistas na matéria, começou-se a anunciar que a Ota iria ser a alternativas para Lisboa. Os amigos dos políticos governantes começaram a comprar terrenos ao redor da Ota que foi um fartar vilanagem. Compraram por 10 a pensar vender por 100. Acabaram por vender por 10 o que tinham comprado por 100. Um aeroporto na Ota veio-se a provar que não tinha viabilidade. Depois apareceu o nome de Alverca. Ah este sim, já tem uma boa pista da Força Aérea, está perto de Lisboa, já tem ligação rodoviária e ferroviária, Alverca é que será o ideal. Nem fazem ideia a especulação que se gerou de imediato no preço das vendas das casas e dos terrenos. Bem, afinal, vieram os estudos profissionais e as conclusões eram infrutíferas para que Alverca servisse de aeroporto de apoio ao de Lisboa. Mas aqui é que o gato vai às filhoses. Fala-se sempre na construção de um pequeno aeroporto de apoio ao da capital, quando Lisboa devia deixar de possuir um aeroporto no centro da urbe e com os aviões a passarem ao lado de prédios com 13 andares, como é o caso da avenida dos Estados Unidos da América e do Campo Grande. De seguida, viu-se uma luz ao fundo do túnel: o ideal será no Montijo. Já é uma base aérea e com umas modificações estruturais será ouro sobre azul. Os abutres na caça dos terrenos apareceram logo e à volta do Montijo foi tudo vendido a um preço exorbitante. Os interesses económicos de certos políticos e seus amigos empresários já esfregavam as mãos de contentes porque o Montijo seria a solução. No entanto, esqueceram-se, como sempre, da defesa do ambiente e da dimensão da pista. A fauna ao redor da base do Montijo é única e os flamingos vermelhos nunca resolveriam deixar o Montijo. Quanto à pista de aterragem termina mesmo junto às águas do rio Tejo e não tinha possibilidade de um acrescento, cujos custos situar-se-iam no absurdo. O tribunal superior já decidiu, e bem, que no Montijo nem pensar. Bem, então temos Alcochete. Já começaram a ser vendidos terrenos à volta de Alcochete que os consultores de imobiliário nem querem acreditar. Mas, o problema é que a construção de um aeroporto em Alcochete também tem muito que se lhe diga e levará pelo menos uns dez anos a edificar. O problema do aeroporto de Lisboa devia ter sido resolvido ontem e não pensar agora numa estrutura que pode levar a construir em uma década. Alcochete, dizem os entendidos, está sobre aquíferos, águas subterrâneas que podem com o seu movimento dar início ao abatimento de terras. Ora, se existe um só aquífero que seja na área onde pretendem projectar o aeroporto de Alcochete será melhor desistir já da ideia. Então, já que não existe entendimento para a construção de um aeroporto alternativo que sirva a capital lisboeta, ainda teremos algo de viável? Naturalmente que temos. Temos algo que ninguém dos corredores ministeriais quer ver, possivelmente porque não interessa aos abutres. Há muitos anos, não foi por acaso que os militares alemães construíram uma base aérea em Beja. E Beja, hoje em dia, tem um belíssimo aeroporto, onde acabou de aterrar o maior avião do mundo. Beja será o local ideal para com algumas modificações estruturais e a construção de hangares para a manutenção técnica, passar a ser o aeroporto ideal para transportar os passageiros para Lisboa. Se é para se gastar algum dinheiro, então, que se construa uma ligação ferroviária de alta velocidade directamente a Lisboa e uma ligação à autoestrada que liga Lisboa e Algarve. Ainda por cima, os governantes só andam a pensar numa terceira ponte entre Lisboa e a margem sul. Pois bem, que essa ponte seja apenas para os comboios que façam a ligação directa a Beja. Beja é um achado que existe e que tem todo o potencial de ser um grande aeroporto internacional a cerca de menos de uma hora de Lisboa. Quem discordar da alternativa Beja será porque pretende ganhar muitos milhões por baixo da mesa… *Texto escrito com a antiga grafia
O taufu da loja Ving Kei José Simões Morais - 13 Set 2021 Em 2010 procedemos a uma recolha de informações sobre antigas lojas de produtos pertencentes a um quotidiano que então começava a desaparecer substituídas por um novo estar cuja mudança de gostos as deixavam sem clientes. Passados dez anos voltamos a fazer a ronda por Macau para registar as que tinham resistido e quais as mudanças apresentadas. Daí voltarmos à loja de sopa de fitas Ving Kei na Rua da Tercena 47, onde já não encontramos a senhora Lei, que nos seus 85 anos se mostrara nessa primeira visita com uma vigorosa energia e nos relatara os primórdios da loja. “Naturais de Panyu, Lei Kwong Meng emigrara para Hong Kong e em 1950 veio para Macau quando ela aqui chegou. O marido, sem conseguir arranjar emprego, adquiria diariamente um pouco de taufu, andando pela rua a vendê-lo e depois, ainda ia ajudar a quem lhe deva a mão. Limpava e seleccionava os feijões de soja, lavava a cozinha e tudo o que havia para fazer na loja onde se fazia o taufu sem nada pedir por tal trabalho. Após um ano, o dono da loja tomou-o como aprendiz, ensinando-o a fazer queijo de soja. Foi em 1958 que começou a vender pela rua o seu próprio produto. Se no início carregava os dois baldes de madeira com dois tipos de taufu ao ombro, equilibrados na vara de bambu em cada um dos lados, em 1966 adquiriu um carrinho. Tal veio facilitar o negócio no inverno, altura em que as pessoas não consomem muito tofu e por isso, com a cozinha ambulante podia dedicar-se às sopas de fitas. A loja foi comprada em 1973 por 78 mil patacas, tendo a residência no andar superior. Ao tirar a licença para se estabelecer por conta própria, o carácter明 (Meng) do nome do marido foi por engano escrito 榮 (Ving), ficando assim a ser Lei Kwong Ving. Como o significado de Ving – próspero, florescente, glorioso, agradou, não viram necessidade de o mudar, tomando assim com agrado o novo nome.” 豆腐, tâufu A soja é originária da China e está agora espalhada por todo o mundo. Taufu tem uma história que vem desde 164 a.n.E., quando o neto do primeiro imperador Han estando a trabalhar ansiosamente no encontrar um medicamento para a imortalidade, acidentalmente juntou um palito de gesso no leite de soja que bebia. Ao meter o copo à boca, o leite encontrava-se já em pasta e provando-o gostou, tendo sido essa a origem. Serviu durante a Grande Guerra como um dos alimentos mais consumidos para colmatar a falta de víveres que nesse tempo se fazia sentir e devido a ser rico em gorduras e proteínas substituiu muito bem a escassez tanto de cereais como de carne e peixe. A soja apresenta-se em diferentes variedades, aspectos e cores e apesar de necessitar de um clima com alguma humidade dá-se em quase todo o lado. Tâufu (豆腐, em mandarim dòufu), cujo significado para tâu é grão/feijão e para fu (腐) decomposto, chegou ao Japão no tempo da dinastia Tang ficando aí conhecido por tofu, sendo em português denominado queijo de soja. Como alimento muito yin não deve ser diariamente consumido. Os chineses adoram taufu e sendo bom para a saúde encontra-se constantemente entre os vários pratos apresentados nas suas mesas. Alimento versátil pode ser cozinhado de várias maneiras, frito ou assado, sendo numa sopa com vegetais que muitas vezes aparece. Com ele também se confeccionam molhos. O taufu é feito com feijões de soja amarelos que, após demolhados durante horas para ficarem com mais sumo, são depois moídos e exprimidos para deles sair o leite de soja. Esse leite muito espesso, após se adicionar um pouco de água, leva-se ao lume brando durante dez a vinte minutos onde tem que ser constantemente mexido para não pegar ao fundo do recipiente. Fervendo vai libertando uma espuma que após a cozedura é retirada. Passado através de um pano, o leite é vazado para um recipiente alto de alumínio. Assim se obtém um leite fino, ficando no pano as borras, que não são aqui aproveitadas. Produção Após a morte da idosa senhora há sete anos, o negócio de família está actualmente sob a gestão de três dos quatro filhos, pois um emigrou para o Canadá e conta com cinco lojas, três na península de Macau e duas na Taipa. A da Rua da Tercena continua a ser a principal e é onde se produz o taufu distribuído depois pelas outras duas lojas de Macau e na Taipa, também se faz taufu na situada no prédio jardins Nansan, Estrada do Governador Albano Oliveira. Iat Wa trabalha há mais de 40 anos na loja de Macau e diariamente com a ajuda do irmão Iat Cheong às 8 da manhã iniciam a confecção dos produtos de taufu para as três lojas de Macau, processo que os ocupa até às 11 horas. Durante a manhã é por duas vezes realizado este processo, sendo usados feijões amarelos de soja provenientes do Canadá. Feito o leite é depois vazado para várias caixas rectangulares de alumínio de pequena capacidade e após refrigeradas em água corrente, são guardadas no frigorífico. Está assim confeccionado o leite de soja (tau cheong), que substitui o leite animal, sendo grande parte também guardado em enormes bilhas de alumínio para ser enviado às outras lojas. Na segunda vez e após o processo acima descrito, é retirado um pouco de leite onde se adiciona gipso (gesso), uma substância solidificadora conhecida em cantonense por sêk kou, que depois é misturado ao leite quente contido no grande recipiente de alumínio. O leite de soja rapidamente coalha e retirada a espuma que se forma por cima, é espalhado por caixas quadradas de madeira com baixas paredes e cobertas previamente com um pano fino. Preenchido o espaço pelo queijo de soja, envolve-se por um pano e por cima, a tapar a caixa coloca-se uma placa de madeira a pressionar para agregar toda aquela massa. Sobre essa tampa ainda se põe baldes cheios de água para prensar, ficando a repousar durante uma hora. Estão feitos os grandes tabuleiros de taufu, que são cortados em pequenos quadrados para serem depois servidos. Já para sobremesa, o taufu fa (豆腐 花, doufu hua=flôr) é feito com uma menor percentagem de gipso, dando-lhe um sabor mais macio. A seguir é transferido para pequenas malgas que vão para o frigorífico e antes de ser servido é-lhe adicionado um adoçante. A loja está aberta das 8 da manhã até às 20 horas e ao provar um copo de leite de soja somos tentados a experimentar o delicioso taufu e para sobremesa o taufu fa. Na parede deste pequeno estabelecimento, além de fotografias antigas a registar o casal no tempo inicial do negócio, está um retrato da visita do ex-presidente da República portuguesa Jorge Sampaio. O delicioso sabor do taufu da loja Ving Kei foi conquistado pela alquimia de quem soube retirar das dificuldades iniciais o segredo para a prosperidade com que hoje se apresenta a loja de sopa de fitas, mas tal como acontece com outros negócios, a nova geração parece já não estar predisposta a nele continuar a trabalhar.
Eleições | Chan Chak Mo lidera votos no sufrágio indirecto. Coutinho, Si Ka Lon e Ella Lei eleitos Andreia Sofia Silva - 13 Set 202113 Set 2021 Já são conhecidos os 12 deputados eleitos pelo sufrágio indirecto no âmbito das eleições para a Assembleia Legislativa. Chan Chak Mo, deputado e candidato pelo sector cultural e desportivo, foi o que mais votos recebeu, num total de 2.317 votos. Angela Leong, que deixou o sufrágio directo para concorrer, pela primeira vez, no sufrágio indirecto ao lado de Chan Chak Mo, recebeu 1158.5 votos. Ambos concorriam com a lista União Cultural e Desportiva do Sol Nascente. Ho Ion Sang, deputado ligado à União Geral das Associações de Moradores de Macau (Kaifong), recebeu um total de 1775, tendo sido eleito pelo sector dos serviços sociais e educacional, através da lista Associação de Promoção do Serviço Social e Educação. Recorde-se que também Ho Ion Sang deixou o sufrágio directo para se estrear neste sistema de eleição. Pelo sector profissional, com a lista União dos Interesses Profissionais de Macau, foram eleitos os deputados Chui Sai Cheong, com 624 votos; Vong Hin Fai, advogado, com 312 votos e Chan Iek Lap, médico, com 156 votos. Pelo sector industrial, comercial e financeiro foi eleito o actual presidente da Assembleia Legislativa, Kou Hoi In, com 969 votos; Chui Sai Peng, engenheiro civil, com 484.5 votos, Ip Sio Kai, com 242.25 votos e ainda Wang Sai Man, com 121.125. Estes candidatos integram a lista União dos Interesses Empresariais de Macau. Pelo sector do trabalho, com a lista Comissão Conjunta da Candidatura das Associações de Empregados, voltaram a ser eleitos os deputados e candidatos ligados à Federação das Associações dos Operários de Macau, Lei Chan U, com 537 votos, e Lam Lon Wai, com 1074 votos. Numa nota entretanto divulgada, a Comissão para os Assuntos Eleitorais para a Assembleia Legislativa considerou que as eleições decorreram “com sucesso e de forma ordenada, correspondendo às exigências de equidade, justiça e integridade”. Mis de 100 mil eleitores votaram nestas eleições, que tiveram a colaboração de mais de três mil funcionários públicos. A esta hora já estão contabilizados os votos de 29 assembleias de voto, sendo que Si Ka Lon, número um da lista Associação Cidadãos Unidos de Macau, ligada à província de Fujian, foi eleito 18.174 votos. Segue-se Ella Lei, número um da lista União para o Desenvolvimento, recebeu 16.623. José Pereira Coutinho, da lista Nova Esperança, já foi eleito com 13.523 votos. Zheng Anting também já tem o seu lugar na AL garantido, com 13.079 votos, bem como Leong Hong Sai, da lista União Promotora para o Progresso, com 11.210 votos.
Covid-19 | Residente de 32 anos regressa do Cambodja e tem recaída Andreia Sofia Silva - 12 Set 2021 As autoridades confirmaram na sexta-feira o diagnóstico de uma nova infecção por covid-19, tratando-se de uma recaída do exterior. Trata-se de um residente de 32 anos que entrou no território e testou positivo. O homem recebeu, a 4 de Março, uma dose da vacina Sinopharm, tendo sido confirmada a infecção por covid-19 a 20 de Agosto no Cambodja. Na última quinta-feira o homem fez um teste com resultado negativo, tendo viajado, de jacto privado, para Macau. À chegada, o teste deu positivo. O residente encontra-se a realizar quarentena pois “o anticorpo IgM é negativo e o anticorpo IgG é positivo”. Até ao momento o homem não apresenta sintomas e não foi classificado como caso importado.
Eleições | As reacções dos residentes que foram às urnas Andreia Sofia Silva e Nunu Wu - 12 Set 202113 Set 2021 O HM entrevistou esta tarde vários residentes que se deslocaram às urnas, sendo que muitos deles votaram pela primeira vez. Foi o caso da senhora Wong, com 50 anos, que foi incentivada a dar apoio aos “mais jovens que ousam falar”. “Por isso votei numa cara nova. Esta foi a primeira vez que votei, porque no passado vi muitas situações más e não tinha confiança. Desta vez quero que as novas gerações tenham boas condições [de vida] e por isso votei”, confessou. Sobre estas eleições, Wong disse achar que os residentes “não tivessem vontade de votar por causa de histórias passadas, porque podem achar que ir votar é um acto em vão ou que os deputados não fazem nada”. Lei, com 24 anos, votou nas eleições de 2017 e, desta vez, destacou a organização das assembleias de voto tendo em conta a pandemia. “Acho que há menos pessoas a votar por causa da desqualificação dos candidatos, pois estes eram do campo democrata. Acho que isso trouxe algum impacto às novas gerações.” Este eleitor disse ainda que muitos dos candidatos podem não conseguir cumprir as promessas feitas durante a campanha eleitoral. “Mas penso que a lista em que votei vai cumprir. Vi o que os deputados fizeram na Assembleia Legislativa e como votaram e isso influenciou a minha decisão.” Para o senhor Cheang, de 40 anos, votar é o cumprimento de um dever cívico. “Penso que a organização é melhor do que há quatro anos, pois é mais rápido votar. Não tenho medo da pandemia. Penso que votaram menos pessoas desta vez”, rematou.
Eleições | Dados provisórios mostram menor participação desde 1999 Hoje Macau - 12 Set 202113 Set 2021 Dados provisórios relativos às eleições legislativas que decorreram esta tarde revelam que a participação do eleitorado foi a menor desde a transição. Isto porque votaram apenas 42,38 por cento dos eleitores, num total de 137.281 pessoas. Relativamente ao sufrágio indirecto votaram sete mil pessoas, com uma taxa de afluência às urnas de 87,33 por cento. Nas últimas eleições legislativas, em 2017, votaram 174.868 mil pessoas, com uma taxa de participação de 57,2 por cento. Neste ano os números da ida às urnas bateu recorde desde 1999. No que diz respeito ao sufrágio indirecto, há quatro anos votaram 5.587 pessoas, 91,6 por cento do eleitorado. Esta tarde a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong U votou na assembleia de voto do Colégio do Sagrado Coração de Jesus (Secção Chinesa) e disse à comunicação social que os últimos governos da RAEM têm mantido sempre uma boa cooperação e um diálogo com a Assembleia Legislativa. A secretária afirmou ainda que “um reforço da fiscalização pela AL será bem-vindo pelo Executivo”.
Filipinas elevam para 17 número de mortos causados pela passagem do tufão Conson Hoje Macau - 12 Set 2021 As autoridades filipinas elevaram hoje para 17 o número de mortos causados pela passagem do tufão Conson, que atualmente se encontra sob a região central do Vietname, depois de ter passado a tempestade tropical. O conselho de gestão e redução do risco de desastres das Filipinas indicou, na última utilização que sete pessoas continuam desaparecidas e que pelo menos 24 ficaram feridas. O balanço das autoridades, na sexta-feira, dava conta de 14 mortos, 20 feridos e sete desaparecidos. Quase nove mil edifícios e 168 estradas ficaram danificados com a ação do Conson, nas províncias centrais do arquipélago filipino, entre terça e quinta-feira, e perdas avaliadas em 630 milhões de pesos, disse. As autoridades filipinas acrescentaram que mais de 29.800 pessoas continuam refugiadas nos centros de acolhimento ou em casas de familiares e próximos. Por seu lado, o Vietname emitiu alertas devido ao possível risco de ventos fortes e chuvas torrenciais desencadeados pelo Conson. No sábado, um outro tufão, o Chanthu, passou pelo extremo sul do arquipélago filipino sem causar grandes danos ou vítimas mortais, indicou o conselho. O Chanthu encontra-se hoje perto da costa leste de Taiwan, onde o vento e a chuva forte estão a causar perturbações nos transportes e no fornecimento de eletricidade. As Filipinas são atingidas, em média, por 20 tufões todos os anos. O mais destrutivo foi o supertufão Haiyan que, em novembro de 2013, atingiu as ilhas Samar e Leyte, deixando sete mil mortos e 200 mil famílias desalojadas. O arquipélago, muito vulnerável às alterações climáticas, assenta no chamado “Anel de Fogo do Pacífico”, zona onde se regista 90% da atividade sísmica e vulcânica do planeta.
Eleições | Taxa de afluência às urnas não chega aos 40 por cento Hoje Macau - 12 Set 202112 Set 2021 A taxa de afluência às urnas nas eleições para a Assembleia Legislativa, que se realizam hoje, era de apenas 37,88 por cento até às 19h de hoje, tendo votado 122.692 pessoas. Para eleger os deputados pelo sufrágio indirecto votaram 6.600 pessoas, com uma taxa de afluência de 82,34 por cento. O secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, votou esta tarde no Pavilhão Desportivo do Centro Desportivo Olímpico (Zona A) e disse que foram recebidos, até ao momento, 18 casos suspeitos de infracção da lei eleitoral, 17 deles ligados ao uso de telemóvel nas assembleias de voto e um de propaganda ilegal. O secretário adiantou que estes casos estão ainda a ser investigados, sendo depois entregues ao Ministério Público. Wong Sio Chak frisou ainda um aumento do número de infracções por comparação às anteriores eleições legislativas. Lei Wai Nong, secretário para a Economia e Finanças, também votou esta tarde no Pavilhão Desportivo do Centro Desportivo Olímpico, tendo feito um apelo à votação activa da população. Por sua vez, Raimundo do Rosário, secretário para os Transportes e Obras Públicas, afirmou que todo o processo de votação “decorre de forma suave” e que “tem exercido sempre o seu direito de voto”, tendo encorajado os eleitores “a votarem e a cumprirem o seu dever cívico”. Raimundo do Rosário votou na zona A do Estádio de Macau. André Cheong, secretário para a Administração e Justiça, votou no Instituto Salesiano da Imaculada Conceição e disse que a Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), “de acordo com as experiências adquiridas em eleições anteriores, adoptou medidas de resposta para o momento em que a afluência atingir o pico nas assembleias de voto”. O mesmo responsável referiu ainda que a nova legislatura da AL será constituída em meados de Outubro e que o Governo “espera não só manter uma comunicação e cooperação estreitas” como “levar a bom porto” o trabalho do hemiciclo. André Cheong frisou que o Executivo “irá colaborar com o trabalho de fiscalização da AL na execução das Linhas de Acção Governativa” e também “em articulação com o trabalho dos deputados”.
Ho Iat Seng apela ao voto nas eleições de hoje para a Assembleia Legislativa Hoje Macau - 12 Set 2021 O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, apelou hoje ao voto nas eleições para o hemiciclo e pediu à população que respeitasse as medidas de combate à pandemia de covid-19. Mais de 325 mil eleitores são chamados a votar hoje nas eleições para a Assembleia Legislativa (AL). Mais de 56 mil eleitores votaram nas primeiras quatro horas, o que se traduziu numa taxa de afluência de 17,48%. Após votar, Ho Iat Seng, que foi deputado e presidente da AL, aproveitou para sublinhar a importância daquele órgão na fiscalização do Governo. Por outro lado, afirmou que, após serem conhecido os resultados, irá nomear deputados que possam dar voz a sectores que não fiquem representados no hemiciclo. Apenas um português, José Pereira Coutinho, encabeça uma das listas, a Nova Esperança, que apresenta ainda em quinto lugar Lídia Lourenço. Já o arquitecto Rui Leão, presidente do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa CIALP, integra em sétimo lugar a lista Observatório Cívico, encabeçada pela deputada Agnes Lam. Pereira Coutinho e Lídia Lourenço repetem as respetivas candidaturas, Rui Leão regressa depois de ter ficado de fora em 2017. Pereira Coutinho será o único em lugar elegível, de acordo com os resultados das últimas legislativas. A AL, entre 2021 e 2025, será composta por 33 deputados, de entre os quais 14 deputados eleitos por sufrágio directo, 12 eleitos por sufrágio indirecto e sete outros nomeados pelo Chefe do Executivo.
ONU diz que fecho de escolas no sul da Ásia privou de educação 434 milhões de crianças Hoje Macau - 10 Set 2021 O encerramento de escolas há mais de um ano, devido à pandemia do novo coronavírus, privou de educação 434 milhões de crianças no sul da Ásia, acentuando “desigualdades alarmantes”, alerta a UNICEF num relatório publicado ontem. Antes da pandemia, quase 60% das crianças do sul da Ásia “com idades próximas dos 10 anos” não conseguiam ler ou entender um texto básico, disse o Fundo das Nações Unidas para a Infância. O encerramento prolongado das escolas nesta região desde o início da pandemia do SARS-CoV-2 “piorou uma situação que já era precária”. “Raparigas, crianças de famílias mais desfavorecidas e crianças com deficiências têm enfrentado as maiores dificuldades em termos de ensino à distância”, declarou a agência da ONU. Na Índia, 80% dos jovens de 14 a 18 anos entrevistados disseram que aprenderam menos do que quando frequentavam as aulas presenciais, de acordo com o relatório. Cerca de 42% das crianças de 6 a 13 anos entrevistadas afirmaram não ter tido acesso ao ensino à distância. Deepu Singh, um proprietário de quinta no Estado de Jharkhand, no leste da Índia, espera que as escolas reabram em breve, sobretudo por causa dos seus filhos, que não vão às aulas desde que a escola encerrou no ano passado e não têm acesso à internet. “O futuro deles está em jogo. Quero que frequentem a escola”, disse Singh à agência de notícias AFP. “Eu não posso fazer nada. Tenho que colocar comida na mesa. Não posso pagar um telemóvel”, disse o agricultor. No Paquistão, 23% das crianças pequenas não têm acesso a nenhum dispositivo eletrónico para usufruir do ensino a distância, segundo o relatório, especificando que quando esse equipamento está ao alcance, apenas 24% consegue utilizar a tecnologia. No Sri Lanka, 69% dos pais de alunos do ensino fundamental entrevistados observaram que os seus filhos aprenderam “menos” ou “muito menos”. “Mesmo quando uma família tem acesso à tecnologia, as crianças nem sempre são capazes de a utilizar”, disse George Laryea-Adjei, diretor regional do UNICEF, num comunicado, acrescentando que, “portanto, as crianças estão a sofrer grandes atrasos em sua jornada de aprendizagem”. A agência da ONU apelou aos professores para avaliarem o nível de aprendizagem dos seus alunos e garantir que estes se atualizem instituindo um período de “recuperação do aprendizado”. O UNICEF também pede aos governos que dêem prioridade à vacinação dos professores e um treino específico para que possam entrar em contacto com crianças que não têm acesso à tecnologia. Rajani KC, professor no Nepal, acredita que métodos alternativos ainda não são eficazes para garantir uma aprendizagem eficaz. “Estamos em uma situação perigosa. Se a pandemia continuar e o setor universitário perder mais anos, que tipo de recursos humanos o país se beneficiará?”, perguntou Rajani KC.
O Jogo das Escondidas – Capítulos 71 ao 80 Fernando Sobral - 10 Set 202128 Set 2021 71 Esperou por Amoroso. Sabia que ele viria. Iria inquiri-la e tentar colocá-la contra a parede. Conhecia a táctica psicológica do torturador: dividir o mundo entre “nós” e “eles”. A crueldade desencadeada na vítima é sempre promovida por o torturador necessitar de acreditar que o seu mundo é justo. As vítimas merecem o que lhes está a acontecer, segundo eles. Era uma boa defesa. Mas o tenente Amoroso não era um santo, nem um justo. Olhou para o relógio de bolso de ouro de Joaquim Palha, que trouxera. Precisamos de relógios para nos lembrar que somos apenas mortais. Era verdade. Nós passamos pelo tempo. Os relógios ficam. Sentiu que o tenente estava atrasado. Finalmente ouviu um ruído. Eram passos. A criada estava a indicar o caminho a Amoroso. Escutou a porta a abrir-se, sem aviso. Através do espelho, viu um corpo a aproximar-se dela. Ele parou e ficou a olhar para as suas costas e para a sua face no espelho. – Boa tarde, senhora Palha. Seguiu-se um breve silêncio. – Sabe o que me traz aqui. – Boa tarde, tenente. Presumo que sim. Ela não se virou e ele puxou uma cadeira para que ela pudesse ver a sua cara através do espelho. – Escuso de lhe recordar que o seu marido morreu. Aparentemente, suicidou-se. Sabemos que Max Wolf fugiu. E também temos a certeza que ambos eram sócios com um chinês, Fu Xian, para colocar heroína à venda em Macau e Hong Kong. Isto para além do seu marido conspirar para que, se Macau fosse vendida à Alemanha, lucrar com isso, algo que é pouco patriótico. Resta-nos resolver duas coisas. Quem matou o seu amante, João Carlos Silva? E até que ponto estava a senhora ao corrente de tudo isto? Sofia Palha levou um lenço aos olhos, como se uma lágrima traiçoeira ainda estivesse por ali. – Meu caro tenente, aqui em Macau temos a nossa terra e o nosso mar. E a nossa energia. Acreditei demasiado nesta cidade. E nas suas pessoas. E, claro, no meu marido. Seguiu-o como se faz a uma luz que ilumina o nosso caminho. Nunca me questionei sobre a bondade das suas decisões. 72 – Isso não a impediu de cobiçar outros homens. – Esta cidade é pequena. Há sempre rumores de infidelidades. Uns verdadeiros, outros falsos. O meu marido sempre teve conhecimento deles. E, olhando para a sua cara, o tenente também os ouviu. Só um é verdadeiro. E já me confrontou com isso. Sabe que tive uma relação com João Carlos Silva. Vivia um momento de fraqueza. De insegurança. Precisava de ter um ombro amigo onde pudesse descansar. Encontrei-o. Não o amava. Mas escutava-me e confortava-me. Nunca sentiu essa falta, tenente? Foi esse pecado que o meu marido não me perdoou. – Foi Joaquim que matou João Carlos Silva? – Eles tinham negócios, tenente. O meu marido sabia o que se passava no Governo através dele. O João Carlos era viciado no jogo. Devia muito. Mais do que ganhava. E queria ganhar mais. Houve um momento em que o Joaquim perdeu a cabeça. Eu ia para a cama com o João Carlos e isso fragilizava-o. E depois não estava disposto a dar mais dinheiro a ele. A chantagem e o ciúme levaram à sua morte. – E como aconteceu isso? – Suponho que o Joaquim contratou um chinês, um pirata qualquer, que o matou. Eu quase enlouqueci, mas sou resistente. Percebi, depois, que eu não era a culpada. Era o dinheiro. Joaquim estava disposto a fechar os olhos à minha relação com o João Carlos desde que terminasse. E tinha terminado quase duas semanas antes da sua morte. Sofia Palha levantou-se, voltou-se e olhou fixamente para Amoroso. A sua face estava contraída, como se estivesse prestes a ser vencida pelo choro. Este levantou-se. Ela continuou, numa voz sumida: – Eu não sabia quais eram as suas lealdades e os seus negócios. Mas sei que, mesmo jurando, não acredita em mim. Aproximou-se do tenente até ficar a pouca distância dele. A sua voz era doce: – Não acredita em mim, tenente? Amoroso não respondeu. Sondou a face dela. Parecia sincera, mas algo não batia certo. Sofia Palha não poderia ser alheia a todas as conspirações cruzadas que tinham a impressão digital do falecido marido. Ela não poderia ser cega, surda e muda. A forma como ela o abordara no hotel Boa Vista provara isso. Sabia manipular os homens e as suas emoções e fragilidades. Mas não existiam provas contra ela. 73 – Veremos o que nos dirão as investigações em curso, senhora Palha. Tem mais algo para dizer? – Tenho, senhor tenente. Preciso de fazer o meu luto. E saber o que irei fazer no futuro. – O senhor Palha deve ter deixado um bom legado. Não terá problemas financeiros, por certo. Se estiver inocente de tudo isto… Ela fez um ar de espanto, sentindo que duvidavam da sua honestidade. Uma lágrima escorreu pela sua face. Amoroso tentou manter-se frio. Ela parecia aguardar um abraço acolhedor. Mas ele não o fez. Não o podia fazer. Pensou apenas: este é o momento em que ambos fingimos que Sofia Palha não está a mentir. 19. Parecer inofensivo é uma vantagem, disse Benedito Augusto. Os seus olhos estavam cansados, mas a voz estava tão viva como quando desaparecera, há quase duas semanas. – Parecer inofensivo é rentável, porque as pessoas inclinam-se perante quem não parece ter armas para as ferir. Ocultar-se é uma delicadeza. Quem é inofensivo tem o dom de conseguir a escassez de reacções. Esconde-se perante o olhar de todos. Falava como se nada se tivesse passado. Ou se quisesse esquivar-se a isso. A ausência era uma boa desculpa. O tenente Félix Amoroso vigiava-o com o seu olhar inquiridor. O padre regressara, segundo dizia, de Xangai. Acabara por não ir até Singapura, como tinha combinado com Fu Xian para cumprir um acordo secreto entre ambos. Mas, na cidade chinesa, mudara de ideias e regressara a Macau. Estavam numa taberna do Porto Interior, frequentada por marinheiros, piratas e batoteiros, como era habitual naqueles locais soturnos. O aspecto de Benedito confundia-se com o de muitos deles, com a sua cabaia negra muito suja, o cabelo desgrenhado e a barba por fazer. Dava-lhe um ar mais velho e duro. Amoroso não fazia parte daquele ambiente e era olhado com desconfiança. Não se sentia muito seguro ali. A sua mão direita estava junto da pistola, apenas por precaução. Porque Benedito era ali conhecido e respeitado. Talvez temido. Mesmo num mundo de homens que perderam a fé, um padre merece sempre algum respeito. Porque nos momentos mais terríveis, tem de se acreditar em algo. Nos deuses ou no Céu. Numa salvação qualquer. 74 – Porque é que decidiste regressar, Benedito? – Senti que algo se passara. Às vezes antecipo os acontecimentos. – Ou tens informações que te permitem tirar essas ilacções… Benedito fez um esgar. Agarrou no copo de cerveja e levou-o à boca. Desviou a questão. – Estava cheio de sede. A cerveja aqui é melhor. Amoroso não se conteve: – Qual é o teu jogo, Benedito? Este mostrou-se espantado: – O meu jogo? Conhece-me, meu caro tenente. Procuro sobreviver. E tenho sido leal consigo. Às vezes fico quieto para não espantar os demais. – Espanta-me que saibas tanto sobre a vida de Sofia Palha e do João Carlos Silva. E tão pouco de outras coisas. – Que outras coisas? Sei agora que a tua amiga Ding Ling montou uma cilada ao alemão e a Fu Xian. Sobre este fez-me um favor. Desapareceu um problema. Deixei de ter uma dívida para pagar. – Sim, ele fazia chantagem sobre ti. Sobre as tuas aventuras amorosas. E talvez sobre outras coisas que eu não sei. Mas saberei em breve. Mas como soube Ding Ling da táctica de Max Wolf para assaltar o vapor? Benedito encolheu os ombros e bebeu mais um pouco de cerveja. O tenente tamboriou os dedos da mão esquerda na pequena mesa de madeira suja que estava entre ambos. – Saíste mesmo de Macau? – Duvida disso? – Duvido. Acho que foste tu que contaste os planos de Fu Xian e de Wolf a Ding Ling. Esta resolvia-te um problema. Benedito deu uma gargalhada. Amoroso não esboçou sequer um sorriso. – Meu caro tenente, estive em Xangai. E nem sequer conheço Ding Ling. – Isso não sei. E também não precisas de conhecer Ding Ling para lhe fazeres chegar qualquer informação. Benedito olhou fixamente para Amoroso. A sua voz endureceu: – Meu caro tenente, ninguém é inocente aqui. Todos fugimos de algo. Sobretudo do nosso passado. É o que fazemos em Macau, não é verdade? Eu fugi do meu passado, mais escuro do que o que conto, é verdade. E o tenente, faz o quê? Fugiu do seu passado na guerra, no cemitério de França. E foge do seu passado recente, aqui mesmo, não é? Quer esquecer isso? 75 Amoroso sentiu um tremor. Mas Benedito continuou, ameaçador: – Abriu a caixa dos fantasmas, tenente. Agora é tarde para a tapar. Recorda-se do que aconteceu o ano passado? O que se ia passando em Macau, com a agitação levava a cabo pelos agentes de um senhor da guerra de Cantão contra os portugueses? Onde se situaram então os apoiantes de Sun Yat-sen? Estavam no meio e arriscavam-se a ser trespassados. Que sucedeu então? Amoroso engoliu em seco. Naquele momento desejou levantar-se e sair dai. Ou então, puxar a pistola e… – Quer matar-me, tenente? Esteja à vontade. Mas até lá tem de ouvir e engolir o resto. Fez uma pausa, antes de continuar: – Eu sei o que se passou. No meio da confusão, em Junho do ano passado, aconteceu algo que quase passou despercebido. Entre mortos por causa da sublevação organizada por Wong Pik-wan, a soldo do general Ch’en Chiu Ming, também pereceram inocentes. E houve lugar a ajustes de contas. Mesmo que alguns fossem por causa do seu apoio aos que atraiçoavam Sun Yat-sen. Lembra-se tenente, de corpos encontrados em diversas casas de Macau? Uns nunca foram identificados. Presumia-se que eram piratas, ou elementos das tríades, ou infiltrados por cada uma das facções. Não interessavam para as autoridades portugueses. Mas houve um caso que me mereceu a atenção… Parou propositadamente, suspendendo a respiração. Sondou a cara de Amoroso. Este estava calado, preso às palavras de Benedito. Os seus olhos pareciam blocos de gelo, que nem o calor dentro da taberna derretiam. – Lembra-se tenente? Encontraram um casal dentro da sua casa. Mortos a tiro. Sabe quem eram, não sabe? Amoroso acenou com a cabeça. – Claro que se lembra de tudo. Apesar de estar profundamente apaixonado na altura. E de estar muito dependente do ópio. Nada de anormal em tudo isso. Mas voltemos às nossas comuns recordações. A polícia não deu relevância ao caso, porque estava mais preocupada em conseguir que a paz fosse restabelecida em Macau. Mas eu sei quem era esse casal. Ele chamava-se Huang Sen e ela Lu. Tinham bons negócios em Macau e Xangai. E odiavam Sun Yat-sen, por razões que desconheço. 76 Benedito continuou: – Mera coincidência era, claro, eles serem os tios de Ding Ling. E de esta ter herdado tudo o que lhes pertencia. Incluindo o “Noite Tranquila” e as lorchas e juncos que traficam ópio para Macau. Eu fui ver. Mesmo assim fiquei de boca caada. Não hava armas para eles se defenderem. Mas tu disseste que tiveste de disparar em legitima defesa. Não te recordas do que disseste? O olhar de Amoroso ia-se tornando cada vez mais incandescente. Mas continuou sem responder. Benedito insistiu: – O que nos leva à questão mais importante. Quem os matou? Foi Ding Ling? Era rapariga para isso. Tem fibra. Gosto dela. Mas não foi. Foi o tenente. Matou-os para a proteger, acredito. Mas liquidou-os a sangue frio. Ele não tinha a arma na mão, pois não? Tenente, não julgo que, moralmente, esteja ao abrigo do Inferno. – O que te leva a dizeres-me isso? Isso não é verdade. – É. E o tenente sabe-o. E, curiosamente, todo o jogo se virou a seu favor. Tornou-se quase chefe da polícia secreta. Tudo parece uma comédia. Perguntas-me muitas vezes o que faço. Eu escondo-me nas sombras. E isso não é o que faz o tenente desde esse dia? Eu não quero iluminar esse mundo de trevas onde vives, Amoroso. Mas não te admito que atires coisas à minha cara. Elas fazem ricochete. Suspirou, antes de dizer: – É a ironia do destino. O tenente tenta esconder os seus próprios segredos, enquanto procura descobrir os dos outros. Xeque-mate, costumava dizer-se numa partida de xadrez. Era assim que Amoroso se sentia. Derrotado. Benedito não parecia gozar a sua vitória, porque também ele era um derrotado pela vida. Ou parecia sê-lo. Mas ainda conseguia guardar uma última palavra, como se quisesse enterrar o punhal na terra: – Eu compreendo-te melhor do que me entendes a mim, tenente. Eu sei que uma mulher fatal, como Ding Ling, é a que se vê uma vez e se recorda para sempre. E tu não a querias ver uma única vez na vida. E assim entregaste a tua vida nas suas mãos. Mesmo ficando as tuas cheias de sangue. Chama-se a isso uma coisa: amor. 77 Não era um momento fácil para Félix Amoroso. Mas Benedito não parecia querer tirar dividendos do que sabia. – Sabes que não será necessário encontrares desculpas se ninguém te pedir que as dês. Podes continuar a falar e a disfarçar, sem dizer a verdade ou parte dela. Não te preocupes. Eu olho para o outro lado. Era confortável, mas o tenente continuava sem perceber qual era o verdadeiro jogo de Benedito Augusto. Talvez nunca o viesse a saber. Ou só viesse a descobri-lo tarde demais. 20. A tarde estava muito quente. E muito húmida. Não se levantara sequer uma ligeira brisa para acalmar os corpos e as almas. O governador Ricardo José Rodrigues trazia um leque para se abanar. É da minha mulher, desculpou-se. Mesmo à sombra a varanda do hotel Boa Vista não era o local mais convidativo para se estar a conversar. Mas era calmo e discreto aquela hora. Félix Amoroso sentia-se exausto, mesmo sem ter feito muito para o justificar. O empregado serviu-lhes duas limonadas frescas, que poderiam servir para arrefecer os corpos. O governador levou o copo aos lábios e depois virou a sua atenção para o tenente: – Parece que estamos a chegar ao fim de um ciclo, meu caro. Os alemães foram afastados de cena. Os conspiradores morreram ou estão exangues. Lisboa tem, entretanto, outros assuntos políticos e militares que a animam. E que vão minando a República. Mas isso são outros temas que não são agora chamados para esta nossa pequena conversa. Sabe, ainda tenho dúvidas sobre quem matou João Carlos Silva, mas penso que dificilmente chegaremos a uma conclusão. Não lhe parece? – Acho que sim, senhor governador. Não tenho certezas, ou provas, sobre se foi Joaquim Palha ou Max Wolf que o mandaram matar. Mas um está morto e não nos vai responder. E o outro está em fuga. – Pensa que ele já estará em Xangai? – Possivelmente conseguiu fugir para lá. Mas a sua situação não deve ser muito confortável. Alguém investiu muito dinheiro naquela heroína. E vai querer que Wolf lhe preste contas. Não deve ser fácil. Nem heroína, nem dinheiro. Nada numa mão. Nada na outra. – As apostas são assim. Arrisca-se e pode-se ganhar ou perder. E ninguém gosta de perder. 78 O governador olhou para o horizonte. Talvez estivesse a pensar em algo que não era para ser partilhado. – Sabe tenente, tenho a certeza que o futuro é como o xadrez quando é mal jogado. O xadrez não é um jogo de intuição. Tem a ver com a memória. Mas não deixa de ser curioso que todos o disfrutemos mais se for intuitivo, porque só assim acontecem coisas novas. Uma vez tive o prazer de conhecer um mestre xadrezista que esteve em Lisboa, um russo, e perguntei-lhe se era possível antecipar dez ou vinte movimentos. Ele espantou-se e disse que não fazia isso, apesar de todos nós pensarmos que é isso que fazem os profissionais. Ele disse-me que cada jogada era fruto do momento. Acho que é assim que também se constrói um país ou uma cidade: movendo algo ao sabor de uma intuição, de um momento. Preocupando-nos com o presente. Amoroso acenou com a cabeça. Parecia-lhe uma meditação sensata. – Vamos ter de estar com os olhos e os ouvidos atentos, tenente. E, nesse especial aspecto, conto consigo. Há muitos desafios que se nos colocam nos próximos tempos. Sabe, está a terminar o acordo que nos permite importar ópio da Índia. Sabe a dependência que temos das receitas de produção de ópio em Macau. Elas são muito importantes para a nossa saúde financeira. O certo é que têm vindo a decrescer nos últimos anos, até porque há muito contrabando. Algum vindo das colónias francesas. Como é evidente estamos de mãos atadas: por um lado precisamos do ópio e das suas receitas, por outro o ópio cria dependência, transformando muitas vezes os homens em vegetais. É uma questão moral. Assim, o que pesa mais na nossa balança? O seu olhar era vivo e dirigiu-o na direcção de Amoroso. Também este tinha um dilema entre mãos. Era consumidor, embora de forma moderada. Por outro lado, uma das grandes fontes de rendimentos de Ding Ling era proveniente da venda do ópio, a maioria importado clandestinamente da Indochina francesa. O governador continuou: – O certo é que, segundo as informações que tenho, as críticas na Sociedade das Nações à nossa posição é de crítica moral. Mesmo vinda de nações que, nas sombras, lucram com o negócio do ópio. 79 – Chegue à China e verá os lençóis de papoilas espalhados por tantos sítios. Irão cortar essas papoilas? É duvidoso. E os ingleses e os franceses vão deixar de fazer negócio nas sombras, tendo a Índia e a Indochina. Quem é que pagou a revolução industrial dos ingleses, meu caro tenente? O ópio vendido aos chineses. Parou um momento, antes de prosseguir: – A política também é isto. Hipocrisia. Mas temos de viver e sobreviver com isso. Que faremos então, tenente? – Confesso que não sei, senhor governador. – Não sabe ou não quer saber porque também é parte interessada? Amoroso notou o sorriso irónico de Ricardo Rodrigues. Ele conhecia os seus dilemas. – A propósito, como vai a sua amiga chinesa, tenente? A frase era mortal. Mostrava que o governador estava atento. E já tinha fontes de informação próprias. – Vai bem, senhor governador. Conseguiu vencer todas as adversidades, incluindo a morte de uma sua estimada colaboradora. – Eu sei. Sinto muito. Dê-lhe as minhas condolências. Mas a vida continua, não é verdade? Tem de continuar. Amoroso não respondeu. Depois voltou a beber um pouco da limonada. Já estava quente. – Senhor governador, desculpe a pergunta, e a senhora Sofia Palha? – Ainda tem suspeitas sobre o seu comportamento, tenente? Nunca se sabe, é verdade. Mas agora está calma. Era uma mulher que não se amedrontava perante gigantes ou moinhos de vento. Acho mesmo que era mesmo ela que soprava o vento, se o posso dizer. – Compreendo-o. Tenho a mesma dúvida. – Ela é como Portugal. Este é um país milenar e labiríntico, um país que tanto é novo como velho. Mas que ama a vida. Ela também. Se não houver provas contra ela, sossegará e renascerá. Aqui em Macau ou em Lisboa. Quais são os seus planos? Ela sempre usou conceitos abstractos para se esquivar à realidade. Fala de convivência, de concórdia e de diálogo da mesma forma que fazem muitos políticos desejosos de ter o poder concentrado nas suas mãos. O senhor Palha julgava dominá-la, mas pelo pouco que conheci de ambos, era ele o dominado. – Não consta que ela alguma vez tenha feito reféns. Nem o senhor Palha, nem o senhor João Carlos Silva. 80 O governador deu uma pequena gargalhada. – Ninguém, é verdade! Por isso penso que, no seu olhar inocente de viúva ainda jovem, se escondem muitos desejos. Não acredito que não mantenha ligações aos capitalistas chineses que dominam o monopólio dos jogos e que utilizam portugueses ou macaenses como máscara. Há muito dinheiro em jogo, do monopólio do fantan à da lotaria da Misericórdia. A senhora Palha, se mantiver o escritório do seu falecido marido a funcionar, poderá ser uma aliada preciosa para muitos destes negócios. E nós pouco podemos fazer. As receitas do jogo são para nós tão essenciais como o oxigénio. – Estamos condenados a ver com um olho e a fechar o outro, não é senhor governador? – São as leis da política e das finanças, meu caro tenente. E são elas que mandam em simples mortais como nós. 21. Sofia Palha sentou-se na confortável cadeira que pertencera a um administrador da VOC e, depois, a Joaquim José Palha. Abanou-se com o leque e, olhando para o tecto, decidiu que uma das suas primeiras medidas seria colocar uma ventoinha. Era preciso fazer circular o ar. O calor, ali, tornava impossível utilizar o cérebro. Estava na altura de se considerar vítima de si própria e dos seus desejos. Agora os homens olhavam-na como se ela transportasse consigo o céu e o inferno, ou o amor e o ódio, ao mesmo tempo que arrastava para o abismo todos os que se aproximavam dela e do seu mundo. Mas eles não compreendiam nada. O que parecia emoção, na sua relação com os homens, era apenas tensão. Não amara Joaquim José ou João Carlos. Ou amara, à sua maneira, de forma desprendida. Sempre se considerara uma bailarina entre crocodilos. Iludia a fome deles com a sua graciosidade. Agarrou na carta que recebera de Max Wolf. Ele sobrevivera e ainda vivia em Macau, ao contrário do que se supunha. Escondera-se entre os amigos de Fu Xian, naquela selva de juncos e lorchas que enchiam o Porto Interior. A cidade flutuante, alguém lhe chamara. Seria difícil descobri-lo ali. Mas não impossível. Ele dizia-lhe que precisava de dinheiro para regressar a Xangai, para recuperar o crédito junto dos que lhe tinham colocado a heroína nas mãos. Sofia Palha fechou o leque e bateu com ele, levemente, na face. O que deveria fazer? (continua)
Emitido sinal 1 de tempestade tropical Hoje Macau - 10 Set 2021 A Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (DSMG) de Macau emitiu ontem o sinal 1 de tempestade tropical, devido ao ciclone Conson. Segundo a informação mais recente das autoridades, a tempestade encontrava-se a cerca de 600 quilómetros a sul/sueste do território, a mover-se a 12 quilómetros por hora. O ciclone tropical severo Conson deverá “mover-se para oeste e atravessar o Mar do Sul da China nos próximos dias”, prevendo-se que no fim de semana se aproxime da zona adjacente da ilha de Hainan, província chinesa a sudoeste de Macau, segundo comunicado da DSMG. O organismo informou ainda que o sinal 1 deverá continuar em vigor “durante a noite”, sendo “relativamente baixa” a probabilidade de ser emitido o sinal 3. Apesar de a possibilidade de inundações ser “baixa”, os Serviços Meteorológicos avisaram que as altas temperaturas “podem desencadear aguaceiros e trovoadas ocasionais”. Funcionários da Direção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) e do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia (CPTTM) visitaram ontem à tarde comerciantes nas zonas baixas do território, alertando para a importância de adotar “medidas de prevenção” contra tufões e inundações e apelando para que estejam atentos às informações divulgadas pelas autoridades, de acordo com um comunicado divulgado no portal do Governo de Macau. Para este ano, os Serviços Meteorológicos tinham previsto a ocorrência de cinco a oito tempestades tropicais até finais de setembro.
Japão abandona organização do Mundial de clubes de 2021 Hoje Macau - 10 Set 2021 O Japão retirou-se da organização do Mundial de clubes de futebol, agendado para dezembro deste ano, devido à pandemia da covid-19, anunciou ontem a federação nipónica (JFA), depois de transmitir a decisão à FIFA. “O Campeonato do Mundo de clubes da FIFA não será realizado no Japão. Seria parte do projeto comemorativo do 100.º aniversário da JFA, mas neste momento é difícil prever como estará a situação da pandemia no final do ano. Existem várias restrições, como por exemplo a impossibilidade de ter público nos estádios, por isso foi decidido que não existem condições para a sua realização”, lê-se num comunicado do organismo. A JFA acrescentou que a FIFA foi informada da decisão, depois de um encontro entre os dois organismos. “Sabemos que a FIFA anunciará brevemente locais alternativos para a organização da competição”, conclui o comunicado. O Mundial de clubes estava agendado para decorrer de 09 a 19 de dezembro.
Japão | Agência internacional vai controlar libertação de água da central de Fukushima Hoje Macau - 10 Set 2021 A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) vai controlar a segurança da libertação no mar de água processada da central nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, prevista para 2023, anunciou aquela agência da ONU. A AIEA reunirá conselhos de peritos, incluindo da China e da Coreia do Sul, dois países vizinhos do Japão que criticaram a decisão de Tóquio, disse a diretora-geral adjunta da agência, Lydie Evrard, numa conferência de imprensa ‘online’. Esta revisão “abrangente e objetiva” incluirá “várias missões e visitas técnicas nos próximos meses e anos”, acrescentou Evrard, citada pelas agências France-Presse e EFE. Mais de um milhão de toneladas de água da chuva, de leitos subterrâneos ou injetada para arrefecer os núcleos dos reatores que derreteram após o tsunami de 2011 estão armazenadas em mil tanques no local da central, cuja capacidade está prestes a esgotar-se. Esta água já foi tratada para retirar a maior parte das suas substâncias radioativas (radionuclídeos), mas não o trítio, que não pode ser removido com a tecnologia atual. De acordo com o Governo japonês, a água que será lançada no mar é tão segura que até cumpriria as normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) relativas à água potável. A decisão do Governo japonês gerou uma forte oposição da comunidade pesqueira de Fukushima (Nordeste do Japão), que teme novos danos à sua atividade, bem como protestos de países vizinhos como a Coreia do Sul e a China. O plano do Governo do Japão foi anunciado em abril deste ano, e mereceu a aprovação da AIEA, com sede em Viena. A AIEA “emitirá um relatório com os resultados da sua avaliação” antes do derrame e baseará a sua análise “nos mais elevados padrões de segurança”, disse Evrard numa reunião virtual com os jornalistas durante a visita preliminar, que termina na sexta-feira. Evrard evitou comentar as queixas de Pequim e Seul e das comunidades locais em Fukushima, mas observou que a equipa de peritos internacionais que participam nos estudos incluirá especialistas chineses e sul-coreanos. “Escutaremos diferentes preocupações e tê-las-emos em conta”, disse, enfatizando que o principal objetivo das missões da AIEA é “criar uma avaliação tão completa quanto possível da segurança” da medida. A diretora-geral adjunta da AIEA recordou que as descargas de água no mar a partir de centrais nucleares são uma “prática frequente” de outros países. Admitiu, no entanto, que a presença de trítio na descarga planeada e a utilização da água para arrefecer os reatores é uma particularidade no caso japonês. O Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão disse que a AIEA irá examinar a “caracterização radiológica” da água, os processos previstos para a sua descarga no mar e o impacto sobre o ambiente e a saúde. A China e a Coreia do Sul consideram que a água da central representará um risco para a saúde humana e o ambiente, e protestaram oficialmente junto do Governo do Japão sobre os seus planos. O Japão vê esta libertação controlada como um passo indispensável no processo de desativação da central de Fukushima, uma região que ainda sofre as consequências devastadoras do acidente nuclear de 2011, incluindo dezenas de milhares de pessoas ainda deslocadas e o colapso da pesca e da agricultura locais.
Japão estende estado de emergência até final de Setembro Hoje Macau - 10 Set 2021 O Japão anunciou ontem o prolongamento até final de Setembro do estado de emergência devido ao coronavírus em Tóquio e 18 outras áreas, porque o sistema de saúde continua sob forte pressão, embora os contágios tenham diminuído ligeiramente. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro, Yoshihide Suga, que adiantou que o número de casos graves de covid-19 continua alto, sobrecarregando os hospitais. A medida visa ainda reduzir a movimentação de pessoas face a feriados no final do mês, segundo a agência noticiosa espanhola EFE. O actual estado de emergência, que deveria terminar no domingo, foi decretado inicialmente em Okinawa em Maio e foi sendo alargado e prolongado. No entanto, as medidas, sobretudo voluntárias, são cada vez mais ignoradas por uma população exausta. No Japão o estado de emergência não implica o confinamento, pedindo-se às pessoas que reduzam as saídas, recorram se possível ao teletrabalho e evitem as concentrações. As restrições afectam sobretudo bares e restaurantes, que não devem servir bebidas alcoólicas e fecham mais cedo. Além de Tóquio e arredores, continuam sob o estado de emergência Hokkaido, Osaka, Aichi e Fukuoka, mas as autoridades já estudam o alívio das restrições que esperam aplicar em Novembro, quando se prevê que esteja vacinada a maioria da população. De acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde, mais de 62,5 milhões de pessoas (49,4 por cento da população japonesa) já receberam as duas doses da vacina.
ArtFusion | Macau contribui para projecto em S. Tomé e Príncipe Andreia Sofia Silva - 10 Set 2021 Duas associações de São Tomé e Príncipe, a ARCAR e a ANKA, receberam cerca de 2500 euros em donativos numa acção da ArtFusion Portugal, ligada ao projecto Macau ArtFusion, liderado por Laura Nyögéri. A iniciativa, intitulada “Olá S. Tomé” levou ainda material escolar, roupas e brinquedos a crianças desfavorecidas, com o objectivo de os aproximar do mundo artístico. Macau colaborou com 20 por cento desse valor. Por cada donativo de dez euros [cerca de 95 patacas] foi criado um kit que incluía uma t-shirt, um saco mochila e material escolar. “Estes kits fora preparados pelos alunos da ArtFusion Portugal. O objectivo era envolver directamente as nossas crenças nesta missão e levar o conceito de solidariedade a um universo maior e mais real”, contou Laura Nyögéri ao HM. Os donativos foram distribuídos por mais de uma centena de crianças e famílias. “Recebemos também donativos de material escolar, sapatos, roupas, livros e brinquedos. Os donativos foram recebidos pelas associações mas também “pelas ruas e roças ao longo das viagens realizadas pela ilha”. Laura Nyögéri recordou ainda que, já no país africano falante de língua portuguesa, “continuávamos a receber donativos”, que serviram depois para comprar alimentos e medicamentos.