Ucrânia | China olha para tensão na Europa com prudência e expectativa

A escalada da Rússia em direcção à Ucrânia deixa, para já, a China “expectante” e “cautelosa”, tendo em conta as relações de proximidade com o país presidido por Vladimir Putin. Analistas acreditam que a tensão que se vive na Europa pode constituir um teste em relação à situação de Taiwan

 

Declarada a independência, por Vladimir Putin, dos territórios separatistas da Ucrânia, Lugansk e Donetsk, pró-Rússia, teme-se a escalada ofensiva até Kiev, capital do país. Vladimir Putin, Presidente russo, parece querer retirar das cinzas pedaços do que foi a URSS, expandindo a sua estratégia para os países vizinhos e violando para isso, aos olhos do Ocidente, as leis internacionais.

A China, que mantém uma relação amigável com Moscovo, está para já “expectante” e “cautelosa”, apontam analistas ouvidos pelo HM. “A posição do Xi Jinping, neste momento, é expectante. A Europa deveria fazer uma cintura de protecção, os EUA deveriam reforçar o contingente militar que têm na Polónia e nos países de leste da UE para travar qualquer tentativa golpista por parte da Rússia. Não é fácil, e penso que antes da Primavera não vai haver grandes movimentações. Putin é um homem muito inteligente e calculista”, explicou o académico Arnaldo Gonçalves, especialista em relações internacionais e ex-residente no território.

Já Jorge Tavares da Silva, académico da Universidade de Aveiro e especialista nas relações China-Taiwan, defende que está em causa uma “posição sensível”, pois “a relação entre a China e a Rússia não é uma aliança formal mas tem um eixo de conveniência”.

“Há um alinhamento diplomático entre os dois países que foi reforçado com os Jogos Olímpicos de Inverno. A situação actual coloca a China uma posição difícil, em que o país tenta não se comprometer demasiado com a Rússia, porque isso pode, de alguma forma, trazer-lhe uma reacção negativa a nível internacional.”

Jorge Tavares da Silva acredita mesmo que poderá haver uma consequência para os chineses das sanções que a comunidade internacional está a aplicar à Rússia pelo seu posicionamento face à Ucrânia.

“Imaginemos que as sanções que são aplicadas à Rússia se alargam à China. E se isto vier a acontecer será trágico para a relação bilateral Moscovo-Pequim. Será complicado, uma vez que a China está a tentar recuperar a sua economia face ao contexto da covid-19 e não quer ver a sua situação mais debilitada. A China está muito cautelosa e não quer ingerências do ponto de vista militar”, acrescentou o académico.

Teste para Taiwan

A tensão que se vive na Ucrânia pode também servir de balão de ensaio para a questão de Taiwan. “É evidente que a China faz um teste”, declarou Jorge Tavares da Silva. “Há um apoio informal de Pequim a estas intervenções militares [da Rússia]. Se, eventualmente, Pequim decidir fazer uma intervenção militar em Taiwan, sabe que pode contar com o apoio de Moscovo. Há esta cumplicidade entre as duas nações.”

Para Arnaldo Gonçalves, “a China, por causa do problema de Hong Kong e de Taiwan, está a tentar ler a realidade da Ucrânia, para ver como se pode posicionar”.

“O problema é que Taiwan é uma peça central da política de defesa externa dos EUA”, frisou.
Ontem, a líder de Taiwan, Tsai Ing-wen, condenou as acções da Rússia. “O nosso governo condena a violação da soberania da Ucrânia pela Rússia (…) e apela a todas as partes para continuarem a resolver os conflitos por meios pacíficos e racionais”, afirmou Tsai.

A governante descreveu Taiwan e a Ucrânia como sendo “fundamentalmente diferentes em termos de geoestratégia, ambiente geográfico e importância das cadeias de abastecimento internacionais”, numa referência ao estatuto da ilha como um dos principais pilares da economia mundial, sobretudo devido à indústria de semicondutores. Ainda assim, Tsai ordenou que os militares intensifiquem as defesas contra o aumento das tensões com a China.

“Diante de forças externas que tentam manipular a situação na Ucrânia e afectar o moral da sociedade taiwanesa, todas as unidades do governo devem estar mais vigilantes”, avisou Tsai.

Já Pequim, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, acusa os Estados Unidos de lançarem gasolina para a fogueira e recusa qualquer comparação entre a crise da Ucrânia e a questão de Taiwan.

“Os Estados Unidos estão a vender armas à Ucrânia, a aumentar as tensões, a criar pânico e até a exagerar o cronograma para uma guerra”, disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Hua Chunying.

“A questão-chave é, qual o papel dos Estados Unidos nas actuais tensões na Ucrânia”, questionou, adiantando: “Alguém que atira gasolina para cima do fogo, enquanto acusa os outros, é alguém imoral e irresponsável”.

Quanto à questão de Taiwan, o MNE é categórico. “O facto de as autoridades taiwanesas estarem a escalar a questão ucraniana” e a fingir estarem alarmadas com a situação é “insano”, reagiu Hua Chunying.

“Taiwan não é, definitivamente, a Ucrânia. Taiwan sempre foi uma parte inalienável do território chinês. Este é um facto histórico e legal irrefutável”, apontou.

Outras condenações

Também ontem, o Japão e a Austrália anunciaram sanções contra a Rússia e os territórios separatistas pró-russos de Lugansk e Donetsk. O primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, disse que o governo vai proibir nova emissões e distribuição de títulos de dívida soberana russa no Japão, em resposta às “acções da Rússia na Ucrânia”.

Kishida disse que o país vai também proibir o comércio com Lugansk e Donetsk, suspender a emissão de vistos para as pessoas ligadas às duas zonas do leste da Ucrânia e congelar os bens desses indivíduos no Japão. O primeiro-ministro nipónico adiantou que as sanções vão entrar em vigor “o mais depressa possível”.

O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, anunciou sanções contra instituições bancárias como o VEB, um dos maiores bancos de investimento e desenvolvimento da Rússia, e o banco militar russo, entre outros.

A Austrália vai também impor sanções contra indústrias de diversos sectores, como a energia, mineração e hidrocarbonetos, das regiões de Donestsk e Lugansk, que passam ainda a ser abrangidas por sanções impostas em 2011 à Crimeia e a Sebastopol, então ocupadas pela Rússia. Morrison disse que a Austrália vai também proibir a entrada e aplicar sanções financeiras a oito membros do conselho de segurança da Rússia, órgão que reúne os principais decisores russos, em particular os líderes do Exército e dos serviços secretos.

O Canadá, o Reino Unido e os Estado Unidos já tinham também anunciado sanções contra a Rússia e os territórios separatistas pró-russos de Lugansk e Donetsk.

Na terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, expressou preocupação com a evolução da crise na Ucrânia, mas absteve-se de tomar uma posição.

No início de Fevereiro, a China e a Rússia assinaram uma declaração conjunta na qual anunciavam uma “nova era” nas relações internacionais, afirmando-se “contra qualquer alargamento futuro da NATO”. Na segunda-feira, o Presidente russo reconheceu Lugansk e Donetsk, no leste da Ucrânia, como independentes. Putin anunciou ainda que as forças armadas russas poderão deslocar-se para os territórios ucranianos em missão de “manutenção da paz”, decisão que já foi autorizada pelo Senado russo.

China pune 17 funcionários em caso de mulher que vivia acorrentada numa aldeia

As autoridades chinesas puniram 17 funcionários da província de Jiangsu, leste da China, por um caso de maus-tratos a uma mulher, que foi vendida em 1998 e passou anos acorrentada, num caso que chocou o país asiático.

Os funcionários, alguns dos quais foram demitidos, “não protegeram os direitos das crianças e mulheres” e incorreram em “formalismos e burocracia”, informou hoje a agência noticiosa oficial Xinhua.

O caso, que causou grande indignação nas redes sociais do país, foi conhecido devido a um vídeo publicado a 28 de janeiro na aplicação Douyin – o nome do Tiktok na China – que mostrava uma mulher acorrentada pelo pescoço, numa área rural em Jiangsu.

A mulher, mãe de oito filhos, parecia confusa e não conseguiu responder, no vídeo amador, quando questionada sobre se sentia frio, devido às baixas temperaturas da época e à falta de agasalho.

O vídeo horrorizou a opinião pública e vários internautas apelaram a uma investigação para esclarecer a situação.

As investigações, que começaram a 17 de fevereiro, determinaram, através de uma análise de DNA, que a mulher, cujo nome verdadeiro é Xiao Huamei, nasceu em 1977, em Fugong, na província de Yunnan, no sul da China.

Xiao foi vendida a um homem de Jiangsu, de apelido Xu, em 1998, por 5.000 yuans (cerca de 700 euros), mas desapareceu alguns meses depois, disse o homem aos investigadores.

De acordo com a investigação, outro homem comprou a mulher, em junho de 2000. O filho desse homem, de sobrenome Dong, obteve fraudulentamente uma certidão de casamento com Xiao e teve oito filhos com ela.

A investigação revelou que Dong mantinha Xiao amarrada pelo pescoço, com uma corrente de ferro, desde 2017, e que ela foi privada de assistência médica.

Xiao não sofre de qualquer outra doença física, mas, segundo depoimentos dos vizinhos às autoridades, quando chegou à cidade, em 1998, já apresentava sintomas de doença mental, que se agravaram a partir de 2012.

No final de janeiro, médicos em Nanjing, capital da província de Jiangsu, diagnosticaram que Xiao tinha esquizofrenia, uma condição que a impede de comunicar normalmente, segundo as autoridades.

Dong foi preso por suspeita de abusos. Há ainda dois indivíduos, de apelido Sang e Shi, sob investigação, por sequestro e tráfico humano.

O tráfico de seres humanos é um problema persistente na China, agravado pela antiga política do filho único e pelo desequilíbrio entre o número de homens e mulheres no país. Segundo o Banco Mundial, há 42 milhões de homens a mais do que mulheres na China.

Homens solteiros recorrem às vezes à compra de mulheres de partes remotas da China ou de países vizinhos, como o Vietname. Nos últimos anos, tecnologias como a análise de DNA ou o reconhecimento facial têm contribuído para solucionar casos de venda de crianças e mulheres.

“Bolha” sanitária dos Jogos de Inverno foi “experiência valiosa” para a China, diz epidemiologista

O epidemiologista chinês Zhang Wenhong considerou hoje que a ‘bolha’ sanitária utilizada durante os Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim, constituiu uma “experiência valiosa” para a China, que mantém as suas fronteiras encerradas.

A ‘bolha’ isolou os participantes do evento, que terminou este fim de semana, da população local. Atletas e outros participantes não puderam visitar os locais turísticos ou restaurantes de Pequim durante o seu tempo livre. Os hotéis e os locais de competição foram cercados com muros temporários e guardas. Fora da ‘bolha’, a vida decorreu com normalidade para a maioria das pessoas.

Através da sua conta na rede social Weibo – o equivalente chinês ao Twitter -, Zhang destacou que a experiência constituiu uma resposta “perfeita” ao desejo da China de interagir com o exterior, enquanto a pandemia perdurar. Não há relato de casos de contágio entre a ‘bolha’ e a população de Pequim.

As fronteiras da China permanecem fechadas para visitantes estrangeiros não residentes. Quem chega ao país tem que cumprir quarentena, de pelo menos 14 dias, num hotel designado pelo governo.

A lição dos Jogos Olímpicos de Inverno está no “cancelamento da quarentena para viagens internacionais, em determinadas circunstâncias”, superando assim o “desequilíbrio” entre as diferentes estratégias de prevenção de cada país, apontou Zhang.

O especialista espera que a experiência dos Jogos possa ser estendida a “intercâmbios políticos, económicos e académicos”, para “promover a interação” entre a China e o exterior.

O epidemiologista é um dos mais conhecidos especialistas em saúde do país asiático e tem mais de quatro milhões de seguidores no Weibo.

Enquanto alguns países como a Austrália ou Singapura relaxaram as suas estratégias de tolerância zero contra a covid-19, a China continua inflexível, restringindo a movimentação e realizando campanhas massivas de testes e confinamentos sempre que um surto é detetado.

Segundo as contas das autoridades chinesas, desde o início da pandemia, 108.194 pessoas foram infetadas no país, entre as quais morreram 4.636.

Hong Kong vai distribuir até 10 mil dólares de HK a residentes para estimular consumo

Hong Kong anunciou hoje que vai distribuir vales eletrónicos até 10 mil dólares de Hong Kong à população para estimular o consumo, quando atravessa a pior vaga da covid-19 desde o início da pandemia.

O programa, no valor de 66,4 mil milhões de dólares de Hong Kong, faz parte do orçamento da região para 2022, apresentado pelo secretário das Finanças do governo local, Paul Chan.

O orçamento inclui ainda um “fundo antipandemia” de 64 mil milhões de dólares de Hong Kong e uma verba de 20 mil milhões de dólares para apoiar pessoas e empresas mais afetadas pelos surtos.

Com cerca de sete milhões de habitantes, a região enfrenta uma quinta vaga de infeções pelo novo coronavírus, a pior desde o início da pandemia, com milhares de casos todos os dias.

Chan garantiu que Hong Kong vai “controlar gradualmente” a propagação da covid-19, algo que permitirá também o reinício das viagens sem quarentena de e para a China e região vizinha de Macau, suspensas desde março de 2020.

O secretário das Finanças expressou confiança na recuperação do consumo e do investimento e previu que as medidas de estímulo fiscal agora anunciadas vão permitir à economia acelerar na segunda metade do ano.

Num discurso sobre os orçamentos da cidade para 2022 e 2023, Chan previu que a economia deverá crescer entre 2% e 3,5%, uma desaceleração significativa, justificada com uma base comparativa mais forte.

O produto interno bruto (PIB) da região chinesa cresceu 6,4% em 2021, após ter contraído 6,1% em 2020, devido ao impacto da pandemia.

Macau anunciou, em abril de 2021, uma segunda ronda de apoios ao consumo no valor total de 5,88 mil milhões de patacas, dando aos residentes subsídio de cinco mil patacas e a um montante de três mil patacas em descontos imediatos, através de pagamento móvel ou de um cartão eletrónico.

Covid-19 | Hong Kong impõe três testes obrigatórios a todos os residentes

Toda a população de Hong Kong deve submeter-se a três testes de despistagem à covid-19 em março, anunciou ontem a líder do executivo da região administrativa especial chinesa, que atravessa a pior vaga desde o início da pandemia.

“Aqueles que não se submeterem ao teste serão responsabilizados”, disse Carrie Lam, ao mesmo tempo que comunicava que os funcionários da China continental estavam agora a coordenar a política de luta contra a doença covid-19 no território.

A cidade de Hong Kong, uma das mais densamente povoadas do mundo, enfrenta uma quinta vaga de infeções pelo novo coronavírus, a pior desde o início da pandemia, com milhares de casos todos os dias.

“O rápido agravamento da epidemia excedeu em muito a capacidade do governo de Hong Kong para enfrentar esta situação. O apoio do governo central é, portanto, essencial para combater o vírus”, afirmou Carrie Lam aos jornalistas, acrescentando que o chefe do gabinete de ligação de Pequim, Xi Baolong, será o responsável pela política de saúde do território.

Segundo as novas regras, os 7,4 milhões de residentes terão de se submeter a três rondas de testes obrigatórios em março.

Os testes vão ser repartidos por vários dias e os residentes terão também de se submeter diariamente a testes rápidos de antigénios em casa.

As escolas e muitas atividades comerciais, tais como ginásios, bares e salões de beleza, vão permanecer fechados até ao final de abril, enquanto os estabelecimentos de ensino vão ser transformados em centros de testes.

Os voos de nove países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos e França, continuam interditos.

Carrie Lam confirmou também que Hong Kong se vai manter fiel a uma política de isolamento de pessoas que apresentem testes positivos à covid-19, mesmo as assintomáticas, em centros de quarentena construídos com a ajuda das autoridades chinesas.

I know not what tomorrow will bring

No tempo em que os burros pela manhã zurravam e não se dava por uma profusão de luzes e de ribaltas, este não era um território sossegado. Talvez para quem distraidamente fitasse o espelho baço e imóvel da Baía, o trânsito frouxo e as mulheres arredias, imaginasse ser esta cidade uma pasmaceira, um local semi-adormecido, opiado pelo dinheiro fácil do jogo e entregue a uma administração complacente. Mas quem aqui fazia a sua vida sabe perfeitamente que em Macau nem o céu, nem o vento são sossegados. E quando assim aparentam estar, é mau augúrio.

Por baixo dessa aparente calma e descontração, agitavam-se emoções, planos mirabolantes, os últimos sonhos de um império desfeito. Sob o manto amorfo da apatia, uma efervescente e glamorosa realidade. Pelas ruas silenciosas, de visibilidade ténue, recortavam-se personagens ainda à procura de um papel na peça de teatro que então se findava. Disfarçados numa aparência quase jesuítica, debatiam-se e roncavam um florido erotismo a par com a mais depravada bestialidade.

Não, não foi preciso a liberalização do jogo para que o mundo viesse a Macau. Já cá estava mas era discreto: não se anunciava na berma dos passeios com luzes e promessas. Fazia-o tímido, como quem convida para uma volta num carrossel de fauna estranha e cuja corrida é de destino incerto. Pouco plástico, pouco gesso havia. A cidade tinha um sabor real a irrealidade.

*

Chama-se a isto mudar de século, de milénio, de ambiente, de sonhos e de vida. Mudar de paisagens e esquecer o subtil, o que aos poucos se revela, o passeio por jardins desconhecidos. O sabor de uma cultura a revelar-se num gesto púdico ou atrevido de uma mulher. Não, a invasão não veio para ensinar nada. Veio para fazer esquecer e inaugurar um novo paradigma.

Tudo isto me veio à memória num passeio por este Macau de hoje, sem turistas, sem negócio, sem chama, sob uma chuva fina e persistente. Uma vez mais estamos cercados, desta vez por uma doença que nos faz fechar as portas dos nossos castelos, transforma a cidade numa fortaleza monótona e triste.

Lá fora, o mundo queima o seu próprio rastilho, solavanca, ouvem-se bramidos de guerra. Lá fora, os senhores do mundo conversam interminavelmente sobre as soluções que não querem implementar. Lá fora, milhões de inocentes esperam por mais levas de ignomínia, de miséria, de infinita estupidez.

Mas aqui, aqui nesta quase-ilha, aqui neste balão que flutua sobre o Rio das Pérolas, é como se o tempo estivesse suspenso e simplesmente envelhecêssemos sem que nenhuma ruga se inscreva nas nossas faces ou nenhuma memória digna desse nome se escreva nos calhamaços da História.

Sei que respiro, que como, que porventura amo. Não sei se isto é viver, mas algo me atinge com a certeza de que estou vivo. “I know not what tomorrow will bring”.

Terceiro acto – Cena 5

Os dois amigos deixam-se ficar em silêncio durante algum tempo. Há uma fina cortina de fumo que paira na sala. Apesar da janela estar fechada, ainda se ouve o murmúrio da floresta no exterior.

Gonçalo
E se a tua aluna te vê assim?

Valério
Assim, como?

Gonçalo
Deitado no sofá, afundado no poço, com as lágrimas a caírem-te dos olhinhos…

Valério
Pois… [pausa] Isso não pode vai acontecer.

Gonçalo
Ela até pode achar interessante… um estímulo positivo na vossa nova relação: um professor inteligentíssimo, que faz mergulhos de escafandro na sua própria depressão… “Ai, ele é incrível, até domina o seu lado mais negro…”

Valério
Mais uma razão para eu ficar quieto.

Gonçalo
… Ou então ela resgata-te do poço e deixas aos poucos de fazer os teus mergulhos higiénicos, muito apreciados pela tua alminha sensível…

Valério
Talvez…

Gonçalo
E depois dás por ti a sentir falta dos mergulhos, daquele hábito diário, tão entranhado que estava… e pouco a pouco começas a detestá-la: primeiro a evitar o olhar dela, depois o toque… depois vais deixando de lhe falar… [pausa] Até que ela acaba por desistir de tentar comunicar e vai-se embora… sem nunca saber o que terá acontecido.

Valério
Perspectiva animadora, sim senhor.

Gonçalo
Mas realista, não?

Valério
Em que sentido?

Gonçalo
De deixar andar… até apodrecer.
Valério
Talvez.

Gonçalo
Seria o mesmo com bebida ou com droga… o amor salva, mas também limita. [pausa] Quem disse que queríamos ser salvos?

Gonçalo vai até à mesa e começa a desarrolhar outra garrafa de vinho tinto. Os seus movimentos são atabalhoados, ele próprio ri-se da sua falta de jeito potenciada pelo nível crescente de álcool no sangue.

Valério
[rindo]
São umas egoístas, essas pessoas.

Gonçalo
Já não se pode beber até cair sem que nos chamem à atenção para a vida que estamos a deitar fora!

Valério
E para o tempo desperdiçado…

Gonçalo volta ao seu lugar. Antes de se sentar, serve os dois copos que Valério segura. Os dois erguem os copos e fazem um brinde desajeitado. Pega cada um no seu cigarro e acendem à vez, partilhando o isqueiro. Regressa o silêncio, acamado pelo murmúrio que vem lá de fora.

Valério
Não tens vizinhos?

Gonçalo
Boa pergunta… não faço ideia. [pausa] Há por aí umas casas…

Valério
Não me lembro de ver nenhuma no caminho.

Gonçalo
Da estrada não se vêem muitas, mas se andares pelo meio da floresta…

Valério
Tens de me levar a passear, então…

Gonçalo
Sim, quando amanhecer.

Mais uma vez deixam que o silêncio invada a pequena casa de montanha. Gonçalo vai até à lareira. Pega num toro de madeira com a tenaz e põe-no por cima das brasas incandescentes. Sopra- as brasas para atiçar o lume.

Valério
Porque é que não foste ao funeral?

Gonçalo observa as chamas que consomem a madeira recém-chegada. Dá várias passas seguidas no seu cigarro. Depois de terminado, atira a ponta para as brasas. Tira outro cigarro do maço que tem no bolso e usa a tenaz para trazer uma pequena brasa à boca. Acende o fumante, pousa a brasa e a tenaz, e põe-se outra vez a observar as pequenas labaredas.

Valério
Ninguém te levou a mal… não há maneira certa de reagir à morte. [pausa] Acho eu… Mas houve perguntas… “Onde é que ele está?”… “Porque é que ele não veio?”… “Andavam chateados?”…

Gonçalo
E as tuas?

Valério
As minhas quê?

Gonçalo
Perguntas… Quais são as tuas?

Valério
Não tenho… [pausa] Quer dizer, já a fiz.

Gonçalo
Pois…

Gonçalo regressa ao seu lugar, ao lado do amigo, e põe-se a olhar um ponto distante, como se pensasse cuidadosamente no que irá dizer.

Gonçalo
Estive quase a sair de casa… mas não me consegui levantar do sofá. Estava com o casaco vestido, tinha as chaves de casa no bolso e os óculos escuros postos. Mas não me consegui levantar… [pausa longa] Há aqui um filão a explorar, não sei se reparaste…?

Valério
[surpreendido]
Qual?

Gonçalo
Homens solteiros e solitários… sofá… depressão…

Valério
Não é novidade.

Gonçalo
Certo… [pausa] A que horas acabou?

Valério
Por volta as cinco.

Gonçalo
Pois. Foi quando finalmente me levantei… mais coisa, menos coisa.

Valério
Estiveste essas horas todas sentado?
Gonçalo
Estive, pois.

Valério
Uns descem ao poço deitados, outros descem sentados.

Gonçalo
Não sei se desci.

Valério
[sorrindo]
Foi só cobardia?

Gonçalo
Talvez…

Valério
Estou a brincar.

Gonçalo
Eu percebi… Mas talvez tenha sido, sim.

Valério
Não é preciso desceres ao fundo do poço… às vezes já andas sem saber.

Gonçalo
Verdade.

Valério
É uma vibração constante, muito ténue… que às vezes não se nota, mas está lá sempre presente. [pausa] Talvez eu use as minhas sessões de descensão precisamente para reconhecer a existência dessa pequena nota constante na minha vida.

Gonçalo
És muito poético em relação a esse estado…

Valério
Pois sou.

Gonçalo
Romantiza-lo muito, na minha opinião…

Valério
Talvez… [pausa] Uns sentam-se e apagam, outros deitam-se e romantizam.

Gonçalo
E há os que escondem essa música durante uma vida inteira… e quando finalmente são apanhados e a ouvem, vão atrás dela, como a criançada vai atrás do flautista… e adeus.

Perdidos e achados

« Aquilo que é já existiu, e aquilo que há-de ser já
antes foi; Deus vai à procura daquilo que não se encontrou»
Eclesiastes-9-15

 

Um movimento perfeito é aquele que não desiste de procurar e com a busca transforma a forma ida na forma tida, mais além, ainda transformada. Nem a vida é circular, nem a Terra plana ou redonda, nem o tempo dado uma circunferência para o estertor do fim: a elíptica nos suporta com delicadeza quando o cansaço da roda nos afadiga, é isso de que Deus vai à procura, daquilo que não se encontrou.

Podemos contornar todas as fórmulas do processo, tentar pedir pela sua continuidade, mas de nada serve se com tal ensejo apenas se reproduzam as coisas conhecidas. Há uma qualquer outra, fora da tribuna, que é passível de uma atenção desmesurada, de um amor louco, de uma inteligência pura, de uma inocência não contemplada… isso, é o procurado na igualdade de quem busca.

Este é Jesus, Jesus Ben Sira. E se toda a casa de David pareceu amaldiçoada, quem achou no vindouro a fina e delicada mudança, não poderá subtrair este apenas a um parente mestre. O que procuravam na grande luz dos céus nocturnos, os magos, e os filhos das tribos que já não vemos, é matéria de puro encantamento, mas serve ela para demonstrar que padecemos da ausência de um “cordão de prata” unido a um Altíssimo que por nós fez interceptar os que não foram encontrados: nem no Livro da Vida, nem na própria Vida, nem no vasto Cosmos onde por deleite ainda estendemos o olhar procurando o significado de todo esse desconhecido.

Soçobrámos!- É certo que renovados. Mas renovados de quê?

Por uma contorção fora da averiguada tendência da análise podemos estar perto de uma mudança que as células desesperadas por continua actividade cega, não se dão conta. É embrionário o nosso “mundialismo” muito galvanizado pela palavra que já pouco diz.

O dizer daquilo que nos globaliza fere a procura dos signos por encontrar, e nem aqui paramos mais depressa que as feras maternais nas suas maravilhosas matanças para os filhos pequenos.- Qualquer deslealdade para com todos pode subjugar agora o mundo inteiro! Ampliado o espectro da consciência nenhum de nós pode retroceder e parar a marcha para aquilo que ainda não se encontrou. Bem- digamos os avanços, e sejamos rectos para enumerar as nossas faltas.

Este Jesus é o mesmo que também nos dissera que havia um tempo para tudo numa vida conseguida. «Tudo tem o seu tempo», mas nele também acrescentar que não haverá mais tempo para o ódio. O que será o ódio? Um desajuste que se encontrou e não fez sentido.

Mas para tudo isto, também as formas de sentir e viver estão agora obsoletas. Nós vamos andando, procurando, e pouco desviando a vida breve para terrenos intransponíveis. Nós somos monstros. Monstros sem capacidade para nos tornarmos coisas novas, grandes, não encontradas. Encontramo-nos monstruosamente uns nos outros como gentis bestas de uma era acabada. Achámos o nosso poder, o nosso dever, o nosso transbordar, mas mais nada nos quer encontrar. Isso é o nosso processo -hiato- mais lendário.

Quando Pessoa ousou afirmar que «deus é um deus de um deus maior» apenas quis dizer «porque o que está alto tem acima de si outro mais alto, e sobre ambos há ainda um outro mais elevado». Foi encontrada alguma coisa que ninguém entendeu, é que Deus, vai à procura dos poetas.

MNE chinês mantém conversa telefónica com Secretário de Estado dos EUA

Wang Yi chamou a atenção a Blinken para o facto dos EUA dizerem uma coisa e fazerem outra, o que poderá levar a um “confronto total”

 

O Conselheiro de Estado chinês e Ministro dos Negócios Estrangeiros Wang Yi teve ontem, terça-feira, uma conversa telefónica com o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que felicitou a China pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim e os atletas chineses pelas suas grandes realizações.

Enquanto estendia as suas felicitações aos atletas americanos pelos seus bons desempenhos nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, Wang disse que os atletas chineses e americanos demonstraram plenamente o espírito olímpico através da interacção amigável, encorajamento mútuo e melhoria comum.

O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês disse que o mais importante para compreender e fazer progredir as relações China-EUA é implementar o consenso alcançado pelos dois chefes de Estado. Wang sublinhou que a China está disposta a gerir eficazmente as diferenças e a estabilizar as relações China-EUA, de acordo com os três princípios de respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação vantajosa para ambas as partes apresentados pelo presidente Xi Jinping.

De acordo com Wang, os Estados Unidos lançaram recentemente a chamada nova versão da “Estratégia Indo-Pacífico”, listando publicamente a China como o principal desafio regional, e tentou incluir a estratégia de “utilizar Taiwan para conter a China” na estratégia regional dos EUA, o que está obviamente a enviar um sinal errado de confronto e de contenção da China.

“Uma vez que há competição e cooperação entre a China e os Estados Unidos, as relações bilaterais não podem ser definidas simplesmente pela competição”, disse Wang, acrescentando que “alguns funcionários norte-americanos tropeçaram numa competição feroz a longo prazo com a China, que é susceptível de evoluir para um confronto total entre a China e os Estados Unidos”.

“A China insta o lado americano a tomar medidas concretas para honrar os compromissos assumidos pelo Presidente Biden”, observou Wang, acrescentando que “Washington não pode dizer uma coisa, fazer o contrário, comer as suas palavras ou não mostrar credibilidade”.

O diplomata chinês disse também que o 50º aniversário do Comunicado de Xangai chegará dentro de poucos dias, cujo espírito ainda hoje tem um grande significado realista para as relações China-EUA, manifestando a esperança de que os Estados Unidos se mantenham fiéis à aspiração original de quebrar o gelo entre os dois países, regressem a uma percepção racional e pragmática da China e empurrem conjuntamente as relações bilaterais de volta ao caminho certo para um desenvolvimento saudável e estável.

Pela sua parte, Blinken disse que, como o Presidente Biden disse muitas vezes, “os Estados Unidos não procuram uma nova Guerra Fria ou mudar o sistema da China, acrescentando que se opõe à ‘independência de Taiwan’ e não tem qualquer intenção de conflito ou confronto com a China”.

Ucrânia na mesa

A pedido de Antony Blinken a questão da Ucrânia e a questão nuclear da Península Coreana, também foram debatidas. Blinken informou Wang sobre as opiniões e posição dos EUA sobre a situação actual na Ucrânia. Wang disse que a China está “preocupada com o desenvolvimento da questão e que a sua posição tem sido consistente”.

“As legítimas preocupações de segurança de qualquer país devem ser respeitadas e os objectivos e princípios da Carta das Nações Unidas devem ser mantidos”, acrescentou, atribuindo a questão da Ucrânia ao atraso na implementação efectiva do novo acordo de Minsk. Wang afirmou que o lado chinês continuará a manter contactos com todas as partes.

Notando que a situação na Ucrânia está a piorar, Wang disse que “a China mais uma vez exortou todas as partes a exercer contenção, reconhecer a importância da implementação do princípio da segurança indivisível, e a desanuviar a situação e a restaurar as diferenças através do diálogo e da negociação”.

Coreia, nuclear Coreia

Blinken também actualizou Wang sobre as últimas relações entre os Estados Unidos e a República Popular Democrática da Coreia (RPDC). Wang disse que o problema entre os Estados Unidos e a RPDC está no centro da questão nuclear da Península Coreana, observando que o lado americano deveria atribuir importância às preocupações legítimas e razoáveis da RPDC e tomar medidas substanciais.

A China representa conversações directas entre os Estados Unidos e a RPDC e, como sempre, desempenhará um papel construtivo na promoção da resolução da questão nuclear da Península Coreana.

Álvaro Laborinho Lúcio, autor de “As sombras de uma azinheira”: “A vida é ainda um deslumbramento”

Álvaro Laborinho Lúcio, autor, jurista e ex-ministro da Justiça em Portugal, está de regresso à escrita com “As sombras de uma azinheira”. Um romance que conta as mudanças profundas que Portugal viveu com o 25 de Abril de 1974 a partir de duas personagens centrais – João Aurélio, o pai ausente, e Catarina, a filha cheia de dúvidas. Escrever é um acto de prazer para Laborinho Lúcio, que recorda a imensa alegria que sentiu com a Revolução de Abril

 

O seu novo romance parte de um acontecimento histórico em Portugal – o 25 de Abril – para uma história ficcionada. Como foi este processo?

Todos concordamos que esse foi um período de grande transição no país. O que me estimulou a escrever este livro foi a aproximação do aniversário dos primeiros 50 anos do 25 de Abril. A ideia era tentarmo-nos aproximar desta data e começarmos, como cidadãos, a ter algum contributo para essas celebrações, para que não sejam apenas uma festa mas também uma reflexão sobre o que aconteceu, o que está a acontecer e o que pode acontecer nos próximos anos.

Porquê o formato romance, e não outro?

Poderia ter escrito um ensaio. Mas entendi que a ficção era, talvez, a forma mais indicada de poder ter algum contributo para essa aproximação dos 50 anos. Este é um romance que não incorpora o debate político, e passa-se entre os 45 anos que antecederam o 25 Abril de 1974 e os 45 anos que lhe sucederam. [A história] acontece no seio de uma família cujo núcleo central era composto por um marido e mulher que há muito tempo ambicionavam uma mudança política em Portugal e que, ao mesmo tempo, desejavam ter um filho. Acontece que, por mero acaso, na noite de 24 para 25 de Abril, a mulher dá à luz o seu primeiro bebé, ao mesmo tempo que o país viu ser dada à luz a mudança que esse casal ambicionava.

Nasce então Catarina.

Sim. Com esse nascimento morre a sua mãe no parto. Temos então ao longo do romance um pai que renuncia a tudo, ao desígnio da mudança, à sua militância política ligada ao Partido Comunista Português e resolve abandonar tudo, inclusivamente a sua filha, e passar a vida na aldeia, que também vai definhando aos poucos. Ele fica virado para o passado e torna-se um desistente, porque, no fundo, naquele momento percebeu que não iria ver nada realizar-se na sua vida. Por sua vez, o bebé fica entregue aos cuidados dos tios, que vai fazer a sua vida nos 45 anos que sucedem ao 25 de Abril. Ao longo dessa vida Catarina vive sempre uma grande incerteza, que é saber se para ela é apenas a data de uma revolução, ou se tem direito a uma identidade. O 25 de Abril é a data da revolução ou é a data do seu nascimento? É esta a questão que ela interioriza ao longo da vida que nos dá um Portugal novo, também à procura da sua identidade.

Isso permite ao leitor uma espécie de exercício de reflexão.

Permite que o leitor olhe para as lutas de uma classe média comum envolvida numa luta contra a ditadura, que levou ao 25 de Abril. É como se essa luta se cruzasse com a redefinição da identidade de um país e com as pessoas que se tentam definir nesse Portugal novo. Espero, como escritor, que os leitores se encontrem nestas mudanças radicais e, ao mesmo tempo, nas várias contradições que essas mudanças foram propondo a cada um de nós, como desafios para a nossa própria identidade.

O livro apresenta então duas personagens centrais, Catarina e o pai, que possuem um forte simbolismo.

Sim. Estas personagens diferem um pouco das outras porque o autor não se preocupou com a sua consistência. Estas duas personagens são os olhos que o autor coloca no rosto dos leitores para que eles vejam, através delas, a proposta que ele lhes faz de avaliação do que foi o país antes do 25 de Abril e do que é o país depois. Daí que haja nelas uma personagem muito construída, fechada sobre si própria, que é o João Aurélio, e a parte relativa à Catarina, que é uma personagem em construção, feita por ela e pelo autor. Ao longo da narrativa há como que um diálogo entre os dois.

Este romance, não incorporando o debate político puro e duro, tem sempre esta perspectiva política.

Este é um livro em que somos chamados pelo exterior e olhamos para as coisas com uma perspectiva política de aproximação ou distanciamento consoante o ponto de vista. Os três primeiros livros que escrevi são romances mais intimistas. Este é uma leitura crítica face ao exterior e ao posicionamento que esse exterior deve ter e que nos desafia.

Quando nos aproximamos dos 50 anos do 25 de Abril é premente pensar a sociedade, o sistema político e a democracia que existe hoje em Portugal? Este livro é um exercício de reflexão sobre tudo isso, ainda que de forma metaforizada?

Sim, é sempre dessa forma. Estamos a falar de um romance, uma obra de ficção. Há um momento em que João Aurélio, no fim da vida, e passeando no cemitério, falando com os mortos, acaba por falar com um velho padre da região onde vivia, que lhe vem dizer para ter cuidado com a história da revolução, pois todas as revoluções acabam por caminhar para sentidos que não lhe estavam destinados no início, e que haveria o risco de acabar numa nova ditadura. Mas há questões relacionadas com a profissão da personagem Catarina e os lamentos que ela tem por não conseguir, na sua actividade, colocar a Academia a discutir a essência da política. A ideia é que no quotidiano das nossas famílias é que devemos ser celebrantes do 25 de Abril, temos de estar vivos, activos e responsáveis pelo que for o destino do nosso dia-a-dia e a definição do nosso futuro.

Espera que o livro lance este debate? Que espera dos leitores com esta obra?

Agora estou na fase da angústia, porque acabei o que tinha para fazer, o livro já está nas livrarias e deixou de ser meu, passou a ser dos leitores. Agora é a minha vez de esperar o que os leitores me dizem do livro que eles entendem que é. Ficaria muito feliz se me dissessem que se identificam com ele, sendo um livro que coloca os leitores perante as suas escolhas, que é identificar-se com as várias personagens e as questões que estas colocam. Neste ponto há uma aproximação deste livro com os anteriores, porque nenhum dos livros que publiquei até agora são romances fechados. Diria que são romances que terminam com a parte da própria escrita do leitor, que acaba por escrever um novo romance a partir daquele que eu lhes forneço. Ficarei agora expectante.

Escrever romances é um exercício de liberdade nesta fase da sua vida?

Em parte é. Tenho sempre muita dificuldade em responder porque razão eu escrevo romances. Eu próprio também não sei muito bem.

Simplesmente escreve.

Tenho imenso prazer em fazê-lo e em construir uma relação com a escrita. Não venho do mundo literário e tenho uma escrita conservadora ou tradicional. Mas depois na construção do romance diria que é uma escrita com muita influência da modernidade. Dá-me um gosto imenso de poder participar na vida pública através da escrita, criar, e para mim a vida é ainda um deslumbramento e está carregada de futuro, e é nesse futuro que gosto de intervir. Guardo do passado boas memórias mas não cultivo a ideia de saudade. Esta [a escrita de romances] é uma boa forma de intervir no futuro.

Como viveu o 25 de Abril? Achou que era um Portugal novo que se iniciava?

Senti uma grande alegria, mas foi difundida no tempo porque aconteceu uma circunstância curiosa. Eu era juiz na comarca de Oliveira do Hospital, tinha sabido da decisão de me colocarem em Coimbra e fisicamente eu mudar-me-ia para a cidade no dia 25 de Abril de 1974. De 24 para 25 comecei a arrumar caixotes e tinha marcado a transferência de mobiliário para a tarde do dia 25, e quando acordei e todos me falavam de uma revolução. Não sabia onde era, precisava era de ir para Coimbra. Mas depois percebi que havia uma revolução em Portugal, mas não se sabia muito bem qual era o seu sinal. Havia o risco de se fazer uma viragem ainda mais à direita e fiquei um pouco sem saber o que fazer. Entretanto o senhor que ia fazer o transporte das minhas coisas não aparecia, e ele disse-me que havia uma revolução e não podíamos ir para Coimbra. Depois, já em casa, vi televisão e percebi que a revolução era aquela que eu sempre tinha querido. Foi uma emoção muito grande.

Com o 25 de Abril as mudanças na sua profissão foram muito acentuadas?

O livro que escrevi em 2012 é exactamente sobre isso, é uma narrativa crítica da justiça. É um livro quase auto-biográfico, sobre um magistrado que começou a trabalhar em 1968, e que sou eu. Nunca senti, mesmo antes do 25 de Abril, que não tivesse independência para o exercício da função. Algumas vezes houve uma maneira mais insidiosa de procurar condicionar uma tomada de decisão, mas eu não me deixei influenciar por isso. Mas não era fácil, não nos sentíamos libertos como nos sentimos a seguir ao 25 de Abril. Antes do 25 de Abril havia uma grande dependência face ao Executivo para nomeações. Poderia haver quem se deixasse influenciar mais, mas eu nunca senti que fosse influenciado por isso. Depois do 25 de Abril as mudanças foram tantas que acabámos, nós magistrados, por incluir questões novas que a realidade nos colocava.

Covid-19 | Dois novos casos importados de Hong Kong

Dois residentes de Macau provenientes de Hong Kong, testaram positivo para a covid-19 na segunda-feira. Os dois casos, ambos importados, foram classificados como o 80.º caso confirmado em Macau e o outro como um caso de infecção assintomática.

O 80.º caso confirmado, trata-se de um residente de 58 anos de idade inoculado com três doses da vacina da Sinopharm que chegou a Macau no sábado, através do autocarro de ligação dos postos fronteiriços da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau (Autocarro Dourado). Após ter sido encaminhado para a Pousada Marina Infante para fazer quarentena, o paciente testou positivo no primeiro exame de ácido nucleico realizado no domingo.

Contudo, no dia seguinte, testou positivo para a covid-19, tendo sido encaminhado para o Centro Clínico de Saúde Pública em Coloane para isolamento e tratamento, apresentando “sintomas de tosse ligeira e perda do paladar”.

O segundo caso diz respeito a uma residente de Macau de 49 anos, inoculada com duas doses da vacina da Sinopharm, que entrou em Macau na segunda-feira, depois de apanhar também o Autocarro Dourado. Apesar de não ter sintomas, a residente testou positivo para a covid-19 ao entrar em Macau, tendo sido encaminhada para o Centro Clínico de Saúde Pública em Coloane.

Função pública | Faltas justificadas para vacinar filhos

Os trabalhadores dos serviços públicos podem ausentar-se do serviço para acompanhar a vacinação contra a covid-19 dos filhos. Incluídos na medida estão pais de alunos do ensino infantil, primário e secundário, menores de 18 anos. Com uma taxa de vacinação de apenas 8,5 por cento entre as crianças, Kong Chi Meng e Alvis Lo apelaram à vacinação urgente nas escolas

 

Os trabalhadores de todos os serviços públicos estão, desde ontem, autorizados a faltar justificadamente ao serviço para acompanhar os filhos menores durante a inoculação das vacinas contra a covid-19.

A medida foi divulgada pela Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP) e engloba os funcionários que sejam pais de alunos do ensino infantil, primário e secundário que não tenham completado 18 anos de idade. Ao abrigo da medida, os funcionários públicos poderão assim optar por se ausentar do serviço no dia da vacinação ou no dia seguinte.

“Os trabalhadores podem, no próprio dia ou no dia seguinte ao da vacinação dos filhos, por os terem acompanhado, ausentar-se do serviço justificadamente a fim de poderem observar a situação dos mesmos após a vacinação e tomar conta deles”, pode ler-se no comunicado.

Na mesma nota, os SAFP revelaram ainda ter comunicado a medida “aos diversos serviços públicos” após ouvir os Serviços de Saúde e a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

Durante uma sessão de esclarecimentos sobre a promoção da vacinação de estudantes, que decorreu na Escola Secundária Kao Yip e que contou com a presença do director da DSEDJ, Kong Chi Meng, e do director dos Serviços de Saúde, Alvis Lo Iek Long, foram feitos apelos “urgentes” à vacinação, numa altura em que a taxa de inoculação da faixa etária entre os 3 e os 11 anos é de apenas 8,5 por cento, não sendo, por isso, “ideal”.

Durante o encontro, Kong Chi Meng sublinhou que, por ser um local “muito denso e movimentado”, não se pode “ignorar o risco para a saúde de alunos e docentes”. Além disso, foi acrescentado, através do registo semanal da lista de alunos não vacinados, poderão ser organizados “Dias de Vacinação” de acordo com as intenções dos encarregados de educação.

Por seu turno, Alvis Lo abordou, do ponto de vista técnico, a eficácia das vacinas contra a covid-19 na redução de sintomas graves e da mortalidade e reiterou que os encarregados de educação devem vacinar “com a maior brevidade possível” , os menores a seu cargo, para colaborar na protecção da saúde das crianças.

Tendência de subida

Com o agravar da situação epidémica em Hong Kong, alguns pais que têm estado reticentes na vacinação dos filhos, começam agora a concretizar a inoculação, dado que desde quinta-feira, a taxa de vacinação da faixa etária subiu cerca de 2.0 por cento.

Ouvida pela TDM-Canal Macau, uma mãe que optou por vacinar o filho diz que a criança não teve efeitos secundários e que a vacinação é o caminho a escolher, numa altura em que a pandemia dá sinais de agravamento.

“Como a pandemia está muito grave é melhor levar já a vacina. [O meu filho] não teve reacções e até foi à escola no dia seguinte”, disse.

Uma aluna disse ainda que se “sentiu muito bem” após a inoculação e que vai dizer aos colegas para fazerem o mesmo. No entanto, outros estão ainda com medo dos efeitos secundários.

Já um pai que optou por não vacinar o filho, apontou que irá ponderar fazê-lo “se Macau voltar a ter um surto”, já que o filho é alérgico à vacina da gripe e, por isso, terá de se aconselhar com os profissionais de saúde.

Recorde-se que as crianças entre os 3 e os 11 anos só podem ser inoculadas com a vacina da Sinopharm, já que de acordo com as autoridades de saúde apenas os maiores de 12 anos estão autorizados a receber o fármaco da BioNTech.

PJ | Notificação sobre falsas chamadas telefónicas 

Os Serviços de Saúde de Macau (SSM) notificaram a Polícia Judiciária (PJ) sobre o facto de alguns cidadãos terem recebido, nos últimos dias, chamadas telefónicas com gravações em cantonês informando-os que são pessoas de contacto próximo de caso confirmado de infecção de covid-19 em Hong Kong, solicitando que realizem teste de ácido nucleico ou contactem o Centro de Protecção de Saúde “Centre for Health Protection” em Hong Kong.

No entanto, os SSM adiantam que estas pessoas nunca estiveram em Hong Kong, além de que “o número de telefone emissor das chamadas não é o número de telefone que emite mensagens” dos SSM. Após uma consulta junto do Centro de Protecção de Saúde de Hong Kong, confirmou-se que estes serviços também não emitiram qualquer gravação telefónica. Desta forma, os SSM apelam a cidadãos e residentes para estarem atentos a eventuais burlas telefónicas por esta via. 

Hotel Tesouro | Quarentena para quem vem de Hong Kong

Com o agravamento da situação epidémica em Hong Kong, o Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus anunciou que a partir de sexta-feira, todos os indivíduos que entrem em Macau provenientes do território vizinho, passam a ter que fazer quarentena no Hotel Tesouro. Todas as pessoas provenientes de Hong Kong que já tenham reservas noutros hotéis de observação médica, verão as suas reservas canceladas a partir de sexta-feira, devendo, por isso, remarcar a sua quarentena para o Hotel Tesouro.

Imobiliário | Garantida habitação suficiente para os próximos anos

O Executivo acredita que a construção das quase 100 mil habitações nos próximos 10 anos vai corresponder à procura da população e resolver um dos principais problemas sociais de território

 

O Governo acredita que a habitação planeada e em construção vai satisfazer as necessidades dos residentes durante os próximos anos. A posição foi tomada ontem por Raimundo do Rosário, secretário para os Transportes e Obras Públicas, após a apresentação junto do Conselho para a Renovação Urbana do Estudo sobre a Política de Habitação.

“O estudo determinou as necessidades de procura de cada tipo de habitação. E chegámos à conclusão que as habitações que estão previstas e planeadas são suficientes para a procura prevista”, afirmou Raimundo do Rosário. “E espero que seja suficiente para um período superior a cinco anos”, acrescentou.

De acordo com as previsões, até 2030, vão ser construídas 6.150 fracções de habitação social, 23.950 económicas, 7.000 a 10.000 habitação para a classe média, 3.400 para idosos e 25.600 no mercado privado.

Após a revelação dos números, deputados, como Ron Lam, questionaram se as fracções para idosos são suficientes, à luz do envelhecimento da população. O secretário acredita que sim, mas promete uma avaliação permanente: “Estamos a construir o primeiro edifício com habitações para idosos e tem, salvo erro, 1.815 fracções. Está em construção e deverá ficar concluído no próximo ano”, vincou. “Vamos andando e vamos vendo e ajustando”, atirou.

Revisão até ao final do ano

Uma certeza parece ser o facto do documento oficialmente intitulado “Estudo sobre a Política de Habitação para Fins Residenciais” ir ser revisto até ao final do ano. Em causa está a actualização dos dados sobre a população com as conclusões dos censos de 2021.

“O estudo foi encomendado por um serviço público à Universidade de Macau e teve por base os censos de 2016. Os resultados dos censos de 2021 vão estar disponíveis no mês de Maio, e prevemos que no segundo semestre deste ano possa haver uma actualização do estudo”, explicou o secretário.

Afastada, para já, está a possibilidade de haver um estudo sobre o impacto da renovação urbana para as residências dos trabalhadores não-residentes e uma eventual subida dos preços das zonas onde vivem. “Estas pessoas têm de procurar habitação no sector privado, porque se forem bluecards não podem candidatar-se a estas habitações”, respondeu Raimundo do Rosário. “A minha preocupação tem a ver com as necessidades pelos diferentes tipos de habitação e tentar dar uma resposta à situação. Não estamos a dirigir as políticas às pessoas, mas às necessidades”, justificou.

DSSOPT | À espera de novo director

O nome do novo director da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) só vai ser anunciado com a apresentação da reestruturação dos serviços e com a transformação do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas (GDI) em direcção de serviços. O processo encontra-se “em estado adiantado” e após o processo vai ser conhecido o nome do sucessor de Chan Pou Ha.

Hengqin | Che Sai Wang pede incentivos para residentes

O deputado Che Sai Wang considera que o Governo deve apostar na atribuição de subsídios de alojamento ou residência para convencer os residentes de Macau a trabalhar a tempo inteiro em Hengqin.

De acordo com o deputado, “a maior parte dos residentes não tem qualquer intenção de sair de Macau e ir trabalhar em Hengqin”, dado que “preferem uma cidade mais desenvolvida” e os subsídios existentes “não são um grande atractivo”.

“Feitos os cálculos e considerados diversos factores, não há grande diferença entre os salários no mercado de trabalho local e no de Hengqin. Mais, também não conhecem a situação de emprego e que funções podem exercer em Hengqin”, lê-se na interpelação escrita.

Para Che Sai Wang, abrir um negócio na Ilha da Montanha constitui um risco tendo em conta a baixa densidade populacional da região e as incertezas a nível económico.

“Alguns residentes de Macau chamam-lhe a cidade deserta e a criação de negócios em Hengqin levanta preocupação em relação à impossibilidade de os manter devido à falta de pessoas. Além disso, o actual desenvolvimento económico também não é claro, por isso, os residentes, especialmente aqueles com dificuldades económicas, não vão considerar optar por este caminho de emprego”, acrescentou.

Por isso mesmo, o deputado quer saber se, além dos subsídios entre 5 mil e 12 mil renminbis previstos para residentes que optem por trabalhar em Hengqin consoante as suas habilitações académicas, o Governo tem planos para atrair para a Ilha da Montanha mais jovens de Macau com habilitações académicas elevadas.

Ho Iat Seng promete apoiar nova direcção da Associação das Mulheres

O Chefe do Executivo prometeu apoiar a nova direcção da Associação das Mulheres, que passou a ser liderada por Lau Kam Ling. A garantia foi deixada na segunda-feira, durante uma recepção de Ho Iat Seng à associação tradicional, que até à tomada de posse de Lau era presidida por Tina Ho, irmã de Ho Iat Seng.

Segundo um comunicado do Governo, Ho começou por destacar o papel da mulher na sociedade e a sua importância. Por isso, “lembrou que as mulheres de Macau assumem parte das responsabilidades no diz respeito ao emprego e às famílias” e frisou que esta é uma responsabilidade cada vez maior, devido à “pressão sentida” no contexto da pandemia.

A reunião serviu igualmente para o Chefe do Executivo reconhecer que a associação é um braço do Governo e que tem sido utilizada para prestar “apoio eficaz às famílias e mulheres mais necessitadas”.

Transição suave

Contudo, além de ser utilizada para ajudar mulheres necessitadas, Ho indicou que a associação tem como missão estabelecer “a união entre os novos e os antigos membros da direcção e do conselho fiscal”, “prestar serviços adequados à sociedade”, “apresentar opiniões ao governo” e ainda “participar nos trabalhos de educação”, assim como “na construção da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”. Ao contrário dos outros aspectos, o comunicado destaca que no que diz respeito à Ilha da Montanha é necessário “empenho”.

A ocasião serviu ainda para o Chefe do Executivo destacar o fervor patriótico da Associação das Mulheres e pedir que continuem a contribuir no “combate à pandemia”. Neste sentido, Ho vincou a necessidade de a associação contribuir mais para a vacinação dos mais velhos.

Por sua vez, a presidente da associação, Lau Kam Ling, afirmou que o principal objectivo da associação de Macau passa pela Ilha da Montanha e a abertura de novas representações em Cantão. Ao mesmo tempo, Lau jurou ainda fidelidade a Ho Iat Seng e apoio a todas as políticas apresentadas, também com a apresentação de “opiniões”.

Renovação urbana | Deputados querem Governo mais interventivo

Os deputados que estão a discutir o “Regime jurídico da renovação urbana” defendem que o Governo deve ser mais interventivo no processo de reabilitação do Bairro do Iao Hon. Com a reconstrução a cargo dos proprietários, o Executivo admitiu apoiar o licenciamento e atribuir benefícios fiscais para “acelerar procedimentos”

 

Os deputados da 2ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa que estão a discutir o “Regime jurídico da renovação urbana” defendem que o Governo deve ter uma postura mais interventiva quanto à criação das condições necessárias para materializar a renovação dos sete edifícios do Bairro do Ia Hon que serão sujeitos a intervenção.

Isto, quando a proposta de lei prevê que a reconstrução de condomínios com mais de 30 anos é da responsabilidade dos proprietários, que deverão ser capazes de reunir um consenso de, pelo menos, 80 por cento dos condóminos.

“A reconstrução do condomínio é realizada tendo em vista a concretização da Renovação Urbana que deve ser implementada pelos proprietários. Se isto é feito pelo Governo, os efeitos não são os melhores”, começou por explicar ontem o deputado Chan Chak Mo, que também preside à comissão.

“Sobre os sete edifícios do Iao Hon, o Governo disse que (…) irá dar apoio e fazer inquéritos para saber a vontade dos proprietários. Se a concordância chegar a 80 por cento, o Governo vai dar esse apoio. Se não chegar aos 80 por cento o Governo vai (…) obrigar os proprietários a vender a sua propriedade. Se a proposta de lei for aprovada como está, a questão terá de passar pela arbitragem, e os 20 por cento que não concordam têm de participar obrigatoriamente nesse processo”, acrescentou.

Segundo o deputado, a proposta de lei garante que os 20 por cento que não concordam com a reconstrução possam ver os seus direitos enquanto proprietários defendidos, pois “apesar de não defenderem a reconstrução, podem optar apenas pela reparação do edifício”, esclareceu.

Dentro do possível

Sobre a possibilidade de o Governo vir a ter um papel mais interventivo, Chan Chak Mo partilhou que foi admitida a introdução de alterações com o objectivo de facilitar a emissão de licenças por parte das Obras Públicas, dar benefícios fiscais ou reduzir a percentagem de consentimento necessária para iniciar o processo de reconstrução.

“Os deputados entendem que o Governo deve intervir mais e o Governo concorda com isto. Durante os procedimentos, as Obras Públicas podem dar mais apoio ou acelerar os procedimentos para dar licenças. Além da proposta de lei, podem ser dados benefícios fiscais e reduzir-se a percentagem de concordância para conceder mais facilidades aos proprietários”, vincou Chan Chak Mo.

Durante a reunião de ontem, que contou com a presença do secretário para a Administração e Justiça, André Cheong, o deputado apontou ainda que, apesar de a proposta de lei prever a reconstrução através da anexação de parcelas de terreno, “tudo depende do Plano Director” e das respectivas finalidades que forem atribuídas aos terrenos.

Coutinho critica análise à proposta da lei do jogo, mas Kou Hoi In desvaloriza

José Pereira Coutinho criticou a forma como Chan Chak Mo está a conduzir os trabalhos de análise da lei do jogo, na 2.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, e está preocupado com a qualidade do futuro diploma.

“Estou decepcionado porque ainda não analisámos na especialidade a lei artigo a artigo. No entanto, o presidente da 2ª Comissão Permanente já deu por encerrados os trabalhos da primeira análise”, queixou-se Pereira Coutinho.

O legislador questionou ainda o pouco envolvimento dos deputados: “Os trabalhos começaram a partir de documento com uma análise e comentários à própria lei. Esse documento nem foi feito pelos deputados, que nunca foram questionados sobre diploma”, revelou Coutinho.

“Aquele documento para a primeira análise caiu do céu, feito pela assessoria e só tem umas linhas gerais, sem entrar em detalhes”, sublinhou. “Estou decepcionado com a condução dos trabalhos da comissão. Não é assim que se trabalha em sede de especialidade”, desabafou.

O deputado ligado à Associação de Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) mostrou-se ainda preocupado com a eficácia da legislação. “Sem dúvida que vai afectar a qualidade de lei. Eu nem percebo como é que os deputados vão aprovar uma lei assim”, confessou. “Há mais de 20 anos que sou deputado e nunca vi nada assim”, reforçou.

Objectivo temporário

Por sua vez, Kou Hoi In, presidente da Assembleia Legislativa, preferiu destacar que a lei precisa de ser aprovada “em tempo útil”, que foi definido como 26 de Junho. “O ritmo de trabalho da comissão permanente está a ser satisfatório. Temos de identificar os principais problemas da proposta de lei e apresentar as nossas perguntas ao Governo, para que esclareçam a questão”, afirmou.

Sobre um dos diplomas mais importantes para o futuro da região, Kou Hoi In pouco mais disse, além de reafirmar a necessidade de cumprir o calendário do Governo, ouvir as opiniões da população e fazer uma análise minuciosa.

Vong Hin Fai também comentou a legislação que irá reger a maior indústria do território. Para o deputado, o diploma mais do que regular o jogo vai servir para diversificar a economia de Macau. “Um dos desafios para a Assembleia Legislativa nesta Legislatura é a diversificação da economia. Penso que a proposta também tem esse objectivo”, considerou.

Lei do jogo | Au Kam San pede esclarecimentos sobre segurança nacional

A associação Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário entregou ontem uma carta à comissão da Assembleia Legislativa que está a analisar na especialidade a lei do jogo. Au Kam San, ex-deputado e vice-presidente da associação, defende que é preciso clarificar os motivos ligados à segurança nacional que podem determinar o fim das concessões

 

Os deputados da segunda comissão permanente da Assembleia Legislativa (AL) receberam ontem uma carta da associação Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário com críticas e sugestões sobre a proposta de lei do jogo, actualmente em discussão na especialidade. Segundo Au Kam San, ex-deputado e vice-presidente da associação, o Governo tem de clarificar a relação entre segurança nacional e o sector do jogo.

“Caso as concessionárias de jogo tenham práticas que vão contra a segurança do Estado ou da RAEM, é razoável a extinção da concessão. No entanto, a proposta fala apenas de ‘prejudicar a segurança do Estado ou da RAEM’ e não há mais definições. Este termo vazio pode ser aplicado em todos os cenários e isso traz um enorme risco para as empresas de jogo”, explicou.

Na óptica de Au Kam San, não é justo que as concessionárias investam quantias milionárias para depois serem acusadas de violar a segurança do Estado a qualquer momento, perdendo a concessão.

Em termos gerais, a proposta da Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário defende o aumento da fatia das receitas do jogo para fins sociais a alterações legislativas que promovam a diversificação das operações das concessionárias.

Menos para a FM

O ex-deputado, afastado das últimas eleições, acusa a proposta de lei de ter “várias falhas”, defendendo uma maior alocação das receitas do jogo para o sector da segurança social. “O artigo 22º da proposta de lei determina que entre dois a três por cento das receitas brutas do jogo devem destinar-se a uma entidade pública ou para o desenvolvimento urbanístico. O sistema de segurança social está numa situação de défice, o Governo assume isso, mas não quer alterar a contribuição”, disse. Neste sentido, defende que a Fundação Macau deve receber menos fundos das receitas do jogo em prol do sistema de segurança social.

Além disso, o responsável acredita que a proposta de lei do jogo deveria ir mais além nas medidas destinadas a diversificar as operações das concessionárias. Isto porque a actual legislação determina que apenas podem ser admitidas a concurso público “sociedades anónimas constituídas na região e cujo objecto social seja, exclusivamente, a exploração de jogos de fortuna ou azar ou outros jogos em casino”.

“Esta é uma lei antiga não sei porque foi regulada desta forma no passado. Mas o problema é que, actualmente, pedimos que as empresas tenham mais elementos não jogo para que possam impulsionar a diversificação da economia. Achamos que este ponto não é apropriado, é contraditório e deve ser omitido”, apontou Au Kam San.

Deputados dizem que famílias estão abertas à vacinação dos filhos

Dois deputados afirmaram ontem, à margem do almoço de ano novo chinês da Assembleia Legislativa, que a abertura dos pais à vacinação dos filhos contra a covid-19 tem sido grande e que a situação pandémica em Hong Kong trouxe uma maior preocupação às famílias ou mulheres grávidas.

Kou Kam Fai, também director da escola Pui Ching, disse que oito por cento dos alunos do ensino infantil e primário desta instituição de ensino já foi vacinado contra a covid-19. O responsável referiu que os pais têm reagido bem ao apelo da vacinação dos filhos.

“A Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) emitiu um aviso sobre o surto de Hong Kong. Já tínhamos aberto as inscrições [para a vacinação] três dias antes e cerca de 40 por cento dos pais com filhos dos 3 aos 12 anos demonstra vontade em vaciná-los. Se houver um grande número de inscrições as vacinas serão administradas dentro das escolas. A reacção dos pais é melhor do que as nossas previsões, talvez tenham receio do surto”, frisou.

Acima dos 90 por cento

Por sua vez, Ma Io Fong, deputado e docente na Escola de Talentos Anexa à Escola Hou Kong, disse que “a divulgação da vacinação nas escolas e sector educativo tem sido bem sucedida” e que os pais têm mostrado uma grande receptividade à vacinação dos filhos, tendo em conta a explosão de casos de covid-19 no território vizinho.

“O Governo lançou uma medida para que os funcionários públicos tenham uma folga para acompanhar os filhos na vacinação, o que é uma política de incentivo. Espero que haja mais medidas de incentivo no futuro para que a taxa de vacinação possa ficar acima dos 90 por cento”, defendeu.

Ma Io Fong referiu mesmo que “surgiram mais preocupações” devido à situação em Hong Kong, nomeadamente por parte de mulheres grávidas que desejam vacinar-se. “Não recebi, até à data, queixas de famílias sobre a vacinação obrigatória dos alunos. O Governo pode divulgar mais dados sobre as vacinas para que as famílias tenham mais confiança”, adiantou.

AL | Balanço dos meses inaugurais de uma legislatura só com patriotas

O novo elenco da AL materializa o princípio “Macau governado por patriotas”, facto destacado por Kou Hoi In no tradicional Almoço de Primavera dos membros do hemiciclo com os média locais. Vong Hin Fai dá conta de um ambiente diferente, enquanto Pereira Coutinho afirma que o trabalho dos deputados pró-democracia recai agora nos legisladores da Nova Esperança. O HM falou com veteranos e novatos nas lides legislativas sobre a adaptação às funções e os principais desafios que se avizinham

 

“No seguimento da realização bem-sucedida das eleições para a VII Legislativa desta Câmara, os assentos parlamentares passaram a ser preenchidos na sua totalidade por figuras patrióticas, materializando, deste modo, o princípio de ‘Macau governado por patriotas’”, afirmou ontem Kou Hoi In, presidente da Assembleia Legislativa (AL). As palavras do deputado que dirige a casa das leis foram proferidas ontem na abertura do tradicional Almoço de Primavera que reuniu deputados e representantes os órgãos de comunicação social.

Além do habitual balanço contabilístico com a apresentação do número de leis aprovadas, interpelações apresentadas e outros trabalhos afins, a tónica do discurso de Kou Hoi In, e das declarações de deputados recolhidas pelo HM, virou-se para os desafios que a RAEM tem pela frente e da nova Era em que a AL entrou deste as últimas eleições legislativas, marcadas pelo afastamento da ala democrata do hemiciclo.

Neste sentido, o veterano Vong Hin Fai deu conta das distinções sentidas nos primeiros quatro meses da nova legislatura. “No passado também houve cooperação saudável, mas o ambiente agora é diferente, porque neste mandato os candidatos são todos patriotas, desse modo o ambiente é algo diferente”, afirmou o legislador, denotando que os novos colegas “estão a ser integrados no ambiente de trabalho”.

Pereira Coutinho também mencionou a mudança de paradigma no hemiciclo. “Parte do volume de trabalho dos deputados democratas está centralizado em nós, nos deputados da Nova Esperança, embora o meu colega também se esteja a adaptar à AL”, revelou o deputado acrescentando que esta será “certamente” uma legislatura especial e difícil.

Primeiros passos

O segundo deputado eleito pela lista liderada por Pereira Coutinho, o estreante Che Sai Wang, relevou ao HM que a realidade que encontrou nos trabalhos legislativos excedeu as suas expectativas. “Sinto-me bem nesta legislatura. Antes de me candidatar às eleições, achava que as vozes na AL não tinham grande eco”, declarou.

Porém, a experiência dos primeiros quatro meses como legislador revelou a Che Sai Wang que a maioria dos seus colegas de hemiciclo transmite “os pontos de vista da população”, num leque vasto de aspectos sócio-económicos em que a governação pode influenciar a vida dos residentes.

Ron Lam U Tou é outra das caras novas do elenco de deputados da nova legislatura, e um dos mais críticos da acção governativa desde que tomou posse. Em declarações ao HM, o deputado comprometeu-se em trabalhar arduamente, apesar de ainda estar em período de ambientação às novas funções que desempenha. “Estou a par do que tenho de fazer e das funções que tenho, mas ainda estou a tentar adaptar-me à vida de deputado. Vou tentar participar em todas as reuniões das comissões permanentes e do plenário para ouvir as políticas do Governo e questioná-las detalhadamente”, prometeu.

O que aí vem

Kou Hoi In lançou os dados para o futuro dos trabalhos legislativos, tarefas que se interceptam com as políticas seguidas pelo Executivo de Ho Iat Seng. “Para o futuro, antevê-se que a tarefa da Assembleia Legislativa será de uma dificuldade e complexidade acrescidas, pelo que nos comprometemos a trabalhar em sintonia com o Governo da RAEM na aceleração do processo da diversificação económica, na optimização das infra-estruturas relacionadas com a vida da população, no aprofundamento da reforma administrativa e na promoção da construção da zona de cooperação aprofundada na Ilha de Hengqin”, afirmou o presidente da AL.

Outro dos objectivos próximos, prende-se com a reforma do regime jurídico que regula o sector económico predominante em Macau. “A AL compromete-se a dar todo o seu contributo para o desenvolvimento saudável e ordenado da indústria do jogo”, afirmou Kou Hoi In.

Neste aspecto, Vong Hin Fai fez eco das projecções de Kou Hoi In. “Penso que o maior desafio que temos pela frente é diversificar a economia da RAEM na sequência da pandemia. Outro, é a integração da RAEM na Grande Baía, principalmente no desenvolvimento da zona de cooperação aprofundada em Hengqin”, afirmou o deputado, referindo também o papel de intercâmbio de Macau nas relações entra a China e os países lusófonos.

Olhando para o passado recente, o presidente da AL fez um balanço positivo da legislatura anterior, realçando “o carinho e o apoio sempre dispensados pelo Governo Central e pelo Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM” e agradeceu o trabalho e esforço de deputados e pessoal de apoio técnico aos trabalhos legislativos.

Ma Chi Seng | Pelo desenvolvimento do desporto

Ma Chi Seng, deputado nomeado pelo Chefe do Executivo, acredita a actual Legislatura e a organização, em Macau, Hong Kong e Cantão, dos Jogos Nacionais em 2025 são uma excelente oportunidade para desenvolver o desporto local.

“Como deputado dou todo o apoio à realização dos Jogos Nacionais. Queremos aproveitar esta oportunidade para que a organização na Grande Baía se destaque e que Macau assuma bem o seu papel”, disse o deputado, ao HM. “Temos de promover mais o desporto em Macau, e acredito que o evento é uma oportunidade para criar mais instalações e lançar novas competições em Macau. O evento pode ser muito bem aproveitado para aumentar o nível dos nossos atletas e atrair mais turistas”, acrescentou.

Lo Choi In | Emprego e diversificação da economia prioritários

Assegurar a diversificação da economia e garantir o emprego e a sobrevivência das Pequenas e Médias Empresas (PME), são as principais prioridades para a deputada Lo Choi In, que se estreia no hemiciclo eleita com o apoio da comunidade de Jiangmen.

“Sabemos que a economia está numa fase negativa e é preciso ouvir diversos sectores para lidar com os problemas de emprego e subemprego”, reconheceu Lo, ao HM. “Sei que fui eleita para representar a população e como tenho formação em economia, tenho de procurar dar respostas aos problemas que a população enfrenta, principalmente o desemprego, assim como a sobrevivência das Pequenas e Médias Empresas”, acrescentou.

Sobre a diversificação, que diz ir resolver os problemas do desemprego, numa fase em que o turismo está numa época baixa, Lo aponta o Interior como a “salvação”.

A deputada acredita que a estratégia tem de passar pelo “comércio electrónico transfronteiriço”, com a RAEM a vender mais produtos no Interior. Lo indicou os produtos característicos de Macau, os alimentos feitos localmente e ainda os produtos culturais e turísticos como os que têm maior hipóteses de ser bem-sucedidos e que devem ser a aposta. Nesse sentido, defende que os deputados têm de pressionar o Governo para agilizar a desalfandegamento de produtos Macau no Interior e, em especial, na Grande Baía e na Zona de Cooperação na Ilha da Montanha.

Numa segunda fase, com o fim das medidas pandémicas, a deputada acredita que as exportações, a serem competitivas no Interior, poderiam também ser populares em outros mercados asiáticos.

Ron Lam | Característica sino-portuguesa de Macau é um ‘slogan’

Ron Lam U Tou disse ontem à Lusa que a característica sino-portuguesa de Macau é apenas um ‘slogan’ do Governo e que a redução da comunidade lusófona é uma tendência crescente. “A comunidade portuguesa tem vindo a declinar em Macau nos últimos anos, e é uma tendência, uma realidade”, vincou ainda Lam U Tou.

Segundo os dados oficiais enviados pelas autoridades à Lusa, mais de 1.600 pessoas com passaporte português abandonaram o território nos últimos dois anos.

Apesar dos números, Lam U Tou defendeu que, “com quase 400 anos de interacção entre Portugal e Macau, um curto período de mudança no fluxo de pessoas ‘não significa eternidade’”. E que “Macau terá sempre as suas raízes”, sublinhou.

O deputado afirmou ainda que “factores políticos e internacionais” terão levado a comunidade portuguesa a sair de Macau, algo que disse compreender. “Espero que o Governo de Macau aborde estas preocupações, defendendo o princípio de “Um País, Dois Sistemas” e a segurança nacional, e que as características de Macau sejam verdadeiramente mantidas”, acrescentou. “No entanto, existem agora muitos conflitos ideológicos”, salientou.

Por outro lado, sustentou que o desenvolvimento da Área da Grande Baía não significa que as características de Macau serão apagadas. “Não só esperamos que a comunidade de Macau tenha a sua própria identidade com a Área da Grande Baía, mas também esperamos que a comunidade portuguesa mantenha a sua identidade e tenha o seu próprio posicionamento e identidade no desenvolvimento” neste projecto, concluiu.

Ucrânia | Acções asiáticas descem com mobilização do exército russo para “manutenção da paz”

As acções caíram hoje na Ásia e o petróleo atingiu o valor mais alto desde 2014, depois de o Presidente da Rússia ter mobilizado o exército para a “manutenção da paz” em territórios separatistas da Ucrânia.

No Japão, a bolsa de Tóquio fechou em baixa, com o principal índice, o Nikkei, a perder 1,71%, para 26.449,61 pontos. No fecho da sessão, o segundo indicador, o Topix, desceu 1,55%, para 1.881,08 pontos.

Os gigantes tecnológicos japoneses foram dos mais afetados pela descida, com a Sony a cair 2,64% e os fabricantes de componentes para semicondutores Lasertec e Tokyo Electron a perder 3,37 % e 4,04 %, respetivamente.

Na Coreia do Sul, o Kospi, o principal índice da bolsa de Seul, perdeu 1,35%, enquanto na Austrália o índice S&P/ASX 200 caiu 1%. A principal bolsa da China continental, em Xangai, fechou também em baixa, com o índice SSE Composite a descer 0,96%. A uma hora do fecho da sessão, o Hang Seng, o principal índice da bolsa de Hong Kong, estava a cair 2,92%.

A cotação do barril de petróleo Brent para entrega em abril abriu em alta, esta manhã, subindo 2% no mercado de futuros de Londres, para 97,33 dólares, o que representa um novo máximo desde setembro de 2014.

No fecho da sessão da véspera, as principais bolsas europeias terminaram no ‘vermelho’ na segunda-feira, penalizadas pelo agravamento da crise ucraniana. O DAX da Alemanha recuou 2,1%. Em Paris, o CAC 40 em Paris caiu 2%. O FTSE 100 do Reino Unido caiu 0,3%.

A bolsa russa caiu mais de 13% na segunda-feira e abriu hoje a perder mais de 8%. O rublo também se desvalorizou 3,2%, com um dólar a valer 79,12 rublos e um euro a 89,5 rublos.

Os mercados dos EUA estiveram fechados na segunda-feira devido ao feriado do Dia dos Presidentes.

Na segunda-feira, o Presidente russo, Vladimir Putin, ordenou a mobilização do exército para a “manutenção da paz” nos territórios separatistas pró-russos no leste da Ucrânia, que reconheceu como independentes.

Putin assinou dois decretos que pedem ao Ministério da Defesa russo que “as Forças Armadas da Rússia [assumam] as funções de manutenção da paz no território” das “repúblicas populares” de Donetsk e Lugansk, de acordo com a agência de notícias France-Presse.

O anúncio de Putin gerou, de forma imediata, uma onda de condenações da parte dos principais atores internacionais implicados na crise da Ucrânia e que apoiam Kiev, nomeadamente os Estados Unidos, a NATO e a EU, assim como da Austrália, Canadá e Japão.

Nos últimos dias, o clima de tensão agravou-se ainda mais perante o aumento dos confrontos entre o exército da Ucrânia e os separatistas pró-russos no leste do país, na região do Donbass, onde a guerra entre estas duas fações se prolonga desde 2014.

China pede “contenção” a todas as partes sobre situação na Ucrânia

A China pediu hoje a todas as partes envolvidas na crise ucraniana que “mostrem moderação”, após o anúncio do presidente russo, Vladimir Putin, do envio de tropas para duas regiões separatistas na Ucrânia.

“Todas as partes envolvidas devem exercer moderação e evitar qualquer ação que possa alimentar as tensões”, disse Zhang Jun, embaixador da China na ONU, numa reunião de emergência do Conselho de Segurança sobre a Ucrânia.

Numa rara reunião noturna do órgão mais poderoso da ONU, a maioria dos membros do Conselho de Segurança condenou a decisão do Presidente russo, Vladimir Putin, de reconhecer a independência de Donetsk e Lugansk, no leste da Ucrânia.

A secretária-geral adjunta da ONU para os Assuntos Políticos, Rosemary DiCarlo, “lamentou profundamente” a iniciativa.

“As próximas horas e [os próximos] dias serão críticos. O risco de um grande conflito é real e deve ser evitado a todo o custo”, disse a norte-americana.

Vladimir Putin ordenou na segunda-feira a mobilização do Exército russo para “manutenção da paz” nos territórios separatistas pró-russos no leste da Ucrânia, que reconheceu como independentes.

Putin assinou dois decretos que pedem ao Ministério da Defesa russo que “as Forças Armadas da Rússia [assumam] as funções de manutenção da paz no território” das “repúblicas populares” de Donetsk e Lugansk, de acordo com a agência de notícias France-Presse.

O anúncio de Putin gerou, de forma imediata, uma onda de condenações da parte dos principais atores internacionais implicados na crise da Ucrânia e que apoiam Kiev, nomeadamente os Estados Unidos, a NATO e a EU, assim como da Austrália, Canadá e Japão.

Nos últimos dias, o clima de tensão agravou-se ainda mais perante o aumento dos confrontos entre o exército da Ucrânia e os separatistas pró-russos no leste do país, na região do Donbass, onde a guerra entre estas duas fações se prolonga desde 2014.

Relações China – EUA mais tensas do que nunca, 50 anos após a visita de Nixon a Pequim

A visita do antigo presidente dos Estados Unidos Richard Nixon a Pequim, no auge da Guerra Fria, transformaria as relações entre Pequim e Washington e a posição da China no mundo, de forma impensável na altura.

A relação entre Pequim e Washington foi sempre complexa e, após meio século de altos e baixos, está hoje mais tensa do que nunca. A Guerra Fria acabou, mas, em ambos os lados, há receios de que uma nova esteja a começar.

Os Estados Unidos temem que a ordem liberal que triunfou sobre a União Soviética possa ser desafiada pelo modelo autoritário de uma China poderosa e em ascensão.

“A relação EUA – China sempre foi controversa, mas necessária”, disse Oriana Skylar Mastro, especialista em assuntos da China da Universidade de Stanford, citada pela Associated Press.

“Talvez há 50 anos as razões fossem sobretudo económicas. Agora, pertencem principalmente ao domínio da segurança. Mas o relacionamento nunca foi – e nunca será – fácil”, frisou.

Nixon desembarcou em Pequim numa manhã cinzenta de inverno há precisamente 50 anos. Nas ruas, cartazes envergavam mensagens como “Abaixo o Imperialismo Americano”, parte da Revolução Cultural, a campanha de massas que enviou intelectuais e estudantes para o campo e submeteu muitos à humilhação pública e ataques brutais, e até mortais, em nome da luta de classes.

A viagem de Nixon, em 1972, incluiu reuniões com o fundador da República Popular, Mao Zedong, e uma visita à Grande Muralha, levando ao estabelecimento de relações diplomáticas, em 1979, e ao corte dos laços formais entre Washington e Taiwan, que os EUA reconheciam então como o legítimo governo da China, após o Partido Comunista Chinês conquistar o poder no continente chinês, em 1949.

O tradutor do primeiro-ministro Zhou Enlai escreveu num livro de memórias que Nixon disse, ao chegar a Pequim, “esta mão estende-se pelo Oceano Pacífico em amizade” enquanto apertava a mão de Zhou.

Para ambos os lados, foi uma amizade nascida das circunstâncias, em vez de lealdades naturais.

A relação entre a China e a União Soviética, ex-aliados comunistas, atravessava então um período de tensão, marcado por confrontos, ao longo da fronteira, em 1969. Mao via os Estados Unidos como um contrapeso, face à ameaça de invasão soviética.

Nixon estava a tentar isolar a União Soviética e sair da prolongada e sangrenta guerra no Vietname, que dividiu a sociedade norte-americana. Ele esperava que a China, aliada do Vietname do Norte, pudesse desempenhar um papel na resolução do conflito.

O presidente dos EUA colocou-se “numa posição de suplicante”, disse June Teufel Dreyer, especialista em política chinesa da Universidade de Miami, citado pela AP.

A imprensa estatal chinesa promoveu a ideia de que uma “China próspera seria uma China pacífica” e que o país era um grande mercado para as exportações norte-americanas, descreveu.

Mas, primeiro, os EUA tornaram-se um enorme mercado para a China, impulsionando a ascensão meteórica do país asiático, de uma nação empobrecida para a segunda maior economia do mundo.

A visita de Nixon foi um “evento crucial que deu início à reviravolta da China e à sua subsequente ascensão global”, notou Dali Yang, da Universidade de Chicago, autor de vários livros sobre política e economia do país asiático.

Dois anos após a morte de Mao Zedong, em 1976, o novo líder chinês Deng Xiaoping inaugurou uma era de liberalização económica, criando um sistema capitalista, liderado pelo Estado e governo de partido único, e que perdura até hoje.

A riqueza da China permitiu uma grande expansão das suas forças armadas, que os EUA e seus aliados veem hoje como uma ameaça.

O Partido Comunista diz que quer apenas defender o seu território. Isto inclui, no entanto, tentar controlar ilhas também reivindicadas pelo Japão, no Mar do Leste da China, e por nações do Sudeste Asiático, no Mar do Sul da China.

O exército chinês envia também frequentemente aviões de guerra em missões de treino para Taiwan, uma fonte de atrito com os Estados Unidos.

A China reivindica como seu aquele território. Os EUA fornecem equipamentos militares a Taiwan e alertaram a China contra qualquer tentativa de reunificar a ilha através do uso da força.

Embarcar no processo de trazer a China de volta para o mercado internacional foi a decisão certa, mas o último meio século ainda não colocou as relações num caminho estável, disse Rana Mitter, professora de história chinesa e política moderna da Universidade de Oxford.

“Os EUA e a China ainda não conseguiram descobrir exatamente como encaixar um no outro, num mundo onde ambos têm um papel, mas acham cada vez mais difícil acomodarem-se”, disse.

As autoridades chinesas veem a visita de Nixon como um momento em que os dois países procuraram manter uma comunicação e compreensão mútuas, apesar das suas diferenças, apontou Zhu Feng, reitor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Nanjing, afirmando que essa mesma abordagem é hoje fundamental, para superar o atual impasse.

Embora a sua viagem à China tenha dado vantagem aos EUA na rivalidade da Guerra Fria com a União Soviética, Washington enfrenta agora um novo cenário geopolítico – com ecos do passado.

A União Soviética colapsou, mas os líderes russo e chinês, Vladimir Putin e Xi Jinping, respetivamente, estão a aproximar-se, à medida que reagem contra a pressão dos EUA sobre os seus modelos autoritários.

A Guerra do Vietname acabou, mas a sociedade norte-americana está hoje outra vez dividida, desta vez por causa da resposta à pandemia e da ascensão do populismo.

O presidente dos EUA, Joe Biden, disse que deseja um relacionamento mais previsível com a China, mas persistem grandes diferenças sobre comércio e direitos humanos, tornando muito mais difícil encontrar esse entendimento mútuo.

A perspetiva de estabilidade de longo prazo nos laços firmados pela visita de Nixon parece estar cada vez mais fora de alcance.

“As relações China – EUA atravessam um momento terrível”, disse Xiong Zhiyong, professor de relações internacionais da Universidade de Relações Internacionais da China. “Há, de facto, pessoas que desejam melhorar as relações, mas é muito difícil consegui-lo”, argumentou.