Ucrânia | Banco dos BRICS suspende transações financeiras na Rússia Hoje Macau - 9 Mar 2022 O Banco do Novo Desenvolvimento, mais conhecido como o banco dos BRICS, anunciou a suspensão das operações na Rússia, um dos países que, juntamente com o Brasil, Índia, África do Sul e China, compõem os chamados BRICS. “O banco do Novo Desenvolvimento [New Development Bank – NDB] aplica princípios sãos em todas as suas operações, conforme exposto nos Artigos de Princípio”, lê-se numa declaração de três linhas colocada no ‘site’ do banco. “À luz das incertezas e restrições em curso, o NDB suspendeu as novas transações na Rússia”, refere a mesma nota. A declaração, consultada hoje pela Lusa e com data de quinta-feira, 3 de março, acrescenta ainda que “o NDB vai continuar a operar os seus negócios em conformidade total com os mais altos padrões de ‘compliance’ [cumprimentos dos regulamentos e boas práticas] enquanto instituição internacional”. A sigla BRIC foi apresentada pela primeira vez por Jim O’Neil, no estudo de 2001 ‘Building Better Global Economic BRIC’, sendo acrescentada a África do Sul em 2010, mudando a sigla para BRICS. Este grupo de cinco países representa cerca de 25% da riqueza mundial e entre 2003 e 2007 foi responsável por 65% do crescimento mundial, embora as trajetórias de crescimento muito diferentes desde então tenham levado a agência de notação financeira Standard & Poor’s, em 2019, a dizer que o acrónimo já não faz sentido. A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que, segundo as autoridades de Kiev, já fez mais de 2.000 mortos entre a população civil. Os ataques provocaram também a fuga de mais de 1,5 milhões de pessoas para os países vizinhos, de acordo com a ONU. A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas a Moscovo.
Ucrânia | Xi Jinping pede “contenção máxima” em conversa com Macron e Scholz Hoje Macau - 9 Mar 2022 O Presidente chinês, Xi Jinping, pediu ontem “contenção máxima” no conflito na Ucrânia, durante uma conversa por telefone com os líderes de França e Alemanha, Emmanuel Macron e Olaf Scholz, respetivamente, informou a televisão chinesa. A China, que mantém boas relações com Moscovo, recusou, até agora, falar de uma invasão da Ucrânia, lamentando apenas o conflito, ao mesmo tempo em que disse “compreender” as preocupações de segurança russas. Segundo a cadeia televisiva estatal CCTV, Xi Jinping disse que a China estava “profundamente entristecida por testemunhar uma nova guerra no continente europeu”. “Desejamos pedir a maior contenção para evitar uma crise humanitária em grande escala”, acrescentou, sem denunciar a ofensiva lançada, em 24 de fevereiro, pelo Presidente russo, Vladimir Putin, contra o país vizinho. Xi Jinping disse “apreciar os esforços da França e da Alemanha para atuar como mediadores” e garantiu que Pequim também está pronta para desempenhar “um papel ativo”. “Devemos juntos apoiar as negociações pela paz entre a Rússia e a Ucrânia”, afirmou. A China “está pronta para fornecer ajuda humanitária à Ucrânia”, acrescentou. O Presidente chinês repetiu a oposição do seu país às sanções internacionais, dizendo que as medidas tomadas contra Moscovo “causarão danos a todas as partes”. A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que, segundo as autoridades de Kiev, já fez mais de 2.000 mortos entre a população civil. Os ataques provocaram também a fuga de mais de dois milhões de pessoas para os países vizinhos, de acordo com a ONU. A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas a Moscovo.
Vladimir Maiakovski Amélia Vieira - 9 Mar 2022 Seria então cometer duplo suicídio colectivo se neste instante – Hora do Mundo – deixássemos de lembrar o que define a qualidade dos povos, os poetas que lhes nascem. Este é um Vladimir para a eternidade (se a houver) e alguém de uma exasperante beleza. Nasceu na Geórgia, como Estaline, parecendo-nos duro, grave e cheio de magia- é Maiakovski- o agente da transformação poética do século XX; revolucionário, futurista, coração gigante e tudo o mais que o melhor englobou; é o rosto de um século espectacularmente fecundo, logo a abrir num arrebatamento que transfiguraria para sempre as sociedades, essas imponderáveis organizações que podem capitular repetidamente o seu pior, esquecendo o quanto de bom lhes assiste. O Futurismo russo separa-se do italiano por vertentes bem mais refinadas e labirínticas, pois que nele o fascismo não entrou, como foi o caso do primeiro, e foi todo ele feito numa utópica capacidade de mudança sem mencionar os dotes tecnológicos de impactante frieza logo a abrir e, por isso, o grito Maiakovski ” exigimos respeito pelo direito dos poetas (…) a uma raiva irreprimível existente antes deles; a arrancar com horror da fronte orgulhosa a Coroa, feita por vós duma vassoura de ramos e duma glória de dois patacos”, estando destruídas as conveniências de qualquer composição idólatra face aos regimes que sobre eles e pelas suas lutas avançariam. Escandaloso! E pode ser a expressão exacta para definir tal comportamento em rota de colisão com a floresta de dogmas e tradições paradas mas, no caso do nosso Vladimir, tudo se tornaria bem mais exigente findo o arrebatamento deste primeiro embate. E ei-lo avançando com o rigor poético de sentido de missão, levando esta experiência da sua escrita a patamares de comoção e qualidade, quase insuperáveis. Tem a alma do Império Russo estampado na fronte, este ser que ajudará a quebrar uma primeira etapa de um ângulo que nos parece lendário, e todos os regimes serão nesta perspectiva tão necessários quanto medonhos, disso temos experiências e certezas e, via Molotov, ver-se-ia pressionado por todo um dirigismo em matéria literária saído paradoxalmente da utopia que na sua paixão ajudara a edificar. Não irá permitir que o domem, ser preso uma vez mais e suicida-se. A construção do Homem Novo sofre revezes que os sonhadores desconhecem. Transbordamos de manifestações políticas e pode ser este o momento da manifesta noção exacta da nossa pequenez, do nosso transtorno, do nosso atavismo, mas também isso nada quererá dizer face a monumentos como o poeta Maiakovski, que os povos devem ser lembrados e julgados pela qualidade dos poetas que lhes nascem e nada mais. Reflectir o que nos trouxe a Hora amarga e não sublevar as conspiratórias doutrinas de uns e de outros, dado que as coisas grandes como bem disse Holderlin “os poetas o fundam”. Se os lêssemos, as guerras não seriam possíveis. Se com eles nos familiarizássemos, as agruras dos dizeres acabariam por ser esquecidas, mas o tempo ímpio devolve uma natureza imprópria para a paz. Que a guerra, pode ser feia, mas mais terrível é o nosso estranho estado de párias de uma dimensão desconhecida. Um dia, quem sabe, ela, que também gostava de bichos, apareça numa alameda do zôo, sorridente. Ela é tão bela, que por certo, hão-de ressuscitá-la. Vosso Trigésimo Século ultrapassará o exame de mil nadas, […] Ressuscita-me, nem que seja só porque te esperava como um poeta
Carlos Morais José, autor: “A China é uma colecção de enigmas” José C. Mendes - 9 Mar 2022 Hoje, terceiro dia da Semana de Cultura Chinesa do Hoje Macau, é lançado o livro de Carlos Morais José “Nove Pontos na Bruma – textos sobre a China”, na Fundação Rui Cunha, pelas 18:30, com apresentação de José Carlos Matias Os temas abordados neste livro sobre a China vão do pensamento à poesia, da mitologia à história e à política contemporânea. Como é que isto acontece? Talvez isso tenha a ver com o facto da minha formação académica ser em Antropologia, que é um saber que abrange todas as áreas humanísticas, todos os discursos possíveis sobre o Homem. Daí que, se juntarmos a isso a minha prática jornalística, torna-se evidente para mim que todos os campos das ciências sociais e humanas me interessam, pois procuro sempre uma visão transversal, por vezes, sintética dos problemas e dos temas. Por outro lado, talvez um lado mais íntimo, a produção literária sempre me acompanhou, daí que tenha igualmente inserido alguns poemas inéditos neste livro. Quando nasceu o seu interesse pela China e os temas chineses? Nasceu precisamente durante os anos 80 do século passado, quando estudava Antropologia, na Universidade Nova de Lisboa. Tive uma cadeira em que tive de ler o livro “La pensée chinoise”, de Marcel Granet. Esse momento foi uma revelação. Até então tinha somente estudado sociedades tribais, sem escrita, cujos dados eram meramente baseados na observação de etnógrafos. Nesse momento, descobri uma civilização complexa mas radicalmente diferente da minha, que tinha desenvolvido uma cultura baseada no texto e que me prometia o acesso a um saber outro, uma base da qual poderia também avaliar e julgar a minha própria sociedade. Mas a vinda para Macau aumentou esse interesse? Com a vinda para Macau e o contacto directo com os chineses, esse interesse aumentou, desenvolveu-se e, desde 1990, que tenho lido tudo o que posso e existe sobre história, cultura e literatura chinesa, sobretudo para compreender as bases culturais das pessoas que me rodeiam. Porque fazem as coisas assim e não assado, porque têm determinado tipo de atitudes e não outras, etc.. Aqui tive acesso aos clássicos chineses, através de colecções editadas no interior da China, sobretudo em inglês, que foram muito importantes para começar a entender o que para mim era obscuro. Daí o título “Nove Pontos na Bruma”? Para alguém de formação ocidental, greco-latina e judaico-cristã, o olhar sobre a China, devido à antiguidade, dimensão e complexidade da sua cultura, será sempre, de algum modo, embaciado (ver prefácio que aqui publicamos). Os juízos de valor que formamos num momento revelam-se frustres no momento seguinte. A China não é um mistério, é uma colecção gigantesca de livros policiais (risos). Quero dizer de enigmas, de paradoxos do nosso ponto de vista, de surpresas, de sobressaltos, de uma antiquíssima modernidade. O livro começa com a definição de vários termos chineses… Julguei ser fundamental um esclarecimento terminológico para evitar certos mal-entendidos que surgem com a tradução. Por exemplo, o conceito de Céu é radicalmente diferente na China. Aqui, quando se diz Céu não está a ser referida uma instância à parte, separada deste mundo onde nos encontramos, como acontece no Ocidente judaico-cristão. A partir de certa altura, há cerca de 2500 anos, o conceito de Céu é empregue com um significado próximo ao de Natureza no Ocidente. Noutras palavras, o Céu chinês é imanente e não transcendente e isso tem que ser imediatamente explicado para evitar confusões. Outro termo interessante é coração, em chinês xin. O pensamento chinês usa este termo para significar o lugar onde coexistem as emoções, a vontade, a moral e a razão. Não se trata, como explico no livro, de não existir uma distinção entre intelecto e paixões, racional e irracional. Trata-se de um pensamento que assume a razão circunscrita por valores que lhe prescrevem um objectivo. Os chineses assumem que os discursos estão sempre impregnados de valores, o que é fundamental para compreender esta cultura. Depois passa para o confucionismo, a mitologia, os símbolos e a história. Sim. O confucionismo constitui a base fundamental da ética chinesa. Embora alguns regimes o tenham tentado abolir, o confucionismo resistiu sempre e sempre renasce das cinzas como aconteceu agora nas últimas décadas, embora também sempre adaptado às novas circunstâncias. Daí que seja fundamental, para quem se interessa pela China, ter algumas noções deste sistema de pensamento. A mitologia é uma velha paixão minha, talvez devido à sua proximidade com a poesia: algo difícil de explicar, mas que a mim, intuitivamente, me surge claro. E a história ajuda-nos a perceber o percurso de uma civilização e compreender melhor os avatares do presente. Já está há 30 anos em Macau. Isso proporcionou-lhe uma visão mais aproximada deste país? Sim e não. Na verdade, existem muitas Chinas. Tanto na diacronia como na sincronia, a China é um país, uma civilização, uma cultura, muito variada e diversa no seu interior. Macau é um caso à parte porque se desenvolveu sempre em conjugação com uma influência estrangeira muito forte. Ou seja, os valores aqui presentes diferem dos que se encontram no interior e quem julgar que conhece a China e os chineses porque conhece Macau, está redondamente enganado. É por isso que me rio interiormente quando oiço alguns portugueses residentes dizerem coisas como “os chineses isto e os chineses aquilo”. Na verdade, estão meramente a tomar uma folha, nem sequer uma árvore, pela floresta; ou mesmo a nuvem por Juno, se é que me faço entender. Mais ou menos. Quer dizer com isso que a comunidade portuguesa não percebe nada da China? Na maior parte dos casos, sim; apesar de existirem honrosas excepções. Infelizmente, muitos dos que aqui vivem parece que nunca saíram das suas terrinhas, com a vantagem de terem uma vida bastante mais desafogado, o que nem sempre lhes desperta os melhores instintos (risos). Contudo, existe um tipo de conhecimento intuitivo que se vai formando com o contacto mais próximo. Alguém disse que compreenderia melhor a Grécia se conversasse duas horas com Platão do que se lesse todos os livros alguma vez escritos sobre a civilização grega e eu acredito nisso. Mas este contacto que aqui existe, na maior parte dos casos, é demasiado sustentado por preconceitos que funcionam como uma espécie de antolhos narcísicos que não lhe permitem ver o outro e convocam de imediato o julgamento, um juízo de valor muito pouco fundamentado. Como dar a volta a isso? Citaria a frase de Lenine, “aprender, aprender, aprender sempre”. E, sobretudo, dotar-se de alguma humildade perante a diferença. Prefácio Visto de longe, o que é o País do Meio? Nove pontos na bruma. Li He O poeta Li He costumava percorrer longas distâncias montado a cavalo e era, diz-se, capaz de escrever poemas enquanto cavalgava. Trazia consigo uma bolsa de pele comprida onde dormitava um rolo de papel, que ele extraía e utilizava sempre que a sua inspiração assim o exigia. Li He é conhecido pela estranheza dos seus escritos, povoados de seres fantásticos e visões alucinadas. Os dois versos em epígrafe poderiam ter sido escritos por um estrangeiro, que conhecesse algo da cultura do País do Meio. Na numerologia chinesa, o nove, enquanto último dos algarismos solitários, é entendido como expressão da totalidade. Talvez por isso na China Antiga se concebia o país dividido em nove partes, rodeado de quatro mares. E, contudo, envolto na bruma, com formas difíceis de discernir, de avaliar, no limite, de compreender. Assim se sentirá sempre um estrangeiro perante o imenso mar da civilização e da cultura chinesa. Quanto mais nele penetramos, quanto mais dele retiramos alimento, mais nos damos conta da sua irredutível diferença e da complexidade das ondas que a História atira contra a nossa frágil embarcação. Existem ilhas, é certo, onde podemos desembarcar, secar as nossas roupas e fazer valer a nossa mercadoria. Mas é tarefa árdua, quiçá impossível, abarcar toda a sua extensão, consciente deslizar pela sua superfície enrugada de eventos ou impune mergulhar nas suas profundezas, onde coabitam anjos e monstros, seres de ontem e de amanhã, modos de estar e de pensar radicalmente diferentes. É por isso com humildade que publicamos esta recolha de textos sobre a China, sabendo que apenas esgravatamos, que somente possuímos uma visão parcelar e distorcida de uma realidade ímpar na história da humanidade. E fazemo-lo porque, apesar disso, é importante que hoje, quando o País do Meio volta a ocupar o seu lugar cimeiro entre as nações, o mundo lusófono esclareça, pouco a pouco, a sua visão, que as suas impressões se refinem, adquiram profundidade e conhecimento. Afinal, foi a nossa língua que batizou esta civilização com o nome pela qual hoje é conhecida: China. Haviam os portugueses desembarcado na Índia, lá pelo século XVI, quando, entre as muitas maravilhas que encontraram, se depararam com mercadorias ditas das “terras de Qin*”, o nome da dinastia que pela primeira vez unificou aquele extenso território no ano de 221 a.E.C.. A partir de então, os portugueses passaram a referir-se ao País do Meio ((ÖÐ國 Zhongguo) como China, no que foram seguidos pelos outros povos europeus. Através da cidade de Macau, foi possível, sem recurso a guerras ou uma verdadeira ocupação colonial, aqui permanecer, mercadejar, viver, amar e morrer até aos nossos dias. Somos os estrangeiros consentidos, muitos de nós já parte das malhas que tecem este variado tecido, este imbróglio de gentes e culturas, este palimpsesto no qual a História escreveu uma das mais belas e inusitadas das suas páginas. E, quinhentos anos depois, cá estamos, ainda em busca de maravilhas e terrores, de uma antiga sabedoria e de uma novel experiência, desfrutando da amizade, da tolerância e da compreensão do povo chinês. Ficam aqui estes textos, que não têm a pretensão de se constituírem como introdução, muito menos como cestos de verdades definitivas. Pelo contrário, não passam de um conjunto esparso de impressões, de conceitos, de traduções inacabadas, de análises imperfeitas, de reflexões incompletas, de uma realidade que, ontem, hoje e amanhã, insiste, na sua complexidade e diferença, em escapar-nos por entre os nossos dedos ávidos e incapazes. Saiba disto o leitor avisado, mas não deixe por isso de viajar connosco e de tentar discernir alguma claridade nesta bela e esparsa bruma que, a um tempo, nos atrai e encanta, como um mundo desconhecido e por haver, a inquietar-nos algures nas partes mais recônditas da nossa própria vida e imaginação.
Receitas do jogo mantêm tendência de queda Hoje Macau - 9 Mar 2022 As receitas brutas do jogo de Macau deverão cair 75 por cento em Março em relação aos níveis pré-pandemia, prevê a consultora Bernstein, de acordo com um relatório citado pela Rádio Macau. Em Março de 2019, as receitas do jogo tinham sido de 25,84 mil milhões de patacas, e a queda prevista implica uma redução para 6,46 mil milhões. A consultora aponta como razões para a queda a estagnação da indústria na primeira semana de Março, devido a uma menor procura de viagens motivada pelo número crescente de casos de covid-19 em Hong Kong e na província de Cantão. Outro facto que afecta de forma negativa a indústria, é a realização das reuniões da Assembleia Popular Nacional, e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. Segundo dados citados, as receitas brutas do jogo nos primeiros seis dias de Março totalizaram cerca de 1,1 mil milhões de patacas, menos 78 por cento do que mesmo no mesmo período de 2019, e 32 por cento abaixo dos valores do ano passado. No ano passado, em Março, as receitas foram de 8,31 mil milhões de patacas. A consultora previu igualmente que as receitas continuem sob pressão, no curto prazo, mas mantém previsões optimistas quanto a uma recuperação acentuada, no longo prazo. Uma das razões que contribui para o optimismo é o regresso da emissão de vistos individuais e de grupo de turismo. No entanto, o Interior não indicou qualquer data para o regresso dessas emissões.
Ambiente | Emissões de gases do efeito estufa caíram 17 por cento João Santos Filipe - 9 Mar 20229 Mar 2022 Apesar de o consumo de electricidade ter permanecido estável em 2020, no primeiro ano da pandemia, a redução das viagens de avião contribuiu de forma significativa para uma quebra nas emissões dos gases de efeito estufa No primeiro ano da pandemia da covid-19, a emissão de gases do efeito estufa no território registou uma quebra de cerca de 17 por cento, de 6,13 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) para 5,05 mil toneladas de CO2. Os números constam de um estudo realizado pelos académicos To Wai Ming, da Universidade Politécnica de Macau, e Lam King Hang, da Universidade de Hong Kong, sobre relação entre o crescimento económico, o consumo de energia e a emissão de gases de efeito estufa. A redução foi justificada com uma diminuição das viagens de avião da RAEM. A queda no consumo do combustível de avião foi de 78 por cento, de 344,7 milhões de litro por ano para 75,4 milhões de litro por ano. “Os resultados indicam que em 2020 a queda nas emissões de gases do efeito estufa para 5,05 mil toneladas de CO2 e equivalentes se ficou a dever principalmente à redução do combustível de avião”, é justificado. Segundo estes dados, em 2019, antes da pandemia, cada residente era “responsável” por emissões de 1,68 toneladas gases do efeito estufa. O consumo de 75,4 milhões de litro de combustível por ano é o mais reduzido desde a transferência da soberania. Em comparação, em 2000 o consumo tinha sido de 106,9 milhões de litro por ano. Por contraste, o valor de 2019 tinha sido o mais alto de sempre, desde que há registos. O combustível de avião tem por base a querosene, também conhecida como óleo de parafina. De acordo com os dados da Organização Internacional de Aviação Civil, por cada quilo de combustível de avião que é queimado durante uma viagem são libertados para atmosfera 3,16 quilos de dióxido de carbono, o que faz com que esta seja uma das principais razões da libertação dos gases do efeito estufa. Menos energia A pandemia levou igualmente a um menor consumo de energia tanto nas habitações, como nos casinos ou nos transportes que circulam no território. O consumo total de energia, gerado por diversas fontes, como gás natural, gasolina, gasóleo ou gás liquefeito, em 2019 foi de 46.632 terajoules para 32.1879 terajoules, em 2020, o que significa que houve uma quebra de cerca de um terço, 31 por cento. No entanto, os autores reconhecem que no que diz respeito à produção de electricidade em Macau, há limitações muito claras face à expectativa de haver uma redução significativa dos gases do efeito estufa. Em causa, está o facto de a maioria da energia local ser produzida em Zhuhai, o que faz com que as emissões não entrem na estatística local. A atestar este facto está o dado sobre a importação de electricidade, que sofreu uma alteração muito ligeira. Em 2020, foram importados de Zhuhai 17.459 terajoules de electricidade, quando em 2019 tinham sido importados 17,914 terajoules. A produção local foi de 2.025 terajoules, uma redução face a 2019, quando se tinham produzido na RAEM 2.987 terajoules. Apesar das limitações, os académicos destacam que a pandemia teve um lado positivo ao mostrar que as fundações da economia local são frágeis. “A pandemia da covid-19 é uma bênção escondida porque vai permitir que Macau atravesse um período de recuperação climática e repense a estrutura económica”, sublinharam.
APN | Lok Po pede melhor integração dos macaenses na “nação chinesa” Pedro Arede e Nunu Wu - 9 Mar 2022 Representante de Macau na Assembleia Popular Nacional defendeu que os macaenses devem ser apoiados a encontrar as suas raízes e integrar “a família da nação chinesa”. Para Lok Po, independentemente de virem a ser considerados como grupo étnico, os macaenses e a sua cultura devem ser apoiados para que Macau “não perca a sua identidade”, dado ser o local onde os povos chinês e português se encontram O representante de Macau Assembleia Popular Nacional (APN), Lok Po, defendeu ontem, em Pequim, perante o vice-primeiro-ministro chinês, Han Zheng, que a comunidade macaense deve ser apoiada na tarefa de encontrar as suas raízes e que a sua integração “na família da nação chinesa” deve ser “melhorada”. Segundo o vogal de Macau, é fundamental que a cultura macaense seja promovida e reconhecida no Interior da China, para que mais compatriotas tomem consciência das particularidades de uma minoria que tem mais de 400 anos e que deve ocupar “o lugar que lhe compete” entre a família da nação chinesa. “Historicamente, portugueses e chineses juntaram-se e deram à luz crianças mestiças de origem portuguesa, normalmente conhecidas como macaenses. Com um estilo de vida diferente dos chineses, os macaenses fazem parte de uma paisagem única na sociedade predominantemente chinesa de Macau, originando costumes e uma cultura própria. Além de um dialecto específico [patuá] e de falarem várias línguas, os macaenses possuem uma gastronomia própria que mistura influências orientais e ocidentais. Esta mistura única de culturas faz parte das características de Macau”, disse segundo o jornal Ou Mun. Lok Po apontou ainda que, apesar de muitos macaenses “amarem a terra onde os seus antepassados nasceram” e apoiarem a transferência de Macau para a China, sentem-se “embaraçados” pelas dificuldades que têm em encontrar as suas raízes no seio da “família da nação chinesa”. Como exemplo prático, o representante indicou o facto de, aquando do preenchimento de formulários oficiais, os macaenses não se enquadrarem nem na etnia Han, nem numa das outras 55 minorias étnicas da China. Isto, porque a opção “macaense” não consta da lista dos grupos étnicos oficialmente reconhecidos pelo país. “Como integrar os macaenses é uma questão que se coloca desde a transferência de soberania. Se a cozinha macaense não está integrada na família da nação chinesa, então de onde provém? Como é que isto pode ser explicado e como podem os descendentes de portugueses e chineses identificar as suas raízes?”, questionou. Reconhecimento e respeito Para Lok Po, permitir que os macaenses integrem “o mais rapidamente possível” a família chinesa é um sinal de “reconhecimento” e uma “afirmação de respeito”, que irá contribuir para a estabilidade social de Macau e para que a comunidade viva no território “sem medo”. O representante de Macau na APN frisou ainda que, independentemente, de a comunidade macaense poder vir a ser considerada uma etnia por parte da China, esta deve ser apoiada para que Macau não perca a sua identidade. “Independentemente de virem a ser considerado como ‘grupo étnico’, a comunidade e a cultura macaenses devem ser apoiadas e promovidas. A gastronomia macaense faz parte da lista do Património Cultural Imaterial Nacional e o pastel de nata, por exemplo, é famoso e apreciado em todo o mundo. Além disso, a única língua nativa de Macau [o patuá] corre o risco de desaparecer se não for apoiada”, começou por elencar. “Tudo isto faz parte da alma dos macaenses. Macau só é Macau porque é o local onde os povos chinês e português se encontram. Sem um deles, Macau perderá a sua identidade”, rematou, segundo o jornal Ou Mun.
Habitação Social | Candidaturas de 2017 colocadas até ao fim do ano João Santos Filipe - 9 Mar 2022 Os 3.280 agregados familiares que se candidataram em 2017 a uma habitação social vão ser todos colocados até ao final do ano. A estimativa é do Instituto de Habitação, em resposta a uma interpelação do deputado Lam Lon Wai O Instituto de Habitação (IH) acredita que até ao final do ano todos os 3.280 agregados familiares que se candidataram em 2017 a uma habitação social vão ver os seus pedidos atendidos. A estimativa foi feita por Arnaldo Santos, presidente do Instituto de Habitação, na resposta a uma interpelação do deputado Lam Lon Wai. “Prevê-se que seja concluída, em 2022, a atribuição de habitação social aos agregados familiares admitidos no concurso de 2017”, respondeu Arnaldo Santos, no documento divulgado ontem pelo deputado. A resposta não menciona o número de candidaturas desse ano, nem quantos agregados têm de esperar quase cinco anos para poderem arrendar uma habitação pública a um preço acessível. Em vez disso, Arnaldo Santos pediu ao deputado Lam que consultasse o portal do IH para aceder aos dados. Segundo um comunicado do IH, com a data de 19 de Julho 2021, entre as 6.354 candidaturas admitidas em 2017, 3.280 estavam habilitadas para terem acesso a estas habitações, ou seja, cerca de 60 por cento. De acordo com a mesma informação, a meio do ano passado cerca de 550 famílias candidatas ainda aguardavam por colocação. Na altura, o Governo anunciava ainda que “o tempo médio de espera relativamente à candidatura a habitação social de 2017 foi de 420 dias (cerca de um ano e dois meses)”, e “o tempo máximo de espera foi de 870 dias (cerca de dois anos e cinco meses)”. As contas, não foram explicadas, assim como a data a partir da qual se contou o prazo. Mudança de regras Depois de 2017, e da alteração à lei da habitação social, as regras de atribuição deste tipo de habitação social mudaram. Em vez de serem abertos concursos periódicos para o arrendamento das fracções, passou a haver um mecanismo que permite os residentes com necessidades candidatarem-se em qualquer altura. Na interpelação, o deputado Lam Lon Wai pretendia saber quantas pessoas se tinham candidato depois da entrada em vigor da nova lei e a situação das candidaturas que tinha sido aceites ou recusadas. De acordo com a informação mais actualizada do portal do IH, entre 20 de Agosto e ontem, tinham sido apresentadas 4.640 candidaturas, das quais 2.151 foram aceites. Na resposta à interpelação, Arnaldo Santos explicou que estas pessoas só vão ter atribuída uma fracção pública depois de todos os processos de 2017 terem sido tratados. Com base nos dados de Julho de 2017 e a informação disponibilizada pelo portal do IH, é assim possível assumir que cerca de 2.701 agregados estão à espera de acesso a habitação social. Contudo, o número pode ser menor. Afastada, está a possibilidade de haver uma revisão dos critérios de acesso à habitação social, para seguir o modelo da habitação económica, em que os agregados com filhos têm prioridade. Lam Lon Wai sugeriu a mudança, mas Arnaldo Santos reconheceu que as alterações não vão ser feitas: “Em relação à candidatura a habitação social de agregados familiares com elementos menores, não houve alterações significativas nos últimos cinco anos”, começou por explicar. “De acordo com a situação actual, não há, neste momento, planos para proceder à revisão do mapa de pontuação aplicável à aprovação da candidatura de arrendamento de habitação social”, acrescentou.
Dia da mulher | O impacto da pandemia e a menor representatividade política Andreia Sofia Silva - 9 Mar 20229 Mar 2022 Celebrou-se ontem o Dia Internacional da Mulher, mas, em Macau, o desequilíbrio na representatividade de género permanece activo em vários sectores. As mulheres são, para Christiana Ieong, do Zonta Clube, as maiores vítimas do impacto da pandemia. Esta acredita que mais dias de licença de maternidade podem trazer problemas às trabalhadoras do sexo feminino. Nedie Taberdo Palcon, do Sindicato de Trabalhadores Migrantes das Filipinas, diz que as condições de vida e de trabalho das mulheres migrantes pioraram Ser mulher em Macau no século XXI continua a significar não ter grande presença no sistema político, com cada vez mais jovens a procurarem um eterno equilíbrio entre a carreira e uma família. Ontem, celebrou-se o Dia Internacional da Mulher num contexto de pandemia que trouxe muitos impactos negativos à sociedade e à economia locais. Para Christiana Ieong, presidente da assembleia-geral do Zonta Clube de Macau, as mulheres foram as principais vítimas da pandemia. “Penso que a pandemia afectou mais as mulheres porque normalmente elas precisam de cuidar da casa. Com a pandemia, a maior parte das famílias não teve ajuda no trabalho doméstico, e muitos pais tiveram de trabalhar em casa e cuidar dos filhos ao mesmo tempo.” Para a responsável, a pandemia agravou uma situação que já antes se verificava. “Mesmo sem a covid-19, a nova legislação tornou mais difícil e caro contratar uma empregada doméstica. Isso não ajuda as mulheres a apostarem na carreira”, frisou. Christiana Ieong acredita que, se as mulheres são as que mais sofrem com este panorama, tal implica uma mudança em toda a estrutura familiar. “Haverá mais problemas familiares porque há mais stress económico e mental, sobretudo num panorama de desemprego. Mas penso que, acima de tudo, temos sorte, se nos compararmos com as regiões vizinhas, como é o caso de Hong Kong. Temos sorte de termos um Chefe do Executivo forte e competente para liderar nestes tempos difíceis”, disse, num elogio a Ho Iat Seng. Boa licença de maternidade Christiana Ieong, que foi ontem uma das oradoras num evento dedicado ao Dia da Mulher promovido pelas câmaras de comércio do Reino Unido e Austrália em Macau, defendeu ainda ao HM que aumentar os dias da licença de maternidade pode ter um resultado negativo para quem busca uma carreira. “Não é mau a fasquia de 70 dias de licença de maternidade em Macau, penso que é uma boa política. Se as mulheres tiverem mais dias de licença de maternidade ficam numa posição de menor vantagem em termos de recrutamento, porque os custos [laborais] para contratar mulheres vão aumentar. Não diria que o aumento dos dias de licença de maternidade pode não ser algo positivo para as mulheres e penso que a actual situação não é totalmente má. Os empregadores podem optar por contratar mulheres mais velhas, que têm menos possibilidade de engravidar.” Esta posição é, por exemplo, contrária à que tem sido defendida pelos deputados ligados à Federação das Associações dos Operários de Macau, que pedem que as grávidas possam ter direito a uma licença de maternidade até 14 semanas, além de exigirem que os empregadores concedam, por dia, uma hora de trabalho para que as mães possam amamentar. Sobre a igualdade de género em áreas como a política, a responsável defende que continua a haver um desequilíbrio. “Olhando para os dados e para a representação das mulheres na Assembleia Legislativa, vemos uma tendência de quebra. As mulheres têm menos voz na elaboração de políticas. Elas desempenham um papel muito importante nas famílias e, se tiverem uma maior representatividade, haverá um maior equilíbrio em termos de igualdade de género, o que leva a uma maior estabilidade social.” Actualmente, o hemiciclo é composto por apenas cinco mulheres (Angela Leong, Ella Lei, Song Pek Kei, Lo Choi In e Wong Kit Cheng) num total de 33 deputados. Relativamente ao elenco governativo liderado por Ho Iat Seng, Elsie Ao Ieong U, com a tutela dos Assuntos Sociais e Cultura, é a única secretária no grupo de cinco. Christiana Ieong pensa que mais mulheres em cargos de liderança significa maior igualdade na elaboração das leis, sobretudo em matéria laboral. “Haveria uma maior estabilidade se as leis fossem mais favoráveis às mulheres.” Segundo a agência Lusa, a Associação Geral de Mulheres teve um aumento do número de pedidos de ajuda desde que a pandemia começou. Dos 337 pedidos feitos em 2019, passou-se aos 1.236 pedidos de ajuda no ano seguinte. No ano passado, houve uma ligeira redução de casos, para 904. Ouvida pela Lusa, a ex-deputada e académica Agnes Lam também destacou um maior cenário de desigualdade de género. “A pandemia causou a algumas mulheres a perda dos seus empregos, perturbou o mercado de empregadas domésticas em Macau, aumentou as responsabilidades financeiras e familiares das mulheres, e dificultou a progressão das mulheres em Macau na carreira profissional, o que, de facto, afectará o progresso da igualdade de género”, salientou. Migrantes sofrem mais Se as mulheres parecem ter sido das principais vítimas da pandemia, as mulheres migrantes parecem ter sofrido ainda mais as consequências de cenários como a perda de emprego, quebra de vencimento e dificuldades económicas para continuarem em Macau. “Penso que o primeiro grupo a ser atingido foi o dos trabalhadores migrantes, mas não tenho informação suficiente para falar sobre isto. Mas não surpreende o facto de os migrantes serem as maiores vítimas [da situação]”, frisou Christiana Ieong. Nedie Taberdo Palcon, dirigente do Sindicato Verde dos Trabalhadores Migrantes das Filipinas em Macau, conta que a situação de enorme desigualdade verificada antes da pandemia se agravou nos últimos meses. “Todos sabemos que há muitos trabalhadores migrantes, sobretudo domésticos, que perderam o trabalho durante a pandemia. A falta de protecção social destes trabalhadores continua a ser um a realidade. Vimo-nos forçados a deixar o emprego sem regalias ou pagamentos. Até hoje, não temos direito a um salário mínimo como sempre exigimos. O fim do contrato antes do seu termo tem sido gritante se o trabalhador decidir não continuar com o mesmo empregador. Mesmo que faltem apenas um ou dois dias para o contrato terminar, ele é imediatamente banido nos serviços de emigração, sem a possibilidade de poder encontrar outro emprego.” Desta forma, Nedie Taberdo Palcon conclui que “os direitos dos migrantes continuam a não estar protegidos em Macau”. “Posso dizer que a situação é pior do que no passado. Os grandes problemas que os trabalhadores migrantes e as mulheres enfrentam hoje em dia estão ligados à mudança de emprego. Além disso, se o trabalhador ficar doente, é despedido pelo empregador para que este não tenha de suportar as despesas médicas. Desta forma, os trabalhadores vêem-se sem trabalho e com enormes despesas hospitalares para pagar, vivendo do apoio de doações feitas por associações e organizações não governamentais (ONG)”, adiantou. Além das frágeis condições laborais, Nedie Taberdo Palcon pensa que as ONG que defendem os direitos dos trabalhadores migrantes têm hoje menos voz no diálogo com as autoridades. “O Governo nunca nos ouviu ou convidou para qualquer consulta pública relacionada com os nossos direitos. Os nossos pedidos mais importantes passam pela revisão do nosso salário mínimo, do apoio financeiro para a renda de casa e cuidados de saúde e outras questões às quais continuam a fazer ouvidos moucos e olhos cegos”, rematou. Na liderança Teve ontem lugar no hotel St. Regis, em Macau, um evento para assinalar o Dia da Mulher, organizado pelas Câmaras de Comércio do Reino Unido e Austrália. Como temas, estiveram em cima da mesa a igualdade de género e a necessidade de quebrar barreiras no acesso das mulheres a posições de liderança na sociedade. Citada por um comunicado, Janet McNab, vice-presidente para a área das propriedades do Sheraton Grand Macao e St.Regis, destacou a importância de se atingir uma maior igualdade salarial entre homens e mulheres. “Macau é casa para muitas mulheres que assumem posições de liderança, e é uma honra conhecer e trabalhar com muitas delas que constroem, inovam e lideram todos os dias apesar dos desafios e das constantes mudanças no cenário de negócios”, frisou. O evento serviu ainda para a recolha de 130 mil patacas que serão doadas ao Centro do Bom Pastor, uma associação que trabalha com vítimas de violência doméstica e de outro tipo de abusos. Dia da Mulher | Governo comprometido com igualdade de género No Dia Mundial da Mulher, o Governo garantiu estar empenhado na concretização do plano Objectivos do Desenvolvimento das Mulheres de Macau (2019-2025). O documento foi publicado pelo Instituto de Acção Social e tem como objectivo global “permitir que ambos os géneros possam exercer os mesmos direitos”. Segundo o documento recordado ontem, depois de concretizados os objectivos, “espera-se que as mulheres (sobretudo as mais vulneráveis) tenham mais oportunidades de desenvolvimento em áreas como a participação política, carreira profissional, participação social, economia e bem-estar”. Ontem, o Executivo defendeu que para concretizar os objectivos é necessário tomar medidas concretas como o apoio às vítimas de violência doméstica, prevenir que as pessoas do género feminino caiam na tentação do jogo e ainda reforçar o papel da mulher e do homem na educação dos filhos. Como forma de garantir as medidas concretas, ao Governo diz ter realizado 18 sessões de formação para os funcionários públicos, associações e escolas do ensino superior sobre a “integração de género” e ainda um trabalho na comunidade através de curtas-metragens, aplicações de jogo Wechat e concursos para residentes com o tempo da igualdade de género.
Grupo Alibaba lança voo semanal de carga entre Hong Kong e São Paulo Hoje Macau - 8 Mar 2022 O Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos recebeu na segunda-feira à noite o primeiro voo semanal de mercadoria entre Hong Kong e São Paulo, numa parceria entre a Qatar Airways Cargo e o Alibaba. Segundo o portal do aeroporto, o voo aterrou por volta das 19:00, depois de ter partido de Hong Kong no sábado e feito uma paragem em Doha, no Qatar. Num comunicado divulgado na segunda-feira, a companhia aérea Qatar Airways Cargo revelou que o avião Boeing 777 utilizado nesta parceria tem capacidade para transportar mais de 100 toneladas de mercadoria. O primeiro voo fretado pela empresa de logística Cainiao Smart Logistics Network, parte do grupo chinês do comércio eletrónico Alibaba Group Holding Ltd, transportou bens de consumo, incluindo produtos de beleza, joias, relógios, eletrodomésticos, brinquedos e equipamento desportivo. O objetivo da nova rota é garantir que os produtos comprados por brasileiros nas plataformas da Alibaba sejam entregues no espaço de 72 horas, sublinhou o diretor-geral da Cainiao para a logística de exportação. William Xiong disse no comunicado que o comércio eletrónico no Brasil está a crescer “a uma velocidade fenomenal”, tornando-se um dos mais importantes mercados para a Alibaba na América Latina. Em abril de 2021, a Cainiao anunciou um acordo com o Latam Cargo para utilizar os voos do grupo de aviação chileno de e para o Brasil para reduzir o tempo de entrega de encomendas da China para o Peru e a Colômbia. Em novembro de 2020, a empresa chinesa lançou voos fretados, em cooperação com o grupo de aviação norte-americano Atlas Air Worldwide Holdings Inc, a ligar a China ao Brasil e ao Chile três vezes por semana. Em agosto, o Brasil tornou-se o primeiro país das Américas – e o sexto do mundo – cujos comerciantes podem vender os seus produtos na plataforma chinesa de comércio eletrónico AliExpress, gerida pela Alibaba. A Cainiao ficou a coordenar o envio de produtos brasileiros comprados na plataforma chinesa, garantindo a entrega no mesmo dia ou no dia seguinte à aquisição, com o transporte gratuito para compras acima de 50 reais (nove euros).
Covid-19 | Detectados quatro casos de recaída Hoje Macau - 8 Mar 2022 As autoridades detectaram quatro casos de recaída da covid-19 após quatro residentes de Macau, oriundas de Hong Kong, terem testado “fracos positivos” à doença. Em causa estão quatro estudantes, três mulheres e um homem, com idades compreendidas entre os 19 e os 20 anos, que foram diagnosticados com covid-19 em Hong Kong entre os dias 16 e 17 de Fevereiro. Dois deles estão vacinados com duas doses da vacina mRNA/BionTech, enquanto que os outros dois têm as três doses da mesma vacina. Os quatro estudantes chegaram a Macau esta segunda-feira, às 14h, tendo viajado de Hong Kong num autocarro dourado. Com o resultado de “fraco positivo” os quatro estudantes foram encaminhados para o Centro Clínico de Saúde Pública de Coloane para isolamento, não apresentando sintomas.
“Debate sobre libertação das mulheres foi importante no PCC” Andreia Sofia Silva - 8 Mar 20228 Mar 2022 Em traços gerais, como tem evoluído a posição da mulher chinesa, sobretudo entre a queda do império e o período da República? Podemos falar de uma libertação da mulher dos padrões sociais normais e um início de debate sobre os seus direitos? A China Imperial regia-se pelos princípios patrilinear e da hierarquia social, sendo que ambos constituíam uma herança do pensamento confucionista. Neste contexto, a mulher encontrava-se subordinada ao homem e dever-se-ia submeter à autoridade masculina (primeiro, do pai, depois, do marido e dos filhos), sendo a linhagem da família assegurada pelos membros masculinos. Tendo em conta que as funções da mulher se circunscreviam ao círculo familiar, as virtudes femininas (socialmente consideradas) remetiam para a obediência, a docilidade ou a castidade. Não é, assim, por acaso que, no final do século XIX, quando assistimos, ainda no final da Dinastia Qing, ao nascimento de um movimento feminista chinês, a herança confucionista será um dos alvos de contestação. Que papel teve este movimento? Ainda que brotando das entranhas das classes mais abastadas e tenha nascido sob o impulso de mulheres que tiveram a possibilidade de estudar no exterior (nomeadamente, no Japão, EUA e Europa), o movimento feminista chinês vai lançar o debate, no seio da tradicional sociedade chinesa, sobre a condição e a posição social das mulheres. Quais as principais reivindicações à época? Reivindica-se, então, o direito a uma educação para as mulheres, direitos iguais, perante a lei, e a abolição dos pés enfaixados (um acto que remontava à dinastia Song e que pretendia demonstrar, no seio de uma determinada comunidade, a riqueza de uma família). Todas estas reivindicações têm a particularidade de unir o feminismo com o patriotismo, já que se considerava que o fato de as mulheres terem acesso à Educação permitiria que os seus filhos pudessem ter uma melhor formação, o que, afirmavam as feministas chinesas, conduziria a uma melhoria qualitativa do nível de conhecimento e de formação do povo chinês. Ainda que, do ponto de vista legal, a educação feminina tenha o seu início formal em 1907, será necessário aguardar pela instauração da República, em 1912, para que se verifique, de facto, uma evolução qualitativa na condição da mulher no seio da sociedade chinesa. O debate iniciado no final do século XIX acaba por surtir um efeito legislativo na China republicana, pelo que, a partir de então, o enfaixamento dos pés é proibido e as escolas passam a poder ser mistas. Não obstante, a Constituição elaborada pela Assembleia Legislativa de Nanjing, e tornada pública a 11 de março de 1912, não prevê, por exemplo, o sufrágio feminino ou a elegibilidade das mulheres, o que constituiu um motivo de desapontamento para as sufragistas chinesas. Apesar disso, a mulher, no plano social e jurídico, vai assumindo um novo papel, pelo que podemos falar de uma evolução, a qual, no contexto chinês, passa por uma libertação da mulher das amarras patriarcais, herdadas, em parte, do confucionismo. Em 1915, a emancipação das mulheres vai encontrar-se no centro de vários debates, discutindo-se temas como a denúncia da moral confucionista, o casamento, o concubinato ou o encorajamento do suicídio feminino, em nome da virtude e da lealdade. A discussão aprofunda-se aquando do movimento 4 de maio de 1919, momento este que podemos considerar como o ponto alto na história do feminismo na China. Houve mudanças a nível jurídico, por exemplo? Aprofunda-se, então, uma reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade, a necessidade da sua libertação, a castidade e virgindade (duas virtudes consideradas fundamentais na China tradicional) ou a desigualdade sexual. O debate sobre a condição feminina vai, depois, a partir de 1921, ser levado para o interior do Partido Comunista Chinês. Aliás, muitos dos autores que colaboram na imprensa vanguardista pós-movimento 4 de maio e que defendem a libertação da mulher na sociedade chinesa serão ativos militantes comunistas. Com efeito, estes futuros membros do Partido Comunista Chinês (como Chen Duxiu, Chen Wangdao ou Qu Qiubai) concluem que é necessário operar-se uma mudança sociopolítica para que a mulher, na China, possa alcançar uma nova posição social. Em suma, o debate no que diz respeito à condição feminina foi-se aprofundando, ao longo da primeira metade do século XX, abrindo, deste modo, o caminho para uma efetiva igualdade sociopolítica e jurídica. Na China de Mao, e sobretudo no período da Revolução Cultural, os direitos das mulheres eram abordados ou simplesmente ignorados pelo poder? Como referi, o debate sobre a libertação das mulheres passa a constituir um elemento importante no seio do Partido Comunista Chinês, e isto logo após a sua fundação, em 1921. Quando, no final da década de 1930, o PCC domina algumas zonas rurais (fundando, então, a República Soviética da China), os comunistas vão, desde logo, integrar as mulheres nas atividades políticas e económicas. O PCC enceta, assim, um movimento sociopolítico vanguardista, libertando a mulher da esfera patriarcal e familiar e trazendo-a para a esfera pública. Data, aliás, de 1931, o Regulamento sobre o Casamento, publicado na então República Soviética da China, o qual podemos considerar como o primeiro texto legal que codifica a prática do casamento entre indivíduos livres e iguais. Na sequência deste regulamento, o governo soviético chinês publicou, três anos depois, a Lei do Casamento, a qual estipula, entre outras prerrogativas, uma idade mínima no casamento (18 anos, para as mulheres, e 20 anos, para os homens), a obrigatoriedade de declarar o casamento às autoridades, a proibição da poligamia e do concubinato ou o divórcio por mútuo consentimento. Depois da revolução chinesa, em 1949, a recém-nascida República Popular aprova, desde logo, matéria legislativa que pretende colmatar as diferenças, perante a lei, de homens e mulheres. Esta legislação herdou, aliás, muito daquilo que havia sido estipulado nos regulamentos aprovados durante a década de 1930. A lei do voto garante o direito de voto das mulheres e estipula-se, por exemplo, que as mulheres recebam o mesmo salário que os homens, pelo mesmo trabalho, assim como direitos de propriedade e de acesso ao trabalho iguais. Sendo consideradas, tal como os homens, como parte da força de trabalho, as mulheres são chamadas a participar na construção da nova sociedade socialista, buscando-se atingir uma igualdade, de facto, por meio da transformação da sociedade. Aliás, já no Livro Vermelho, Mao Tsé-Tung assinalava que, ao longo da história chinesa, o homem havia estado sujeito à dominação de três sistemas de autoridade: a autoridade política, a autoridade familiar e a autoridade religiosa. A mulher, por seu lado, alertava Mao, encontrava-se, contudo, submetida a uma quarta autoridade – a autoridade masculina -, pelo que Mao considerava que o exercício destas quatro autoridades constituía a própria essência ideológica e moral do sistema feudal-patriarcal que havia que derrubar. Os direitos das mulheres não apenas não foram ignorados, na China Popular, como após 1949 se iniciou um processo social, político e jurídico com o objetivo de terminar com as desigualdades existentes entre homens e mulheres, nas diferentes esferas da sociedade. Aliás, a própria Julia Kristeva, na sua obra Des chinoises, ainda que criticando o fato de as ativistas feministas, depois de 1949, terem optado pela luta de classes, em detrimento da luta pelos direitos das mulheres, assinala que foi sob a influência de Mao que as mulheres obtiveram mais direitos, no plano jurídico, assim como cargos e tarefas de responsabilidade. Kristeva assinala, desta forma, a relevância do papel da mulher chinesa e a sua ligação com as transformações ocorridas na China, ao longo do século XX. Com efeito, a Revolução de 1949 permitiu uma rutura com a China feudal, possibilitando um salto qualitativo na igualdade entre homens e mulheres, quer no plano político, quer no plano familiar, quer, ainda, no plano religioso, num movimento sociopolítico que se tem vindo a desenvolver e aprofundar até à atualidade. A abertura do país, desde Deng Xiaoping, trouxe um maior alerta sobre os direitos das mulheres no geral, mas sobretudo em matéria de direitos laborais? Os avanços nos direitos das mulheres, levadas a cabo pelo Partido Comunista Chinês, remontam, como assinalei, à década de 1930. Estes avanços aprofundam-se depois de 1949, momento a partir do qual as mulheres alcançam um novo papel sociopolítico e jurídico, nomeadamente com o reconhecimento do seu papel na atividade produtiva e na construção de uma China socialista. Ainda assim, as transformações mais marcantes, no plano legislativo, datam da década de 1980, sobretudo depois da aprovação da Constituição de 1982, durante o mandato de Deng Xiaoping. A Lei Fundamental da República Popular da China vai enquadrar medidas em defesa dos direitos das mulheres, consagrando a igualdade entre mulheres e homens, em todas as esferas da vida, os mesmos direitos no acesso a um trabalho, a promoção do acesso das mulheres a cargos de responsabilidade, assim como disposições sobre a proteção das mulheres no trabalho. No quadro legislativo, são, ainda, de destacar, no plano jurídico, os Regulamentos de Saúde Pública (1986), os Regulamentos de Proteção do Trabalho (1988) e a Lei para a proteção e defesa dos direitos e interesses das mulheres (1992). Desta forma, podemos dizer que a pretensão de alcançar, no plano jurídico, uma igualdade plena, foi, finalmente, alcançada, com a aprovação da Constituição que, em 1992, veio substituir a Constituição de 1978, e pelos diplomas legais aprovados depois desta data. O “mee too” parece ser pouco discutido no país actualmente. Pensa que deveria haver espaço para uma mudança de mentalidades neste sentido? Creio que a história da China nos demonstra que a evolução sociopolítica e jurídica das mulheres não se desliga da luta pela emancipação e libertação do Homem. A capacidade que o ser humano possui de reivindicar e de ousar denunciar constitui uma condição prévia para que, no plano das consciências e nas diferentes esferas da vida em sociedade, se efetue um salto qualitativo com vista a uma vida em sociedade que não seja marcada pela barbárie, pela violência e pela exploração. Ousar lutar e ousar reivindicar é um ato necessário tanto para a emancipação social, jurídica e política da mulher, quanto para a emancipação do ser humano. Na actualidade, perduram formas de opressão e de violência que atingem diferentes grupos e estratos da sociedade e que, naturalmente, se abatem com maior ferocidade sobre aqueles que se encontram mais desprotegidos, seja por razões económicas ou sociais, seja por pertencerem a um género que, ao longo da história das diferentes organizações societais, têm sido alvo de um domínio e repressão particulares (como é o caso das mulheres). Creio, por isso, ser fundamental, não apenas a libertação e emancipação, de facto, das mulheres (para além do plano jurídico), como, igualmente, a libertação e emancipação do ser humano de todas as formas de opressão e violência. Quero com isto dizer que, ainda que a opressão patriarcal tenha condenado a mulher (não apenas na China) a um papel subalterno e de subserviência, persistem formas de sujeição e de tirania, independentes do género, cujo término é fundamental para que, no plano sociopolítico, a mulher e o homem possam libertar-se da crueldade, ignorância e formas de domínio que, infelizmente, persistem (e, em alguns casos, se acentuam). Não há mudança de mentalidades sem luta, sem consciência, sem debate. Por isso, há pouco, referia que, no caso da mulher, há que ir além de uma igualdade no plano jurídico. A igualdade jurídica permite aceder a novos espaços e territórios que, até então, lhe estavam vedados. No entanto, acredito que apenas com resistência, palavra e luta se construirão, de facto, espaços de igualdade, de respeito mútuo e de comunhão de esforços na construção de uma sociedade que não imponha guerras, opressão e violência à grande maioria desprovida das ferramentas que permitem o acesso a espaços decisórios e de poder. Houve uma evolução da representação da mulher em áreas como a arte e literatura? O exercício de leitura e de interpretação, assim como de escrita ou de concretização de uma obra de arte, implica que seja possível aceder a espaços formativos e educativos. A arte existe no seio de uma determinada cultura, sendo dela produto e, concomitantemente, reflexo. Na China, as primeiras escolas femininas remontam ao final do século XIX, sendo que o governo imperial apenas legaliza a educação feminina em 1907. Neste sentido, durante séculos, o acesso à leitura e escrita era apanágio, sobretudo, de homens. Destes, apenas aqueles que pertenciam às classes mais abastadas àquelas tinham acesso. Por outro lado, até ao século XX e ao surgimento das primeiras escolas, as mulheres letradas pertenciam, também elas, às classes mais favorecidas da sociedade. Estávamos, assim, perante uma situação em que a grande maioria da população era iletrada e em que o acesso à cultura – e, portanto, às manifestações artísticas -, apenas era permitido a uma minoria. No quadro desta minoria, os homens tinham um acesso privilegiado. Ora, sendo a literatura e outras manifestações artísticas parte da vida de uma determinada comunidade humana, aquelas constituem manifestações não apenas estéticas, mas também sociais, pelo que a representação que, nas diferentes artes, podemos encontrar da mulher e do homem, refletem não apenas o gosto e valores estéticos que se manifestam num determinado período socio-histórico, como, também, a organização socioeconómica na qual aqueles valores se impõem. Naturalmente que, neste sentido, a representação que é feita da mulher evolui concomitantemente com a evolução da organização política e económica de uma determinada sociedade. Costumo dizer que a arte e a literatura têm vida, respiram, andam, saltam mundos e caminhos. Assim, a interpretação de uma personagem feminina, numa obra de finais do século XIX, não pode ser desligada nem do ambiente socioeconómico em que a mulher real vive, nem do seu criador, o qual respira, pensa e sente, num determinado quadro sociocultural. Hoje, fruto da evolução sociopolítica e jurídica da mulher, temos uma proliferação de autores mulheres, na China, como em todos os restantes cantos do mundo. Este facto traz, naturalmente, novas representações e cosmovisões da mulher para o plano artístico, enriquecendo a literatura e a arte com novas propostas de leitura. Como escrevia o António Gedeão, o mundo pula e avança. Acrescento eu que também pulam e avançam formas de luta e de resistência que permitiram que, hoje, na China, e fora dela, as mulheres alcançassem espaços de poder e de palavra que lhe haviam sido, tradicional e secularmente, negados.
Mais de 200 obras de Nuno Barreto numa retrospectiva sobre vivência em Macau Hoje Macau - 8 Mar 2022 Mais de 200 obras sobre a vivência e transformação artística de Nuno Barreto, em Macau, vão estar reunidas na retrospectiva “Beber da Água do Lilau”, que é inaugurada na sexta-feira no Museu do Oriente, em Lisboa. Acrílicos, guaches, serigrafias, cadernos de desenhos, esboços, apontamentos, revistas, livros, catálogos e fotografias fazem parte desta exposição com base no espólio pessoal de Nuno Barreto, que procura captar o espírito do lugar e das gentes que povoam a cidade de Macau. A exposição, que é inaugurada na sexta-feira, às 18:30, e ficará patente até 26 de junho, faz uma viagem de ordem cronológica – de 1963 a 2009 – pelo percurso artístico de Nuno Barreto, marcado pela pintura abstrata e figurativa. O título é retirado de uma popular frase local: “Aquele que beber da água do Lilau, jamais esquecerá Macau”, referindo-se a uma fonte de água de nascente do território. As peças selecionadas procuram captar a trajetória do artista, aliando as suas várias facetas enquanto pintor, artista plástico, pedagogo e intelectual, inicialmente fortemente abstrata, mas que se deixa cativar pela vertente figurativa para representar pessoas, lugares e vivências deste território, refere a organização, num texto sobre a mostra. Entre as peças encontra-se “Embarque no Pátria” (1999), “que assinala em tom caricatural a despedida portuguesa da administração de Macau com a ironia transversal ao conjunto das obras figurativas” de Nuno Barreto, a par de “Mesa Comum”, onde retábulos chineses apenas permitem vistas parciais. Nuno Barreto fez a sua formação académica na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1966, de onde seguiu para uma pós-graduação na Saint Martin’s School of Art, em Londres. Foi professor auxiliar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e, posteriormente, convidado pelo Governo de Macau a preparar o projeto da Academia de Artes Visuais do Instituto Cultural de Macau, que dirigiu desde a sua fundação em 1988. Posteriormente, ocupou o cargo de diretor da Escola de Artes Visuais do Instituto Politécnico de Macau, de 1993 a 1997. O percurso artístico de Nuno Barreto foi fortemente influenciado pelo contacto com a cultura chinesa, que tentou conhecer nas suas várias vertentes, incluindo a História, salienta o Museu do Oriente.
Arquitectos de língua portuguesa lançam segunda edição de concurso de fotografia Hoje Macau - 8 Mar 2022 O Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP) lançou, após três anos de interregno, a segunda edição de um concurso de fotografia, para arquitetos e estudantes, dedicada ao tema “Ser Sustentável no Espaço Lusófono”, foi anunciado. Em comunicado, o CIALP sublinha que o concurso é este ano um “duplo desafio de reflexão sobre os conceitos de sustentabilidade e de lusofonia”. A sustentabilidade, “de tão obviamente necessária à vida, à nossa e à das coisas, parece muitas vezes ser quase esquecida”, lamentou o conselho. A arquitectura “tem um papel fundamental” na procura das soluções “para os muitos problemas com que a humanidade está confrontada”, disse o CIALP. As inscrições estão abertas até 17 de março, sendo que os premiados serão anunciados durante o mês de abril. O júri inclui arquitetos de Angola, Brasil, Macau, Moçambique e Portugal. Os autores da melhor fotografia nas duas categorias – arquiteto e estudante – receberão um prémio no valor de 400 euros. A imagem vencedora da categoria estudantes será ainda exposta na próxima Bienal de Jovens Criadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), cuja 10.ª edição deveria ter acontecido em julho de 2021, na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. A primeira edição do concurso de fotografia do CIALP, organizado em 2019, recebeu 97 candidaturas. O vencedor entre os arquitetos foi o português Nuno Simão Gonçalves, com uma fotografia da Fortaleza São Sebastião, na Ilha de Moçambique. Entre os estudantes o premiado foi o brasileiro Gabriel Guerra Konrath, com uma imagem da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. O CIALP tem como membros as ordens ou organismos profissionais de arquitetos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. A organização não-governamental representa “mais de 230 mil arquitectos”, o que corresponde “a 18% dos arquitectos mundiais”, disse à Lusa em julho o presidente do CIALP, Rui Leão, arquiteto radicado em Macau. O CIALP, fundado em 1991, é uma associação de direito privado sem fins lucrativos, com sede em Lisboa, é parceiro institucional da União Internacional dos Arquitectos (UIA) e observador consultivo da CPLP.
Ucrânia | Chefe da diplomacia da UE insta homólogo chinês a apoiar corredores humanitários Hoje Macau - 8 Mar 2022 O chefe da diplomacia da União Europeia (UE) exortou ontem o seu homólogo chinês a apoiar a criação de corredores humanitários para a retirada de civis da Ucrânia, saudando ainda a “disponibilidade da China” para dialogar com a Rússia. Em causa está uma conversa telefónica hoje realizada entre o Alto Representante da UE para a Política Externa, Josep Borrell, e o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, a segunda desde o início da invasão militar da Ucrânia por parte da Rússia, na qual o chefe da diplomacia europeia “pediu ao seu homólogo chinês que apoiasse a criação de corredores humanitários, a fim de permitir a retirada da população civil”. A informação foi avançada pelo Serviço Europeu de Ação Externa, que em nota à imprensa dá também conta que Josep Borrell expressou a Wang Yi “o seu apreço pela posição da China no Conselho de Segurança e Assembleia Geral das Nações Unidas, indicando o apoio à integridade territorial, soberania das nações e inviolabilidade das fronteiras, bem como pela disponibilidade da China para apoiar a cessação das hostilidades e o diálogo”. Na ocasião, o chefe da diplomacia da UE manifestou ainda “necessidade absoluta de cessar imediatamente as hostilidades e referiu-se ao maior número de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e ao inaceitável alvo e sofrimento da população civil, incluindo graves violações do Direito Humanitário Internacional”. E, de acordo com o Serviço Europeu de Ação Externa, ambos os responsáveis “concordaram que deve ser evitada uma crise humanitária em grande escala”. Para 01 de abril está marcada uma cimeira UE-China. Pequim tem mantido uma posição ambígua em relação à invasão russa da Ucrânia, já que se recusou a condená-la, mas tentou distanciar-se da guerra de Putin, apelando ao diálogo e ao respeito pela soberania dos outros países. Por um lado, a China defendeu que a soberania e a integridade territorial de todas as nações devem ser respeitadas – um princípio de longa data da política externa chinesa e que pressupõe uma postura contra qualquer invasão -, mas ao mesmo tempo opôs-se às sanções impostas contra a Rússia e apontou a expansão da NATO para o leste da Europa como a raiz do problema. Hoje mesmo, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, disse que Pequim “já está a mediar” o conflito na Ucrânia e que vai fazer esforços para oferecer assistência humanitária, o que “não deve ser politizado”. A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que, segundo as autoridades de Kiev, já fez mais de 2.000 mortos entre a população civil. Os ataques provocaram também a fuga de mais de 1,7 milhões de pessoas para os países vizinhos, de acordo com a ONU. A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas a Moscovo.
China critica Estados Unidos por reforço de laços militares no Indo-Pacífico Hoje Macau - 8 Mar 2022 O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, acusou ontem Washington de tentar criar uma versão asiática da NATO e disse que cabe ao Governo norte-americano melhorar as relações com a Coreia do Norte. A política dos Estados Unidos em relação ao leste da Ásia e ao Oceano Índico, e os esforços para reforçar os laços militares com Japão, Austrália e Índia são um “desastre, que interrompe a paz e a estabilidade regionais”, apontou Wang Yi, em conferência de imprensa. “Os Estados Unidos estão a jogar os seus jogos geopolíticos, sob o pretexto de promoção da cooperação regional”, disse Wang. O ministro acrescentou que a postura da Casa Branca “contraria” os desejos regionais de cooperação e “está condenada a não ter futuro”. Wang acusou Washington de estar a organizar uma aliança para “suprimir a China”. Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia reforçaram, nos últimos anos, os seus laços militares. Em 2021, Washington acordou fornecer tecnologia à Austrália para a construção dos seus primeiros submarinos movidos a energia nuclear. “O verdadeiro propósito da ‘estratégia Indo-Pacífico’ é criar uma versão da NATO para” a região, disse Wang Yi. A expansão da aliança ocidental foi citada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, como um dos motivos para invadir a Ucrânia. Do exterior Wang pediu ao Governo de Joe Biden que revivesse o espírito dos acordos dos anos 1970, que abriram as relações dos EUA com o executivo comunista de Pequim. “Os Estados Unidos não poupam esforços para concretizar uma intensa competição com a China, constantemente atacando e provocando problemas em questões relacionadas com os interesses centrais chineses”, disse Wang. Washington deve “voltar ao caminho certo da racionalidade e do pragmatismo”, apelou. Wang pediu aos Estados Unidos que tomem a iniciativa de melhorar as relações com a Coreia do Norte e acusou o Governo de Biden de não responder a “medidas positivas” de Pyongyang. “Depende em grande parte do que o lado americano fizer, se realmente vai adoptar acções concretas, para resolver o problema, ou vai continuar a usar a questão da península [coreana] como moeda de troca estratégica” disse Wang. Sobre o Mar do Sul da China, o ministro reclamou que actores externos estejam a interferir nos esforços para desenvolver um “código de conduta” e disse que Pequim e os governos dos países do Sudeste Asiático deveriam negociar entre si. Os Estados Unidos e outros governos enviaram navios de guerra para zonas daquele mar reivindicadas por Pequim, reclamando assim o direito de navios de todos os países usarem aquelas águas. As forças externas “não querem que o Mar do Sul da China permaneça calmo, porque isso faz com que percam o pretexto de intervir, para ganho pessoal”, disse Wang. “A interferência externa não pode parar o ritmo da cooperação regional”, apontou.
Combater a epidemia à sombra da Lion Rock David Chan - 8 Mar 2022 A situação epidémica em Hong Kong é grave. Foram registadas mais de 50.000 novas infecções num só dia. Alguns peritos calculam que 15 por cento da população de Hong Kong está actualmente infectada com o novo coronavírus. Num total de 7,5 milhões de habitantes, significa 1 milhão e 125 mil de casos activos, o que é extremamente preocupante. O número de pessoas infectadas cresce de dia para dia. O sistema de saúde público e as zonas para internamentos COVID estão muito além das suas capacidades. Muitas das pessoas infectadas estão a fazer o isolamento em casa. Este método de tratamento provoca inevitavelmente que os restantes membros da família contraiam também o vírus. Com o passar do tempo a propagação do vírus aumenta. Actualmente, a China continental está a ajudar Hong Kong no combate à epidemia. Um grande número de medicamentos foi trazido para Hong Kong e também foram deslocados muitos médicos. Além disso, têm vindo muitos operários trabalhar 24 horas por dia na construção de hospitais de isolamento. São todas medidas eficazes para travar a epidemia. Dado que estamos de momento a viver o pico da epidemia na cidade, acredita-se que ainda vai levar algum tempo até que os números diários de infectados desçam significativamente. Mas a coisa mais ultrajante que aconteceu durante este período foi o aparecimento de uma gravação na Internet, onde se afirma que Hong Kong vai ser “castigada” durante a testagem a toda a população, a realizar nos finais de Março; querendo os autores da gravação dizer que durante a testagem, o Governo de Hong Kong vai proibir os residentes de saírem à rua para comprar comida e bens essenciais. Logo a seguir à notícia falsa do “castigo” ter surgido, criou-se o pânico em Hong Kong e as pessoas precipitaram-se para as lojas. A comida e os medicamentos esgotaram-se. Alguns supermercados e farmácias têm tido falta de pessoal devido a alguns dos seus trabalhadores estarem infectados, a esta situação veio juntar-se a febre do açambarcamento, pelo que certas lojas têm restringido as vendas de alimentos e medicamentos. Ao mesmo tempo, como sempre acontece, alguns negociantes menos escrupulosos aumentaram imediatamente os preços destes bens. Embora o Governo de Hong Kong tenha imediatamente desmentido a notícia falsa do “castigo” e tenha repetidamente sublinhado que o abastecimento de alimentos e de medicamentos está normal, é difícil acalmar a fúria de açambarcamento. As “notícias falsas” e os “aumentos de preços” vão sem dúvida tornar mais difícil a vida dos residentes de Hong Kong e a sua luta contra a epidemia, As “notícias falsas” e os “aumentos de preços” não podem deixar de nos lembrar do que aconteceu em 2003, por altura do surto do SARS. Um adolescente de Hong Kong, com 14 anos de idade, publicou notícias falsas na Internet, afirmando que Hong Kong se tinha tornado um porto epidémico. Nessa altura, se esta notícia fosse verdade, as pessoas não teriam podido entrar nem sair de Hong Kong, e a importação de alimentos e de medicamentos teria sido problemática. Além disso, Luo Wen morreu em Outubro de 2002. Foi o primeiro cantor a interpretar a canção “Under the Lion Rock”, símbolo do “espírito de Hong Kong”. A famosa cantora Leslie Cheung morreu em Abril de 2003. Quase simultaneamente, soube-se que Anita Mui, outra cantora muito conhecida que sofria de cancro, acabara de falecer em Dezembro de 2003. As notícias relacionadas com o SARS e a morte destes cantores emblemáticos entristeceram completamente a população de Hong Kong. No entanto, rapidamente o Governo de Hong Kong localizou o adolescente e esclareceu toda a situação. Apesar disso, o pânico que levou ao açambarcamento de comida e de medicamentos continuou por algum tempo e o desalento tomou conta de Hong Kong. Actualmente, todos os residentes de Hong Kong têm de lutar em conjunto contra a epidemia. As notícias falsas só vêm trazer problemas e confusão a esta luta. Tudo isto é desnecessário. Se tudo correr pelo melhor, não voltará a haver notícias falsas. Depois da epidemia abrandar, o Governo de Hong Kong vai fazer cumprir a lei ao pé da letra, identificar aqueles que publicarem notícias falsas e trazê-los perante a Justiça, para impedir que situações deste género se repitam no futuro. Recentemente, para homenagear e agradecer à equipa médica de Hong Kong, a TVB de Hong Kong mudou a letra de “Under the Lion Rock” e rebaptizou-a para “Under the Lion Rock, Let’s Fight the Epidemic Together”, que foi cantada por diferentes artistas. Os últimos versos dizem o seguinte: “Estamos unidos sob a Lion Rock para nos encorajarmos uns aos outros a vencer esta luta contra a epidemia.” A partir daqui fazemos votos que as pessoas de Hong Kong se ajudem umas às outras e trabalhem em conjunto para vencerem a luta contra esta epidemia. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Escola Superior de Ciências de Gestão/ Instituto Politécnico de Macau Blog: http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk
Rua sem título Anabela Canas - 8 Mar 2022 Descia em frente o dia cinzento. Mas não sei como poderia hoje o dia colorir-se, se voam projéteis que explodem só um pouco mais para leste. Mais para lá. Parece natural que a luz, que já vinha a anunciar outra inclinação para a Primavera, pareça ter-se encolhido e reservado a possibilidade de uma alegria de retorno e renovação. Descia em pensamento, e porque tão perto, a antiga rua do mundo. Um rasgo a direito a desaguar no rio. Numa cidade qualquer. Nunca me vi a habitar uma dessas cidades de interior. É como uma respiração a que nos habituamos. O rio. Uma espécie de eco vivo de outras paragens, a transcender qualquer indício de clausura. E tive este pensamento de nunca, como de nunca ter visto a nascente deste rio. Na verdade um rio é como um conjunto de faces diferentes em cada lugar em que o conhecemos, na ilusão de ser esse o seu aspecto de rio e não somente o rio aí. Um percurso em crescendo que tem o seu início numas frágeis linhas de água a escorrer de um nicho de rocha, sem que se pressinta nessa insignificância límpida e pitoresca, o estertor de um estuário como o do Tejo. Bem mais adiante. Fui ver, numa pequena viagem virtual e ali estava como desconfiei um pequeno santuário natural, que em nada admite imaginar o futuro mas coexistente imenso caudal que mais adiante na península se acumula. Um rio maduro. Um rio prestes a diluir-se no todo do oceano. E é esse largo estuário do qual ignoramos a origem, que nos povoa esta ânsia de respiração. Em que coexistem os tempos todos. Numa rigorosa similitude entre as águas que irrompem da terra mais a leste e as que já se misturam ao oceano. As mesmas e sempre outras. Maduros nós, também. 882 Km da nascente até à foz. Deste rio Tejo que só conheço todos os dias largo e vasto antes da diluição. Como da vida em geral. Cada dia, pequeno volume de águas a ser nascente ou reacção e de que só parecemos conhecer num ponto preciso. Ou do caudal, ou da margem. E em cada dia, desses, o pequeno avolumar se faz muito na intenção sem o ser, de invalidar qualquer outra forma de estuário. Com tudo o que isso implica. De vida própria, de margens definidas e de destino no desaguar imparável. Tudo desagua na nossa frente, com a informação. A verdade como a ficção, parcial ou adulterada. Aqui. Vinda de leste como a guerra. Como o fruto desta natureza humana, impotente de evitar a possibilidade de sincronia que sempre torna inevitável o instalar na guerra. A montante do rio. Quase uma ficção, se não tivermos o cuidado de focar nesse ponto. Um repúdio absoluto. Tanto como o da pena de morte. Temos pena de quem sofre, mas temos ainda tantas manchas no mapa-mundo de onde se pratica e por lei. Manchas que são nódoas. Temos pena da vida que se esvai em sofrimento nestes cenários. E não sabemos se, sem querer, contribuímos. Que humanidade é esta? A guerra, qualquer guerra, não pode ter atenuantes, justificações, identificação de culpados a montante, visões laterais a contribuir, políticas, egos, expansionismos ou economicismos. Uma guerra é guerra, um costume bárbaro, recoberto hipocritamente de regulamentação. É crime e é assassinato, atentado contra a vida e contra os direitos de quem a tem ainda. Aliados são pessoas de que se gosta em absoluto e não pessoas que matem por nós. Ou sem nós. Porque o povo não é uma rede de colorido político, económico ou habitante de geoestratégias. É carne para a morte. Como a dos filhos, militares de todas as frentes. O repúdio tem que ser um asco indiferente a tudo o resto. É pacifismo absoluto. É o direito dos outros. À vida. E a passear o cão e o carrinho do bébé ou pôr rolos no cabelo. Essas pequenas insignificâncias. Já para não falar de tudo o mais. Do medo e do luto, por exemplo. Recomeçar sem nada ou não haver lugar a isso, sequer. Tanta água. E se aqui fosse lá? Não o rio em cinza, mas um manto branco e sujo nas ruas. Teria as mãos em concha. Nas ruas frias de Mariupol, recolhe-se neve para derreter em água potável.
A Cidade Exterior do Tai Hao Ling José Simões Morais - 8 Mar 2022 A pequena cidade de Huaiyang (淮阳), na prefeitura de Zhoukou, província de Henan, mostra-se pouco apelativa e apenas o Templo Mausoléu de Tai Hao atrai os visitantes. A acompanhar o monte da sepultura de Fu Xi foi crescendo para Sul um templo, existente já na Dinastia Zhou e onde nas dinastias Tang e Song foram adicionadas novas construções. Esse complexo, devido ao desinteresse dos mongóis Yuan, estava em ruínas aquando da visita em 1371 de Tai Zu, o primeiro imperador Ming e nessa dinastia o templo foi arranjado e ganhou a actual dimensão. Entre 1448 e 1576 novos edifícios foram construídos, como as torres do Sino e do Tambor e arranjados os existentes e em 1745, o governo da Dinastia Qing deu dinheiro para uma grande reparação. Nas várias visitas assistimos ao empenho para aí se realizarem muitos melhoramentos e assim fomos encontrando novos motivos de interesse. Estando no recinto da feira, para chegar à entrada do Templo Mausoléu de Tai Hao temos de atravessar uma das três pontes sobre o Rio Cai, sendo a do meio antigamente reservada ao Imperador, ou aos oficiais que o vinham representar quando aí se deslocavam para oferecer sacrifícios a Fu Xi. A ponte situada a Leste era para os Oficiais Civis e a do Oeste, para os Oficiais Militares. Nos outros dias, sem oficiais nem imperador, na visita ao templo as pessoas ao passar pela ponte central deviam prosternar-se antes de a atravessar. Chegados à entrada, na parte Sul do Templo, ao redor da Porta Wu Chao estão sentadas no chão em grupos uma grande quantidade de pessoas idosas, tendo todas as mulheres os cabelos cobertos com lenços de duas cores diferentes, verdes e rosas. Para conter as constantes ondas de peregrinos, uma barreira de polícias vai gerindo as entradas no recinto do templo. Construída em 1462, durante a Dinastia Ming (1368-1644), com três portas a Wu Chao men foi edificada em tijolo e pintada a vermelha, sendo a estrutura do telhado em madeira e deveria ter as telhas de porcelana em cor amarela, reservada aos imperadores. Com pesadas portas de madeira, a central está cravejada por pregos dourados formando nove linhas horizontais e nove linhas verticais e as outras duas portas só têm sete linhas verticais, mantendo as nove horizontais. Na parte exterior, entre o telhado e o edifício, por cima da entrada central uma tabuleta indica estarmos perante o Mausoléu de Tai Hao (太昊陵, Tai Hao Ling) e entre ela estão colocadas quatro tabuletas com individuais caracteres. No lado direito, pois a leitura faz-se pelo sentido oposto ao usado no ocidente, temos Kai (开) a significar abrir, ou descobrir, e Tian (天), Céu e no outro lado encontram-se Li (立) estabelecer, ou fundar, e Ji (极), infinito, sem limites. Por baixo da placa central, outra com os caracteres午朝门, Porta Wu Chao. Ainda no muro Sul, lateralmente a esta porta encontram-se as entradas Dong Tian e Xi Tian, a servirem a Cidade Exterior do recinto do Templo. Da Porta Wu Chao parte um eixo central a atravessar as várias portas e se estiverem abertas consegue-se, passando o olhar por a Cidade Interior, ver na Cidade Proibida o monte de terra onde está sepultado Fu Xi, apesar de não ser totalmente em linha recta, mas fazendo uma ligeira curva. A maioria dos edifícios do Templo estão voltados para Sul e desde a entrada até ao muro na parte Norte contam-se 750 metros. O recinto tem dez portas e uma área de 875 mu (58,3 hectares), estando dividido em três zonas: a Cidade Exterior, a Interior e a Cidade Proibida, separadas por três muros. CIDADE EXTERIOR Já dentro, ouvimos atrás de nós uma música e ao olhar, fora do recinto do templo deparamos com um grupo de peregrinos que traz uma banda de músicos. À frente vem um rapaz vestido a rigor. Ainda antes de atravessar o canal do Rio Cai o jovem faz uma prosternação, assim como à entrada da Porta Wu Chao e já dentro do recinto, antes da Ponte Yu Dai. Esta ponte atravessa o Rio Yu Dai, que entra e sai por baixo dos muros exteriores do templo, a Leste e Oeste, denominando-se o conjunto Rio do Cinto de Jade. A meio da água, dois altares para onde os crentes atiram moedas na tentativa almejada de ficarem no altar, para lhes trazer sorte. No lado direito está a estátua de Nu Wa e no esquerdo, a de Fu Xi. Após a Ponte Yu Dai, chegamos à Entrada Dao Yi (道仪门, Dao Yi men, porta da mutação do Dao), com oito metros de altura antigamente era denominada Tong De men (通德门, Porta da Via para a Virtude) e mais popularmente conhecida por San men (Três portas). O edifício era na Dinastia Ming feito de madeira e só em 1575 passou a ser de tijolo. O corredor central, conhecido pelo Caminho do Cinto de Jade, percorre longitudinalmente o recinto do templo e está ladeado com bandeiras triangulares amarelas estampadas com a representação de um dragão. Após cem metros do Dao Yi men, a Porta Xian Tian (先天门, Xian Tian men), edifício construído em 1575, sendo o actual já da Dinastia Qing, com uma alta base de pedra e a encimar, um pavilhão vermelho feito em madeira, com dois andares. Dentro, especialistas do Yi Jing são consultados pelos muitos crentes que aí vão, depois de subidas as íngremes escadas de pedra construídas apenas nos anos 70 do século XX. Nas paredes, como fundo, toda a simbologia inerente ao Livro das Mutações (Yi Jing), onde registada ficou a Filosofia da Natureza. O nome da Porta Xian Tian provém dos oito trigramas antigamente conhecidos por Xian Tian e tem os caracteres gravados numa pedra cuja inscrição é do ministro Shi Yaoqing da Dinastia Ming. Comemora a representação criada por Fu Xi dos oito trigramas colocados em torno do Tai ji, conhecida por Xian Tian bagua (先天 八卦) proveniente do mapa He Tu trazido pelo dragão-cavalo e lhe dado apreender a partir da Colina Gua Tai, em Tianshui, actual província de Gansu. Após a Xian Tian men chega-se ao amplo pátio da Praça Tai Ji, com 73 metros no eixo Sul/Norte e 66 metros no Leste/Oeste, tendo à frente a Porta Tai Ji (Tai Ji men), a abrir para a Cidade Interior, a parte principal do recinto. Ainda antes de aí entrar, no muro interior do lado Leste está a Porta San Cai cujo caminho leva à porta do recinto exterior, Dong Hua men. Já no lado do muro interior Oeste, está a Porta Wu Xing a dar para a Porta Xi Hua nos muros exteriores, onde anteriormente vimos uma multidão a tentar entrar, entupindo a saída dos que dentro tinham já feito as oferendas de sacrifício e abandonavam o recinto. Subindo cinco degraus entra-se pela Porta Tai Ji, a abrir para a Cidade Interior do templo. Tai Ji men foi construída em 1437, durante a Dinastia Ming, com o nome de Tai Ji Fang (Arco Memorial). A Leste desta Porta está Yang Guan e a Oeste, Fu Cha e no livro Yi-Xici zhuan 《易 系辞传》 refere, em tempos antigos Bao Xi shi (Fu Xi) levantando a cabeça (Yang Guan) observava o Céu e tudo o que nele se passava e olhando para baixo (Fu Cha) vendo a Natureza percebia o sentido da mudança (Yi) e assim encontrou a lei que lhe permitiu criar o Bagua.
GP Macau | Sophia Floersch diz que acidente lhe trouxe fama mas não proveito Sérgio Fonseca - 8 Mar 20228 Mar 2022 Há momentos que marcam a carreira de um piloto. Para Sophia Floersch, definitivamente será o assustador acidente no Grande Prémio de Macau de Fórmula 3 de 2018, como a própria admitiu ao jornal bávaro “Münchner Merkur”. Sophia Floersch reconhece que o infortúnio lhe trouxe fama, mas que não a ajudou a progredir na sua carreira desportiva Quase quatro anos após o aparatoso acidente na travagem para a Curva Lisboa, a piloto alemã admitiu à publicação germânica que ainda continua a ser muito associada ao acidente no Circuito da Guia. Apesar do aparato, que catapultou o evento de Macau para todos os noticiários em todo o mundo, felizmente o acidente não teve consequências físicas, e Sophia Florsch regressou logo ao activo em 2019, tendo recebido o ” World Comeback of the Year” na cerimónia dos Laureus World Sports Awards. Sophia Floersch disse que vários patrocinadores capitalizaram com o seu salto para a fama, mas que “nenhum deles ainda está comigo”. A jovem alemã, que recebeu o título de Embaixadora da Boa Vontade do Turismo de Macau após o seu acidente, referiu que “o automobilismo move-se depressa. O acidente deu-me atenção, mas no sentido desportivo, não foi um passo em frente”. Depois de ter regressado à corrida de Fórmula 3 em Macau, onde desistiu com problemas técnicos no seu carro, em 2020 completou outra temporada na disciplina, aproveitando também para se estrear nas corridas de resistência. Em 2021, foi a vez de se estrear no campeonato alemão DTM e no Campeonato do Mundo FIA de Endurance (WEC). Sophia Floersch tinha planeado para este ano uma participação no European Le Mans Series e nas 24 Horas de Le Mans, mas continua a afirmar que o seu grande objectivo “é regressar às corridas de monologares”, sendo a Fórmula 1 “o seu grande sonho”. “Aos 21 anos, devo continuar a perseguir este objectivo”, insiste a piloto de Munique. “Com um orçamento grande seria mais rápido, mas com um orçamento pequeno, por vezes tens que fazer desvios. Porém, estou a lutar para subir e acredito firmemente que há um futuro. A determinada altura, o investimento irá compensar”. A piloto, que sempre disse que estava disposta a regressar ao evento automobilístico da RAEM, aproveitou a entrevista para criticar a hipocrisia existente na Fórmula 1, “apesar de todo o alarido em redor de chavões da actualidade como diversidade, igualdade e inclusão, as equipas adornam-se com pilotos (senhoras), mas elas não têm qualquer hipótese. São usadas para justificar lemas modernos e chiques para promoverem as mulheres e a igualdade”. Apanhada pelas sanções à Rússia Sophia Floersch tinha esta temporada bem delineada, com contrato assinado para conduzir um Oreca 07 Gibson da classe “Le Mans Prototype 2” (LMP2) que seria preparado pela equipa portuguesa Algarve Pro Racing sob a bandeira da G-Drive Racing na Europa. A G-Drive é uma cadeia de postos de combustível russa, que é administrada pela gigante estatal do petróleo Gazprom, que por sua vez passou a enfrentar sanções dos EUA e de outros países Ocidentais após a invasão russa à Ucrânia. Perante as sanções económicas e as limitações colocadas pela FIA, como a proibição da bandeira russa, símbolos, cores ou hino nacional do país, os mentores do projecto G-Drive Racing retiraram-se de cena, deixando a equipa portuguesa e os seus pilotos, incluindo Sophia Floersch, numa situação incómoda, vista a necessidade de procurar novos apoios para compensar a saída do forte patrocinador.
Ana Saldanha, académica: “Debate sobre libertação das mulheres foi importante no PCC” Andreia Sofia Silva - 8 Mar 2022 Ana Saldanha fala hoje, na Fundação Rui Cunha, às 18h30, sobre a evolução do papel da mulher na sociedade chinesa ao longo do século XX. A palestra, integrante da Semana da Cultura Chinesa, aborda vários períodos históricos, desde a queda do Império à chegada do comunismo. A académica frisa que os avanços significativos nos direitos das mulheres, por intermédio do PCC, remontam aos anos 30 Como evoluiu a posição da mulher chinesa entre a queda do Império e o período da República? A China Imperial regia-se pelos princípios patrilinear e da hierarquia social, sendo que ambos constituíam uma herança do pensamento confucionista. A mulher encontrava-se subordinada ao homem e dever-se-ia submeter à sua autoridade, sendo a linhagem da família assegurada pelos membros masculinos. Tendo em conta que as funções da mulher se circunscreviam ao círculo familiar, as virtudes femininas (socialmente consideradas) remetiam para a obediência, a docilidade ou a castidade. Não é, assim, por acaso que, no final do século XIX, quando assistimos, ainda no final da Dinastia Qing, ao nascimento de um movimento feminista chinês, a herança confucionista será um dos alvos de contestação. Que papel teve este movimento? Ainda que brotando das entranhas das classes mais abastadas e tenha nascido sob o impulso de mulheres que tiveram a possibilidade de estudar no exterior, o movimento feminista chinês vai lançar o debate, no seio da tradicional sociedade chinesa, sobre a condição e a posição social das mulheres. Quais as principais reivindicações à época? O direito a uma educação para as mulheres, direitos iguais, perante a lei, e a abolição dos pés enfaixados (um acto que remontava à dinastia Song e que pretendia demonstrar, no seio de uma determinada comunidade, a riqueza de uma família). Todas estas reivindicações têm a particularidade de unir o feminismo com o patriotismo, já que se considerava que o facto de as mulheres terem acesso à educação permitiria que os seus filhos pudessem ter uma melhor formação, o que, afirmavam as feministas chinesas, conduziria a uma melhoria qualitativa do nível de conhecimento e de formação do povo chinês. Ainda que, do ponto de vista legal, a educação feminina tenha o seu início formal em 1907, será necessário aguardar pela instauração da República, em 1912, para que se verifique, de facto, uma evolução qualitativa na condição da mulher no seio da sociedade chinesa. Houve mudanças a nível jurídico, por exemplo? O debate iniciado no final do século XIX acaba por surtir um efeito legislativo na China republicana, pelo que, a partir de então, o enfaixamento dos pés é proibido e as escolas passam a poder ser mistas. Não obstante, a Constituição elaborada pela Assembleia Legislativa de Nanjing, e tornada pública a 11 de Março de 1912, não prevê, por exemplo, o sufrágio feminino ou a elegibilidade das mulheres, o que constituiu um motivo de desapontamento para as sufragistas chinesas. Apesar disso, a mulher, no plano social e jurídico, vai assumindo um novo papel, pelo que podemos falar de uma evolução, a qual, no contexto chinês, passa por uma libertação da mulher das amarras patriarcais, herdadas, em parte, do confucionismo. Em 1915, a emancipação das mulheres vai encontrar-se no centro de vários debates, discutindo-se temas como a denúncia da moral confucionista, o casamento, o concubinato ou o encorajamento do suicídio feminino, em nome da virtude e da lealdade. A discussão aprofunda-se aquando do movimento 4 de Maio de 1919, momento este que podemos considerar como o ponto alto na história do feminismo na China. Em que sentido? Aprofunda-se uma reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade, a necessidade da sua libertação, a castidade e virgindade (duas virtudes consideradas fundamentais na China tradicional) ou a desigualdade sexual. O debate sobre a condição feminina vai, depois, a partir de 1921, ser levado para o interior do Partido Comunista Chinês (PCC). Aliás, muitos dos autores que colaboram na imprensa vanguardista pós-movimento 4 de Maio e que defendem a libertação da mulher na sociedade chinesa serão activos militantes comunistas. Com efeito, estes futuros membros do PCC (como Chen Duxiu, Chen Wangdao ou Qu Qiubai) concluem que é necessário operar-se uma mudança sócio-políticapara que a mulher, na China, possa alcançar uma nova posição social. Na China de Mao os direitos das mulheres eram abordados ou simplesmente ignorados pelo poder? Como referi, o debate sobre a libertação das mulheres passa a constituir um elemento importante no seio do Partido Comunista Chinês, e isto logo após a sua fundação, em 1921. Quando, no final da década de 1930, o PCC domina algumas zonas rurais, os comunistas vão, desde logo, integrar as mulheres nas actividades políticas e económicas. O PCC enceta, assim, um movimento socio-político vanguardista, libertando a mulher da esfera patriarcal e familiar e trazendo-a para a esfera pública. Depois da revolução chinesa, em 1949, a RPC aprova matéria legislativa que pretende colmatar as diferenças, perante a lei, de homens e mulheres. Esta legislação herdou, aliás, muito daquilo que havia sido estipulado nos regulamentos aprovados durante a década de 1930. A lei do voto garante o direito de voto das mulheres e estipula-se, por exemplo, que as mulheres recebam o mesmo salário que os homens, pelo mesmo trabalho, assim como direitos de propriedade e de acesso ao trabalho iguais. Sendo consideradas, tal como os homens, como parte da força de trabalho, as mulheres são chamadas a participar na construção da nova sociedade socialista, buscando-se atingir uma igualdade, de facto, por meio da transformação da sociedade. Os direitos das mulheres não apenas não foram ignorados, como após 1949 se iniciou um processo social, político e jurídico com o objectivo de terminar com as desigualdades existentes entre homens e mulheres, nas diferentes esferas da sociedade. A abertura do país ao mundo, desde Deng Xiaoping, trouxe um maior alerta sobre os direitos das mulheres no geral, mas sobretudo em matéria de direitos laborais? As transformações mais marcantes, no plano legislativo, datam da década de 1980, sobretudo depois da aprovação da Constituição de 1982, durante o mandato de Deng Xiaoping. A Lei Fundamental da RPC vai enquadrar medidas em defesa dos direitos das mulheres, consagrando a igualdade entre mulheres e homens, em todas as esferas da vida, os mesmos direitos no acesso a um trabalho, a promoção do acesso das mulheres a cargos de responsabilidade, assim como disposições sobre a proteção das mulheres no trabalho. No quadro legislativo, são, ainda, de destacar, no plano jurídico, os Regulamentos de Saúde Pública (1986), os Regulamentos de Protecção do Trabalho (1988) e a Lei para a protecção e defesa dos direitos e interesses das mulheres (1992). Desta forma, podemos dizer que a pretensão de alcançar, no plano jurídico, uma igualdade plena, foi, finalmente, alcançada, com a aprovação da Constituição que, em 1992, veio substituir a Constituição de 1978, e pelos diplomas legais aprovados depois desta data. Houve uma evolução da representação da mulher em áreas como a arte e literatura? Na China as primeiras escolas femininas remontam ao final do século XIX, sendo que o governo imperial apenas legaliza a educação feminina em 1907. Neste sentido, durante séculos, o acesso à leitura e escrita era apanágio, sobretudo, de homens. Destes, apenas aqueles que pertenciam às classes mais abastadas àquelas tinham acesso. Por outro lado, até ao século XX e ao surgimento das primeiras escolas, as mulheres letradas pertenciam, também elas, às classes mais favorecidas da sociedade. Estávamos, assim, perante uma situação em que a grande maioria da população era iletrada e em que o acesso à cultura – e, portanto, às manifestações artísticas -, apenas era permitido a uma minoria. No quadro desta minoria, os homens tinham um acesso privilegiado. Ora, sendo a literatura e outras manifestações artísticas parte da vida de uma determinada comunidade humana, aquelas constituem manifestações não apenas estéticas, mas também sociais, pelo que a representação que, nas diferentes artes, podemos encontrar da mulher e do homem, refletem não apenas o gosto e valores estéticos que se manifestam num determinado período sócio-histórico, como, também, a organização sócio-económica na qual aqueles valores se impõem. Naturalmente que, neste sentido, a representação que é feita da mulher evolui concomitantemente com a evolução da organização política e económica de uma determinada sociedade. Hoje, fruto da evolução sócio-política e jurídica da mulher, temos uma proliferação de autores mulheres, na China, como em todos os restantes cantos do mundo.
Demografia | Mais TNR na construção civil. Menos em trabalhos domésticos Andreia Sofia Silva - 8 Mar 2022 Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) revelam que o número de trabalhadores não residentes (TNR) era, no final do ano passado, 30.362, o que representa um aumento de 3.378 trabalhadores face a igual período de 2020. Por sua vez, registaram-se, em Dezembro, menos 3.372 TNR na área do trabalho doméstico, que empregava um total de 26.033 pessoas. No ano passado, existiam 2.627 indivíduos do Interior da China recém-chegados a Macau titulares de “Salvo-Conduto Singular”, uma quebra de 346 em termos anuais. Desses, 1705 eram provenientes de Guangdong, sendo que 65,9 por cento diz respeito a mulheres. No ano passado, foi concedida residência a 468 pessoas, menos 262 em termos anuais. Em Dezembro, Macau tinha uma população de 683.200 pessoas, mais 900 face a Setembro e mais 100 em termos anuais. A população local, que não inclui TNR ou estudantes vindos do exterior, era de 570.100 pessoas, um aumento de 1,1 por cento face a 2020. O índice de envelhecimento, aumentou para 83,7 por cento. No ano passado, morreram mais 90 pessoas face a 2020, num total de 2.320 óbitos. A maior causa das mortes foi a ocorrência de tumores malignos, num total de 873 casos e 37,6 por cento. Seguem-se as doenças de coração, com 253 casos, e pneumonia, 252, representando ambos 10,9 por cento do total de óbitos.
Lago Nam Van | Rui Leão defende estudo de impacto visual Pedro Arede - 8 Mar 2022 Rui Leão defende que o Governo deve encomendar um estudo de impacto visual para as construções previstas para os lotes C1 e C4 do Lago Nam Van. Em causa, está o facto de a altura dos futuros edifícios, poder vir a impactar negativamente a envolvência de património classificado, como a Fortaleza de Nossa Sra. do Bom Parto, a Residência Consular Portuguesa e Igreja da Penha O arquitecto Rui Leão considera que o facto de existirem três edifícios classificados na área envolvente dos lotes C1 e C4 do Lago Nam Van, onde se prevê a construção de edifícios até 50 metros de altura junto ao actual edifício do Tribunal Judicial de Base, justifica a encomenda de um estudo de impacto visual por parte do Governo. Em causa, segundo os comentários elencados por Rui Leão através de uma nota escrita, está o impacto negativo que as novas construções poderão vir a ter nas imediações da Fortaleza de Nossa Sra. do Bom Parto (Monumento Classificado), da Residência Consular Portuguesa e da Igreja da Penha, sendo estes últimos classificados como edifícios de interesse arquitectónico. Para o arquitecto, a encomenda de estudos de impacto visual sobre a planta de condições urbanísticas (PCU) em questão, “justifica-se” dado estarem “previstos na Lei de Salvaguarda de Património para edifícios classificados ou em vias de classificação” e no “Plano de Gestão de Património, elaborado pelo Governo da RAEM”. Isto, além de que este tipo de estudo “é prática corrente pelo mundo fora”, incluindo em Hong Kong, China, Singapura, Japão, Coreia do Sul e Malásia. “Será má prática que num caso tão gritante, onde se encontram três edifícios classificados, não se cumpra com boas práticas de impacto visual sobre a áreas de património”, pode ler-se na nota enviada. “Caso esta PCU avance sem ser questionada e re-equacionada, para que precisamos de Leis e Planos de Gestão e Salvaguarda, se eles não são aplicados quando existe um contexto explicitamente essencial e crítico de valores patrimoniais. Não é obrigação do Governo (…) estabelecer precedentes nas situações que são exemplarmente importantes e em contextos históricos de relevância para história de Macau, como aliás foi o caso do Farol da Guia em 2008?”, questionou ainda Rui Leão. Para firmar a necessidade de realizar o estudo, o arquitecto alerta ainda para o facto de os corredores visuais definidos para a área serem “precários e indicativos”, dado que o impacto das novas construções apenas foi avaliado da partir de um único ponto de vista, ou seja um corredor visual, e não de um “campo alargado”. “Chamo a atenção que se devia falar neste caso em cone visual protegido, e nunca de corredor visual. Isto porque o corredor visual é claramente a definição de uma linha, e um cone visual é um campo alargado”, apontou. Respeitar a memória Para Rui Leão, a questão é tanto mais premente, tendo em conta que defende que as autoridades devem respeitar o plano original do “Fecho da Baía da Praia Grande”, que tinha como intenção, não só separar os novos aterros da linha histórica da costa através da criação de dois lagos, mas também de “manter a linha de encontro entre a cidade e o rio bem visível e reconhecível”. Por isso mesmo, o arquitecto considera que “não faz sentido” permitir que as cotas máximas permitidas sejam definidas de acordo com a cota alta do monte da Penha porque o contexto urbano em causa é diferente e se assume como ponto-chave para ligar “os novos aterros à antiga marginal, à Fortaleza do Bom Parto e à encosta”. Na opinião de Rui Leão, como alternativa, deve ser ponderado um traçado que obstrua “significativamente menos” os três edifícios classificados e o recorte da encosta da Penha. O arquitecto sugere, por isso, que a altura das construções seja definida como uma “sequência de degraus”, que diminui à medida que se afasta do edifício do futuro tribunal e se aproxima da Fortaleza do Bom Parto.
Crime | Consome droga e tenta entrar em escola Hoje Macau - 8 Mar 2022 Um homem, com 44 anos, foi detido na sexta-feira, devido a ter consumido estupefacientes e ter tentado entrar numa escola na Zona Norte do território. O caso foi revelado ontem pela Polícia Judiciária, que foi alertada para o estado de “anomalia psíquica” do indivíduo por um dos funcionários da instituição escolar. Segundo o relato, na sexta-feira, o homem que aparentava estar alterado, fez uma primeira tentativa para entrar na escola fazendo-se passar como pai de uma criança. No entanto, o funcionário conseguiu perceber que não era encarregado de educação e não permitiu a sua entrada. Momentos mais tarde, o homem voltou a insistir, desta vez pegando numa das crianças pela mão. Todavia, voltou a ser barrado e o funcionário ligou para as autoridades a alertar para o sucedido. Quando a polícia chegou ao local, foi alertada por um outro residente de que um homem suspeito se encontrava numa casa-de-banho pública, onde se teria injectado com uma substância proibida. A PJ deslocou-se ao local e encontrou duas seringas abandonas, uma das quais com vestígios de metadona. Apesar de o sujeito não ter confessado a prática do alegado crime, a PJ considerou estarem reunidos os indícios necessários, depois de ter havido outros depoimentos de residentes da zona. O caso foi assim reencaminhado para o Ministério Público e o homem está indiciado pela prática do crime de consumo ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas, que implica uma pena de pode ir de 3 meses a 1 ano de prisão, ou 60 a 240 dias de multa.