APN | Lok Po pede melhor integração dos macaenses na “nação chinesa” Pedro Arede e Nunu Wu - 9 Mar 2022 Representante de Macau na Assembleia Popular Nacional defendeu que os macaenses devem ser apoiados a encontrar as suas raízes e integrar “a família da nação chinesa”. Para Lok Po, independentemente de virem a ser considerados como grupo étnico, os macaenses e a sua cultura devem ser apoiados para que Macau “não perca a sua identidade”, dado ser o local onde os povos chinês e português se encontram O representante de Macau Assembleia Popular Nacional (APN), Lok Po, defendeu ontem, em Pequim, perante o vice-primeiro-ministro chinês, Han Zheng, que a comunidade macaense deve ser apoiada na tarefa de encontrar as suas raízes e que a sua integração “na família da nação chinesa” deve ser “melhorada”. Segundo o vogal de Macau, é fundamental que a cultura macaense seja promovida e reconhecida no Interior da China, para que mais compatriotas tomem consciência das particularidades de uma minoria que tem mais de 400 anos e que deve ocupar “o lugar que lhe compete” entre a família da nação chinesa. “Historicamente, portugueses e chineses juntaram-se e deram à luz crianças mestiças de origem portuguesa, normalmente conhecidas como macaenses. Com um estilo de vida diferente dos chineses, os macaenses fazem parte de uma paisagem única na sociedade predominantemente chinesa de Macau, originando costumes e uma cultura própria. Além de um dialecto específico [patuá] e de falarem várias línguas, os macaenses possuem uma gastronomia própria que mistura influências orientais e ocidentais. Esta mistura única de culturas faz parte das características de Macau”, disse segundo o jornal Ou Mun. Lok Po apontou ainda que, apesar de muitos macaenses “amarem a terra onde os seus antepassados nasceram” e apoiarem a transferência de Macau para a China, sentem-se “embaraçados” pelas dificuldades que têm em encontrar as suas raízes no seio da “família da nação chinesa”. Como exemplo prático, o representante indicou o facto de, aquando do preenchimento de formulários oficiais, os macaenses não se enquadrarem nem na etnia Han, nem numa das outras 55 minorias étnicas da China. Isto, porque a opção “macaense” não consta da lista dos grupos étnicos oficialmente reconhecidos pelo país. “Como integrar os macaenses é uma questão que se coloca desde a transferência de soberania. Se a cozinha macaense não está integrada na família da nação chinesa, então de onde provém? Como é que isto pode ser explicado e como podem os descendentes de portugueses e chineses identificar as suas raízes?”, questionou. Reconhecimento e respeito Para Lok Po, permitir que os macaenses integrem “o mais rapidamente possível” a família chinesa é um sinal de “reconhecimento” e uma “afirmação de respeito”, que irá contribuir para a estabilidade social de Macau e para que a comunidade viva no território “sem medo”. O representante de Macau na APN frisou ainda que, independentemente, de a comunidade macaense poder vir a ser considerada uma etnia por parte da China, esta deve ser apoiada para que Macau não perca a sua identidade. “Independentemente de virem a ser considerado como ‘grupo étnico’, a comunidade e a cultura macaenses devem ser apoiadas e promovidas. A gastronomia macaense faz parte da lista do Património Cultural Imaterial Nacional e o pastel de nata, por exemplo, é famoso e apreciado em todo o mundo. Além disso, a única língua nativa de Macau [o patuá] corre o risco de desaparecer se não for apoiada”, começou por elencar. “Tudo isto faz parte da alma dos macaenses. Macau só é Macau porque é o local onde os povos chinês e português se encontram. Sem um deles, Macau perderá a sua identidade”, rematou, segundo o jornal Ou Mun.
Habitação Social | Candidaturas de 2017 colocadas até ao fim do ano João Santos Filipe - 9 Mar 2022 Os 3.280 agregados familiares que se candidataram em 2017 a uma habitação social vão ser todos colocados até ao final do ano. A estimativa é do Instituto de Habitação, em resposta a uma interpelação do deputado Lam Lon Wai O Instituto de Habitação (IH) acredita que até ao final do ano todos os 3.280 agregados familiares que se candidataram em 2017 a uma habitação social vão ver os seus pedidos atendidos. A estimativa foi feita por Arnaldo Santos, presidente do Instituto de Habitação, na resposta a uma interpelação do deputado Lam Lon Wai. “Prevê-se que seja concluída, em 2022, a atribuição de habitação social aos agregados familiares admitidos no concurso de 2017”, respondeu Arnaldo Santos, no documento divulgado ontem pelo deputado. A resposta não menciona o número de candidaturas desse ano, nem quantos agregados têm de esperar quase cinco anos para poderem arrendar uma habitação pública a um preço acessível. Em vez disso, Arnaldo Santos pediu ao deputado Lam que consultasse o portal do IH para aceder aos dados. Segundo um comunicado do IH, com a data de 19 de Julho 2021, entre as 6.354 candidaturas admitidas em 2017, 3.280 estavam habilitadas para terem acesso a estas habitações, ou seja, cerca de 60 por cento. De acordo com a mesma informação, a meio do ano passado cerca de 550 famílias candidatas ainda aguardavam por colocação. Na altura, o Governo anunciava ainda que “o tempo médio de espera relativamente à candidatura a habitação social de 2017 foi de 420 dias (cerca de um ano e dois meses)”, e “o tempo máximo de espera foi de 870 dias (cerca de dois anos e cinco meses)”. As contas, não foram explicadas, assim como a data a partir da qual se contou o prazo. Mudança de regras Depois de 2017, e da alteração à lei da habitação social, as regras de atribuição deste tipo de habitação social mudaram. Em vez de serem abertos concursos periódicos para o arrendamento das fracções, passou a haver um mecanismo que permite os residentes com necessidades candidatarem-se em qualquer altura. Na interpelação, o deputado Lam Lon Wai pretendia saber quantas pessoas se tinham candidato depois da entrada em vigor da nova lei e a situação das candidaturas que tinha sido aceites ou recusadas. De acordo com a informação mais actualizada do portal do IH, entre 20 de Agosto e ontem, tinham sido apresentadas 4.640 candidaturas, das quais 2.151 foram aceites. Na resposta à interpelação, Arnaldo Santos explicou que estas pessoas só vão ter atribuída uma fracção pública depois de todos os processos de 2017 terem sido tratados. Com base nos dados de Julho de 2017 e a informação disponibilizada pelo portal do IH, é assim possível assumir que cerca de 2.701 agregados estão à espera de acesso a habitação social. Contudo, o número pode ser menor. Afastada, está a possibilidade de haver uma revisão dos critérios de acesso à habitação social, para seguir o modelo da habitação económica, em que os agregados com filhos têm prioridade. Lam Lon Wai sugeriu a mudança, mas Arnaldo Santos reconheceu que as alterações não vão ser feitas: “Em relação à candidatura a habitação social de agregados familiares com elementos menores, não houve alterações significativas nos últimos cinco anos”, começou por explicar. “De acordo com a situação actual, não há, neste momento, planos para proceder à revisão do mapa de pontuação aplicável à aprovação da candidatura de arrendamento de habitação social”, acrescentou.
Dia da mulher | O impacto da pandemia e a menor representatividade política Andreia Sofia Silva - 9 Mar 20229 Mar 2022 Celebrou-se ontem o Dia Internacional da Mulher, mas, em Macau, o desequilíbrio na representatividade de género permanece activo em vários sectores. As mulheres são, para Christiana Ieong, do Zonta Clube, as maiores vítimas do impacto da pandemia. Esta acredita que mais dias de licença de maternidade podem trazer problemas às trabalhadoras do sexo feminino. Nedie Taberdo Palcon, do Sindicato de Trabalhadores Migrantes das Filipinas, diz que as condições de vida e de trabalho das mulheres migrantes pioraram Ser mulher em Macau no século XXI continua a significar não ter grande presença no sistema político, com cada vez mais jovens a procurarem um eterno equilíbrio entre a carreira e uma família. Ontem, celebrou-se o Dia Internacional da Mulher num contexto de pandemia que trouxe muitos impactos negativos à sociedade e à economia locais. Para Christiana Ieong, presidente da assembleia-geral do Zonta Clube de Macau, as mulheres foram as principais vítimas da pandemia. “Penso que a pandemia afectou mais as mulheres porque normalmente elas precisam de cuidar da casa. Com a pandemia, a maior parte das famílias não teve ajuda no trabalho doméstico, e muitos pais tiveram de trabalhar em casa e cuidar dos filhos ao mesmo tempo.” Para a responsável, a pandemia agravou uma situação que já antes se verificava. “Mesmo sem a covid-19, a nova legislação tornou mais difícil e caro contratar uma empregada doméstica. Isso não ajuda as mulheres a apostarem na carreira”, frisou. Christiana Ieong acredita que, se as mulheres são as que mais sofrem com este panorama, tal implica uma mudança em toda a estrutura familiar. “Haverá mais problemas familiares porque há mais stress económico e mental, sobretudo num panorama de desemprego. Mas penso que, acima de tudo, temos sorte, se nos compararmos com as regiões vizinhas, como é o caso de Hong Kong. Temos sorte de termos um Chefe do Executivo forte e competente para liderar nestes tempos difíceis”, disse, num elogio a Ho Iat Seng. Boa licença de maternidade Christiana Ieong, que foi ontem uma das oradoras num evento dedicado ao Dia da Mulher promovido pelas câmaras de comércio do Reino Unido e Austrália em Macau, defendeu ainda ao HM que aumentar os dias da licença de maternidade pode ter um resultado negativo para quem busca uma carreira. “Não é mau a fasquia de 70 dias de licença de maternidade em Macau, penso que é uma boa política. Se as mulheres tiverem mais dias de licença de maternidade ficam numa posição de menor vantagem em termos de recrutamento, porque os custos [laborais] para contratar mulheres vão aumentar. Não diria que o aumento dos dias de licença de maternidade pode não ser algo positivo para as mulheres e penso que a actual situação não é totalmente má. Os empregadores podem optar por contratar mulheres mais velhas, que têm menos possibilidade de engravidar.” Esta posição é, por exemplo, contrária à que tem sido defendida pelos deputados ligados à Federação das Associações dos Operários de Macau, que pedem que as grávidas possam ter direito a uma licença de maternidade até 14 semanas, além de exigirem que os empregadores concedam, por dia, uma hora de trabalho para que as mães possam amamentar. Sobre a igualdade de género em áreas como a política, a responsável defende que continua a haver um desequilíbrio. “Olhando para os dados e para a representação das mulheres na Assembleia Legislativa, vemos uma tendência de quebra. As mulheres têm menos voz na elaboração de políticas. Elas desempenham um papel muito importante nas famílias e, se tiverem uma maior representatividade, haverá um maior equilíbrio em termos de igualdade de género, o que leva a uma maior estabilidade social.” Actualmente, o hemiciclo é composto por apenas cinco mulheres (Angela Leong, Ella Lei, Song Pek Kei, Lo Choi In e Wong Kit Cheng) num total de 33 deputados. Relativamente ao elenco governativo liderado por Ho Iat Seng, Elsie Ao Ieong U, com a tutela dos Assuntos Sociais e Cultura, é a única secretária no grupo de cinco. Christiana Ieong pensa que mais mulheres em cargos de liderança significa maior igualdade na elaboração das leis, sobretudo em matéria laboral. “Haveria uma maior estabilidade se as leis fossem mais favoráveis às mulheres.” Segundo a agência Lusa, a Associação Geral de Mulheres teve um aumento do número de pedidos de ajuda desde que a pandemia começou. Dos 337 pedidos feitos em 2019, passou-se aos 1.236 pedidos de ajuda no ano seguinte. No ano passado, houve uma ligeira redução de casos, para 904. Ouvida pela Lusa, a ex-deputada e académica Agnes Lam também destacou um maior cenário de desigualdade de género. “A pandemia causou a algumas mulheres a perda dos seus empregos, perturbou o mercado de empregadas domésticas em Macau, aumentou as responsabilidades financeiras e familiares das mulheres, e dificultou a progressão das mulheres em Macau na carreira profissional, o que, de facto, afectará o progresso da igualdade de género”, salientou. Migrantes sofrem mais Se as mulheres parecem ter sido das principais vítimas da pandemia, as mulheres migrantes parecem ter sofrido ainda mais as consequências de cenários como a perda de emprego, quebra de vencimento e dificuldades económicas para continuarem em Macau. “Penso que o primeiro grupo a ser atingido foi o dos trabalhadores migrantes, mas não tenho informação suficiente para falar sobre isto. Mas não surpreende o facto de os migrantes serem as maiores vítimas [da situação]”, frisou Christiana Ieong. Nedie Taberdo Palcon, dirigente do Sindicato Verde dos Trabalhadores Migrantes das Filipinas em Macau, conta que a situação de enorme desigualdade verificada antes da pandemia se agravou nos últimos meses. “Todos sabemos que há muitos trabalhadores migrantes, sobretudo domésticos, que perderam o trabalho durante a pandemia. A falta de protecção social destes trabalhadores continua a ser um a realidade. Vimo-nos forçados a deixar o emprego sem regalias ou pagamentos. Até hoje, não temos direito a um salário mínimo como sempre exigimos. O fim do contrato antes do seu termo tem sido gritante se o trabalhador decidir não continuar com o mesmo empregador. Mesmo que faltem apenas um ou dois dias para o contrato terminar, ele é imediatamente banido nos serviços de emigração, sem a possibilidade de poder encontrar outro emprego.” Desta forma, Nedie Taberdo Palcon conclui que “os direitos dos migrantes continuam a não estar protegidos em Macau”. “Posso dizer que a situação é pior do que no passado. Os grandes problemas que os trabalhadores migrantes e as mulheres enfrentam hoje em dia estão ligados à mudança de emprego. Além disso, se o trabalhador ficar doente, é despedido pelo empregador para que este não tenha de suportar as despesas médicas. Desta forma, os trabalhadores vêem-se sem trabalho e com enormes despesas hospitalares para pagar, vivendo do apoio de doações feitas por associações e organizações não governamentais (ONG)”, adiantou. Além das frágeis condições laborais, Nedie Taberdo Palcon pensa que as ONG que defendem os direitos dos trabalhadores migrantes têm hoje menos voz no diálogo com as autoridades. “O Governo nunca nos ouviu ou convidou para qualquer consulta pública relacionada com os nossos direitos. Os nossos pedidos mais importantes passam pela revisão do nosso salário mínimo, do apoio financeiro para a renda de casa e cuidados de saúde e outras questões às quais continuam a fazer ouvidos moucos e olhos cegos”, rematou. Na liderança Teve ontem lugar no hotel St. Regis, em Macau, um evento para assinalar o Dia da Mulher, organizado pelas Câmaras de Comércio do Reino Unido e Austrália. Como temas, estiveram em cima da mesa a igualdade de género e a necessidade de quebrar barreiras no acesso das mulheres a posições de liderança na sociedade. Citada por um comunicado, Janet McNab, vice-presidente para a área das propriedades do Sheraton Grand Macao e St.Regis, destacou a importância de se atingir uma maior igualdade salarial entre homens e mulheres. “Macau é casa para muitas mulheres que assumem posições de liderança, e é uma honra conhecer e trabalhar com muitas delas que constroem, inovam e lideram todos os dias apesar dos desafios e das constantes mudanças no cenário de negócios”, frisou. O evento serviu ainda para a recolha de 130 mil patacas que serão doadas ao Centro do Bom Pastor, uma associação que trabalha com vítimas de violência doméstica e de outro tipo de abusos. Dia da Mulher | Governo comprometido com igualdade de género No Dia Mundial da Mulher, o Governo garantiu estar empenhado na concretização do plano Objectivos do Desenvolvimento das Mulheres de Macau (2019-2025). O documento foi publicado pelo Instituto de Acção Social e tem como objectivo global “permitir que ambos os géneros possam exercer os mesmos direitos”. Segundo o documento recordado ontem, depois de concretizados os objectivos, “espera-se que as mulheres (sobretudo as mais vulneráveis) tenham mais oportunidades de desenvolvimento em áreas como a participação política, carreira profissional, participação social, economia e bem-estar”. Ontem, o Executivo defendeu que para concretizar os objectivos é necessário tomar medidas concretas como o apoio às vítimas de violência doméstica, prevenir que as pessoas do género feminino caiam na tentação do jogo e ainda reforçar o papel da mulher e do homem na educação dos filhos. Como forma de garantir as medidas concretas, ao Governo diz ter realizado 18 sessões de formação para os funcionários públicos, associações e escolas do ensino superior sobre a “integração de género” e ainda um trabalho na comunidade através de curtas-metragens, aplicações de jogo Wechat e concursos para residentes com o tempo da igualdade de género.
Grupo Alibaba lança voo semanal de carga entre Hong Kong e São Paulo Hoje Macau - 8 Mar 2022 O Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos recebeu na segunda-feira à noite o primeiro voo semanal de mercadoria entre Hong Kong e São Paulo, numa parceria entre a Qatar Airways Cargo e o Alibaba. Segundo o portal do aeroporto, o voo aterrou por volta das 19:00, depois de ter partido de Hong Kong no sábado e feito uma paragem em Doha, no Qatar. Num comunicado divulgado na segunda-feira, a companhia aérea Qatar Airways Cargo revelou que o avião Boeing 777 utilizado nesta parceria tem capacidade para transportar mais de 100 toneladas de mercadoria. O primeiro voo fretado pela empresa de logística Cainiao Smart Logistics Network, parte do grupo chinês do comércio eletrónico Alibaba Group Holding Ltd, transportou bens de consumo, incluindo produtos de beleza, joias, relógios, eletrodomésticos, brinquedos e equipamento desportivo. O objetivo da nova rota é garantir que os produtos comprados por brasileiros nas plataformas da Alibaba sejam entregues no espaço de 72 horas, sublinhou o diretor-geral da Cainiao para a logística de exportação. William Xiong disse no comunicado que o comércio eletrónico no Brasil está a crescer “a uma velocidade fenomenal”, tornando-se um dos mais importantes mercados para a Alibaba na América Latina. Em abril de 2021, a Cainiao anunciou um acordo com o Latam Cargo para utilizar os voos do grupo de aviação chileno de e para o Brasil para reduzir o tempo de entrega de encomendas da China para o Peru e a Colômbia. Em novembro de 2020, a empresa chinesa lançou voos fretados, em cooperação com o grupo de aviação norte-americano Atlas Air Worldwide Holdings Inc, a ligar a China ao Brasil e ao Chile três vezes por semana. Em agosto, o Brasil tornou-se o primeiro país das Américas – e o sexto do mundo – cujos comerciantes podem vender os seus produtos na plataforma chinesa de comércio eletrónico AliExpress, gerida pela Alibaba. A Cainiao ficou a coordenar o envio de produtos brasileiros comprados na plataforma chinesa, garantindo a entrega no mesmo dia ou no dia seguinte à aquisição, com o transporte gratuito para compras acima de 50 reais (nove euros).
Covid-19 | Detectados quatro casos de recaída Hoje Macau - 8 Mar 2022 As autoridades detectaram quatro casos de recaída da covid-19 após quatro residentes de Macau, oriundas de Hong Kong, terem testado “fracos positivos” à doença. Em causa estão quatro estudantes, três mulheres e um homem, com idades compreendidas entre os 19 e os 20 anos, que foram diagnosticados com covid-19 em Hong Kong entre os dias 16 e 17 de Fevereiro. Dois deles estão vacinados com duas doses da vacina mRNA/BionTech, enquanto que os outros dois têm as três doses da mesma vacina. Os quatro estudantes chegaram a Macau esta segunda-feira, às 14h, tendo viajado de Hong Kong num autocarro dourado. Com o resultado de “fraco positivo” os quatro estudantes foram encaminhados para o Centro Clínico de Saúde Pública de Coloane para isolamento, não apresentando sintomas.
“Debate sobre libertação das mulheres foi importante no PCC” Andreia Sofia Silva - 8 Mar 20228 Mar 2022 Em traços gerais, como tem evoluído a posição da mulher chinesa, sobretudo entre a queda do império e o período da República? Podemos falar de uma libertação da mulher dos padrões sociais normais e um início de debate sobre os seus direitos? A China Imperial regia-se pelos princípios patrilinear e da hierarquia social, sendo que ambos constituíam uma herança do pensamento confucionista. Neste contexto, a mulher encontrava-se subordinada ao homem e dever-se-ia submeter à autoridade masculina (primeiro, do pai, depois, do marido e dos filhos), sendo a linhagem da família assegurada pelos membros masculinos. Tendo em conta que as funções da mulher se circunscreviam ao círculo familiar, as virtudes femininas (socialmente consideradas) remetiam para a obediência, a docilidade ou a castidade. Não é, assim, por acaso que, no final do século XIX, quando assistimos, ainda no final da Dinastia Qing, ao nascimento de um movimento feminista chinês, a herança confucionista será um dos alvos de contestação. Que papel teve este movimento? Ainda que brotando das entranhas das classes mais abastadas e tenha nascido sob o impulso de mulheres que tiveram a possibilidade de estudar no exterior (nomeadamente, no Japão, EUA e Europa), o movimento feminista chinês vai lançar o debate, no seio da tradicional sociedade chinesa, sobre a condição e a posição social das mulheres. Quais as principais reivindicações à época? Reivindica-se, então, o direito a uma educação para as mulheres, direitos iguais, perante a lei, e a abolição dos pés enfaixados (um acto que remontava à dinastia Song e que pretendia demonstrar, no seio de uma determinada comunidade, a riqueza de uma família). Todas estas reivindicações têm a particularidade de unir o feminismo com o patriotismo, já que se considerava que o fato de as mulheres terem acesso à Educação permitiria que os seus filhos pudessem ter uma melhor formação, o que, afirmavam as feministas chinesas, conduziria a uma melhoria qualitativa do nível de conhecimento e de formação do povo chinês. Ainda que, do ponto de vista legal, a educação feminina tenha o seu início formal em 1907, será necessário aguardar pela instauração da República, em 1912, para que se verifique, de facto, uma evolução qualitativa na condição da mulher no seio da sociedade chinesa. O debate iniciado no final do século XIX acaba por surtir um efeito legislativo na China republicana, pelo que, a partir de então, o enfaixamento dos pés é proibido e as escolas passam a poder ser mistas. Não obstante, a Constituição elaborada pela Assembleia Legislativa de Nanjing, e tornada pública a 11 de março de 1912, não prevê, por exemplo, o sufrágio feminino ou a elegibilidade das mulheres, o que constituiu um motivo de desapontamento para as sufragistas chinesas. Apesar disso, a mulher, no plano social e jurídico, vai assumindo um novo papel, pelo que podemos falar de uma evolução, a qual, no contexto chinês, passa por uma libertação da mulher das amarras patriarcais, herdadas, em parte, do confucionismo. Em 1915, a emancipação das mulheres vai encontrar-se no centro de vários debates, discutindo-se temas como a denúncia da moral confucionista, o casamento, o concubinato ou o encorajamento do suicídio feminino, em nome da virtude e da lealdade. A discussão aprofunda-se aquando do movimento 4 de maio de 1919, momento este que podemos considerar como o ponto alto na história do feminismo na China. Houve mudanças a nível jurídico, por exemplo? Aprofunda-se, então, uma reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade, a necessidade da sua libertação, a castidade e virgindade (duas virtudes consideradas fundamentais na China tradicional) ou a desigualdade sexual. O debate sobre a condição feminina vai, depois, a partir de 1921, ser levado para o interior do Partido Comunista Chinês. Aliás, muitos dos autores que colaboram na imprensa vanguardista pós-movimento 4 de maio e que defendem a libertação da mulher na sociedade chinesa serão ativos militantes comunistas. Com efeito, estes futuros membros do Partido Comunista Chinês (como Chen Duxiu, Chen Wangdao ou Qu Qiubai) concluem que é necessário operar-se uma mudança sociopolítica para que a mulher, na China, possa alcançar uma nova posição social. Em suma, o debate no que diz respeito à condição feminina foi-se aprofundando, ao longo da primeira metade do século XX, abrindo, deste modo, o caminho para uma efetiva igualdade sociopolítica e jurídica. Na China de Mao, e sobretudo no período da Revolução Cultural, os direitos das mulheres eram abordados ou simplesmente ignorados pelo poder? Como referi, o debate sobre a libertação das mulheres passa a constituir um elemento importante no seio do Partido Comunista Chinês, e isto logo após a sua fundação, em 1921. Quando, no final da década de 1930, o PCC domina algumas zonas rurais (fundando, então, a República Soviética da China), os comunistas vão, desde logo, integrar as mulheres nas atividades políticas e económicas. O PCC enceta, assim, um movimento sociopolítico vanguardista, libertando a mulher da esfera patriarcal e familiar e trazendo-a para a esfera pública. Data, aliás, de 1931, o Regulamento sobre o Casamento, publicado na então República Soviética da China, o qual podemos considerar como o primeiro texto legal que codifica a prática do casamento entre indivíduos livres e iguais. Na sequência deste regulamento, o governo soviético chinês publicou, três anos depois, a Lei do Casamento, a qual estipula, entre outras prerrogativas, uma idade mínima no casamento (18 anos, para as mulheres, e 20 anos, para os homens), a obrigatoriedade de declarar o casamento às autoridades, a proibição da poligamia e do concubinato ou o divórcio por mútuo consentimento. Depois da revolução chinesa, em 1949, a recém-nascida República Popular aprova, desde logo, matéria legislativa que pretende colmatar as diferenças, perante a lei, de homens e mulheres. Esta legislação herdou, aliás, muito daquilo que havia sido estipulado nos regulamentos aprovados durante a década de 1930. A lei do voto garante o direito de voto das mulheres e estipula-se, por exemplo, que as mulheres recebam o mesmo salário que os homens, pelo mesmo trabalho, assim como direitos de propriedade e de acesso ao trabalho iguais. Sendo consideradas, tal como os homens, como parte da força de trabalho, as mulheres são chamadas a participar na construção da nova sociedade socialista, buscando-se atingir uma igualdade, de facto, por meio da transformação da sociedade. Aliás, já no Livro Vermelho, Mao Tsé-Tung assinalava que, ao longo da história chinesa, o homem havia estado sujeito à dominação de três sistemas de autoridade: a autoridade política, a autoridade familiar e a autoridade religiosa. A mulher, por seu lado, alertava Mao, encontrava-se, contudo, submetida a uma quarta autoridade – a autoridade masculina -, pelo que Mao considerava que o exercício destas quatro autoridades constituía a própria essência ideológica e moral do sistema feudal-patriarcal que havia que derrubar. Os direitos das mulheres não apenas não foram ignorados, na China Popular, como após 1949 se iniciou um processo social, político e jurídico com o objetivo de terminar com as desigualdades existentes entre homens e mulheres, nas diferentes esferas da sociedade. Aliás, a própria Julia Kristeva, na sua obra Des chinoises, ainda que criticando o fato de as ativistas feministas, depois de 1949, terem optado pela luta de classes, em detrimento da luta pelos direitos das mulheres, assinala que foi sob a influência de Mao que as mulheres obtiveram mais direitos, no plano jurídico, assim como cargos e tarefas de responsabilidade. Kristeva assinala, desta forma, a relevância do papel da mulher chinesa e a sua ligação com as transformações ocorridas na China, ao longo do século XX. Com efeito, a Revolução de 1949 permitiu uma rutura com a China feudal, possibilitando um salto qualitativo na igualdade entre homens e mulheres, quer no plano político, quer no plano familiar, quer, ainda, no plano religioso, num movimento sociopolítico que se tem vindo a desenvolver e aprofundar até à atualidade. A abertura do país, desde Deng Xiaoping, trouxe um maior alerta sobre os direitos das mulheres no geral, mas sobretudo em matéria de direitos laborais? Os avanços nos direitos das mulheres, levadas a cabo pelo Partido Comunista Chinês, remontam, como assinalei, à década de 1930. Estes avanços aprofundam-se depois de 1949, momento a partir do qual as mulheres alcançam um novo papel sociopolítico e jurídico, nomeadamente com o reconhecimento do seu papel na atividade produtiva e na construção de uma China socialista. Ainda assim, as transformações mais marcantes, no plano legislativo, datam da década de 1980, sobretudo depois da aprovação da Constituição de 1982, durante o mandato de Deng Xiaoping. A Lei Fundamental da República Popular da China vai enquadrar medidas em defesa dos direitos das mulheres, consagrando a igualdade entre mulheres e homens, em todas as esferas da vida, os mesmos direitos no acesso a um trabalho, a promoção do acesso das mulheres a cargos de responsabilidade, assim como disposições sobre a proteção das mulheres no trabalho. No quadro legislativo, são, ainda, de destacar, no plano jurídico, os Regulamentos de Saúde Pública (1986), os Regulamentos de Proteção do Trabalho (1988) e a Lei para a proteção e defesa dos direitos e interesses das mulheres (1992). Desta forma, podemos dizer que a pretensão de alcançar, no plano jurídico, uma igualdade plena, foi, finalmente, alcançada, com a aprovação da Constituição que, em 1992, veio substituir a Constituição de 1978, e pelos diplomas legais aprovados depois desta data. O “mee too” parece ser pouco discutido no país actualmente. Pensa que deveria haver espaço para uma mudança de mentalidades neste sentido? Creio que a história da China nos demonstra que a evolução sociopolítica e jurídica das mulheres não se desliga da luta pela emancipação e libertação do Homem. A capacidade que o ser humano possui de reivindicar e de ousar denunciar constitui uma condição prévia para que, no plano das consciências e nas diferentes esferas da vida em sociedade, se efetue um salto qualitativo com vista a uma vida em sociedade que não seja marcada pela barbárie, pela violência e pela exploração. Ousar lutar e ousar reivindicar é um ato necessário tanto para a emancipação social, jurídica e política da mulher, quanto para a emancipação do ser humano. Na actualidade, perduram formas de opressão e de violência que atingem diferentes grupos e estratos da sociedade e que, naturalmente, se abatem com maior ferocidade sobre aqueles que se encontram mais desprotegidos, seja por razões económicas ou sociais, seja por pertencerem a um género que, ao longo da história das diferentes organizações societais, têm sido alvo de um domínio e repressão particulares (como é o caso das mulheres). Creio, por isso, ser fundamental, não apenas a libertação e emancipação, de facto, das mulheres (para além do plano jurídico), como, igualmente, a libertação e emancipação do ser humano de todas as formas de opressão e violência. Quero com isto dizer que, ainda que a opressão patriarcal tenha condenado a mulher (não apenas na China) a um papel subalterno e de subserviência, persistem formas de sujeição e de tirania, independentes do género, cujo término é fundamental para que, no plano sociopolítico, a mulher e o homem possam libertar-se da crueldade, ignorância e formas de domínio que, infelizmente, persistem (e, em alguns casos, se acentuam). Não há mudança de mentalidades sem luta, sem consciência, sem debate. Por isso, há pouco, referia que, no caso da mulher, há que ir além de uma igualdade no plano jurídico. A igualdade jurídica permite aceder a novos espaços e territórios que, até então, lhe estavam vedados. No entanto, acredito que apenas com resistência, palavra e luta se construirão, de facto, espaços de igualdade, de respeito mútuo e de comunhão de esforços na construção de uma sociedade que não imponha guerras, opressão e violência à grande maioria desprovida das ferramentas que permitem o acesso a espaços decisórios e de poder. Houve uma evolução da representação da mulher em áreas como a arte e literatura? O exercício de leitura e de interpretação, assim como de escrita ou de concretização de uma obra de arte, implica que seja possível aceder a espaços formativos e educativos. A arte existe no seio de uma determinada cultura, sendo dela produto e, concomitantemente, reflexo. Na China, as primeiras escolas femininas remontam ao final do século XIX, sendo que o governo imperial apenas legaliza a educação feminina em 1907. Neste sentido, durante séculos, o acesso à leitura e escrita era apanágio, sobretudo, de homens. Destes, apenas aqueles que pertenciam às classes mais abastadas àquelas tinham acesso. Por outro lado, até ao século XX e ao surgimento das primeiras escolas, as mulheres letradas pertenciam, também elas, às classes mais favorecidas da sociedade. Estávamos, assim, perante uma situação em que a grande maioria da população era iletrada e em que o acesso à cultura – e, portanto, às manifestações artísticas -, apenas era permitido a uma minoria. No quadro desta minoria, os homens tinham um acesso privilegiado. Ora, sendo a literatura e outras manifestações artísticas parte da vida de uma determinada comunidade humana, aquelas constituem manifestações não apenas estéticas, mas também sociais, pelo que a representação que, nas diferentes artes, podemos encontrar da mulher e do homem, refletem não apenas o gosto e valores estéticos que se manifestam num determinado período socio-histórico, como, também, a organização socioeconómica na qual aqueles valores se impõem. Naturalmente que, neste sentido, a representação que é feita da mulher evolui concomitantemente com a evolução da organização política e económica de uma determinada sociedade. Costumo dizer que a arte e a literatura têm vida, respiram, andam, saltam mundos e caminhos. Assim, a interpretação de uma personagem feminina, numa obra de finais do século XIX, não pode ser desligada nem do ambiente socioeconómico em que a mulher real vive, nem do seu criador, o qual respira, pensa e sente, num determinado quadro sociocultural. Hoje, fruto da evolução sociopolítica e jurídica da mulher, temos uma proliferação de autores mulheres, na China, como em todos os restantes cantos do mundo. Este facto traz, naturalmente, novas representações e cosmovisões da mulher para o plano artístico, enriquecendo a literatura e a arte com novas propostas de leitura. Como escrevia o António Gedeão, o mundo pula e avança. Acrescento eu que também pulam e avançam formas de luta e de resistência que permitiram que, hoje, na China, e fora dela, as mulheres alcançassem espaços de poder e de palavra que lhe haviam sido, tradicional e secularmente, negados.
Mais de 200 obras de Nuno Barreto numa retrospectiva sobre vivência em Macau Hoje Macau - 8 Mar 2022 Mais de 200 obras sobre a vivência e transformação artística de Nuno Barreto, em Macau, vão estar reunidas na retrospectiva “Beber da Água do Lilau”, que é inaugurada na sexta-feira no Museu do Oriente, em Lisboa. Acrílicos, guaches, serigrafias, cadernos de desenhos, esboços, apontamentos, revistas, livros, catálogos e fotografias fazem parte desta exposição com base no espólio pessoal de Nuno Barreto, que procura captar o espírito do lugar e das gentes que povoam a cidade de Macau. A exposição, que é inaugurada na sexta-feira, às 18:30, e ficará patente até 26 de junho, faz uma viagem de ordem cronológica – de 1963 a 2009 – pelo percurso artístico de Nuno Barreto, marcado pela pintura abstrata e figurativa. O título é retirado de uma popular frase local: “Aquele que beber da água do Lilau, jamais esquecerá Macau”, referindo-se a uma fonte de água de nascente do território. As peças selecionadas procuram captar a trajetória do artista, aliando as suas várias facetas enquanto pintor, artista plástico, pedagogo e intelectual, inicialmente fortemente abstrata, mas que se deixa cativar pela vertente figurativa para representar pessoas, lugares e vivências deste território, refere a organização, num texto sobre a mostra. Entre as peças encontra-se “Embarque no Pátria” (1999), “que assinala em tom caricatural a despedida portuguesa da administração de Macau com a ironia transversal ao conjunto das obras figurativas” de Nuno Barreto, a par de “Mesa Comum”, onde retábulos chineses apenas permitem vistas parciais. Nuno Barreto fez a sua formação académica na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1966, de onde seguiu para uma pós-graduação na Saint Martin’s School of Art, em Londres. Foi professor auxiliar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e, posteriormente, convidado pelo Governo de Macau a preparar o projeto da Academia de Artes Visuais do Instituto Cultural de Macau, que dirigiu desde a sua fundação em 1988. Posteriormente, ocupou o cargo de diretor da Escola de Artes Visuais do Instituto Politécnico de Macau, de 1993 a 1997. O percurso artístico de Nuno Barreto foi fortemente influenciado pelo contacto com a cultura chinesa, que tentou conhecer nas suas várias vertentes, incluindo a História, salienta o Museu do Oriente.
Arquitectos de língua portuguesa lançam segunda edição de concurso de fotografia Hoje Macau - 8 Mar 2022 O Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP) lançou, após três anos de interregno, a segunda edição de um concurso de fotografia, para arquitetos e estudantes, dedicada ao tema “Ser Sustentável no Espaço Lusófono”, foi anunciado. Em comunicado, o CIALP sublinha que o concurso é este ano um “duplo desafio de reflexão sobre os conceitos de sustentabilidade e de lusofonia”. A sustentabilidade, “de tão obviamente necessária à vida, à nossa e à das coisas, parece muitas vezes ser quase esquecida”, lamentou o conselho. A arquitectura “tem um papel fundamental” na procura das soluções “para os muitos problemas com que a humanidade está confrontada”, disse o CIALP. As inscrições estão abertas até 17 de março, sendo que os premiados serão anunciados durante o mês de abril. O júri inclui arquitetos de Angola, Brasil, Macau, Moçambique e Portugal. Os autores da melhor fotografia nas duas categorias – arquiteto e estudante – receberão um prémio no valor de 400 euros. A imagem vencedora da categoria estudantes será ainda exposta na próxima Bienal de Jovens Criadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), cuja 10.ª edição deveria ter acontecido em julho de 2021, na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. A primeira edição do concurso de fotografia do CIALP, organizado em 2019, recebeu 97 candidaturas. O vencedor entre os arquitetos foi o português Nuno Simão Gonçalves, com uma fotografia da Fortaleza São Sebastião, na Ilha de Moçambique. Entre os estudantes o premiado foi o brasileiro Gabriel Guerra Konrath, com uma imagem da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. O CIALP tem como membros as ordens ou organismos profissionais de arquitetos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. A organização não-governamental representa “mais de 230 mil arquitectos”, o que corresponde “a 18% dos arquitectos mundiais”, disse à Lusa em julho o presidente do CIALP, Rui Leão, arquiteto radicado em Macau. O CIALP, fundado em 1991, é uma associação de direito privado sem fins lucrativos, com sede em Lisboa, é parceiro institucional da União Internacional dos Arquitectos (UIA) e observador consultivo da CPLP.
Ucrânia | Chefe da diplomacia da UE insta homólogo chinês a apoiar corredores humanitários Hoje Macau - 8 Mar 2022 O chefe da diplomacia da União Europeia (UE) exortou ontem o seu homólogo chinês a apoiar a criação de corredores humanitários para a retirada de civis da Ucrânia, saudando ainda a “disponibilidade da China” para dialogar com a Rússia. Em causa está uma conversa telefónica hoje realizada entre o Alto Representante da UE para a Política Externa, Josep Borrell, e o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, a segunda desde o início da invasão militar da Ucrânia por parte da Rússia, na qual o chefe da diplomacia europeia “pediu ao seu homólogo chinês que apoiasse a criação de corredores humanitários, a fim de permitir a retirada da população civil”. A informação foi avançada pelo Serviço Europeu de Ação Externa, que em nota à imprensa dá também conta que Josep Borrell expressou a Wang Yi “o seu apreço pela posição da China no Conselho de Segurança e Assembleia Geral das Nações Unidas, indicando o apoio à integridade territorial, soberania das nações e inviolabilidade das fronteiras, bem como pela disponibilidade da China para apoiar a cessação das hostilidades e o diálogo”. Na ocasião, o chefe da diplomacia da UE manifestou ainda “necessidade absoluta de cessar imediatamente as hostilidades e referiu-se ao maior número de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e ao inaceitável alvo e sofrimento da população civil, incluindo graves violações do Direito Humanitário Internacional”. E, de acordo com o Serviço Europeu de Ação Externa, ambos os responsáveis “concordaram que deve ser evitada uma crise humanitária em grande escala”. Para 01 de abril está marcada uma cimeira UE-China. Pequim tem mantido uma posição ambígua em relação à invasão russa da Ucrânia, já que se recusou a condená-la, mas tentou distanciar-se da guerra de Putin, apelando ao diálogo e ao respeito pela soberania dos outros países. Por um lado, a China defendeu que a soberania e a integridade territorial de todas as nações devem ser respeitadas – um princípio de longa data da política externa chinesa e que pressupõe uma postura contra qualquer invasão -, mas ao mesmo tempo opôs-se às sanções impostas contra a Rússia e apontou a expansão da NATO para o leste da Europa como a raiz do problema. Hoje mesmo, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, disse que Pequim “já está a mediar” o conflito na Ucrânia e que vai fazer esforços para oferecer assistência humanitária, o que “não deve ser politizado”. A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que, segundo as autoridades de Kiev, já fez mais de 2.000 mortos entre a população civil. Os ataques provocaram também a fuga de mais de 1,7 milhões de pessoas para os países vizinhos, de acordo com a ONU. A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas a Moscovo.
China critica Estados Unidos por reforço de laços militares no Indo-Pacífico Hoje Macau - 8 Mar 2022 O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, acusou ontem Washington de tentar criar uma versão asiática da NATO e disse que cabe ao Governo norte-americano melhorar as relações com a Coreia do Norte. A política dos Estados Unidos em relação ao leste da Ásia e ao Oceano Índico, e os esforços para reforçar os laços militares com Japão, Austrália e Índia são um “desastre, que interrompe a paz e a estabilidade regionais”, apontou Wang Yi, em conferência de imprensa. “Os Estados Unidos estão a jogar os seus jogos geopolíticos, sob o pretexto de promoção da cooperação regional”, disse Wang. O ministro acrescentou que a postura da Casa Branca “contraria” os desejos regionais de cooperação e “está condenada a não ter futuro”. Wang acusou Washington de estar a organizar uma aliança para “suprimir a China”. Estados Unidos, Japão, Austrália e Índia reforçaram, nos últimos anos, os seus laços militares. Em 2021, Washington acordou fornecer tecnologia à Austrália para a construção dos seus primeiros submarinos movidos a energia nuclear. “O verdadeiro propósito da ‘estratégia Indo-Pacífico’ é criar uma versão da NATO para” a região, disse Wang Yi. A expansão da aliança ocidental foi citada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, como um dos motivos para invadir a Ucrânia. Do exterior Wang pediu ao Governo de Joe Biden que revivesse o espírito dos acordos dos anos 1970, que abriram as relações dos EUA com o executivo comunista de Pequim. “Os Estados Unidos não poupam esforços para concretizar uma intensa competição com a China, constantemente atacando e provocando problemas em questões relacionadas com os interesses centrais chineses”, disse Wang. Washington deve “voltar ao caminho certo da racionalidade e do pragmatismo”, apelou. Wang pediu aos Estados Unidos que tomem a iniciativa de melhorar as relações com a Coreia do Norte e acusou o Governo de Biden de não responder a “medidas positivas” de Pyongyang. “Depende em grande parte do que o lado americano fizer, se realmente vai adoptar acções concretas, para resolver o problema, ou vai continuar a usar a questão da península [coreana] como moeda de troca estratégica” disse Wang. Sobre o Mar do Sul da China, o ministro reclamou que actores externos estejam a interferir nos esforços para desenvolver um “código de conduta” e disse que Pequim e os governos dos países do Sudeste Asiático deveriam negociar entre si. Os Estados Unidos e outros governos enviaram navios de guerra para zonas daquele mar reivindicadas por Pequim, reclamando assim o direito de navios de todos os países usarem aquelas águas. As forças externas “não querem que o Mar do Sul da China permaneça calmo, porque isso faz com que percam o pretexto de intervir, para ganho pessoal”, disse Wang. “A interferência externa não pode parar o ritmo da cooperação regional”, apontou.
Combater a epidemia à sombra da Lion Rock David Chan - 8 Mar 2022 A situação epidémica em Hong Kong é grave. Foram registadas mais de 50.000 novas infecções num só dia. Alguns peritos calculam que 15 por cento da população de Hong Kong está actualmente infectada com o novo coronavírus. Num total de 7,5 milhões de habitantes, significa 1 milhão e 125 mil de casos activos, o que é extremamente preocupante. O número de pessoas infectadas cresce de dia para dia. O sistema de saúde público e as zonas para internamentos COVID estão muito além das suas capacidades. Muitas das pessoas infectadas estão a fazer o isolamento em casa. Este método de tratamento provoca inevitavelmente que os restantes membros da família contraiam também o vírus. Com o passar do tempo a propagação do vírus aumenta. Actualmente, a China continental está a ajudar Hong Kong no combate à epidemia. Um grande número de medicamentos foi trazido para Hong Kong e também foram deslocados muitos médicos. Além disso, têm vindo muitos operários trabalhar 24 horas por dia na construção de hospitais de isolamento. São todas medidas eficazes para travar a epidemia. Dado que estamos de momento a viver o pico da epidemia na cidade, acredita-se que ainda vai levar algum tempo até que os números diários de infectados desçam significativamente. Mas a coisa mais ultrajante que aconteceu durante este período foi o aparecimento de uma gravação na Internet, onde se afirma que Hong Kong vai ser “castigada” durante a testagem a toda a população, a realizar nos finais de Março; querendo os autores da gravação dizer que durante a testagem, o Governo de Hong Kong vai proibir os residentes de saírem à rua para comprar comida e bens essenciais. Logo a seguir à notícia falsa do “castigo” ter surgido, criou-se o pânico em Hong Kong e as pessoas precipitaram-se para as lojas. A comida e os medicamentos esgotaram-se. Alguns supermercados e farmácias têm tido falta de pessoal devido a alguns dos seus trabalhadores estarem infectados, a esta situação veio juntar-se a febre do açambarcamento, pelo que certas lojas têm restringido as vendas de alimentos e medicamentos. Ao mesmo tempo, como sempre acontece, alguns negociantes menos escrupulosos aumentaram imediatamente os preços destes bens. Embora o Governo de Hong Kong tenha imediatamente desmentido a notícia falsa do “castigo” e tenha repetidamente sublinhado que o abastecimento de alimentos e de medicamentos está normal, é difícil acalmar a fúria de açambarcamento. As “notícias falsas” e os “aumentos de preços” vão sem dúvida tornar mais difícil a vida dos residentes de Hong Kong e a sua luta contra a epidemia, As “notícias falsas” e os “aumentos de preços” não podem deixar de nos lembrar do que aconteceu em 2003, por altura do surto do SARS. Um adolescente de Hong Kong, com 14 anos de idade, publicou notícias falsas na Internet, afirmando que Hong Kong se tinha tornado um porto epidémico. Nessa altura, se esta notícia fosse verdade, as pessoas não teriam podido entrar nem sair de Hong Kong, e a importação de alimentos e de medicamentos teria sido problemática. Além disso, Luo Wen morreu em Outubro de 2002. Foi o primeiro cantor a interpretar a canção “Under the Lion Rock”, símbolo do “espírito de Hong Kong”. A famosa cantora Leslie Cheung morreu em Abril de 2003. Quase simultaneamente, soube-se que Anita Mui, outra cantora muito conhecida que sofria de cancro, acabara de falecer em Dezembro de 2003. As notícias relacionadas com o SARS e a morte destes cantores emblemáticos entristeceram completamente a população de Hong Kong. No entanto, rapidamente o Governo de Hong Kong localizou o adolescente e esclareceu toda a situação. Apesar disso, o pânico que levou ao açambarcamento de comida e de medicamentos continuou por algum tempo e o desalento tomou conta de Hong Kong. Actualmente, todos os residentes de Hong Kong têm de lutar em conjunto contra a epidemia. As notícias falsas só vêm trazer problemas e confusão a esta luta. Tudo isto é desnecessário. Se tudo correr pelo melhor, não voltará a haver notícias falsas. Depois da epidemia abrandar, o Governo de Hong Kong vai fazer cumprir a lei ao pé da letra, identificar aqueles que publicarem notícias falsas e trazê-los perante a Justiça, para impedir que situações deste género se repitam no futuro. Recentemente, para homenagear e agradecer à equipa médica de Hong Kong, a TVB de Hong Kong mudou a letra de “Under the Lion Rock” e rebaptizou-a para “Under the Lion Rock, Let’s Fight the Epidemic Together”, que foi cantada por diferentes artistas. Os últimos versos dizem o seguinte: “Estamos unidos sob a Lion Rock para nos encorajarmos uns aos outros a vencer esta luta contra a epidemia.” A partir daqui fazemos votos que as pessoas de Hong Kong se ajudem umas às outras e trabalhem em conjunto para vencerem a luta contra esta epidemia. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Escola Superior de Ciências de Gestão/ Instituto Politécnico de Macau Blog: http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk
Rua sem título Anabela Canas - 8 Mar 2022 Descia em frente o dia cinzento. Mas não sei como poderia hoje o dia colorir-se, se voam projéteis que explodem só um pouco mais para leste. Mais para lá. Parece natural que a luz, que já vinha a anunciar outra inclinação para a Primavera, pareça ter-se encolhido e reservado a possibilidade de uma alegria de retorno e renovação. Descia em pensamento, e porque tão perto, a antiga rua do mundo. Um rasgo a direito a desaguar no rio. Numa cidade qualquer. Nunca me vi a habitar uma dessas cidades de interior. É como uma respiração a que nos habituamos. O rio. Uma espécie de eco vivo de outras paragens, a transcender qualquer indício de clausura. E tive este pensamento de nunca, como de nunca ter visto a nascente deste rio. Na verdade um rio é como um conjunto de faces diferentes em cada lugar em que o conhecemos, na ilusão de ser esse o seu aspecto de rio e não somente o rio aí. Um percurso em crescendo que tem o seu início numas frágeis linhas de água a escorrer de um nicho de rocha, sem que se pressinta nessa insignificância límpida e pitoresca, o estertor de um estuário como o do Tejo. Bem mais adiante. Fui ver, numa pequena viagem virtual e ali estava como desconfiei um pequeno santuário natural, que em nada admite imaginar o futuro mas coexistente imenso caudal que mais adiante na península se acumula. Um rio maduro. Um rio prestes a diluir-se no todo do oceano. E é esse largo estuário do qual ignoramos a origem, que nos povoa esta ânsia de respiração. Em que coexistem os tempos todos. Numa rigorosa similitude entre as águas que irrompem da terra mais a leste e as que já se misturam ao oceano. As mesmas e sempre outras. Maduros nós, também. 882 Km da nascente até à foz. Deste rio Tejo que só conheço todos os dias largo e vasto antes da diluição. Como da vida em geral. Cada dia, pequeno volume de águas a ser nascente ou reacção e de que só parecemos conhecer num ponto preciso. Ou do caudal, ou da margem. E em cada dia, desses, o pequeno avolumar se faz muito na intenção sem o ser, de invalidar qualquer outra forma de estuário. Com tudo o que isso implica. De vida própria, de margens definidas e de destino no desaguar imparável. Tudo desagua na nossa frente, com a informação. A verdade como a ficção, parcial ou adulterada. Aqui. Vinda de leste como a guerra. Como o fruto desta natureza humana, impotente de evitar a possibilidade de sincronia que sempre torna inevitável o instalar na guerra. A montante do rio. Quase uma ficção, se não tivermos o cuidado de focar nesse ponto. Um repúdio absoluto. Tanto como o da pena de morte. Temos pena de quem sofre, mas temos ainda tantas manchas no mapa-mundo de onde se pratica e por lei. Manchas que são nódoas. Temos pena da vida que se esvai em sofrimento nestes cenários. E não sabemos se, sem querer, contribuímos. Que humanidade é esta? A guerra, qualquer guerra, não pode ter atenuantes, justificações, identificação de culpados a montante, visões laterais a contribuir, políticas, egos, expansionismos ou economicismos. Uma guerra é guerra, um costume bárbaro, recoberto hipocritamente de regulamentação. É crime e é assassinato, atentado contra a vida e contra os direitos de quem a tem ainda. Aliados são pessoas de que se gosta em absoluto e não pessoas que matem por nós. Ou sem nós. Porque o povo não é uma rede de colorido político, económico ou habitante de geoestratégias. É carne para a morte. Como a dos filhos, militares de todas as frentes. O repúdio tem que ser um asco indiferente a tudo o resto. É pacifismo absoluto. É o direito dos outros. À vida. E a passear o cão e o carrinho do bébé ou pôr rolos no cabelo. Essas pequenas insignificâncias. Já para não falar de tudo o mais. Do medo e do luto, por exemplo. Recomeçar sem nada ou não haver lugar a isso, sequer. Tanta água. E se aqui fosse lá? Não o rio em cinza, mas um manto branco e sujo nas ruas. Teria as mãos em concha. Nas ruas frias de Mariupol, recolhe-se neve para derreter em água potável.
A Cidade Exterior do Tai Hao Ling José Simões Morais - 8 Mar 2022 A pequena cidade de Huaiyang (淮阳), na prefeitura de Zhoukou, província de Henan, mostra-se pouco apelativa e apenas o Templo Mausoléu de Tai Hao atrai os visitantes. A acompanhar o monte da sepultura de Fu Xi foi crescendo para Sul um templo, existente já na Dinastia Zhou e onde nas dinastias Tang e Song foram adicionadas novas construções. Esse complexo, devido ao desinteresse dos mongóis Yuan, estava em ruínas aquando da visita em 1371 de Tai Zu, o primeiro imperador Ming e nessa dinastia o templo foi arranjado e ganhou a actual dimensão. Entre 1448 e 1576 novos edifícios foram construídos, como as torres do Sino e do Tambor e arranjados os existentes e em 1745, o governo da Dinastia Qing deu dinheiro para uma grande reparação. Nas várias visitas assistimos ao empenho para aí se realizarem muitos melhoramentos e assim fomos encontrando novos motivos de interesse. Estando no recinto da feira, para chegar à entrada do Templo Mausoléu de Tai Hao temos de atravessar uma das três pontes sobre o Rio Cai, sendo a do meio antigamente reservada ao Imperador, ou aos oficiais que o vinham representar quando aí se deslocavam para oferecer sacrifícios a Fu Xi. A ponte situada a Leste era para os Oficiais Civis e a do Oeste, para os Oficiais Militares. Nos outros dias, sem oficiais nem imperador, na visita ao templo as pessoas ao passar pela ponte central deviam prosternar-se antes de a atravessar. Chegados à entrada, na parte Sul do Templo, ao redor da Porta Wu Chao estão sentadas no chão em grupos uma grande quantidade de pessoas idosas, tendo todas as mulheres os cabelos cobertos com lenços de duas cores diferentes, verdes e rosas. Para conter as constantes ondas de peregrinos, uma barreira de polícias vai gerindo as entradas no recinto do templo. Construída em 1462, durante a Dinastia Ming (1368-1644), com três portas a Wu Chao men foi edificada em tijolo e pintada a vermelha, sendo a estrutura do telhado em madeira e deveria ter as telhas de porcelana em cor amarela, reservada aos imperadores. Com pesadas portas de madeira, a central está cravejada por pregos dourados formando nove linhas horizontais e nove linhas verticais e as outras duas portas só têm sete linhas verticais, mantendo as nove horizontais. Na parte exterior, entre o telhado e o edifício, por cima da entrada central uma tabuleta indica estarmos perante o Mausoléu de Tai Hao (太昊陵, Tai Hao Ling) e entre ela estão colocadas quatro tabuletas com individuais caracteres. No lado direito, pois a leitura faz-se pelo sentido oposto ao usado no ocidente, temos Kai (开) a significar abrir, ou descobrir, e Tian (天), Céu e no outro lado encontram-se Li (立) estabelecer, ou fundar, e Ji (极), infinito, sem limites. Por baixo da placa central, outra com os caracteres午朝门, Porta Wu Chao. Ainda no muro Sul, lateralmente a esta porta encontram-se as entradas Dong Tian e Xi Tian, a servirem a Cidade Exterior do recinto do Templo. Da Porta Wu Chao parte um eixo central a atravessar as várias portas e se estiverem abertas consegue-se, passando o olhar por a Cidade Interior, ver na Cidade Proibida o monte de terra onde está sepultado Fu Xi, apesar de não ser totalmente em linha recta, mas fazendo uma ligeira curva. A maioria dos edifícios do Templo estão voltados para Sul e desde a entrada até ao muro na parte Norte contam-se 750 metros. O recinto tem dez portas e uma área de 875 mu (58,3 hectares), estando dividido em três zonas: a Cidade Exterior, a Interior e a Cidade Proibida, separadas por três muros. CIDADE EXTERIOR Já dentro, ouvimos atrás de nós uma música e ao olhar, fora do recinto do templo deparamos com um grupo de peregrinos que traz uma banda de músicos. À frente vem um rapaz vestido a rigor. Ainda antes de atravessar o canal do Rio Cai o jovem faz uma prosternação, assim como à entrada da Porta Wu Chao e já dentro do recinto, antes da Ponte Yu Dai. Esta ponte atravessa o Rio Yu Dai, que entra e sai por baixo dos muros exteriores do templo, a Leste e Oeste, denominando-se o conjunto Rio do Cinto de Jade. A meio da água, dois altares para onde os crentes atiram moedas na tentativa almejada de ficarem no altar, para lhes trazer sorte. No lado direito está a estátua de Nu Wa e no esquerdo, a de Fu Xi. Após a Ponte Yu Dai, chegamos à Entrada Dao Yi (道仪门, Dao Yi men, porta da mutação do Dao), com oito metros de altura antigamente era denominada Tong De men (通德门, Porta da Via para a Virtude) e mais popularmente conhecida por San men (Três portas). O edifício era na Dinastia Ming feito de madeira e só em 1575 passou a ser de tijolo. O corredor central, conhecido pelo Caminho do Cinto de Jade, percorre longitudinalmente o recinto do templo e está ladeado com bandeiras triangulares amarelas estampadas com a representação de um dragão. Após cem metros do Dao Yi men, a Porta Xian Tian (先天门, Xian Tian men), edifício construído em 1575, sendo o actual já da Dinastia Qing, com uma alta base de pedra e a encimar, um pavilhão vermelho feito em madeira, com dois andares. Dentro, especialistas do Yi Jing são consultados pelos muitos crentes que aí vão, depois de subidas as íngremes escadas de pedra construídas apenas nos anos 70 do século XX. Nas paredes, como fundo, toda a simbologia inerente ao Livro das Mutações (Yi Jing), onde registada ficou a Filosofia da Natureza. O nome da Porta Xian Tian provém dos oito trigramas antigamente conhecidos por Xian Tian e tem os caracteres gravados numa pedra cuja inscrição é do ministro Shi Yaoqing da Dinastia Ming. Comemora a representação criada por Fu Xi dos oito trigramas colocados em torno do Tai ji, conhecida por Xian Tian bagua (先天 八卦) proveniente do mapa He Tu trazido pelo dragão-cavalo e lhe dado apreender a partir da Colina Gua Tai, em Tianshui, actual província de Gansu. Após a Xian Tian men chega-se ao amplo pátio da Praça Tai Ji, com 73 metros no eixo Sul/Norte e 66 metros no Leste/Oeste, tendo à frente a Porta Tai Ji (Tai Ji men), a abrir para a Cidade Interior, a parte principal do recinto. Ainda antes de aí entrar, no muro interior do lado Leste está a Porta San Cai cujo caminho leva à porta do recinto exterior, Dong Hua men. Já no lado do muro interior Oeste, está a Porta Wu Xing a dar para a Porta Xi Hua nos muros exteriores, onde anteriormente vimos uma multidão a tentar entrar, entupindo a saída dos que dentro tinham já feito as oferendas de sacrifício e abandonavam o recinto. Subindo cinco degraus entra-se pela Porta Tai Ji, a abrir para a Cidade Interior do templo. Tai Ji men foi construída em 1437, durante a Dinastia Ming, com o nome de Tai Ji Fang (Arco Memorial). A Leste desta Porta está Yang Guan e a Oeste, Fu Cha e no livro Yi-Xici zhuan 《易 系辞传》 refere, em tempos antigos Bao Xi shi (Fu Xi) levantando a cabeça (Yang Guan) observava o Céu e tudo o que nele se passava e olhando para baixo (Fu Cha) vendo a Natureza percebia o sentido da mudança (Yi) e assim encontrou a lei que lhe permitiu criar o Bagua.
GP Macau | Sophia Floersch diz que acidente lhe trouxe fama mas não proveito Sérgio Fonseca - 8 Mar 20228 Mar 2022 Há momentos que marcam a carreira de um piloto. Para Sophia Floersch, definitivamente será o assustador acidente no Grande Prémio de Macau de Fórmula 3 de 2018, como a própria admitiu ao jornal bávaro “Münchner Merkur”. Sophia Floersch reconhece que o infortúnio lhe trouxe fama, mas que não a ajudou a progredir na sua carreira desportiva Quase quatro anos após o aparatoso acidente na travagem para a Curva Lisboa, a piloto alemã admitiu à publicação germânica que ainda continua a ser muito associada ao acidente no Circuito da Guia. Apesar do aparato, que catapultou o evento de Macau para todos os noticiários em todo o mundo, felizmente o acidente não teve consequências físicas, e Sophia Florsch regressou logo ao activo em 2019, tendo recebido o ” World Comeback of the Year” na cerimónia dos Laureus World Sports Awards. Sophia Floersch disse que vários patrocinadores capitalizaram com o seu salto para a fama, mas que “nenhum deles ainda está comigo”. A jovem alemã, que recebeu o título de Embaixadora da Boa Vontade do Turismo de Macau após o seu acidente, referiu que “o automobilismo move-se depressa. O acidente deu-me atenção, mas no sentido desportivo, não foi um passo em frente”. Depois de ter regressado à corrida de Fórmula 3 em Macau, onde desistiu com problemas técnicos no seu carro, em 2020 completou outra temporada na disciplina, aproveitando também para se estrear nas corridas de resistência. Em 2021, foi a vez de se estrear no campeonato alemão DTM e no Campeonato do Mundo FIA de Endurance (WEC). Sophia Floersch tinha planeado para este ano uma participação no European Le Mans Series e nas 24 Horas de Le Mans, mas continua a afirmar que o seu grande objectivo “é regressar às corridas de monologares”, sendo a Fórmula 1 “o seu grande sonho”. “Aos 21 anos, devo continuar a perseguir este objectivo”, insiste a piloto de Munique. “Com um orçamento grande seria mais rápido, mas com um orçamento pequeno, por vezes tens que fazer desvios. Porém, estou a lutar para subir e acredito firmemente que há um futuro. A determinada altura, o investimento irá compensar”. A piloto, que sempre disse que estava disposta a regressar ao evento automobilístico da RAEM, aproveitou a entrevista para criticar a hipocrisia existente na Fórmula 1, “apesar de todo o alarido em redor de chavões da actualidade como diversidade, igualdade e inclusão, as equipas adornam-se com pilotos (senhoras), mas elas não têm qualquer hipótese. São usadas para justificar lemas modernos e chiques para promoverem as mulheres e a igualdade”. Apanhada pelas sanções à Rússia Sophia Floersch tinha esta temporada bem delineada, com contrato assinado para conduzir um Oreca 07 Gibson da classe “Le Mans Prototype 2” (LMP2) que seria preparado pela equipa portuguesa Algarve Pro Racing sob a bandeira da G-Drive Racing na Europa. A G-Drive é uma cadeia de postos de combustível russa, que é administrada pela gigante estatal do petróleo Gazprom, que por sua vez passou a enfrentar sanções dos EUA e de outros países Ocidentais após a invasão russa à Ucrânia. Perante as sanções económicas e as limitações colocadas pela FIA, como a proibição da bandeira russa, símbolos, cores ou hino nacional do país, os mentores do projecto G-Drive Racing retiraram-se de cena, deixando a equipa portuguesa e os seus pilotos, incluindo Sophia Floersch, numa situação incómoda, vista a necessidade de procurar novos apoios para compensar a saída do forte patrocinador.
Ana Saldanha, académica: “Debate sobre libertação das mulheres foi importante no PCC” Andreia Sofia Silva - 8 Mar 2022 Ana Saldanha fala hoje, na Fundação Rui Cunha, às 18h30, sobre a evolução do papel da mulher na sociedade chinesa ao longo do século XX. A palestra, integrante da Semana da Cultura Chinesa, aborda vários períodos históricos, desde a queda do Império à chegada do comunismo. A académica frisa que os avanços significativos nos direitos das mulheres, por intermédio do PCC, remontam aos anos 30 Como evoluiu a posição da mulher chinesa entre a queda do Império e o período da República? A China Imperial regia-se pelos princípios patrilinear e da hierarquia social, sendo que ambos constituíam uma herança do pensamento confucionista. A mulher encontrava-se subordinada ao homem e dever-se-ia submeter à sua autoridade, sendo a linhagem da família assegurada pelos membros masculinos. Tendo em conta que as funções da mulher se circunscreviam ao círculo familiar, as virtudes femininas (socialmente consideradas) remetiam para a obediência, a docilidade ou a castidade. Não é, assim, por acaso que, no final do século XIX, quando assistimos, ainda no final da Dinastia Qing, ao nascimento de um movimento feminista chinês, a herança confucionista será um dos alvos de contestação. Que papel teve este movimento? Ainda que brotando das entranhas das classes mais abastadas e tenha nascido sob o impulso de mulheres que tiveram a possibilidade de estudar no exterior, o movimento feminista chinês vai lançar o debate, no seio da tradicional sociedade chinesa, sobre a condição e a posição social das mulheres. Quais as principais reivindicações à época? O direito a uma educação para as mulheres, direitos iguais, perante a lei, e a abolição dos pés enfaixados (um acto que remontava à dinastia Song e que pretendia demonstrar, no seio de uma determinada comunidade, a riqueza de uma família). Todas estas reivindicações têm a particularidade de unir o feminismo com o patriotismo, já que se considerava que o facto de as mulheres terem acesso à educação permitiria que os seus filhos pudessem ter uma melhor formação, o que, afirmavam as feministas chinesas, conduziria a uma melhoria qualitativa do nível de conhecimento e de formação do povo chinês. Ainda que, do ponto de vista legal, a educação feminina tenha o seu início formal em 1907, será necessário aguardar pela instauração da República, em 1912, para que se verifique, de facto, uma evolução qualitativa na condição da mulher no seio da sociedade chinesa. Houve mudanças a nível jurídico, por exemplo? O debate iniciado no final do século XIX acaba por surtir um efeito legislativo na China republicana, pelo que, a partir de então, o enfaixamento dos pés é proibido e as escolas passam a poder ser mistas. Não obstante, a Constituição elaborada pela Assembleia Legislativa de Nanjing, e tornada pública a 11 de Março de 1912, não prevê, por exemplo, o sufrágio feminino ou a elegibilidade das mulheres, o que constituiu um motivo de desapontamento para as sufragistas chinesas. Apesar disso, a mulher, no plano social e jurídico, vai assumindo um novo papel, pelo que podemos falar de uma evolução, a qual, no contexto chinês, passa por uma libertação da mulher das amarras patriarcais, herdadas, em parte, do confucionismo. Em 1915, a emancipação das mulheres vai encontrar-se no centro de vários debates, discutindo-se temas como a denúncia da moral confucionista, o casamento, o concubinato ou o encorajamento do suicídio feminino, em nome da virtude e da lealdade. A discussão aprofunda-se aquando do movimento 4 de Maio de 1919, momento este que podemos considerar como o ponto alto na história do feminismo na China. Em que sentido? Aprofunda-se uma reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade, a necessidade da sua libertação, a castidade e virgindade (duas virtudes consideradas fundamentais na China tradicional) ou a desigualdade sexual. O debate sobre a condição feminina vai, depois, a partir de 1921, ser levado para o interior do Partido Comunista Chinês (PCC). Aliás, muitos dos autores que colaboram na imprensa vanguardista pós-movimento 4 de Maio e que defendem a libertação da mulher na sociedade chinesa serão activos militantes comunistas. Com efeito, estes futuros membros do PCC (como Chen Duxiu, Chen Wangdao ou Qu Qiubai) concluem que é necessário operar-se uma mudança sócio-políticapara que a mulher, na China, possa alcançar uma nova posição social. Na China de Mao os direitos das mulheres eram abordados ou simplesmente ignorados pelo poder? Como referi, o debate sobre a libertação das mulheres passa a constituir um elemento importante no seio do Partido Comunista Chinês, e isto logo após a sua fundação, em 1921. Quando, no final da década de 1930, o PCC domina algumas zonas rurais, os comunistas vão, desde logo, integrar as mulheres nas actividades políticas e económicas. O PCC enceta, assim, um movimento socio-político vanguardista, libertando a mulher da esfera patriarcal e familiar e trazendo-a para a esfera pública. Depois da revolução chinesa, em 1949, a RPC aprova matéria legislativa que pretende colmatar as diferenças, perante a lei, de homens e mulheres. Esta legislação herdou, aliás, muito daquilo que havia sido estipulado nos regulamentos aprovados durante a década de 1930. A lei do voto garante o direito de voto das mulheres e estipula-se, por exemplo, que as mulheres recebam o mesmo salário que os homens, pelo mesmo trabalho, assim como direitos de propriedade e de acesso ao trabalho iguais. Sendo consideradas, tal como os homens, como parte da força de trabalho, as mulheres são chamadas a participar na construção da nova sociedade socialista, buscando-se atingir uma igualdade, de facto, por meio da transformação da sociedade. Os direitos das mulheres não apenas não foram ignorados, como após 1949 se iniciou um processo social, político e jurídico com o objectivo de terminar com as desigualdades existentes entre homens e mulheres, nas diferentes esferas da sociedade. A abertura do país ao mundo, desde Deng Xiaoping, trouxe um maior alerta sobre os direitos das mulheres no geral, mas sobretudo em matéria de direitos laborais? As transformações mais marcantes, no plano legislativo, datam da década de 1980, sobretudo depois da aprovação da Constituição de 1982, durante o mandato de Deng Xiaoping. A Lei Fundamental da RPC vai enquadrar medidas em defesa dos direitos das mulheres, consagrando a igualdade entre mulheres e homens, em todas as esferas da vida, os mesmos direitos no acesso a um trabalho, a promoção do acesso das mulheres a cargos de responsabilidade, assim como disposições sobre a proteção das mulheres no trabalho. No quadro legislativo, são, ainda, de destacar, no plano jurídico, os Regulamentos de Saúde Pública (1986), os Regulamentos de Protecção do Trabalho (1988) e a Lei para a protecção e defesa dos direitos e interesses das mulheres (1992). Desta forma, podemos dizer que a pretensão de alcançar, no plano jurídico, uma igualdade plena, foi, finalmente, alcançada, com a aprovação da Constituição que, em 1992, veio substituir a Constituição de 1978, e pelos diplomas legais aprovados depois desta data. Houve uma evolução da representação da mulher em áreas como a arte e literatura? Na China as primeiras escolas femininas remontam ao final do século XIX, sendo que o governo imperial apenas legaliza a educação feminina em 1907. Neste sentido, durante séculos, o acesso à leitura e escrita era apanágio, sobretudo, de homens. Destes, apenas aqueles que pertenciam às classes mais abastadas àquelas tinham acesso. Por outro lado, até ao século XX e ao surgimento das primeiras escolas, as mulheres letradas pertenciam, também elas, às classes mais favorecidas da sociedade. Estávamos, assim, perante uma situação em que a grande maioria da população era iletrada e em que o acesso à cultura – e, portanto, às manifestações artísticas -, apenas era permitido a uma minoria. No quadro desta minoria, os homens tinham um acesso privilegiado. Ora, sendo a literatura e outras manifestações artísticas parte da vida de uma determinada comunidade humana, aquelas constituem manifestações não apenas estéticas, mas também sociais, pelo que a representação que, nas diferentes artes, podemos encontrar da mulher e do homem, refletem não apenas o gosto e valores estéticos que se manifestam num determinado período sócio-histórico, como, também, a organização sócio-económica na qual aqueles valores se impõem. Naturalmente que, neste sentido, a representação que é feita da mulher evolui concomitantemente com a evolução da organização política e económica de uma determinada sociedade. Hoje, fruto da evolução sócio-política e jurídica da mulher, temos uma proliferação de autores mulheres, na China, como em todos os restantes cantos do mundo.
Demografia | Mais TNR na construção civil. Menos em trabalhos domésticos Andreia Sofia Silva - 8 Mar 2022 Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) revelam que o número de trabalhadores não residentes (TNR) era, no final do ano passado, 30.362, o que representa um aumento de 3.378 trabalhadores face a igual período de 2020. Por sua vez, registaram-se, em Dezembro, menos 3.372 TNR na área do trabalho doméstico, que empregava um total de 26.033 pessoas. No ano passado, existiam 2.627 indivíduos do Interior da China recém-chegados a Macau titulares de “Salvo-Conduto Singular”, uma quebra de 346 em termos anuais. Desses, 1705 eram provenientes de Guangdong, sendo que 65,9 por cento diz respeito a mulheres. No ano passado, foi concedida residência a 468 pessoas, menos 262 em termos anuais. Em Dezembro, Macau tinha uma população de 683.200 pessoas, mais 900 face a Setembro e mais 100 em termos anuais. A população local, que não inclui TNR ou estudantes vindos do exterior, era de 570.100 pessoas, um aumento de 1,1 por cento face a 2020. O índice de envelhecimento, aumentou para 83,7 por cento. No ano passado, morreram mais 90 pessoas face a 2020, num total de 2.320 óbitos. A maior causa das mortes foi a ocorrência de tumores malignos, num total de 873 casos e 37,6 por cento. Seguem-se as doenças de coração, com 253 casos, e pneumonia, 252, representando ambos 10,9 por cento do total de óbitos.
Lago Nam Van | Rui Leão defende estudo de impacto visual Pedro Arede - 8 Mar 2022 Rui Leão defende que o Governo deve encomendar um estudo de impacto visual para as construções previstas para os lotes C1 e C4 do Lago Nam Van. Em causa, está o facto de a altura dos futuros edifícios, poder vir a impactar negativamente a envolvência de património classificado, como a Fortaleza de Nossa Sra. do Bom Parto, a Residência Consular Portuguesa e Igreja da Penha O arquitecto Rui Leão considera que o facto de existirem três edifícios classificados na área envolvente dos lotes C1 e C4 do Lago Nam Van, onde se prevê a construção de edifícios até 50 metros de altura junto ao actual edifício do Tribunal Judicial de Base, justifica a encomenda de um estudo de impacto visual por parte do Governo. Em causa, segundo os comentários elencados por Rui Leão através de uma nota escrita, está o impacto negativo que as novas construções poderão vir a ter nas imediações da Fortaleza de Nossa Sra. do Bom Parto (Monumento Classificado), da Residência Consular Portuguesa e da Igreja da Penha, sendo estes últimos classificados como edifícios de interesse arquitectónico. Para o arquitecto, a encomenda de estudos de impacto visual sobre a planta de condições urbanísticas (PCU) em questão, “justifica-se” dado estarem “previstos na Lei de Salvaguarda de Património para edifícios classificados ou em vias de classificação” e no “Plano de Gestão de Património, elaborado pelo Governo da RAEM”. Isto, além de que este tipo de estudo “é prática corrente pelo mundo fora”, incluindo em Hong Kong, China, Singapura, Japão, Coreia do Sul e Malásia. “Será má prática que num caso tão gritante, onde se encontram três edifícios classificados, não se cumpra com boas práticas de impacto visual sobre a áreas de património”, pode ler-se na nota enviada. “Caso esta PCU avance sem ser questionada e re-equacionada, para que precisamos de Leis e Planos de Gestão e Salvaguarda, se eles não são aplicados quando existe um contexto explicitamente essencial e crítico de valores patrimoniais. Não é obrigação do Governo (…) estabelecer precedentes nas situações que são exemplarmente importantes e em contextos históricos de relevância para história de Macau, como aliás foi o caso do Farol da Guia em 2008?”, questionou ainda Rui Leão. Para firmar a necessidade de realizar o estudo, o arquitecto alerta ainda para o facto de os corredores visuais definidos para a área serem “precários e indicativos”, dado que o impacto das novas construções apenas foi avaliado da partir de um único ponto de vista, ou seja um corredor visual, e não de um “campo alargado”. “Chamo a atenção que se devia falar neste caso em cone visual protegido, e nunca de corredor visual. Isto porque o corredor visual é claramente a definição de uma linha, e um cone visual é um campo alargado”, apontou. Respeitar a memória Para Rui Leão, a questão é tanto mais premente, tendo em conta que defende que as autoridades devem respeitar o plano original do “Fecho da Baía da Praia Grande”, que tinha como intenção, não só separar os novos aterros da linha histórica da costa através da criação de dois lagos, mas também de “manter a linha de encontro entre a cidade e o rio bem visível e reconhecível”. Por isso mesmo, o arquitecto considera que “não faz sentido” permitir que as cotas máximas permitidas sejam definidas de acordo com a cota alta do monte da Penha porque o contexto urbano em causa é diferente e se assume como ponto-chave para ligar “os novos aterros à antiga marginal, à Fortaleza do Bom Parto e à encosta”. Na opinião de Rui Leão, como alternativa, deve ser ponderado um traçado que obstrua “significativamente menos” os três edifícios classificados e o recorte da encosta da Penha. O arquitecto sugere, por isso, que a altura das construções seja definida como uma “sequência de degraus”, que diminui à medida que se afasta do edifício do futuro tribunal e se aproxima da Fortaleza do Bom Parto.
Crime | Consome droga e tenta entrar em escola Hoje Macau - 8 Mar 2022 Um homem, com 44 anos, foi detido na sexta-feira, devido a ter consumido estupefacientes e ter tentado entrar numa escola na Zona Norte do território. O caso foi revelado ontem pela Polícia Judiciária, que foi alertada para o estado de “anomalia psíquica” do indivíduo por um dos funcionários da instituição escolar. Segundo o relato, na sexta-feira, o homem que aparentava estar alterado, fez uma primeira tentativa para entrar na escola fazendo-se passar como pai de uma criança. No entanto, o funcionário conseguiu perceber que não era encarregado de educação e não permitiu a sua entrada. Momentos mais tarde, o homem voltou a insistir, desta vez pegando numa das crianças pela mão. Todavia, voltou a ser barrado e o funcionário ligou para as autoridades a alertar para o sucedido. Quando a polícia chegou ao local, foi alertada por um outro residente de que um homem suspeito se encontrava numa casa-de-banho pública, onde se teria injectado com uma substância proibida. A PJ deslocou-se ao local e encontrou duas seringas abandonas, uma das quais com vestígios de metadona. Apesar de o sujeito não ter confessado a prática do alegado crime, a PJ considerou estarem reunidos os indícios necessários, depois de ter havido outros depoimentos de residentes da zona. O caso foi assim reencaminhado para o Ministério Público e o homem está indiciado pela prática do crime de consumo ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas, que implica uma pena de pode ir de 3 meses a 1 ano de prisão, ou 60 a 240 dias de multa.
Subchefe do CPSP com ligação a sala VIP suspeito de corrupção Pedro Arede - 8 Mar 2022 Um subchefe do Departamento de Trânsito do Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) é suspeito da prática de crimes de corrupção passiva após o Comissariado contra a Corrupção (CCAC) ter recebido uma denúncia a indicar que o agente providenciava informações sobre a polícia ao dono de uma sala VIP, em troca de benefícios. “Um subchefe (…) [terá] praticado crimes de corrupção passiva revelando a um dono de uma sala de jogo informações sobre o corpo policial. Por sua vez, o referido dono da sala de jogo ofereceu ao subchefe e à sua esposa alojamento em suites de luxo como retribuição”, pode ler-se numa nota divulgada ontem pelo CCAC De acordo com o comunicado, após a investigação, o organismo confirmou que o subchefe se manteve “frequentemente em contacto” com indivíduos de uma sala VIP de um casino, “tendo entrado e permanecido ilegalmente em salas VIP dos casinos por diversas vezes”. “O subchefe terá fornecido informações sobre o corpo policial a um dono de uma sala VIP de um casino e recebido, em troca, dinheiro e alojamento gratuito em quartos de hotel entre outros benefícios”, pode ler-se na mesma nota. Disfarce perfeito No decorrer da investigação, o CCAC encontrou na casa do subchefe “uma grande quantidade de dinheiro, diversos equipamentos de comunicação e documentos”, bem como telemóveis e computadores relacionados com o caso. O subchefe terá praticado os crimes de abuso de poder e de corrupção passiva para acto ilícito previstos no Código Penal, pelos quais poderá vir a ser punido com pena de prisão até 3 anos ou pena de multa, pelo primeiro, e com pena de prisão entre 1 e 8 anos. Por seu turno, o dono da sala VIP do casino terá praticado o crime de corrupção activa, pelo qual poderá vir a cumprir uma pena de prisão até 3 anos ou uma pena de multa O caso foi encaminhado para o Ministério Público. Sob proposta do Ministério Público, o juiz do Juízo de Instrução Criminal autorizou a aplicação, aos indivíduos, das medidas de coacção de prestação de caução e de apresentação periódica, entre outras.
Dia da Mulher | Pandemia acelerou desigualdade de género no território Hoje Macau - 8 Mar 2022 Números de pedidos de assistência na Associação Geral de Mulheres mais que triplicou devido à pandemia. Perda de rendimentos e de emprego entre as principais causas das solicitações de auxílio Especialistas disseram à agência Lusa que a pandemia de covid-19 acelerou a desigualdade de género em Macau, com a Associação Geral de Mulheres a registar um aumento considerável de pedidos de ajuda nos últimos dois anos. Segundo a associação, o número de pedidos ajuda cresceu significativamente em comparação com o período pré-pandémico: 359 casos em 2018, 337 em 2019, 1.236 casos em 2020 e 904 em 2021. “A pandemia causou a algumas mulheres a perda dos seus empregos, perturbou o mercado de empregadas domésticas em Macau, aumentou as responsabilidades financeiras e familiares das mulheres, e dificultou a progressão das mulheres em Macau na carreira profissional, o que, de facto, afectará o progresso da igualdade de género”, salientou a professora associada da Universidade de Macau e ex-deputada da Assembleia Legislativa, Agnes Lam. De acordo com os últimos dados oficiais, a população feminina ainda é superior à população masculina, representando 53 por cento da população total, sendo que a taxa de participação da força de trabalho feminina é de 66,8 por cento. No entanto, “as mulheres representam 44,1 por cento do número total de funcionários públicos e 41 por cento do número total de líderes e dirigentes”, adiantou a deputada e vice-presidente da Direcção da Associação Geral das Mulheres de Macau, Wong Kit Cheng. A Associação Geral de Mulheres é uma das mais influentes no território ao nível da representação do género feminino, mas marcada por uma forte componente tradicional. Em 2013, recusou apoiar uma proposta de lei a criminalizar a violência doméstica. Licenças de maternidade Outra das questões onde a diferença de género fica marcada, é na legislação e na atribuição de uma licença de maternidade paga até 70 dias para as funcionárias. Apesar de a lei ter sido revista nos últimos anos, os homens têm direito a apenas cinco dias de licença de paternidade. Agnes Lam sustentou que Macau é uma sociedade com fortes valores tradicionais, na qual “o homem ganha o dinheiro, enquanto a mulher se ocupa das tarefas domésticas” e que a entrada das mulheres na política não é bem vista. “Isto é uma fonte de desigualdade”. “Além disso, muitas mulheres em Macau são novas imigrantes que casaram no país e têm poucos laços sociais próprios, o que as torna um grupo de alto risco para a violência doméstica em Macau”, acrescentou. De acordo com um último estudo governamental, datado de 2017, o Índice de Desigualdade de Género de Macau deixa o território em 14.º lugar, entre 189 países/regiões do mundo.
Idosos | Ella Lei aposta na tecnologia para melhorar cuidados Pedro Arede e Nunu Wu - 8 Mar 2022 Ella Lei considera que a introdução de tecnologia inteligente destinada aos cuidados dos idosos, contribui para melhorar a eficácia dos serviços, a qualidade de vida dos mais velhos e alivia a pressão dos cuidadores. Com o envelhecimento da população, a deputada quer saber se o Governo planeia introduzir e melhorar elementos “inteligentes” ao nível da gestão de dados de saúde e localização dos idosos Com a esperança média de vida e a percentagem de população idosa a aumentar em Macau, Ella Lei defende que o Governo deve continuar a investir em tecnologia dedicada, para proporcionar uma melhor qualidade de vida e precaver a falta de recursos humanos, ao nível dos cuidadores dos idosos. Para a deputada, dado o expectável aumento da procura por cuidados destinados aos mais velhos nos próximos anos, é imperioso continuar a introduzir “elementos inteligentes” ao nível da gestão dos serviços para idosos, tais como o serviço de localização “Peng On Tung”, o “Programa Piloto eHR”, que possibilita aos médicos consultar dados de saúde, e o Cartão de Benefícios Especiais para Idosos. “Espera-se que a procura por cuidados destinados aos idosos aumente significativamente no futuro, incrementando a pressão sobre as finanças, o espaço terrestre e os recursos humanos da comunidade”, começou por dizer Ella numa interpelação escrita. “A introdução da tecnologia inteligente é, reconhecidamente, um meio para melhorar a qualidade e eficácia dos serviços, reduzir a pressão sobre os cuidadores e as condições de vida dos idosos. Espera-se que o Governo reforce o conceito de ‘envelhecimento inteligente’ e o seu âmbito de aplicação, não só em lares, mas também na prestação de outros serviços destinados aos idosos. O Executivo deve também ajudar os cuidadores (…) e utilizadores a familiarizarem-se com a tecnologia”, acrescentou. Apalpar terreno Citando o Plano de Acção para o Desenvolvimento dos Serviços de Apoio a Idosos nos Próximos Dez Anos (2016-2025), Ella Lei recorda que o próximo plano decenal destinado aos idosos (2026-2035) deve ter por base os dados recolhidos nos últimos censos e a “situação real de Macau”. “Irá o Governo rever e optimizar os modelos de serviço existentes para integrar os dados e os cuidados de saúde dos idosos nas novas aplicações e tecnologias destinadas a promover o ‘envelhecimento inteligente’?”, questionou. Por fim, a deputada quer saber se o Governo está a ponderar regulamentar e introduzir a utilização de novos recursos tecnológicos em mais estabelecimentos e ao nível dos serviços sociais, de modo a “optimizar a eficácia dos cuidados” e “melhorar a qualidade dos serviços”, com o objectivo de “satisfazer necessidades futuras” da população idosa de Macau.
Pequim | Han Zheng diz a Macau para apoiar revisão ordeira da lei Hoje Macau - 8 Mar 2022 A sociedade de Macau tem de cooperar com o Governo na proposta de revisão da lei do jogo. As declarações foram prestadas por Han Zheng, vice-primeiro ministro chinês, em Pequim, durante um encontro com os membros de Macau da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), e citadas por Ho Ion Sang, em declarações à TDM. O encontro entre Han Zheng e os membros de Macau, onde se incluem os deputados Chui Sai Cheong e Ho Ion Sang, decorreu no domingo e foi nessa altura que foram transmitidas as instruções do Governo Central para a comunidade de Macau. O diploma em causa está neste momento a ser discutido na Assembleia Legislativa, e entre um dos temais mais polémicos encontra-se o fim dos casinos-satélite. De acordo com as palavras de Ho Ion Sang, o vice-primeiro ministro chinês explicou que se a população apoiar as propostas do Governo e permitir uma revisão ordeira da lei do jogo, vai ser possível “desenvolver de forma saudável e moderada a indústria do jogo”. Por outro lado, Han argumentou que um “envolvimento pró-activo no desenvolvimento nacional” e o acelerar do investimento de Macau na Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin vai fazer com que a diversificação da economia seja também alcançada mais depressa. Presente no encontro esteve igualmente Chui Sai Cheong, que também destacou as palavras de Han Zheng a explicar que o objectivo da proposta da lei do jogo é “garantir o desenvolvimento saudável da indústria do jogo”.
Jogo | “Interesses particulares” colocam lei sob maior escrutínio João Santos Filipe - 8 Mar 2022 Chan Chak Mo levantou a hipótese de a questão dos casinos-satélite estar a ser tão focada pelos deputados devido a “interesses particulares” dos legisladores O presidente da 2.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, Chan Chak Mo, levantou a hipótese de muitos deputados estarem preocupados com a proibição dos casinos-satélite devido a “interesses particulares”. A declaração foi feita ontem, no final da reunião com o Governo para discutir a proposta de lei. Depois de duas horas e meia de reunião sobre um dos assuntos mais polémicos do diploma, o presidente da comissão foi questionado sobre o interesse no assunto e o facto de o debate sobre um único artigo se ter arrastado por tanto tempo. Na resposta, Chan Chak Mo colocou a hipótese de “muitos dos deputados que fazem perguntas” terem “interesses particulares” na matéria. “Os deputados fazem muitas vezes essas perguntas [sobre os casinos-satélite] porque talvez tenham interesses particulares, como, por exemplo, trabalharem para bancos que fizeram créditos a essas empresas ou outros”, justificou Chan Chak Mo. O presidente reconheceu ainda que o andamento dos trabalhos no encontro de ontem “não foi satisfatório”. Segundo a proposta de lei do jogo, os casinos-satélite só vão sobreviver se forem adquiridos pelas concessionárias no prazo de três anos. A alternativa é fecharem as portas, uma vez que a lei vai proibir que as concessionárias utilizem as suas licenças em casinos que não operam em imóveis seus. Na visão de Chan Chak Mo, ao propor um prazo de três anos para a venda dos casinos-satélite, em vez de impor um encerramento, mostra que o Governo procurou uma solução equilibrada, ao invés de “acabar de vez” com estes espaços. Pouco científica Além da proposta para fechar os casinos-satélite, que deverá aumentar ainda mais a taxa de desemprego local, a nova lei vai fazer com que o Chefe do Executivo imponha um limite total para as mesas e máquinas de jogo. O líder do Governo fica igualmente com poderes para definir a quantia mínima de receitas que as mesas têm de gerar. Se o valor das mesas for inferior a este montante, as concessionárias são sancionadas monetariamente pelo Governo. Além destas regras, o secretário para a Economia e Finanças pode, a qualquer momento, reduzir o número autorizado a uma concessionária, desde que “tome em consideração” factores como a situação económica de Macau, as políticas da RAEM para o jogo, a situação operacional das concessionárias, os investimentos das concessionárias e o estado da utilização das mesas e máquinas de jogo”. No entanto, o aumento do desemprego com o encerramento das mesas não está a ser discutido. Chan Chak Mo foi questionado sobre estimativas para o número de despedimentos no caso de encerramento de mesas e limitou-se a dizer que “o Governo não apresentou números sobre o desemprego”. Também sobre o limite mínimo gerado pelas mesas de jogo, não foi adiantado um valor. Contudo, o deputado garantiu que o Executivo “domina muito bem os dados sobre as mesas de jogo” devido aos mais de 20 anos de operações dos casinos locais.
Sheyla Zandonai, antropóloga e autora do livro “The City in Review”: “Todos os caminhos apontam para Hengqin ” Andreia Sofia Silva - 8 Mar 2022 A residir no território desde 2008, a antropóloga e professora universitária Sheyla Zandonai prepara-se para lançar, em Abril, um livro que reúne os artigos de opinião que publicou no antigo jornal Business Daily e no portal Macau News Agency. Editado pelo Instituto Internacional de Macau, “The City in Review – Episodes of hope and not so in Macau” contém posições sobre urbanismo, transportes públicos, jogo ou a protecção do património e pretende ser “um registo da memória recente” de um território em permanente mudança Este livro é uma compilação das suas crónicas, mas desde então Macau tem mudado muito rapidamente. Olhando para os textos em perspectiva, como vê a evolução do território a nível sócio-económico? A nível sócio-económico, provavelmente por causa da pandemia, mudou completamente a situação das contas públicas, a situação individual, com pessoas a perderem o emprego ou a trabalhar a tempo parcial para não serem despedidas. Há menos dinheiro, menos impostos do jogo e o Governo teve de ter uma certa cautela, apesar da reserva. A situação não vai voltar ao que era porque ocorreu uma grande mudança no sector do jogo. Penso que a pandemia é o grande factor disruptor do funcionamento da sociedade. Em relação ao passado. Sim, e em relação há uns bons anos sem dúvida, pois mudou a maneira de viver em Macau, há menos liberdade de movimento. Houve adaptações no mercado de trabalho e tem acontecido nos últimos meses algumas pessoas, do meio não chinês, acabarem por deixar a cidade. É uma mudança lenta [face à pandemia], e as pessoas passam por uma fase de frustração ou acabam por sair. Mas voltando ao livro, ele está organizado por temas, e há alguns que ainda são relevantes, ou que contêm questões que não foram resolvidas e continuam em debate. Há outras questões que já tiveram desenvolvimentos ou respostas do Governo. Um dos capítulos é sobre o desenvolvimento urbanístico, e finalmente Macau tem um plano director. Esse é um ponto positivo, por exemplo? Da perspectiva do Governo, que sempre quis apresentar um plano director, sem dúvida que é uma conquista, e também para a sociedade no geral. Houve ataques ao tecido urbano de Macau que aconteciam porque faltava um plano, por exemplo. Em relação à protecção do património, sabemos que em Macau houve edifícios que foram destruídos, mesmo estando numa zona que deveria estar protegida. Há outros elementos envolvidos e não basta haver uma lei. Penso muito no Instituto Cultural, cujas opiniões devem ser seguidas e muitas vezes isso não aconteceu na prática. Falo do caso do Farol da Guia, é o exemplo mais emblemático do embate com o desenvolvimento urbano. O facto de as pessoas estarem a sair de Macau vai mudar o tecido social, composto por várias comunidades? Isso vai alterar o funcionamento da sociedade? Há uma mudança nesse tecido humano. Nos últimos anos, e até antes da pandemia, já era possível notar, em termos das práticas adoptadas, uma vontade do poder de dar mais projecção ao residente chinês de Macau. Existem muitas instituições locais que recrutaram mais chineses, na área do ensino, por exemplo. O que acontece, desde que o Governo fechou a porta à contratação de mão-de-obra estrangeira, é que todas as empresas, no sector dos negócios ou do ensino, só podem contratar mão-de-obra da China ou de Hong Kong. Se, por exemplo, uma universidade abre uma vaga para professor, parece uma porta aberta para recrutar em todo o mundo, mas na prática não podem trazer ninguém que não seja dessas duas zonas, ou que já esteja em Macau. Isso tem criado problemas às instituições que não conseguem recrutar pessoal e obriga a que os professores tenham de dar horas de aulas além do que deveriam para cobrir as faltas. Muitos colegas também se foram embora. Será mais problemático em departamentos que precisam mesmo de mão-de-obra estrangeira, como os de línguas, por exemplo. Existe também o grupo dos filipinos que foi o primeiro a sofrer um golpe que mudou bastante a maneira como viam Macau, como um local de trabalho. Muitos blue card ficaram mesmo sem possibilidade de voltar. São exemplos que mostram existir uma mudança nesse tecido. Não tenho números e provavelmente os novos Censos vão ter números interessantes de observar. Se haverá uma alteração profunda, penso que no que toca à existência de comunidades estrangeiras, sim. Mas é sempre bom lembrar que a comunidade chinesa é maioritária, mas há menos vozes de diversidade, embora Macau tenha uma história de multiculturalidade. Sem dúvida que há um impacto da política adoptada para lidar com a pandemia. Este livro funciona um pouco como um registo da memória recente de Macau que terá algum valor académico, porque são artigos que contam factos. Publicou há uns anos um estudo sobre “Macau governada pelas suas gentes”, em que concluía que este conceito foi desenvolvido por Pequim. Até que ponto ainda tem espaço para existir no contexto da integração regional? Existe essa divisão entre o chinês que é de Macau e o que vem do continente. Mas existem critérios que definem o que é uma pessoa de Macau, e isso está até estabelecido pela Lei Básica. Há membros do Governo que são residentes de Macau mas que vêm da China e começaram aqui a carreira como funcionários públicos. É um trabalho que tem sido feito desde a transição e estas pessoas já são consideradas de Macau. Esse é um fenómeno histórico em Macau, que é o facto de o chinês do continente se ter tornado num futuro residente. O sector do jogo está numa fase de mudança e o Governo tem uma estratégia de redução do peso dos casinos na economia. Até que ponto isso vai mudar o panorama sócio-económico de Macau? A tendência é que Macau venha a ter uma reputação mais positiva. O jogo é ainda visto, e não apenas pela China, como uma actividade quase sórdida, com um cunho negativo. A maior mudança, em termos da estrutura do jogo, como ele tem operado desde a época do Stanley Ho, é no sector dos junkets. O jogo VIP vai sofrer, inevitavelmente, porque o grande controlo agora é feito no fluxo de capitais. Penso que a ideia é transformar o jogo, ou os casinos, em lugares de lazer e entretenimento, com maior investimento nas artes. Isso é o que tem sido feito e não é uma mudança repentina. O facto de os junkets terem sido presos foi um pouco surpreendente, mas a China já tinha enviado alguns sinais. As empresas querem manter-se no mercado, e o jogo ainda vai continuar a ser a principal actividade económica durante uns anos, mas todos os caminhos apontam para Hengqin. Esta vai ser a alternativa ao jogo, porque na cidade em si nada mais tem um volume tão relevante. Talvez nos tornemos numa sociedade mais saudável, porque, em vários aspectos, o jogo provoca distúrbios nas famílias, com as pessoas a trabalharem à noite e por turnos, por exemplo. Mas é preciso que haja emprego, por isso os casinos ainda se vão manter. É preciso um período de transição para que a economia se foque nas PME e na investigação. Há inúmeras áreas em Macau que podem ser desenvolvidas, como o ensino de línguas. Macau tem um pouco essa relevância devido ao seu papel de plataforma, embora a China também tenha apostado no ensino de línguas e de tradutores. As startups são relevantes, mas não podemos esquecer que Shenzhen está aqui ao lado e a competição é enorme. Mas existem nichos e oportunidades de negócio. Se a ideia do Governo é mesmo transformar [o território] num centro de investigação, há condições para isso. É preciso algum tempo também. Mas isso por si só não vai mudar as mentalidades. É difícil ver o caminho e é preciso acompanhar os sinais e a direcção de Pequim. Haverá um momento em que vai ocorrer uma mudança e uma nova leva de pessoas, o que vai mudar o perfil e a função de Macau.