Conto 9 – Hotel dos Mortos, projectando a morte sobre a vida

“Death makes angels of us all
And gives us wings (…)”
Jim Morrisson

 

Hoje, a partir da conversa que tive com a Maria Teresa Cruz, vou riscar no mapeamento deste mundo, que os meus contos traçam, o lugar do Hotel dos Mortos. Não estávamos ali por acaso, mas isso não vem ao caso. Sentadas num banco por baixo dos ciprestes no Cemitério de Benfica em Lisboa, falamos com a voz pequenina e testemunhal de quem sabe que a nossa experiência não se restringe à teia racionalista do existente. De quem prefere o que migra da voz das sereias às palavras dos poetas. De quem não se deixa vencer pelo medo e o sofrimento que devora a alma se não tratamos dos nossos mortos. Ambas sabíamos que evocar as imagens deles é uma experiência maior, quando almejamos os seus rostos a pairar sobre nós: olhando-nos, vigiando-nos, debruçando-se, despenhando-se, projectando-se sobre o mundo vivo.

Entre essas e outras recordações, lágrimas e choros, ocorreu-me uma certeza: o humano sempre articulou a ferramenta óptica à consciência afectiva; do coração da cabeça, acrescentou a Teresa lembrando o António Damásio. Sim, confirmei. Também li o último livro dele, que me ofereceram no último Natal. Adiante. Dizia eu que o humano sempre projectou internamente imagens, e sempre desejou que se escapassem da sua mente e partissem para chegar aos outros. Sempre gravou imagens e sons num suporte que montamos dentro de nós como o material de um filme. Que sonhamos nas vésperas do acordar. Mas ninguém sabe, ao certo, proceder a uma arqueologia desse processo.

E a verdade é que encontramos essa vontade, esse princípio que não se confunde com a cena paleolítica e ritual da impressão da imagem. É uma coisa mais da ordem do khora de Timeu, parece-me. E a Maria Teresa Cruz lembrou-se então dos textos do Bernard Stiegler, sobre a arché-cinema. Uma arché cinematográfica que vai para além da maquínica arqueologia dos media, e que parte da inquieta da fábrica dos sonhos, que o Modus operandi do cinema viria a esclarecer. Fiquei admirada. Como é que não conheço? Na verdade tenho folhas e folhas de notas sobre este homem, professo experimentador que, exactamente por isso, se tornou um filósofo dos que gosto e prefiro, porque estão ligados à vida e são capazes de por ela morrer. Deste funambulista, marcado pela sobrevivência e preferência de Derrida, saltamos para Friedrich Kittler. Outro resistente movido pela vida e dela extraindo também a matéria e a tarefa de filosofar que se esconde no canto das sereias ou no balançar de uma folha que cai de um poema. Tive o privilégio de conhecer Kittler pouco tempo depois do meu pai morrer, porque afortunadamente a Maria Teresa Cruz e o José Bragança de Miranda me levaram com eles a uma conferência no Porto. Naquela cidade encontrei aquele homem que quis que o filmasse contra o mar dos descobrimentos, mesmo que o avisasse que em contra-luz ficaria transformado numa quase silhueta. Ele não se importou. Só queria que por trás da sua figura se visse o Atlântico Português, enquanto ouvíamos as suas palavras. Gostei da escolha de Kittler, claro!

Tendo a consciência afiada da morte, o filósofo alemão falava dos mortos da nossa vida que são numericamente mais que os nossos vivos: os pintores, os escritores, os filósofos, os amigos e a família que encontram a sua morada em hotéis de mortos espalhados no globo, que se metamorfoseiam numa momónade misteriosa de moradas de castelo interiores, num mais misterioso tango entre Leibniz e Santa Teresa de Ávila. Tudo pode acontecer com os espíritos nómadas que vagueiam pelas paisagens dos vivos e nelas se imprimem ocasionalmente. Tudo pode acontecer com os habitantes dos hotéis dos mortos, em Pere Lachaise pode emanar um nocturno de Chopin e fundir-se com a voz de Morrison, enquanto a “A Liberdade Guiando o Povo” de Delacroix é vista da lua de Méliès: sons e imagens e corpos a dançar a valsa do mundo num esquisso da eternidade. Nada disso me espantou. Sempre tive a percepção que a morte é um arquivo extraordinário, fulgente, irreversível, que nos abraça a cada dia que passa. E mesmo sabendo que não nos podemos esquivar do abraço final, nem por isso lhe fugimos. É só a morte, meu bem, meu amor. É só a morte que está entre nós – apetece dizer aos nossos mortos mais queridos. A morte é uma escrita de coisas que se dizem sem se dizer, de sentimentos que se sentem sem se sentir, de relações que existem sem existir – coalhados em imagens e sons, que procuram formas de se esquivar – a palavra esquivar hoje persegue-me, como me persegue o écran onde a morte projecta a vida que já não se vive.

E volto àquele ponto em que sonhamos acordados imagens, sons, movimentos, com vontade de cinema afinal, e vemos a potente fantasmagoria das formas da mente encontrar clones dos nossos sentidos capazes de clonar a percepção, a sensação, a consciência e a imagem interna. É certo que foram precisos milhares de anos para que as câmaras de filmar clonassem o olhar e a kinestesia, os gravadores a fala e a audição, os movimentos de câmara o movimento de quem observa, seja uma personagem, o público, ou o próprio filme. Estava a delirar porque escrevi sobre isso há muito tempo, mas ali num banco do cemitério tive a certeza que a vida clona a morte e a morte clona a vida, e nós somos a máquina que efectiva este aparatoso drama da existência.

Nesta experiência dos homens não há nenhuma estranheza, a não ser que somos familiares de lugares vazios que se enchem de desejos de ver, ouvir e sentir – numa anómala performatividade acentrada e incontrolável dos seres que ainda caminham pelo mundo para viver a árdua tarefa de fazer coisas. Assim imaginei Pessanha a vaguear na sua Macau, meio morto-meio vivo, num acto de resistência maior – porque se move como as estrelas na imaginação. Num trejeito de espanto as estrelas – sei que me repito – rompem o céu e caem nas lágrimas que fundem a morte e a vida dos nossos mortos e dos nossos vivos – projectando no ecrã interno e cristalino do nosso corpo um filme sem princípio nem fim.

10 Jun 2021

Nas minhas mãos agito um Globo de Sangue

Calvino: O olhar percorre ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz…

 

Caso acompanhem os contos das minhas Teorias de Céu – que as originais foram escritas por Kant, como é uso saber-se – já viajaram no planisfério neles emergente e percorreram cidades baptizadas com o nome de poetas, filósofos e artistas, que espantaram e comoveram a minha vida. Ao contrário do mapa-mundi perfeito de Cassini, neste os topoi escolhidos coexistem e até se movimentam, criando a famosa rota das urbes moventes, sem o fechamento e conservadorismo das culturas nómadas. Nesta teia esburacada da humanidade que se lê, localizo os continentes preferidos da minha geografia: Arte, Música, Literatura, Filosofia, Teatro, Cinema. Como um geógrafo atento, fui ver de perto e depois, já longe, mediante uma certa distância e perspectiva, risquei os mapas à escala das mãos e do olhar humano. No labor paciente de um escriba ou de um iluminarista, represento-os entre os mares Divino, Empírico, Racional, já sem respeitar as proporções elegantes de Ptolomeu, e de todos os Globos de Sangue que escreveram o mundo nascido dos Descobrimentos. Sabe a ferro esta história de dor e conquista, nas mãos de descobridores-ocupantes, alheios ao duplo abismo cosmológico e etnológico que os capturava também, à medida que domesticavam o espaço capturado nos Globos Terrestres. Nesses media visual dominante de seiscentos, vemos como a humanidade encontra a imagem da sua habitabilidade, ocupando os vazios desconhecidos, focando-se e desfocando-se em dispositivos prováveis e cada vez mais universais, concebendo o mundo como uma grande instalação humanista.

Eu sigo o meu plano que não se amordaça no nexo do real. Encaro Heraclito como uma das primeiras comunidades que se desloca, e Parménides como aquela que primordialmente nos reflectiu, quando o tempo vira espelho do ser e não sal destruidor. Sinto-me confiante. Atravesso o Mar Empírico, num barco viking ou numa caravela portuguesa – ambos prisioneiros da História e da Literatura. É verdade que cada obra dita uma tomada de território, uma guerra aberta, entre os vencedores e vencidos. É também verdade que as fronteiras aumentam e encolhem ao sabor de uma geografia do imaginário. E não se usam cruzeiros e baldaquinos, como se ouviu dizer em Sloterdijk, para marcar a terra como gado numa ganaderia ou mulher num bordel, numa profunda desontologização das margens fixas. Não.

No meu globo, que é diferente do de Berhaim, há cidades parturientes, que geram nascimentos do que mais belo resta na humanidade, desde Confúcio, Platão, Cícero, Averróis… Outras há, mais recentes, que se olham uma à outra, como Benjamin e Baudelaire… E ainda as que se apaixonam, afastam, odeiam, como Rimbaud e Verlaine. Nestes partos nascem obras magníficas – é esta a função de se estar neste meu Mundo que está mais interessado “em cortejar o infinto” “implantando o impossível no real”, “criativamente, sem sucumbir às rotinas nocivas” do universalismo. E entre planícies, planaltos e vulcões, tive consciência que, para além de autênticas agências de aceleração, como as cidades de Platão, Espinoza, Marx, Nietzsche, Foucault, que propulsionaram o movimento de tantas outras, havia uma a que inquietantemente designei por Hotel dos Mortos. E lá voltarei um dia.

Chego a um lugar chamado Manzoni. Para minha surpresa a praça principal é geometricamente centralizada por um pedestal virado ao contrário, onde se lê a inscrição: Base do Mundo, como se suportasse o Mundo-Terra-Planeta sobre o qual caminhamos. Neste gesto simbólico Manzoni transforma tudo o que está no mundo em arte, e expõe o planeta tal e qual o que ele é. Ocorre-me ao pensamento a imagem do Atlante, de nome Atlas, condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre. Ironicamente representado a sustentar o Globo Terrestre, confirmando a esfericidade da Terra, que desde a mais remota antiguidade se intuía, e que Aristóteles confirmara cientificamente, baseando-se na forma circular da sombra da terra e na intuição formal que todas as coisas se movem em círculo. A esfera é uma geometria de segurança nas grandes narrativas cosmológicas, e o cosmos – a esfera omniabrangente – é uma cosmética imaginária cuja importância será substituída pela Terra, o habitat humano, à custa da evidência observacional. Nunca mais o mar ou o céu serão olhados da mesma forma pelos humanos-terrestres, ouço dizer em Sloterdijk, onde se defende que a ontologia clássica é uma esferologia que entra decadência com as viagens dos portugueses e o sistema heliocêntrico de Copérnico. Até lá se cantam estrofes de Camões. A presença da nova máquina-mundo é o centro do canto X dos Lusíadas, em que as novas experiências derrotam o temor fantástico do desconhecido.

Um sorriso ilumina-se na minha mente ao pensar que todos nós temos um conto de Jorge Luis Borges dentro do esqueleto, ou pelo menos um pequeno osso designado por atlas! O Atlas borgiano constrói um planeta imaginário, que desdenha a geografia moral dominada pelos jesuítas, que criou a imagem da terra antes de Copérnico e da abertura à experiência. Em Borges, Vasco da Gama poderia proferir: “estou aqui, forjando um tempo para lá do tempo, onde você percorre as constelações e aprende a linguagem do universo”. Uma vez desloquei-me a um mesmo e misterioso Aleph e fiz parte de um acontecimento extraordinário: a cidade de Borges moveu-se à cidade de Lisboa.

Encontrei um “ homem que se propôs desenhar o mundo”, e “pouco antes de morrer, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto”. Borges é o geógrafo do espaço fantástico, infinito, da eternidade que se pode surpreender no meio de nós e que fala comigo e confessa que aquilo que tem mais pena na vida é não ter mostrado aos seus pais, quando eram vivos, que ele era um homem feliz. Entre os meus olhos cegos de mundo e os dele plenos de olhar clarividente, desenhou-se uma estrada que ainda hoje procuro no meu planisfério. Num voo rasante Borges acaricia-me com essas palavras: “O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de intangíveis escadas para o viajante (…) somente pode ser obra de um deus.”

Salto, corro, fujo porque não sei ainda se posso concordar. O Planeta continua rolando universo fora inaugurando o design de um novo mapa, incitando-me a salvar a carga humana e o que ela representa. Terei de partir com ela, tendo como Marte a primeira paragem, enquanto a Terra agoniza e gela mais uma vez, agora por acção do homem.

Olho para trás, mas Borges não me vê, e não me diz a que deus entregaremos, afinal, o nosso destino. Não há como aperfeiçoar a imperfeição humana, sibila-me Nietzsche. É um desvario. Quase sufocada, agarro-me ao meu tempo. Certo é que estamos condenados a comungar a preocupação de Kant e Foucault, perguntando ao universo: quem somos nós na actualidade?

30 Abr 2021

O meu rebanho de palavras

Há coisas que estão enterradas no chão da terra – pedra tumular da humanidade. Nela navegam todos os meus mortos, todos os meus vivos, desde que há passado, presente e futuro. É este o mundo do meu pastoreio, onde um rebanho de palavras se espalha e espera que as encontre, junte e lhes dê algum alimento. É preciso cavar, adubar, semear o campo para colher as bagas com que sobrevivem as metáforas, analogias e demais condimentos que servem a escrita, è preciso cuidar dos campos onde colhemos as palavras que empurram o mundo, escrevendo-me nele. Entre elas, ouço Zaratustra: Aquilo que chamastes mundo, deveis primeiro criá-lo para vós. O motor está ligado. O movimento começa no grande escorrega do mundo interior. A rampa alonga-se numa viagem vertiginosa sem se deter e entra no subsolo como se eu fosse um verme nas mãos de um poeta. Estava a ser escrita sem saber. Era apenas uma palavra a deslizar sem ruído e a sumir-se no chão, comovendo-se com a enorme dor humana. A humidade pesada e aglomerante da terra cola-se ao corpo, enterrando-me viva no pranto de todos os que sofrem pela mão de Pessanha, a mesma carga dos homens-ratos de Steinbeck que sustentam o peso da terra inatingível na sua imensa pobreza. Já sem saliva, já sem sentidos, fico a saber que para as palavras pastarem é preciso o exílio, a dor e estar longe em cada uma que se lança ao nascimento e que pode, uma vez nascida, nomear-se como coisa da linguagem. Não que esta seja a casa do ser, desculpar-me-à o humanismo de Heidegger, mas porque formata a cultura, a imagem e a experiência mundo – é o seu horizonte. Agora sei que quando a escrita acontece o corpo escreve-se, nasce e morre. E o mundo também. Sei que as palavras são capazes de se libertar dos limites da linguagem e da jaula onde estão encaceradas – formando a mancheia que prefiro.

O meu rebanho de palavras é o meu acervo, espectáculo que exige a todo o momento a representação do meu olhar de colecionadora. Como diz Sontag caso não saiba que fazer com os olhos ávidos, tem sempre ao seu dispor esse outro, sempre, próximo, interior: um livro. As palavras desfilam perante os meus olhos como coisas que me extasiam, fazendo de mim a leitora que, cada vez que lê, é escrita no folhear contínuo deste arquivo indecente. Grafada no jogo intenso do mundo das palavras desejadas, resgato-as como objectos raros e preciosos, ou protejo-as da incúria de um destino esquecido. Talvez seja apenas uma ladra, como Bukowski, que rouba e amealha no seu mealheiro feroz palavras cheias de raiva. E refaço-me internamente nas mãos que escrevem nesta outra rua de letras onde reconheço Plath e Nietzsche de mãos dadas, como se fossem estrelas a dançar para Platão, arrastando-me no horizonte – o grande escorrega do mundo. Nesta abissalidade sem dormência evolam-se as delicadas folhas de livros onde ecoam as vozes dos escritores.

A vida não vem empacotada em experiências de três actos – diz-me Joyce com quem deambulo no arquivo de citações do coleccionador de palavras que abriu sem medo a sacola de Odisseu, contra o aviso de Tirésias, libertando a mutabilidade maldita da escrita. É preciso uma nova linguagem, novas palavras do ver, pensar e dizer das personagens e fazê-las viajar de um livro para outro, como Stephen Dedalus, já de si trajeto de um mito, que vai parar a Ulisses. Encontro Molly Brown a dizer sim-à-vida, no lance em que Joyce iguala Nietzsche, retirando às palavras o veneno oculto que as faz serviçais da cristalização das formas, do sentido, da verdade – libertando a linguagem do seu papel de ilusão. Ando agora aos trambolhões nas palavras de um homem que cria a sua própria linguagem, em metamorfoses constantes, na fragmentação, discontinuidade, colagem, interrupção, num sem número de processos que anunciam, num gesto contemporâneo, a morte da narrativa como era conhecida até então.

Quando Pina Baush morre no café Muller, diante de mim, eu morro com ela. Mas o meu corpo não cai. Antes fica suspenso entre ser e não ser, como no laboratório que Melville criou para Bartleby, numa pura potência de se emancipar tanto do ser como do não-ser, e criar a sua própria ontologia, nas palavras de Agamben.

Também não quero sair de trás do biombo verde. Também preferia não o fazer… O escrivão acolhe-me no seu colo e embala-me até adormecer, ao som das letras que o escrevem enquanto se recusa a escrever.

Naquela contingência, acordo e flutuo no arquivo-linguagem que nos mantém suspensos em letras e palavras, com vontade de mobilizar outra imagem da literatura. O que interessa é a obra que fica e a cortante novidade que tenho de guardar. O meu corpo desfaz-se na escrita de Gertrude Stein e na sua montagem desabrida contra todos os costumes narrativos. Escrever é sempre uma matéria em devir, como diz Deleuze.

Estou exausta: é muita coisa para um pastor.

Ia dizer à escrita que estava cansada desta tarefa, mas o rosto meridional de Barthes debruça-se sobre as mãos que agora me escreviam: Até o momento só existe uma escolha possível, e essa escolha faz-se entre dois métodos igualmente excessivos: considerar um real inteiramente permeável à história e ideologizar; ou inversamente, considerar um real finalmente impenetrável, irredutível, e, nesse caso poetizar.

É como imagino o horizonte onde repouso a cabeça, quando a madrugada me deita sobre o mar e a terra, à espera do meu rebanho de almas nuas.

24 Jul 2020

Pelo voo dos mortos

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.

 

O meu rosto humano desaparece. O pincel destrói-o e começa uma pincelada mais larga e escura. Por pouco sou a máscara que Picasso pintou em Les Demoiselles d’Avignon. Sou quase o gesto que traiu o seu tempo. O contemporâneo é afinal a relação potencialmente infiel que o indivíduo assume com o seu tempo. Uma traição que resulta num homicídio e numa amputação de parte do presente como o conhecemos. Um enterro da luz negra que canta que não é possível desacontecer o acontecido. Soa o destino de quem se sonha contemporâneo: ser atraído pela lama que se levanta no fundo do mundo e mergulhar sem medo no encandeamento daquela luz oirente que só alguns conseguem ver. E então despertar para a morte do passado e do futuro, que o presente carrega na imparável imaginação do devir. Falo mais uma vez de luto e do ritual da sua antecipação.

Tomando o que Benjamin enunciou numa das suas teses da história – apoderar-se do passado no momento em que o perigo brilha, é fatal, acredito que existem sempre pessoas que são afectadas pela luz com a vontade, o gosto, a tendência pelo caos e não pela ordem; pelo instável e não pelo perfeito; pela máquina que muda e não pela fábrica que mantém. Nas recônditas e secretas constelações do existente, encontramos projectos que exibem este gesto exilado na falésia abismal do agora, onde se debruçam sobre a vida. Dali lançam a mão às ruínas, aos destroços, e a tudo o que está condenado à sua solidão. Monstros que abrem o presente à machadada, mineram o presente à peneirada, desenterrando toda a morte que gira no vórtice do tempo-que-tem-tanto-tempo-quanto-tempo-o-tempo-tem, até chispar no instante. O golpe é audaz – segredam-me Picasso e Duchamp – e é tão intenso de dor e alegria que às vezes é preciso voar dentro da terra e com tudo o que ela contém dentro do seu peso. Como o voo dos mortos.

Os mortos cruzam-se comigo. Adoro. Estou no mesmo lugar que da Vinci, Curie, Manet, Marx, Picasso, Duchamp, Camões, Cervantes, Proust, Dostoiewski, Holderlein, Nietzsche, Foucault, Barthes, Deleuze, Pina Bausch… Não queria pôr reticências mas é impossível continuar! E esta impossibilidade é linda! Queria dizer que os amava a todos, que os invejava, também, a todos, e que agora, era tudo diferente. É certo que a maioria destes homens fizeram do seu projecto de vida uma guerra, uma erótica, uma vaidade, whatever. Não quero saber. Mesmo que não possa afirmar que não foi o poder dos governantes que os seduziu, quero acreditar que foi o poder de ousar; de corromper a linguagem; de lutar pela liberdade e resistência à opressão.

Sucedem-se acontecimentos: barulho intenso de uma caixa que cai e de um vidro que se parte; olhar intenso de uma máscara negra que engole uma cabeça humana; gargalhadas à mistura de Duchamp e Picasso bailam nos meus roseirais negros. As rosas são intensamente caprichosas, eu sei, e exibem uns picos ameaçadores. Tento fugir. Na parte onírica da minha existência o pesadelo acentua-se. Corro por cidades, linhas férreas, becos escuros e não encontro saída. Então levanto voo, não muito alto, para me manter no campo contínuo do presente e misturo-me com outros mortos. É um tsunami heraclitiano de Aristarcos de Samos, Giordanos Brunos, gritos dos Campo dei Fiori e de Auschwitz onde a morte saúda os oprimidos. Lágrimas e gritos que contam a história por fazer dos vencidos na guerra silenciosa do existente; Exércitos que escapam ao controlo policial da razão; Batalhas travadas por fantasmas. Não uns fantasmas quaisquer. Fantasmas de gestos que foram apagados e queimados. Potências de obras que andam por aí prontas para a colheita. Sem inscrição e sem suporte fogem ao furor autofágico do presente. Encontram a passagem entre o passado e o futuro. E podem ser de novo lidos e de novo reescritos ou inventados nas obras.

Às vezes acho que são elas que nos encontram como se tivessem olhos que nos olhassem de um tempo qualquer. Como se estivessem dentro da saca de sementes que ainda não encontraram o seu jardineiro. Que ainda não foram regadas, que ainda não floriram, que nem sempre encontram os olhos que as vão colher para renascerem eternamente. São cargas potenciais á procura de quem as afague com mão de deus. Feitas demiurgicamente, falta-lhes um Timeu que as imprima. Um filósofo, artista, poeta que as lance no mundo como obra – acontecimento que destrói e declara guerra ao seu próprio tempo. É linda a guerra dos contemporâneos! Não como sujeitos que nada são em comparação com o valor ontológico das suas obras, mas por abrirem caminho onde se plantam flores de tempo num presente qualquer. Eu bem sei que ninguém pode parar no presente, como Platão bem intuía. A nossa condenação é o movimento perpétuo entre um mundo imperfeito e outro perfeito, funambulando entre homens e deuses. O nosso funambular é o desequilíbrio – viagem que enfeitou metafisicamente a humanidade, derrotando-a e enfraquecendo-a, à humanidade, no seu fátuo humanismo, para dar sentido a seres lançados no mundo para morrer. O presente não pára para receber uma obra de Bill Viola, sob pena de domesticar aquele instante e tornar-se Cultura Contemporânea. Legislada, portanto.

Como fazer? Como nos podemos impedir de trair este amante que jaz nas obras que contaminam o presente? Como podemos aceitar o presente que nos oferece no seu gesto contemporâneo sem desconfiar do seu amor? Como podemos conviver com a estranheza, ansiedade, terror, desconforto fatalidade que despeja na nossa existência. Ouço a ironia de Godard: a cultura é a regra, a arte é a excepção. Faz parte da regra querer a morte da excepção. Ajuda. Como ele prefiro acolher os criminosos que roubam o brilho de ónix oculto em tanto-tempo-quanto-tempo-o tempo-tem e, com um novo gesto artístico e poético, matam o tempo. A nova dieta cultural não pode durar mais que a vida das borboletas. E este ciclo é um oxímero perfeito: sempre novo.

11 Jun 2020

Pela mão de Duchamp

Hoje apetece-me ser uma mão, um pincel, um escopo, um martelo. Ser o que faz. De algum modo ser o pensamento matérico a rondar abusivamente o mundo. Pensei descer em Frankfurt e falar com Heidegger. Mais do que discutir o jovem ou o velho filósofo de Frankfurt, e o comprometimento com o nazismo, quer acompanhar um pensamento à mão, sobre a coisa e a arte. Falo de pesca artesanal no meio das florestas que bordejam os lagos. Não considero menor o problema deixado pelo seu silêncio mas, por bizarra ironia, ele legou ao pensamento contemporâneo a possibilidade contemporãne de reflectir sobre a arte. Melhor que ele, irremediavelmente, melhor que Heidegger, tenho Duchamp, o meu amante preferido.

Quero sempre falar com ele. Quererei sempre dormir com ele, escutando uma interioridade que me acolha na revolução absoluta. A abertura, a clareira se quisermos, é que Duchamp retira a Arte da colonização dos sentidos que a Estética, aliás Hegel, não previra. Nem Kant, na tentativa de a resgatar, como acção desinteressada, de qualquer propósito ou objectivo logocentrico. Nem Hume e Diderot, ao acrescentar-lhe uma grelha nova: o juízo de valor e o gosto. Caminhos, trajectos para encontrar uma nova pergunta sobre a arte entre a repetição dos canones e a vontade de liberdade, oscilando numa feroz tensão entre as mãos e o cérebro. Mas suspeito que procuramos solucionar o que só pode ser insoluccionado. Descanso dentro de uma mala de Duchamp e convido-me para quê? Perceber? Compreender? Aceitar? Viajar, seguramente numa nova constelação antropológica. Ao tremor romântico de Blake, acrescentamos as paixões alegres de Espinoza, as paixões arrebatadoras de Descartes, os passes semânticos no voo de borboleta da arte dita moderna, num funambulismo miraculoso mas perigoso, desde o desfazer da perspectiva, juntar culturas visuais num estranho choque perceptivo, nomear ceci n’est pas une pipe num desacordo surrealista com o sentido, esvanecendo o espaço abstratamente com todas as suas consequências, mas, sobretudo, dando lugar ao corpo e aos sentidos, desenterrando-os da ocultação metafísica da tradição ocidental.

As mãos são do corpo e, gosto de imaginar, que o corpo pensa com as mãos quando faz arte. É obviamente uma mão que espalha os dedos todos pelo mundo e cria, neste caso, mundo. Mas cheira-me ainda a ontoteologia. Este caminho não me convém. Preciso ir mais longe. Perguntar melhor. Dou a mão a Duchamp e sinto-lhe as veias dilatadas e alguma rugosidade. Caminho ao seu lado, ele ainda é novo e, sobretudo, preguiça. Não é uma preguiça qualquer. É uma vontade: não quer repetir, repetir-se, quer fazer o novo de novo (Nietzche, esse delicioso fantasma, anda sempre por aí). Encosto a cabeça no seu ombro. Heidegger, não muito longe, sorri trocista. Sinto-me perdida. Eu sou apenas uma mulher loucamente apaixonada pelo contemporâneo. Por aquilo que é próprio do contemporâneo, ouviu, Sr. Heidegger! Mas ele já desapareceu.

Não toma posição e afasta-se silenciosamente como um espectro. Sou percorrida por um arrepio gelado. Os pés pisam o tempo. Melhor os tempo insurgem-se. Sinto medo de o surfar, como no mar. Como quando a onda me empurra e me faz descer depressa demais e eu travo a descida e páro. É um medo estúpido porque se cair nem me magoo. Então o que é que me assusta? O chão ser mole. Não manter à tona o meu peso.

Quebrar a lógica da maravilhosa linha de terra ( sim porque eu desde pequena que adoro este enunciado: linha de terra é o eco da minha mãe geómetra). O tempo não tem cor. É vazio. É uma ilusão. Pode ser de qualquer dimensão. Posso inventá-lo. Os tempos abespinham-se por baixo de mim. Ali, dum cantinho inseguro plana um tapete voador. De vez em quando percorre veloz a velocidade. Ri-se de mim e manda-me umas luvas mágicas. Tenho a certeza que é Nietzsche. Só pode ser. Também gosto dele. Posso dizer que não sou uma maria-vai-com as-outras, sou mais uma maria-vai-com-eles, porque são geniais. Apaixonadamente geniais. Admiro-os e não há melhor amor que a admiração. Qualquer outro comentário da ordem da intimidade não adianto porque nunca faria parte do que que quero contar nestas minhas teorias do céu: o que é próprio do contemporâneo em arte. A admiração e o rapto que produz no espectador é sempre uma coisa própria da arte. Duchamp quererá largar-me da mão, por ter secumbido a uma vontade universal?

Deixar-me pendurada no devir sem resposta? Raios e coriscos, neblinas e chuva miudinha, estrelinhas fulgentes, beijos coloridos, carícias perdidas, palavras sacudidas, deuses, diabos, anjos, fantasmas, ruínas, nadas – tudo num vórtice medonho que nunca mais termina. A mão de Duchamp, afinal agarra-se mais à minha e salva-me daquela escalada negativa, daquela queda para lugar nenhum. O sorriso enigmático, o desenterrar das obras – porque se trata sempre de criar obras, não mundo. Nelas está a origem da arte. A sua essência, não é, Sr. Heidegger? Não brincamos aos deuses, mas aos homens que podem jogar os dados de Deus, se calhar. É divertido. Se calhar Duchamp convida-me para uma partida de xadrez. Vou perder claro, a não ser que ele desconheça a entrada à Leonel Pias, inventada anos mais tarde por um português. Talvez tenha sorte, mais sorte do que tinha quando jogava com a minha filha: ela ganhava sempre.

Mas não. A ideia dele era outra. Enfiou-me numa pintura que fez muito novo e não me consegui entender dentro dela: algum naturalismo, algum impressionismo… perdi a charada e fui cuspida daquele quadro para outro. Uau! Que diferença: estava dentro de puro movimento. Trepidante. Eu era um corpo que se desdobrava em tempo. Que estranho e que bom. Era a mão de Duchamp que me pensava enquanto corpo de mulher em movimento. Mas chegando ao topo fui cuspida para outra coisa. Fiquei presa a um vidro que se estalava. O ruído do acaso ficou congelado na minha perceção. Escorreguei num urinol que afinal estava num museu porque este meu amigo decidiu que era uma obra de arte. Depois numa caixa que se fechava e abria como uma pequeno museu, neste caso não imaginário, mas matérico. Miniaturizado. Com obras incompletas.

E depois fui cuspida para o vazio da vida. A mão de Duchamp não tinha mais nada a dizer. Mas tinha dado o pontapé de saída do grande jogo contemporâneo. O campo de forças estava traçado: as obras podiam não ser retinianas, o desouvrement do gesto contemporâneo podia desfazer, ou não, os contemporâneos que ficavam para trás como Giotto, Rembrant, Delacroix, Courbet, Manet, Degas, Cezanne, Picasso, Braque… mas nenhum deles saíu da pintura retiniana. Nenhum deles pensou a pintura como algo mais que a pintura. Na verdade ainda estavam instalados na pintura de uma pintura.

É tempo de fechar o assunto. a porta do abysmo abriu-se. A floresta é cada vez mais densa. Heidegger recorta-se lá ao fundo. Eu experimento com as minhas mãos e pinto os planos da natureza naturante, separando-os da síntese retiniana, experimentando o meu corpo naturans pelo meio a bailar com Rimbaud, outro mestre da revolução contemporânea. Serei por isso contemporânea?

9 Jun 2020

Pela mão de Duchamp

La poesie ne rytmera plus l’action. Elle sera en avant
Rimbaud

 

Hoje apetece-me ser uma mão, um pincel, um escopo, um martelo. Ser o que faz. O acto de fazer. Poeticamente ser o pensamento matérico a rondar abusivamente o mundo. Pensei descer em Franfurt e falar com Heidegger sobre a arte. Falo de pesca artesanal no meio das florestas que bordejam os lagos. Não considero menor o problema deixado pelo seu silêncio relativo ao nazismo mas, por bizarra ironia, ele legou ao pensamento estético a possibilidade contemporânea de reflectir sobre um pensamento feito à mão. Melhor que ele tenho Duchamp, o meu amante preferido. Quero sempre falar com ele. Quererei sempre dormir com ele, escutando uma interioridade que me acolha na revolução absoluta. A abertura, a clareira se quisermos, é que Duchamp retira a arte da colonização do óptico e do háptico, num passe que a Estética não equacionara.
Nem Kant, na tentativa de a resgatar, como acção desinteressada, de qualquer propósito ou objectivo logocêntrico. Nem Hume e Diderot, ao acrescentar-lhe uma grelha nova: o juízo de valor e o gosto.

Adiante. Descanso dentro de uma mala de Duchamp e convido-me para quê? Perceber? Compreender? Aceitar? Viajar, seguramente numa nova constelação antropológica. Ao tremor romântico de Blake, acrescentamos as paixões alegres de Espinoza, as paixões arrebatadoras de Descartes, os remates semânticos no voo de borboleta da arte dita moderna, num funambulismo miraculoso mas perigoso, desde: o desfazer da perspectiva; juntar num mesmo suporte culturas visuais distintas, provocando um choque perceptivo; nomear ceci n’est pas une pipe, no desacordo surrealista com o sentido linear da representação; esvanecer o espaço abstratamente com todas as suas consequências… Caminhos, trajectos para encontrar uma nova pergunta sobre a arte, entre a repetição e a diferença dos canones, oscilando numa feroz tensão entre as mãos, os sentidos e o cérebro, mas, sobretudo, desenterrando-os da ocultação metafísica da tradição ocidental até ao auge do modernismo.

Continuando. As mãos são do corpo e, gosto de imaginar, que o corpo pensa com as mãos quando faz arte. É obviamente uma mão que espalha os dedos todos pelo mundo e cria, neste caso, mundo. Mas cheira-me ainda a ontoteologia. Este caminho não me convém. Preciso ir mais longe. Perguntar melhor. Dou a mão a Duchamp e sinto-lhe as veias dilatadas e alguma rugosidade. Caminho ao seu lado, ele ainda é novo e, sobretudo, preguiça. Não é uma preguiça qualquer. É uma vontade: não quer repetir, repetir-se, quer fazer o novo de novo (Nietzche, esse delicioso fantasma, anda sempre por aí). Encosto a cabeça no seu ombro. Heidegger, não muito longe, sorri trocista. Sinto-me perdida. Eu sou apenas uma mulher loucamente apaixonada pelo contemporâneo. Por aquilo que é próprio do contemporâneo, ouviu? Mas ele já desapareceu sem tomar posição e afasta-se silenciosamente como um espectro. Sou percorrida por um arrepio gelado. Os pés pisam o tempo onde os tempos se insurgem e se abespinham por baixo de mim. O tempo não tem cor. É vazio. É uma ilusão. Pode ser de qualquer dimensão. Posso inventá-lo. Sinto medo de o surfar, como quando estou no mar e a onda empurra e faz descer depressa demais a prancha e eu travo a descida e páro o movimento. É um medo infundado porque se cair nem me magoo. Então o que é que me assusta? O desvão inclinado do chão mole que pode não manter o meu peso à tona.

Ali, dum cantinho seguro do Todo, plana um tapete voador. De vez em quando percorre veloz a velocidade. Ri-se de mim e manda-me umas luvas mágicas. Tenho a certeza que é Nietzsche. Só pode ser. Também gosto dele. Posso dizer que não sou uma maria-vai-com as-outras, sou mais uma maria-vai-com-eles, quando são geniais. Apaixonadamente geniais. Admiro-os e não há melhor amor que a admiração. Qualquer outro comentário da ordem da intimidade não adianto porque nunca faria parte do que que quero contar nestas minhas teorias do céu: o que é próprio da arte no tempo contemporâneo.

Atenção, não te distraias! Duchamp quererá largar-me da mão, por ter sucumbido a uma vontade universal? Deixar-me pendurada no devir sem resposta? Raios e coriscos, neblinas e chuva miudinha, estrelinhas fulgentes, beijos coloridos, carícias perdidas, palavras sacudidas, deuses marxistas, diabos, anjos, fantasmas, ruínas, nadas – tudo num vórtice medonho que nunca mais termina. A mão de Duchamp, afinal agarra-se mais à minha e salva-me daquela escalada negativa, daquela queda para lugar nenhum. O sorriso enigmático, o desenterrar das obras – porque se trata sempre de criar obras, não mundo. Nelas está a origem da arte. A sua essência, não é, Sr. Heidegger? Não brincamos aos deuses, mas aos homens que podem jogar os dados de Deus, se calhar. É divertido. Se calhar Duchamp convida-me para uma partida de xadrez. Vou perder claro, a não ser que ele desconheça a entrada à Leonel Pias, inventada anos mais tarde por um português. Talvez tenha sorte, mais sorte do que tinha quando jogava com a minha filha: ela ganhava sempre.

Mas não. A ideia dele era outra. Enfiou-me numa pintura que fez muito novo. Não me consegui concentrar dentro dela: algum naturalismo, algum impressionismo… Perdi a jogada e fui cuspida daquele quadro para outro. Uau! Que diferença: estava dentro de puro movimento. Trepidante. Eu era um corpo que se desdobrava em tempo. Que estranho e que bom. Era a mão de Duchamp que me pensava enquanto corpo de mulher em movimento. Mas, chegando ao topo, fui atirada para outra coisa. Fiquei presa a um vidro que se estalava. O ruído do acaso ficou congelado na minha perceção. Escorreguei num urinol que afinal estava num museu, porque este meu amigo decidiu que era uma obra de arte. Depois numa caixa que se fechava e abria como uma pequeno museu, neste caso não imaginário, mas matérico. Miniaturizado. Com obras incompletas. E depois fui cuspida para o vazio da vida. A mão de Duchamp não tinha mais nada a dizer. Mas tinha dado o pontapé de saída do grande jogo contemporâneo da arte. O novo campo de forças estava traçado: as obras podiam não ser retinianas, o desouvrement do gesto contemporâneo podia desfazer, ou não, os contemporâneos de todo o tempo, como Giotto, Rembrant, Delacroix, Courbet, Manet, Degas, Cezanne, Picasso, Braque… Apesar da admiração que sinto por eles, por me raptarem ao mundo, nenhum deles fez a pintura como algo mais que a pintura e o seu suporte, nenhum deles me libertou da pintura retiniana. O meu grito de fuga escapava-se noutros gritos dentro do arquivo dos gestos contemporâneos de todos os tempos. A revolução está a postos para dessacralizar, re-utilizar, destruir e libertar o gesto do exercício de um poder exterior. Doravante o poder origina-se na obra. Não há nada a legitimar porque cada obra é uma viagem de diferenças, distinções, novidades, refutações, explorando o avesso dos arquivos, os arquivos por existir ou destruindo-os, tão somente. Neste fazer/desfazer, a instalação e a performatividade espreita, aqui e ali. Um quadro de Marx Ernst anuncia o dripping de Pollock, a história contemporânea da pintura anuncia-se a ela mesma, pintando-se, fazendo-se, corpo-a-corpo com o corpo. Cada obra é uma mónade, um pensamento mas não um conceito. Já não agrega, nem ensina. Antes viaja sozinha.

É tempo de fechar o assunto. A porta do abysmo abriu-se. A floresta é cada vez mais densa. Heidegger recorta-se lá ao fundo. Eu experimento com as minhas mãos e pinto os planos da natureza naturante, separando-os da síntese retiniana, e gostaria ainda de experimentar o meu corpo naturans, pelo meio, a bailar ao ritmo da poeisis silenciosa de Rimbaud. Outro mestre da revolução contemporânea. Serei por isso contemporânea?

2 Abr 2020

O meu cavalo chama-se Nietzsche

“Olhos de transeuntes da loucura: em vós desaguam os restantes olhares”
Paul Celan

Há um brilho no tempo que cega. A cintilação é-nos dirigida e nunca atinge o presente, segundo Agamben. E os amaldiçoados que não se deixam cegar pelas luzes do século só podem ver de longe. Do alto. Do Céu. Talvez por isso tenha gostado sempre do título Teorias do Céu. E roubo-o para este e outros textos que hão-de vir a trote e a galope de cavalo.

O ar fresco lava-me a cara, enquanto o passeio montado ganha asas. Posso gritar a plenos pulmões: obrigada Kant, doce inimigo de alguns. Deliro porque lhe roubei um enunciado tão belo. Que ousadia a minha!

Escorrego vertiginosamente no tempo. É urgente! Tenho de chegar precisamente às 15h a Konigsberg. Não posso deixar de rir. Parece um sonho, eu sei – mas, como sabemos, dos sonhos só é preciso despertar – desagrilhoar. Vou despedir-me do filósofo que libertou a razão de Deus, lançando a moral dele, daquele desavindo Deus, na experiência. Golpe baixo na metafísica — a bem do pensamento, o mal da vida! Como Bartleby, preferia não receber nenhuma moral prescrita por aquele Deus. Prefiro não o ter por companhia eterna.

Volto a ser arrastada para os céus. O movimento alado deixar-me-ia descansar? O mundo escureceria o suficiente para eu adormecer, sonhar, despertar de novo para ver melhor? E seria despertada por quem? Por Duchamp? Adorava! Contando que ele tivesse a infinita delicadeza de me olhar com aqueles olhos de águia embelezados de inteligência, e nos deliciássemos a comentar a forma pertinente como laminou e revolucionou o princípio do nosso século XX. Ou ser desperta por Marx, acusando-me de sonhar a história em vez de ter consciência dela! Se assim fosse, acatava. Como podia discordar do homem que criminalizou a burguesia por afogar o velho mundo nas “águas geladas do cálculo egoísta”? Como podia recusar um beijo ao homem que sonhou a simbolização igualitária e emancipatória? Sucumbiria perante as barbas, o cheiro a velho e passaria a noite a tentar perceber porque falhou o projecto comunista! Há quem diga que foi assassinado, o projecto. Onde estávamos todos, os que podiam ter feito alguma coisa? Lamentavelmente quando o modelo antropológico é fracturado, nem sempre conseguimos ser contemporâneos. A anomia resultante gera guerrilhas incalculáveis. E muitas vezes os fantasmas é que lutam sozinhos nestes campos de batalha onde elementos pregnantes, entre sangue e pranto, geram um mundo novo. Marx estava ciente da violência deste nascimento. O óbito do passado ficaria como fantasma resiliente pronto a atacar em qualquer momento em que os contemporâneos descansassem e fechassem os olhos. É preciso ser águia e falcão ao mesmo tempo. Ver sem qualquer miopia estéril. Ter o gesto tão afiado politicamente e preciso eticamente, como uma lâmina de bisturi para não falhar o compromisso contemporâneo com a ruptura. Não, não há descanso possível.

Levantamos voo de novo. Como Montesquieu, Nietzsche e tantos outros, é preciso aprender a ver montado nas estrelas. O meu olho esquerdo olha para trás, enquanto nos esgueiramos em força para a frente. O meu olho direito para a frente. Os dois, estrabicamente, convergem no presente. É um grande esforço atar estas duas órbitas, estes dois arquivos, um morto e um por viver, e dar-lhes, oximaramente, um sentido. Uma coisa é certa, na tarefa difícil do etnógrafo do presente, prefiro não fazer parte dos legisladores do pensamento e fixar-me nos estilhaços que fundam a crise, que estão ali por ligar, rematar, completar ou ser indiferente. A constelação que resulta de tudo isso é infixa, o referencial que a move é infixo. O verbo que a comanda é imprevisível. Instala-se um boomerang imparável, um caleidoscópio imparável, um ruminar imparável, como se mastigássemos o tempo e o regurgitássemos. Não é um caso de subjectividade, mas de urgência de “voltar a um presente em que jamais estivemos”.

O cavalo finalmente adormeceu. Imagino que sonha. Quando quiser partir desperto-o e peço-lhe que conte o seu sonho na língua da natureza a que ambos pertencemos. Estremece, coitado. Deito-me no seu dorso, não tanto para ter calor, mas para o sossegar. Não o quero ver sofrer. Entre as coisas do mundo, algumas merecem amor. Adormeci no seu colo. Sonhei com Nietzsche. Melhor, sonhei que o meu cavalo falava comigo intempestivamente, dizendo que a sua época padecia de um mal, “um defeito do qual justamente se orgulha”. E também que um tal Barthes iria dizer que “o contemporâneo é intempestivo” e não um momento cronológico da história. Bem me parecia que não podemos ensacar o tempo na eternidade linear porque ele não é objecto de domesticação. Como se estivesse num Western, o meu cavalo relincha, abre as asas de Pégaso e leva-me de volta ao mar. É bom sobrevoá-lo, cheirá-lo e fechar os olhos sob a plúmbea superfície, antes das rebeldes espumas esbranquiçadas anunciarem as grandes vagas e medonhos abysmos. Mesmo de longe sinto receio quando a superfície coesa e pacífica do oceano se altera, desenhando outro mapeamento e outro enredamento, porque não sei se o mundo é o mar que se agita ou o meu corpo que receia.

A veloz besta em que se tinha tornado a minha montada, não me permitia parar. Queria repousar deste desassossego, mas assalta-me um poema de Celan: “vejo tanta coisa de vós/ que não vejo mais / do que ver”, como se tivesse na bagagem um telescópio inoportuno que me libertasse do real pelo próprio acto de ver. Como uma Poeisis, o contemporâneo liberta-se da história, e enquadra o real onde os mortos “brotam e florescem” como modificadores de tempo em acontecimentos a-históricos. Dir-se-ia que o tempo morre no presente, por isso não se pode parar para olhá-lo frente-a-frente. É-se condenado a um olhar distante para assistir ao luto do tempo que se despede de outro tempo no próprio presente, numa kronostipia efervescente e desregrada. Neste desesperado exílio qualquer reflexo devolve ao olhar trágico do contemporâneo um requiem ao humanismo.

Somos agora um rosto informe, fractal à procura de um mundo que nos deseje e reconheça os sinais como a ama de Ulisses. Mas as minhas mãos, as minhas orelhas, os meus olhos, os meus pés desconfiam uns dos outros. Que rosto é aquele que olha fixamente os fantasmas do tempo que refulgem no presente? Que reclama pelo não vivido ainda? Que se materializa no que está por acontecer? Que olhos são aqueles que são capazes de mergulhar o olhar nas trevas do presente? Na dor, na lancinante dor? É esta a almejada condição de ser contemporânea?

19 Fev 2020