Nas minhas mãos agito um Globo de Sangue

Calvino: O olhar percorre ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz…

 

Caso acompanhem os contos das minhas Teorias de Céu – que as originais foram escritas por Kant, como é uso saber-se – já viajaram no planisfério neles emergente e percorreram cidades baptizadas com o nome de poetas, filósofos e artistas, que espantaram e comoveram a minha vida. Ao contrário do mapa-mundi perfeito de Cassini, neste os topoi escolhidos coexistem e até se movimentam, criando a famosa rota das urbes moventes, sem o fechamento e conservadorismo das culturas nómadas. Nesta teia esburacada da humanidade que se lê, localizo os continentes preferidos da minha geografia: Arte, Música, Literatura, Filosofia, Teatro, Cinema. Como um geógrafo atento, fui ver de perto e depois, já longe, mediante uma certa distância e perspectiva, risquei os mapas à escala das mãos e do olhar humano. No labor paciente de um escriba ou de um iluminarista, represento-os entre os mares Divino, Empírico, Racional, já sem respeitar as proporções elegantes de Ptolomeu, e de todos os Globos de Sangue que escreveram o mundo nascido dos Descobrimentos. Sabe a ferro esta história de dor e conquista, nas mãos de descobridores-ocupantes, alheios ao duplo abismo cosmológico e etnológico que os capturava também, à medida que domesticavam o espaço capturado nos Globos Terrestres. Nesses media visual dominante de seiscentos, vemos como a humanidade encontra a imagem da sua habitabilidade, ocupando os vazios desconhecidos, focando-se e desfocando-se em dispositivos prováveis e cada vez mais universais, concebendo o mundo como uma grande instalação humanista.

Eu sigo o meu plano que não se amordaça no nexo do real. Encaro Heraclito como uma das primeiras comunidades que se desloca, e Parménides como aquela que primordialmente nos reflectiu, quando o tempo vira espelho do ser e não sal destruidor. Sinto-me confiante. Atravesso o Mar Empírico, num barco viking ou numa caravela portuguesa – ambos prisioneiros da História e da Literatura. É verdade que cada obra dita uma tomada de território, uma guerra aberta, entre os vencedores e vencidos. É também verdade que as fronteiras aumentam e encolhem ao sabor de uma geografia do imaginário. E não se usam cruzeiros e baldaquinos, como se ouviu dizer em Sloterdijk, para marcar a terra como gado numa ganaderia ou mulher num bordel, numa profunda desontologização das margens fixas. Não.

No meu globo, que é diferente do de Berhaim, há cidades parturientes, que geram nascimentos do que mais belo resta na humanidade, desde Confúcio, Platão, Cícero, Averróis… Outras há, mais recentes, que se olham uma à outra, como Benjamin e Baudelaire… E ainda as que se apaixonam, afastam, odeiam, como Rimbaud e Verlaine. Nestes partos nascem obras magníficas – é esta a função de se estar neste meu Mundo que está mais interessado “em cortejar o infinto” “implantando o impossível no real”, “criativamente, sem sucumbir às rotinas nocivas” do universalismo. E entre planícies, planaltos e vulcões, tive consciência que, para além de autênticas agências de aceleração, como as cidades de Platão, Espinoza, Marx, Nietzsche, Foucault, que propulsionaram o movimento de tantas outras, havia uma a que inquietantemente designei por Hotel dos Mortos. E lá voltarei um dia.

Chego a um lugar chamado Manzoni. Para minha surpresa a praça principal é geometricamente centralizada por um pedestal virado ao contrário, onde se lê a inscrição: Base do Mundo, como se suportasse o Mundo-Terra-Planeta sobre o qual caminhamos. Neste gesto simbólico Manzoni transforma tudo o que está no mundo em arte, e expõe o planeta tal e qual o que ele é. Ocorre-me ao pensamento a imagem do Atlante, de nome Atlas, condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre. Ironicamente representado a sustentar o Globo Terrestre, confirmando a esfericidade da Terra, que desde a mais remota antiguidade se intuía, e que Aristóteles confirmara cientificamente, baseando-se na forma circular da sombra da terra e na intuição formal que todas as coisas se movem em círculo. A esfera é uma geometria de segurança nas grandes narrativas cosmológicas, e o cosmos – a esfera omniabrangente – é uma cosmética imaginária cuja importância será substituída pela Terra, o habitat humano, à custa da evidência observacional. Nunca mais o mar ou o céu serão olhados da mesma forma pelos humanos-terrestres, ouço dizer em Sloterdijk, onde se defende que a ontologia clássica é uma esferologia que entra decadência com as viagens dos portugueses e o sistema heliocêntrico de Copérnico. Até lá se cantam estrofes de Camões. A presença da nova máquina-mundo é o centro do canto X dos Lusíadas, em que as novas experiências derrotam o temor fantástico do desconhecido.

Um sorriso ilumina-se na minha mente ao pensar que todos nós temos um conto de Jorge Luis Borges dentro do esqueleto, ou pelo menos um pequeno osso designado por atlas! O Atlas borgiano constrói um planeta imaginário, que desdenha a geografia moral dominada pelos jesuítas, que criou a imagem da terra antes de Copérnico e da abertura à experiência. Em Borges, Vasco da Gama poderia proferir: “estou aqui, forjando um tempo para lá do tempo, onde você percorre as constelações e aprende a linguagem do universo”. Uma vez desloquei-me a um mesmo e misterioso Aleph e fiz parte de um acontecimento extraordinário: a cidade de Borges moveu-se à cidade de Lisboa.

Encontrei um “ homem que se propôs desenhar o mundo”, e “pouco antes de morrer, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto”. Borges é o geógrafo do espaço fantástico, infinito, da eternidade que se pode surpreender no meio de nós e que fala comigo e confessa que aquilo que tem mais pena na vida é não ter mostrado aos seus pais, quando eram vivos, que ele era um homem feliz. Entre os meus olhos cegos de mundo e os dele plenos de olhar clarividente, desenhou-se uma estrada que ainda hoje procuro no meu planisfério. Num voo rasante Borges acaricia-me com essas palavras: “O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de intangíveis escadas para o viajante (…) somente pode ser obra de um deus.”

Salto, corro, fujo porque não sei ainda se posso concordar. O Planeta continua rolando universo fora inaugurando o design de um novo mapa, incitando-me a salvar a carga humana e o que ela representa. Terei de partir com ela, tendo como Marte a primeira paragem, enquanto a Terra agoniza e gela mais uma vez, agora por acção do homem.

Olho para trás, mas Borges não me vê, e não me diz a que deus entregaremos, afinal, o nosso destino. Não há como aperfeiçoar a imperfeição humana, sibila-me Nietzsche. É um desvario. Quase sufocada, agarro-me ao meu tempo. Certo é que estamos condenados a comungar a preocupação de Kant e Foucault, perguntando ao universo: quem somos nós na actualidade?

30 Abr 2021

Era uma vez uma sombra que fugiu da parede…

“Os poetas , como os cegos, podem ver no escuro”
Jorge Luis Borges

Entrei numa gruta sem saber onde estava. Os gritos do imperador ecoavam de dor, enquanto os seus olhos se derramavavam nas sombras da sua concubina preferida, reminiscências daquelas que Platão aprisionara na sua caverna. Simulacros lançados na indifinida coreografia que iria reger o ocidente e o oriente, ao compasso de incertas dramaturgias entre transcendência e imanência. Deitei-me, fechei os olhos e disse para mim mesma: daqui não saio, daqui ninguém me tira. O real ensopado de mil chuvas e corroído por mil vermes ficava de fora. Eu ficava dentro, no lugar onde todo o espaço explodia e se guardava no meu olhar, qual porto onde ancorava um desejo antigo, muito antigo de cinema, antropologicamente antigo e aparelhado pelas mãos de Dédalo. Uma vontade de ver imagens correndo em continuidade e animadas pelo vento.
O cinema era o Outro, deste outro tempo anterior que já não estava ao alcance da minha mão, mas do encantatório Rosebud sussurado por Orson Welles, hipnotizando o fundo do meu pathos. Fui afectada pelos ecrãs dos cinemas, viajei por muitas cidades cinematográficas desde Griffith, Lang, Ford, Mizoguchi, Renoir… foram dias felizes. Na verdade as metrópoles mais belas da carta-khôra destes meus contos, são acontecimentos, metamorfoses semânticas, rasgos no céu e no devir. Como os gregos, nada somos se não vivemos numa cidade e, diferentemente deles, o que nos atrai, contemporaneamente, é o desvio do que já aconteceu e nos conduz para mais longe, na direcção de um não acontecido – o horizonte poético da potência. As minhas cidades são erguidas pelos artífices e artesãos da arte e porta voz de uma energia urgente e inadaptada, e as cinematográficas rompem a parede onde estão as sombras, passam para o real e para o sonho de uma sombra, percorrendo a extensa região de Píndaro.
Eclipsando a importância da Sagrada Família ou da Casa Milá de Gaudi, as notas em sol triste, que ecoavam num beco, atrairam-me como uma fêmea com cio para a cave escura onde Tete Monteliu improvisava ao piano. Connosco o clube ficou com 3, 4 pessoas no máximo, numa total escuridão. Embora o jazz fosse um país que conhecia há muito, e do qual podia desenhar o mapa quase de olhos fechados, lembro-me bem como fiquei emocionada. Tudo o que interessava naquele momento eram as mãos que inquietavam aquelas teclas num misteroso processo, improvisando.
É esta a figura do trabalhador que habita as cidades do meu planisfério. O que contraí o síndrome de improvisar como um actor, um músico, um filósofo, e de inventar como um cientista, ensaiar como um pensador… Neste síndrome, vários sintomas sem causa e sem resposta, disparam, emergem, contaminam as sombras negras daquela cave, revelando um corte, uma inadequação, uma esperança, uma guerra. Suspeitava, claro, da violência com que tudo se arquitectava, o que confirmei nas inúmeras visitas que fiz como viajante, a Brecht, Godard, Viola, onde grandes revoluções foram projectadas. Pouco a pouco, o trabalho das sombras fez de mim testemunha de um passe de magia em que o logos foi conquistado pela imagem, soltando-a agora da black-box e expandindo o que o cinema, afinal, nunca pôde prometer. Por todo o lado, o reflexo narcísico e predador invade territorialmente o mundo, numa expansão imperial sem precedentes, na rede, na white-box dos museus, no teatro, nas instalações, nas televisões das casas, nos computadores, nos telemóveis… e, confesso, até tenho medo que a hybris tecnológica mobilizada pela imagem, se torne tão omnipresente que nos possa cegar.
Voltei à gruta onde encontro Winona Ryder, imóvel durante 30 minutos, enquanto Bob Wilson ajusta as luzes até a imagem de Dias Felizes desaparecer na escuridão. Fecho os olhos e vejo o último plano de Trás os Montes de António Reis: um homem afasta-se em profundidade na paisagem como se fosse parte de um tempo sem ponteiros. Quem é o outro inventado pelo cinema quando devolve, não a coisa em si, mas a coisa constituída de inesperadas qualidades da mediação? O que muda agora, quando a sombra que se solta da parede continua presente na sua travessia, mesmo quando abandona a projecção numa sala de cinema?
Já de partida, e sem resposta, sonho com Diotima que nasce do negror clássico e me traz numa caixinha de berlindes a memória de Eros. Mais do que deus da ligação, ele é aquele que é capaz de tornar visível o que não está ligado, aparelhando tecnicamente a circulação das imagens, transformando-as na mais poderosa carga de afecção do mundo actual. Como ser intermediário, Eros captura o síndrome da visibilidade irreversível, num movimento de sombras nunca visto. Identifica os sintomas num mundo agora prometido ao Maelstrom de Poe, que é preciso, se calhar, preencher com imagens que não eram previsíveis ou que estavam ocultas e desligadas no anterior regime de virtualização do mundo. Imagens que são agora o que nos securiza na grande queda da vida e se soltam e correm em todo o terreno possível.
Ao contrário de Platão, que temia que a escrita matasse a memória, eu, afinal, não temo que as imagens ceguem o mundo. Sei que os corpos terão de levar para longe, muito longe, esta carga, em subtis remediações de imagens neste mundo medial. Mas nunca esqueço que Murnau ainda é a cidade onde encontro a mais bela e triste aurora…

13 Mar 2021

Era uma vez uma sombra que fugiu da parede…

Aurora, Murnau -1927
“Os poetas , como os cegos, podem ver no escuro”
Jorge Luis Borges

Entrei numa gruta sem saber onde estava. Os gritos do imperador ecoavam de dor, enquanto os seus olhos se derramavavam nas sombras da sua concubina preferida, reminiscências daquelas que Platão aprisionara na sua caverna. Simulacros lançados na indefinida coreografia que iria reger o ocidente e o oriente, ao compasso de incertas dramaturgias entre transcendência e imanência. Deitei-me, fechei os olhos e disse para mim mesma: daqui não saio, daqui ninguém me tira. O real ensopado de mil chuvas e corroído por mil vermes ficava de fora. Eu ficava dentro, no lugar onde todo o espaço explodia e se guardava no meu olhar, qual porto onde ancorava um desejo antigo, muito antigo de cinema, antropologicamente antigo e aparelhado pelas mãos de Dédalo. Uma vontade de ver imagens correndo em continuidade e animadas pelo vento.

O cinema era o Outro, deste outro tempo anterior que já não estava ao alcance da minha mão, mas do encantatório Rosebud sussurado por Orson Welles, hipnotizando o fundo do meu pathos. Fui afectada pelos ecrãs dos cinemas, viajei por muitas cidades cinematográficas desde Griffith, Lang, Ford, Mizoguchi, Renoir… foram dias felizes. Na verdade as metrópoles mais belas da carta-khôra destes meus contos, são acontecimentos, metamorfoses semânticas, rasgos no céu e no devir. Como os gregos, nada somos se não vivemos numa cidade e, diferentemente deles, o que nos atrai, contemporaneamente, é o desvio do que já aconteceu e nos conduz para mais longe, na direcção de um não acontecido – o horizonte poético da potência. As minhas cidades são erguidas pelos artífices e artesãos da arte e porta voz de uma energia urgente e inadaptada, e as cinematográficas rompem a parede onde estão as sombras, passam para o real e para o sonho de uma sombra, percorrendo a extensa região de Píndaro.

Eclipsando a importância da Sagrada Família ou da Casa Milá de Gaudí, as notas em sol triste, que ecoavam num beco, atraíram-me como uma fêmea com cio para a cave escura onde Tete Monteliu improvisava ao piano.

Connosco o clube ficou com 3, 4 pessoas no máximo, numa total escuridão. Embora o jazz fosse um país que conhecia há muito, e do qual podia desenhar o mapa quase de olhos fechados, lembro-me bem como fiquei emocionada. Tudo o que interessava naquele momento eram as mãos que inquietavam aquelas teclas num misteroso processo, improvisando.

É esta a figura do trabalhador que habita as cidades do meu planisfério. O que contraí o síndrome de improvisar como um actor, um músico, um filósofo, e de inventar como um cientista, ensaiar como um pensador… Neste síndrome, vários sintomas sem causa e sem resposta, disparam, emergem, contaminam as sombras negras daquela cave, revelando um corte, uma inadequação, uma esperança, uma guerra. Suspeitava, claro, da violência com que tudo se arquitectava, o que confirmei nas inúmeras visitas que fiz como viajante, a Brecht, Godard, Viola, onde grandes revoluções foram projectadas. Pouco a pouco, o trabalho das sombras fez de mim testemunha de um passe de magia em que o logos foi conquistado pela imagem, soltando-a agora da black-box e expandindo o que o cinema, afinal, nunca pôde prometer. Por todo o lado, o reflexo narcísico e predador invade territorialmente o mundo, numa expansão imperial sem precedentes, na rede, na white-box dos museus, no teatro, nas instalações, nas televisões das casas, nos computadores, nos telemóveis… e, confesso, até tenho medo que a hybris tecnológica mobilizada pela imagem, se torne tão omnipresente que nos possa cegar.

Voltei à gruta onde encontro Winona Ryder, imóvel durante 30 minutos, enquanto Bob Wilson ajusta as luzes até a imagem de Dias Felizes desaparecer na escuridão. Fecho os olhos e vejo o último plano de Trás os Montes de António Reis: um homem afasta-se em profundidade na paisagem como se fosse parte de um tempo sem ponteiros.

Quem é o outro inventado pelo cinema quando devolve, não a coisa em si, mas a coisa constituída de inesperadas qualidades da mediação? O que muda agora, quando a sombra que se solta da parede continua presente na sua travessia, mesmo quando abandona a projecção numa sala de cinema?

Já de partida, e sem resposta, sonho com Diotima que nasce do negror clássico e me traz numa caixinha de berlindes a memória de Eros. Mais do que deus da ligação, ele é aquele que é capaz de tornar visível o que não está ligado, aparelhando tecnicamente a circulação das imagens, transformando-as na mais poderosa carga de afecção do mundo actual. Como ser intermediário, Eros captura o síndrome da visibilidade irreversível, num movimento de sombras nunca visto. Identifica os sintomas num mundo agora prometido aos Maelstrom de Poe, que é preciso, se calhar, preencher com imagens que não eram previsíveis ou que estavam ocultas e desligadas no anterior regime de virtualização do mundo. Imagens que são agora o que nos securiza na grande queda da vida e se soltam e correm em todo o terreno possível.

Ao contrário de Platão, que temia que a escrita matasse a memória, eu, afinal, não temo que as imagens ceguem o mundo. Sei que os corpos terão de levar para longe, muito longe, esta carga, em subtis remediações de imagens neste mundo medial. Mas nunca esqueço que Murnau ainda é a cidade onde encontro a mais bela e triste aurora…

10 Mar 2021

Conto 2

Tenho um olimpo de bolso onde moram o clássico, o moderno…
Coro: Sou solidário: como, sem alguém que o assista, sem um sócio que o esguarde, infeliz, sozinho sempre, padece de moléstia que não cede…

Neoptólemo: Começo pelo início: somos gregos, se é isso o que desejas conhecer.
Filoctetes: Que som subtil! Depois de tanto tempo, ouvir desse rapaz a doce música.

Estou deitada de costas de olhos postos no céu, como se ele fosse o grande atlas de todas as cidades que planeei conhecer nestes contos. O céu, não sei onde termina, mas sei que é do tamanho do meu olhar. Lá se projectem as imagens do Olimpo, que contemplo da humilde plateia planetária. Está tudo ali desde a primordial angústia, o primitivo som, o original risco, a grávida palavra, o primigênio grão semeado, o inconfudível símbolo orto-gráfico, a paradigmática sedentarização, a linguagem que nos permite, entre outros, ao trágico e à cidade.

Anseio que se soltem na tela do destino todos os pequenos olimpos que os humanos guardam no bolso, libertando performativamente a figuralidade, entre passados, presentes, e futuros, na valsa da realidade que nenhuma linguagem pode captar totalmente. O baile, devassando poeticamente a experiência, remete as obras para a empiricidade e para as imagens, que se instalam na crosta volúvel e caprichosa da Terra, o singular acontecimento que nos move no mundo.

Em profundidade, a cena ganha a cor dos belos cabelos de Ariadna quando entrega a Teseu o fio que, mais do que salvá-lo no labirinto, o salva da natureza que ela representa e, traindo-a, o herói afirma a isonomia e a polis. Vendo isso, Dionísio, deus da potência e do irracional, casa-se com a princesa abandonada por Teseu e dá-lhe filhos. Mais tarde, mata-a, projectando para sempre no céu a constelação da figura trágica de Ariadna. O labirinto pode ser Dionísio, mas pertence ao touro -“besta que desatrela a vida e que a afirma na legitimidade da ocupação do seu labirinto”- como segreda Deleuze. Certo é ser um lugar sempre inaugural: cada vez que se avança, entre figuras, fantasmas e corpos, a natureza incontrolável da experiência renova-se nas entradas, corredores e clareiras, onde afinal não nos perdemos, mas retornamos nietzscheanamente.

Numa voluntariosa afirmação, Sófocles, o cidadão da polis grega, e Godard, saído da multidão contemporânea, entram em cena, opondo dramaturgicamente a cidade que ganha, à cidade que nos perde. A imagem é refractada e desfocada pelo choro que inquieta as urbes quando a tradição se quebra, e novas linguagens emergem. A Tragédia, quando a cidade está na aurora da sua positividade com o nascimento da Polis Grega; o Cinema, quando a cidade moderna enfrenta o seu primeiro momento de crise e negatividade, como é a Paris de Baudelaire e Benjamin. Neste devir solta-se um testamento que não é destinado ao futuro, como desconfia Char, mas deixa herança desde que romperam na terra a divisão entre os que veem e os que actuam, criando uma comunidade específica: a dos espectadores, separados fisicamente do palco ou do ecrã. A luz baixa, e dois offs – que os textos também os têm – juntam-se à cena.

Aristóteles (OFF): A plateia é a comunidade de cidadãos…
Barthes(OFF): … que provavelmente conhecem as tragédias que vão assistir. Como se uma grande faca tombasse sobre a experiência, a mão grega corta ontologicamente com a totalidade mítica do mundo. Numa paideia cívica sem precedentes a Tragédia exorta a universalidade racional da acção humana e persuasão dos cidadãos pela palavra, no espaço público da polis.

Vernant e Barthes confirmam que as perguntas dramatúrgicas expressam o novo quadro cívico e se distanciam das antigas respostas míticas. O fio de Ariadna ligava, afinal, dois mundos cuja separação foi mobilizada politicamente na Tragédia, celebrando com os contemporâneos a superioridade do novo mundo grego.

Como um tremor de terra, 2000 anos depois, a crescente velocidade tecnológica acelera e instabiliza a experiência, esfacelando o espaço público clássico, actualizando um modo de ver adequado à vivência moderna: tempo descontínuo, espaço fragmentado, montagens rápidas de imagens e sons, numa estética do choque. O cinema é a escola desta nova forma de percepção, “aquilo que os gregos designavam por estética”. Benjamin deixa claro que a “percepção da colectividade humana transforma-se ao mesmo tempo que o seu modo de existência”.
Benjamin(OFF): A plateia do cinema é uma multidão que perde a capacidade de contemplação e se conforma em ser um colectivo de espectadores distraídos e alienados.

Num mesmo lance, defrontam-se as raízes do clássico e do moderno e estremeço porque sou ávida desta dilogía em que balança a positividade e negatividade da civilização ocidental, desde o seu berço à sua forma contemporânea. O cinema representa o “inconsciente visual” da sua época, como “um caleidoscópio dotado de consciência dos “perigos existenciais mais intensos com os quais se confronta o homem contemporâneo” e a função política do cinema, “não está em condicionar espectadores distraídos, mas em descondicionar espectadores manipulados. O grande cinema é crítico, não mobilizador”, palavras de Benjamin com ressonância criativa em Godard, que se inspira também na vontade do filósofo de conceber uma obra a partir de arquivos, citações, montagem, constelações, e que se ergue de novo no palco deste meu pequeno olimpo.

Godard: o cinema foi a fábrica do século XX e do mundo contemporâneo!
Vernant: A tragédia foi a fábrica do século V e do mundo grego! Do homem trágico que morre de temor de não viver na cidade.

Num interlúdio trágico as figuras valsam neste céu de veludo que somos nós a
pensar. Porque o pensamento está sempre a recomeçar.

11 Fev 2021

O flâneur, conto1

“Ce quelque chose q’on nous permetra d’appeler modernité”
Baudelaire

 

Moro em Baudelaire e gostava de dizer que nasci lá – naquele reino que me enche de comoção – mas nasci noutro lugar que não quero revelar para já. O que urge agora é ser o habitante daquela cidade parida num acto de escrita, e largar o meu corpo no passeio bouleversant das suas palavras, autênticas pontadas de civilização no meu coração nu, sangue de uma nova espécie de humanos: o flâneur que deambula sem profissão nem destino entre boulevards, quartiers, passages subtis e mergulhar “na multidão como um imenso reservatório de electricidade”. E a multidão, como ouvi em Benjamin, “é o véu flutuante através do qual Baudelaire vê Paris”. Ando e desando na cidade e, como numa atracção melíflua, vou sempre parar a Les fleurs du mal – bairro de Baudelaire onde me tenho embebedado, drogado e feito amor com a multidão, desposando-a em cada visita. A cidade é o espaço em que me quero mover para extrair a matéria prima que me interessa: o eterno do transitório na grande fábrica de choques que rege a cidade moderna na “realização do antigo sonho do labirinto” que o flâneur persegue, segundo também encontrei em Benjamin.

Benjamin é também uma cidade que visito com frequência, guiada pela minha carta-do-mundo. Nas últimas décadas foram escavadas importantes ruínas cartográficas, lugares de baldaquinos, cartografias e Globos Terrestres na cidade de Sloterdijk – topos deslumbrante mas muito inquieto! Bem sei que parece impossível, mas nem sempre as cidades mantêm as mesmas coordenadas. À frente destes olhos que o tempo há-de guardar, o mapa entra em mutação, como uma aranha desandasse a sua teia, e leva a cidade de Sloterdijk para perto de Marx, cidade incontornavelmente moderna. Mas o território representado no mapa não pára de se transformar e arrepia-se que nem uma serpente, insinuando-se nas cercanias de Kant, zona montanhosa e tradicional. E, não fica por aí, pois já a vi saltar para a frente da sombria cidade de Foucault ou mudar-se provisoriamente para a Ásia… mas isso fica para um conto a propósito de cidades-móveis que terei todo o gosto de vos falar quando chegarmos a Borges, a cidade de todos os Alephs, esferas mágicas, labirintos, bibliotecas encantadas, infinitudes que se concentram num só ponto.

Tenho uma absoluta consciência que a minha carta de orientação pode ser uma constelação: aquilo que pertence ao tempo, aquilo que se move, aquilo que está mas que não vemos sempre, aquilo que a luz obscura nos mostra e que podemos ligar a nosso bel prazer, dando nascimento às rotas que nos constituem no caminho. E sigo pela minha viagem.

Agora o que interessa é a minha visita a Baudelaire, uma cidade “crispé comme un extravagante”, “éprise du plaisir jusqu’ à l’atrocité”, “beugle”, e “hurle”. Senti-me como “un poète sinistre, ennemi des familles, favori de l’enfer” na maldição poética de Baudelaire. Finalmente instalei-me no Hotel dos Mortos, entre românticos e modernos. Como no Homem da Multidão de Edgar Alan Poe, eu ofereço-me como narradora desta aventura. Neste conto anormal das teorias do céu, o narrador é uma versão longínqua do flâneur, natural de Baudelaire. Neste conto sigo o olhar do flâneur que captura a paisagem num estado de distracção, ou melhor, “embriaguez anamnésica”, vagueando no presente à procura de “aventuras horríveis, raras, através das capitais”, glorificando a vagabundagem. Afinal ando à nora, entre informações disfuncionais. A minha rede de informações em Baudelaire leva-me a tantas outras cidades enterradas dentro dela, que fico tonta. A cidade subterrânea, escapista, as sensações multiplicadas com excesso e intensidade nos bairros de Mon coeur mis à nu, do Pintor da Vida Moderna, nos Tableaux Parisiens, inquietam-me.

Como qualquer criminoso, percorri o submundo da técnica moderna das fábricas, dos filmes, e aspirei a dissolução da experiência certa que ser consciente do meu próprio tempo é fundamental. Certa que quase “toda a nossa originalidade vem da marca que o tempo imprime nas nossas sensações.” Posso gritar Eu sou o Outro! O Outro sou eu!! Como um poeta da revolução que abre trincheiras e caminhos secretos para as cidades de Rimbaud e Pessoa.

Que sarilho – sinto-me como un Bateau Ivre, um soldado em fuga com uma malinha pequenina e castanha de couro da Suécia, onde guardo dois preciosos materiais: a aura e a experiência, por isso sou o narrador deste conto sobre cidades que nasceram no grande continente da Poesia rodeados do mar da literatura.

Voo para o Oriente. Aterro em Pessanha porque tenho esta incrível faculdade de conhecer as senhas de passagem entre cidades, como se fossem bilhetes de ida-e-volta para lugar nenhum. Apenas a viagem me alicia. Pessanha é uma cidade fin de siècle, acertada com o zeitgeist do seu tempo e, coisa rara, com a inteligenzia europeia. Nela reverberam outras cidades, a ocidente do oriente, neste caso, como Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine…

Movi-me como um flâneur entre uma multidão de palavras moventes, álgidas, imagens fugidias, voláteis, instantâneas, fantasmagóricas. Exalo o ópio, o absinto talvez, mas sobretudo aquele bairro de tempo que se chama Clepsidra. Detive-me lá como se eu, a narradora, encarnasse um destino adivinhado a pairar sobre Macau. arando em um montão de estrelas a topografia poética das palavras daquela cidade-móvel que se exilou a oriente do oriente. Nas suas ruas e tabernas embebedo-me com lágrimas e fragmentos de palavras ouvidas na cidade e misturando-as no meu choro: Ai meu coração volta para trás, nas róseas unhinhas, dentinhos, conchas e pedrinhas de um mar em sofrimento, derramado dos olhos mortos dos soldados e guardado no pranto do mundo!

“Foi no entanto que choramos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber no mesmo pranto.”
Camilo Pessanha
15 Jan 2021

O meu rebanho de palavras

Há coisas que estão enterradas no chão da terra – pedra tumular da humanidade. Nela navegam todos os meus mortos, todos os meus vivos, desde que há passado, presente e futuro. É este o mundo do meu pastoreio, onde um rebanho de palavras se espalha e espera que as encontre, junte e lhes dê algum alimento. É preciso cavar, adubar, semear o campo para colher as bagas com que sobrevivem as metáforas, analogias e demais condimentos que servem a escrita, è preciso cuidar dos campos onde colhemos as palavras que empurram o mundo, escrevendo-me nele. Entre elas, ouço Zaratustra: Aquilo que chamastes mundo, deveis primeiro criá-lo para vós. O motor está ligado. O movimento começa no grande escorrega do mundo interior. A rampa alonga-se numa viagem vertiginosa sem se deter e entra no subsolo como se eu fosse um verme nas mãos de um poeta. Estava a ser escrita sem saber. Era apenas uma palavra a deslizar sem ruído e a sumir-se no chão, comovendo-se com a enorme dor humana. A humidade pesada e aglomerante da terra cola-se ao corpo, enterrando-me viva no pranto de todos os que sofrem pela mão de Pessanha, a mesma carga dos homens-ratos de Steinbeck que sustentam o peso da terra inatingível na sua imensa pobreza. Já sem saliva, já sem sentidos, fico a saber que para as palavras pastarem é preciso o exílio, a dor e estar longe em cada uma que se lança ao nascimento e que pode, uma vez nascida, nomear-se como coisa da linguagem. Não que esta seja a casa do ser, desculpar-me-à o humanismo de Heidegger, mas porque formata a cultura, a imagem e a experiência mundo – é o seu horizonte. Agora sei que quando a escrita acontece o corpo escreve-se, nasce e morre. E o mundo também. Sei que as palavras são capazes de se libertar dos limites da linguagem e da jaula onde estão encaceradas – formando a mancheia que prefiro.

O meu rebanho de palavras é o meu acervo, espectáculo que exige a todo o momento a representação do meu olhar de colecionadora. Como diz Sontag caso não saiba que fazer com os olhos ávidos, tem sempre ao seu dispor esse outro, sempre, próximo, interior: um livro. As palavras desfilam perante os meus olhos como coisas que me extasiam, fazendo de mim a leitora que, cada vez que lê, é escrita no folhear contínuo deste arquivo indecente. Grafada no jogo intenso do mundo das palavras desejadas, resgato-as como objectos raros e preciosos, ou protejo-as da incúria de um destino esquecido. Talvez seja apenas uma ladra, como Bukowski, que rouba e amealha no seu mealheiro feroz palavras cheias de raiva. E refaço-me internamente nas mãos que escrevem nesta outra rua de letras onde reconheço Plath e Nietzsche de mãos dadas, como se fossem estrelas a dançar para Platão, arrastando-me no horizonte – o grande escorrega do mundo. Nesta abissalidade sem dormência evolam-se as delicadas folhas de livros onde ecoam as vozes dos escritores.

A vida não vem empacotada em experiências de três actos – diz-me Joyce com quem deambulo no arquivo de citações do coleccionador de palavras que abriu sem medo a sacola de Odisseu, contra o aviso de Tirésias, libertando a mutabilidade maldita da escrita. É preciso uma nova linguagem, novas palavras do ver, pensar e dizer das personagens e fazê-las viajar de um livro para outro, como Stephen Dedalus, já de si trajeto de um mito, que vai parar a Ulisses. Encontro Molly Brown a dizer sim-à-vida, no lance em que Joyce iguala Nietzsche, retirando às palavras o veneno oculto que as faz serviçais da cristalização das formas, do sentido, da verdade – libertando a linguagem do seu papel de ilusão. Ando agora aos trambolhões nas palavras de um homem que cria a sua própria linguagem, em metamorfoses constantes, na fragmentação, discontinuidade, colagem, interrupção, num sem número de processos que anunciam, num gesto contemporâneo, a morte da narrativa como era conhecida até então.

Quando Pina Baush morre no café Muller, diante de mim, eu morro com ela. Mas o meu corpo não cai. Antes fica suspenso entre ser e não ser, como no laboratório que Melville criou para Bartleby, numa pura potência de se emancipar tanto do ser como do não-ser, e criar a sua própria ontologia, nas palavras de Agamben.

Também não quero sair de trás do biombo verde. Também preferia não o fazer… O escrivão acolhe-me no seu colo e embala-me até adormecer, ao som das letras que o escrevem enquanto se recusa a escrever.

Naquela contingência, acordo e flutuo no arquivo-linguagem que nos mantém suspensos em letras e palavras, com vontade de mobilizar outra imagem da literatura. O que interessa é a obra que fica e a cortante novidade que tenho de guardar. O meu corpo desfaz-se na escrita de Gertrude Stein e na sua montagem desabrida contra todos os costumes narrativos. Escrever é sempre uma matéria em devir, como diz Deleuze.

Estou exausta: é muita coisa para um pastor.

Ia dizer à escrita que estava cansada desta tarefa, mas o rosto meridional de Barthes debruça-se sobre as mãos que agora me escreviam: Até o momento só existe uma escolha possível, e essa escolha faz-se entre dois métodos igualmente excessivos: considerar um real inteiramente permeável à história e ideologizar; ou inversamente, considerar um real finalmente impenetrável, irredutível, e, nesse caso poetizar.

É como imagino o horizonte onde repouso a cabeça, quando a madrugada me deita sobre o mar e a terra, à espera do meu rebanho de almas nuas.

24 Jul 2020

Pelo voo dos mortos

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo, que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.

 

O meu rosto humano desaparece. O pincel destrói-o e começa uma pincelada mais larga e escura. Por pouco sou a máscara que Picasso pintou em Les Demoiselles d’Avignon. Sou quase o gesto que traiu o seu tempo. O contemporâneo é afinal a relação potencialmente infiel que o indivíduo assume com o seu tempo. Uma traição que resulta num homicídio e numa amputação de parte do presente como o conhecemos. Um enterro da luz negra que canta que não é possível desacontecer o acontecido. Soa o destino de quem se sonha contemporâneo: ser atraído pela lama que se levanta no fundo do mundo e mergulhar sem medo no encandeamento daquela luz oirente que só alguns conseguem ver. E então despertar para a morte do passado e do futuro, que o presente carrega na imparável imaginação do devir. Falo mais uma vez de luto e do ritual da sua antecipação.

Tomando o que Benjamin enunciou numa das suas teses da história – apoderar-se do passado no momento em que o perigo brilha, é fatal, acredito que existem sempre pessoas que são afectadas pela luz com a vontade, o gosto, a tendência pelo caos e não pela ordem; pelo instável e não pelo perfeito; pela máquina que muda e não pela fábrica que mantém. Nas recônditas e secretas constelações do existente, encontramos projectos que exibem este gesto exilado na falésia abismal do agora, onde se debruçam sobre a vida. Dali lançam a mão às ruínas, aos destroços, e a tudo o que está condenado à sua solidão. Monstros que abrem o presente à machadada, mineram o presente à peneirada, desenterrando toda a morte que gira no vórtice do tempo-que-tem-tanto-tempo-quanto-tempo-o-tempo-tem, até chispar no instante. O golpe é audaz – segredam-me Picasso e Duchamp – e é tão intenso de dor e alegria que às vezes é preciso voar dentro da terra e com tudo o que ela contém dentro do seu peso. Como o voo dos mortos.

Os mortos cruzam-se comigo. Adoro. Estou no mesmo lugar que da Vinci, Curie, Manet, Marx, Picasso, Duchamp, Camões, Cervantes, Proust, Dostoiewski, Holderlein, Nietzsche, Foucault, Barthes, Deleuze, Pina Bausch… Não queria pôr reticências mas é impossível continuar! E esta impossibilidade é linda! Queria dizer que os amava a todos, que os invejava, também, a todos, e que agora, era tudo diferente. É certo que a maioria destes homens fizeram do seu projecto de vida uma guerra, uma erótica, uma vaidade, whatever. Não quero saber. Mesmo que não possa afirmar que não foi o poder dos governantes que os seduziu, quero acreditar que foi o poder de ousar; de corromper a linguagem; de lutar pela liberdade e resistência à opressão.

Sucedem-se acontecimentos: barulho intenso de uma caixa que cai e de um vidro que se parte; olhar intenso de uma máscara negra que engole uma cabeça humana; gargalhadas à mistura de Duchamp e Picasso bailam nos meus roseirais negros. As rosas são intensamente caprichosas, eu sei, e exibem uns picos ameaçadores. Tento fugir. Na parte onírica da minha existência o pesadelo acentua-se. Corro por cidades, linhas férreas, becos escuros e não encontro saída. Então levanto voo, não muito alto, para me manter no campo contínuo do presente e misturo-me com outros mortos. É um tsunami heraclitiano de Aristarcos de Samos, Giordanos Brunos, gritos dos Campo dei Fiori e de Auschwitz onde a morte saúda os oprimidos. Lágrimas e gritos que contam a história por fazer dos vencidos na guerra silenciosa do existente; Exércitos que escapam ao controlo policial da razão; Batalhas travadas por fantasmas. Não uns fantasmas quaisquer. Fantasmas de gestos que foram apagados e queimados. Potências de obras que andam por aí prontas para a colheita. Sem inscrição e sem suporte fogem ao furor autofágico do presente. Encontram a passagem entre o passado e o futuro. E podem ser de novo lidos e de novo reescritos ou inventados nas obras.

Às vezes acho que são elas que nos encontram como se tivessem olhos que nos olhassem de um tempo qualquer. Como se estivessem dentro da saca de sementes que ainda não encontraram o seu jardineiro. Que ainda não foram regadas, que ainda não floriram, que nem sempre encontram os olhos que as vão colher para renascerem eternamente. São cargas potenciais á procura de quem as afague com mão de deus. Feitas demiurgicamente, falta-lhes um Timeu que as imprima. Um filósofo, artista, poeta que as lance no mundo como obra – acontecimento que destrói e declara guerra ao seu próprio tempo. É linda a guerra dos contemporâneos! Não como sujeitos que nada são em comparação com o valor ontológico das suas obras, mas por abrirem caminho onde se plantam flores de tempo num presente qualquer. Eu bem sei que ninguém pode parar no presente, como Platão bem intuía. A nossa condenação é o movimento perpétuo entre um mundo imperfeito e outro perfeito, funambulando entre homens e deuses. O nosso funambular é o desequilíbrio – viagem que enfeitou metafisicamente a humanidade, derrotando-a e enfraquecendo-a, à humanidade, no seu fátuo humanismo, para dar sentido a seres lançados no mundo para morrer. O presente não pára para receber uma obra de Bill Viola, sob pena de domesticar aquele instante e tornar-se Cultura Contemporânea. Legislada, portanto.

Como fazer? Como nos podemos impedir de trair este amante que jaz nas obras que contaminam o presente? Como podemos aceitar o presente que nos oferece no seu gesto contemporâneo sem desconfiar do seu amor? Como podemos conviver com a estranheza, ansiedade, terror, desconforto fatalidade que despeja na nossa existência. Ouço a ironia de Godard: a cultura é a regra, a arte é a excepção. Faz parte da regra querer a morte da excepção. Ajuda. Como ele prefiro acolher os criminosos que roubam o brilho de ónix oculto em tanto-tempo-quanto-tempo-o tempo-tem e, com um novo gesto artístico e poético, matam o tempo. A nova dieta cultural não pode durar mais que a vida das borboletas. E este ciclo é um oxímero perfeito: sempre novo.

11 Jun 2020

Pela mão de Duchamp

Hoje apetece-me ser uma mão, um pincel, um escopo, um martelo. Ser o que faz. De algum modo ser o pensamento matérico a rondar abusivamente o mundo. Pensei descer em Frankfurt e falar com Heidegger. Mais do que discutir o jovem ou o velho filósofo de Frankfurt, e o comprometimento com o nazismo, quer acompanhar um pensamento à mão, sobre a coisa e a arte. Falo de pesca artesanal no meio das florestas que bordejam os lagos. Não considero menor o problema deixado pelo seu silêncio mas, por bizarra ironia, ele legou ao pensamento contemporâneo a possibilidade contemporãne de reflectir sobre a arte. Melhor que ele, irremediavelmente, melhor que Heidegger, tenho Duchamp, o meu amante preferido.

Quero sempre falar com ele. Quererei sempre dormir com ele, escutando uma interioridade que me acolha na revolução absoluta. A abertura, a clareira se quisermos, é que Duchamp retira a Arte da colonização dos sentidos que a Estética, aliás Hegel, não previra. Nem Kant, na tentativa de a resgatar, como acção desinteressada, de qualquer propósito ou objectivo logocentrico. Nem Hume e Diderot, ao acrescentar-lhe uma grelha nova: o juízo de valor e o gosto. Caminhos, trajectos para encontrar uma nova pergunta sobre a arte entre a repetição dos canones e a vontade de liberdade, oscilando numa feroz tensão entre as mãos e o cérebro. Mas suspeito que procuramos solucionar o que só pode ser insoluccionado. Descanso dentro de uma mala de Duchamp e convido-me para quê? Perceber? Compreender? Aceitar? Viajar, seguramente numa nova constelação antropológica. Ao tremor romântico de Blake, acrescentamos as paixões alegres de Espinoza, as paixões arrebatadoras de Descartes, os passes semânticos no voo de borboleta da arte dita moderna, num funambulismo miraculoso mas perigoso, desde o desfazer da perspectiva, juntar culturas visuais num estranho choque perceptivo, nomear ceci n’est pas une pipe num desacordo surrealista com o sentido, esvanecendo o espaço abstratamente com todas as suas consequências, mas, sobretudo, dando lugar ao corpo e aos sentidos, desenterrando-os da ocultação metafísica da tradição ocidental.

As mãos são do corpo e, gosto de imaginar, que o corpo pensa com as mãos quando faz arte. É obviamente uma mão que espalha os dedos todos pelo mundo e cria, neste caso, mundo. Mas cheira-me ainda a ontoteologia. Este caminho não me convém. Preciso ir mais longe. Perguntar melhor. Dou a mão a Duchamp e sinto-lhe as veias dilatadas e alguma rugosidade. Caminho ao seu lado, ele ainda é novo e, sobretudo, preguiça. Não é uma preguiça qualquer. É uma vontade: não quer repetir, repetir-se, quer fazer o novo de novo (Nietzche, esse delicioso fantasma, anda sempre por aí). Encosto a cabeça no seu ombro. Heidegger, não muito longe, sorri trocista. Sinto-me perdida. Eu sou apenas uma mulher loucamente apaixonada pelo contemporâneo. Por aquilo que é próprio do contemporâneo, ouviu, Sr. Heidegger! Mas ele já desapareceu.

Não toma posição e afasta-se silenciosamente como um espectro. Sou percorrida por um arrepio gelado. Os pés pisam o tempo. Melhor os tempo insurgem-se. Sinto medo de o surfar, como no mar. Como quando a onda me empurra e me faz descer depressa demais e eu travo a descida e páro. É um medo estúpido porque se cair nem me magoo. Então o que é que me assusta? O chão ser mole. Não manter à tona o meu peso.

Quebrar a lógica da maravilhosa linha de terra ( sim porque eu desde pequena que adoro este enunciado: linha de terra é o eco da minha mãe geómetra). O tempo não tem cor. É vazio. É uma ilusão. Pode ser de qualquer dimensão. Posso inventá-lo. Os tempos abespinham-se por baixo de mim. Ali, dum cantinho inseguro plana um tapete voador. De vez em quando percorre veloz a velocidade. Ri-se de mim e manda-me umas luvas mágicas. Tenho a certeza que é Nietzsche. Só pode ser. Também gosto dele. Posso dizer que não sou uma maria-vai-com as-outras, sou mais uma maria-vai-com-eles, porque são geniais. Apaixonadamente geniais. Admiro-os e não há melhor amor que a admiração. Qualquer outro comentário da ordem da intimidade não adianto porque nunca faria parte do que que quero contar nestas minhas teorias do céu: o que é próprio do contemporâneo em arte. A admiração e o rapto que produz no espectador é sempre uma coisa própria da arte. Duchamp quererá largar-me da mão, por ter secumbido a uma vontade universal?

Deixar-me pendurada no devir sem resposta? Raios e coriscos, neblinas e chuva miudinha, estrelinhas fulgentes, beijos coloridos, carícias perdidas, palavras sacudidas, deuses, diabos, anjos, fantasmas, ruínas, nadas – tudo num vórtice medonho que nunca mais termina. A mão de Duchamp, afinal agarra-se mais à minha e salva-me daquela escalada negativa, daquela queda para lugar nenhum. O sorriso enigmático, o desenterrar das obras – porque se trata sempre de criar obras, não mundo. Nelas está a origem da arte. A sua essência, não é, Sr. Heidegger? Não brincamos aos deuses, mas aos homens que podem jogar os dados de Deus, se calhar. É divertido. Se calhar Duchamp convida-me para uma partida de xadrez. Vou perder claro, a não ser que ele desconheça a entrada à Leonel Pias, inventada anos mais tarde por um português. Talvez tenha sorte, mais sorte do que tinha quando jogava com a minha filha: ela ganhava sempre.

Mas não. A ideia dele era outra. Enfiou-me numa pintura que fez muito novo e não me consegui entender dentro dela: algum naturalismo, algum impressionismo… perdi a charada e fui cuspida daquele quadro para outro. Uau! Que diferença: estava dentro de puro movimento. Trepidante. Eu era um corpo que se desdobrava em tempo. Que estranho e que bom. Era a mão de Duchamp que me pensava enquanto corpo de mulher em movimento. Mas chegando ao topo fui cuspida para outra coisa. Fiquei presa a um vidro que se estalava. O ruído do acaso ficou congelado na minha perceção. Escorreguei num urinol que afinal estava num museu porque este meu amigo decidiu que era uma obra de arte. Depois numa caixa que se fechava e abria como uma pequeno museu, neste caso não imaginário, mas matérico. Miniaturizado. Com obras incompletas.

E depois fui cuspida para o vazio da vida. A mão de Duchamp não tinha mais nada a dizer. Mas tinha dado o pontapé de saída do grande jogo contemporâneo. O campo de forças estava traçado: as obras podiam não ser retinianas, o desouvrement do gesto contemporâneo podia desfazer, ou não, os contemporâneos que ficavam para trás como Giotto, Rembrant, Delacroix, Courbet, Manet, Degas, Cezanne, Picasso, Braque… mas nenhum deles saíu da pintura retiniana. Nenhum deles pensou a pintura como algo mais que a pintura. Na verdade ainda estavam instalados na pintura de uma pintura.

É tempo de fechar o assunto. a porta do abysmo abriu-se. A floresta é cada vez mais densa. Heidegger recorta-se lá ao fundo. Eu experimento com as minhas mãos e pinto os planos da natureza naturante, separando-os da síntese retiniana, experimentando o meu corpo naturans pelo meio a bailar com Rimbaud, outro mestre da revolução contemporânea. Serei por isso contemporânea?

9 Jun 2020

O meu cavalo chama-se Nietzsche

“Olhos de transeuntes da loucura: em vós desaguam os restantes olhares”
Paul Celan

Há um brilho no tempo que cega. A cintilação é-nos dirigida e nunca atinge o presente, segundo Agamben. E os amaldiçoados que não se deixam cegar pelas luzes do século só podem ver de longe. Do alto. Do Céu. Talvez por isso tenha gostado sempre do título Teorias do Céu. E roubo-o para este e outros textos que hão-de vir a trote e a galope de cavalo.

O ar fresco lava-me a cara, enquanto o passeio montado ganha asas. Posso gritar a plenos pulmões: obrigada Kant, doce inimigo de alguns. Deliro porque lhe roubei um enunciado tão belo. Que ousadia a minha!

Escorrego vertiginosamente no tempo. É urgente! Tenho de chegar precisamente às 15h a Konigsberg. Não posso deixar de rir. Parece um sonho, eu sei – mas, como sabemos, dos sonhos só é preciso despertar – desagrilhoar. Vou despedir-me do filósofo que libertou a razão de Deus, lançando a moral dele, daquele desavindo Deus, na experiência. Golpe baixo na metafísica — a bem do pensamento, o mal da vida! Como Bartleby, preferia não receber nenhuma moral prescrita por aquele Deus. Prefiro não o ter por companhia eterna.

Volto a ser arrastada para os céus. O movimento alado deixar-me-ia descansar? O mundo escureceria o suficiente para eu adormecer, sonhar, despertar de novo para ver melhor? E seria despertada por quem? Por Duchamp? Adorava! Contando que ele tivesse a infinita delicadeza de me olhar com aqueles olhos de águia embelezados de inteligência, e nos deliciássemos a comentar a forma pertinente como laminou e revolucionou o princípio do nosso século XX. Ou ser desperta por Marx, acusando-me de sonhar a história em vez de ter consciência dela! Se assim fosse, acatava. Como podia discordar do homem que criminalizou a burguesia por afogar o velho mundo nas “águas geladas do cálculo egoísta”? Como podia recusar um beijo ao homem que sonhou a simbolização igualitária e emancipatória? Sucumbiria perante as barbas, o cheiro a velho e passaria a noite a tentar perceber porque falhou o projecto comunista! Há quem diga que foi assassinado, o projecto. Onde estávamos todos, os que podiam ter feito alguma coisa? Lamentavelmente quando o modelo antropológico é fracturado, nem sempre conseguimos ser contemporâneos. A anomia resultante gera guerrilhas incalculáveis. E muitas vezes os fantasmas é que lutam sozinhos nestes campos de batalha onde elementos pregnantes, entre sangue e pranto, geram um mundo novo. Marx estava ciente da violência deste nascimento. O óbito do passado ficaria como fantasma resiliente pronto a atacar em qualquer momento em que os contemporâneos descansassem e fechassem os olhos. É preciso ser águia e falcão ao mesmo tempo. Ver sem qualquer miopia estéril. Ter o gesto tão afiado politicamente e preciso eticamente, como uma lâmina de bisturi para não falhar o compromisso contemporâneo com a ruptura. Não, não há descanso possível.

Levantamos voo de novo. Como Montesquieu, Nietzsche e tantos outros, é preciso aprender a ver montado nas estrelas. O meu olho esquerdo olha para trás, enquanto nos esgueiramos em força para a frente. O meu olho direito para a frente. Os dois, estrabicamente, convergem no presente. É um grande esforço atar estas duas órbitas, estes dois arquivos, um morto e um por viver, e dar-lhes, oximaramente, um sentido. Uma coisa é certa, na tarefa difícil do etnógrafo do presente, prefiro não fazer parte dos legisladores do pensamento e fixar-me nos estilhaços que fundam a crise, que estão ali por ligar, rematar, completar ou ser indiferente. A constelação que resulta de tudo isso é infixa, o referencial que a move é infixo. O verbo que a comanda é imprevisível. Instala-se um boomerang imparável, um caleidoscópio imparável, um ruminar imparável, como se mastigássemos o tempo e o regurgitássemos. Não é um caso de subjectividade, mas de urgência de “voltar a um presente em que jamais estivemos”.

O cavalo finalmente adormeceu. Imagino que sonha. Quando quiser partir desperto-o e peço-lhe que conte o seu sonho na língua da natureza a que ambos pertencemos. Estremece, coitado. Deito-me no seu dorso, não tanto para ter calor, mas para o sossegar. Não o quero ver sofrer. Entre as coisas do mundo, algumas merecem amor. Adormeci no seu colo. Sonhei com Nietzsche. Melhor, sonhei que o meu cavalo falava comigo intempestivamente, dizendo que a sua época padecia de um mal, “um defeito do qual justamente se orgulha”. E também que um tal Barthes iria dizer que “o contemporâneo é intempestivo” e não um momento cronológico da história. Bem me parecia que não podemos ensacar o tempo na eternidade linear porque ele não é objecto de domesticação. Como se estivesse num Western, o meu cavalo relincha, abre as asas de Pégaso e leva-me de volta ao mar. É bom sobrevoá-lo, cheirá-lo e fechar os olhos sob a plúmbea superfície, antes das rebeldes espumas esbranquiçadas anunciarem as grandes vagas e medonhos abysmos. Mesmo de longe sinto receio quando a superfície coesa e pacífica do oceano se altera, desenhando outro mapeamento e outro enredamento, porque não sei se o mundo é o mar que se agita ou o meu corpo que receia.

A veloz besta em que se tinha tornado a minha montada, não me permitia parar. Queria repousar deste desassossego, mas assalta-me um poema de Celan: “vejo tanta coisa de vós/ que não vejo mais / do que ver”, como se tivesse na bagagem um telescópio inoportuno que me libertasse do real pelo próprio acto de ver. Como uma Poeisis, o contemporâneo liberta-se da história, e enquadra o real onde os mortos “brotam e florescem” como modificadores de tempo em acontecimentos a-históricos. Dir-se-ia que o tempo morre no presente, por isso não se pode parar para olhá-lo frente-a-frente. É-se condenado a um olhar distante para assistir ao luto do tempo que se despede de outro tempo no próprio presente, numa kronostipia efervescente e desregrada. Neste desesperado exílio qualquer reflexo devolve ao olhar trágico do contemporâneo um requiem ao humanismo.

Somos agora um rosto informe, fractal à procura de um mundo que nos deseje e reconheça os sinais como a ama de Ulisses. Mas as minhas mãos, as minhas orelhas, os meus olhos, os meus pés desconfiam uns dos outros. Que rosto é aquele que olha fixamente os fantasmas do tempo que refulgem no presente? Que reclama pelo não vivido ainda? Que se materializa no que está por acontecer? Que olhos são aqueles que são capazes de mergulhar o olhar nas trevas do presente? Na dor, na lancinante dor? É esta a almejada condição de ser contemporânea?

19 Fev 2020