SJM | Operadora com prejuízos no primeiro trimestre

A operadora de jogo de Macau SJM Holdings registou um prejuízo de 62 milhões de dólares de Hong Kong no primeiro trimestre deste ano. Segundo um comunicado publicado ontem pela empresa, as receitas líquidas caíram 21,1 por cento, para 5,9 mil milhões de dólares de Hong Kong no primeiro trimestre completo após o fecho definitivo dos ‘casinos-satélite’ do território em Dezembro passado.

As receitas brutas do jogo da operadora também recuaram 18,8 por cento para 6,1 mil milhões de dólares de Hong Kong, com os lucros operacionais a caírem 4,3 por cento para 917 milhões de dólares de Hong Kong. A quota de mercado da operadora de jogo em Macau encolheu também para 9,6 por cento, face aos 13,5 por cento registados no mesmo período de 2025.

A empresa teve de fechar oito casinos no ano passado, devido a alterações legislativas em Macau que acabaram com o antigo modelo de casinos geridos por terceiros, conhecidos como ‘casinos-satélite’. Os ‘casinos-satélite’, sob a alçada das concessionárias, eram geridos por outras empresas, sendo uma herança da administração portuguesa e que já existia antes da liberalização do jogo no território, em 2002.

Quando a legislação que regula os casinos foi alterada, em 2022, estabeleceu-se o final de 2025 como data limite para terminar a actividade destes espaços de jogo. A presidente da SJM, Daisy Ho Chiu-fung, sublinhou em comunicado que o grupo demonstrou “disciplina operacional rigorosa” no primeiro trimestre sob o novo modelo de gestão directa.

Por partes

O Grand Lisboa Palace, a maior propriedade da operadora, viu as receitas aumentaram para 2,07 mil milhões de dólares de Hong Kong, no entanto, os lucros operacionais caíram para 58 milhões de dólares de Hong Kong, devido ao aumento dos custos. O Grand Lisboa registou receitas de dois mil milhões de dólares de Hong Kong, com os lucros operacionais estáveis em 425 milhões de dólares de Hong Kong.

Já os outros casinos da operadora, Casino Lisboa, Casino L’Arc Macau e Casino Oceanus, viram as receitas do jogo disparar 83,6 por cento, quando comparados com o mesmo período do ano passado, para 2,47 mil milhões de dólares de Hong Kong, com os lucros operacionais a subirem 44,4 por cento, para 494 milhões de dólares de Hong Kong.

A empresa adquiriu, por 1,75 mil milhões de dólares de Hong Kong um dos ‘casinos-satélite’ que teria de fechar, o Casino Royal Arc, e obteve autorização do Governo para gerir directamente o espaço. Nos primeiros quatro meses deste ano os casinos do território registaram uma subida de 12,1 por cento nos resultados brutos de jogo em relação ao ano anterior, reportando um total de 85,8 mil milhões de patacas.

A propósito do Dia Internacional do Trabalhador

Os feriados da semana dourada da China continental que celebram o Dia Internacional do Trabalhador chegaram ao fim num abrir e fechar de olhos. Como é habitual, as maiores atracções turísticas de Macau encheram-se de gente. Em algumas ruas, foi implementado o controlo de multidões e em certas zonas só os peões podiam circular. Os autocarros estavam todos apinhados e o concerto realizado no Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau reuniu cerca de 30.000 espectadores. A cidade estava movimentada, mas na verdade o que é que estava a acontecer?

Vídeos transmitidos nas redes de comunicação social não tradicional mostravam cenas de mulheres que assistiram ao concerto a lutarem umas contra as outras e a colocarem as cadeiras junto ao palco, o que demonstra falta de uma gestão eficiente do espaço. Estes incidentes poderão ser inevitáveis em eventos de larga escala, mas a questão principal é a falta de reconhecimento por parte dos órgãos de comunicação social oficiais e por parte do Governo de Macau das falhas na gestão destes acontecimentos. Ignorá-las significa que não existem? Será que a ausência de dados estatísticos sobre suicídios quer dizer que ninguém se suicida? A inexistência de manifestações e de protestos no dia 1.º de Maio prova que Macau é uma cidade pacífica e próspera?

Uma simples pesquisa online mostra informação sobre a manifestação do 1.º de Maio de 2007 em Macau. Slogans como “anti-corrupção, proteger os meios de subsistência das pessoas, reduzir o número de trabalhadores não residentes, eliminar trabalhadores ilegais, garantir uma vida estável, promover a reunificação familiar e construir uma comunidade harmoniosa” transmitiam as exigências dos seis grupos de protesto da época. Passaram-se quase vinte anos, estas exigências terão sido totalmente satisfeitas e os grupos que as colocaram já não existem ou deixaram de operar?

Desde a desqualificação dos potenciais candidatos às eleições para a Assembleia Legislativa em 2021 e em 2025, as vozes dissidentes e as diferentes opiniões que se faziam ouvir na Assembleia Legislativa foram largamente silenciadas, criando um “caminho livre de impedimentos” para o processo legislativo. A ausência de oposição e de opiniões diferentes significa que o questionamento sobre a governação foi amplamente eliminado, deixando uma série de contradições sociais profundas e problemas para o Governo da RAEM resolver.

O Governo da RAEM não é cego em relação à gravidade dos problemas existentes. Após o encerramento dos casinos-satélite, foram desenvolvidas actividades para apoiar os comerciantes da vizinhança desses casinos. Os “Autocarros de Turismo e Lazer” foram introduzidos para revigorar os bairros antigos; e está a decorrer uma nova ronda do “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias” para estimular o consumo. Infelizmente, a eficácia destas iniciativas é limitada.

Consequentemente, os responsáveis das instituições do Governo Popular Central estabelecidas em Macau aproveitaram a oportunidade durante as sessões de divulgação do espírito das “Duas Sessões” da Assembleia Popular Nacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês para os trabalhadores dos serviços públicos de diferentes níveis para propor “sete melhoramentos” para estes funcionários. Lamentavelmente, desde a demissão de Tai Kin Ip, Secretário para a Economia e Finanças, no passado dia 16 de Abril, falta à RAEM um líder no campo económico, o que implica que parte de tarefas importantes desta área passassem a ser da responsabilidade do Chefe do Executivo, o que se torna bastante exaustivo para ele.

O contrabando de 51 quilos de lancheiras para Macau, embora não represente uma soma elevada, ilustra bem a disparidade entre Hengqin e Macau. “A comida é a primeira necessidade do povo”. Quando os cidadãos enfrentam dificuldades para se sustentarem, a segurança alimentar, a segurança económica, a segurança social e mesmo a segurança política serão postas em causa. Se as exigências de “combate à corrupção, protecção dos meios de subsistência das pessoas, redução do número de trabalhadores não residentes, eliminação de trabalhadores ilegais, garantia de uma vida estável, promoção da reunificação familiar e construção de uma comunidade harmoniosa” foram satisfeitas, então a ausência de protestos ou manifestações no Dia Internacional dos Trabalhadores será definitivamente algo positivo.

A incerteza das previsões meteorológicas

Por mais que se progrida na eficiência dos modelos físico-matemáticos e no aumento do poder de cálculo dos meios computacionais, nunca se poderá prever o tempo com grande grau de acerto para além de cerca de duas semanas, atendendo a que a atmosfera é um meio não estático, em que os movimentos que nela ocorrem, impulsionados pela radiação solar e pela rotação da Terra, fazem com que as equações que os descrevem não sejam lineares, o que implica que as previsões percam gradualmente fiabilidade. Os resultados dos modelos de previsão do tempo são muito sensíveis ao grau de exatidão dos dados que caracterizam o estado da atmosfera a partir do qual se procede à previsão.

Uma pequena alteração dos dados iniciais, como o arredondamento do valor da temperatura do ar, ou do valor da pressão atmosférica, pode implicar alterações das previsões de maneira tanto mais significativa quanto maior for o período abrangido pela previsão. Teoricamente, uma pequena alteração na atmosfera num ponto do globo pode desencadear um fenómeno meteorológico significativo num local distante, umas semanas depois. Foi com base nesta premissa que ficou célebre a questão que Edward Lorentz1 levantou, metaforicamente: “Será que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas?”)2.

Nas últimas décadas, os progressos na área da previsão do tempo foram essencialmente consequência do incremento do poder de cálculo dos computadores e do avanço da tecnologia associada aos satélites meteorológicos. Até à década de setenta e meados da década de oitenta do século passado as cartas meteorológicas de superfície e de altitude eram traçadas manualmente. Recorrendo à sequência dessas cartas, estudava-se a evolução dos fenómenos meteorológicos e procedia-se à sua extrapolação, com base na experiência e sensibilidade dos meteorologistas. Havia, portanto, uma certa subjetividade na previsão. As previsões abrangiam apenas um período de 24 horas e, quanto muito, de maneira menos detalhada, de 48 horas.

Entretanto, os modelos foram aperfeiçoados e o poder de cálculo foi aumentando. As cartas passaram a ser marcadas e traçadas automaticamente, o que permitiu a redução das equipas que trabalhavam por turnos durante 24 horas. Os meteorologistas operacionais deixaram praticamente de ser “fazedores” para passarem “interpretadores” dos produtos obtidos por meios computacionais.

Embora as primeiras previsões com recurso a computadores se tivessem iniciado em 1950, ainda não era possível recorrer, na década de 1960 e início da década de 1970, a computadores, pela simples razão de que o poder de cálculo não era suficiente para que os resultados fossem úteis em tempo real.

O primeiro satélite meteorológico, TIROS 1 (“Television Infrared Observation Satellite”)3 foi lançado em 1 de abril de 1960 e as imagens por ele obtidas serviam de base para a elaboração de “nephanalysis”, que consistiam em representações gráficas elaboradas manualmente nos Centros Meteorológicos Mundiais (Washington, Moscovo e Melbourne) da Organização Meteorológica Mundial (OMM), e distribuídas pelos centros meteorológicos nacionais. Estas cartas, que constituíram uma ferramenta muito útil entre 1960 e 1980, continham informação sobre nuvens e o tempo associado aos vários sistemas sinóticos (frentes, depressões, anticiclones, vales, cristas, etc.). À medida que a tecnologia foi avançando, as “nephanalysis” foram-se tornando obsoletas e, a partir do fim da década de oitenta, passaram progressivamente a ser substituídas por imagens de satélites de alta resolução, em tempo real.

Devido ao progresso tecnológico, o grau de acerto das previsões e o seu período de validade foram aumentando consideravelmente. No entanto, a fiabilidade das previsões depende também de outros fatores, entre os quais do período para o qual a previsão é feita, da região do globo, e da complexidade da situação meteorológica. No que se refere à escala temporal, segundo a OMM, as previsões podem ser a curto prazo, até 3 dias; a médio prazo, de 3 a 10 dias; e a longo prazo, abarcando semanas, meses ou estações do ano. Há ainda a considerar a previsão a muito curto prazo, até 12 horas, e a designada internacionalmente por “nowcasting”, até 6 horas.

A fiabilidade depende também das regiões do globo. Assim, por exemplo, as previsões são suscetíveis de terem maior grau de acerto nas latitudes médias e altas. Isto deve-se a que, nestas regiões, o tempo está geralmente associado a sistemas de grande escala, como frentes e depressões extratropicais, que se deslocam de maneira relativamente regular, o que permite prever o seu deslocamento com a antecedência de vários dias, por vezes uma semana ou mais. Nas regiões tropicais e equatoriais a densidade dos dados é menor, o que se pode refletir na qualidade das previsões.

Além disso, o tempo está geralmente associado a fenómenos mais localizados, gerados por convecção, ou seja, à subida do ar que, aquecido devido ao contacto com a superfície, sobe e transporta calor. Vai arrefecendo durante este processo, o que provoca a condensação do vapor de água, originando sistemas nebulosos, frequentemente formados por nuvens de desenvolvimento vertical (cúmulos e cumulonimbos) que, por sua vez, dão origem a precipitação forte, acompanhada frequentemente por trovoadas.

O grau de acerto depende também da situação meteorológica. Assim, a fiabilidade é maior se a situação for altamente estável, como, por exemplo, caracterizada por um vasto anticiclone que sirva de bloqueio ao avanço de superfícies frontais e depressões.

Os avanços no poder de cálculo dos meios computacionais, na tecnologia associada aos satélites meteorológicos e às telecomunicações permitiram dar grande impulso ao grau de acerto das previsões e ao alargamento dos seus períodos de validade. Atualmente o grau de acerto para um período de 1 a 3 dias varia de cerca de 80% a 90% e, de 4 a 7 dias de 70% a 80%. O progresso tem sido de tal maneira que é senso comum, nos meios meteorológicos, que a fiabilidade atual das previsões para 5 dias é sensivelmente a mesma das que eram feitas, há 20 anos, para apenas 2 dias.

Enquanto as previsões a curto e médio prazo são deterministas, ou seja, que a partir do conhecimento do estado da atmosfera num determinado momento é possível, durante alguns dias, prever o tempo num determinado local, dia ou hora, as previsões a longo prazo são probabilísticas e limitam-se a dar a probabilidade de ocorrerem determinadas situações face aos valores médios como, por exemplo, se a temperatura no próximo verão estará abaixo, dentro ou acima da média, ou se o próximo inverno será mais ou menos chuvoso do que o normal.

Em resumo, pode-se afirmar que as previsões meteorológicas têm melhorado ao longo do tempo, não só em termos de fiabilidade, mas também no que se refere ao período de validade. Não tenhamos, no entanto, ilusões. Por mais que o poder de cálculo dos computadores aumente e se progrida no aperfeiçoamento dos modelos físico-matemáticos de previsão, nunca será possível prever com rigor o tempo que fará num determinado local, num determinado dia, a uma determinada hora, com uma antecedência superior a cerca de duas semanas. E isto porque a atmosfera é um sistema caótico.

Referências

Edward Lorenz (1917 – 2008): Meteorologista e matemático. Foi um dos fundadores da moderna teoria do caos, que consiste num ramo da matemática que estuda o comportamento de sistemas dinâmicos altamente sensíveis às condições iniciais.

“Predictability: does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas?” – Título da palestra apresentada por Edward Lorenz, em Washington D.C., em 1972.

Em português: Satélite de Observação por Televisão e Infravermelho.

Irão e Myanmar marcam reunião de líderes do Sudeste Asático

Os efeitos do conflito no Irão e da crise em Myanmar marcaram ontem o arranque das reuniões de líderes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN na sigla em inglês).

“A actual crise no Médio Oriente e as repercussões de grande alcance, como a interrupção do fluxo de energia, rotas comerciais, fornecimento de alimentos, cadeias de abastecimento e a segurança dos nossos cidadãos, recorda-nos que acontecimentos além da nossa região podem ter efeitos imediatos e profundos na ASEAN”, declarou a ministra filipina dos Negócios Estrangeiros, Theresa Lazaro, anfitriã do conclave.

A chefe da diplomacia filipina abriu os trabalhos na reunião em que participaram os homólogos da região, antes da cimeira de primeiros-ministros e presidentes do bloco, prevista para hoje na cidade de Cebu, região central do arquipélago.

O Sudeste Asiático, fortemente dependente das importações energéticas do Médio Oriente, sofreu um grande impacto do bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do comércio mundial de crude, na sequência da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão.

As Filipinas, um dos países mais afectados, declararam em Março o estado de emergência energética, como medida para enfrentarem a escassez de combustível, enquanto Tailândia, Vietname, Laos e Myanmar (antiga Birmânia) também aplicaram medidas para lidar com a situação.

A diminuição do comércio de derivados como a ureia, fertilizante essencial para a agricultura, levantou preocupações entre os países presentes devido ao impacto na segurança alimentar da região. À margem da reunião, está igualmente previsto um encontro entre líderes políticos de Brunei, Filipinas, Indonésia e Malásia.

Os ausentes

Mais uma vez, Myanmar não se fará presente nos trabalhos da ASEAN, devido ao veto imposto aos militares golpistas nas reuniões de alto nível da organização, na sequência do golpe de Estado de Fevereiro de 2021.

Na altura, os líderes da ASEAN e o actualmente nomeado Presidente do país e do Governo militar, líder do golpe, general Min Aung Hlaing, acordaram um “roteiro” de cinco pontos para resolver o conflito, incluindo a libertação de presos políticos e o fim da violência contra civis, que produziu escassos resultados até agora.

Min Aung Hlaing foi nomeado recentemente Presidente do país, em corolário de uma alegada transição política do regime, depois de eleições realizadas entre dezembro e janeiro, em clima de repressão e sem oposição representativa. Na semana passada, foi anunciada a passagem para prisão domiciliária da Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, detida desde o golpe que depôs o seu governo, embora persistam dúvidas sobre a sua situação.

Manila pediu na quarta-feira ao governo militar birmanês que permita a Lazaro, enviada especial da ASEAN para Myanmar, verificar o estado de Suu Kyi. A ministra filipina adiantou no discurso inaugural que “informará os homólogos sobre os avanços” nos cinco pontos de consenso acordados com os militares.

Criada em 1967, a ASEAN integra Singapura, Malásia, Vietname, Indonésia, Tailândia, Filipinas, Myanmar, Brunei, Laos, Camboja e Timor-Leste, desde Outubro de 2025.

Hong Kong | Subida de 8% nos turistas durante feriados do 1 de Maio

Hong Kong recebeu 1,19 milhões de visitantes durante os cinco dias de feriados do Dia do Trabalhador, mais 8 por cento do que no mesmo período de 2025.

O Departamento de Imigração da região chinesa anunciou na quarta-feira à noite que a esmagadora maioria dos turistas vieram da China continental: 1,01 milhões, um aumento de 10 por cento em relação à chamada ‘semana dourada’ de 01 de Maio do ano passado. O secretário para a Administração de Hong Kong, Eric Chan Kwok-ki, disse que o crescimento no número de visitantes trouxe “benefícios consideráveis” a sectores como o retalho, a restauração e a hotelaria.

“Representantes de alguns centros comerciais indicaram que o consumo em diversas categorias do retalho apresentou aumentos de dois dígitos em relação ao ano anterior”, sublinhou Eric Chan. Já os negócios dos restaurantes situados em áreas turísticas “aumentaram cerca de 20 por cento no mesmo período”, acrescentou o governante.

Hong Kong recebeu em média cerca de 200 mil visitantes do interior da China durante a ‘semana dourada’, com o pico atingido em 02 de Maio, dia em que cerca de 260 mil turistas chineses entraram na região. A taxa geral de ocupação hoteleira atingiu 90 por cento, ligeiramente superior à dos feriados do Dia do Trabalhador de 2025, enquanto os preços dos quartos de hotel aumentaram 10 por cento.

As ‘semanas douradas’ são usadas como indicador da actividade económica da China, que procura impulsionar o consumo e os serviços como motores da procura interna, que ainda não recuperou totalmente desde a pandemia de covid-19.

A vizinha região chinesa de Macau recebeu quase 873 mil visitantes durante os cinco dias de feriados do Dia do Trabalhador, mais 2,7 por cento do que no mesmo período de 2025, mas inferior à previsão de 1,1 milhões feita pelas autoridades. O segundo dia do Dia do Trabalhador, 02 de Maio, fixou um novo máximo histórico de Macau, com quase 248 mil turistas a entrarem no território.

Números inéditos

A China terminou a ‘semana dourada’ com um novo recorde máximo de quase 1,52 mil milhões de viagens domésticas, apesar do impacto da crise energética resultante da guerra no Médio Oriente nos custos de transporte e logística. As viagens entre 01 e 05 de Maio aumentaram 3,49 por cento face ao ano anterior, segundo dados divulgados pelo Ministério dos Transportes chinês na quarta-feira.

O transporte ferroviário voltou a representar uma importante fatia das viagens domésticas, com mais de 106 milhões de passageiros durante os feriados. O dia 1 de Maio registou um recorde de 24,84 milhões de passageiros, informou a empresa ferroviária estatal.

O transporte rodoviário ultrapassou 1,39 mil milhões de viagens, impulsionado pelo turismo interno e pelo aumento das viagens familiares e regionais durante a ‘semana dourada’. Em contraste, o tráfego aéreo atingiu 10,54 milhões de passageiros durante os feriados, uma quebra de 5,74 por cento face ao mesmo período de 2025.

DeepSeek poderá valer 38 mil milhões de euros com apoio de fundo estatal chinês, segundo Financial Times

O maior fundo de semicondutores apoiado pelo Estado chinês está a liderar a primeira ronda de financiamento da DeepSeek, ‘start-up’ de inteligência artificial, cuja valorização poderá atingir 45 mil milhões de dólares. O China Integrated Circuit Industry Investment Fund, normalmente referido como o “Big Fund”, procura liderar o investimento na DeepSeek, segundo quatro pessoas com conhecimento das negociações, citadas pelo jornal britânico Financial Times.

Outros investidores ainda em conversações para adquirir participação incluem o gigante tecnológico chinês Tencent, embora a composição final ainda não tenha sido definida, acrescentou o jornal. A DeepSeek ganhou destaque em Janeiro de 2025 com o lançamento do R1, um modelo de linguagem de código aberto, que a empresa disse ter sido treinado com apenas uma fracção da capacidade computacional utilizada por modelos desenvolvidos por rivais norte-americanos, como a OpenAI.

A valorização da DeepSeek aumentou significativamente face aos 20 mil milhões de dólares estimados no início das negociações há apenas algumas semanas, à medida que os investidores apostam no potencial do laboratório, apesar da falta de foco na comercialização.

Liang Wenfeng, bilionário fundador da ‘start-up’ com sede em Hangzhou, leste da China, poderá também investir pessoalmente nesta ronda, segundo duas das fontes. Liang controla 89,5 por cento da DeepSeek através de participações pessoais e grupos afiliados, de acordo com documentos da empresa.

O apoio do fundo governamental da China reforçaria a posição da DeepSeek como líder no desenvolvimento de modelos avançados de IA no país, além de promover um ecossistema chinês integrado de modelos, software e ‘chips’ domésticos.

Dividir por três

A China lançou o apoio ao “Big Fund” em três fases, dando expressão à política de auto-suficiência tecnológica do Presidente chinês, Xi Jinping, face aos esforços dos EUA de restringir o acesso do país a tecnologias como equipamentos avançados de produção de semicondutores.

O fundo reuniu 47 mil milhões de dólares do ministério das Finanças, governos locais e bancos estatais na terceira ronda de financiamento em 2024, e está mandatado para investir em equipamentos e materiais para semicondutores. Até agora, não apoiou publicamente nenhuma outra empresa de grandes modelos de linguagem (LLM) na China.

A DeepSeek anunciou, no lançamento do mais recente modelo V4, que este foi otpimizado para executar inferência – o cálculo que os LLMs usam para gerar respostas – nos ‘chips’ Ascend 950PR do grupo Huawei. As vendas de ‘chips’ de IA da Huawei dispararam este ano, ultrapassando na China a Nvidia, maior fornecedora mundial de ‘chips’ de IA, cujos produtos avançados continuam proibidos de entrar no país, noticiou o Financial Times na semana passada.

Divisas estrangeiras | Reservas chinesas aumentam 2,05% em Abril

As reservas chinesas de divisas estrangeiras aumentaram 2,05 por cento em Abril face a Março, atingindo cerca de 3,41 biliões de dólares, informou ontem a Administração Estatal de Divisas (SAFE) da China. O crescimento mensal corresponde a aproximadamente 68,4 mil milhões de dólares, segundo a instituição, que o atribuiu à descida da cotação do dólar e à evolução desigual dos preços dos principais activos financeiros globais.

“A China continua a consolidar a sua tendência de melhoria económica, com resiliência e dinamismo do desenvolvimento que se reforçam, o que contribui para que o tamanho das reservas de divisas se mantenha basicamente estável”, indicou o comunicado. Em 2025, as reservas de divisas estrangeiras chinesas cresceram 4,86 por cento, terminando o ano em 3,36 biliões de dólares.

Em outro documento publicado ontem, a SAFE revelou ainda que aumentou as reservas de ouro de 74,38 milhões de onças para 74,64 milhões em Abril, registando o 18.º mês consecutivo de crescimento. Após fortes correcções registadas após o ouro ter atingido máximos históricos no início do ano, o valor dessas reservas ascendeu a cerca de 344,17 mil milhões de dólares, face aos 342,76 mil milhões registados no final de Março.

Letras&Companhia | Afonso Cruz apresenta hoje “Assim, mas sem ser Assim”

O escritor Afonso Cruz, nome sonante da literatura portuguesa contemporânea, apresenta hoje na Livraria Portuguesa, a partir das 18h30, a sua obra “Assim, mas sem ser Assim – Considerações de um Misantropo”, no âmbito do festival Letras&Companhia. Eis uma história sobre o significado de misantropo do ponto de vista de um jovem que é incentivado a comunicar pelo pai. A edição deste ano do Festival é subordinada ao tema “A minha Cidade”

O Festival Letras&Companhia, que arrancou esta semana, tem hoje um dos momentos altos do evento, com a apresentação do livro para a infância de Afonso Cruz, intitulado “Assim, mas sem ser Assim – Considerações de um Misantropo”. A sessão decorre na Livraria Portuguesa a partir das 18h30, revelando-se ao público local uma história sobre o significado de um misantropo, diálogos entre um pai e um filho e a importância de comunicar com o que está à volta.

Segundo a sinopse da obra, editada pela Caminho, a história traz “um brilhante conjunto de situações e de personagens do quotidiano com um acento de reflexão sobre a actualidade social – a Crise – de forma acessível e sensível aos mais jovens”. “O meu pai diz que passo muito tempo em casa, diz que devo comunicar com as pessoas, e eu, claro, obedeço porque o meu pai costuma dar bons conselhos e usa barba. Muito bem, disse-lhe eu, mas o que significa misantropo?”, questiona-se na obra.

Na descrição do livro feita pela Caminho, descreve-se como esta é uma história que “põe a nu os desequilíbrios e desajustes de um microcosmos muito particular: os vizinhos que partilham os vários andares do prédio onde vive e com os quais é ‘incentivado’ pelo pai (que tem barba e dá bons conselhos) a ‘comunicar’, procurando entabular com eles algumas conversas, com maior ou menor resistência da parte dos visados”.

Assim, “as situações criadas nestas tentativas de comunicação estão pontuadas pelo humor que decorre do cómico de situação ou de personagem, como acontece quando toca à campainha do vizinho poeta durante quatro minutos e vinte e três segundos”.

Sempre que o jovem tenta comunicar há uma certa “espontaneidade de encontros esporádicos entre vizinhos”, sendo que o leitor percebe “um sistema particular do narrador com vista a alargar as suas capacidades ‘comunicativas’, revelando, em alguns momentos, características de uma estratégia quase científica, porque as conclusões retiradas decorrem da observação atenta e crítica dos ‘fenómenos'”, lê-se.

“Assim, mas sem ser Assim – Considerações de um Misantropo” destina-se “quer a crianças quer a adultos”, sendo “uma espécie de revelação de uma verdade universal que preferimos esconder ou ignorar, sob a capa de cariz mais ou menos social ou político”. Há uma “mensagem implícita”, como a ideia de que “a relação das pessoas umas com as outras e com o mundo necessita de ser repensada e perspectivada segundo um ponto de vista mais humano e mais justo”.

Outras letras

Entretanto, o “Letras&Companhia – Festival Literário para Pais e Filhos” traz amanhã a cerimónia oficial de abertura que decorre, a partir das 15h30, na Escola Portuguesa de Macau, com destaque para a realização “de um mini-concerto escolar a cargo da Escola Sun Wah” e a entrega de mini-bibliotecas, “uma actividade anual que visa promover a leitura em português e dar a conhecer autores portugueses às crianças das escolas da RAEM”, com livros em português e chinês.

Também amanhã, mas ao final do dia, a partir das 18h, decorre a sessão “Ao entardecer a biblioteca I”, na sede do Instituto Português do Oriente (IPOR), que organiza o festival. Nesta sessão, o IPOR abre as suas portas “para que as crianças possam explorar o mundo misterioso onde os livros são guardiões do imaginário”, descreve o programa. O evento está pensado para crianças e jovens dos 8 aos 11 anos, tratando-se de um “programa que vai pela noite dentro até à manhã do dia seguinte, composto por oficinas criativas, sessões de leitura e dramatização de contos onde o fantástico, o suspense e a surpresa dominam”.

No domingo, decorre uma acção de formação pensada para formadores e professores com o ilustrador André Letria. “Ler o Livro, Ler o Mundo: O Poder do Álbum Ilustrado – Oficina de literacia visual” é o nome da iniciativa focada nos álbuns ilustrados para crianças e jovens, que são “muito mais do que simples histórias acompanhadas de imagens”, mas também “ferramentas poderosas para formar leitores plenos — capazes não só de decifrar palavras, mas também de ler, interpretar e questionar imagens”. A actividade decorre no IPOR entre as 10h e as 13h. Andrea Magalhães protagoniza também outra oficina, “O meu Mealheiro Colorido”, a partir das 11h, no IPOR.

O sexto festival Letras & Companhia aborda a relação entre as cidades e quem nelas vive, disse à Lusa a organizadora. A directora do IPOR disse que o tema desta edição, “A Minha Cidade”, partiu de um encontro com o ilustrador português André Letria. “Nós já tínhamos pensado que o tema (…) seria à volta do envolvimento das crianças com o espaço e o André tem uma série de mapas ilustrados”, explicou Patrícia Ribeiro.

André Leiria lançou o desafio e alunos de quatro escolas locais criaram “imensos mapas ilustrados” da região chinesa, cerca de 30 dos quais estarão expostos no IPOR de domingo até 24 de Maio.

O criador da editora Pato Lógico irá ainda lançar o seu próprio mapa de Macau e dinamizar oficinas sobre ilustração em escolas e uma formação de professores sobre literacia visual. As actividades já começaram na terça-feira, com o Mercado das Letrinhas, uma feira de livros infantis de autores lusófonos – alguns também disponíveis em chinês e inglês – que vai estar na Livraria Portuguesa até 24 de Maio.

Hospital São Januário | Morte de feto leva a acusação de negligência

Uma grávida seguida no Hospital São Januário sofreu um aborto no dia seguinte a uma consulta. O pai questiona se não terá ocorrido negligência médica e protesta a falta de respostas à queixa que apresentou ao hospital público há cerca de três meses

O programa Fórum Macau, do canal chinês da Rádio Macau, foi ontem “palco” de um caso trágico quando um ouvinte contou aos microfones da emissora pública a forma como a sua mulher perdeu o bebé depois de uma consulta no Centro Hospitalar Conde de São Januário.

O residente, de apelido Ng, revelou que o incidente aconteceu no final de Outubro do ano passado, quando a sua esposa estava grávida de 30 semanas. Nessa altura, a grávida começou a sentir dores na zona abdominal, obrigando o casal a recorrer ao hospital público. “Quando fomos à consulta, o médico observou a minha mulher e disse-nos que não havia qualquer problema. Em relações às dores abdominais, concluiu que se deviam à pressão exercida pelo crescimento do bebé no estômago”, contou com em tom agastado.

Pouco depois de saírem do hospital, e com medicamentos prescritos, o casal foi surpreendido com um telefonema. “Deram-nos um medicamento ao qual a minha mulher é alérgica, tal como consta no seu processo clínico. Ela não chegou a tomar o medicamento porque tínhamos acabado de sair do hospital, mas voltámos atrás para levantar outro fármaco”.

Apesar da rectificação, no dia seguinte o bebé estava morto. “A minha mulher deixou de sentir batimentos cardíacos ou movimento e regressámos de imediato ao hospital.”

Questões dolorosas

No hospital, foi dito ao casal que a “situação era crítica” e que só podiam sair do hospital depois de assinarem um documento. Ng não especificou exactamente o tipo de documento em causa, mas todo o processo lhe pareceu irregular. “Porque não nos pediram para assinar o documento no dia anterior? Porque prescreveram ao início um medicamento que resultaria em reacção alérgica? Não será isto negligência médica”, questionou.

O ouvinte confessou ainda que o casal chegou a ponderar recorrer ao Hospital Kiang Wu, mas decidiram não o fazer porque a esposa de Ng enfrentava uma gravidez de alto risco, com um historial de abortos espontâneos, e não quiseram interromper o acompanhamento que já seguia no Hospital São Januário. Face ao risco, o casal pensou que teriam acesso a cuidados de saúde redobrados, mas acabaram por enfrentar desleixo clínico, exemplificado na prescrição de um medicamento que facilmente se poderia ver no processo clínico que poderia resultar em alergia.

A autópsia viria a concluir que a causa da morte foi hipóxia intrauterina, uma condição em que o feto recebe uma quantidade insuficiente de oxigénio durante a gestação.

Inconformado, Ng apresentou uma queixa no hospital público em meados de Fevereiro e só na terça-feira recebeu uma resposta a referir apenas que “o caso está a ser acompanhado”. Face à resposta insatisfatória, a apresentadora do Fórum Macau garantiu que iria consultar as autoridades sobre o caso da família de Ng e contactar o residente directamente se tivesse novidades.

Jogo | Inaugurada primeira fábrica de baralhos

A Bee Macau abriu uma fábrica em Macau, que corresponde a um investimento de cerca de 500 milhões de dólares de Hong Kong. Apesar de ser a capital mundial do jogo, o território não tinha qualquer fábrica de baralhos de cartas

Um grupo da Bélgica e uma empresa de Macau anunciaram ontem o arranque da primeira fábrica de baralhos de cartas de jogo na capital mundial dos casinos.

Num comunicado, a Bee Macau indicou que a unidade nasce de um investimento de cerca de 500 milhões de dólares de Hong Kong. A Bee Macau resulta de uma parceria entre o grupo belga Cartamundi, um dos maiores fabricantes de baralhos de cartas do mundo e a empresa local Asia Pioneer Entertainment (APE), que está cotada na bolsa da vizinha região de Hong Kong.

Uma porta-voz da APE disse ontem à Lusa que os testes de produção de baralhos de cartas tinham começado em 2025, mas que a produção em grande escala só arrancou no primeiro trimestre de 2026. A APE e o Cartamundi assinaram um acordo de cooperação, que previa a “introdução de tecnologias avançadas de produção sustentável”, em 27 de Março, durante o Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau 2026.

O comunicado de ontem refere que o início oficial da produção em grande escala acontece “após testes bem-sucedidos e exportações iniciais” para operadoras de jogo em outras regiões asiáticas. A porta-voz da APE recusou-se a revelar o local da fábrica, alegando ser “segredo comercial”.

Riscos de importação

Capital mundial do jogo, Macau é o único local na China onde o jogo em casino é legal. Mas o território “dependeu durante muito tempo de cartas de jogar importadas, o que gerava riscos na cadeia de abastecimento”, sublinhou o director geral da Cartamundi para a Ásia-Pacífico, Jason Pearce.

O executivo disse no comunicado que a abertura da fábrica “posiciona Macau não só como um centro global de jogo, mas também como produtor de material de alta qualidade para jogos”. “O mercado ganha finalmente uma opção local no fabrico de baralhos de cartas, abrindo as portas a uma verdadeira diversificação”, disse o director executivo da APE, Herman Ng Man Ho.

Citado no comunicado, o empresário afirmou que os baralhos cumprem os requisitos regulatórios para poderem também ser exportados e usados em casinos de todo o mundo. De acordo com a mesma nota, o presidente da Associação de Empresários dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola de Macau, Alan Ho, disse que a nova fábrica poderá “abrir em conjunto os vastos mercados” dos dois blocos.

Em Janeiro, a empresa da Malásia Mega Fortris abandonou planos, anunciados em Outubro, para produzir baralhos de cartas de jogo em Macau e lamentou a dificuldade em encontrar instalações e as elevadas rendas.

Metro / Elevadores | Manutenção custa até 17,4 milhões

A manutenção dos elevadores e escadas rolantes do Metro Ligeiro vai custar até 17,4 milhões de patacas até 2029. O anúncio do resultado do concurso público para a adjudicação do serviço foi revelado ontem no portal da Direcção dos Serviços da Supervisão e da Gestão dos Activos Públicos.

A escolhida foi a empresa local Companhia de Elevadores Germantech Limitada, que apresentava a terceira proposta mais cara entre as cinco participantes. A proposta mais baixa foi apresentada pela Otis Elevator Company (H.K.) Limited, com um preço de 13,3 milhões de patacas. No polo oposto, o valor mais elevado partiu da Kwongo Serviços de Engenharia Companhia Lda, com 22,7 milhões de patacas. O serviço vai começar a ser disponibilizado no início do próximo mês e prolongar-se-á até 31 de Maio de 2029.

Mais fácil transportar bicicletas

A partir de sábado, e até 30 de Agosto, a Sociedade do Metro Ligeiro de Macau vai reduzir as restrições ao transporte de bicicletas. Segundo o novo modelo, os passageiros podem levar consigo bicicletas aos dias do fim-de-semana, se as bicicletas não tiverem mais de 180 cm de comprimento e se removerem uma das rodas ou se as dobrarem.

As bicicletas com um comprimento original que não ultrapasse os 130 cm não necessitam de ser dobradas nem de ter rodas removidas. Entre segunda e sexta-feira, mantêm-se as restrições originais para o transporte de objectos, não podendo ser transportados no Metro objectos cuja soma do comprimento, largura e altura exceda os 170 cm, nem cujo comprimento de qualquer dos lados ultrapasse os 130 cm.

Don Donki | Obras resultam em condenações em Hong Kong

Duas pessoas foram condenadas em Hong Kong com penas de prisão pela prática de corrupção, em contratos de obras renovação para lojas japonesas, entre as quais o supermercado “Don Don Doki”, em Macau, que implica dois contratos avaliados em 25 milhões de dólares de Hong Kong.

Segundo o ICAC – Comissariado contra a Corrupção de Hong Kong – o caso remonta a 2019, quando a empresa KLC ficou encarregue de encontrar as empresas para renovar duas lojas: a Tokyo Lifestyle, em Kowloon, e o supermercado Donki Japan em Macau.

A empresa KLC atribuiu às empresas RNK e FEL as obras. Contudo, Pian Pang Ka-shin, responsável pela empresa KLC, confessou ter sido subornada em mais de 230 mil dólares de Hong Kong, entre Junho de 2019 e Janeiro de 2022, para atribuir os trabalhos. Em Agosto de 2025, Piang foi condenada a três meses de prisão, depois de ter confessado os factos.

Na quarta-feira, o Tribunal de Kowloon City condenou mais dois dos três arguidos por corrupção. Li Po-wah, director e accionista da RNK, e Pang Wai-yin, antigo supervisor das instalações da RNK, vão ter, cada um, de cumprir uma pena de prisão de seis meses. Segundo o tribunal, ficou provado que os dois pagaram um suborno de 170 mil dólares de Hong Kong a Pian Pang Ka-shin, pagamento que valeu a atribuição de um dos contratos.

Em relação ao arguido Yung Chor-chi, operador da FEL, o tribunal entendeu que não havia provas suficientes para haver qualquer condenação.

Governo quer estender inventário do Património Cultural Intangível

O Governo de Macau prometeu ontem alargar, até ao final do ano, o Inventário do Património Cultural Intangível do território. A promessa foi feita pela presidente do Instituto Cultural (IC), Leong Wai Man, após uma reunião do Conselho do Património Cultural de Macau, ao qual Leong também preside.

Na lista de novas manifestações culturais a serem protegidas, constam três propostas macaenses. São elas o chá gordo, um lanche festivo com dezenas de iguarias, a Tuna Macaense, que toca músicas no dialecto crioulo macaense, o patuá; e o ‘batê saia’, uma arte decorativa de recorte de papel de seda ou papel rendado.

Além de um inventário, Macau tem ainda uma Lista do Património Cultural Intangível, que abrange “as manifestações de maior valor, incluindo aquelas que sejam representativas de tradições sociais relevantes, (…) e passam a usufruir de um maior grau de protecção”.

Na agenda da reunião, esteve um ponto de situação do estado de salvaguarda do património cultural intangível do território. Leong sublinhou que o Executivo realizou “muitos trabalhos em vários aspectos”.

A dirigente lembrou que o Fundo de Desenvolvimento da Cultura criou um programa para dar “mais recursos” financeiros às entidades nomeadas para proteger e promover as diferentes manifestações culturais. Mas Leong acrescentou que o Governo também tem trabalhado na “promoção e sensibilização” para a importância da salvaguarda do património cultural intangível de Macau.

A dirigente deu como exemplo um programa de formação nas escolas, criado em 2025, para “as novas gerações que querem ser transmissores do património cultural intangível”. O programa é para continuar este ano, uma vez que “obteve resultados positivos. Temos muitos candidatos, muitos jovens querem trabalhar nesta área”, sublinhou a presidente do IC.

Natas & Companhia

O Inventário do Património Cultural Intangível já inclui o Dia dos Finados chinês, conhecido como ‘Cheng Ming’, no 15.º dia após o solstício de Primavera, no início de Abril, e o ‘Chong Yeong’, o dia de Culto dos Antepassados, a 9 de Setembro.

Em Outubro, a região inscreveu na lista 12 novas manifestações, incluindo a dança folclórica portuguesa e os pastéis de nata locais. Em 2019, Macau já tinha inscrito como património cultural intangível as procissões católicas do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora de Fátima, a gastronomia macaense e o teatro em patuá. Em 2021, a gastronomia macaense e o teatro em patuá foram também incluídos pela China na Lista de Património Cultural Imaterial Nacional.

Combustíveis | Subsídio de 3,3 patacas por litro de gasóleo

O Governo vai subsidiar a subida do preço do gasóleo e ajudar empresas a contornar despesas com combustível e inflação. O plano terá uma duração de dois meses, a começar na segunda-feira, implicando um investimento de 80 milhões de patacas para minorar o impacto da guerra no Irão

O Governo anunciou ontem um plano para subsidiar a compra gasóleo e atenuar o impacto da escalada dos preços dos combustíveis nas empresas locais. O plano entra em vigor na próxima segunda-feira, estendendo-se até 10 de Julho e irá apoiar a compra de gasóleo em 3,3 patacas por litro.

O director dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT), Yau Yun Wah, indicou ontem que o “plano visa aliviar a pressão sobre os custos e evitar que o aumento do preço do diesel seja repercutido nos preços de bens de consumo”.

No total, o Governo irá disponibilizar 80 milhões de patacas aos cinco operadores petrolíferos do território, que vão ficar obrigados a manter registos completos e a apresentar relatórios quinzenais, com auditores independentes a analisar as informações oferecidas e a verificar eventuais irregularidades, como registos falsos.

A medida apresentada ontem foi tomada na sequência da “instabilidade geopolítica internacional dos últimos tempos, que tem provocado flutuações contínuas nos preços globais dos produtos petrolíferos”.

A decisão de apenas subsidiar o gasóleo, deixando de fora a gasolina sem chumbo e a gasolina premium, foi explicada pelo facto de ser “o principal combustível para as empresas industriais e comerciais de Macau, constitui um bem de consumo essencial para as actividades industriais e comerciais”. Além disso, o Executivo acrescenta que “embora o preço da gasolina tenha subido em relação ao início de Março, o aumento tem sido significativamente mais moderado do que o do diesel e tem-se mantido relativamente estável”.

Próximos capítulos

De acordo com Yau Yun Wah, os utilizadores de gasóleo em Macau consomem cerca de 11 milhões de litros de gasóleo por mês, com aproximadamente 8.600 veículos movidos por esse combustível registados na cidade. “Os fornecedores de combustíveis aderentes deverão manter os descontos já praticados, aplicando o subsídio governamental sobre o preço depois do desconto. Os recibos terão de indicar o preço original e o montante do subsídio. E os postos de abastecimento vão afixar cartazes informativos sobre a medida”, indicou Yau.

Questionado sobre se o plano será mantido no caso de os preços dos combustíveis se manterem ou aumentarem, Yau sublinhou que se trata de uma medida “provisória, específica e limitada no tempo”, destinada a apoiar imediatamente os utilizadores de gasóleo e ajudar o sector a superar dificuldades. “Vamos continuar a monitorizar e a comunicar com o sector petrolífero e de acordo com a situação internacional”, acrescentou.

Actualmente, existe uma grande disparidade nos preços de combustíveis entre Macau e o Interior da China. Por exemplo, as gasolineiras de Zhuhai praticam preços máximos de gasóleo na ordem dos 8,14 yuan, metade do preço praticado em Macau.

Segundo o director da DSEDT, os preços em Macau “seguem a plataforma de Singapura”, como acontece em toda a Ásia-Pacífico, enquanto no Interior da China são determinados pela Comissão de Reforma e Desenvolvimento, que define a estratégia económica nacional e aplica limites e reduções temporárias para suavizar os impactos de picos anormais nos preços globais. João Luz / Lusa

Creche Smart | IAS insiste na falta de fiscalização financeira

O Instituto de Acção Social defende que a decisão de cessar a cooperação com a Creche Smart e recuperar as instalações se prende com a fiscalização do financiamento da instituição. Além disso, promete mais explicações após os processos em tribunal

Em reacção ao mais recente comunicado da associação Zonta Club de Macau sobre a Creche Smart, o Instituto de Acção Social (IAS) insiste que não foram cumpridas as exigências de fiscalização financeiras relativas à instituição de ensino. Este motivo levou a que o IAS avançasse para o corte do financiamento e recuperasse as instalações da creche, decisão que está a ser contestada pela associação nos tribunais.

“Há já algum tempo que o Zonta Club de Macau não satisfazia as exigências de fiscalização de apoio financeiro do IAS em termos da aplicação dos seus recursos financeiros. Em virtude da persistência da situação durante um período prolongado, o IAS avançou com a cessação da cooperação em conformidade com a lei, nomeadamente cessar o financiamento e exigir a devolução das instalações da creche”, afirmou o IAS, numa resposta ao HM.

No entanto, o facto de ainda recorrerem alguns processos administrativos leva a que o IAS opte por não comentar mais detalhes sobre o caso. “Tendo a cessação da relação de cooperação entre as partes envolvido vários processos administrativos, alguns dos quais ainda se encontram a ser apreciados no tribunal, o IAS, neste momento, não tem mais informações a divulgar”, foi apontado.

Acusações de perseguição

Na segunda-feira a associação Zonta Club de Macau pediu ao Governo para controlar o presidente do IAS, Hon Wai, para evitar abusos de poder. A posição da entidade responsável pela Creche Smart foi tornada pública nas redes sociais, depois do relatório do IAS sobre a creche e da publicação no portal da entidade pública sobre admissões em creches que a cooperação entre a instituição de ensino e o IAS foi “cessada” e que há uma acção judicial a decorrer nos tribunais.

Em Março do ano passado, o IAS cortou o financiamento e recuperou as instalações na Taipa, onde opera a creche Smart. Num primeiro momento, o IAS limitou-se a indicar que as duas partes não tinham chegado a acordo no que diz respeito a “princípios básicos” e “importantes aspectos de organização”.

A decisão do IAS foi contestada pela associação, que avançou para os tribunais com uma providência cautelar para suspender, inicialmente, o corte de apoios financeiros e a recuperação do espaço. O Tribunal Administrativo e o Tribunal de Segunda Instância, após recurso do IAS, aceitaram a providência cautelar da Zonta Club de Macau.

Além disso, a associação apresentou uma queixa ao Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) e mostrou-se disponível para abdicar dos processos em tribunal, em virtude das conclusões da investigação. A Zonta, reconheceu erros, mas mostrou-se disponível para ser investigada pela Polícia Judiciária, para proteger a sua reputação

Veículos eléctricos | Quase 100 multas em 2025

No ano passado, a polícia passou 97 multas a veículos estacionados de forma indevido em lugares para carregamento de veículos eléctrico. A revelação consta de uma resposta a uma interpelação escrita do deputado Lee Koi In.

A resposta assinada pelo director dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), Chiang Ngoc Vai, indica que no ano passado “foram autuados 97 casos de veículos não eléctricos por estacionamento em lugares de estacionamento destinados a veículos eléctricos”. Entre 1 de Janeiro e 20 de Março deste ano, houve um total de 28 multas pelos mesmo motivos.

Na interpelação escrita, Lee Koi In mostrou-se também preocupado com as dimensões reduzidas dos parques de estacionamento. Chiang Ngoc Vai indicou que a DSAT tem tentado aumentar a área dos lugares. “Visando optimizar o ambiente de estacionamento, a DSAT tem vindo a proceder gradualmente, desde o ano passado, ao ajuste do comprimento dos lugares de estacionamento para automóveis ligeiros na via pública para uma média de cerca de 5,5 metros, tendo sido concluído o ajuste de mais de 1.500 lugares até 31 de Março de 2026”, apontou.

“No futuro, em articulação com o plano de instalação de lugares de estacionamento para carregamento da DSPA [Direcção de Serviços de Protecção Ambiental], proceder-se-á ao ajuste correspondente das dimensões dos lugares de estacionamento de acordo com as normas técnicas e sempre que as condições da obra o permitam, por forma a responder às necessidades de estacionamento e de carregamento dos veículos eléctricos”, acrescentou.

Água reciclada | Meta utilização fixada em 5% até 2030

Até 2030 as autoridades esperam que 5 por cento de toda a água utilizada no território seja reciclada. A meta foi traçada ontem por Susana Wong Soi Man, directora dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA), em declarações à imprensa.

Quando fez o balanço dos primeiros dois meses de funcionamento da Estação de Água Reciclada de Coloane, a directora da DSAMA indicou que as obras para fornecer mais água reciclada não vão parar e que a segunda fase de expansão da estação de Coloane e a estação que vai ser construída na Ilha Artificial da Ponte de Hong Kong-Zhuhai-Macau vão permitir fornecer água reciclada ao Cotai.

A meta não se fica por aqui. Com as obras planeadas, as autoridades esperam que a percentagem de água reciclada suba para 10 por cento do total, em 2035.

Em relação ao balanço da utilização da Estação de Água Reciclada de Coloane, Susana Wong explicou que actualmente são produzidos 1.500 metros cúbicos, fornecidos às habitações de Seac Pai Van, que recebem 55 por cento da água reciclada, e à Universidade de Macau, que recebe 45 por cento. No entanto, existe capacidade para fornecer mais água, uma vez que a capacidade diária da estação é de 2.500 metros cúbicos.

Sobre este tipo de abastecimento, a responsável indicou que não foram recebidas queixas. A água reciclada é tratada num processo menos exigente do que a água tradicional das torneiras, porque não é potável e visa apenas ser utilizada para lavar as mãos, em descargas de autoclismo ou para regar plantas.

Patuá | “Extinção parece ser irreversível”, conclui estudo da UPM

Um estudo de três académicas da Universidade Politécnica de Macau conclui que se “mantém robusto o sentimento de pertença e orgulho macaense”. Porém, a extinção do patuá é “irreversível”, com os jovens a sentirem-se “impotentes perante a fatalidade da perda deste património”

O patuá está praticamente extinto. Esta é uma das conclusões do estudo “Identidade e dinâmicas linguísticas da comunidade macaense em Macau: um estudo de caso”, da autoria de Maria Gomes Fernandes, Xiaoyan Wang e Meng Ye, três académicas da Faculdade de Línguas e Tradução da Universidade Politécnica de Macau (UPM).

O trabalho consta da mais recente edição da Diacrítica, revista do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, dedicada à temática “A língua portuguesa na China: ensino, literatura, cultura e tradução”.

Lê-se no estudo, feito com base num inquérito à comunidade macaense, que “a extinção do patuá parece ser irreversível, não obstante os esforços de revitalização empreendidos”. “Os dados falam por si: os jovens inquiridos não falam nem transmitem esta língua aos descendentes”, é indicado.

Num trabalho que olha “como os jovens macaenses se inserem social e culturalmente na sociedade de Macau”, tendo em conta que “subsistem muitas dúvidas quanto às formas de preservar a comunidade macaense da RAEM enquanto identidade cultural única”, conclui-se que “o sentimento de pertença e orgulho macaense mantém-se robusto”. Tudo graças a “hábitos e costumes associados à gastronomia, à religião católica e à língua portuguesa”, verificando-se “um elevado grau de plurilinguismo”, com a manutenção “do papel de elo entre a comunidade chinesa e portuguesa”.

O português constitui, por sua vez, “um pilar fundamental que ajuda a contrariar a tendência de identidade cada vez mais fluida e hibrida, que tende a ser diluída na etnia chinesa maioritária”, destaca-se no artigo. O estudo reflecte mesmo que “a língua portuguesa continua a ser parte integrante da identidade macaense de Macau”.

À questão sobre o que significa ser macaense, a maioria, 66 por cento, responde que é macaense quem é natural de Macau, enquanto que 52 por cento diz que é possível ser-se macaense, ou identificar-se como macaense, graças à “partilha dos mesmos hábitos e costumes”.

As académicas recolheram recolhidos 58 inquéritos válidos, sendo que “a idade da grande maioria dos respondentes situa-se entre os 25 e 40 anos”. Foi feito um “questionário junto da comunidade macaense, com especial enfoque em jovens anónimos”, tendo sido “estabelecido um primeiro contacto através das redes sociais com ex-alunos macaenses do curso de Licenciatura em Tradução e Interpretação da Universidade Politécnica de Macau, que, por sua vez, divulgaram a ligação do Google Forms para que outros elementos da comunidade respondessem”.

Patuá a desaparecer

Em relação ao uso do patuá, o estudo confirma que “este crioulo se encontra, hoje, praticamente moribundo, pois 90 por cento destes jovens inquiridos não falam esta língua”.

Porém, as respostas denotam uma consciencialização sobre a necessidade da sua preservação, tendo os inquiridos “a perfeita consciência de que, com o seu desaparecimento, parte da unicidade da comunidade macaense irá desaparecer também”. O estudo aponta para 93 por cento das respostas a considerar “importante preservar este crioulo”, enquanto 57 por cento acha que “a preservação passa pelo ensino”. Já 69 por cento dos participantes entende que se devem desenvolver actividades culturais para promover o patuá.

Com a grande excepção de eventos como a peça de teatro anual do grupo Dóci Papiaçam di Macau, apresentada no Festival de Artes de Macau, ou de cursos organizados no Centro Científico e Cultural de Macau, têm sido poucas as iniciativas desenvolvidas. As autoras denotam que se “registam algumas manifestações culturais”, mas “que a produção literária perdeu o fulgor registado no século XX”. “Ainda que ciosos e orgulhosos da sua herança, estes jovens sentem-se algo impotentes perante a fatalidade da perda deste património”, acrescenta-se.

Mais mandarim

Tendo em conta a conexão com a comunidade tendo por base valores como a gastronomia ou a língua, o inquérito deixa “claro que a língua portuguesa predomina como língua de escolarização do público inquirido, e a todos os níveis de ensino”.

Porém, “a língua portuguesa deixa de ser a língua forte no que respeita à educação escolar dos filhos destes jovens macaenses”, passando “a partilhar a primazia com o inglês, cantonês e mandarim, o que revela uma viragem drástica quando comparada com a geração anterior”.

O inquérito não explorou mais esta questão, denotam as autoras, mas conclui-se que “o cantonês tende a ganhar terreno como língua mãe”. “Enquanto língua oficial e de prestígio, o mandarim também se vai instalando gradualmente. Particular relevo é dado ao inglês como segunda escolha para a língua de escolarização, muito provavelmente por ser língua franca internacional, mas também pelo facto de se terem instalado, nesta Região Administrativa Especial, escolas internacionais de renome nas últimas duas décadas criando, assim, uma alternativa em relação à Escola Portuguesa de Macau, permitindo o ingresso em universidades de vários países anglo-saxónicos”, pode ler-se.

O inquérito aponta ainda que “o português mantém, também, uma forte oposição”, apesar de se “registar a vantagem por parte do cantonês enquanto língua de comunicação e socialização”. O português foi, “para a grande maioria, a língua veicular de Identidade e dinâmicas linguísticas da comunidade macaense em Macau”, sendo que “muitos dos inquiridos têm uma actividade profissional em que a língua portuguesa é ferramenta de trabalho”.

Entre dentro e fora

É certo que a comunidade macaense se sente interligada pela comida, usos e costumes e ainda a língua, e a verdade é que muitos inquiridos “se identificam com o cantonês”, mas acabam sempre por serem “vistos como ‘outsiders’ aos olhos de muitos membros da etnia chinesa”.

Segundo as autoras, “esta distinção também passa pelo uso da língua nas mais variadas situações do quotidiano”, já que “a língua portuguesa funciona como se de um código secreto se tratasse”.

Isto porque, dos inquiridos, 43 por cento diz que falam português “para não serem entendidos pelos outros”, pelo que se pressupõe “que não existe uma vontade intrínseca de integração na comunidade maioritária e o vínculo com Portugal continua forte”, com 74 por cento “dos inquiridos a manterem o contacto com familiares e amigos”.

Assim, “para estes inquiridos o uso do português é algo de natural e espontâneo, sendo que 78 por cento fala ou pensar falar em português com os seus descendentes”.

Uma questão de simpatia

Os participantes no questionário foram confrontados sobre o que pensam dos membros da etnia chinesa, sejam de Macau ou do continente. “Os chineses provenientes do Continente são os que mais somam características negativas. Considerados mal-educados, rudes, egoístas, antipáticos, fechados, arrogantes ou ainda estranhos. Por sua vez, embora fechados, os chineses de Macau são considerados trabalhadores e bem mais simpáticos e educados.”

Porém, os macaenses e portugueses são tidos como “simpáticos, bem-educados, faladores e abertos”, tratando-se de “atributos que parecem unir as duas comunidades”. Desta forma, as autoras destacam que “a forma de estar dos macaenses se aproxima significativamente mais da portuguesa do que da chinesa”. Estas entendem que este panorama ajuda a explicar o facto de apenas “19 por cento dos inquiridos estranharem os chineses do Continente, que tiveram pouco ou nenhum contacto com a comunidade portuguesa — ao contrário dos chineses de Macau, cuja convivência com os portugueses remonta a quatro séculos de proximidade”.

As académicas indicaram razões para este cenário: “A massificação do turismo proveniente da Grande China, registada nos últimos anos, com a nova política do Governo Central de concessão de vistos individuais, talvez tenha evidenciado, de forma brusca, as diferenças de hábitos e costumes entre as comunidades.”

Em relação ao futuro da comunidade macaense, esta continua a ser, no actual século, “um vínculo significativo entre a comunidade chinesa e a portuguesa”, sendo que “a esmagadora maioria dos inquiridos demonstrou ter plena consciência desta mais-valia, não apenas por falar as duas línguas (69 por cento) como também por entender as duas culturas (83 por cento)”.

CPLP defende mais investimento para garantir o futuro do português

A secretária executiva da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) defendeu esta terça-feira que investir nos jovens é essencial para garantir o futuro e a expansão da língua portuguesa no mundo.

“Temos que investir na promoção internacional da nossa língua, num ensino de qualidade, na presença em espaços digitais, mas também e sobretudo investirmos nas escolas, com as crianças [e] jovens, nos espaços culturais e sociais”, declarou Maria de Fátima Jardim na celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se assinalou na sede da CPLP, em Lisboa.

Para a secretária executiva, o interesse da CPLP é de expandir o português, sendo a língua portuguesa um activo estratégico, “capaz de impulsionar oportunidades, fortalecer a presença colectiva no cenário global”.

Segundo Maria de Fátima Jardim, o português é uma língua que “transcende continentes”, sendo o idioma mais falado no hemisfério sul e um dos “mais difundidos no mundo”. A língua “é o veículo de uma riqueza cultural extraordinária, que une comunidades, une nações em diferentes partes do mundo, a pluralidade de vozes, desde a voz cantante da língua portuguesa do Brasil, até à nossa língua original de Portugal”, sublinhou.

O papel de Timor

Por sua vez, a representante permanente de Timor-Leste junto da CPLP, Natália Carrascalão, destacou o papel da língua portuguesa na afirmação cultural, na diversidade, riqueza e crescente relevância internacional. “Hoje, ao celebrarmos a língua portuguesa, celebramos também todas as formas de arte que a mantêm viva e resistente, tornando-se ainda essencial reforçar a sua projeção internacional como veículo da cultura, conhecimento e diálogo”, disse Natália Carrascalão.

Questionada sobre as soluções para os diversos desafios que a difusão da língua portuguesa encontra em Timor-Leste, Carrascalão afirmou que deve-se olhar para o país lusófono “como um caso muito especial”, pois são falados mais de 30 dialetos, “para além do tétum, que é a língua mais falada” no país asiático.

“O português está a ter avanços muito fortes, especialmente com a escola portuguesa, a escola do CAFE, [Centro de Aprendizagem e Formação Escolar de Díli]. E cada vez mais se nota que os timorenses estão realmente a honrar o facto de terem a língua portuguesa como uma das suas línguas sociais”, referiu. A representante de Timor-Leste concluiu que há países a querer “introduzir a língua portuguesa nas suas escolas”, como é o caso da Indonésia e da Austrália. Em 5 de Maio celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que foi estabelecida pela CPLP em 2009 e reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) a 25 de Novembro de 2019.

A CPLP é constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Taipa | Plano para zona norte prevê habitação para 20 mil pessoas

O Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa inclui 28 lotes destinado à construção de blocos habitacionais, com a capacidade para acolher cerca de 20 mil moradores, revelou ontem a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana numa reunião do Conselho do Planeamento Urbanístico.

Segundo a TDM – Rádio Macau, o Governo pretende criar uma zona habitacional e comercial, “integrada na envolvente paisagística da colina, que conjuga diferentes formas de vida e indústrias”. Os 28 lotes destinados a habitação estão incluídos numa área mais envolvente, com 54 lotes, com uma área global de cerca de 222 mil metros quadrados e área bruta de cerca de 1,05 milhões de metros quadrados, equivalente a 147 campos de futebol.

A zona de intervenção estende-se a Leste até à Avenida Padre Tomás Pereira e à Estrada Almirante Magalhães Correia, ficando a Estrada da Ponta da Cabrita e à Estrada Coronel Nicolau de Mesquita a Sul, a Avenida Dr. Sun Yat-Sen a Oeste o troço entre o Caminho das Hortas e a Rua de Tin Chon a Norte.

Europa | Nissan planeia cortar 10% dos postos de trabalho

A fabricante japonesa de automóveis Nissan prevê cortar cerca de 900 postos de trabalho na Europa, aproximadamente 10 por cento da sua força laboral regional, informou ontem a agência local Kyodo.

Segundo representantes citados pela agência, a empresa japonesa está a planear o encerramento parcial do armazém de componentes em Barcelona e uma revisão do modelo de vendas na Europa, passando em alguns mercados da distribuição própria para a comercialização através de importadores locais.

A medida insere-se no plano de recuperação “Re:Nissan”, anunciado em Maio de 2025, com o qual o grupo procura regressar à rentabilidade e que prevê a redução de 20.000 empregos a nível global até 2027, para além do corte da rede de fábricas de 17 para 10.

Em Espanha, a empresa japonesa comunicou aos sindicatos no passado dia 27 de Abril que planeava aplicar em três centros de Barcelona – onde trabalham 569 pessoas – um procedimento legal que permite que empresas em crise suspendam, reduzam jornadas ou extingam contratos colectivamente, segundo fontes sindicais. Os eventuais afectados incluem trabalhadores do centro técnico da Zona Franca de Barcelona, onde trabalham 383 pessoas; do centro de peças de El Prat de Llobregat, com 122 empregados; e do centro de áreas flexíveis, também em El Prat, com 64 trabalhadores.

Irão | Porta-aviões francês passa Suez a caminho do Golfo Pérsico

O porta-aviões francês “Charles de Gaulle” e a sua escolta atravessaram ontem e o canal do Suez para se posicionarem na região do Golfo Pérsico, anunciou o Ministério das Forças Armadas. O envio do porta-aviões francês realizou-se para a eventualidade de ser lançada uma missão, promovida por Londres e Paris, para restabelecer a navegação no Estreito de Ormuz.

“O porta-aviões ‘Charles de Gaulle’ e os seus navios de escolta transitaram pelo canal do Suez hoje, 6 de Maio de 2026, a caminho do sul do mar Vermelho”, indicou ontem o ministério num comunicado. A decisão visa “agilizar a execução desta iniciativa assim que as circunstâncias o permitam”, acrescentou.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, estão por detrás de uma iniciativa para garantir a segurança da navegação no estreito, bloqueado desde o início do conflito que desde 28 de Fevereiro opõe o Irão aos Estados Unidos e a Israel.

Esta potencial missão de segurança, que só pôde ser desencadeada depois de as hostilidades terem cessado, pretende ser “neutra e claramente separada dos beligerantes”, afirmou em meados de Abril o chefe de Estado francês.

“A movimentação do grupo aeronaval é independente das operações militares iniciadas na região e complementa o dispositivo de segurança existente”, reafirmou o ministério. A sua presença perto do Golfo Pérsico vai permitir “uma avaliação do ambiente operacional regional antes do lançamento da iniciativa” e “o fornecimento de mais opções de saída da crise para reforçar a segurança regional”, indicou.

Alfândega intercepta bens contrabandeados no valor de 25 milhões

Os Serviços de Alfândega (SA) apanharam, nos primeiros quatro meses do ano, bens contrabandeados no valor de 25 milhões de patacas. Os dados foram divulgados por José Pou, chefe do Departamento de Gestão Operacional dos SA, no programa matinal Fórum Macau do canal chinês da Rádio Macau.

José Pou revelou que no período em análise foram realizadas 30 operações de combate ao contrabando em Macau, que resultaram na acusação de 68 pessoas na sequência de 62 infracções.

Os bens interceptados foram, principalmente, alimentos, grãos de prata, cosméticos, produtos electrónicos, cigarros e álcool, com um valor de 4,72 milhões de patacas. Além disso, os SA detectaram 26 situações de contrabando nas pontes-cais do Porto Interior, com bens a rondar as 21 milhões de patacas. Os SA descobriram ainda 1.309 casos nos postos fronteiriços, o que culminou na proibição de passagem da fronteira de dois carros alegadamente usados para contrabandear bens.

Sinais de crise

Face ao aumento dos casos de contrabando, a advogada Lai Wing Yan, sediada em Hong Kong, escreveu no portal HK01 um artigo de opinião a argumentar que Macau está a atravessar um período de mudanças económicas, com maior inflação, tendo por base o caso recente de contrabando de mais de 50 quilos de comida em marmitas.

No artigo intitulado “O caso do homem de Macau que contrabandeou 51 kg de marmitas — a tragédia silenciosa das classes trabalhadoras sob o monopólio do capital”, publicado ontem, a autora descreve como “recentemente os serviços aduaneiros de Macau interceptaram, no posto fronteiriço de Hengqin, um veículo particular que transportava escondidos cerca de 51 quilos de marmitas de comida cozinhada sem inspecção sanitária”, o que revelou ser “um fenómeno de contrabando bastante invulgar”.

Na visão da advogada, há que analisar “o contexto social e económico por detrás destas quase cem marmitas baratas”, que podem reflectir “a realidade dos cidadãos das classes trabalhadoras de Macau, pressionados entre a escalada do custo de vida e o monopólio do capital, sendo obrigados a fazer compromissos dolorosos para sobreviver”.

Este caso de contrabando pode ser sinónimo “das dificuldades das classes mais baixas”, questionando a quem se destina esta comida. “Numa cidade onde uma refeição simples pode facilmente custar dezenas ou até mais de cem patacas, estas marmitas baratas vindas de Zhuhai — sem controlo rigoroso de temperatura ou inspecção sanitária — passaram a preencher a necessidade de trabalhadores da construção civil, empregados de limpeza e profissionais de serviços com baixos salários”.

Desta forma, argumenta, “o aparecimento deste tipo de contrabando é, na verdade, uma evolução inevitável da economia paralela perante as diferenças de preços entre regiões”, uma vez que “comprar este tipo de refeições simples no continente custa menos de 20 yuans, mas em Macau pode ser vendido pelo dobro, gerando lucro”.

Lai Wing Yan acredita que “se os Governos continuarem focados na aparência da prosperidade dos indicadores macroeconómicos e em medidas temporárias como vales de consumo, ignorando problemas estruturais como a desigualdade na distribuição de recursos e a dependência de uma economia pouco diversificada”, vão continuar a ocorrer fenómenos semelhantes de contrabando. Este caso “carrega o peso real da sobrevivência das classes trabalhadoras — e servem também como um duro aviso para quem governa”.

O Ocidente desfeito (I)

“When empires grow uncertain of themselves, their allies become the first to feel the tremor.” – Julian Hartwell

A política internacional entrou numa fase em que muitos governos europeus começam a admitir, ainda que apenas em privado, que a principal ameaça à sua segurança pode não vir apenas da Rússia, mas também dos Estados Unidos ou até da relação ambígua entre ambos. A percepção de que o “guarda-chuva” americano não protege como antes, espalha inquietação pelas capitais europeias, que receiam ser apanhadas no choque entre Washington e Moscovo. O que antes pareceria argumento para uma série televisiva tornou-se, em 2026, uma metáfora plausível da realidade.

O equilíbrio global está a deslocar-se rapidamente. A guerra na Ucrânia expôs fragilidades profundas no Ocidente e acelerou a redistribuição de poder. A nível estratégico, os Estados Unidos perderam capacidade de dissuasão; a Rússia, apesar dos custos enormes, conseguiu resistir; e a China emergiu como a grande beneficiária, expandindo influência na Ásia Central, no Árctico e no IndoPacífico. A Europa, por seu lado, afunda-se numa crise de identidade e liderança.

Os Estados Unidos enfrentam contestação interna e externa com aliados que não confiam plenamente, adversários que testam limites e uma opinião pública que não compreende nem apoia compromissos longínquos. A Rússia, embora desgastada, transformou a guerra num confronto directo com o Ocidente, apresentando-se internamente como resistente a uma agressão externa. Mas, ao fazê-lo, tornou-se ainda mais dependente da China, que aproveita o enfraquecimento russo para consolidar ambições regionais e globais. O Japão, Coreia do Sul, Índia e outros parceiros asiáticos dos Estados Unidos percebem que terão de reforçar a sua autonomia estratégica.

Na Europa, a situação é ainda mais delicada. Washington transfere para os europeus a responsabilidade política e financeira de uma guerra que não controla totalmente. Os europeus, divididos e sem capacidade militar, oscilam entre declarações grandiosas e impotência prática. A antiga lógica da NATO com americanos dentro, russos fora e alemães contidos está a inverter-se. Os Estados Unidos retraem-se, a Rússia consolida posições no Donbass e na Crimeia, e a Europa paga a factura sem conseguir influenciar o rumo dos acontecimentos.

Israel, tradicional pilar ocidental no Médio Oriente, vive uma crise interna profunda, marcada por polarização política, erosão institucional e perda de margem diplomática. A ligação estratégica aos Estados Unidos mantémse, mas não é incondicional.

A Ucrânia, por sua vez, é a grande derrotada. Perdeu território, população, capacidade industrial e autonomia política. A dependência do apoio ocidental fragmentado, tardio e muitas vezes contraditório deixou Kiev vulnerável a pressões externas, incluindo de Washington, que procura garantir acesso a recursos estratégicos ucranianos. A diferença entre promessas e acções tornou-se evidente para os ucranianos, que enfrentam o risco de perder não apenas a guerra, mas o próprio projecto nacional.

O caminho que conduziu a este cenário começou antes de 2022, mas a invasão russa foi o ponto de ruptura. Moscovo acreditou que tinha garantias implícitas de que uma operação limitada seria tolerada. Washington, após o fracasso inicial russo, decidiu transformar o conflito numa oportunidade para enfraquecer o Kremlin. O resultado foi uma guerra prolongada, que expôs fissuras profundas no Ocidente e aproximou, paradoxalmente, russos e americanos na necessidade de evitar um confronto directo entre potências nucleares deixando a Ucrânia como campo de batalha indirecto.

A Europa confronta-se com a erosão da NATO, a incerteza estratégica americana e a ascensão chinesa. O continente, incapaz de definir uma política externa coerente, reage mais do que age. A fragmentação interna aprofunda-se, e a ideia de uma Europa unida revela-se cada vez mais ilusória.

A relação transatlântica sempre funcionou com graus diferentes de compromisso, apesar da retórica de unidade. Para Washington, a ligação com cada país europeu nunca teve o mesmo peso pois não era possível tratar capitais pequenas dos Balcãs ou do Báltico como se fossem Londres, Paris ou Berlim. Ainda assim, muitos europeus continuaram a invocar o artigo 5.º da NATO como se fosse uma garantia automática e universal, chegando mesmo a sugerir a sua aplicação simbólica à Ucrânia, apesar de esta nunca ter sido membro da Aliança.

Os Estados Unidos podem ser criticados ou admirados, mas não são ingénuos. Os europeus também não o são embora, por vezes, pareçam empenhados em representar esse papel. O risco é que a encenação se transforme em crença, o que é mais perigoso do que qualquer propaganda externa.

A actual estratégia americana procura afastar-se de compromissos excessivos, evitando admitir perante o mundo e o seu eleitorado que não conseguiu alcançar os objectivos pretendidos em conflitos prolongados desde 1945. Ao mesmo tempo, Washington deixa claro que a Rússia não é a União Soviética, nem a versão hipertrofiada que durante décadas serviu para manter coesa a frente ocidental. Paradoxalmente, alguns analistas nos Estados Unidos começam a perguntar-se se o seu país não se encontra numa fase semelhante à dos últimos anos soviéticos.

Apesar dos alertas de várias capitais europeias sobre uma suposta ameaça russa iminente, a Federação Russa não corresponde ao perfil de superpotência capaz de dominar a Eurásia e projectar poder global de forma decisiva. Essa imagem, repetida durante décadas, nunca encontrou confirmação prática.

A ideia de que a actual política externa americana resulta apenas de impulsos individuais é ilusória. A abordagem presidencial segue uma lógica mais consistente do que parece pois tratar Moscovo não como um inimigo irracional, mas como um actor com o qual é possível negociar, mesmo que de forma dura. Se é necessário apresentar uma vitória política num conflito que não foi vencido, então a solução passa por transformar o adversário num parceiro circunstancial.

Cansados do papel de potência indispensável, os Estados Unidos descarregam frustração sobre os aliados, acusando europeus e canadianos de dependência excessiva. Esta visão ganhou força em Washington, onde figuras influentes descrevem a Europa como um fardo estratégico. A NATO, embora formalmente intacta, perdeu substância política pois mantém estruturas, tropas e armamento, mas carece de direcção e propósito comum. Como acontece em relações que se mantêm apenas por hábito, o vínculo pode durar, mas sem alma.

Na Europa, esta transformação provoca reacções contraditórias. Alguns países tentam manter todas as opções abertas, acreditando que podem beneficiar de uma ambiguidade calculada. Outros celebram o declínio do atlantismo, convencidos de que isso lhes concede margem para relações simultâneas com Washington, Moscovo e até Pequim, caso o clima internacional evolua nesse sentido.

Apesar das tensões, nenhuma das grandes potências como os Estados Unidos, Rússia ou China deseja um confronto directo. Todas enfrentam limitações internas e reconhecem que uma guerra global seria autodestrutiva. O momento exige contenção, redução da retórica e abertura de canais de comunicação. A rivalidade continuará, mas com necessidade de pausa estratégica.

Há, contudo, um mérito a reconhecer na atitude americana pois obriga os europeus a confrontarem a realidade. A distância entre discurso e factos tornou-se insustentável. A mudança política nos Estados Unidos tem impacto global e força todos os actores a rever posições. A administração americana, movida por interesses próprios, admite agora que não possui capacidade industrial, militar e social para sustentar conflitos simultâneos contra grandes potências. A indústria de defesa enfrenta falhas graves, desde produção insuficiente de munições até dificuldades no recrutamento militar. O próprio Pentágono reconhece que o país não está preparado para uma guerra de larga escala.

Deste diagnóstico emergem quatro conclusões essenciais. Primeiro a de que os Estados Unidos perceberam que a hegemonia global ultrapassa os seus recursos. Segundo de que a liderança americana considera que abdicar dessa hegemonia é condição para recuperar força interna. Terceiro de que a competição com a China deve ser intensa, mas controlada, evitando que Pequim consolide a Rússia como aliado estratégico permanente. Quarto de que começa a desenhar-se uma reconfiguração global inspirada em equilíbrios históricos, uma espécie de entendimento triangular entre Estados Unidos, China e Rússia, onde Washington e Pequim disputam a primazia e Moscovo ocupa uma posição secundária, mas ainda relevante.

A ambição de algumas potências em recriar grandes acordos globais lembra, por analogia, as conferências que no passado redesenharam o mundo. No entanto, no cenário actual, a Europa não passaria de participante secundária, arrastada pelas decisões das três forças dominantes. Muitos líderes europeus continuam a desejar que os Estados Unidos assumam o papel de árbitro supremo, enquanto o chamado “Sul Global” observa com ironia e distanciamento, consciente de que o seu peso colectivo cresce à medida que o Ocidente se fragmenta.

Na lógica política que prevalece em Washington, os europeus não são vistos como aliados naturais, mas como elementos periféricos que podem influenciar o equilíbrio entre Estados Unidos, China e Rússia. Para a liderança americana, a Europa é útil se aceitar um papel subordinado no novo arranjo internacional; torna-se problemática se procurar autonomia estratégica ou se aproximar demasiado de Pequim ou Moscovo.

O século XXI não parece destinado a produzir uma Europa capaz de rivalizar com as grandes potências. A perda de influência acumulada ao longo de décadas transformou o continente num actor com marca desvalorizada. Daí a crítica, cada vez mais audível nos Estados Unidos, de que a insegurança europeia resulta mais das suas contradições do que de ameaças externas. Para Moscovo, os europeus são instrumentos de Washington; para Washington, o essencial é impedir que a Europa se torne um activo estratégico para a China. Neste contexto, o discurso europeu sobre “rearmamento” soa muitas vezes a ilusão pois não reforça a defesa do continente, mas contribui para aliviar pressões sobre o orçamento americano e, paradoxalmente, pode até alimentar divisões internas.

Durante oitenta anos, a protecção americana evitou que a Europa regressasse aos conflitos que marcaram cinco séculos de rivalidades internas. Nada garante que, deixados a si próprios, os europeus resistam à tentação de repetir erros antigos. O receio de que Washington e Moscovo possam chegar a um entendimento sobre a Ucrânia como um acordo que seria apresentado como paz, mas que deixaria a Europa a pagar o preço explica o súbito fervor militarista de Berlim, Varsóvia e Paris. Roma hesita, e muitos outros países estão simplesmente fora do jogo. Apoiar a resistência ucraniana tornou-se, para alguns governos, uma forma de impedir um acordo russoamericano que os deixaria marginalizados.