O Ocidente desfeito (I)

“When empires grow uncertain of themselves, their allies become the first to feel the tremor.” – Julian Hartwell

A política internacional entrou numa fase em que muitos governos europeus começam a admitir, ainda que apenas em privado, que a principal ameaça à sua segurança pode não vir apenas da Rússia, mas também dos Estados Unidos ou até da relação ambígua entre ambos. A percepção de que o “guarda-chuva” americano não protege como antes, espalha inquietação pelas capitais europeias, que receiam ser apanhadas no choque entre Washington e Moscovo. O que antes pareceria argumento para uma série televisiva tornou-se, em 2026, uma metáfora plausível da realidade.

O equilíbrio global está a deslocar-se rapidamente. A guerra na Ucrânia expôs fragilidades profundas no Ocidente e acelerou a redistribuição de poder. A nível estratégico, os Estados Unidos perderam capacidade de dissuasão; a Rússia, apesar dos custos enormes, conseguiu resistir; e a China emergiu como a grande beneficiária, expandindo influência na Ásia Central, no Árctico e no IndoPacífico. A Europa, por seu lado, afunda-se numa crise de identidade e liderança.

Os Estados Unidos enfrentam contestação interna e externa com aliados que não confiam plenamente, adversários que testam limites e uma opinião pública que não compreende nem apoia compromissos longínquos. A Rússia, embora desgastada, transformou a guerra num confronto directo com o Ocidente, apresentando-se internamente como resistente a uma agressão externa. Mas, ao fazê-lo, tornou-se ainda mais dependente da China, que aproveita o enfraquecimento russo para consolidar ambições regionais e globais. O Japão, Coreia do Sul, Índia e outros parceiros asiáticos dos Estados Unidos percebem que terão de reforçar a sua autonomia estratégica.

Na Europa, a situação é ainda mais delicada. Washington transfere para os europeus a responsabilidade política e financeira de uma guerra que não controla totalmente. Os europeus, divididos e sem capacidade militar, oscilam entre declarações grandiosas e impotência prática. A antiga lógica da NATO com americanos dentro, russos fora e alemães contidos está a inverter-se. Os Estados Unidos retraem-se, a Rússia consolida posições no Donbass e na Crimeia, e a Europa paga a factura sem conseguir influenciar o rumo dos acontecimentos.

Israel, tradicional pilar ocidental no Médio Oriente, vive uma crise interna profunda, marcada por polarização política, erosão institucional e perda de margem diplomática. A ligação estratégica aos Estados Unidos mantémse, mas não é incondicional.

A Ucrânia, por sua vez, é a grande derrotada. Perdeu território, população, capacidade industrial e autonomia política. A dependência do apoio ocidental fragmentado, tardio e muitas vezes contraditório deixou Kiev vulnerável a pressões externas, incluindo de Washington, que procura garantir acesso a recursos estratégicos ucranianos. A diferença entre promessas e acções tornou-se evidente para os ucranianos, que enfrentam o risco de perder não apenas a guerra, mas o próprio projecto nacional.

O caminho que conduziu a este cenário começou antes de 2022, mas a invasão russa foi o ponto de ruptura. Moscovo acreditou que tinha garantias implícitas de que uma operação limitada seria tolerada. Washington, após o fracasso inicial russo, decidiu transformar o conflito numa oportunidade para enfraquecer o Kremlin. O resultado foi uma guerra prolongada, que expôs fissuras profundas no Ocidente e aproximou, paradoxalmente, russos e americanos na necessidade de evitar um confronto directo entre potências nucleares deixando a Ucrânia como campo de batalha indirecto.

A Europa confronta-se com a erosão da NATO, a incerteza estratégica americana e a ascensão chinesa. O continente, incapaz de definir uma política externa coerente, reage mais do que age. A fragmentação interna aprofunda-se, e a ideia de uma Europa unida revela-se cada vez mais ilusória.

A relação transatlântica sempre funcionou com graus diferentes de compromisso, apesar da retórica de unidade. Para Washington, a ligação com cada país europeu nunca teve o mesmo peso pois não era possível tratar capitais pequenas dos Balcãs ou do Báltico como se fossem Londres, Paris ou Berlim. Ainda assim, muitos europeus continuaram a invocar o artigo 5.º da NATO como se fosse uma garantia automática e universal, chegando mesmo a sugerir a sua aplicação simbólica à Ucrânia, apesar de esta nunca ter sido membro da Aliança.

Os Estados Unidos podem ser criticados ou admirados, mas não são ingénuos. Os europeus também não o são embora, por vezes, pareçam empenhados em representar esse papel. O risco é que a encenação se transforme em crença, o que é mais perigoso do que qualquer propaganda externa.

A actual estratégia americana procura afastar-se de compromissos excessivos, evitando admitir perante o mundo e o seu eleitorado que não conseguiu alcançar os objectivos pretendidos em conflitos prolongados desde 1945. Ao mesmo tempo, Washington deixa claro que a Rússia não é a União Soviética, nem a versão hipertrofiada que durante décadas serviu para manter coesa a frente ocidental. Paradoxalmente, alguns analistas nos Estados Unidos começam a perguntar-se se o seu país não se encontra numa fase semelhante à dos últimos anos soviéticos.

Apesar dos alertas de várias capitais europeias sobre uma suposta ameaça russa iminente, a Federação Russa não corresponde ao perfil de superpotência capaz de dominar a Eurásia e projectar poder global de forma decisiva. Essa imagem, repetida durante décadas, nunca encontrou confirmação prática.

A ideia de que a actual política externa americana resulta apenas de impulsos individuais é ilusória. A abordagem presidencial segue uma lógica mais consistente do que parece pois tratar Moscovo não como um inimigo irracional, mas como um actor com o qual é possível negociar, mesmo que de forma dura. Se é necessário apresentar uma vitória política num conflito que não foi vencido, então a solução passa por transformar o adversário num parceiro circunstancial.

Cansados do papel de potência indispensável, os Estados Unidos descarregam frustração sobre os aliados, acusando europeus e canadianos de dependência excessiva. Esta visão ganhou força em Washington, onde figuras influentes descrevem a Europa como um fardo estratégico. A NATO, embora formalmente intacta, perdeu substância política pois mantém estruturas, tropas e armamento, mas carece de direcção e propósito comum. Como acontece em relações que se mantêm apenas por hábito, o vínculo pode durar, mas sem alma.

Na Europa, esta transformação provoca reacções contraditórias. Alguns países tentam manter todas as opções abertas, acreditando que podem beneficiar de uma ambiguidade calculada. Outros celebram o declínio do atlantismo, convencidos de que isso lhes concede margem para relações simultâneas com Washington, Moscovo e até Pequim, caso o clima internacional evolua nesse sentido.

Apesar das tensões, nenhuma das grandes potências como os Estados Unidos, Rússia ou China deseja um confronto directo. Todas enfrentam limitações internas e reconhecem que uma guerra global seria autodestrutiva. O momento exige contenção, redução da retórica e abertura de canais de comunicação. A rivalidade continuará, mas com necessidade de pausa estratégica.

Há, contudo, um mérito a reconhecer na atitude americana pois obriga os europeus a confrontarem a realidade. A distância entre discurso e factos tornou-se insustentável. A mudança política nos Estados Unidos tem impacto global e força todos os actores a rever posições. A administração americana, movida por interesses próprios, admite agora que não possui capacidade industrial, militar e social para sustentar conflitos simultâneos contra grandes potências. A indústria de defesa enfrenta falhas graves, desde produção insuficiente de munições até dificuldades no recrutamento militar. O próprio Pentágono reconhece que o país não está preparado para uma guerra de larga escala.

Deste diagnóstico emergem quatro conclusões essenciais. Primeiro a de que os Estados Unidos perceberam que a hegemonia global ultrapassa os seus recursos. Segundo de que a liderança americana considera que abdicar dessa hegemonia é condição para recuperar força interna. Terceiro de que a competição com a China deve ser intensa, mas controlada, evitando que Pequim consolide a Rússia como aliado estratégico permanente. Quarto de que começa a desenhar-se uma reconfiguração global inspirada em equilíbrios históricos, uma espécie de entendimento triangular entre Estados Unidos, China e Rússia, onde Washington e Pequim disputam a primazia e Moscovo ocupa uma posição secundária, mas ainda relevante.

A ambição de algumas potências em recriar grandes acordos globais lembra, por analogia, as conferências que no passado redesenharam o mundo. No entanto, no cenário actual, a Europa não passaria de participante secundária, arrastada pelas decisões das três forças dominantes. Muitos líderes europeus continuam a desejar que os Estados Unidos assumam o papel de árbitro supremo, enquanto o chamado “Sul Global” observa com ironia e distanciamento, consciente de que o seu peso colectivo cresce à medida que o Ocidente se fragmenta.

Na lógica política que prevalece em Washington, os europeus não são vistos como aliados naturais, mas como elementos periféricos que podem influenciar o equilíbrio entre Estados Unidos, China e Rússia. Para a liderança americana, a Europa é útil se aceitar um papel subordinado no novo arranjo internacional; torna-se problemática se procurar autonomia estratégica ou se aproximar demasiado de Pequim ou Moscovo.

O século XXI não parece destinado a produzir uma Europa capaz de rivalizar com as grandes potências. A perda de influência acumulada ao longo de décadas transformou o continente num actor com marca desvalorizada. Daí a crítica, cada vez mais audível nos Estados Unidos, de que a insegurança europeia resulta mais das suas contradições do que de ameaças externas. Para Moscovo, os europeus são instrumentos de Washington; para Washington, o essencial é impedir que a Europa se torne um activo estratégico para a China. Neste contexto, o discurso europeu sobre “rearmamento” soa muitas vezes a ilusão pois não reforça a defesa do continente, mas contribui para aliviar pressões sobre o orçamento americano e, paradoxalmente, pode até alimentar divisões internas.

Durante oitenta anos, a protecção americana evitou que a Europa regressasse aos conflitos que marcaram cinco séculos de rivalidades internas. Nada garante que, deixados a si próprios, os europeus resistam à tentação de repetir erros antigos. O receio de que Washington e Moscovo possam chegar a um entendimento sobre a Ucrânia como um acordo que seria apresentado como paz, mas que deixaria a Europa a pagar o preço explica o súbito fervor militarista de Berlim, Varsóvia e Paris. Roma hesita, e muitos outros países estão simplesmente fora do jogo. Apoiar a resistência ucraniana tornou-se, para alguns governos, uma forma de impedir um acordo russoamericano que os deixaria marginalizados.

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