A propósito do Dia Internacional do Trabalhador

Os feriados da semana dourada da China continental que celebram o Dia Internacional do Trabalhador chegaram ao fim num abrir e fechar de olhos. Como é habitual, as maiores atracções turísticas de Macau encheram-se de gente. Em algumas ruas, foi implementado o controlo de multidões e em certas zonas só os peões podiam circular. Os autocarros estavam todos apinhados e o concerto realizado no Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau reuniu cerca de 30.000 espectadores. A cidade estava movimentada, mas na verdade o que é que estava a acontecer?

Vídeos transmitidos nas redes de comunicação social não tradicional mostravam cenas de mulheres que assistiram ao concerto a lutarem umas contra as outras e a colocarem as cadeiras junto ao palco, o que demonstra falta de uma gestão eficiente do espaço. Estes incidentes poderão ser inevitáveis em eventos de larga escala, mas a questão principal é a falta de reconhecimento por parte dos órgãos de comunicação social oficiais e por parte do Governo de Macau das falhas na gestão destes acontecimentos. Ignorá-las significa que não existem? Será que a ausência de dados estatísticos sobre suicídios quer dizer que ninguém se suicida? A inexistência de manifestações e de protestos no dia 1.º de Maio prova que Macau é uma cidade pacífica e próspera?

Uma simples pesquisa online mostra informação sobre a manifestação do 1.º de Maio de 2007 em Macau. Slogans como “anti-corrupção, proteger os meios de subsistência das pessoas, reduzir o número de trabalhadores não residentes, eliminar trabalhadores ilegais, garantir uma vida estável, promover a reunificação familiar e construir uma comunidade harmoniosa” transmitiam as exigências dos seis grupos de protesto da época. Passaram-se quase vinte anos, estas exigências terão sido totalmente satisfeitas e os grupos que as colocaram já não existem ou deixaram de operar?

Desde a desqualificação dos potenciais candidatos às eleições para a Assembleia Legislativa em 2021 e em 2025, as vozes dissidentes e as diferentes opiniões que se faziam ouvir na Assembleia Legislativa foram largamente silenciadas, criando um “caminho livre de impedimentos” para o processo legislativo. A ausência de oposição e de opiniões diferentes significa que o questionamento sobre a governação foi amplamente eliminado, deixando uma série de contradições sociais profundas e problemas para o Governo da RAEM resolver.

O Governo da RAEM não é cego em relação à gravidade dos problemas existentes. Após o encerramento dos casinos-satélite, foram desenvolvidas actividades para apoiar os comerciantes da vizinhança desses casinos. Os “Autocarros de Turismo e Lazer” foram introduzidos para revigorar os bairros antigos; e está a decorrer uma nova ronda do “Grande Prémio para o Consumo nas Zonas Comunitárias” para estimular o consumo. Infelizmente, a eficácia destas iniciativas é limitada.

Consequentemente, os responsáveis das instituições do Governo Popular Central estabelecidas em Macau aproveitaram a oportunidade durante as sessões de divulgação do espírito das “Duas Sessões” da Assembleia Popular Nacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês para os trabalhadores dos serviços públicos de diferentes níveis para propor “sete melhoramentos” para estes funcionários. Lamentavelmente, desde a demissão de Tai Kin Ip, Secretário para a Economia e Finanças, no passado dia 16 de Abril, falta à RAEM um líder no campo económico, o que implica que parte de tarefas importantes desta área passassem a ser da responsabilidade do Chefe do Executivo, o que se torna bastante exaustivo para ele.

O contrabando de 51 quilos de lancheiras para Macau, embora não represente uma soma elevada, ilustra bem a disparidade entre Hengqin e Macau. “A comida é a primeira necessidade do povo”. Quando os cidadãos enfrentam dificuldades para se sustentarem, a segurança alimentar, a segurança económica, a segurança social e mesmo a segurança política serão postas em causa. Se as exigências de “combate à corrupção, protecção dos meios de subsistência das pessoas, redução do número de trabalhadores não residentes, eliminação de trabalhadores ilegais, garantia de uma vida estável, promoção da reunificação familiar e construção de uma comunidade harmoniosa” foram satisfeitas, então a ausência de protestos ou manifestações no Dia Internacional dos Trabalhadores será definitivamente algo positivo.

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