Política de ‘zero casos’ e encerramento ao estrangeiro vão continuar João Santos Filipe - 17 Nov 2021 A política de combate à pandemia será mantida no próximo ano, mas o Governo admite trabalhar para normalizar a circulação com o Interior da China e Hong Kong no segundo semestre de 2022. No pólo oposto, a reabertura ao estrangeiro é vista como cenário distante e arriscado em termos de perigo de contágio A continuidade da política de zero casos de covid-19 e falta de metas para aliviar a circulação com o estrangeiro, ou redução das exigências de quarentena, marcou ontem o discurso do Chefe do Executivo, na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG). Na Assembleia Legislativa, Ho Iat Seng afirmou esperar uma melhoria da situação internacional, mas todas as atenções estão focadas “nas regiões vizinhas”, ou seja, o Interior da China e Hong Kong. “Iremos persistir na estratégia de ‘prevenir casos importados e evitar o ressurgimento interno’ e promover efectivamente a normalização da prevenção epidémica, disse Ho Iat Seng. Este aspecto foi reforçado na conferência de imprensa com perguntas da comunicação social, face à abertura com Hong Kong. “Depende do consenso entre as três partes [Macau, Hong Kong e Interior], não podemos abrir e fechar fronteiras só por nós. Seguimos as exigências [do Interior]”, explicou. O próximo ano pode trazer a facilitação da circulação com o Interior e a reabertura com Hong Kong sem a exigência de quarentena. Estes dois destinos vão ser a prioridade: “Espera-se que a circulação de pessoas entre Macau e as áreas vizinhas, especialmente o Interior da China e Hong Kong, seja retomada com a brevidade possível e que mais turistas visitem Macau”, traçou. Segundo o Chefe do Executivo, para a normalização com o Interior e Hong Kong, a população tem cumprir as suas “responsabilidades: “Apelamos, aqui, à população em geral para que cada um assuma as suas responsabilidades sociais, aderindo activamente à vacina, no sentido de aumentar a taxa de vacinação e criar condições necessárias para o reinício da circulação normal de pessoas entre Macau, Interior da China, Hong Kong e outras regiões”, indicou, na Assembleia Legislativa. Mais tarde, na conferência de imprensa, Ho Iat Seng admitiu que as negociações para normalizar as passagens fronteiriças com a China exigem taxa de vacinação de 80 por cento na RAEM, o que definiu como “um longo caminho”. Ainda sobre a normalização com o Interior e Hong Kong não foi afastado o cenário de as restrições vigorarem até ao final do próximo ano: “Estamos há dois anos com restrições de circulação. Será que vamos chegar aos três anos? Não posso garantir que não vamos chegar, mas gostava que as coisas melhorassem num futuro próximo. Espero que possamos normalizar a circulação [com Hong Kong e o Interior] no segundo semestre”, respondeu. O perigo lá fora A abertura com o estrangeiro não está no horizonte. Na perspectiva de Ho, a situação internacional da pandemia até pode melhorar, ser controlada, o que poderia criar condições para a reabertura, mas o estrangeiro é fonte de contágio: “Devemos continuar em alerta para um eventual ressurgimento da epidemia em alguns países e regiões, situação em que as medidas de controlo de entrada e saída e as restrições à circulação poderão ser ajustadas”, avisou. “Na abertura com o exterior, Macau tem certas considerações. Como vai ser se abrirmos as fronteiras ao estrangeiro e houver um surto súbito? Temos de considerar muita coisa. Se os residentes de Macau não puderem ir ao Interior [devido a um surto], como é que respondemos a essa situação”, justificou. No caso de o Governo sentir que pode abrir exterior, Ho diz que o levantamento das restrições deve começar pelos países do sudeste asiático. Fechados com ‘trancas na porta’, a aposta para a recuperação económica vai assim passar exclusivamente pelo Interior, o principal parceiro comercial da RAEM e a maior fonte de turistas. “A pátria é o sustentáculo do desenvolvimento de Macau. Prevemos que em 2022, com o reforço das medidas de prevenção e controlo epidémicos adoptadas pelo país e os resultados alcançados em termos de desenvolvimento económico e social, a economia continue a recuperar de forma estável e com uma tendência constante de consolidação e de melhoria”, anteviu. O tabu do jogo Ao longo de um discurso com perto de 50 páginas, na versão portuguesa, o Chefe do Executivo apenas mencionou o sector do jogo num parágrafo. “Iremos aperfeiçoar os diplomas legais relacionados com o sector do jogo e os procedimentos e processos de fiscalização de jogos. Iremos promover adequadamente os trabalhos no âmbito do direito de exploração de jogos, tendo em conta o enriquecimento do Centro Mundial de Turismo e Lazer de Macau, o desenvolvimento estável da indústria do jogo, a garantia do emprego dos residentes e a respectiva ascensão profissional”, afirmou. O Chefe do Executivo não revelou a meta temporal para o concurso de atribuição das novas licenças dos casinos, nem esclareceu se as actuais licenças vão ser renovadas. O assunto só foi abordado mais tarde, depois das questões dos jornalistas. Recorde-se que as licenças terminam no próximo Verão e que o tempo para avançar com novo concurso é escasso. Além da promessa de fazer “trabalhos”, Ho Iat Seng destacou a necessidade de apostar nos elementos de diversificação da economia e das concessionárias “assumirem devidamente as suas responsabilidades sociais”. Apoios sociais sem alterações Ho Iat Seng reconheceu que os últimos anos sujeitaram “os residentes a pressões sem precedentes” e que se vive num ambiente pandémico que “agrava a difícil situação dos diversos sectores sociais”. Por isso, o líder da RAEM prometeu um Executivo “firme no princípio de não redução das despesas com os benefícios em prol do bem-estar da população”. Neste sentido, o Governo volta a distribuir o plano de comparticipação pecuniária de 10 mil patacas para residentes permanentes e 6 mil para não permanentes. Quanto ao cartão de consumo, a medida não está prometida, mas, como aconteceu durante este ano, poderá ser lançada conforme as condições económicas. “O Governo […] continuará as medidas de benefícios fiscais implementadas no ano anterior e prolongará a aplicação das demais medidas relativas, designadamente, à educação, aos cuidados de saúde, à segurança social e à comparticipação pecuniária”, sublinhou. “Tendo em consideração a nova conjuntura, serão ainda lançadas outras novas medidas em prol do bem-estar da população”, acrescentou. A nível dos apoios sociais e apoios para as empresas, o Chefe do Executivo não apresentou novidades, além da criação de centros de serviços para pessoas com deficiências e idosos. O Governo referiu novos benefícios fiscais, isenções de rendas e taxas de licenciamento para as Pequenas e Médias Empresas, ou seja, as medidas que já tinham sido anunciadas em Outubro, através de um comunicado da secretaria para a Economia e Finanças. IPM muda de nome e ambiciona ser referência regional Ho Iat Seng anunciou que “o Instituto Politécnico de Macau passará a denominar-se Universidade Politécnica de Macau, e envidará esforços para se tornar na principal universidade de ensino prático na Região Ásia-Pacífico”. Ho destaca redução de não residentes Ho Iat Seng considerou positiva a diminuição de 25 mil trabalhadores não residentes da mão-de-obra local, durante o período de crise pandémica. “Numa situação de recessão económica é particularmente importante garantir o emprego aos residentes locais […] Foi, ainda, efectuado o ajustamento do número de trabalhadores não residentes; em Setembro de 2021, eram menos 25.120 os trabalhadores não residentes com autorização de permanência, em comparação com finais de Dezembro de 2019”, destacou. Reconhecidos erros de comunicação Durante a apresentação das LAG para 2022 o Chefe do Executivo fez um balanço da governação deste ano. Ho Iat Seng reconheceu que houve erros, mas só de comunicação, e prometeu melhorar. “Estamos cientes das insuficiências na nossa acção governativa. Reconhecemos que algumas medidas adoptadas neste tempo atípico causaram impacto negativo na efectiva implementação de políticas públicas devido à insuficiente comunicação de antemão com os diversos sectores sociais, havendo, portanto, espaço para o reforço e melhoramento dos nossos trabalhos de prevenção e controlo de epidemia”, reconheceu. “A este respeito, o Governo irá humildemente ouvir a sociedade, fazer um balanço das experiências e retirar ensinamentos e, no futuro, aperfeiçoar o modelo e o estilo da sua governação. Irá também realizar estudos, auscultar amplamente as opiniões dos residentes e apresentar planos optimizados em prol da concretização do objectivo fundamental de ‘governar com diligência para o povo’”, adicionou.
Melco anuncia novo investimento de 10,4 mil milhões João Santos Filipe - 16 Nov 2021 A operadora de jogo Melco Resorts & Entertainment anunciou ontem um investimento de 10,4 mil milhões de patacas para alargar um dos resorts integrados do grupo de Lawrence Ho, filho de Stanley Ho. O novo projecto, que faz parte da fase 2 do casino Studio City, deverá estar concluído até ao final do próximo ano e “irá ter o maior parque aquático interior e exterior da Ásia, um experiência temática cinematográfica e entretenimento orientado para a família, duas torres de hotel com 900 quartos e suites”, pode ler-se comunicado. Na cerimónia de apresentação, ontem, o director e presidente-executivo da Melco, Lawrence Ho, garantiu que o grupo vai focar-se em projectos não relacionados com o jogo. “Cerca de 99 por cento dos novos projectos terão elementos não relacionados com jogos e as diferentes instalações de entretenimento continuarão a ser desenvolvidas no futuro para apoiar a diversificação do desenvolvimento de Macau”, afirmou o filho do ex-magnata do jogo. O ‘megaprojeto’ estará a cargo da empresa fundada pela arquitecta Zaha Hadid, falecida em 2015. Optimismo para o futuro Face às dificuldades a curto prazo, relacionadas com a covid-19, o responsável mostrou-se confiante no desenvolvimento futuro de Macau. A ocasião serviu igualmente para que Lawrence Ho apelasse à população para que se vacine. A maioria dos operadores de jogo em Macau registaram no terceiro trimestre os piores resultados do ano, com prejuízos de centenas de milhões de patacas no território que permanece praticamente paralisado devido às políticas de combate à covid-19. Desde o início da pandemia, o território registou apenas 77 casos da doença. Como consequência da política de casos zero que Macau continua a prosseguir, os casinos do território voltaram a ressentir-se. A operadora de jogo Melco Resorts & Entertainment registou perdas de 232,2 milhões de dólares americanos no terceiro trimestre do ano. Os resultados foram apresentados na semana passada, quando Lawrence Ho já se tinha mostrado confiante no futuro do território.
Recursos de subsistência David Chan - 16 Nov 2021 Parece-lhe bem que se um turista quiser permanecer em Macau por um período até 7 dias tenha de ter na sua posse pelo menos 5.000 patacas? Esta notícia fez sensação a semana passada e está relacionada com a revisão da Lei No. 16/2021 que regula o ” Regime jurídico do controlo de migração e das autorizações de permanência e residência na RAEM” a ser implementado no dia 15 deste mês. A partir deste dia, os não residentes de Macau com idades superiores a 18 anos, que queiram permanecer em Macau por um período até 7 dias, têm de fazer prova de ter em sua posse uma quantia de pelo menos 5.000 patacas. Caso queiram ficar até 14 dias, terão de ter pelos menos 10.000 patacas e se quiserem ficar três semanas o mínimo terá de ser de 15.000 patacas. Se ficarem por um período superior a 22 dias, então o montante sobe para 20.000 patacas. Se se tratar de uma família, então o valor aumenta em 80% por pessoa. Estes “valores minímos” vão ao encontro dos “recursos de subsistência” mencionados na lei. Por “Não residentes de Macau” são designadas as pessoas que não possuem um Bilhete de Identidade de Macau, como estudantes estrangeiros, trabalhadores do exterior, turistas, etc. O Governo de Macau apresentou esta proposta de revisão da Lei No. 16/2021 à Assembleia Legislativa. Foi referido que o objectivo da Emenda é o fortalecimento do controlo da imigração, o combate efectivo ao crime de entrada e permanência ilegais, e a criação de condições que garantam que Macau se torne um centro internacional de turismo e uma cidade onde se possa viver e trabalhar em paz e harmonia. A verificação dos “recursos de subsistência” dos não residentes no momento da entrada em Macau, impede que estes venham a tornar-se um encargo para o Governo da RAEM durante a sua permanência e também diminui os riscos de ameaça à segurança pública. Compreenda-se que os estudantes estrangeiros e os trabalhadores externos não são os alvos principais desta medida; mas é certo que os visitantes serão afectados pela revisão da lei. Os “recursos de subsistência” estão definidos de acordo com o Artigo 2(6) da Lei No. 16/2021, e são considerados os recursos básicos que garantem aos não residentes e às suas famílias o acesso à alimentação, ao alojamento e aos cuidados de saúde. O terceiro parágrafo do Artigo 101 assinala que os “recursos de subsistência” estipulados no quarto parágrafo do Artigo 24 podem ser prescritos por regulamentos administrativos suplementares ou instruções do Chefe do Executivo. O Chefe do Executivo estipulou “as quantias minímas de entrada” na Instrução No. 167/2021. Os ” recursos de subsistência ” não são uma novidade trazida pela emenda à Lei No. 16/2021. No passado, esteva fixada a quantia miníma de 500 patacas diárias. Na sequência da emenda à Lei No. 16/2021, surgiram intensos debates. Se navegarmos por alguns fóruns da Internet, verificamos que os apoiantes consideram que existem disposições semelhantes noutros países e regiões; por exemplo, para entrar nos Estados Unidos, é necessário apresentar um cartão de crédito e demonstrar o seu limite. Além disso, esta regulamentação só exige que os visitantes tenham com eles uma determinada quantia e não que a gastem. Os opositores acreditam que o novo regulamento vai afectar a indústria do turismo, provocando uma diminuição de entradas e acabando com as visitas de um dia a Macau. Na Internet encontramos duas opiniões muito marcadas sobre este assunto. A primeira considera que permitir que as autoridades alfandegárias tenham acesso à conta bancária do visitante envolve quebra de privacidade para além de outras questões financeiras. Além disso, estas regulamentações são difíceis de implementar. Por exemplo, pode entrar alguém em Macau que imediatamente a seguir transfira para outra pessoa que também quer entrar as 5.000 patacas. Esta pessoa fica em condições de entrar e pode proceder da mesma forma com um terceiro amigo, e assim sucessivamente; como é que se lida com esta situação? Algumas pessoas ironizavam dizendo que os não residentes tinham primeiro de mudar o “código sanitário” e depois tinham de mudar o “ código bancário”. Os que defendem o segundo ponto, assinalam que se os agentes da autoridade pararem um não residente na rua que não possua pelo menos 5.000 patacas, e que esteja de visita a Macau pelo período de uma semana, o podem prender e deportar. O Parágrafo 4 do Artigo 24 da Lei No. 16/2021 estipula que em caso de insuficiência de “recursos de subsistência”, os agentes da autoridade podem recusar a entrada aos não residentes de Macau, ou recusar vistos e autorizações de permanência. A recusa de entrada, de vistos ou de autorizações de permanência, são situações completamente diferentes da constatação de que um visitante não residente, parado por acaso na rua pela polícia, não possui suficientes “resursos de subsistência”. O último caso não é regulado pelo Parágrafo 4 do Artigo 24. Desta forma, as afirmações feitas na Internet sobre este assunto são muito pouco credíveis. Existem também outras mensagens na Internet que levantam suspeitas. Por exemplo, os residentes de Hong Kong podem permanecer em Macau por um ano. Que quantidade de dinheiro têm de trazer? E como lidar com a situação de pessoas que vêm visitar familiares ou vêm propositadamente a Macau devido a uma qualquer celebração? Também há quem diga que quando um visitante se vai embora devia deixar 5.000 patacas para facilitar uma futura vinda; ou que se devia verificar os recibos das compras que fizeram e que só deviam sair depois de terem gasto uma determinada quantia. O objectivo que presidiu à emenda à Lei No. 16/2021 é válido, e pode ajudar a salvaguardar ainda mais a lei que vigora Macau. Os “recursos de subsistência” podem garantir que os não residentes de Macau possuem condições económicas que lhes permitam permanecer por determinado período na cidade. Este tipo de regulamentação não é exclusiva de Macau. Embora se possa afirmar que a implementação desta regra pode afectar o turismo, como já existiu no passado, acredita-se que o impacto neste sector será minímo. Os amplos debates que tiveram lugar na Internet fizeram com que todos ficassem conscientes de que este tipo de regulamentação vai ajudar grandemente os agentes da autoridade a exercerem a sua função e vai evitar a ocorrência de conflitos legais desnecessários.
A RELÍQUIA, DE EÇA DE QUEIRÓS – 6 (de 8) Paulo José Miranda - 16 Nov 2021 No primeiro motivo «geral» apontado ao capítulo 3 na economia geral do romance, e podendo se ver A Relíquia como uma tremenda crítica à religião católica, é mostrar-nos a origem do equívoco do cristianismo. Equívoco, porque no centro da crença cristã está a ressurreição de Cristo e, neste capítulo, através de um sonho ao passado da paixão de Cristo, Eça mostra-nos que Jesus não estava morto quando o descem da cruz (vejam-se páginas 217-220). Jesus estava desmaiado e dado como morto, devido a preparos das mulheres essénias, e antes de morrer recobra um pouco a consciência proferindo algumas palavras. Mas acaba mesmo por morrer e, nos dias seguintes, quando o corpo desaparece, Maria Madalena corre a cidade promovendo a sua ressurreição. O segundo motivo geral é literariamente brilhante e indissociável do terceiro: através de um artifício literário comum à literatura do romantismo – a transposição temporal através do sonho – Eça amplifica o realismo, ao mesmo tempo que fica explícito o sentido de «peculiarmente espiritual», tal como aparece no início do romance. A amplificação do realismo é a exposição do mal radical do humano, tal como Kant nos mostra em A Religião nos Limites da Simples Razão. E este «peculiarmente espiritual» quer dizer-nos que o relato tenta recolocar o humano no sentido do espiritual, além ou aquém da religião, através de um questionamento da origem do cristianismo. Também aqui, no sentido da religião, e não apenas no sentido do mal radical, Eça se aproxima de Kant. Regressemos então a Kant e ao seu A Religião nos Limites da Simples Razão, porque aquilo que configura o horizonte de Eça de Queirós pode ser respondido tendo em atenção este livro de Kant. Para Kant, as religiões dividem-se em dois grupos: «religião da petição de favor (do simples culto), e religião moral, i. e. religião da boa conduta de vida.» (57) Nas primeiras, o humano bajula o seu Deus para que lhe dê aquilo que precisa. No fundo, aquilo que Kant escreve: «[…] que Deus pode fazer um homem melhor sem que ele próprio tenha de fazer algo mais a não ser suplicar-lhe […].» (57) Isto que, segundo Kant, não se aplica à religião cristã, visto que esta é uma religião moral, aplica-se em Eça de Queirós ao catolicismo, tal como era praticado em Portugal. Ao longo de toda A Relíquia, Eça nos mostra esta relação de bajulação do católico com o seu Deus, através dos santos, das promessas e da superstição. O que está em causa para Kant é que uma religião em que o crente bajula o seu deus não é uma religião que instigue o crente a ser melhor ou a percorrer o caminho do bem, contrariamente àquilo a que o filósofo chama religião moral, que instiga o crente a ser melhor do que é. À página 172 do seu livro, Kant escreve: «Adopto, em primeiro lugar, a proposição seguinte como um princípio que não necessita de demonstração: tudo o que o homem, além de uma boa conduta, imagina poder ainda fazer para se tornar agradável a Deus é simples ilusão religiosa e pseudo-serviço de Deus.» (172) Para Eça de Queirós, embora por outras palavras, o que está em causa é o mesmo: a hipocrisia do catolicismo, não apenas nas atitudes dos crentes, como sejam o caso da titi, mas também da dos padres, a começar pelo avô de Teodorico e a acabar no padre Negrão. O catolicismo não nos torna melhores. Mais: não exige sequer que sejamos melhores, apenas que aparentemos sê-lo. E ser melhor aos olhos da sociedade. No fundo, o mesmo que acontece em O Primo Basílio e que podemos chamar hermenêutica de cálculo da acção. A saber, há que interpretar a cidade onde estamos, ver o que se esconde sob o manto da aparência e medir, calcular as acções que devemos praticar, de modo a não sermos castigados, nem por nós mesmos, nem pelas convenções sociais da aparência. Exemplarmente mostrado em A Relíquia, não apenas através do aperfeiçoamento da mentira levada a cabo por Teodorico, ou do exemplo final do padre Negrão, mas também através do comportamento da titi. Pois a despeito de toda a sua devoção, a D. Patrocínio estava longe de ser boa ou de ao longo da vida caminhar no sentido de ser melhor aos olhos de Deus. Assim, este capítulo onírico da genealogia do cristianismo, liga-se por inteiro àquilo que é o catolicismo em si mesmo para Eça de Queirós: uma completa mentira. No final desse sonho, vemos que Jesus não ressuscita e que o desaparecimento do corpo é anunciado pela cidade por Maria Madalena, promovendo a ilusão da ressurreição. Mas aquilo que importava a Kant em A Religião nos Limites da Simples Razão, além de tentar mostrar uma religião racional, era também um levantamento da natureza humana na sua relação com a moral. Por outras palavras: apurar de que modo nos dirigimos para o bem ou nos deixamos cair no mal. Na verdade, o ponto de partida é o mal. Leiam-se as palavras com que Kant começa o primeiro dos seus quatro textos que compõem o livro: «Que o mundo está mal é uma queixa tão antiga como a História […]. No entanto, todos fazem começar o mundo pelo bem: pela Idade de Ouro, pela vida no paraíso, ou por uma vida ainda mais afortunada, em comunidade com seres celestes. Mas depressa deixam essa ventura esvanecer-se como um sonho; […]» O que está em causa no início deste texto é precisamente a natureza má do humano, a sua raiz. Ou seja, o humano é mau por natureza e bom por razão. Deixamo-nos inclinar para um ou para outro dos pratos da balança dependendo do uso que fazemos da nossa liberdade. E que melhor momento para mostrar esta realidade do que a aurora de Cristo? Cristo é um momento inaugural na História. E Eça, através do recurso ao sonho, mostra-nos como na génese da «Nova História» se encontra já o mal. O mal sempre existiu e o cristianismo (catolicismo) não faz com que o humano lute contra ele, apenas cria uma mentira que devemos aceitar através de uma hermenêutica do cálculo da acção. Assim, e para regressarmos a Teodorico Raposo, estas cem páginas do seu livro, apresentadas como um sonho, não é apenas o testemunho do calvário de Cristo e do ambiente que o envolvia, é a constatação que o mal é maior que o bem, que o mal é muito antigo e que, mesmo no momento mais importante da História, pelo menos para os cristãos, o mal era o ar que se respirava. Teodorico Raposo mostra-nos que aquele momento em Jerusalém, que levou à condenação de Jesus e à sua morte, é a evidência de que não há bem no mundo. Uma metáfora do mal. E o bem aparece como a ilusão que queremos que exista, a despeito de não existir. O bem é aquilo que temos de conquistar através das nossas escolhas, do exercício da liberdade. É também aqui que nos surge o sentido do título do livro e daquilo que Eça de Queirós nos pretende mostrar: o bem é uma relíquia. O que é uma relíquia? Veja-se o que nos diz o professor Topsius, através das palavras de Teodorico Raposo, no livro do escritor Eça de Queirós: «As relíquias, D. Raposo, não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Pode dizer à titi que foi a mesma [a coroa de espinhos que Teodorico levava e a que Jesus tinha aquando do Calvário].» (228) Traduzindo as palavras de Topsius para a linguagem de Eça de Queirós, com alguma liberdade poética: o bem não vale pela sua autenticidade, mas pela fé que inspira. Traduzindo ainda as palavras de Topsius, agora para a linguagem de Teodorico Raposo: o bem não vale pela autenticidade, mas pelo que a fé que os outros têm nele me possa beneficiar. Assim, o sonho de Teodorico, o seu regresso ao passado, ao tempo da paixão de Cristo, para além da amplificação da crítica ao catolicismo, que é todo o livro, tem um triplo sentido específico (estrito), isto é, um triplo sentido que pertence apenas a este capítulo: 1) mostrar que o mal sempre existiu, desde tempos imemoriais; 2) mostrar que o bem é uma relíquia; 3) produzir uma distorção narrativa que faça o leitor pensar em todo o romance. Pois provavelmente sem esta distorção narrativa o leitor não se detinha a pensar no que é que o autor pretende no fundo com toda a narrativa da vida de Teodorico Raposo. Pois A Relíquia não é um romance picaresco, ainda que dialogue com ele. Talvez sem este capítulo nos fosse mais difícil de entender isto. Continua na próxima semana.
Preços de casas novas no Interior caem pelo segundo mês consecutivo Hoje Macau - 16 Nov 2021 Os preços dos imóveis novos na China caíram, em Outubro, relativamente ao mês anterior, depois de em Setembro terem registado a primeira queda desde meados de 2015, indicaram dados oficiais divulgados ontem. Com base no índice de preços divulgado pelo Gabinete Nacional de Estatísticas (GNE), que mede a evolução do custo das casas novas em 70 grandes cidades do país, os preços caíram 0,25 por cento, em relação a Setembro. Em Setembro, o mesmo indicador tinha descido 0,08 por cento, em relação a Agosto, na primeira queda desde Maio de 2015, período em que as construtoras passaram por meses de dificuldades, em parte devido a um excesso de casas, o que obrigou a baixar os preços. O representante do GNE Sheng Guoqing reconheceu uma “ligeira queda” no preço das casas, que foi mais perceptível em cidades mais pequenas. Em Pequim e Xangai, o preço das casas aumentou 0,6 por cento e 0,1 por cento, em relação a Setembro, respectivamente. Em termos homólogos, os preços das casas recém-construídas nas 70 cidades analisadas aumentou 2,84 por cento, em relação a Outubro de 2020. A comparação face ao mês anterior visa medir a evolução de curto prazo do mercado imobiliário que, desde Setembro, atravessa dificuldades, devido à situação financeira de algumas construtoras, sobretudo a gigante Evergrande, que acumula um passivo equivalente a 260 mil milhões de euros e esteve, por várias vezes, perto de entrar em incumprimento, nas últimas semanas. Outras empresas do sector, como a Sinic ou a Modern Land, não cumpriram oficialmente as obrigações financeiras. Sector de peso Na semana passada, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) alertou para um aumento do “risco de contágio” no sector imobiliário, devido ao impacto destas notícias junto dos potenciais compradores de casas, que parecem optar pela prudência face à actual situação. Já no início deste mês, um relatório de outra agência de ‘rating’, a Moody’s, apontou que as vendas de imóveis na China vão permanecer fracas, nos próximos seis a 12 meses, devido às restrições no acesso a financiamento para as construtoras mais endividadas. Quedas adicionais nos preços do imobiliário representam um teste para a campanha lançada por Pequim para reduzir a alavancagem no sector. As regulações limitaram o acesso ao financiamento bancário pelas imobiliárias com passivos excessivos ou que excedem certos níveis de alavancagem, com falta de liquidez suficiente para fazer frente a dívidas de curto prazo. Os problemas do sector imobiliário pesaram sobre a economia chinesa no terceiro trimestre, com um crescimento de 4,9 por cento, em termos homólogos, uma das menores taxas das últimas décadas.
Artistas locais levam a “verdade sobre Macau” a Milão João Luz - 16 Nov 202116 Nov 2021 A Casa degli Artisti em Milão recebe a partir de amanhã uma exposição colectiva de criadores de Macau intitulada “Truly False – Exploring Factualness from Macao”. Com a curadoria de Livia Dubon, os artistas locais Eric Fok, Ieong Man Pan, Leong Chon, Wong Ka Long e Wong Weng Io exibem na capital da Lombardia a verdade artística das terras da Deusa do Mar Que valor e significado têm os conceitos de “realidade” e “verdade” nos conturbados dias que correm? Como podem artistas oriundos de um enclave quase mitológico e contraditório como Macau responder a estas questões através da sua visão? Estes são alguns dos mistérios no cerne da exposição colectiva de artistas locais “Truly False – Exploring Factualness from Macao”, ou “Verdadeiramente Falso – Explorando a factualidade de Macau, que estará patente na Casa degli Artisti em Milão a partir de amanhã, até 12 de Dezembro. A mostra, com curadoria de Livia Dubon, reúne obras de Eric Fok, Ieong Man Pan, Leong Chon, Wong Ka Long e Wong Weng Io. A relação nebulosa entre realidade e ficção traça a indefinida fronteira que dá mote à exposição. “A pandemia e as notícias falsas que se seguiram dominaram-nos, confundiram-nos e, em alguns casos, abalaram as relações com outros e a confiança nos nossos governos e valores culturais. Como é que este sentimento de incerteza se repercute num lugar “híbrido” como Macau?”, contextualiza a apresentação da mostra. “Entre as visões eurocêntricas e a integração na China, Macau representa hoje em dia uma posição de fantasia entre reflexões pós-coloniais e a inovação tecnológica, entre ideais de colectivismo e individualismo, entre as políticas de preservação patrimonial e o diálogo com o Interior da China.” Partindo desta colecção de dicotomias, a curadora apresenta ao público italiano os trabalhos de cinco artistas de Macau. Camadas intangíveis As obras de Eric Fok da série “Paradise” reflectem esta multiplicidade existencial, servida em camadas sobrepostas, com representações cruzadas de horizontes ultramodernos rasgados por arranha-céus, em cima de paisagens ancestrais e edifícios com arquitectura alfacinha. A curadora descreve o universo visual de Eric Fok como “mundos especulativos e fantásticos que distorcem as linhas entre ficcional e real, figuras renascentistas e personagens fictícios, tornando Oriente e Ocidente, passado e presente, em realidades inseparáveis”. A estética de contraste é uma linha comum a muitos artistas que, com base na imagem de Macau, esboçaram um local imaginário que capta “desejos de fuga”. Também o fotógrafo Ieong Man Pan navega por esses mares conceptualmente indefinidos, na série “72 dpi Landscape”. Escapando da natureza reflexiva que costuma caracterizar a fotografia convencional, Ieong joga com imagens que, à primeira vista, parecem reproduções de paisagens naturais, mas que afinal são fotografias de plantas num cenário pobre em pixels de baixa resolução (72 dpi). Onde estará a factualidade, a verdadeira natureza num cenário falso? Numa acepção de três dimensões, a instalação “Gate” de Wong Ka Long materializa uma fronteira. Panos vermelhos e brancos, com crus caracteres negros esmurram o espectador com frases como “doenças entram pela boca e adversidades saem pela boca”. Controlo e comportamento são dois pratos da balança artística que constitui “Gate”. Paraíso virtual A Casa do Artista de Milão irá receber ainda trabalhos da jovem artista Wong Weng Io da série “Confusion of Confusions”. Estas obras exploram a relação sensível entre aparelhos digitais, fluxo informativo e a origem dos mitos. A busca identitária é um dos propósitos da expressão artística de Wong. Em “Genesis” a artista junta 600 ecrãs num mosaico que forma um espelho negro, procurando encontrar o ponto entre o mundo perfeito e o paraíso virtual. Na óptica da curadora, “o ecrã é o caos prévio à criação e o espaço que separa os planos terrestre e celestial”, onde as telas animadas se intrometem no corpo humano, anexando máquina e biologia e multiplicando uma série de gestos e comportamentos nunca antes vistos na espécie humana. Wong Weng Io pergunta onde estará a verdadeira essência humana, num mundo de repetidas acções e de explosões de estímulos artificiais. Além das obras que compõem “Truly False – Exploring Factualness from Macao”, a Casa degli Artisti irá organizar duas palestras, que podem ser acompanhadas online, no dia 24 de Novembro, às 18h locais, e a 2 de Dezembro à mesma hora. A primeira é sobre as descrições poéticas de Macau, “entre a realidade e a imaginação”, conduzida por Michela Graziani, professora de literatura portuguesa da Universidade de Florença. A segunda palestra será uma reflexão identitária sobre o conceito de se ser “chinês” e “italiano” e da busca por autenticidade cultural. Valentina Pedone, professora de Estudos Chineses da Universidade de Florença, é a oradora do evento.
Residentes preocupados com situação da economia João Santos Filipe - 16 Nov 2021 O Chefe do Executivo apresenta esta tarde as Linhas de Acção Governativa para o próximo ano. Um inquérito realizado pela Associação das Mulheres, mostra que a economia é a área que mais preocupa os residentes e que esperam ver destacada por Ho Iat Seng A economia é o assunto que mais preocupa os cidadãos, que esperam ver respostas para os problemas do sector com a apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG). É este o resultado de um inquérito realizado pela Associação Geral das Mulheres de Macau, enviado ao Chefe do Executivo, e apresentado por Lam Un Mui, presidente, e Chong Leong Leong, vice-presidente. De acordo com os dados mencionados por Chong Leong Leong, citados pelo jornal Cheng Pou, cerca de 70 por cento dos 2.000 inquiridos, ou seja, 1.400 pessoas, tem como principal preocupação a situação da economia da RAEM, que tem sido fortemente atingida pela pandemia. Os resultados apontam que a preocupação está mais presente entre os que estão em lay-off e os que se encontram em subemprego. Segundo Chong Leong Leong, apesar de o Governo ter lançado várias medidas de apoio à economia, a expectativa é que a crise se vá prolongar a médio-prazo. Porém, a responsável da associação tradicional pró-Pequim, sublinhou também que existe “confiança no desenvolvimento a longo prazo” da RAEM. Os resultados apontam igualmente que 60 por cento dos inquiridos está preocupado com a questão do acesso a habitação própria. Segundo a vice-presidente da associação, este é um problema importante porque é necessário criar condições, principalmente para os mais jovens, de mobilidade social. Preocupações familiares Fora das questões económicas, 50 por cento dos inquiridos considerou a família como a prioridade, e a necessidade de medidas mais viradas para a promoção do agregado familiar. A questão é vista como mais importante para as inquiridas do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 26 e 45 anos. O estudo da associação mostra ainda a esperança de que o Executivo dê prioridade às famílias em que ambos os membros trabalham, e que em muitos casos têm mais do que um único emprego. Neste caso concreto, esperam-se medidas para ajudar as famílias quando o Governo declara o encerramento das escolas, devido a programa de testes em massa ou o registo de novos casos de infecções. Finalmente, a Associação Geral das Mulheres de Macau afirma que jovens com idades entre os 26 e 35 anos mostraram-se muito atentos ao desenvolvimento conjunto entre a RAEM e Cantão e Hengqin e à Grande Baía, sem revelar, no entanto, em que percentagem.
Terceira dose da Sinopharm disponível para maiores de 18 anos Pedro Arede - 16 Nov 2021 As condições para a marcação da terceira dose da vacina contra a covid-19 foram relaxadas. Desde ontem, todos os vacinados com duas doses da Sinopharm que tenham mais de 18 anos podem ser levar a dose de reforço. Os inoculados com duas doses da BioNTech continuam a ter que cumprir certas condições. A Função Pública apela à vacinação de trabalhadores e concede dia de folga para esse fim O Centro de Coordenação de Contingência do Novo tipo de Coronavírus anunciou que, desde ontem, todos os vacinados com duas doses da Sinopharm há mais de seis meses, sem contra-indicações e que tenham mais 18 anos, podem efectuar a marcação para a inoculação da terceira dose da vacina contra a covid-19. Contudo, os vacinados com duas doses da vacina da BioNTech há mais de seis meses, continuam a ter que cumprir determinadas condições para que possam tomar a dose de reforço. Nomeadamente, detalha o Centro de coordenação, o agendamento para a terceira dose da vacina só pode ser feito por maiores de 60 anos e indivíduos entre os 18 e 59 anos, que possuam imunidade relativamente baixa, elevado risco de exposição ou maior impacto após a infecção. Além destes, só podem ser inoculados com a terceira dose da BioNTech, trabalhadores de instituições médicas, correccionais, serviços sociais, educação, postos fronteiriços, de contacto com congelados e funcionários de “serviços básicos da sociedade”, quem tenha contacto frequente com doentes, idosos, deficientes e pessoas vindas do exterior, more em locais de residência colectiva e indivíduos que pretendam deslocar-se a zonas de alto risco. Já os indivíduos com imunossupressão “moderada a grave” podem ser inoculados com a dose de reforço 28 dias após a administração da segunda dose da vacina. Quem esteja a receber tratamento para o cancro ou com doses elevadas de corticosteróides, tenha recebido transplantes de órgãos, se encontre a tomar medicamentos imunossupressores ou esteja infectado com HIV em estágio avançado só poderá receber a terceira dose após uma avaliação médica. Recorde-se que, por anunciar, está ainda a segunda fase do plano de vacinação da terceira dose, a partir da qual “serão bem-vindas todas as pessoas com qualificação”, disse o médico Tai Wai Hou aquando do anúncio da iniciativa. Venha a dose No seguimento do relaxamento das condições para a toma da dose de reforço, a Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP) apelou aos trabalhadores elegíveis que administrem a terceira dose e anunciou que, para o efeito, será concedida uma folga no dia da vacinação ou no dia seguinte. “Tendo em conta que (…) a inoculação de uma terceira dose pode produzir um efeito de prevenção complementar e reforçada, estando em conformidade com o interesse público, deve ser estimulada e promovida. Por este motivo, a partir de hoje [ontem], os trabalhadores da Administração Pública que inoculem a terceira dose da vacina contra a covid-19, podem, justificadamente, ausentar-se do serviço no dia da vacinação ou no dia seguinte”, pode ler-se num comunicado oficial. Recorde-se que os trabalhadores da função pública estão obrigados a apresentar, à entrada do serviço, um comprovativo de vacinação contra a covid-19 ou um resultado negativo do teste de ácido nucleico efectuado nos últimos sete dias.
Reserva Financeira | Ron Lam defende comunicação transparente Nunu Wu e João Santos Filipe - 16 Nov 2021 Apesar de o Governo ter afirmado repetidamente que gastou 40 mil milhões de patacas da Reserva Financeira, o deputado Ron Lam entende que esta informação é enganadora e carece de contexto. Segundo o legislador, o Executivo nunca refere que a Reserva Financeira gerou no ano passado 31 mil milhões de patacas O deputado Ron Lam considera que o Governo deve ser mais transparente quando refere dados sobre a Reserva Financeira da RAEM. Segundo o legislador, desde que começou a crise pandémica, o Executivo menciona o aumento dos gastos feitos com recurso à reserva, mas “esquece-se” de indicar o retorno gerado. “O retorno das reservas financeiras pode atingir cinco por cento. Só no ano passado, o retorno do investimento da reserva foi de 31 mil milhões de patacas. No entanto, o Governo quando fala da reserva financeira, só nos diz o montante que vai gastar, nunca fala dos retornos que obtém”, afirmou o deputado, durante um fórum realizado pela Aliança de Povo de Instituição de Macau sobre as Linhas de Acção Governativa para 2022, que são apresentadas esta tarde. Ron Lam reconheceu que o orçamento é deficitário e que vai requerer a utilização de parte da reserva financeira. Contudo, considerou que face ao impacto da crise económica, que se o Governo cortar nos apoios a população vai sofrer. Além disso, o recém-eleito deputado afirmou que o custo dos apoios nos cofres públicos é muito menor em comparação com a ideia transmitida pelo Governo. Lam vincou também que, “apesar de terem sido despendidos 40 mil milhões de patacas, só este ano as perdas são muito inferiores, tendo em conta o retorno, ainda assim situando-se entre 7 mil e 8 mil milhões de patacas”, facto que apenas se verificou agora, quando a RAEM atravessa uma situação anormal. O novo legislador recordou igualmente que o Governo tem reservas financeiras avaliadas em 600 mil milhões de patacas. “Acho que o Executivo não é sincero na forma como comunica. Como deputados, recebemos as informações completas, mas estas nem sempre estão disponíveis na internet, mesmo que os documentos não sejam confidenciais”, opinou. Dúvidas sobre critérios O deputado Nick Lei Leong Wong, presidente da Aliança de Povo de Instituição de Macau também participou no fórum realizado ontem. O legislador reconheceu que em 2022 a prioridade deve continuar a ser o combate à pandemia, mas defendeu a necessidade de as decisões que envolvem Macau e Cantão serem tomadas com base em critérios compreensíveis para a população. “Apesar de a passagem das fronteiras já decorrer sem restrições de quarentena, a validade do resultado do teste ácido nucleico mantém-se 48 horas. Os residentes duvidam quais são critérios para a validade do resultado do ácido nucleico”, frisou. “No passado sabíamos que se fossem registados mais 28 dias sem casos novos, a validade tornar-se-ia sete dias. Só que agora já passaram mais de 28 dias e a validade mantém-se nas 48 horas”, explicou. Nelson Kot, ex-candidato a deputado, afirmou no mesmo evento esperar que o Governo apresente medidas corajosas ao nível da redução da despesa pública e que emita obrigações. Kot questionou o facto de vários governos provinciais do Interior emitirem obrigações, enquanto Macau não faz. “É uma prática conservadora e parva [não emitir obrigações]. Mesmo em Hong Kong, também há o iBond, e os residentes de Hong Kong que têm vontade podem investir e ganhar com os juros”, rematou.
Quadros Qualificados | Associação Budista pede BIR para monges João Santos Filipe e Nunu Wu - 16 Nov 2021 A Associação Geral Budista de Macau defende o acesso de monges ao regime de captação de talentos devido ao trabalho feito pela promoção da cultura chinesa, a “luta” contra as religiões ortodoxas e pela coordenação, no Interior, com o Governo Central A Associação Geral Budista de Macau espera que o futuro regime de captação de quadros qualificados não deixe de fora os monges budistas da RAEM, permitindo que mais líderes espirituais do Interior da China tenham bilhete de identidade de residente (BIR). A opinião foi defendida no domingo, durante uma sessão de consulta pública para discutir a futura lei, com que o Executivo espera atrair para a RAEM vencedores do prémio Nobel e atletas medalhados nos Jogos Olímpicos, entre outros. Segundo o jornal All About Macau, Sik Sum Wai, a presidente da associação budista, interveio na sessão da consulta pública e explicou que apesar de a associação estar representada na Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo que “muito poucos associados têm BIR”. Sik Sum Wai sublinhou que os monges trabalham em prol da sociedade de Macau evitando religiões ortodoxas, e que as suas tarefas são desempenhadas sem nunca colocar em causa os interesses dos residentes. “Nós seguimos o caminho da fé e da integridade, por isso, não queremos que Macau seja uma cidade bela com uma religião ortodoxa, que coloca em perigo os residentes”, afirmou perante representantes do Governo. Por outro lado, a presidente da Associação Geral Budista de Macau destacou a boa relação entre os monges budistas e o Governo Central, assim como a missão que desempenham para a promoção da cultura tradicional chinesa. Monges habilitados Sik Sum Wai argumentou também que nos templos budistas do Interior foi montado um sistema, em cooperação com a o Gabinete para os Assuntos Religiosos da Frente Unida, que permitiu que todos sejam pelo menos licenciados. “Todos os nossos licenciados foram aprovados pelo Departamento de Trabalho da Frente Unida. Por isso, nos ensinamentos da Darma, os monges têm de assumir as suas responsabilidades sociais”, destacou. Em resposta, Chao Chong Hang, secretário-geral da Comissão de Desenvolvimento de Talentos, recusou que a religião tenha influência na captação de quadros altamente qualificados. “Será que os monges podem fazer parte do regime de captação? O nosso plano actual vai focar a captação de talentos para quatro indústrias”, respondeu. As indústrias identificadas como prioritárias são saúde, finanças, tecnologia de ponta, cultura e desporto. De acordo com o representante do Governo, os critérios adoptados pela comissão vão ter por base os benefícios para o desenvolvimento da indústria, e não as crenças religiosas ou factores como o sexo do candidatos.
Centros de explicações | Lei aprovada na generalidade Pedro Arede - 15 Nov 2021 Os deputados da Assembleia Legislativa (AL) aprovaram na sexta-feira, na generalidade e por unanimidade, a”Lei da actividade dos centros particulares de apoio pedagógico complementar do ensino não superior”. Segundo explicou a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Ao Ieong U, a nova lei tem como objectivo assegurar a maior profissionalização e fiscalização dos centros de explicação através da imposição de exigências ao nível da obtenção de licenças, qualificação dos funcionários, agravamento de sanções e aplicação de um seguro obrigatório. No entanto, durante a discussão da generalidade, foram vários os deputados preocupados com o eventual aumento dos custos dos serviços, com o facto de a licença ser obrigatória apenas a partir de cinco alunos e com a definição de regras no interior dos espaços. Na resposta, Ao Ieong U reforçou que o diploma resulta de consultas públicas realizadas em 2009, 2010 e 2015 e irá contribuir para assegurar a integridade física e psicológica dos alunos. Por seu turno, o subdirector dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), Kong Chi Meng, disse que tantos os custos, como a volumetria dos espaços e a obrigatoriedade de ter seguro, são questões que estão a ser articuladas com o sector, havendo muitos estabelecimentos que já se encontram dentro dos parâmetros da nova lei. Kong Chi Meng disse mesmo que, dos 445 centros de explicações existentes no território, metade já cumpre os requisitos necessários e 30 por cento dispõe do seguro de responsabilidade civil que vai passar a ser obrigatório.
Casa Branca | Cimeira virtual EUA-China procurará reduzir tensões Hoje Macau - 15 Nov 2021 O Presidente dos EUA, Joe Biden, e o seu homólogo chinês, Xi Jinping, vão reunir-se numa cimeira virtual esta segunda-feira, com a Casa Branca a dizer que o objectivo primeiro é reduzir as tensões bilaterais. O Governo dos EUA está a tentar baixar as expectativas para a cimeira com o líder chinês, com Biden a sublinhar que os dois países precisam de, antes de tudo o mais, criar mecanismos de defesa em áreas de conflito cada vez mais difíceis nas relações bilaterais. “Os dois líderes discutirão maneiras de administrar com responsabilidade a concorrência entre os Estados Unidos e a República Popular da China, bem como maneiras de trabalhar juntos onde os nossos interesses se alinham”, disse a assessora de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, num comunicado em que confirmava a cimeira. “Durante todo o processo, o Presidente Biden deixará claras as intenções e prioridades dos EUA e será claro e franco sobre as nossas preocupações”, disse Psaki. O acordo para realizar esta reunião – a primeira por videoconferência desde que o Presidente norte-americano tomou posse em Janeiro – foi anunciado no início de Outubro pela Casa Branca. O assessor de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, e o assessor de política externa chinês, Yang Jiechi, já chegaram a um acordo sobre o modelo desta cimeira e reuniram-se em Outubro para conversas prévias, em Zurique. Biden e Xi já falaram pelo telefone duas vezes e esta cimeira surge como mais uma oportunidade para as duas superpotências continuarem o diálogo, numa altura em que as relações entre Pequim e Washington se encontram em mínimos sobre uma série de questões, desde o comércio aos direitos humanos, passando pelas ambições regionais da China. Pouca harmonia Xi ainda não saiu da China, durante a pandemia do covid-19, e, por isso, foi proposta uma cimeira em formato virtual para que os dois líderes tenham uma reunião substantiva sobre as diferentes áreas em que os dois países continuam a divergir. Nos últimos meses, vários episódios revelaram uma escalada de tensão entre os dois países, com acusações mútuas de falta de vontade política para uma aproximação diplomática. Biden, na recente cimeira do G20, em Roma, e novamente na reunião climática da ONU, COP26, em Glasgow, criticou Xi por não comparecer aos encontros onde os líderes mundiais discutiram o caminho a seguir na pandemia e as medidas para aliviar o impacto da mudança climática. “Acho que foi um grande erro, francamente, da parte da China … não aparecer”, disse Biden em Glasgow. Sexta-feira, na cimeira virtual do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (AOEC), Biden e Xi estiveram ausentes.
Comandos por lapidificar André Namora - 15 Nov 2021 O prestígio dos Comandos do exército português foi por água abaixo. Depois de anos e anos na guerra das colónias, depois de serem respeitados pelos portugueses como a tropa de elite, depois de terem centenas de militares comando condecorados com as mais altas insígnias, depois de serem escolhidos para missões internacionais, nomeadamente, na República Centro Africana, eis os Comandos a deixar o país perplexo por pertencerem a uma rede internacional de tráfico de diamantes, ouro, droga, armas e notas falsas. Ao longo de vários anos militares dos comandos e ex-comandos dedicaram-se a traficar, com a agravante do transporte das mercadorias ilegais terem sido feitas em aviões militares. Um escândalo. Uma vergonha. Um crime gravíssimo e estonteantemente nenhum militar superior de comando, nenhum chefe da Polícia Judiciária Militar, nenhum chefe de Estado-Maior, tenha tido qualquer conhecimento. Nem a secreta portuguesa, que ninguém sabe para que serve, conseguiu ter uma informação do crime desprestigiante para Portugal que estava a ser levado a efeito. No meio desta vergonha, a mais grave é a atitude do ministro da Defesa, João Cravinho, que não deu conhecimento das investigações que estavam a decorrer ao primeiro-ministro e este ao Presidente da República. Como é isto possível? O Presidente da República é por inerência o Comandante em Chefe de todas as Forças Armadas. Tinha de ser a primeira personalidade a ser informada, porque se tratava de militares em acção no estrangeiro e sob a égide da ONU. Até o secretário-geral António Guterres se sentiu envergonhado. Mas os políticos em causa já vieram tentar sacudir a água do capote dizendo que os militares estavam ao serviço da ONU. Não, em primeiro lugar os militares são portugueses. O tráfico era enorme. Os diamantes foram levados para Antuérpia, na Bélgica, aos milhares. O ouro resultou em venda de milhões de euros. As armas proporcionaram tanto lucro que um inspector da Polícia Judiciária disse-nos que ainda não fazem a mínima ideia do dinheiro que a venda rendeu e para que países foram. A droga foi espalhada pela Europa e na Holanda estavam os maiores receptores. Os 10 comandos e ex-comandos detidos pela PJ são suspeitos de traficarem 1,5 milhões de euros em ouro e diamantes. Os suspeitos compravam diamantes de sangue – pedras preciosas extraídas em zonas de guerra – na República Centro Africana durante as missões de “paz” das Nações Unidas em que Portugal tem vindo a desempenhar naquele país. Uma “paz” transformada em maná. A mercadoria era depois colocada em tubos de charutos na bagagem pessoal dos militares de regresso a casa nos aviões, inacreditavelmente, nos aviões da Força Aérea Portuguesa. Chegados ao aeroporto militar de Figo Maduro em Lisboa, o controlo era inexistente, logo facilitando a entrada da mercadoria ilegal. Uma vergonha no seio da organização militar nem sequer existir controlo no aeroporto militar. Quanto aos diamantes eram levados por estes suspeitos detidos em viaturas civis até Antuérpia para serem vendidos num dos maiores centros de negócios de diamantes a nível mundial. O esquema era depois concluído com a lavagem do dinheiro. Cerca de 40 indivíduos, já constituídos arguidos, aceitaram que nas suas empresas o dinheiro fosse depositado nas contas bancárias. Este dinheiro era depois usado para comprar moedas virtuais, limpando assim o rasto da origem do dinheiro. O mais impressionante é que não existem suspeitas apenas ao nível de soldados, mas também de militares com patente superior, como major. A rede internacional pode ainda vir a ser muito maior do que as autoridades judiciais recolheram até ao momento, porque no caso do tráfico de droga que os militares efectuaram a ligação pode incluir traficantes de vários países, os quais teriam pago avultadas quantias aos militares portugueses. No meio de isto tudo, o mais escandaloso é saber-se que o ministro João Cravinho informou a ONU em 2020 sobre as suspeitas do tráfico por parte dos militares portugueses. Em 2020? E até hoje nada disse ao primeiro-ministro? Não acredito. E António Costa nada disse ao Comandante em Chefe das Forças Armadas, o Presidente Marcelo? Inacreditável todo este comportamento político e toda esta pouca vergonha que agora veio a público. Afinal, o ministro João Cravinho depende de quem? Do chefe do Governo ou da ONU? Este ministro, assim que o caso veio a público e que o Presidente Marcelo e o primeiro-ministro disseram que não tinham conhecimento, tinha imediatamente de se demitir. Portugal não pode continuar a ser governado por indivíduos sem seriedade que se dão ao luxo de esconder um caso tão grave como este de tráfico de ouro, diamantes, droga, armas e notas falsas. No caso de a investigação a cargo do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa ter tido início em 2020, então, a tutela da Justiça, ou seja, a ministra também não sabia de nada e nada transmitiu ao primeiro-ministro? A tudo isto se chama um “cambalacho” político que nos envergonha a todos. Esperemos que, desta vez, o Presidente da República actue com firmeza doa a quem doer.
Lu Hong, o Pintor Que Caíu Nas Graças do Imperador Paulo Maia e Carmo - 15 Nov 2021 «Uma cabana num ermo, situada no cume de uma montanha deserta,/ E uma árvore velha, sem flores, debruçada sobre as águas./ Depois de almoço procurei um lugar assim, tranquilo e retirado,/ Mas o frio excessivo torna o entardecer amargo e trágico.» Wang Wei (701-761) seria sempre visto como o ideal do literato que personifica o encontro das artes complementares de objectivos antiteticos da pintura e da poesia, o que se materializa de modo admirável nas vinte pinturas com os correspondentes poemas, que incluem as respostas a um desafio poético do letrado Pei Di, num rolo horizontal, onde estaria representado o seu retiro campestre, e que por isso são conhecidas pelo nome do lugar em Lantian, a sul de capital Chang’an: Wangchuan. A lenda que o envolve bem como os poemas (traduzidos para português por A. G. de Abreu, em Poemas de Wang Wei, ICM, 1993) como ideias, sobreviveriam incólumes ao passar do tempo, as pinturas enquanto objectos perecíveis, só através de cópias, processo pelo qual se perde o «ritmo espiritual» (qiyun) original. Entre essas cópias, aquela que é reconhecida como mais próxima do modelo é o rolo horizontal (tinta sobre seda, 29 x 490,4 cm) que se pode ver no Smithonian, da autoria de Guo Zhongshu (c. 927-977). Mas a ideia de fazer uma pintura do lugar de retiro de literatos, rodeados de uma paisagem de eleição, entendida como a revelação do carácter e da sua verdadeira natureza, que com ela se identificam como num auto-retrato, seria recriada ao longo de muitos anos por outros pintores como, de modo notável, por Li Gonglin (1049- 1106) no seu rolo horizontal, Herdade de montanha (Shanzhuang, tinta sobre papel, 28,9 x 364,6 cm) que se encontra no Museu do Palácio Nacional, em Taipé. Porém, ainda no tempo de Wang Wei, na dinastia Tang, conhece-se uma pintura feita por um letrado de Yuzhou (Hebei) chamado Lu Hong, favorecido pelo imperador Xuanzong (685-762) que não só aceitou a recusa de o servir como funcionário imperial num cargo que lhe destinou, como lhe ofereceu uma propriedade nas faldas da montanha Songshan, perto da cidade de Luoyang (Henan). Lu Hong (activo entre 713-41) fez-se representar, escutando a natureza ou dialogando com um amigo nesse refúgio, na pintura Dez vistas de uma cabana de telhado de colmo (Caotang shizhi) de que existem igualmente várias cópias, a mais fiel será a que se encontra no Museu do Palácio Nacional, em Taipé (tinta sobre papel, 29,4 x 600 cm) e que hoje se apresenta como um rolo horizontal com dez secções. Na sua ingenuidade, é possível perceber a personalidade telúrica, daoísta de Lu Hong, diferente da elegância do budista Wang Wei ou da paisagem imersiva de Li Gonglin. Em duas secções a sua figura, desproporcionada em relação à paisagem, surge no topo de elevações de lugares, a quarta das quais é descrita poeticamente como «almofada de nuvens» tal como a nona: uma «caverna para descortinar a verdade». Subido nesses lugares de onde se pode ver mais longe, ele porém não parece estar a olhar mas a ensinar, pelo exemplo, devolvendo pela arte o que recebeu de graça.
PCC | Xi emerge como “timoneiro” do “rejuvenescimento” da China Hoje Macau - 15 Nov 2021 Um quadro do Partido Comunista Chinês referiu-se sexta-feira ao secretário-geral, Xi Jinping, como o “timoneiro” do “navio do rejuvenescimento da nação chinesa”, ilustrando a elevação do seu estatuto, após uma resolução histórica aprovada pelos líderes do país. “Ao apoiar e defender firmemente a posição central do secretário-geral Xi, o partido terá uma âncora, o povo chinês uma espinha dorsal e o navio gigante do rejuvenescimento da China um timoneiro firme”, disse Jiang Jinquan, director do Gabinete de Investigação do Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC), numa conferência de imprensa realizada após a aprovação de uma “resolução histórica” que reforçou a liderança de Xi Jinping. “Não importa quantas ondas agitadas nos esperam, seremos sempre capazes de manter a calma e a compostura”, proclamou. O título de “timoneiro” estava tradicionalmente reservado a Mao Zedong, o fundador da República Popular da China. Mas, na última semana, na sexta sessão plenária do Comité Central, Xi consolidou o seu poder mais do que nunca, com uma “resolução histórica” que estipula a sua visão do passado e futuro do Partido Comunista. Isto lançou as bases para que Xi Jinping assuma um terceiro mandato de cinco anos como secretário-geral do PCC, no congresso que se realiza no próximo ano, elevando-se ao estatuto de Mao e de Deng Xiaoping, que abriu o país à iniciativa privada no início dos anos 1980. A resolução, formalmente adoptada pelo Comité Central do partido, declarou que a liderança de Xi é a “chave para o grande rejuvenescimento da nação chinesa”, segundo o texto publicado pela Xinhua. O Comité Central credenciou Xi Jinping pela “resolução de muitos problemas que [o Partido] deixou de resolver por muito tempo, apesar da intenção de fazê-lo”, de acordo com o documento. Jiang Jinquan explicou que o “pensamento de Xi sobre o socialismo com características chinesas para a nova era” vai guiar o partido na “direcção certa”, apesar da “complexidade da situação”, face a “mudanças no mundo sem precedentes no espaço de um século”. Hu Jintao e Jiang Zemin tiveram transições de poder pacíficas e ordeiras. Espera-se que Xi, no entanto, renuncie a essa tradição e assegure um terceiro mandato de cinco anos como secretário-geral do PCC no final do próximo ano. Metas definidas De acordo com a resolução, os objectivos para a liderança de Xi Jinping centram-se em torno de “dois centenários”, nomeadamente a construção de uma “sociedade moderadamente próspera”, que consistiu na eliminação da pobreza extrema até ao centenário do Partido Comunista, que se celebrou este ano, e, a seguir, a construção de um “país socialista moderno, próspero, forte, democrático, culturalmente avançado e harmonioso”, por altura do centenário da fundação da República Popular da China, em 2049. Embora já tenha sido nomeado o “líder central”, Xi ganha ainda mais prestígio com a inclusão destes termos na resolução emitida na quinta-feira pelo Comité Central do PCC sobre questões históricas relativas aos últimos 100 anos. Este foi apenas o terceiro documento do género. O primeiro foi em 1945, sob o comando de Mao Zedong e, o segundo, em 1981, sob a liderança de Deng. Exercer tal autoridade aos olhos dos historiadores e teóricos do partido certamente faz de Xi uma das figuras chinesas mais dominantes do século, segundo analistas. Tempos difíceis Xi enfrenta, porém, uma situação económica difícil, enquanto a actual abordagem de “tolerância zero” da China em relação à covid-19 ainda não erradicou o surto, ao mesmo tempo que afecta a vida pessoal e financeira de parte da população. A economia da China está também fortemente dependente das vendas de imóveis e construção, com o abrandamento do sector a causar nervosismo. Os mercados financeiros estão preocupados com a possibilidade de a Evergrande Group, entrar em colapso, devido à falta de liquidez e um passivo de pelo menos 260 mil milhões de euros. No exterior, Xi adoptou uma política assertiva. As relações com os Estados Unidos da América atravessam um período tenso, face a disputas no âmbito do comércio, tecnologia ou com o estatuto de Taiwan. “Sob a forte liderança do Comité Central, com o camarada Xi Jinping no núcleo, reuniremos todo o partido como um pedaço de ferro inquebrável e marcharemos em sincronia”, vaticinou sexta-feira Qu Qingshan, director do Instituto de História e Literatura do Partido.
Maggie Chiang, artista e chef local: “Tudo pode estar sincronizado com o paladar” Pedro Arede - 15 Nov 2021 Depois de estudar em França e Itália, Maggie Chiang voltou a Macau e abriu um restaurante. Conjugando sempre as esferas da arte e da gastronomia, deixou esse projecto para vender biscoitos na Rua do Seminário, inspirados em pinturas que a própria fez. Para a fundadora da “maqi lava cookies” expressar o sabor através dos cinco sentidos é uma exploração diária, que pode ir do abstracto ao estado de espírito do momento, passando pela filosofia e terminando no prato De que forma é possível combinar comida e expressão artística? Para mim, a comida é uma forma de arte porque tem tudo a ver com a forma como somos capazes de combinar os elementos, misturar sabores e apresentar visualmente os alimentos. Até a própria cultura de degustar comida é, para mim, uma forma de arte. Em Itália, por exemplo, o simples facto de criar uma oliveira ou produzir queijo é uma forma de arte porque lá não se limitam a plantar essa árvore, seguem métodos precisos e têm uma filosofia para o fazer. Tudo tem a ver com arte. Quando voltei para Macau criei o meu próprio restaurante [Maquete] e apostei tudo em termos artísticos. Porque gosto de música, caligrafia e pintura procurei formas de combinar as artes visuais na comida e acabei por criar vários projectos artísticos relacionados com comida. Como é que essas formas de expressão artística são materializadas em comida ou noutros pratos? Para me expressar de forma artística através da comida invisto sobretudo nas cores, nas formas e texturas dos alimentos. No caso dos projectos de catering que dirijo, depois de definir os pratos, tento construir uma história através do menu, ou seja, o que pretendo é que a sequência daquilo que vem para a mesa conte uma história. Como gosto muito de arte, procuro combinar todas as formas de expressão artística na comida, não apenas em termos visuais, mas também recorrendo a histórias e à música, por exemplo. De onde vem a inspiração para novas receitas e como se combinam ingredientes, cores, formas e texturas para apreciar à mesa? Viajar é a minha principal inspiração, apesar de agora ser impossível fazê-lo devido à pandemia. Foi quando comecei a ver mais coisas à minha volta e comecei a ser mais curiosa em relação a tudo o que me rodeia que fiquei mais desperta para aquilo que faço. Encontro inspiração em todo o lado. Mesmo agora, nesta zona [São Lourenço] gosto de ir ao mercado aqui perto, simplesmente para ver pessoas no seu quotidiano e isso pode servir de base para novas criações. Como despertou a paixão de combinar gastronomia e arte? Desde pequena que gosto de cozinhar e de tocar piano. Acho que é algo que implica todos os nossos sentidos, porque quando comecei a cozinhar fiquei mais alerta não só para o paladar dos alimentos, mas também para os cheiros. E como sempre toquei, comecei a usar também os ouvidos de outra forma. Quando começamos a usar todos os nossos sentidos, a curiosidade começa a aparecer em todas as coisas. Mais tarde comecei a fazer empratamentos e a interessar-me mais por pintura e resolvi ir estudar para Florença. Acho que tudo pode estar sincronizado com o paladar. Como surgiu a ideia de fundar o “maqi lava cookies” e de que forma o conceito está ligado à pintura? Depois do restaurante “Maquete”, comecei este negócio em 2018 porque queria fazer algo que as pessoas pudessem comer no dia a dia e que as fizesse sentir felizes e lembrei-me de uma das coisas mais básicas da cozinha ocidental: biscoitos. Queria continuar a explorar a vida e não a trabalhar num restaurante todos os dias durante 14 horas porque, alguns anos depois, senti que não sabia nada do mundo. Quando abri esta loja permiti-me a mim mesma ter mais espaço e comecei a desenvolver outros projectos em paralelo, como dar aulas, promover projectos de catering e dedicar-me aos estudos. Daí, quando criava menus para marcas ou eventos, começava antes de mais por fazer uma pintura e isso ajudava-me a ter um conceito sobre a paleta de cores e as formas que pretendia criar. Servia quase como um mockup. É assim que crio coisas e, por isso, quando decidi abrir este espaço, aproveitei esse processo criativo, de pintar antes de conceber algo ligado ao paladar, para criar oito biscoitos com diferentes sabores e texturas, associados a oito obras feitas por mim. Que tipo de arte e pintores servem de inspiração? Gosto sobretudo de pintura abstracta e, por isso, artistas como Kandinsky e Pollock são algumas das minhas principais fontes de inspiração. Para mim, no caso das obras abstractas, não se trata apenas da capacidade técnica de cada um, mas sim do espírito e da forma como expressamos ideias e emoções. É energia. É algo que vai além daquilo que conseguimos ver. Nesse sentido, de que forma os sentimentos e as memórias podem interagir com a confecção e o paladar? Também isso é abstracto. Não tem a ver com conhecimento ou capacidade, mas sim com a energia do chef ou da pessoa que está a cozinhar. É uma forma de expressão que vai além do sabor. Enquanto chef considero sempre que os meus sentimentos e a minha energia têm o condão de afectar o sabor e tento mobilizar-me nesse sentido. E tem tido sucesso? Considero que sim. Por exemplo, quando dava formação a chefs não treinava apenas as suas capacidades técnicas, mas tentava também fazer com que eles se sentissem felizes antes de cozinhar. Antes de um grande evento, por exemplo, fazia questão pôr música que transmitisse sentimentos de felicidade e bebíamos normalmente qualquer coisa. Era quase como uma pequena celebração que contribuía para que todos estivéssemos nesse mesmo comprimento de onda antes de irmos trabalhar. Então se a mesma pessoa utilizar a mesma técnica para cozinhar um prato em estados de espírito diferentes, o resultado também vai distinto? Claro que sim. A mesma receita com as mesmas quantidades feita por pessoas diferentes origina resultados diferentes. Tem tudo a ver com experiência e com sentimentos. Uma pessoa mais racional e outra mais sentimental vão produzir pratos diferentes com a mesma receita. Tudo isto, juntamente com as emoções e outros factores, como a virtude e a intencionalidade, são ingredientes que podem afectar a forma como exploramos a criação de algo. Como é que a filosofia e a religião entram nesta equação gastronómica e artística? Depois de trabalhar com muitos artistas, um deles do Tibete, reparei que as crenças e os pensamentos podem de facto afectar a forma de estar de uma pessoa e comecei a interessar-me por religião. Ao mesmo tempo, como fui obrigada a suspender os projectos que tinha devido à pandemia, comecei a estudar filosofia para tentar explorar como é que essas crenças e os pensamentos podem afectar as criações de alguém. Comecei a tentar compreender de uma forma académica, como é possível fazer coisas a partir de um método filosófico. Foi bom também porque descobri que a ideia que tinha antes para uma exposição de arte e gastronomia não era suficientemente profunda, pois estou neste momento a trabalhar numa pesquisa sobre a sensação gustativa. A ideia que tinha para essa exposição era tentar expressar o sabor através dos cinco sentidos e a forma como a percepção pode afectar o paladar. Uma vez mais está tudo relacionado com a comida. De que forma é que ter crescido em Macau influenciou ou contribuiu para as suas criações? Viver em Macau influenciou muito a forma como cozinho. Quando estive em Itália apercebi-me que tinha algumas vantagens ao nível do conhecimento da gastronomia europeia devido à cozinha macaense, cujo sabor me era familiar e parecido com a gastronomia italiana em certa medida. Comparando com outros estudantes na China ou na Ásia acho que temos essa vantagem de ter aqui em Macau um pouco dessa cultura europeia. Disse em tempos estar consciente de que “ser chef não é profissão para uma mulher”. Mantém esta ideia? Hoje em dia, já penso de maneira diferente. Quando era mais nova e enquanto adolescente ou jovem estudante inserida no contexto asiático de Macau, ser chef era algo que fazia parte do mundo dos homens e um trabalho que os pais não iam gostar para uma filha. O trabalho com o qual os meus pais se sentiram mais confortáveis foi quando trabalhei em escritórios. Quando me despedi e disse que queria cozinhar eles não gostaram. Mas acho que após tantos anos, essa ideia mudou. A mentalidade é agora mais aberta em Macau, apesar de haver ainda muito a fazer quando se fala nesta profissão. Comparando Macau com Hong Kong ou com a Austrália há ainda uma grande diferença. Há mais restaurantes e variedade agora, mas a forma como as pessoas comem e desfrutam de uma refeição é ainda muito diferente. Diferente de que forma? Se formos a um restaurante francês pedimos um bom prato e queremos emparelhar com um bom vinho e apreciamos a forma como o restaurante presta esse serviço, mas em Macau não. Ainda se prefere partilhar sempre todos os pratos e trazer vinho de casa. É a cultura daqui. Enquanto chef preferia que o ambiente fosse diferente, mais à semelhança de Hong Kong, Melbourne ou da Europa. Sentir-me-ia melhor com a minha profissão e os clientes conseguiriam apreciar melhor as refeições.
Fórum Macau | Reforço de intercâmbio cultural com PLP Hoje Macau - 15 Nov 2021 O secretário-adjunto do Fórum, Ding Tian, considera que a pandemia da covid-19 veio mostrar “a importância da construção de uma comunidade de futuro partilhado” O Fórum de Macau vai fomentar “ainda mais” o intercâmbio cultural entre China, Macau e países lusófonos, bem como a cooperação em todas áreas “para um novo patamar”, afirmou o secretário-geral adjunto. Na inauguração, na sexta-feira, da 13.ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, Ding Tian, secretário-adjunto do Fórum, disse que o intercâmbio cultural e artístico “veio enaltecer”, durante a pandemia da covid-19, “a importância da construção de uma comunidade de futuro partilhado para a humanidade”, de acordo com um comunicado divulgado no sábado. Para desenvolver o papel de Macau como plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa, consagrado no 14.º plano quinquenal do Estado chinês, esta edição da semana cultural integra novos elementos, como o concurso da criação de vídeos promocionais sobre os países lusófonos, o ciclo de exposições artísticas “Policromias Lusófonas” e ‘workshops’ dos países de língua portuguesa, a decorrer desde Junho, em formatos ‘online’ e ‘offline’. Na página electrónica da semana cultural, 18 programas vão dar a conhecer peças de ópera Huangmei da província chinesa de Anhui (leste), música, dança, teatro, artesanato e gastronomia dos nove países participantes no Fórum: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e China. Estudantes em força Mais de 180 estudantes, de mais de 20 instituições de ensino superior chinesas, lusófonas e de Macau participaram, com um total de 50 trabalhos, no concurso de criação de vídeos promocionais sobre os países de língua portuguesa, cujos prémios foram entregues na mesma ocasião. Os trabalhos “Estou Te Esperando em Angola”, “Café do Brasil”, “Guiné Bissau”, “Um dia em Portugal”, “Olá! Eu chamo-me São Tomé e Príncipe”, “Em Timor-Leste há uma lenda fantástica” foram distinguidos com o “prémio vencedor”. No âmbito do ciclo de exposições “Policromias Lusófonas”, as obras de Inu Bere, de Timor-Leste, vão estar patentes ao público, entre 19 de Novembro e 5 de Dezembro, decorrendo paralelamente um ‘workshop’ temático deste país. A China estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau como plataforma para a cooperação económica e comercial com os países de língua portuguesa em 2003, ano em que criou o Fórum de Macau. Este fórum tem um secretariado permanente, reúne-se a nível ministerial a cada três anos e integra, além da secretária-geral e de três secretários-gerais adjuntos, oito delegados dos países de língua portuguesa.
Autocarros | Sem condições para frota totalmente eléctrica João Santos Filipe - 15 Nov 2021 É possível fazer melhor, mas a falta de estacionamento é uma grande limitação para que Macau tenha uma frota de autocarros públicos totalmente eléctrica. Actualmente, a RAEM tem 200 espaços de carregamento de veículos eléctricos Faltam condições a Macau para concretizar o desejo de ter uma frota de autocarros públicos exclusivamente movida a electricidade. Os limites foram explicados por Li Jiliu, representante da construtora Zhong Tong, em declarações à TDM, que argumentou com a falta de locais para estacionar. “Cidades como Macau e Hong Kong são relativamente pequenas, as ruas são estreitas e não há estacionamentos suficientes em Macau [para permitir os carregamentos]”, justificou Li Jiliu, à margem da Exposição Internacional Automóvel da China. “É impossível resolver as questões relacionadas com a criação de estações centralizadas de carregamento”, acrescentou. Apesar das limitações, a Zhong Tong trouxe a Macau um veículo desenhado a pensar no mercado local, que recorre ao diesel para alimentar baterias. “Este modelo de autocarro tem um motor tradicional a diesel, que carrega as baterias e depois circula com um motor movido a bateria, menos poluente do que um motor a diesel tradicional”, foi explicado. Até 2025, Macau tem como meta implementar uma frota de autocarros públicos com mais de 95 por cento dos veículos movidos através de energias alternativas, com menos impacto para o ambiente e emissão de poluentes reduzida. Ligar à ficha Actualmente, de acordo com a Companhia de Eletricidade de Macau (CEM), Macau dispõe de 200 espaços de carregamento de veículos eléctricos em 42 parques de estacionamento públicos e em sete ruas de Macau, Taipa e Coloane. “A cobertura em parques de estacionamento públicos é de quase 80 por cento, com a maioria dos tipos de fichas disponíveis”, revelou a CEM num comunicado, citado pela Lusa, que recordou faltarem “instalações de carregamento em conjuntos habitacionais privados”. Em Fevereiro de 2019, existiam 172 espaços de carregamento em 70 por cento dos parques automóveis públicos. A empresa pretende “aumentar ainda mais a cobertura” e prevê instalar, no futuro, estações de “carregamento padrão” para facilitar o uso perto de zonas residenciais e escritórios, durante o tempo de estacionamento. De acordo com as “Especificações Técnicas de Fornecimento de Energia” revistas em 2018, os parques de estacionamento em novos edifícios devem estar 100 por cento equipados com infraestruturas de carregamento, para melhorar as instalações de carregamento e incentivar o público a conduzir de forma ecológica, indicou a CEM. No final de Junho, as autoridades contabilizaram 1.852 veículos eléctricos, entre automóveis (1.612) e motorizadas (240), números pouco impressionantes que, ainda assim, representam um aumento de 38 por cento em relação ao final de 2020. Em Junho, o Governo de Macau usava 36 veículos eléctricos, de acordo com dados publicados no website da Direção de Serviços para os Assuntos do Tráfego (DSAT).
DST | Deloitte alerta para concorrência de Hainão e sugere aposta no mar João Luz - 15 Nov 2021 O Governo encomendou um estudo à consultora Deloitte sobre o presente e o futuro do turismo de Macau, identificando potenciais riscos e caminhos de saída. A concorrência da ilha da Hainão e da zona da Ásia/Pacífico pode “roubar” visitantes a Macau. A solução é aproveitar os recursos marítimos e culturais e apostar no segmento do luxo Depois de quase dois anos de clausura e prejuízo, a saída para a crise poderá passar pela reinvenção do sector do turismo. Foi com o propósito de análise e projecção de soluções para o sector que a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) encomendou à consultora Deloitte um estudo sobre o desenvolvimento da indústria do turismo. Além de estabelecer a óbvia dependência da economia local no turismo, e da imprevisibilidade do fim dos efeitos nefastos da pandemia, a consultora refere que a política de facilitação de vistos no Interior da China para destinos no estrangeiro tem “desviado” visitantes que tradicionalmente optariam por Macau, Hong Kong e Taiwan, diminuindo as visitas “de ano para ano”. Também destinos como Vietname e Tailândia, tornam-se cada vez mais competitivos a captar turistas, enquanto que na Malásia, Filipinas e Camboja a indústria do jogo está “em rápido crescimento, afectando a concorrência com a indústria do jogo de Macau”. Por outro lado, a Deloitte destaca Hainão como um destino que “atrai o retorno do consumo dos visitantes do Continente”, através da isenção de impostos e da oferta de produtos turísticos cada vez mais ricos. “A rota de desenvolvimento com foco em compras isentas de impostos e hotéis/resorts de luxo é uma forma de concorrência para a indústria do turismo de Macau.” Aliás, para aferir do grau de competitividade entre as duas regiões, basta recordar a nomenclatura política que o Governo Central estabeleceu para Hainão enquanto “Centro Internacional de Turismo e Consumo”, termo semelhante ao “Centro Internacional de Turismo e Lazer” aplicado em Macau. Mão cheia de remédios Num período em que a RAEM procura diversificar a economia, a Deloitte fez algumas sugestões ao Governo para a retoma do mercado turístico. Em primeiro lugar, a consultora sugere que se mantenha a “comunicação com o Continente, a melhoria da eficiência da passagem pela alfândega e discutir a melhoria da política de vistos para pessoas que viajam frequentemente na área da Grande Baía”. Neste aspecto, é apontado que Macau não aproveitou, até agora, a conectividade das redes de transportes da região. Um outro potencial trunfo a explorar é a atracção de turistas com elevado poder de compra, descritos pela consultora como “clientes de alto valor”, “casais jovens, visitantes de colarinho branco, famílias de rendimento médio e alto e jovens da Geração Z”. Também a especificação do produto pode ser uma vantagem, nomeadamente através da oferta de pacotes de “viagem para fotografia para casamento, gestão de fortunas, cuidados de saúde, etc”. No capítulo dos recursos, o plano geral recomenda o planeamento de instalações culturais na área dos Estaleiros Navais de Lai Chi Vun, na Fábrica de Panchões de Iec Long e no Pátio da Eterna Felicidade, e a promoção de elementos de turismo cultural através de operações de parcerias público-privada. Outro dos métodos recomendados neste ponto, é a colaboração com museus e galerias da área da Grande Baía e outras cidades do Interior da China, em termos de curadoria colaborativa ou exposição de colecções de forma mútua. Enquanto porta de entrada para o Mar do Sul da China, a Deloitte reforça que Macau deve aproveitar o acesso à costa, nomeadamente através de um plano com os operadores de turismo que oferecem passeios marítimos e optimizem rotas que “enriqueçam a experiência turística marítima”. Ainda no campo voltado para o mar, é sugerida a aposta no reforço dos portos existentes que, por exemplo, permitam oferecer ancoragem para iates.
Economia | Governo espera apoiar 103 mil trabalhadores a partir de Dezembro Pedro Arede - 15 Nov 2021 O Governo espera que o apoio pecuniário incluído no plano de apoio às PME, alcance 103 mil trabalhadores, 6.800 profissionais liberais e 15 mil estabelecimentos. Pagamentos começam em Dezembro e os beneficiários não podem cessar actividade ou despedir durante seis meses. Construção do armazém permanente de substâncias perigosas em Ká-Hó continua sem data O Governo prevê atribuir 10 mil patacas a cerca de 103 mil de trabalhadores, através do plano de apoio pecuniário incluído nas oito medidas de apoio às PME anunciado no mês passado. Concluída a discussão do regulamento administrativo denominado por “Plano de apoio pecuniário aos trabalhadores, profissionais liberais e operadores de estabelecimentos comerciais” pelo Conselho Executivo, a directora substituta dos Serviços de Finanças (DSF), Chong Seng Sam revelou que o Governo espera beneficiar 6.800 profissionais liberais e 15 mil estabelecimentos. Os pagamentos começam em Dezembro, por transferência bancária ou cheque. “Os requerentes terão de apresentar os documentos comprovativos de existência efectiva da sua relação laboral para a nossa apreciação. Se reunirem os requisitos atribuímos o montante [10 mil patacas]. A partir de Dezembro serão atribuídos esses montantes”, explicou na sexta-feira Chong Seng Sam. Recorde-se que o apoio prevê atribuir 10 mil patacas a todos os contribuintes do imposto profissional, com rendimentos obtidos em 2020 inferiores a 144 mil patacas, ou seja, remunerações mensais de cerca de 12 mil patacas. Abrangidos estão também profissionais liberais que reúnam os mesmos requisitos, contribuintes do imposto complementar de rendimentos que não obtiveram lucros operacionais em 2020 e operadores de estabelecimentos comerciais. Para os dois últimos casos será atribuído um apoio pecuniário entre 10 mil e 200 mil patacas, “calculado com base em 5 por cento da média dos custos operacionais por si efectuados nos últimos três anos”. Durante a apresentação do diploma, o porta-voz do Conselho Executivo André Cheong anunciou ainda que, para “proteger os direitos e interesses relativos ao emprego dos trabalhadores”, os beneficiários cujo apoio pecuniário é calculado com base nos encargos do imposto profissional e custos de operação, “não podem cessar a actividade ou despedir sem justa causa os trabalhadores dentro de seis meses”. Caso isso aconteça, as quantias do apoio pecuniário recebidas terão de ser restituídas total ou parcialmente. Questões substanciais A proposta de lei sobre o controlo de substâncias perigosas também foi concluída pelo Conselho Executivo, estabelecendo um regime de controlo e prevenção da ocorrência de acidentes graves decorrentes do transporte, fabrico, manuseio e utilização de substâncias perigosas. Durante a apresentação do diploma que será entregue à Assembleia Legislativa foi revelado que a construção do armazém permanente de substâncias perigosas de Ká-Hó continua sem data e que, dentro das nove categorias de substâncias perigosas definidas de acordo com os critérios internacionais, existem cerca de 2.800 tipos de substâncias, que serão detalhadas no futuro. Sobre a gestão e exploração de zonas de armazenagem controlada por parte de entidades públicas ou privadas, foi dito que o Corpo de Bombeiros terá “poder uniformizado” para fiscalizar todas as zonas de armazenagem, mas que essa gestão poderá contar com a colaboração de entidades privadas.
Governo emprestou mais de 2 mil milhões sem juros às PME em 2020 Hoje Macau - 13 Nov 2021 O Governo emprestou mais de dois mil milhões de patacas às pequenas e médias empresas (PME) em 2020, ano marcado pela crise provocada pela pandemia de covid-19. Segundo dados das autoridades consultados pela agência Lusa, estas empresas receberam no ano passado 2.011.212.798 de patacas no âmbito do Plano de Apoio a PME, praticamente o mesmo montante aprovado entre 2003 (quando começou) e 2015 e cerca de dez vezes mais em relação ao valor anual médio dos empréstimos aprovados entre 2016 e 2019. Os pedidos de ajuda das PME de Macau no âmbito do plano de apoio abrandaram este ano, mas Outubro foi quando se verificou o maior número (107), tendo mesmo triplicado em relação a alguns dos meses anteriores. Em 2021, até Outubro, o Governo de Macau tinha aprovado 109.100.000 de patacas em empréstimos sem juros. O comércio a retalho, a construção e obras públicas, restaurante e hotéis foram as actividades económicas mais beneficiadas em 2021, à semelhança do que sucedera desde o início do programa de apoio. O Plano de Apoio às PME foi lançado em Maio de 2003 para ajudar financeiramente, com empréstimos sem juros, as empresas que sentiram o impacto económico devido ao SARS-CoV, detectado em Fevereiro daquele ano. Em 2020, com a pandemia do novo coronavírus, o SARS-Cov-2, o Governo reforçou os apoios económicos, com os empréstimos sem juros a servirem para financiar a aquisição de equipamentos, obras de renovação, fundo de maneio da empresa e aquisição de direitos de propriedade intelectual, entre outros. Actualmente, o montante máximo da verba está fixado em 600 mil patacas, sendo que o Governo ainda presta um segundo apoio às empresas que tenham reembolsado totalmente a verba de apoio concedido anteriormente. Em défice Apesar dos poucos casos (77) de covid-19, as restrições fronteiriças e consequente diminuição de visitantes na capital mundial do jogo em casinos obrigou as autoridades a avançarem com medidas excepcionais de apoio à população e empresas. O orçamento do Governo de Macau para 2022 vai continuar a registar um défice orçamental, suprido pela mobilização da reserva financeira, de 30,3 mil milhões de patacas. O Governo prevê despesas de 99,4 mil milhões de patacas e receitas de 100,1 mil milhões de patacas. No orçamento para o próximo ano, o Executivo vai dar continuidade aos apoios às empresas e à população definidos desde o início da pandemia, num montante de 20,4 mil milhões de patacas. O Governo propõe ainda a manutenção de um conjunto de medidas de dedução e isenção fiscais, no valor total de 3,09 mil milhões de patacas.
Turismo lento João Romão - 13 Nov 2021 É verdade que vão emergindo novos conceitos de vida e de viagem associados à lentidão e ao usufruto tranquilo do tempo, normalmente ditos em inglês para acentuar o toque de modernidade, mas ainda assim a maior parte dos turistas tem pressas, pouco tempo disponível, muita coisa para ver e fazer numa visita inevitavelmente curta. Tal como o “slow living”, slow cooking”, slow city”, também o conceito de “slow travel” apela a um abrandamento do ritmo que acrescente prazer, sabor, qualidade àquilo que se faz. Fazer menos mas melhor, demorar mais a preparar e saborear os momentos, impondo uma certa lentidão no quotidiano. É difícil fazê-lo quando viajamos, sobretudo em cidades: há um ritmo próprio da urbanidade, sobretudo nas grandes metrópoles, que impõem longas e demoradas deslocações diárias para o trabalho, com a ruidosa azáfama dos transportes e dos congestionamentos vários a animar e a marcar a cadência de cada dia. É nesse contexto de relativa aceleração que temos que nos enquadrar mesmo enquanto visitantes, com os nossos planos do que há para conhecer no pouco tempo disponível, em sítios que conhecemos mal mas onde queremos ver e fazer o máximo, já que as despesas para ali estar foram feitas com antecipação. Se em ambientes rurais ou em áreas menos urbanizadas o conceito de “lentidão” é relativamente fácil de associar a uma certa tranquilidade no usufruto dos tempos de lazer – na realidade, essa ruralidade também implica uma certa escassez de alternativas de actividades que convida a que tudo se faça mais devagar – nas cidades, pelo contrário, há um permanente apelo à velocidade, ao movimento, à aceleração, que não só é induzido pelo ritmo quotidiano de quem lá vive mas também pelas nossas motivações de turistas com planos e agendas quase sempre mais preenchidos do que a realidade do tempo disponível nos permite. Esse frenesim é pouco compatível com a preferência por formas não-motorizadas de transporte – os transportes suaves, que vão hoje fazendo o seu caminho até uma aceitação mais ou menos generalizada, também em centros urbanos. Andar a pé, de bicicleta ou de patinete começa a ser hoje uma opção facilmente disponível em muitas cidades, quer para quem lá vive, quer para quem visita. São formas de mobilidade com menor (ou nulo) impacto ecológico e também menores impactos sobre o espaço urbano, quer em termos de poluição do ambiente, quer em termos de ocupação de um espaço público cujo planeamento foi nas últimas décadas largamente influenciado pela necessidade de acomodar a garantir a circulação de um número massivo e sempre crescente de automóveis. Para quem conhece mal as cidades e procura breves mas relevantes descobertas numa visita curta, estas formas de transporte, que obrigam também a uma autonomia máxima de cada pessoa na identificação dos percursos e previsão da sua duração, podem ser vistas como um obstáculo ao usufruto dos atractivos do território. Mas esta opção também pode ser vista como uma oportunidade para se marcar melhor o ritmo da visita, para aumentar a flexibilidade das opções e a liberdade dos caminhos a seguir. Diferentes turistas terão certamente diferentes preferências e essa foi a razão pela qual procurei estudar o assunto na cidade de Barcelona, onde a autarquia local – não por acaso governada por uma formação chamada Em Comum – disponibiliza gratuitamente toda a informação e dados estatísticos recolhidos com financiamento público local. Nesse estudo (em parceria com a investigadora chinesa Yahua Bi e recentemente publicado no jornal “Sustainability”) identificámos uma dupla clivagem geracional – uma que se vai diluindo e tenderá a desaparecer em breve e outra cuja evolução futura está por conhecer. A primeira tem a ver com a utilização de ferramentas digitais na obtenção de informação para preparação da viagem e decorrentes aquisições de serviços: se numa primeira fase esta era uma opção assumida sobretudo pela população mais jovem, hoje está generalizada a quase todas a gente. Na realidade, os resultados que obtivemos sugerem que apenas as pessoas em situação de reforma não recorrem de forma generalizada à internet e outras tecnologias da informação e comunicação para a preparação das suas viagens. A segunda clivagem tem a ver com as opções de transporte: apenas na faixa etária mais jovem (abaixo dos 24 anos) se observa uma preferência generalizada pelas formas não motorizadas de transporte. Na realidade, é também a população mais jovem (mas neste caso abaixo dos 34 anos) a que tem maior propensão a utilizar transportes públicos. Se estes comportamentos característicos de uma geração que convive mais directamente com os previsíveis impactos das alterações climáticas em curso corresponde a uma resposta cívica e política a estes problemas ou se se trata apenas de uma questão económica (transportes públicos e/ou não motorizados são mais baratos do que os taxis) é uma questão que o tempo se encarregará de esclarecer. Em todo o caso, as tendências são hoje claramente identificáveis – tal como é clara, já agora, a maior propensão dos turistas de negócios para a utilização de transportes individuais (automóveis), independentemente da idade. O nosso estudo permitiu ainda identificar outras formas de conservadorismo com manifestos impactos negativos sobre o ambiente: independentemente das respectivas idades, turistas com viagens organizadas por empresas ou outras organizações promotoras de deslocações em grupo (como excursões de estudantes ou empresas) são também menos propensos a utilizar formas não motorizadas de transporte. Se há sinais de que a população – sobretudo a mais jovem – começa a mudar hábitos para se adequar às exigências ambientais contemporâneas, também não deixam de se confirmar os sinais de que no universo dos negócios as prioridades continuam a ser outras, lentas na mudança e uma mudança que parece inevitável e inadiável se ainda queremos preservar a vida no planeta.
Uma ilusão de pertença Valério Romão - 13 Nov 2021 Tenho Facebook basicamente desde que a plataforma chegou a Portugal. A primeira coisa que notei, à medida que o número de utilizadores ia aumentando, foi a facilidade em encontrar amigos de que se tinha perdido contacto. Toda a gente estava – ou estava a entrar – no Facebook. E durante algum tempo foi simpático ver ressurgir das sombras do passado uma catrefada de gente que já apenas habitava o subsolo da memória. Recentemente decidi fazer uma pausa. Desliguei o Facebook uma semana e, quando o voltei a reactivar, passei a ir lá muito menos vezes e a demorar-me pouco tempo em cada visita. O modelo de negócio do Facebook é basicamente o mesmo que o do Google: maximizar o tempo de estadia do utilizador para desse modo incrementar tanto quanto possível a quantidade de anúncios que vê e em que clica. Não interessa propriamente se o utilizador fica mais tempo ou volta mais vezes por causa dos gifs de gatinhos ou da desinformação acerca das vacinas. Há oitocentos mil engenheiros, sociólogos, psicólogos comportamentais e especialistas de áreas por categorizar cuja missão na empresa é fazer com que cada utilizador passe o maior tempo possível ao ecrã do telemóvel. Desde que seja a fazer scroll no feed, pouco importa o conteúdo. E eu estava a passar muito tempo no Facebook. O algoritmo é exímio a fazer-nos perder tempo. Desperta em nós a ansiedade de estarmos a perder qualquer coisa de terrivelmente importante – não estamos – quando nos afastamos do ecrã. É uma noção difusa, pois o «importante» aqui traduz-se na sensação de que na nossa ausência acontecem coisas que de algum modo aproximam as pessoas que a elas assistem e interagem com elas – botando likes, partilhando-as, etc. É um problema de comunhão, empatia e identidade. Um tipo gosta de se sentir compreendido, respeitado, admirado. Gosta de se sentir parte de qualquer coisa. O Facebook e a sua legião de programadores e cientistas consegue transformar – admiravelmente – aquela salganhada de conteúdos numa constelação de sensações capazes de criar um sucedâneo de sentido e de comunhão. Mas esse conjunto de sensações com rosto de experiência não corresponde de todo à verdade das coisas, ou seja, a experiência de comunidade aparentemente palpável. De vez em quando temos sinais disso, quando damos conta por qualquer razão que alguém nos bloqueou – o Facebook não nos avisa disso; aliás, não nos avisa de nada que nos possa perturbar, pois isso poderia diminuir o tempo que passamos na plataforma –, ou quando nos apercebemos que o like é uma unidade monetária sobrevalorizada. A sensação de que fora do Facebook não se perde grande coisa é acompanhada de uma lucidez acrescida: a de que o Facebook, aparentemente capaz de induzir uma leve anestesia na confusão dos dias, faz exactamente o contrário; o desfile incessante de notícias, indignações e radicalismos de todo o tipo reforça num sujeito razoavelmente normal a sensação de que o mundo é um lugar estranho e, em muitos casos, inóspito. Esse reforço, por sua vez, acaba por encaminhar o sujeito para contextos onde se sente mais confortável, seja do ponto de vista político, religioso ou simplesmente do ponto de vista afectivo. O Facebook, prometendo a máxima diversidade e transparência, é na realidade uma câmara de eco construída de forma a proporcionar uma ilusão de exterior. E, como em todas as ilusões, é mais fácil percebê-las estando de fora.
APEC | Xi alerta para o regresso à mentalidade de Guerra Fria Andreia Sofia Silva - 13 Nov 2021 O Presidente chinês, Xi Jinping, alertou ontem para o ressurgimento de uma mentalidade de Guerra Fria no leste do Pacífico, numa altura em que os Estados Unidos tentam conter a ascensão da China. O comentário de Xi, à margem da cimeira anual do Fórum de Cooperação Económica da Ásia–Pacífico (APEC), surge semanas depois de os EUA, Reino Unido e Austrália anunciarem uma nova aliança de segurança para a região, que inclui o fornecimento de submarinos nucleares para a Austrália. Pequim condenou aquele acordo. A intervenção de Xi foi feita através de um vídeo pré-gravado. O Presidente chinês vai participar numa reunião virtual com outros líderes do Pacífico, incluindo o Presidente dos EUA, Joe Biden, no sábado. Xi disse que as tentativas de traçar fronteiras na região através de linhas ideológicas ou geopolíticas fracassarão. “A região da Ásia-Pacífico não pode e não deve recair no confronto e divisão da era da Guerra Fria”, frisou. O Presidente chinês defendeu que a região deve assegurar o funcionamento das cadeias de abastecimento e continuar a liberalizar o comércio e os investimentos. “A China vai permanecer firme no avanço das reformas e na abertura, visando adicionar ímpeto ao desenvolvimento económico”, assegurou. A tarefa mais urgente na região é fazer um esforço total para combater a pandemia, acrescentou. No conjunto, os membros da APEC somam 3 mil milhões de pessoas e cerca de 60 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Mas tensões profundas dividem o grupo de 21 nações e territórios, que incluem membros com interesses divergentes entre si, como os EUA, China, Taiwan, Rússia e Austrália.