FAM | Dream Theatre conta histórias de Coloane este fim-de-semana 

Arrancou na passada sexta-feira a 31.ª edição do Festival de Artes de Macau depois de uma pausa forçada devido à covid-19. Para este fim-de-semana estão agendados os espectáculos “O Jogo Coloane”, da companhia Dream Theatre Association, e “Vejo-te Através de Memórias”, um espectáculo que mistura teatro e documentário da autoria da Associação de Workshops de Arte Experimental Soda-City

 

Um pedaço da história de Coloane volta a contar-se no próximo sábado e domingo, entre os dias 8 e 9, pela mão da companhia teatral Dream Theatre Association, depois da estreia que acontece no último fim-de-semana. O ponto de encontro far-se-á no Largo Tam Kong Miu, em Coloane, onde o público poderá assistir a “uma visita guiada ao local que apresenta a história humanista de Coloane e procura chamar a atenção para a importância da história local, da cultura e da conservação”, descreve o Instituto Cultural (IC) em comunicado.

O espectáculo, que acontece apenas em cantonense e sem legendas, “combina viagens no tempo com subidas e descidas à montanha”, levando o público “a seguir os artistas pelas ruelas de Coloane”. “O Jogo Coloane” inclui, além das visitas guiadas, teatro, dança e exposições, o que irá permitir aos participantes “experimentar a prosperidade das épocas passadas na parte oeste de Coloane e perceber a dinâmica da altura”.

Desta forma, as histórias de locais emblemáticos da ilha de Coloane como o Pátio dos Velhos, a Rua dos Negociantes ou a povoação de Lai Chi Vun, lugar que outrora foi um importante centro de construção de juncos de madeira, poderão ser contadas através de diversas formas de expressão artística. Em Lai Chi Vun, o público “poderá experienciar o espírito de entreajuda das pessoas e a prosperidade e declínio da indústria de construção naval”, descreve o IC.

Esta não é a primeira vez que a companhia Dream Theatre Association recorre à antiga indústria de construção naval de Macau para construir um espectáculo, sendo esta uma aposta feita desde 2016. Na 29.ª edição do FAM a Dream Theater Association apresentou “Pôr-do-Sol nos Estaleiros”, por exemplo. Para o espectáculo da edição deste ano, a dramaturgia e encenação estão a cargo de Perry Fok e Jason Mok, enquanto que Tam Kam Chun é o responsável pela consultoria história e de construção naval.

Do Patane

Para este fim-de-semana o cartaz do FAM preenche-se também com “Vejo-te através de memórias”, um espectáculo da autoria da Associação de Workshops de Arte Experimental Soda-City que se apresenta até esta quinta-feira e depois novamente no fim-de-semana, de sábado a segunda-feira (8 a 10 de Maio). A ideia por detrás deste espectáculo é revelar “histórias desconhecidas sobre o antigo distrito do Patane”, na península de Macau.

As histórias começam a contar-se na intersecção do Largo do Pagode do Patane e Pátio do Alfinete, terminando no jardim Luís de Camões. Segundo o IC, a ideia é abrir “um álbum de família” e desfolhar as páginas “dos registos locais do Patane – o local onde os portugueses desembarcaram” quando chegaram a Macau pela primeira vez.

“É aqui que se encontra o templo mais antigo de Macau, as indústrias em declínio gradual e as pequenas lojas características”, aponta o IC, em comunicado. Este teatro documentário “traça memórias, relembra a nossa antiga identidade e revela-nos a paisagem original da cidade”. No espectáculo, “os artistas guiarão o público num mergulho no passado e no presente do Patane, que está intimamente ligado ao mar”. A direcção do espectáculo está a cargo de Lei Ioi Chon e Kuok Soi Peng, sendo interpretado por Kuok Soi Peng, Ku Man Ian e Ho Chi Fong.

4 Mai 2021

Vendidos mais de metade dos bilhetes para a próxima edição do FAM

Os bilhetes para a 31ª edição do Festival de Artes de Macau (FAM) foram colocados à venda no domingo e, até às 19h desse dia, foram vendidos 63 por cento de todos os ingressos disponíveis, num total de 4.700. Aliás, entre as propostas do cartaz deste ano, 34 espectáculos já estão esgotados.

Segundo um comunicado do Instituto Cultural (IC), “A Grande Abertura Cobra Branca” e o “Tirando Licença” foram “muito procurados pelo público”, tendo esgotado bilhetes para “Guia da Propriedade na Casa de Lou Kau” e algumas sessões de “O Jogo Coloane”, “Pequeno Escape”, “Vejo-te através de Memórias” e “Dança do Dragão Embriagado”.

Além disso, os espectáculos “O Sonho da Câmara Vermelha”, “Duo de Dança” e “Patrám pa unga Dia (Patrão por um Dia)” também se revelaram “muito populares”.

“A Grande Abertura Cobra Branca”, apresentado pelo Estúdio de Teatro Lin Zhaohua, de Pequim, redesenha os personagens do popular conto chinês “A Lenda da Cobra Branca” de forma artística e imaginativa, combinando teatro, música, dança e arte multimédia. O Teatro de Ópera Huangmei de Anhui apresenta uma nova produção da peça clássica “O Sonho da Câmara Vermelha”. Nos anos 90 do século passado, com Yu Qiuyu e Chen Xiting como o núcleo da equipa criativa, a ópera foi protagonizada por Ma Lan, entre outros artistas, que inovaram os clássicos sob uma nova perspectiva. No palco do FAM, a peça será representada pela nova geração de actores da ópera de Huangmei, transmitindo tradição e inovação.

Artistas de Macau em palco

O concerto “Diálogo entre o Oriente e o Ocidente”, protagonizado pela Orquestra Chinesa de Macau, apresenta um intercâmbio cultural através dae um trio musical que tocam diferentes instrumentos chineses e ocidentais, incluindo o sheng de Weng Zhenfa e a flauta de Weng Sibei, sem esquecer o violoncelista Mo Mo. Para comemorar o 230º aniversário da morte de Mozart, no concerto “Uma Digressão Europeia com Mozart”, a Orquestra de Macau apresentará três das suas sinfonias, Paris, Linz e Praga.

O cartaz do FAM apresenta também espectáculos produzidos por companhias de Macau. Baseado no trabalho original “O Prazer do Fracasso”, da companhia suíça Theatre HORA, “A Tarefa Interminável da Luxúria pelo Fracasso”, apresentada pela associação Comuna de Pedra, é um trabalho de improvisação, oferecendo uma experiência de teatro inédito e inovador.

“Dança do Dragão Embriagado”, apresentada pelo grupo Four Dimension Spatial na forma de um teatro de dança, integra a dança do dragão embriagado, que é uma actividade tradicional do festival, com dança contemporânea. Em “Duo de Dança”, a dançarina de Macau Kam Hiu Lam colaborou com a coreógrafa de Taiwan Chou Shu-Yi e o coreógrafo de Pequim Wang Yuanqing, apresentando dois trabalhos com estilos muito diferentes.

30 Mar 2021

FAM | Festival de Artes de Macau em Maio com mais de 100 actuações e actividades

O Festival de Artes de Macau está de volta com um total de 20 programas de teatro, dança, música e arte visuais e outros tantos workshops, exibições de filmes, exposições fotográficas e actividades. Privilegiando as produções da China e de Macau, haverá lugar para um novo espectáculo dos Dóci Papiaçám, dança contemporânea do grupo Jun Xing de Xangai e música clássica

 

Depois do interregno do ano passado motivado pela pandemia, o Festival de Artes de Macau (FAM) está de volta entre 30 de Abril e 29 de Maio, e propõe-se, sob o tema “Reiniciar”, a levar aos mais diversos palcos e espaços da cidade, mais de 100 actuações e actividades, onde não faltam espectáculos de teatro, dança, música, artes visuais, ópera cantonense e ainda workshops e exibições de fotografia e cenografia.

Com um orçamento total de 21 milhões de patacas, a presidente do Instituto Cultural (IC), Mok Ian Ian sublinhou que a edição deste ano do FAM irá privilegiar as produções locais e da China.

“Como a pandemia global não mostra sinais de abrandar, o Festival de Artes de Macau deste ano, que tem como tema ‘Reiniciar’, irá privilegiar as produções do Interior da China e de Macau, apresentando um total de 20 programas de teatro, dança, música e artes visuais, aliados ainda a workshops, visitas aos bastidores e à exibição de filmes, perfazendo um total de mais de 100 actuações e actividades do Festival Extra”, afirmou ontem a responsável durante a apresentação do 31º programa do FAM.

Segundo a responsável, a programação deste ano, para além de apresentar produções que recriam grandes clássicos de forma “inovadora”, inclui também “uma série de obras que não deixarão de impressionar o público pelo seu apelo artístico e ideias vanguardistas”, onde não faltam histórias “consagradas, estimulantes e sentimentais sobre o sentido da vida”.

Exemplo disso mesmo é o espectáculo de abertura do festival, “Cobra Branca”. Com exibições agendadas para os dias 30 de Abril e 1 de Maio, o espectáculo apresentado pelo Estúdio de Teatro Lin Zhaohua (Pequim), reinventa as personagens do conto chinês “A Lenda da Cobra Branca”, combinando teatro, música, dança e arte multimédia.

Já o espectáculo de encerramento “Tirando Licença”, apresentado pelo Teatro Nacional da China nos dias 28 e 29 de Maio, conta a história de um experiente e aclamado actor pelas suas interpretações de Rei Lear, cuja vida se está a aproximar do fim, acabando por partilhar com o público as suas divagações entre o mundo real, o delírio, a fragilidade e a eternidade da vida.

No sector da dança, o destaque vai para as obras “Flôr Silvestre” e “Tridade”, ambas da autoria do Grupo de Dança e Teatro Jin Xing (Xangai) e cujas exibições estão agendadas, respectivamente, para os dias 7 e 8 de Maio no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau.

Rir em patuá

De volta, após um ano em silêncio, está também o Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau. “Patrám pa unga Dia” (Patrão por um Dia) é a obra interpretada em patuá, da autoria de Miguel de Senna Fernandes e que consta da programação deste ano do FAM.

À margem da apresentação do programa do FAM, Senna Fernades destacou a importância que é ter a oportunidade de voltar aos palcos por parte dos grupos locais e assegura que, apesar da pandemia, não vão faltar motivos para rir.

“Esta peça era para ter como base o que tinha escrito no ano passado, mas achámos que os tempos mudaram e [por isso] arranjámos uma história completamente diferente, para ver se conseguimos fazer rir as pessoas neste contexto. Apesar de ainda andarmos de máscara, há espaço para uma boa risada”, apontou.

A história, que é de amor, conta Miguel de Senna Fernandes, anda à volta daquilo que é ser patrão por um dia, mais precisamente de “um Horácio” que, nas vésperas do seu casamento, tem de assumir o papel mais importante da empresa. “Patrám pa unga Dia” sobe ao palco do Grande Auditótio do Centro Cultural de Macau nos dias 15 e 16 de Maio.

Arte em família

A programação deste ano do FAM inclui ainda uma série de iniciativas para pais e filhos desfrutarem em conjunto. O “Jogo Coloane” da Dream Theatre Association, propõe uma visita guiada por ruelas de Coloane, relembrando a história da indústria de construção naval.

Por seu turno, a “Mostra de Espectáculos ao Ar Livre”, que terá lugar no jardim do Mercado de Iao Hon, levará à cena durante três noites consecutivas, inúmeras exibições de dança, capoeira e trechos de ópera cantonense.

Os bilhetes para todos os espectáculos da 31,ª edição do FAM podem ser adquiridos online ou por telefone a partir das 10h00 do dia 28 de Março. O sistema de reservas online estará disponível três dias antes.

24 Mar 2021

FAM 2021 | Edição traz peça de teatro Huangmei, património cultural intangível da China

A 31ª edição do Festival de Artes de Macau regressa em Maio e já são conhecidos três espectáculos que fazem parte do cartaz. O programa inclui a peça de teatro “O Sonho da Câmara Vermelha”, pelo Teatro de Ópera Huangmei de Anhui. Este género teatral está classificado como património cultural intangível da China

 

O Instituto Cultural (IC) divulgou ontem três espectáculos que farão parte do cartaz da 31ª edição do Festival de Artes de Macau (FAM), prometido para o mês de Maio. Um dos espectáculos é “O Sonho da Câmara Vermelha”, protagonizado pelo Teatro de Ópera Huangmei de Anhui. Este género teatral é considerado património cultural intangível nacional.

Esta é uma nova produção desta peça que é um clássico e que foi protagonizada, nos anos 90, Ma Lan, contando com Yu Qiuyu e Chen Xiting como o núcleo da equipa criativa. A peça será agora representada pela nova geração de actores da ópera de Huangmei, “transmitindo a tradição e a inovação”, aponta o IC.

Outra das iniciativas previstas para esta edição do FAM, que contará apenas com artistas locais, é a mostra “Imagens e Espaço: Exposição de Cenografia de Ren Dongsheng”. Ren Dongsheng é tido como um cenógrafo de “primeira classe a nível nacional” e “conhecido pelo seu estilo próprio”. “O seu cariz grandioso é complementado por detalhes criativos e perspicazes, dando origem a um intercâmbio e a um diálogo entre tradições simples e tecnologias de ponta por meio das suas interpretações visuais subtis e poéticas dos temas das obras representadas”, descreve o IC. Nesta exposição, “o cenógrafo levará o público a transcender as dimensões espaciais e a experienciar o encanto da cenografia”.

Ren Dongsheng foi designer de iluminação geral ou director artístico de quase 100 produções chinesas e internacionais. Os seus trabalhos mais representativos incluem os teatros dança Balada da Paisagem, Nanjing 1937 e Huang Daopo, entre outros.

Bilhetes à venda dia 28

O cartaz provisório do FAM encerra-se com a peça “Tirando Licença”, uma produção adaptada pelo Teatro Nacional da China da peça homónima do dramaturgo contemporâneo americano Nagle Jackson. Na peça, o encenador Wang Xiaoying, que já foi considerado o mais vanguardista encenador de teatro experimental e também uma figura icónica do teatro mainstream na década de 1990 na China, irá liderar um elenco de actores veteranos para apresentar uma interpretação mais profunda da fragilidade e da eternidade da vida e a omnipresença do amor.

Esta semana Mok Ian Ian, presidente do IC, anunciou o regresso do FAM em Maio, mas apenas com produções locais, tendo em conta as restrições de viagens e de circulação nas fronteiras impostas pela pandemia. O IC promete anunciar o cartaz completo do FAM numa data posterior. Os bilhetes começam a ser vendidos a partir do dia 28 de Março.

12 Mar 2021

IC | Abertas candidaturas a espectáculos para o FAM 2020

O Instituto Cultural (IC) lançou ontem o convite para a entrega de propostas para espectáculos a incluir no programa do 31º Festival de Artes de Macau (FAM), que terá lugar em Maio de 2020. As associações artísticas e culturais sem fins lucrativos, registadas na Direcção dos Serviços de Identificação, ou os indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos e Bilhete de Identidade de Residente válido, podem apresentar as suas candidaturas até ao dia 16 de Agosto de 2019.

Os trabalhos seleccionados farão parte do cartaz de espectáculos do próximo ano, uma iniciativa que pretende “promover o desenvolvimento das artes locais e disponibilizar uma plataforma de artes performativas” que facilite o intercâmbio de grupos artísticos. Para atrair mais espectáculos criativos, com características locais, foi acrescentada a ópera cantonense às categorias já existentes, que abrangiam o teatro, a dança, os espectáculos infantis e outras artes performativas multimédia.

Na avaliação das propostas, segundo informa o IC em nota de imprensa, “será dada prioridade a trabalhos centrados nas preocupações da população local, na paisagem urbana actual, em teatros interdisciplinares que alterem a relação tradicional do público com os actores, produções inspiradas no património cultural imaterial local ou nas artes performativas tradicionais chinesas”. Paralelamente, a Mostra de Espectáculos ao Ar Livre também acolherá propostas criativas.

O regulamento de apresentação das propostas e o boletim de inscrição podem ser descarregados na página electrónica do IC, entidade organizadora do evento.

16 Jul 2019

FAM | Peça de Lao She no Centro Cultural de Macau este fim-de-semana

“O Sr. Ma e o Filho” é a peça de teatro que o Festival de Artes de Macau apresenta este sábado e domingo. A comédia de costumes aborda o conflito entre Oriente e Ocidente, num confronto bem humorado ente as realidades de Pequim e Londres dos anos 20

 

O Sr. Ma viaja para Londres com o filho, após a morte do seu irmão, para assumir a gerência da loja de antiguidades por ele deixada. O pai torna-se num modesto comerciante e instala-se com o filho numa residencial britânica, onde várias peripécias acontecem, numa comédia de equívocos com lugar para o romance e a sátira entre hóspede e patroa, em contraponto com a adaptação mais fácil da geração mais nova.

Os desafios vividos pelos dois chineses em terras europeias é o ponto de partida para a divertida peça, adaptada do romance homónimo do escritor e dramaturgo Lao She, inicialmente escrito em fascículos e publicado mensalmente num jornal literário de Xangai, em 1929. Além de dar continuidade às bem-humoradas subtilezas do trabalho original de Lao She, a produção adiciona elementos inovadores que homenageiam esta obra clássica com uma nova dimensão.

A peça sobe ao palco do Centro Cultural de Macau (CCM) nos próximos dias 25 e 26 de Maio, sábado e domingo, às 20h, pela mão do encenador e actor Fang Xu, também ele dramaturgo e uma referência na divulgação teatral da obra de Lao She por toda a China. A escolha desta história, que reflecte o choque entre as culturas chinesa e ocidental na década de 20 do século XX, ainda hoje faz sentido.

“Essa é a mensagem, o racismo europeu que existia contra os chineses, considerados pobres e sem os costumes daquela sociedade, mas que existe também hoje, em que os chineses ricos e bem sucedidos continuam a ser vistos com algum preconceito”, revelou ontem Fang Xu, em conferência de imprensa. O encenador fez uma adaptação radical do texto para a peça, mantendo a ideia do original, uma preocupação sua para com a obra do Lao She, que tem sido dissipada pelos filhos do autor, entretanto bons amigos, e “que afirmam que confiam nas minhas adaptações”, acrescentou.

O contacto forçado entre os valores tradicionais chineses e a ideologia ocidental, é aqui revelado através da sagacidade chinesa e do humor britânico, de uma forma leve e provocadora, num jogo onde cinco actores masculinos interpretam nove personagens, masculinas e femininas, e se divertem juntamente com o público. “Este é um drama alegre, em que colocámos algumas expressões modernas no texto, piadas também mais actuais que não existiam no original, mas não fazemos piadas políticas, só brincadeiras e interacção com a plateia”, comentou Fang Xu.

Sobre o teatro em Macau, o encenador pequinês não conhece muita coisa, mas acredita que “no território há mais liberdade e menos restrições para se poder ser criativo, o que é uma coisa boa”, afirmou, embora no continente chinês seja um actor e encenador famoso e possa apresentar as peças que quer. A próxima já está a ser preparada, também com base numa obra de Lao She.

E o que fazem tantos chapéus no cenário? “Foi a nossa ideia de representar a cidade de Londres”, com a formalidade inglesa dos costumes e dos acessórios, sobretudo na década de 20. “Achámos que alguns elementos, como os jornais e os chapéus, nos transportavam imediatamente para lá”, explicou.

Londres anos 20

A obra clássica de Lao She foi também ela influenciada pela experiência do autor, nascido em 1899 em Pequim, no seio de uma família Manchu, que foi viver para Londres como professor de chinês mandarim, em 1924. Aí traduziu para inglês literatura clássica chinesa, mas também conheceu os grandes clássicos britânicos, como Charles Dickens, um dos preferidos, que o veio a inspirar na escrita do seu primeiro livro.

Quando regressou à China, em 1931, percebeu que as suas obras eram famosas, pela comédia, o humor e a acção que continham. Mas a carreira como escritor foi afectada pela política, quando a guerra sino-japonesa eclodiu, em 1937, e o escritor se tornou patriótico e defensor de um estilo propagandístico que afectaria a qualidade do seu trabalho. Com a Revolução Cultural, em 1966, tornou-se num escritor proscrito e perseguido, vindo a falecer em resultado de agressões pelos Guardas Vermelhos, segundo consta na sua biografia.

Os dois espectáculos do próximo fim-de-semana vão ser interpretados em mandarim, com legendas em chinês e inglês. Têm duas horas de duração, sem intervalo.

24 Mai 2019

FAM | Teatro do Eléctrico apresenta “Karl Valentin Kabarett” amanhã em Macau

“Karl Valentin Kabarett” é o nome da peça que a companhia portuguesa Teatro do Eléctrico traz ao Festival das Artes de Macau. Inspirada na obra e personalidade de Karl Valentin, que ficou conhecido com o Chaplin alemão, a peça sobe ao palco do Sands Theatre amanhã às 20h

 

“Na verdade, é como um tributo ao ser humano. Mesmo nos momentos mais agrestes conseguimos florir.” É assim que Ricardo Neves-Neves, director da companhia Teatro do Eléctrico, se refere à vida e obra do comediante e multifacetado performer alemão Karl Valentin, o homem que serve de inspiração para “Karl Valentin Kabarett”, o espectáculo que traz a Macau. A peça adaptada pela companhia portuguesa sobe ao palco do Sands Theatre amanhã às 20h e é um dos espectáculos mais aguardados do cartaz deste ano do Festival das Artes de Macau.

Karl Valentin foi uma figura ímpar no panorama performativo do início do século XX. Autor, músico, palhaço, actor e pilar de um movimento artístico que espalhou o humor durante uma das épocas mais negras da história da Europa. Ricardo Neves-Neves salienta que o alemão teve a capacidade de marcar as artes performativas europeias do início do século XX ao longo de um período que incluiu duas grandes guerras.

“Trabalhou a comédia e os textos com uma grande leveza e com um lado solar muito forte numa altura muito negra, densa e pesada”, contextualiza o director do Teatro do Eléctrico, acrescentando que arrancar gargalhadas durante esta época histórica é um feito, no mínimo, heróico.

“Li os textos dele em 2011. Ao perceber a altura em que foram produzidos, achei incrível. Como é que um homem a viver na Alemanha, a viver toda aquela pressão, antes, durante e pós-guerras, continua a fazer teatro, música, cabarés, a cantar e ter a sua dose de humor? É incrível, uma verdadeira história de herói”. Foi este deslumbramento que levou Ricardo Neves-Neves a adaptar os textos do alemão.

Versão própria

Os textos daquele que ficou para a história como o Charlie Chaplin alemão foram adaptados para cena pela primeira vez em Portugal pelas mãos do encenador Jorge Silva Melo. A peça subiu ao palco do Teatro da Cornucópia na década de 70. “Este espectáculo é quase um género de herança da primeira encenação em Portugal. Foi o Jorge Silva Melo que me deu a ler os textos de Karl Valentin, tivemos várias conversas e depois fizemos a nossa própria versão”, conta Ricardo Neves-Neves.

Apesar dos textos da peça serem em português, “Karl Valentin Kabarett” é uma peça musicada e cantada em alemão, partindo de um repertório popular germânico do início do séc. XX. O director do Teatro do Eléctrico explica esta opção com a vontade de aliar “a dureza dos tempos à dureza da língua alemã que, ao mesmo tempo, pode ser muito cómica”.

Durante a fase de ensaios, Ricardo Neves-Neves sentia que a pequena companhia que dirige se estava a transformar num dispositivo orquestral, um pouco à semelhança da orquestra mecânica de Valentin, que com o rodar de uma manivela punha a tocar 20 instrumentos musicais. “Houve uma altura nos ensaios em que parecíamos uma grande engrenagem. A máquina foi-se montando segundo as necessidades do espectáculo”, conta o director da companhia.

“Chegámos a ter três ou quatro salas de trabalho em simultâneo: uma onde estava com os actores, noutra o meu assistente a fazer e a recordar as cenas, a solidificar. Depois havia uma sala onde aprendemos as canções e uma outra sala dedicada à coreografia. Parecia uma produção gigantesca e nós somos uma pequena estrutura”, recorda.

Esta é a primeira internacionalização do Teatro do Eléctrico e “logo para o outro lado do mundo”. Num palco desprovido de complexidades cénicas vão estar 11 actores, um cantor lírico e uma orquestra composta por dez músicos. O preço dos ingressos para provar o requinte da doce ironia de Karl Valentin situa-se entre as 150 e as 200 patacas.

23 Mai 2019

FAM | Fim-de-semana teatral do classicismo grego à comédia em patuá

O Festival de Artes de Macau tem duas propostas de teatro conceptualmente paternais para este fim-de-semana. “Tirâ Pai na Putau (Tirar o Pai da Forca)”, do Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau, sobe ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau, enquanto no pequeno auditório a companhia alemã Thalia Theatre apresenta “Odisseia – Uma viagem errante baseada em Homero”, que conta a história de dois filhos a braços com o passado do pai

 

Em jeito de celebração teatral da paternidade, o Festival de Artes de Macau (FAM) apresenta este fim-de-semana duas peças de teatro cujo conceito central é a figura do pai.

O grande destaque vai para “Tirâ Pai na Putau (Tirar o Pai da Forca)”, do Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau, que oferece mais uma vez um espectáculo pleno de sentido de humor acutilante e crítico, com a graça e a peculiaridade única do patuá. Sob a batuta da dramaturgia e direcção de Miguel de Senna Fernandes, “Tirâ Pai na Putau (Tirar o Pai da Forca)” satiriza uma das grandes promessas políticas do território. A narrativa gira em torno de uma terapeuta ocupacional, Emília, que vem para Macau trabalhar no Departamento de Psiquiatria do recém-inaugurado Hospital do Cotai. Além da carreira profissional, Emília busca no território vestígios do pai biológico, com quem perdeu o contacto. Quer o destino e o guião da peça que a terapeuta encontre o pai precisamente na ala psiquiátrica do hospital, onde é paciente. A partir daí, desenrola-se um drama familiar que tem como pano de fundo a crítica social e política.

Em declarações aos jornalistas, aquando da apresentação do cartaz, Miguel de Senna Fernandes explicou a peça que sobe amanhã e sábado ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau, às 20h.

“É mais uma rábula que tem como pano de fundo algo que faz parte da curiosidade de toda a gente, neste caso a história do novo hospital. É a segunda vez que abordamos esta questão, mas desta vez ainda com mais premência porque toda a gente fala do hospital do Cotai e nada se vê. Já nos falaram deste hospital vezes sem conta, mas é claro que ninguém vai explorar as razões de nada acontecer. É uma questão recorrente e vamos falar dele à boa maneira da comédia.”

Hinos a Homero

Ao mesmo tempo que o patuá toma conta do grande auditório, também no sábado e domingo às 20h mas no pequeno auditório, a companhia alemã Thalia Theater apresenta uma versão contemporânea da Odisseia de Homero.

“Odisseia – Uma viagem errante baseada em Homero” foca-se nos temas característica do teatro clássico grego, nas jornadas épicas que implicam o exílio perdido e o retorno. Dirigido por Antú Romero Nunes, que tem curiosamente descendência portuguesa e chinesa, a peça centra-se no encontro de dois irmãos, Telemachus e Telegonous, que procuram assimilar em conjunto o passado sanguinário e violento do pai na guerra de Troia.

Assente em diálogos humorados, um conflito fraticida ganha dimensão entre os dois, à sombra da ausência do pai já morto.

Com uma cenografia minimalista a pender para o oculto, a narrativa salpicada de humor negro condensa em 90 minutos os grandes temas da “Odisseia” de Homero, protagonizada pelas representações de Thomas Niehaus e Paul Schröder.

Até ontem ainda havia lugares para as duas peças, de acordo com o Instituto Cultural. Os bilhetes para “Tirâ Pai na Putau (Tirar o Pai da Forca)” custam entre 150 e 250 patacas, enquanto para “Odisseia – Uma viagem errante baseada em Homero” custam entre 150 e 200 patacas.

E ainda

Também durante o fim-de-semana, mas no Edifício do Antigo Tribunal, o grupo de dança local Four Dimension Spatial apresenta “Mau Tan, Kat Cheong”, um espectáculo com nome inspirado em dois edifícios situados no bairro do Iao Hon que receberam um grande número de imigrantes e trabalhadores ilegais desde a década de 80. A performance foi pensada tendo como referência a chegada à chamada “terra dos sonhos” de muitos imigrantes do Interior da China, parte fundamental da mão-de-obra que trabalhou para o desenvolvimento económico de Macau.

Passaram-se três décadas. Quantos deles realizaram os seus sonhos e quantos voltaram em glória para casa? Respostas a estas questões e a transformação social e urbana de Macau são os pontos cardiais que orientam a performance do grupo de dança local.

“Mau Tan, Kat Cheong” será apresentado amanhã às 20h e no domingo às 15h no 2º andar do Edifício do Antigo Tribunal. Os bilhetes custam 180 patacas.

17 Mai 2019

FAM | “Rain” em palco no Centro Cultural de Macau no próximo domingo

A partir da música do compositor Steve Reich, chega a Macau “Rain”, performance de Rosas, uma das mais importantes companhias de dança contemporânea do mundo, liderada pela coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker. “Rain” vai cair no grande auditório do Centro Cultural de Macau este domingo, às 20h

 

Existem poucas coisas que combinam tão bem no mundo artístico como música minimal e dança contemporânea. Um dos bons exemplos desta simbiose sobe ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau este domingo, pelas 20h, como parte do cartaz do Festival de Artes de Macau. “Rain” é o espectáculo concebido pela pioneira coreógrafa belga, Anne Teresa De Keersmaeker e interpretado pela companhia que dirige, a Rosas, que traz ao território a sua visão de movimento a partir da música do compositor norte-americano Steve Reich.

“Impelidos pelos tons pulsantes de Steve Reich, nove bailarinos percorrem o palco com agilidade, dançando variações infinitas de liberdade física e precisão geométrica, com uma leveza de tirar o fôlego”, refere o Instituto Cultural em comunicado.

Os espectadores que forem este domingo ao Centro Cultural podem esperar um cozinhado constituídos pelos ingredientes artísticos que tornaram Anne Teresa De Keersmaeker uma figura incontornável do mundo da dança. As figuras matemáticas, a repetição sustentada, a ocupação geométrica do espaço, a arte da variação contínua são elementos essenciais de “Rain”.

Movimento mínimo

O espectáculo da companhia Rosas, foi a primeira coreografia assinada por Anne Teresa De Keersmaeker a entrar para o repertório do ballet de Ópera de Paris. Importa referir que a belga foi laureada com inúmeros prémios de prestígio, incluindo o Samuel H. Scripps/American Dance Festival Award for Lifetime Achievement, em 2011, e o Leão de Ouro para Lifetime Achievement in Dance da Bienal de Veneza, em 2015.

Esta é uma das mais características coregrafias de Anne Teresa De Keersmaeker e parte de “Music for 18 Musicians”, composto pelo norte-americano Steve Reich em 1976. O compositor é um dos nomes cimeiros, ao lado de vultos como Philip Glass, da música minimalista do final dos anos 1960.

Durante uma hora e dez minutos, nove bailarinos dão corpo aos pulsantes tons da música de Steven Reich numa composição de movimentos que une todas as partes, num jogo de constante afastamento e reaproximação, até se chegar a um consenso coreografado com mestria. Os bailarinos, por várias vezes, ocupam o palco em simultâneo, oferecendo ao público uma variedade técnica e fisicalidade que desafiam os normais cânones das coreografias de grupo.

“Rain”, que estreou em 2001, é um trabalho ainda aplaudido pela crítica e público e que se mantém relevante no plano da dança contemporânea. O espectáculo não está esgotado e os bilhetes custam entre 300 e 120 patacas.

8 Mai 2019

FAM 2109 | Inauguração com espectáculo de dança contemporânea

É “Vertikal” porque desafia as leis da gravidade e os demais sentidos. O espectáculo que abre a 30ª edição do FAM é uma proposta assinada pelo coreógrafo francês Mourad Merzouki, que traz o hip-hop e a dança contemporânea para o palco do Centro Cultural de Macau. Ainda há bilhetes, mas são poucos

 

A 30ª edição do Festival de Artes de Macau (FAM) arranca já na sexta feira, 3 de Maio, com o espectáculo de dança contemporânea “Vertikal”, assinado pelo director artístico e coreógrafo Mourad Merzouki, o homem que levou o movimento hip-hop da rua para os palcos no início dos anos 90.

O evento está agendado para as 20h, no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), logo após a cerimónia de inauguração do FAM, marcada para as 19h40. O espectáculo repete no sábado, 4 de Maio, e ainda há alguns bilhetes para as duas sessões.

“Vertikal” é uma co-produção do Centro Coreográfico Nacional (CCN) de Créteil & Val-de-Marne e da Compagnie Käfig, onde “dez dançarinos deslizam no ar por cordas, libertando-se dos limites da gravidade para criar elementos coreográficos e produzir sequências de hip-hop únicas e contemporâneas”, segundo o Instituto Cultural de Macau (IC), organizador do FAM.

Além de movimentos como inversões, elevações e cambalhotas, os “dançarinos são sustentados por cabos, executando saltos e acrobacias aéreas que desafiam a gravidade, como se estivessem num espaço de gravidade zero ou a flutuar na água. O espectáculo não traz apenas movimentos simples como uma cambalhota para o grande palco, também acrescenta um toque de romance poético à vigorosa e directa linguagem da dança de rua”, informa ainda o IC no material de divulgação.

Ao comando da Compagnie Käfig, considerada pela organização do FAM como “uma das principais companhias de dança hip-hop de renome mundial”, Mourad Merzouki vai apresentar no território uma performance onde explora “a relação com o chão, que é essencial para o dançarino de hip hop”, com a introdução de novos elementos, a partir da colaboração de Fabrice Guillot, director artístico da Retouramont, empresa especialista em técnicas aéreas.

Este equipamento permite ao coreógrafo um novo campo de possibilidades, libertando-se da dimensão horizontal do palco. “Os jogos de contacto entre os artistas funcionam através de impulsos: o dançarino pode ser alternadamente a base e o transportador ou, ao contrário, um trapezista, uma marioneta animada pelo contrapeso dos seus parceiros no chão”, explica Merzouki.

A música do compositor Armand Amar – premiado autor de bandas sonoras para mais de duas dezenas de filmes e detentor de um César para Melhor Música em 2010, com a película “Le Concert” de Radu Mihăileanu – vai acompanhar as acrobacias dos dançarinos, combinando instrumentos electrónicos e de cordas, ao longo do espectáculo, que tem duração aproximada de 1 hora e 10 minutos, sem intervalo.

Workshop na vertical

A par dos dois espectáculos “Vertikal”, o coreógrafo realizará um workshop de dança no sábado, dia 4, entre as 10h e as 12h, no mesmo palco do CCM, para proporcionar a experiência do hip-hop aéreo a oito dançarinos locais.

As inscrições para este evento decorreram até 16 de Abril, limitadas a candidatos com mais de três anos de experiência na área da dança. Outros vinte lugares foram disponibilizados para assistir ao workshop, sem direito a participação, que esgotaram também rapidamente.

30 Abr 2019

FAM | Dança e teatro protagonizam primeiros espectáculos da 30ª edição

A trigésima edição do Festival de Artes de Macau acontece entre os dias 3 de Maio e 2 de Junho e já há alguns nomes em cartaz. De Portugal chega o Teatro do Eléctrico com a peça Karl Valentin Kabarett, enquanto que de Pequim a comédia ganha forma com o espectáculo O Sr. Ma e o Filho, da BJAMC Drama

 

No ano em que o Festival de Artes de Macau (FAM) celebra 30 anos de existência, o Instituto Cultural (IC) decidiu criar um cartaz que homenageia os clássicos. Com o tema “um tributo aos clássicos”, o programa pretende mostrar ao público um “leque de espectáculos de diferentes estilos e programa do Festival Extra e convidando o público a apreciar os clássicos”.

Os primeiros nomes já são conhecidos e trazem dança contemporânea e teatro. Vertikal é o espectáculo de dança que marca a abertura do FAM no dia 3 de Maio. Trata-se de uma co-produção de Mourad Merzouki, um conceituado coreógrafo francês, e da CCN Créteil & Val-de-Marne / Cie Käfig, considerada “uma das principais companhias de dança hip-hop de renome mundial”.

De acordo com o IC, podemos esperar uma performance em que “dez dançarinos deslizam no ar por cordas, libertando-se dos limites da gravidade para criar elementos coreográficos e produzir sequências de hip-hop únicas e contemporâneas”. O público poderá ver o espectáculo também no dia 4 de Maio, no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM).

No dia 12 de Maio é apresentado Rain, um espectáculo de dança que resulta da colaboração entre o músico contemporâneo Steve Reich, a coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker e a sua companhia de dança Rosas.

Anne Teresa, considerada pioneira no mundo da dança, traz Rain novamente a palco 18 anos depois, mostrando ao público uma dança pura e música minimalista. “Impelidos pelos tons pulsantes de Steve Reich, nove bailarinos percorrem o palco com agilidade, dançando variações infinitas de liberdade física e precisão geométrica, com uma leveza de tirar o fôlego”, descreve o IC.

Rain é também composto por “figuras matemáticas, a repetição sustentada, a ocupação geométrica do espaço, a arte da variação contínua”. “Tudo o que gradualmente se tornou a assinatura da coreógrafa, é levado ao extremo em Rain”, acrescenta o IC.

Senta-te e ri

Além da dança estão também agendadas duas peças de teatro. Uma delas irá evocar aquele que foi considerado o “Charlie Chaplin da Alemanha”, Karl Valentin, e será levada a cena pela companhia portuguesa Teatro do Eléctrico. Karl Valentin Kabarett acontece a 24 de Maio no grande auditório do CCM e “cruza várias peças curtas por ele escritas com canções populares alemãs do início do século XX, cantadas ao vivo em alemão por 11 actores e um cantor lírico, acompanhados por uma orquestra de dez músicos”. Karl Valentin Kabarett revela o “constante complexo de inferioridade” das personagens de Karl Valentin e está carregado de ironia, música, dança e teatro. A encenação desta peça está a cargo de Ricardo Neves-Neves, também fundador do Teatro do Eléctrico.

De Pequim chega também outra comédia, intitulada “O Sr. Ma e o Filho”, da companhia BJAMC. Trata-se de uma adaptação do romance de Lao She para comemorar o 120º aniversário do seu nascimento, e é uma peça que revela o intercâmbio entre a cultura chinesa e a cultura ocidental, imbuída dos reflexos da sagacidade de Pequim e do humor inglês.

A história acontece à volta do Sr. Ma, que sonha um dia vir a ser mandarim. Devido à morte do seu irmão, o Sr. Ma vai para Londres com o seu filho para assumir a gerência de uma loja de antiguidades por ele deixada, tornando-se num modesto comerciante. Pai e filho ficam hospedados em casa da Sra. Wedderburn. Com o passar do tempo, vai-se desenrolando uma história de amor satírica e agridoce. O “Sr. Ma e o Filho” é apresentado nos dias 25 e 26 de Maio no grande auditório do CCM.

O cartaz provisório do FAM encerra com o espectáculo de ópera cantonense “A Alma de Macau”, que celebra o décimo aniversário da ópera cantonense inscrita na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Esta produção de ópera cantonense foi adaptada pelo dramaturgo Li Xinhua a partir de uma peça original de um autor de Macau e contará com a interpretação de actores de Macau e da Trupe de Ópera Cantonense de Foshan, dando vida à épica história de Macau.

25 Mar 2019

FAM | Companhia sul-coreana traz Franz Kafka ao Centro Cultural

O palco do Centro Cultural recebe a peça de teatro baseada na obra de Franz Kafka, “O Processo” nos próximos dias 26 e 27. A encenação é da companhia sul-coreanos “Sadari Movement Laboratory” que aposta no teatro cinético e no jogo entre a luz e o som para dar espaço às interpretações.
“O Processo” de Franz Kafka vai ser apresentado no grande auditório do Centro Cultural de Macau nos próximos dias 26 e 27 através da visão e encenação da companhia sul-coreana “Sadari Movement Laboratory”. O espectáculo integra a 29ª edição do Festival de Artes de Macau e constitui um dos momentos altos do evento.
Para quem está familiarizado com a obra do autor checo, “O Processo” é uma reflexão acerca do absurdo da existência e do que acontece quando esta, por si, se torna num crime, refere a apresentação oficial do evento. O romance, considerado como a obra-prima do autor, retrata um tema recorrente no universo kafkiano: o esmagamento do ser humano pela máquina estatal.
Numa adaptação do clássico romance de Franz Kafka, a companhia sul-coreana traz a vida do homem moderno na sua coexistência com uma ansiedade permanente. Um cerco que se encerra pela força da pressão da competitividade, dos jogos de violência, da vivência entre sofrimentos, sacrifícios e prazeres que colocam o homem moderno em confronto com a sua própria existência e o seu auto-julgamento. É este tribunal da vida que Kafka escreveu e que a “Sadari Movement Laboratory” reinterpreta numa linguagem que mistura movimento às palavras.

Teatros vários
A companhia é conhecida pelo trabalho que faz recorrendo a técnicas como o teatro físico. Uma via artística assente na ideia de “que os actores podem expressar os estados sociais e psicológicos das suas personagens de forma mais pungente, através de espaços separados e ritmos dinâmicos”, lê-se num comunicado do Instituto Cultural.
A “Sadari Movement Laboratory” foi fundada pelo seu director artístico, Im Do-Wan, que também é uma referência do teatro cinético na Coreia do Sul. Um dos métodos cénicos centra-se em jogos de luz e de som para acompanhar e dar mais profundidade às interpretações levadas a palco.
Depois de completar os estudos na L’École Internationale de Théâtre Jacques Lecoq, em Paris, Im Do-Wan fundou a companhia em 1998. Ali, todos os membros são treinados no método de Jacques Lecoq, assim como na dança tradicional coreana. O objectivo é maximizar as potencialidades dos trabalhos que resultam “num empenho único em cada experiência em palco”, fazendo com que o teatro vá além do diálogo e das convenções mais realistas desta arte.

11 Mai 2018

FAM |“A Noite antes da Floresta” sobe ao palco no próximo dia 18

A Associação de Arte Teatral Dirks apresenta nos próximos dias 18, 19 e 20, “A Noite antes da Floresta”. A peça, integrada no Festival de Artes de Macau, é dirigida pela encenadora irlandesa Sinéad Rushe que deu nova vida ao monólogo homónimo do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès. A história gira em torno da sensação de se ser estrangeiro no lugar onde se vive

 

É das experiências de alguém que não pertence, ou não se encaixa, no lugar onde vive que fala “A Noite antes da Floresta”. Levada à cena pela Associação local de Arte Teatral Dirks, a peça tem aos comandos Sinéad Rushe para quem a obra homónima de Bernard-Marie Koltès reflecte os tempos de hoje. “É realmente uma peça dos nossos tempos”, observa a encenadora irlandesa, em entrevista ao HM, após um ensaio.

“Sinto que fala, de facto, do momento que atravessamos, de pessoas desesperadamente alienadas e sem opções que deixam a sua terra-natal – por não poderem mais permanecer ou por terem poucas oportunidades para regressar – e que enfrentam constantemente a experiência não serem bem-vindas”, sublinhou. A encenadora referia-se em particular ao “clima político” em todo o mundo, citando os exemplos dos refugiados ou da saída do Reino Unido da União Europeia que, apesar de figurarem em planos incomparáveis, remetem para “o estranho que sente não ter lugar no sítio onde vive”.

Com efeito, a peça, que não é política, oferece uma perspectiva “mais existencialista”, sendo-lhe conferido “um lado mais universal, que toda a gente pode compreender, sobre as experiências de quem não se sente integrado”. Esta foi, aliás, uma das razões pelas quais decidiu converter o monólogo original num trabalho polifónico. “Foi, de certa forma, por isso que segui este impulso de desdobrar a personagem em cinco corpos, tornando-a dispersa, fragmentada e inconstante, porque há uma inquietude no texto que eu queria transpor literalmente”.

Essa universalidade fica também patente no facto de em palco estarem diferentes nacionalidades e géneros. “Quando estávamos a discutir a peça pensamos na possibilidade de ter pessoas de lugares diferentes, porque é uma realidade que temos em Macau, mas que acontece um pouco por todo o mundo, pelo que quisemos abrir essa janela para a audiência”, sublinhou Ip Ka Man, co-director artístico da Associação de Arte Teatral Dirks, e um dos cinco actores d’ “A Noite antes da Floresta”. Ip Ka Man representa Macau num palco que conta ainda com May Bo (de Hong Kong e Macau), Koh Wan Ching (Singapura), Kim Shin Rock (Coreia do Sul) e Chan Tai Yin (Hong Kong), numa peça interpretada em inglês, com pequenas incursões pelo cantonense, mandarim e coreano.

“É muito interessante termos esta diversidade. Eu sou estrangeira e estou aqui a tentar fazer-me entender pelos actores, os actores a tentarem entender-me a mim, todos a tentar entender o texto. Tudo isto com pessoas de lugares diferentes e com línguas diferentes, em que nem tudo é realmente directo ou explícito”, considera Sinéad Rushe. “Esperamos que [o resultado] fique interessante para o público, porque faz parte do processo tentar passar a mensagem do personagem que, muitas vezes, não é clara, ou seja, furar essa obscuridade”, realça a encenadora, para quem a linguagem através da qual nos “encontramos a nós próprios e nos conectamos com os outros é muito relevante para o autor, para a peça e para a sociedade contemporânea”.

“Bernard-Marie Koltès viajou durante grande parte da vida e tem a experiência de ser um estrangeiro em diferentes lugares. Aliás, ele vai para a América Latina e para África para escrever tudo, sair do ponto de vista da classe média branca do primeiro mundo. Ele fala do encontro ou da relação particular que se estabelece quando não estás no lugar donde és, ou onde não te sentes confortável e travas uma luta para comunicar, acabando por estabelecer diferentes tipos de contacto”, descreve, apontando que o dramaturgo acaba, “em certa medida, por ter horror à situação em que todos nos compreendemos totalmente”.

A peça sobe ao palco durante três dias no âmbito do FAM, mas o trabalho iniciou-se no Verão passado, quando Sinéad Rushe iniciou a tradução da obra de francês para inglês, a qual viria a ser vertida, depois, para cantonense, dado que a produção é local.

Um acaso afortunado

O caminho da encenadora cruzou-se com a Associação de Arte Teatral Dirks há meia dúzia de anos quando Ip Ka Man e May Bo foram estudar teatro para uma universidade de Londres, onde Sinéad Rushe leccionava. “Ela abordava a biomecânica e as técnicas de representação de Michael Chekhov [sobrinho de Anton Chekhov], muito baseada na imaginação, bastante raras em Macau, pelo que quando regressamos decidimos convidá-la para partilhar os seus conhecimentos. Dois anos depois, em 2016, repetimos o convite para um workshop e foi quando abordamos a possibilidade de trabalharmos juntos numa performance para aplicar o que aprendemos”, explica Ip Ka Man. A encenadora aceitou: “Eu viajo e ensino em todo o mundo e, de facto, é muito raro eu voltar a um lugar para fazer um espectáculo. Mas este caso é muito especial, porque primeiro vim dar formação e agora esses conhecimentos podem ser desenvolvidos num contexto real de performance”.

“Ip Ka Man e May Bo têm um compromisso com a formação contínua, uma dedicação que, por vezes, não se encontra a nível profissional e isso também é parte do motivo pelo qual quis vir, porque senti que o trabalho vem do sítio certo, que há um interesse em realmente explorar as coisas de forma adequada e não apenas de montar um espectáculo ou algo do género”, acrescenta.

“Em cinco semanas não treino os actores que, aliás, são experientes. Eu apenas sugiro exercícios e guio-os no sentido de todos tentarmos compreender melhor o texto e descobrir e explorar de formas diferentes o mundo da personagem e ir mais a fundo no mundo da personagem. Sinto que o meu papel é trabalhar com eles o texto em pormenor, ou seja, compreender a sua jornada interior”, complementou.

O restante elenco Sinéad Rushe conheceu apenas em Macau, o que, “em certa medida, acaba por ser muito libertador”. De facto, a única sugestão que deu em termos da equipa foi ao nível do desenho de som, a cargo do alemão Niels Lanz. “A peça foi escrita como uma composição musical, como uma fuga de Bach, criando um espaço denso. Eu queria seguir o impulso de Koltès para libertar a audiência da possibilidade de ficar aborrecida por ter de seguir os actores. Depois, quando lês a peça há uma clara musicalidade: parece começar com um ária e acabar com uma sinfonia”. Para tentar invocar esse cenário contactei o Niels, que trabalhou muito tempo com o coreógrafo William Forsythe, porque sabia que precisava de alguém que realmente dominasse microfones e espaço e ele aceitou. É uma enorme oportunidade para mim e para eles e para explorar o que o som pode oferecer em termos de caracterização”.

“Em geral, não acho que o Koltès quereria algo do género, mas espero que ele nos perdoe, mas pelo menos estamos a agarrar o texto dele e a homenageá-lo”, sublinhou Sinéad Rushe que, pela primeira vez, tem um encontro marcado com o público chinês.

10 Mai 2018

FAM | Dóci Papiaçám di Macau apresentam “Que é do Tacho?”

A nomeação de Macau como cidade criativa da gastronomia da UNESCO foi o mote para o grupo de teatro em patuá, liderado por Miguel de Senna Fernandes, abordar as situações cómicas que acontecem quando não se domina a essência da comida macaense. A suspensão do deputado Sulu Sou foi um tema que chegou a ser ponderado para ser transporto para o palco, mas a ideia foi abandonada por ficar “fora de contexto”.

A genuína gastronomia macaense continua a ser servida em poucos restaurantes de Macau, apesar do seu reconhecimento oficial pela UNESCO depois da nomeação do território como cidade criativa da gastronomia. Enquanto isso, proliferam restaurantes que se dizem de comida portuguesa ou macaense, mas que, na hora de olhar para o prato, deixam muito a desejar no que à veracidade do menu diz respeito.

Foi a pensar nestes exemplos de falsa gastronomia macaense que o grupo de teatro em patuá Dóci Papiaçám di Macau decidiu partir para a peça “Qui di Tacho?” (Que é do Tacho?), que faz parte do programa do Festival de Artes de Macau (FAM) e que sobe ao palco nos dias 19 e 20 deste mês.

“Recentemente, Macau foi nomeada cidade criativa da gastronomia pela UNESCO e este é um tema bastante forte, e naturalmente rica em situações de comédia. Aproveitamos para brincar um pouco com esse tema”, contou o director do grupo teatral Miguel de Senna Fernandes.

A peça deverá abordar várias situações em que se confunde comida macaense com a portuguesa, além de conter outros elementos próprios de falsos restaurantes portugueses e macaenses em Macau.

“Continuam a haver pessoas que não entendem muito bem o que é a gastronomia de Macau, há muita falta de informação sobre este assunto. As pessoas confundem as coisas. Não percebemos porque é que aparece o galo de Barcelos em todo o lado e o pastel de nata se mistura com a comida macaense”, acrescentou Miguel de Senna Fernandes.

A ideia não é fazer uma crítica, mas sim explicar ao público o que são os verdadeiros paladares macaenses, cujas receitas têm passado de geração em geração. “Quando falamos de gastronomia, convém chamar a atenção para determinadas situações que as autoridades competentes confundem. O grande público não sabe o que é a gastronomia macaense, e confunde pratos tipicamente portugueses, por exemplo, e isso cria situações muito engraçadas.”

A peça poderá ser vista no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) e promete fazer rábulas sobre situações em que as pessoas “não percebem nada de gastronomia e tentam fazer dinheiro à custa disto”, onde o “importante é meter um pastel de nata e um galo de Barcelos à porta, e nem sabem porquê”. “Vamos brincar com uns determinados especialistas em gastronomia, uns entendidos que aparecem a dizer uns disparates”, frisou o director do grupo.

 

Caso Sulu Sou adiado

No ano em que celebra um quarto de século de existência, o grupo Dóci Papiaçám di Macau vai também apresentar em palco alguns vídeos e imagens com os momentos mais marcantes das muitas peças que já subiram ao palco. Além disso, haverá também lugar à abordagem de outros temas. Miguel de Senna Fernandes confessou ao HM que chegou a ser pensado fazer um vídeo sobre a suspensão do deputado Sulu Sou da Assembleia Legislativa (AL), mas a ideia foi afastada por estar “fora de contexto”.

“A questão do deputado suspenso era uma coisa engraçada, mas ficava fora de contexto. Tínhamos uma rábula à volta disso, mas não fazia sentido e decidimos retirar. Não vamos agora forçar, e o nosso estilo merece que as coisas estejam dentro de contexto. Sem dúvida [para uma próxima peça]”, adiantou Miguel de Senna Fernandes.

Os espectadores poderão contar ainda com “uma ou outra boca”, tal como tem sido habitual nas últimas décadas. “Este ano não houve grandes temas que mereçam um destaque especial na peça. Temos uma ou outra boca, as pessoas entendem, ou não. Este ano não foi particularmente em temas bons para comédia.”

 

Teatro sem censura

Miguel de Senna Fernandes adianta que o grupo não foi alvo de qualquer pressão, por parte do Instituto Cultural (IC), relativamente ao conteúdo da peça. Aliás, em 25 anos de existência, essas restrições nunca aconteceram, garante.

“Nunca houve restrições e se calhar tem a ver com a nossa maneira de abordar as questões. Quando brincamos com coisas sérias fazemo-lo de maneira especial. Somos conhecidos por sermos críticos em relação aos assuntos da sociedade, temos a nossa maneira de criticar e as pessoas reconhecem e aceitem.”

Um dos casos que mereceu mais atenção da parte do IC, por estar em causa imagens de violência, foi a abordagem por parte do grupo à actuação da Al-Qaeda e o seu líder, Bin Laden.

“Foi um dos primeiros vídeos que fizemos, sobre o Bin Laden, e era um tema sensível, com as imagens dos reféns da Al-Qaeda. A notícia saiu logo nos jornais, não era para sair, e aí o IC pediu-nos se poderíamos reconsiderar. Mais tarde, num dos encontros da comunidade macaense, voltamos a pôr esse vídeo e não houve problemas.”

Miguel de Senna Fernandes lembra, aliás, que “sempre houve encorajamento [da parte do IC] para abordar este ou aquele assunto. Nunca houve nenhuma imposição por parte do IC.”

Este ano, a peça tem dois novos elementos, um deles ainda estudante. Miguel de Senna Fernandes salienta, aliás, que há muitos talentos na Escola Portuguesa de Macau (EPM) que gostaria de ver como membros do elenco do grupo Dóci Papiaçám di Macau.

“Vamos ver no próximo ano o que vai acontecer, depois do espectáculo da EPM vimos que há muitos talentos e alguns já estão na minha mira. Não sei como os vou abordar, mas há muito potencial da EPM. Vão ter de passar por um processo de aprendizagem da língua, mas em palco tudo é possível de se fazer”, frisou.

 

2 Mai 2018

Festival de Artes de Macau arranca amanhã com 26 espectáculos e exposições

O espectáculo do mestre do teatro japonês Tadashi Suzuki é um dos destaques do Festival de Artes de Macau, que arranca amanhã com um programa de 26 espectáculos e exposições, incluindo concertos de fado.

Organizado pelo Instituto Cultural, o festival de artes do território decorre este ano sob o tema “Origem”. De acordo com os organizadores, o objectivo é lembrar ao público “o significado essencial da vida”, através de diferentes expressões artísticas.

O certame alia produções internacionais, nacionais e locais, e abre com a peça “Das Kapital”, pelo Centro de Artes Dramáticas de Xangai. Trata-se de uma nova versão do clássico de Karl Marx para assinalar o 200.º aniversário do seu nascimento, com elementos próprios do território.

Uma das peças em destaque é “Mulheres de Tróia”, do mestre de teatro contemporâneo Tadashi Suzuki, sobre a miséria e a desolação do Japão no pós-guerra. Suzuki pertence à primeira geração de directores e dramaturgos japoneses do período pós-guerra. É, também, o fundador da Suzuki Company of Toga e do primeiro festival internacional de teatro do Japão, o Festival Toga.

“Pôr-do-Sol nos Estaleiros”, pela Dream Theater Association, que conta a história da indústria local de construção naval, “Migrações”, do Teatro Experimental de Macau, e “Júlia Irritada”, pelo grupo de Singapura Nine Years Theatre, com base na peça do dramaturgo sueco August Strindberg, são outras peças centrais do cartaz deste ano.

Do vasto programa aguarda-se também a adaptação de “O Processo” de Franz Kafka, pela companhia sul-coreana Sadari Movement Laboratory, e os concertos de fado pela Orquestra Chinesa de Macau.

A combinar teatro, dança e instalação, o programa apresenta ainda “Parasomnia” da portuguesa Patrícia Portela, “Murmúrio de Paisagem”, pela Associação de Artes e Cultura Comuna de Pedra, e “As Franjas Curiosas — Explosão da Caverna”, da coreógrafa local Tracy Wong.

Destaque ainda para o teatro em patuá pelo grupo Dóci Papiaçám di Macau, que vai analisar os principais assuntos da cidade em “Qui di Tacho?” (Que é do Tacho?). O patuá macaense, também conhecido como crioulo macaense, é uma língua crioula de base portuguesa formada em Macau. O festival termina a 31 de Maio.

26 Abr 2018

FAM | Teatro da Cidade de Reiquejavique apresenta obra de Tchekhov

É uma abordagem “moderna e surpreendente”, diz o Instituto Cultural (IC) acerca do modo como o Teatro da Cidade de Reiquejavique, da Islândia, apresenta “A Gaivota” de Tchekhov. O espectáculo encerra a edição do XVIII Festival de Artes de Macau e, de acordo com a organização, ainda existem alguns bilhetes disponíveis.

Em comunicado, o IC recorda que o clássico “A Gaivota” já foi levado ao palco um sem-número de vezes. A encenação da produção apresentada em Macau é da autoria da encenadora lituana Yana Ross. Galardoada com o prémio para a Melhor Encenação no Festival Internacional Kontakt de Torun 2016, na Polónia, Yana Ross é conhecida pelo seu estilo único nos círculos de teatro dos países nórdicos.

A adaptação de “A Gaivota” desloca o enredo da tradicional propriedade rústica russa, tal como descrito por Tchekhov, para uma luxuosa casa de Verão islandesa, “explorando a natureza humana a partir de uma perspectiva única”. O espectáculo sobe ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau nos dias 27 e 28.

Também ainda há lugares vagos para “Double Bill”, por Hiroaki Umeda, agendado para os dias 26 e 27. “O renomado coreógrafo apresenta não só a sua peça a solo ‘Holistic Strata’, como também um novo trabalho desenvolvido em conjunto com bailarinos locais, usando o corpo humano para quebrar as limitações existentes.”

Fim-de-semana cheio

Já hoje e amanhã, é apresentado “O Inferior”, que explora as fronteiras entre o mundo real e virtual, e ainda a peça em patuá “Sórti na Téra di Tufám” (ver texto nas páginas 2 e 3). Entre hoje e domingo, “Miss Revolutionary Idol Berserker” traz, escreve o IC, “uma onda de juventude e leva o público a um frenético mundo japonês”.

Neste fim-de-semana, há ainda espaço para ópera cantonense, com Chu Chan Wa e “um grupo de excelentes actores locais”, que apresentam o clássico “The Butterfly Lovers”.

No dia 23, a Companhia da Ópera Nacional de Pequim leva ao palco uma adaptação concisa do clássico de ópera de Pequim “Senhora Anguo”, enquanto a Orquestra de Macau apresenta o concerto “Ressonância Através do Espaço-Tempo”.

De 26 e 28 deste mês, há teatro para crianças: “À Mão” é criado com bonecos de barro.

19 Mai 2017

FAM | Peça de teatro “O Inferior” apresentada este fim-de-semana

Qual a relação entre o ser humano e a Internet? Até que ponto é que o mundo virtual influencia a nossa vida diária? A Associação de Arte Teatral Dirks pegou nestas questões para criar a peça “O Inferior”, que sobe este fim-de-semana ao palco do Centro Cultural de Macau (CCM) no âmbito do Festival de Artes de Macau.

A peça foi escrita pela dramaturga Jennifer Haley e é a primeira vez que é representada na Ásia. A Associação de Arte Teatral Dirks criou algo de raiz, misturando projecções de vídeo e representação multimédia.

No espectáculo é retratado uma espécie de jogo, intitulado “O Refúgio”, uma realidade virtual que vai ganhando cada vez mais utilizadores. Subitamente, um detective vindo do mundo real começa a investigar crimes que acontecem em “O Refúgio”, iniciando-se então um período de dúvidas que envolve a vida real e a imaginação.

Para Wu May Bo, directora do espectáculo, “este guião é-nos familiar”. “Hoje em dia usamos o Facebook frequentemente e, ao fim de dez minutos, já estamos de volta à vida real. As pessoas já misturam todos esses elementos na sua cabeça. É isso que queremos mostrar ao público, em termos estéticos”, disse em conferência de imprensa.

Por norma, a Associação de Arte Teatral Dirks faz adaptações de textos ou romances, mas desta vez tudo foi feito de raiz, pensado e preparado durante um período de sete meses.

“Recorremos a designers gráficos e visuais para mostrar essa diferença entre a realidade e o mundo virtual”, adiantou Ip Kam Man, também director do espectáculo. Em palco foi utilizada “mobília simples e luzes para expressar um espaço mais real”, explicou ainda.

Wu May Bo disse que a ideia, desde o início, foi mostrar em palco um equilíbrio entre o real e o virtual, daí a cooperação com designers.

“Como o guião descreve dois espaços distintos, o espaço da realidade e outro mais escondido, então pensámos em como poderíamos criar uma flutuação de espaços. Pensámos em como poderíamos criar a história na mente do público, em vez de contar essa história”, referiu.

Um debate actual

Os directores do espectáculo consideram que Jennifer Haley é uma autora “inteligente” pela forma como conseguiu impor um debate sobre algo tão actual. “Precisamos desta virtualidade para sobreviver ou precisamos de algo em que possamos tocar?”, questionou Ip Ka Man.

Wu May Bo garantiu que esta perspectiva está presente em todas as personagens, sob diferentes perspectivas. “Jennifer Harney é de Los Angeles e o seu trabalho está muito relacionado com o desenvolvimento de tecnologia, ou realidade virtual, e ainda a ligação que isso tem com valores morais nos dias de hoje”, concluiu.

17 Mai 2017

FAM | Hu(r)mano acontece hoje e amanhã no Teatro D. Pedro V

Estreia hoje em Macau o espectáculo português Hu(r)mano, coreografado por Marco da Silva Ferreira. No Teatro D. Pedro V, o público poderá assistir a diversas expressões da dança urbana de uma forma teatral, onde as ferramentas de cada bailarino foram usadas como complemento de um todo

 

No tecido urbano somos um todo e temos a nossa individualidade, com as nossas expressões, os nossos ritmos. Em Hu(r)mano, a peça que estreia hoje no Teatro D. Pedro V, no âmbito do Festival de Artes de Macau (FAM), Marco da Silva Ferreira quis fazer a sua própria interpretação da dança urbana, pegando nas capacidades e potencialidades de cada um dos bailarinos com quem trabalhou. Há o real e o imaginário, que parte do todo e que se cria a partir de cada um dos bailarinos que pisam o palco.

“É uma peça de dança a partir de um universo urbano, ao nível do corpo, do ritmo ou da energia, e também da sonoridade”, disse ontem o coreógrafo, em conferência de imprensa.

Marco da Silva Ferreira quis ir além do óbvio, trabalhando ritmos e linguagens já conhecidos. “Existe um novo trabalho sobre as linguagens urbanas do ponto de vista coreográfico, sobre o seu ritmo, o seu tempo, o seu desenvolvimento. Em vez de me concentrar tanto na mensagem ou nos símbolos que as danças urbanas tinham em si, peguei nelas e trabalhei-as num contexto teatral. A peça é tão simples quanto isso. É o corpo no espaço e no tempo, com estas premissas”, explicou.

Novas roupagens

Hu(r)mano chega pela primeira vez a Macau, depois de passagens por salas de espectáculo icónicas em Portugal, como é o caso do Teatro Municipal do Porto ou o Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa.

O coreógrafo assume ter ido buscar inspiração aos movimentos de dança urbana tanto de Portugal, como de outros países, mas não esqueceu as outras formações dos seus bailarinos (Anaísa Lopes, Duarte Valadares e Vítor Fontes). Jogou com elas e com as diversas ferramentas de que dispunha para fazer este projecto.

“Pegamos em coisas que aconteciam em Portugal, os bailarinos são portugueses nesta cultura de que estou a falar. São bailarinos que têm um cruzamento com danças contemporâneas, através da improvisação, da dança clássica ou de outras técnicas que se constroem em contexto académico. Estes bailarinos são particulares por isto: não são apenas bailarinos de dança urbana.”

Esta junção aconteceu porque Marco da Silva Ferreira não quis fazer do Hu(r)mano uma espécie de documentário em palco. “Não me interessava fazer uma peça documental, sobre o que está a acontecer no contexto urbano. Foi a construção de uma ficção minha, existe um filme do Marco nisto.”

“Peguei em coisas que eles [bailarinos] já têm no corpo e que não consigo tirar. Eles não vão responder com o corpo às propostas que eu lhes dou. Essa reacção do corpo intuitiva era boa para mim”, acrescentou o coreógrafo, referindo-se aos três bailarinos que se encontram em palco.

Vítor Fontes falou da sua experiência de trabalhar com o mentor de Hu(r)mano. “Tem sido um processo gratificante, o de acompanhar todo o processo de crescimento da peça e estar envolvido nesta nova criação. [Tem sido importante] perceber os pontos de ligação, contribuir também para o desenvolvimento da Insucesso. Tem sido uma montanha russa de emoções”, apontou.

A importância das parcerias

Em Portugal, Marco da Silva Ferreira trabalhou com várias entidades durante o processo de criação do Hu(r)mano. Uma delas foi o Espaço do Tempo, entidade dirigida pelo coreógrafo português Rui Horta, em Montemor-o-Novo, e que promove residências artísticas.

Marco da Silva Ferreira recorda que o Espaço do Tempo “foi a casa” que os acolheu já na fase final de concepção e produção, incluindo uma antestreia do espectáculo.

“A partir daí conseguimos entrar numa plataforma internacional e isso fez com que a peça se disseminasse um pouco. O Espaço do Tempo foi um espaço de concretização do trabalho e de pontos de fuga para a Europa. Existiam parceiros do Espaço do Tempo que passaram a conhecer-nos”, disse o coreógrafo.

Esta residência artística “fez um trabalho de comunicar o que estava a acontecer de Portugal para fora”. “Se calhar a peça não tinha tido o 2014 que teve, só teria o 2015, com o trabalho no Teatro Municipal do Porto. Foi importante porque nos permitiu fechar o trabalho, filmá-lo e enviá-lo para determinados sítios”, concluiu Marco da Silva Ferreira.

Hu(r)mano acontece hoje e amanhã no Teatro D. Pedro V às 20h, tendo a duração de 50 minutos.

5 Mai 2017

FAM | Companhia de Bill T. Jones pela primeira vez em Macau

O 29.º Festival das Artes de Macau começa hoje. O palco do Centro Cultural de Macau vai acolher a companhia Bill T. Jones/Arnie Zane numa coreografia dupla. Promete-se uma noite de música e movimento a abrir mais uma edição do evento

 

“Play and Play” é o espectáculo que marca a abertura da edição deste ano do Festival da Artes de Macau (FAM). É com o espectáculo de estreia que, pela primeira vez, a companhia nova-iorquina Bill T. Jones/Arnie Zane pisa um palco do território.

O espectáculo vai mostrar ao público, num mesmo serão, duas peças em que os compositores escolhidos foram Ravel e Schubert.

À semelhança do que é habitual nos trabalhos da companhia nova-iorquina, trata-se de uma coreografia em que a música é interpretada ao vivo e os instrumentistas são convidados locais. Neste caso, sobe ao palco um quarteto com músicos da Orquestra de Macau. A ideia é trocar sinergias com as pessoas dos locais por onde os espectáculos vão passando.

“Play and Play” foi escolhido por ser um título capaz de dar às peças uma interpretação mais abrangente, “uma espécie de guarda-chuva que abarca vários trabalhos que fizemos a pensar no seu acompanhamento ao vivo com música de câmara”, explicou ontem a directora artística associada, Janet Wong.

Os bailarinos da Bill T. Jones/Arnie Zane vão dançar a peça de Maurice Ravel, “Quarteto de Cordas em Fá Maior”, sendo que o espectáculo de dança tem como nome “Paisagem ou Retrato”.

“O tema é composto por quatro movimentos com dinâmicas, sentimentos cores e vida própria, e a coreografia é o seu acompanhamento e interlocutor”, apontou a responsável.

O conceito do espectáculo é, de uma forma geral, a capacidade do repensar um trabalho feito. “Por detrás do ‘Play and Play’ há o conceito de ter alguma coisa, fazer alguma coisa com isso e depois fazer algo de novo mais uma vez”, referiu. Para conseguir alcançar o objectivo, a companhia foi à procura de material que já tinha produzido, sujeitou-o a uma nova análise e fez uma nova contextualização.

Schubert e John Cage

A história da segunda peça, “Story”, que conta com a música de Schubert, saiu de uma outra feita muito antes, tendo sido refeita com base na inspiração de um trabalho de John Cage. A dança, a forma de contar a história, a iluminação e os próprios adereços foram todos feitos de raiz.

“Quando decidimos fazer esta coreografia, que inicialmente se chamava ‘Story/Time’, decidimos tirar a parte do tempo e ir buscar o material de dança que tínhamos usado na peça inspirada pelo John Cage. Há material com mais de 37 anos e que fazia parte do nosso repertório, antes mesmo da companhia existir. [Esse repertório] inclui alguns duetos que acabaram por tornar Bill T. Jones e Arnie Zane famosos”, disse Janet Wong.

Dentro da história, o público pode encontrar quase um flash retrospectivo do trabalho da Bill T. Jones/Arnie Zane, com a introdução de peças mais antigas e de outras acabadas de preparar.

No entanto, e de acordo com a responsável artística, o que é feito ao nível da dança, neste espectáculo, não é o mais importante. Trata-se acima de tudo de um diálogo com a música que sustenta a parte do movimento.

Na primeira noite de espectáculo, “Play and Play” promete proporcionar um serão mais “tradicional” que inclui um concerto para que as pessoas tenham um momento de descanso e para que possam, também, olhar para o “vocabulário do movimento, para a composição, para a forma e para as pequenas sintaxes que entram e saem do próprio movimento”, sublinhou.

Um espectáculo diferente

O segundo espectáculo da companhia tem lugar a 1 de Maio. “A Letter to My Mathew” é, de acordo com a também bailarina, um espectáculo muito diferente do da abertura. “É muito mais desafiante. Estávamos no processo de produção de uma trilogia em que a segunda parte era sobre o sobrinho de Bill T. Jones”, conta.

Do trabalho resultou uma peça em que os bailarinos assumiam várias funções, entre elas, a de actores. “Era uma coreografia com texto e que ia além da dança”. No entanto, quando convidada a ir a Paris em 2015, a companhia teria de apresentar uma coreografia sem palavras. “Apercebemo-nos que não podíamos fazer esta parte da trilogia e decidimos usar o material que estava dentro desta peça, tirar-lhe o texto e voltar a olhar para ela sob um outro ângulo.” As palavras deram lugar à expressão musical: “Fomos também à procura de música mais pop e mesmo do hip hop como vocabulário ao movimento”, esclareceu Janet Wong.

Se, por um lado, é uma peça mais desafiante, por outro, e muito devido à música que a acompanha, a directora artística pensa que é um espectáculo mais acessível, principalmente a um público mais jovem.

É também uma referência ao trabalho homónimo de James Baldwin publicado no New Yorker, numa altura em que os direitos humanos, as questões raciais e a violência policial eram assuntos quentes, apontou.

1 Mai 2017

FAM | Festival recebe ópera inspirada em Macbeth de Verdi

É uma “peça escocesa” com nome envolto em agoiros. Agora, o espectáculo chega a Macau pela mão da companhia sul-africana Third World Bunfight, sob a batuta do maestro Premil Petrovic e numa encenação de Brett Bailey. Está em cena hoje e amanhã no Centro Cultural, pelas 20h00, prometendo universalizar os males do mundo e tendo como base “MacBeth” de Verdi

A famosa ópera de Giuseppe Verdi, “MacBeth”, sobe hoje e amanhã ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), numa interpretação “única”, como afirma Premil Petrovic, o maestro vindo da ex-Jugoslávia e que tem a seu cargo a direcção musical deste espectáculo.
Da originalidade da mesma, ressalta o facto de aqui se estar perante uma composição de cantores reduzida a 12 elementos incluindo os coros e de uma orquestra – a “No Borders” – com o mesmo número de elementos. Outra característica distante da ópera tradicional e que caracteriza “Macbeth” é que não mais é uma história de amor, mas sim de crítica e alerta social, acerca de poder e ganância. Outro factor distintivo, como explicou ontem num encontro com os média, reside no facto de que, aqui, a orquestra estar no palco com os cantores com uma proximidade “nunca antes vista no género”, como afirma o maestro. Proximidade também com o público em que o contacto de alguma forma acontece numa peça que condensa as três horas de duração originais em 1h40m.

Dos bastidores ao palco

Os cantores são oriundos da África do Sul, país cuja história é marcada pela violência. O maestro e a orquestra vêm do pós guerra recente no leste europeu e a peça relata, em jeito de alerta, a situação do Congo actual.
Em palco estão representados um grupo de refugiados das zonas de conflito deste país, que contam a história trágica actual aqui vivida “mostrando a universalidade da dor”. O maestro considera ainda que o mundo não tem dado a atenção devida à situação.
A família representada na peça descobre um baú com a parafernália de uma companhia que havia representado “Macbeth”. Com as pautas de Verdi e instrumentos nas mãos, na tentativa de reprodução do clássico, sai esta obra, em que as “vozes bonitas” são substituídas por sonoridades cruas.
“O cantar aqui é entre o drama e o sussurro”, distingue Petrovic. “No nosso caso, e com estes cantores fantásticos, o trabalho foi não reduzir este drama às suas vozes.”
Já para Nobukumko Mngxekez, intérprete de Lady Macbeth, o maior desafio foi encontrar o oposto do melhor de si e dar-lhe vida para a voz e personagem.
Nesta “intervenção” artística, Petrovic refere também a possibilidade de transformar os clássicos em algo capaz de abarcar os problemas universais, sendo que Barbara Mathers, produtora, acrescenta ainda que, em busca da contemporaneidade, foi alterado o tipo de vocabulário utilizado de modo a “actualizar” o espectáculo.
A “No Borders” tem – além de uma vertente artística – uma forte veia política e interventiva, não só destacada pelo próprio nome, que reflecte o seu carácter anti-fronteiras e limites, mas também porque se manifesta contra todos os tipos de sistemas que cultivem o ódio ou o medo.
Numa “boneca russa”, com um Macbeth dentro de outro e mais outro, Mngxekeza salienta esta característica em camadas, sendo que o público vai descobrindo gradualmente a essência da história. Da mesma forma, o maestro refere que pela experiência que tem, nos já muitos espectáculos apresentados com sucesso em todo o mundo, num primeiro momento “o público acha piada e ri-se”, mas em actos posteriores “o semblante vai mudando, havendo quem verdadeiramente se emocione no final”.
“MacBeth” está ainda envolvido em mitos no mundo das artes. Reza a história que a pronúncia do seu nome traz má sorte e desgraças. Questionada acerca destas superstições, Nobukumko Mngxekez confessa que em palco nunca diz o nome da peça três vezes, não vá ela converter-se num fantasma.

27 Mai 2016