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É uma “peça escocesa” com nome envolto em agoiros. Agora, o espectáculo chega a Macau pela mão da companhia sul-africana Third World Bunfight, sob a batuta do maestro Premil Petrovic e numa encenação de Brett Bailey. Está em cena hoje e amanhã no Centro Cultural, pelas 20h00, prometendo universalizar os males do mundo e tendo como base “MacBeth” de Verdi

A famosa ópera de Giuseppe Verdi, “MacBeth”, sobe hoje e amanhã ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), numa interpretação “única”, como afirma Premil Petrovic, o maestro vindo da ex-Jugoslávia e que tem a seu cargo a direcção musical deste espectáculo.
Da originalidade da mesma, ressalta o facto de aqui se estar perante uma composição de cantores reduzida a 12 elementos incluindo os coros e de uma orquestra – a “No Borders” – com o mesmo número de elementos. Outra característica distante da ópera tradicional e que caracteriza “Macbeth” é que não mais é uma história de amor, mas sim de crítica e alerta social, acerca de poder e ganância. Outro factor distintivo, como explicou ontem num encontro com os média, reside no facto de que, aqui, a orquestra estar no palco com os cantores com uma proximidade “nunca antes vista no género”, como afirma o maestro. Proximidade também com o público em que o contacto de alguma forma acontece numa peça que condensa as três horas de duração originais em 1h40m.

Dos bastidores ao palco

Os cantores são oriundos da África do Sul, país cuja história é marcada pela violência. O maestro e a orquestra vêm do pós guerra recente no leste europeu e a peça relata, em jeito de alerta, a situação do Congo actual.
Em palco estão representados um grupo de refugiados das zonas de conflito deste país, que contam a história trágica actual aqui vivida “mostrando a universalidade da dor”. O maestro considera ainda que o mundo não tem dado a atenção devida à situação.
A família representada na peça descobre um baú com a parafernália de uma companhia que havia representado “Macbeth”. Com as pautas de Verdi e instrumentos nas mãos, na tentativa de reprodução do clássico, sai esta obra, em que as “vozes bonitas” são substituídas por sonoridades cruas.
“O cantar aqui é entre o drama e o sussurro”, distingue Petrovic. “No nosso caso, e com estes cantores fantásticos, o trabalho foi não reduzir este drama às suas vozes.”
Já para Nobukumko Mngxekez, intérprete de Lady Macbeth, o maior desafio foi encontrar o oposto do melhor de si e dar-lhe vida para a voz e personagem.
Nesta “intervenção” artística, Petrovic refere também a possibilidade de transformar os clássicos em algo capaz de abarcar os problemas universais, sendo que Barbara Mathers, produtora, acrescenta ainda que, em busca da contemporaneidade, foi alterado o tipo de vocabulário utilizado de modo a “actualizar” o espectáculo.
A “No Borders” tem – além de uma vertente artística – uma forte veia política e interventiva, não só destacada pelo próprio nome, que reflecte o seu carácter anti-fronteiras e limites, mas também porque se manifesta contra todos os tipos de sistemas que cultivem o ódio ou o medo.
Numa “boneca russa”, com um Macbeth dentro de outro e mais outro, Mngxekeza salienta esta característica em camadas, sendo que o público vai descobrindo gradualmente a essência da história. Da mesma forma, o maestro refere que pela experiência que tem, nos já muitos espectáculos apresentados com sucesso em todo o mundo, num primeiro momento “o público acha piada e ri-se”, mas em actos posteriores “o semblante vai mudando, havendo quem verdadeiramente se emocione no final”.
“MacBeth” está ainda envolvido em mitos no mundo das artes. Reza a história que a pronúncia do seu nome traz má sorte e desgraças. Questionada acerca destas superstições, Nobukumko Mngxekez confessa que em palco nunca diz o nome da peça três vezes, não vá ela converter-se num fantasma.

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