Covid-19 | Xangai saboreia fim de bloqueio que deve deixar cicatrizes

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Reportagem de João Pimenta, da agência Lusa

 

Ansiedade e sensação de liberdade são sentimentos vividos pela população de Xangai que, desde terça-feira, viu o bloqueio de dois meses chegar ao fim. Para trás, ficam relatos de escassez de comida e falta de cuidados médicos. Muitas pessoas aproveitaram para deixar a cidade assim que puderam

 

Os moradores de Xangai já saboreiam o fim de dois meses de bloqueio, mas “o terror” suscitado pela escassez de alimentos, violência e isolamento de casos positivos de covid-19 em condições degradantes deve deixar cicatrizes.

“Ninguém pode compreender a ansiedade e o medo que sentimos nos últimos dois meses”, contou à Lusa Chiara, uma fotógrafa italiana radicada naquela que é considerada a capital económica da China.

Um surto de covid-19 na mais populosa cidade do país, provocado pela variante Ómicron, altamente contagiosa, levou as autoridades chinesas a impor medidas de confinamento extremas, no âmbito da estratégia de “zero casos”.

Durante dois meses, os cerca de 25 milhões de habitantes de Xangai foram proibidos de sair de casa. “Senti hoje o sol na cara, ao fim de 62 dias. Consegues imaginar? 62 dias”, descreveu à Lusa a chinesa Wang Hua.

Todos os casos positivos, incluindo os assintomáticos, foram isolados em centros de quarentena: instalações improvisadas, com as camas distribuídas num espaço comum, sem chuveiros, e com uma casa-de-banho para centenas ou até milhares de pessoas. “O terror de saber que um teste positivo acarretaria ser enviada para um desses campos”, descreveu Chiara. “Algumas pessoas tentaram suicidar-se; animais de estimação foram mortos”, relatou.

As cenas de violência, a falta de alimentos e a aplicação implacável e caótica das medidas de prevenção epidémica provocou protestos raramente vistos na China. Um alto funcionário do Partido Comunista da China em Xangai Li Qiang disse que a cidade fez grandes conquistas no combate ao surto por meio de uma luta contínua.

Segundo a Reuters, a Disneyland de Xangai, que ainda não anunciou a data de reabertura ao público, apresentou ontem um espectáculo de luz ao vivo com a mensagem “celebrar o levantamento do bloqueio em Xangai”, enquanto que nas ruas os barbeiros voltaram a ter a agenda preenchida com pessoas que há muito tempos não cortavam a barba e o cabelo.

Na rede social WeChat, muitas lojas começaram a anunciar os planos de reabertura. Melody Dong contou à Reuters que, assim que pôs os pés na rua, procurou ir comer hotpot e procurar carne grelhada, comidas que não conseguiu confeccionar em casa durante o período de confinamento. “Fui passear o cão à rua e o cão estava muito entusiasmado, porque passou mesmo muito tempo sem sair”, adiantou. Uma espécie de festa aconteceu na zona da antiga Concessão Francesa, onde pequenos grupos de pessoas saíram à rua e beberam champanhe.

A cidade voltou ainda a preencher-se com os habituais grupos de dança nocturnos, que antes do confinamento se reuniam nas praças e ao longo do rio Huangpu.

Na rede social Weibo, equivalente ao Twitter na China, um usuário escreveu: “A sensação hoje é quase como no tempo de escola. Na noite antes do início das aulas costumava estar cheio de expectativas para um novo semestre, mas ao mesmo tempo com muito receio no coração.”

Pessoas ainda fechadas

O Governo local assegurou que todas as restrições vão ser gradualmente suspensas, mas os comités de bairros locais ainda exercem um poder considerável para implementar medidas por vezes contraditórias e arbitrárias. O bloqueio reforçou os poderes destes comités, em quem o Partido Comunista Chinês confia para difundir directrizes e propaganda a nível local, e até mesmo para a resolução de disputas pessoais.

Os comités tornaram-se alvo de críticas, sobretudo depois de terem proibido os moradores de saírem das suas casas, mesmo depois de as restrições oficiais terem sido relaxadas.

“Senti-me sem esperanças”, contou à Lusa outra residente na cidade, que recusou ser identificada. “Um grupo de pessoas que nem sequer têm educação subitamente passou a ter o poder de decidir sobre a minha liberdade”.

Os transportes públicos foram repostos em Xangai, assim como as ligações ferroviárias para outras cidades da China. Ainda assim, mais de meio milhão dos 25 milhões de habitantes de Xangai continuam trancados em casa, em comunidades residenciais onde foram detectados casos do novo coronavírus nos últimos 14 dias.

Centros comerciais, supermercados, lojas de conveniência e farmácias reabriram, mas limitados a 75 por cento da capacidade total. Para ir ao supermercado, por exemplo, é necessário fazer reserva ‘online’ com antecedência, visando limitar as entradas. Xangai registou 15 novos casos nas últimas 24 horas, assinalando o declínio estável, desde que chegou aos mais de 20.000 casos por dia, em Abril.

O bloqueio levou também a um êxodo de residentes chineses e estrangeiros, com multidões a formarem-se junto à Estação Ferroviária de Hongqiao.

Numa altura, em que a maior parte do resto do mundo levantou praticamente todas as restrições, a China mantém a estratégia de ‘zero casos’, que visa extinguir surtos do novo coronavírus através de testes em massa e o isolamento de todos os infectados em instalações designadas pelo governo.

Apesar da difícil situação vivida na cidade durante os dois meses de confinamento, foram raros os protestos por parte da população. Nas redes sociais foram divulgados vídeos de pessoas a bater em tachos e panelas nas janelas de casa à noite, à mesma hora, por exemplo.

“O Governo de Xangai deveria apresentar um pedido público de desculpas a fim de obter a compreensão e o apoio da população e reparar os danos feitos à relação entre o Governo e a população”, escreveu no WeChat Qu Weiguo, professor da Escola de Línguas Estrangeiras da Universidade de Fudan, segundo a Reuters.

“Compreensão” necessária

Numa nota divulgada esta terça-feira, a Xinhua noticiou o encerramento do maior hospital de acolhimento de doentes covid-19. Com 50 mil camas dispostas no Centro Nacional de Exposições e Convenções, esta infra-estrutura fechou portas depois de dar alta aos últimos dois pacientes. No total, estiveram internados neste hospital de campanha um total de 174,308 doentes covid-19.

Também na terça-feira a cidade retomou gradualmente as actividades normais de produção. Numa conferência de imprensa, Zong Ming, vice-presidente da Câmara Municipal de Xangai, explicou que as aulas presenciais vão ser retomadas gradualmente, nomeadamente para os dois últimos anos do ensino secundário e o terceiro ano do ensino médio, embora os alunos possam decidir se querem comparecer.

Zong Ming adiantou também que Xangai “está ainda num estado crítico de prevenção e controlo da pandemia”, sendo por isso necessária “a continuação da compreensão, apoio e cooperação de toda a população”.

O responsável frisou também que “cada residente deve aderir aos padrões da prevenção epidémica e medidas de controlo, manter o distanciamento social, tomar as vacinas [contra a covid-19] e cumprir com todos os regulamentos de prevenção epidémica”.

Quarentena | Mais hotéis depende da vontade de trabalhar em circuito fechado

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O presidente da Associação de Hotéis de Macau, Luís de Heredia, considera que o aumento do número de hotéis de quarentena está dependente da existência de trabalhadores disponíveis para trabalhar em circuito fechado.

“O Governo vai fazendo as suas interpretações e vai tentando que haja operadores que lhes consigam fornecer esse tipo de serviço, mas tem que haver um compromisso porque nem sempre é fácil encontrar os trabalhadores que estejam dispostos a prestar esse serviço [em circuito fechado]”, disse à TDM-Rádio Macau.

Sobre os efeitos da crise gerada pela covid-19, Luís de Heredia não se mostrou surpreendido com a redução do número de funcionários ao final do primeiro trimestre de 2022 e assegurou que o sector está a fazer tudo o que está ao seu alcance para assegurar os postos de trabalho dos locais e não residentes.

“Se olharmos para os números estatísticos dos turistas, entravam quase entre 30 a 40 milhões, e agora se estivermos a fazer um cálculo para o ano serão seis, sete ou oito milhões. Não sabemos. É evidente que tem de haver uma actualização do número de trabalhadores. Mesmo assim, penso que praticamente todos os operadores e donos de hotéis têm feito um esforço para manter ao máximo os trabalhadores, tanto os locais como os TNR”, considerou.

Filiação

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Nós contemporizamos, esquecendo todos os danos. Somos Humanos!
Mas o que existe de tão agreste na raiz das coisas, que temos de sabotar tudo o que somos?
Uma cicatriz de amplo espectro vigilante.
Por vezes, nem Deus se abeira da nossa súplica – nós, que o construímos –
Com a certeza de que não nos faltaria, deparamo-nos com sua solidão aflita.
Agora o tempo está sem céu, e a nossa grande jornada em nós arrefeceu.
Talvez tenha morrido no anátema traçado, talvez tenhamos vivido sem a força desse outro lado.
Que nada diminui esta vasta caminhada de seres da fome, tão frágeis, tão tenazes, que acolhidos
Fomos, no planeta pela Morte.
Não podemos ainda sair daqui! Vivos e mortos somos a jornada.
Reerguemos as eras, e elas são iguais a tudo o que já era. Congelámos as promessas.
Nem sempre o silêncio é sinal de sabedoria. Mas de perplexidade, desse não saber como
num certo Jardim outrora se fazia.
«Mulher, eis o teu Filho»! Nós, filiados assim, não sentimos que a progenitura nos pertença.
E muito menos queremos ser dela esta continuada incerteza.
Que nós não temos filhos, mas brasas lançadas aos destinos que se recuperam e se perdem
Nos acasos dos sentidos.
Não temos nada, e inventámos o amor para existir na gleba de um verso de ouro que nos
Engendra
Filhos do Homem, caminho do meio, nós de Humano, nem temos já os seios.
Somos aquelas fontes onde nascem só venenos, que na intranquila ilusão compensamos
Como eventos.
Já não sou Jó! – Nunca fui Jó. Testes a mais fazem-nos em pó.
Dias em que se morra e pereça e que a mãe ao próprio filho não conheça…
Não os quero mais escutar nem o mundo já os dar.
Que esta nossa labuta fere engenhos, mas não temos que ceder.
Sou mais Raquel, e não Lia, essa fábrica carnívora.
E neste manjar de sombras, lembro-me de um homem que veio apenas para nos ressuscitar.
Confesso esse grande amor pela casa de David. O nosso ser precisava dela!
De um ser que cingisse a consciência de nosso limitado ser para o encher de esperança.
E quanto mais se caminha, mais ele ressuscita, que não é o mesmo que prendê-lo a outra vinda.
Nós requeremos estes dons maiores, pois que de todos são.
Acordá-los, eis toda a nossa futura condição.
A doença que progride é vão caminho, e dela não estamos ausentes como estamos do destino.
Deus nada quer, a obra não lhe nasce, e o Homem não a sonha… crê que a pensa
Mas nosso pensamento é vil e não produz nascença.
Porém, desejamos ser inscritos no Livro da Vida, esse, que um homem feito deus nos veio dizer
Ser a saída.
Mas aqui nos encontramos, mortos, a tributar os danos das blasfémias conseguidas.
Perdoai-nos!
Somos cúmplices e inocentes, e espera-nos outro ser saído do súbito instante que se evolou
Pela alma erguida.
Tu és o nosso guindaste celeste, morrido com pés ausentes de terra, a maravilha que flutua
Grave e séria.
Jacob precisou de escadas, lutar, e ficar coxo.
Tu, estavas exangue, mas pleno de ternura, sem mais nada.
Sem chão, que a Terra arde. E gela. A Terra que é tão triste…! Mas muito mais existe para além dela.

Pacífico Sul | China vai nomear representante para nações insulares

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Na sequência do périplo do ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, pelos pequenos países do sul do Pacífico, com o intuito de firmar um acordo abrangente, Pequim anunciou a nomeação de um delegado especial para a região

 

O Governo chinês anunciou ontem que vai nomear um enviado especial para as nações insulares do Pacífico Sul, reflectindo as crescentes ambições de Pequim para a região estratégica.

O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, está a realizar um périplo pelas nações insulares da região, tendo chegado ontem a Tonga, que continua a recuperar de uma enorme erupção vulcânica e um tsunami, que matou três pessoas em Janeiro e destruiu centenas de casas. No Tonga, Wang Yi reuniu com o rei, Tupou VI, e o primeiro-ministro, Siaosi Sovaleni. O ministro chinês assinou vários acordos com Sovaleni que abrangem quase todas as vertentes, desde a gestão de desastres até um projecto de melhoria do túmulo real.

O embaixador chinês neste reino polinésio, Cao Xiaolin, disse em comunicado que os dois países já têm laços estreitos em várias áreas, incluindo comércio, infraestruturas e energias renováveis.

O mesmo representante disse que a China disponibilizou vários programas de formação, que vão abranger cerca de 1.200 funcionários do governo tonganês. “A relação entre a China e o Tonga é uma pérola brilhante”, reforçou o embaixador.

O governo do Tonga informou, por sua vez, que os dois lados tiveram “conversas frutíferas” e agradeceu à China por enviar dois aviões militares e dois navios da Marinha para entregar ajuda após o tsunami.

Por partes

Na segunda-feira, o governante chinês esteve nas Fiji sem conseguir assinar um amplo acordo multilateral de cooperação e segurança com 10 países do Pacífico, embora países como Samoa, Tonga, Kiribati, Papua Nova Guiné, Vanuatu, Ilhas Salomão, Niue e Vanuatu tenham concordado em cinco áreas de cooperação, que incluem recuperação económica após a pandemia de Covid-19 e novos centros para agricultura e desastres.

Após a reunião nas Fiji, Pequim apresentou um documento oficial sobre a sua estratégia para a região, que inclui a nomeação de um enviado especial e uma colaboração mais próxima na luta contra a crise do clima, na segurança, covid-19, desastres naturais, infraestrutura, pesca e educação, entre outras questões.

“A China e os países insulares do Pacífico, como países em desenvolvimento, compartilham uma ampla gama de interesses, incluindo a manutenção da paz e da estabilidade na região da Ásia -Pacífico, preservação da igualdade e justiça e promoção do desenvolvimento sustentável”, pode ler-se no documento oficial, emitido pela embaixada da China nas Fiji.

No documento, as autoridades chinesas também propuseram a realização regular de um encontro entre Pequim e 10 nações do Pacífico Sul, incluindo Ilhas Salomão, Kiribati, Samoa, Fiji, Tonga, Vanuatu, Papua Nova Guiné, Ilhas Cook, Niuê e os Estados Federados de Micronésia.

Em estudo

Durante o encontro realizado entre Wang e os homólogos daqueles países, as nações insulares pediram mais tempo para estudar o acordo multilateral, designado de Visão de Desenvolvimento Conjunto China – Países Insulares do Pacífico, o que seria um importante pacto geopolítico.

Wang assinou vários acordos bilaterais nesta viagem de 10 dias, que inclui uma paragem em Timor-Leste.
A viagem do ministro chinês ilustra a tentativa de Pequim de ampliar a sua influência no Pacífico Sul.

FAM | Liza Wang em concerto de encerramento hoje e amanhã

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A conhecida artista de Hong Kong actua hoje e amanhã com a Orquestra Chinesa de Macau em dois concertos que marcam o encerramento da 32.ª edição do Festival de Artes de Macau. Intitulado “Canções valentes mas ternas com melodias tocantes”, o espectáculo inclui versões de “Lisboa Menina e Moça” e clássicos como “O Brilho do Passado” ou “Amor e Paixão”

 

Entre hoje e amanhã, a consagrada cantora, actriz e apresentadora de Hong Kong, Liza Wang sobe ao palco do Venetian Theatre com a Orquestra Chinesa de Macau, para apresentar duas sessões do concerto intitulado “Canções valentes mas ternas com melodias tocantes”.

Segundo a organização, os bilhetes para os dois espectáculos que marcam o encerramento da 32.ª edição do Festival de Artes de Macau “esgotaram logo após o início da venda”, traduzindo, por isso, uma “resposta entusiástica por parte dos aficionados da música de Macau e da Grande Baía”.

Aos comandos da Orquestra Chinesa de Macau estará o maestro Hu Yongyan, assegurando assim que a voz da estrela de Hong Kong está devidamente suportada enquanto decorre ao longo dos 18 temas previstos no programa do espectáculo.

Durante o concerto, Liza Wang irá interpretar vários clássicos, incluindo “As Mulheres Generais da Família Yang”, “Amor e Paixão”, “O Brilho do Passado”, “Anos na Ribalta” e “Os Chineses Valentes”. Além disso, nota ainda para as adaptações de outros temas como “Lisboa Menina e Moça” de Paulo de Carvalho, a Abertura da Ópera :”O Barbeiro de Sevilha” de Gioachino Rossini ou “Carmen” de Georges Bizet.

Durante um encontro com a imprensa, promovido na segunda-feira pelo Instituto Cultural (IC), Liza Wang partilhou também como foi passar pela quarentena de 14 dias que lhe permitiu entrar em Macau. Na óptica da artista, a experiência, que foi uma estreia, até acabou por ser positiva.

“Não diria que foi um sacrifício, até me soube bem fazer a quarentena, porque nestes 14 dias tive uma vida muito diferente do habitual. Na verdade, até me soube muito bem, pois tive tempo para mim, em privado. É possível fazer tudo”, disse segundo a TDM-Canal Macau.

Vida Cheia

Nascida em 1947, Liza Wang é conhecida, não apenas pela carreira que trilhou na televisão, no canto e na ópera cantonense, mas também pelo trabalho comunitário que tem desenvolvido ao longo dos anos em Hong Kong.

Em 1981, integrou a lista de “Dez Jovens Notáveis” de Hong Kong, tendo sido nomeada delegada de Hong Kong e Macau para a 7.ª e 8.ª Legislatura da Assembleia Popular Nacional da República Popular da China em 1988 e 1993, respectivamente. Entre 1998 a 2018, foi membro do 9.º ao 12.º Comité Nacional da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês.

Adorada pelo público chinês em todo o mundo, para além de ter colhido elogios pelos icónicos papéis que desempenhou ou canções que interpretou, Wang foi ainda condecorada com uma Estrela Bauhinia de Prata pelo Chefe do Executivo de Hong Kong em 2004, em reconhecimento da carreira no sector das artes cénicas, bem como pelo contributo para o trabalho comunitário e pela sua dedicação à “aprendizagem ao longo da vida”.

Actualmente, Liza Wang é presidente da Associação de Artistas Chineses de Hong Kong e membro da Comissão Executiva da Associação de Luta Contra o Cancro de Hong Kong.

Grande Baía | Inaugurada plataforma de negócios sino-portuguesa

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O Centro de Cooperação Internacional de Investimento e Comércio Sino Português (CCIICSP) pretende promover o investimento entre os países de língua portuguesa e a região da Grande Baía. A iniciativa é também o “reconhecimento, por parte da China, da relevância geoestratégica de Portugal”

 

O Centro de Cooperação Internacional de Investimento e Comércio Sino Português (CCIICSP) é hoje inaugurado e visa promover projectos de investimento e comércio entre Portugal, países de língua portuguesa e a região da Grande Baía.

De acordo com um comunicado do CCIICSP, citado pela agência Lusa, a partir de 1 de Junho vai ter lugar “a inauguração do Centro de Cooperação Internacional de Investimento e Comércio Sino Português – CCIICSP, com sede na cidade de Guangzhou, na China”, cuja sessão inaugural decorrerá em ‘streaming’, com a participação de ‘stakeholders’ públicos e privados chineses e portugueses.

O CCIICSP resulta da parceria da “Porcham”, associação empresarial de negócios bilateral em vias de se transformar em Câmara de Comércio de Portugal na China, e da empresa “Cinco” com a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China, “tendo como objectivo a prossecução de projectos de investimento e comércio entre Portugal, a diáspora portuguesa e os países de língua portuguesa com a região de Guangdong-Hong Kong-Macau Greater Bay Area (GBA) [Área da Grande Baía], e a ilha de Hainan”.

De acordo com a nota, “a iniciativa constitui um importante passo na concretização da parceria estratégica entre Portugal e a China, estabelecida em 2005, e do forte impulso dado às relações bilaterais entre os dois países com a visita a Portugal do Presidente Xi Jinping, em 2018”.

O mercado português “é hoje um dos maiores destinatários ‘per capita’ do investimento chinês na Europa”, é referido no comunicado.

Distribuir jogo

A criação do CCIICSP “é também o reconhecimento por parte da China da relevância geoestratégica de Portugal como interlocutor privilegiado e de primeira linha, na implementação do Acordo Abrangente de Investimento UE-China, celebrado em 2020, integrado na estratégia ‘The Belt & Road Initiative'”, refere a entidade.

“Somos um consórcio dedicado a melhorar o ambiente de negócios e promover relações económicas construtivas e sustentáveis entre a República Popular da China e outros países com grande foco em países de língua portuguesa e países onde podemos alavancar a diáspora portuguesa”, afirma o ‘chairman’ do CCIICSP, Dário Silva, citado em comunicado.

Dário Silva é um empreendedor português radicado na China há quase duas décadas e presidente da “Porcham”. “Ajudamos as empresas portuguesas a ter sucesso na China, bem como as empresas chinesas a ter sucesso no exterior, fornecendo suporte de ‘advocacy’, oportunidades de ‘networking’ [contactos], ‘insights’ e serviços de suporte empresarial”, acrescenta o responsável, salientando que o CCIICSP “é uma plataforma para empreendedores e profissionais se conectarem, partilharem recursos e construírem uma próspera comunidade internacional na Grande Baía, uma das regiões económicas em mais acelerado crescimento no mundo”.

Kaifong | Estudo aponta que apenas 27% mostra vontade de ter filhos

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Um estudo da União Geral das Associações dos Moradores de Macau (UGAM) revelou que apenas 27 por cento dos inquiridos mostram vontade em ter filhos. De acordo com o inquérito dos Kaifong, citado pelo canal chinês da TDM-Rádio Macau, 75 por cento dos 1.643 entrevistados considera o “rendimento familiar” e o “ambiente de educação” factores determinantes quando é chegada a altura de decidir ter ou não filhos.

Entre os entrevistados, com idades compreendidas entre os 18 e os 50 anos, 60 por cento apontaram ainda que “ter tempo suficiente para cuidar dos filhos” é o principal factor para aumentar a vontade de ter filhos. Por outro lado, mais de 50 por cento indicou ser importante ter “acesso a serviços de cuidados infantis” e “poder concorrer a habitação pública adequada ao número de filhos”.

Perante os resultados do estudo, os Kaifong produziram uma lista de sugestões e tópicos de promoção da natalidade e qualidade de vida. Esta inclui a implementação de medidas favoráveis ao aumento do tempo passado em família, à melhoria do mercado de trabalho em Macau, ao alívio da inflação e à melhoria dos sistemas de cuidados infantis, educação e habitação pública.

Dos 1.643 entrevistados, 70 por cento tinha entre 26 e 40 anos e cerca de 40 por cento não tem ou não quer ter filhos. Do total de inquiridos, 20 por cento diz respeito a pais.

4 de Junho | Ausência de pedidos não implica liberdade de reunião, dizem deputados

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Pela primeira vez, o CPSP não recebeu pedidos de reunião para a realização da vigília do 4 de Junho. Apesar de parcos em palavras, deputados como Zheng Anting, Ron Lam e Wong Kit Cheng dizem não estar em causa o patriotismo e que a liberdade de reunião continua a existir em Macau. Em nome próprio, Au Kam San vai realizar uma vigília online

 

O Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) não recebeu qualquer pedido de reunião relativo à vigília do 4 de Junho, assinalada em memória das vítimas dos acontecimentos de Tiananmen. Depois de em 2020 e 2021, os pedidos de reunião terem sido rejeitados pelas autoridades, este ano o CPSP confirmou não ter recebido, pela primeira vez, qualquer pedido por parte da União de Macau para o Desenvolvimento da Democracia (UMDD), sobre a realização da iniciativa no Largo do Senado, ao contrário do que sempre aconteceu desde 1989.

“Até às 19h00 do dia 31 de Maio de 2022, esta Corporação não recebeu qualquer aviso prévio de que alguém pretenda realizar manifestação ou reunião no dia 4 de Junho do corrente ano”, pode ler-se na resposta enviada pelo CPSP.

Contactados pelo HM, vários deputados à Assembleia Legislativa, são da opinião que o facto de não haver pedidos de reunião para o próximo sábado não significa que existam restrições às liberdades de reunião e manifestação dos residentes de Macau. Questionado sobre o assunto, Zheng Anting, considera mesmo que todos são livres de entregar pedidos de reunião, cabendo depois ao Governo decidir sobre a sua aprovação.

“Há liberdade de reunião em Macau. Não há qualquer impedimento para fazer um pedido nesse sentido, caso alguém assim o pretenda. Se depois o pedido é aprovado ou não, isso já é um assunto do Governo”, referiu.

Já Wong Kit Cheng, considera que a ausência de pedidos de reunião para o dia 4 de Junho não está de forma alguma relacionado com a concretização do princípio “Macau governado por patriotas” e indicou não ter na sua posse informação suficiente para desenvolver o assunto.

Por seu turno, o deputado Leong Sun Iok indicou não “conhecer bem a situação” dos pedidos relacionados com a vigília do 4 de Junho e que, por isso, “não é conveniente elaborar uma resposta”. Chan Chak Mo admitiu apenas “não ter posição sobre o assunto”.

Também o deputado Ron Lam considera que os direitos de reunião e manifestação estão garantidos pela Lei Básica, pese embora espere que “esses direitos possam ser mantidos, independentemente do tema, das ideias ou do ambiente político”.

“Espero que a pandemia não continue a ser usada como pretexto [para rejeitar pedidos de reunião e manifestação] ou isso poderá resultar num ambiente social difícil. Sobretudo depois da pandemia, estes direitos devem ser garantidos”, começou por dizer.

“Não considero que haja uma relação directa entre o facto de não haver reuniões no dia 4 de Junho e o patriotismo. O respeito pelo direito de reunião e manifestação é o garante da liberdade de expressão (…) dos residentes e um valor nuclear que é preciso defender”, acrescentou.

Ron Lam considera ainda “essencial” que o Governo “trate bem” as questões relacionadas com a economia e o bem-estar da população e que ouça as opiniões da sociedade para assegurar a concretização dos princípios “Macau governado por patriotas” e “Um país, dois sistemas”.

Em nome próprio

O ex-deputado e habitual promotor da vigília organizada em nome da UMDD, Au Kam San, confirmou ao HM não ter dirigido qualquer pedido de reunião ao CPSP, por temer incorrer em infracção legal por “difamação”. Isto depois de, no ano passado, o Tribunal de Última Instância (TUI) ter chumbado o recurso sobre o pedido de reunião, por considerar que a liberdade de reunião não pode admitir “abusos e ofensas sem limites”.

“Defendi sempre que devíamos entregar um pedido de reunião, tal como prevê a lei e apesar de a rejeição ser expectável. Dado que o acordão do TUI apontou que as vigílias podiam implicar o crime de difamação e que perdemos o recurso no ano passado (…) a iniciativa podia ser considerada um acto ilegal”, começou por explicar.

“Considerando as preocupações e os apelos que amigos e membros da UMDD me dirigiram para não realizar a vigília sob pena de vir a ser acusado pelas autoridades, acabámos por não fazer o pedido”, acrescentou.

Au Kam San revelou, contudo, que no próximo sábado irá transmitir em nome próprio, através das redes sociais, uma vigília onde irá estar sozinho e apenas com uma vela, simbolizando que “em Macau a luz das velas não se extinguiu”.

Incêndio Marítimo | Wong Sio Chak reconhece falta de meios

GCS
O Chefe do Executivo disponibilizou um orçamento de 400 milhões de patacas para a compra de embarcações, mas a tutela da Segurança considerou que não era necessário um barco de salvamento de grande dimensão. Agora, após o incêndio no Porto Interior que destruiu cinco embarcações, Wong reconheceu o erro

 

Wong Sio Chak reconheceu a falta de capacidade das forças de segurança para lidar com incêndios marítimos, e admitiu que a RAEM não comprou um barco de grande dimensão para responder a emergências, apesar do orçamento de 400 milhões de patacas. A admissão foi feita ontem na Assembleia Legislativa, num dia em que revelou planos para no espaço de dois anos e meio comprar uma embarcação de grandes dimensões e duas de média para resgate e combate a incêndios.

O incêndio de Abril no Porto Interior foi ontem discutido na Assembleia Legislativa, na sequência de uma interpelação do deputado Ron Lam. “Depois da definição das águas marítimas (em 2019) sob a jurisdição de Macau, tivemos de começar do zero. Comprámos logo 13 barcos, o que faz com que actualmente tenhamos 16 embarcações de salvamento”, informou Wong Sio Chak. “Claro que o número não é suficiente”, acrescentou.

Sobre a falta de meios, o secretário revelou que houve uma escolha contrário, depois de ter sido disponibilizado um orçamento de 400 milhões de patacas para o efeito, que vai ser agora corrigida. “Sobre a razão de não termos comprado antes um barco de grande dimensão… Cheguei a apresentar a proposta e foi logo autorizado um orçamento de 400 milhões de patacas pelo Chefe do Executivo”, revelou. “Na altura, o Governo não comprou uma embarcação de grande dimensão, porque considerou que os barcos eram suficientes”, confessou.

Atrás do prejuízo

O secretário apresentou ontem o plano da tutela da segurança, para aquisição de mais material nos próximos dois anos e meio.

“Actualmente, as lanchas de fiscalização dos Serviços de Alfândega têm apenas capacidade de combate a incêndios no mar a nível geral, e após referenciar as funções e a capacidade dos barcos profissionais de combate a incêndios das regiões vizinhas, os SA propuseram a aquisição de um barco grande de combate a incêndios e salvamento de dois barcos de tamanho médio de combate a incêndios e salvamento”, revelou o secretário para a Segurança.

Segundo o plano apresentado, a embarcação maior será destacada “para o Base de Operações Marítima na Zona E1”, perto do Terminal do Pac On, e as outras duas embarcações vão ficar nos extremos do Porto Interior.

Wong Sio Chak anunciou também a proposta para adquirir extintores de pó para incêndios petrolíferos, combustíveis líquidos, e substâncias sólidas, e “pistolas de combate a incêndios de pequena dimensão”.

Segundo os dados apresentados, as “regiões vizinhas” têm bombas de incêndio nos barcos com capacidade para expelir entre 1.000 a 4.000 metros cúbicos de água por hora. Em Macau, as lanchas têm capacidade para 100 a 240 metros cúbicos de água por hora. Mesmo no caso da embarcação “Barra” da DSAMA, a mais bem preparada, a capacidade da boca de incêndio é de 2.700 metros cúbicos de água por hora.

Ao mesmo tempo, Wong Sio Chak apresentou uma proposta ao Chefe do Executivo para reforçar a equipa de salvamento e combate a incêndios, e explicou que é uma medida que se justifica com o facto de, desde 2018, não terem sido contratadas pessoas para os quadros dos Serviços de Alfândega.

Remendos de ocasião

Além do reforço dos meios, o secretário para a Segurança revelou que foi entregue ao Chefe do Executivo uma proposta de regulamento que obriga ao armazenamento de combustíveis para barcos em depósitos, sobre o limite do transporte de botijas de gás, entre outras.

A proposta tem a concordância “geral” de Ho Iat Seng, porém, de acordo com a informação disponibilizada aos deputados, existem ainda arestas por limar.

No entanto, Ella Lei alertou que o problema da falta de armazenamento de combustíveis está ligado às exigências de controlo da pandemia. “Eles (proprietários) não depositaram os bens, porque as restrições da pandemia não lhes permitiram. Precisam de pessoal para guardar combustíveis nos depósitos, que não tinham”, avisou.

Ana Cristina Alves, autora e académica: “Este livro é um diálogo intercultural”

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Acaba de ser lançado, com a chancela da editora Labirinto, o novo livro de poesia de Ana Cristina Alves, especialista em filosofia chinesa, docente e responsável pela área educativa do Centro Científico e Cultural de Macau. “Visitações” reúne poemas que estabelecem um diálogo permanente entre as espiritualidades ocidental e oriental, partindo da base do “I Ching – O Livro das Mutações”

 

Como surgiu a possibilidade de editar esta obra?

Foi uma experiência poética. A última vez que estive em Macau foi em 2015, mas andei muito pelo Oriente e pelo sul da China. Entre 2011 e 2015, estive muito voltada para temas religiosos, fiz investigação na Academia Sínica, recolhi dados sobre templos, que são cerca de dez mil. A pesquisa para o trabalho científico não foi publicada, ficou na gaveta. Nos dez anos que estive em Macau visitei sempre os templos. Sempre gostei muito da espiritualidade chinesa, porque é aberta a receber influências de várias religiões e nenhumas se zangam umas com as outras.

Sobre esse projecto que ficou na gaveta…

Sim, ficou ali. Entretanto, chegou a pandemia, que nos remeteu a todos para casa. Sempre encarei a arte como terapia, sou capaz de estar o dia todo a ouvir música, por exemplo. Como nesses dois anos de pandemia estive bastante tensa, e como gosto muito de escrever e de poesia, foi uma maneira de me agarrar à vida pelo lado positivo, pois fomos bombardeados com notícias negativas todos os dias. Recordei-me então das experiências que vivi nas visitas ao Oriente e começaram a surgir espontaneamente poemas que estão divididos em vários capítulos.

Como dividiu tematicamente o conteúdo?

Os capítulos são sobre divindades chinesas, seres sagrados do Oriente e do Ocidente, porque eu sou portuguesa e o meu olhar ocidental está lá inevitavelmente. Escrevi também poemas sobre festividades e seres sagrados ligados a divindades. Outros escritos resultaram de visitas a templos. Tudo do ponto de vista poético, não científico, através de um diálogo intercultural. A última parte do livro é sobre poesia de adivinhação, numa tentativa para chegar a um amor diferente, objectivo, mas também compreender o mistério que não se deixa compreender por palavras. Quanto mais nós tentamos entrar em certas esferas e explicar tudo de forma racional, pior é. Peguei no clássico I Ching – O Livro das Mutações. Já a Fernanda Dias [poetisa] tinha feito uma experiência deste tipo, em Macau, porque a obra tem 64 hexagramas. Ela fez um poema para cada um deles, em “O Fio de Seda”, publicado em 2012. Utilizei a filosofia da complementaridade e fiz poemas sobre 32 hexagramas, porque acredito sempre nos opostos que não são oposição, mas que são complementares.

Qual o objectivo desse exercício?

Foi uma tentativa de entrar neste mistério que não entendemos, mas que sentimos através da nossa intuição, de que há qualquer coisa da qual é difícil falar do ponto de vista racional. São 32 poemas dedicados à adivinhação. Mas foi muito compensador. De cada vez que escrevia um poema, por muito más que fossem as notícias sobre a pandemia, nunca me deixavam muito maldisposta. A arte compensava e era como se estivesse a fazer terapia. Esta obra, “Visitações”, surge num momento muito particular da nossa história colectiva e individual, em que nos confrontamos com a pandemia. Alguns poemas mostram esse lado.

Em que sentido?

Por exemplo, há uma divindade muito malandra (Na Tcha), um menino que provoca muitos desacatos e que acaba por magoar um dos filhos do Rei Dragão, que nunca lhe perdoa. Esta divindade está mesmo ao lado das Ruínas de São Paulo [Templo de Na Tcha] e tem um dom especial: combater epidemias. É óptimo para estes tempos.

Como descreve este livro?

É um diálogo intercultural, que aponta para uma espiritualidade, mas que não a define, não diz “é assim”, ou de outra forma. Não há dogmas, mas leituras de possíveis caminhos espirituais, uma espiritualidade muito aberta, com a mistura de divindades. Um dos capítulos é sobre seres divinos, sagrados e monstros, no Ocidente e no Oriente, sempre numa tentativa de diálogo. Na primeira parte do livro temos poemas dedicados à minha sensibilidade reservada, enquanto que a maior parte dos poemas têm como fio temático a espiritualidade chinesa e o diálogo com a espiritualidade ocidental.

O que significa esta sensibilidade reservada?

São poemas mais seculares, mais do dia-a-dia, que surgem em confronto com situações. Tenho lido muito e gosto muito de Fernando Pessoa, dos clássicos, mas também de Luís de Camões e Sophia de Mello Breyner. Mas o meu despertar poético é sempre sobre situações da vida e por qualquer coisa que se está a passar no aqui e agora. A guerra na Ucrânia preocupa-me muito, por exemplo. Não é tanto a sensibilidade de receber influência dos outros poetas, mas quando me surge este chamamento poético, este diálogo, é sempre sobre algo que está a acontecer na minha vida.

Que poema destaca nesta obra?

“Macau Tricolor” é um poema de que gosto muito. Dentro das experiências poéticas uma das que gosto de fazer é misturar línguas dentro do próprio poema, é um traço da minha poesia. Este poema é sobre Macau e surge na sequência do 24 de Junho, antigo Dia de S. João, quando ocorreu a batalha contra os holandeses, em 1622. Começa por ser escrito em português, depois passa para patuá, graças ao pouco que aprendi com o Adé, e depois termina em chinês. Celebro os portugueses, os macaenses com a sua especificidade e os chineses que estão em Macau, a quem pertence não só a terra como a administração.

Escreveu outros poemas sobre a China?

Há muitos poemas sobre a China e as festividades tradicionais chinesas, sobre a festividade dos barcos dragão e o ano novo chinês. Mas esta China é aquela que eu deixei em 2015 e não a de hoje. No livro “Migrando pelos Dias” falo mais da China dos dias de hoje. Este livro aborda a China espiritual e tradicional, assim como o contacto com o Ocidente também cultural e espiritual. Tenho um poema sobre o São Martinho, o Natal e a Páscoa. Saí de Macau há sete anos, e o que me lembro da China e de Macau está mais na cultura do que na vivência diária.

Porquê o nome “Visitações”?

A capa, que está muito bem conseguida, tem duas portas fechadas. Então é como bater à porta de algo, de um mundo misterioso, e a visitação é a tentativa de entrar nesse mundo, mas a porta mantém-se fechada. Está semi-aberta com a nossa sensibilidade, mas pouco compreendemos sobre esse mundo com seres sagrados e divindades. “Visitações” é então essa ideia de visitar um mundo transcendente. Acredito que com a poesia se consegue lá chegar.

Tem uma larga experiência como investigadora, sobretudo na área da filosofia oriental. Escrever estes poemas trouxe-lhe outra perspectiva da China?

Desta vez usei o clássico “I Ching – O Livro das Mutações”, que o padre Joaquim Guerra chamava “A Bíblia Chinesa”. Dá uma outra visão menos pragmática e utilitária da cultura chinesa. Leva-nos à cultura tradicional que valorizava a sensibilidade poética. Não nos podemos esquecer que os governantes, para passarem os exames imperiais, tinham de fazer poesia e saber interpretá-la, para chegarem a oficiais e mandarins. Este contacto com os clássicos é a entrada no mundo da história, que hoje muitas vezes é esquecido na China contemporânea porque valores económicos, e outros, se levantam.

Restauração | Salário médio com quebra de 6,5 % em termos anuais 

DR

Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) revelam que o salário médio no sector da restauração foi de 9.750 patacas no primeiro trimestre, o que representa uma quebra anual de 6,5 por cento face aos primeiros três meses de 2019, ou seja, antes da pandemia.

No entanto, em relação ao último trimestre de 2021, houve uma ligeira subida de 1,6 por cento. O sector empregava, entre Janeiro e Março, 22.885 trabalhadores a tempo inteiro, menos 4,3 por cento em termos anuais. Relativamente à hotelaria, registou-se uma quebra de 4,7 por cento no número de trabalhadores face ao último trimestre de 2021.

No total, trabalham em hotéis e empresas similares um total de 47.355 trabalhadores. Quanto aos salários, a remuneração média, excluindo as participações nos lucros e os prémios destes trabalhadores cifrou-se em 19.240 patacas, mais 4,8 por cento em termos anuais.

Tal deve-se, segundo a DSEC, ao facto de a “situação dos trabalhadores com licenças sem vencimento ter melhorado em termos homólogos nalguns hotéis e à diminuição de trabalhadores que tinham remunerações relativamente baixas”.

No final do primeiro trimestre deste ano existiam menos 81 vagas nos hotéis, enquanto que nos restaurantes ainda há vagas por preencher.

Excursões locais com novo programa para estudantes de Macau

DR

O programa “Roteiros para visitas de estudo”, apresentado ontem, marca o novo capítulo de excursões locais para residentes. Desta vez, os destinatários são estudantes do ensino não superior. A iniciativa, que não interfere com as restantes quotas de participação destinadas a residentes, dura até ao dia 31 de Julho e será organizada pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST) em parceria com a Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

Os locais a visitar incluem o Centro de Ciência de Macau, a Universidade de Macau, o Parque de Seac Pai Van, a Base da Educação do Amor pela Pátria e por Macau para Jovens, entre outros.

Cada estudante terá direito a participar gratuitamente num roteiro e as visitas de estudo “combinam os recursos turísticos de Macau com um formato de ‘Ensino e aprendizagem com passeio’”. Tudo para que “os estudantes participantes nos roteiros possam conhecer melhor a história de Macau e a cultura chinesa, cultivar o amor pela pátria e o sentimento de pertença ao país dos jovens de Macau, bem como a aquisição de conhecimentos gerais sobre ciências e educação sobre natureza e ecologia”.

Os alunos poderão escolher um de dez roteiros, divididos por oito temas, nomeadamente “a visita ecológica”, a “visita de educação científica” ou a “visita do património mundial”, estando ainda previstas visitas de estudo sobre “a prática da ciência e tecnologia”, o “amor pela pátria e por Macau” ou sobre a história do território, entre outras temáticas. Cada um dos roteiros dura cerca de cinco horas, incluindo almoço.

Em várias línguas

Se os alunos residentes têm direito a uma visita gratuita, o mesmo não acontece com não-residentes, que têm de pagar a visita de estudo na íntegra (280 patacas). O programa contará ainda com guias turísticos que falam cantonês, mandarim, português e inglês, tendo em conta “as diferentes necessidades linguísticas das escolas de Macau”. Em cada excursão haverá docentes e funcionários escolares a acompanhar a visita, sendo que as escolas podem escolher os roteiros adequados para organizar a participação dos estudantes.

O Governo pretende assim que os alunos saiam da sala de aula “para aprender e interagir com os guias turísticos durante a visita guiada ao terreno”, para que “aumente o interesse destes em aprender”.

A DST realizou sessões de esclarecimento para agências de viagens e guias turísticos a propósito do programa, além de que a DSEDJ apresentou o programa às escolas.

O mesmo comunicado refere que os “Roteiros para visitas de estudo” não interferem com as quotas para as excursões locais destinadas a residentes de Macau.

Licenciaturas

DR

Em Maio, estudantes das várias Universidades de Macau licenciaram-se uns após os outros. A Universidade de Macau realizou uma cerimónia de graduação a semana passada. Licenciaram-se mais de 1.800 alunos. Alguns deles afirmaram que, embora tenham enviado três candidaturas de emprego, ainda não tinham recebido qualquer resposta, e outros, que já se formaram há dois anos, disseram que ainda não tinham conseguido encontrar trabalho compatível e que estão actualmente desempregados.

O prolongamento da epidemia de COVID-19 conduziu à retracção da economia de Macau. O desemprego atinge os 4.5 por cento. No primeiro trimestre de 2022, o PIB caiu 8.9 por cento.

A maior parte dos licenciados vai iniciar a procura de trabalho e entrar numa outra fase da sua vida. Actualmente, não vai ser tarefa fácil devido ao abrandamento da economia. A questão que se coloca é como lidar com esta nova situação.

Para quem acabou de se graduar o mais importante é encontrar um trabalho a tempo inteiro que lhe agrade. Enviar mais candidaturas, ir a mais entrevistas e realizar mais testes será inevitável. A procura de trabalho será mais longa do que num período económico favorável. Estes jovens têm de ter paciência e têm de aprender a esperar até que apareça um trabalho adequado.

E esse trabalho terá necessariamente de ser em Macau? A Área da Grande Baía tem 86 milhões de habitantes e está repleta de oportunidades de negócio. Quem começar a trabalhar nesta região pode inicialmente ter um salário não muito elevado, mas existem inúmeras oportunidades para quem acabou de se licenciar que podem abrir portas para mais tarde virem a participar no desenvolvimento da Área da Grande Baía. Após alguns anos de trabalho, podem eventualmente começar o seu próprio negócio e terem acesso a 86 milhões de consumidores.

Se surgir um trabalho que não é o ideal, devem experimentar e ver na prática se lhes convém, e só depois decidirem qual o próximo passo a dar. Grande parte da nossa vida é passada a trabalhar. No início, é melhor experimentar vários tipos de trabalho e depois decidir qual o ramo que mais nos agrada, é preferível a fazer a mudança depois de trabalhar cinco anos na mesma empresa. Quanto mais cedo tivermos um plano de carreira, e quanto mais diversificada for a nossa experiência laboral, mais consciência teremos daquilo que verdadeiramente queremos fazer na vida.

Claro que encontrar um trabalho a tempo inteiro na actual conjuntura económica não é fácil. Se estes jovens não o encontrarem, podem sempre pesquisar no website da Direcção de Serviços para os Assuntos Laborais, onde há muitos programas que ajudam os recém-licenciados.

Mas também podem considerar um trabalho a tempo parcial. Empregos a tempo parcial implicam horários complicados e salários baixos, mas proporcionam aos licenciados experiência de trabalho. Como já foi mencionado, é uma óptima experiência que permite vir a perceber qual é o trabalho mais indicado para cada um.

Mas para encontrar trabalho, os licenciados também podem considerar continuar os estudos. Podem fazer um mestrado, outro bacharelato, um curso de curta duração, etc. O objectivo do Governo de Macau é muito claro, desenvolver a cidade para que venha a ser um centro financeiro de língua portuguesa, que requer técnicos talentosos que falem português. Em períodos de abrandamento económico, é necessário acumular competências, e quando a economia recuperar, estes licenciados vão naturalmente destacar-se. As oportunidades só estão reservadas para aqueles que estiverem preparados. Com a preparação adequada, os licenciados não só encontrarão trabalho no futuro, como encontrarão o trabalho que mais os interessa.

Alguns estão a considerar criar empresas com colegas. Esta é, naturalmente, uma das saídas. O Governo de Macau tem imensos programas para encorajar os jovens a começar o seu próprio negócio. O Plano de Apoio a Jovens Empreendedores fornece informação detalhada sobre estes subsídios.

A licenciatura representa um novo começo na jornada da vida. Todos devemos ter uma vida activa e enriquecedora. Quem acabou de se licenciar não pode apenas ficar em casa sem fazer nada devido à actual situação económica. Fazer isso é um desperdício de tempo. Só enfrentando a vida corajosamente podemos ser bem-sucedidos.


Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Escola Superior de Ciências de Gestão/ Instituto Politécnico de Macau
Blog: http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog
Email: legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk

Acontecimento da Ponte Chip Seng em 1922

Blogue Macau Antigo

Os ideais da Revolução de 1917 na Rússia encontraram grande aceitação na população de Cantão e daí difundidos por Guangdong chegaram aos chineses de Hong Kong e Macau. Os grémios (sindicatos) foram-se logo formando, “onde o espírito revolucionário era incentivado e as palavras socialismo e comunismo pela primeira vez pronunciadas em Macau, como objectivos concretos a atingir”, segundo João Guedes, “Desde finais de 1921, passaram a dinamizar a saída da população para as ruas, em manifestações de protesto que aproveitavam todos os pretextos. Usualmente, tais manifestações tomavam a forma tradicional de coloridas e ruidosas procissões que marchavam ao ritmo de tambores, pratos, timbales e cornetas, e de onde se destacavam cartazes e bandeiras ostentando palavras de ordem e andores com figuras alegóricas” e irónicas.

Em Macau, para dar consciência social à população chinesa, desde o início de 1922 organizavam-se manifestações em forma de cortejos fúnebres a simbolizar o fim do colonialismo dos países europeus. No dia 1 de Maio, Dia do Trabalhador, ocorreu a manifestação mais imponente, permitida pelo Governo de Macau, cujo Governador era então Henrique Monteiro Correia da Silva (1919-20/5/1922).

Andava alvoroçado o ambiente na cidade quando no fim da tarde de 28 de Maio de 1922 ocorreu o incidente, conhecido por “Acontecimento da Ponte Chip Seng”, a fazer transbordar os ânimos. No bairro chinês do Bazar, um soldado ladim dirigiu uma graçola a uma chinesa, referindo a versão do Padre Manuel Teixeira (MT) ter “um praça indígena de Moçambique tropeçado numa criança e a mãe desatar aos berros, juntando-se uma pequena multidão a gritar “Ta!”, isto é, alguns saltaram para cima dele, que se defendeu valentemente, filando um destes e levando-o para a esquadra Chip-Seng, próxima da ponte dos vapores de Hong Kong. A esquadra foi logo cercada, exigindo a multidão a soltura do preso.”

João Guedes refere: “… um soldado do contingente moçambicano agrediu uma cantadeira em plena rua. (…) Ao presenciarem a cena, alguns transeuntes intervieram, gerando-se de imediato violenta discussão que atraiu muita gente (…) A hostilidade dos circunstantes para com o soldado foi crescendo à medida que o alarido aumentava de tom, ouvindo-se gritos secos de incitamento em chinês: Tá! Tá! (batam-lhe). De imediato o soldado encurralado contra a parede foi violentamente agredido, e só a chegada providencial da polícia impediu a consumação do massacre. Posto termo ao desacato, o militar foi conduzido sob prisão para o hospital e um civil recolheu aos calabouços da esquadra do Chip Seng, a uma centena de metros do local.”

Esse civil era o então barbeiro Sr. Au Ieong Seng e segundo ele, o acontecimento foi causado por um soldado português a insultar em público uma senhora chinesa e por tentar parar o mau procedimento deste, o soldado de seguida informou a Polícia para o deter. Perante tal injustiça, os chineses reuniram-se em frente do Corpo de Polícia, para onde fora levado, e reclamaram às autoridades a libertação imediata do operário. Infelizmente as autoridades não só recusaram o pedido, mas também mandaram disparar armas de fogo contra a multidão e eventualmente mataram alguns manifestantes. Esta é uma versão chinesa do acontecimento.

FIM TRÁGICO

João Guedes, com a versão mais completa desta história, adita: “A notícia do incidente rapidamente se espalhou, chegando aos ouvidos de Wong Pik-wan e dos companheiros com quem liderava os sindicatos. Avaliando rapidamente a situação e a intensidade da indignação popular, julgaram finalmente chegado o momento de lançar as massas nas ruas para uma acção decisiva, justificada por uma causa óbvia e mobilizadora.”

Logo o apelo à concentração no Largo do Chip Seng, sendo “o movimento popular secundado pela acção dos sindicalistas, que num quarto do Hotel Kong Kam instalaram a sede da União Geral dos Operários (UGO), formada expressamente para coordenar a luta. Estrategicamente situado em posição sobranceira ao edifício da esquadra, o hotel dominava todo o largo e permitia controlar com mais eficiência a acção e a chegada de eventuais reforços policiais.”

Colocaram homens “nalguns telhados dos edifícios circunvizinhos à esquadra de modo a poderem vigiar a Avenida Almeida Ribeiro e o conjunto de pequenas ruas que desembocavam em volta, dando o alerta em caso de avanço de quaisquer forças enviadas para reprimir os manifestantes. Ao mesmo tempo visavam também a ponte-cais das carreiras marítimas de passageiros, já paralisadas pela entrada em greve dos trabalhadores portuários.”

No Largo Chip Seng, ou da Caldeira, fronteiriço às pontes-cais dos vapores das carreiras regulares para Hong Kong, Cantão e Xangai, concentrara-se muita gente e cercara já na Rua das Lorchas (Chip-Seng) a esquadra n.º 1, instalada no antigo cinematografo Chip-Seng. Perante a chegada de cada vez mais populares, “no interior da esquadra a pequena força policial tentou telefonar, mas a comunicação estava interrompida. Valeu um sargento da polícia cívica ver o tumulto e ir informar o Comissariado.” MT.

Para ali seguiu a dialogar com os manifestantes o comandante da corporação Capitão Artur Cabaço, mas sem os conseguir convencer entrou na esquadra e por telefone mandou avançar do Quartel de S. Francisco uma força de Infantaria. Sob o comando do Alferes Trigo, “ao passar pela Av. Almeida Ribeiro foi apedrejada e até alvejada a tiro de algumas janelas, vendo-se obrigada a responder.” Sem haver vítimas em ambos os lados, os quarenta homens conseguiram ir até à esquadra e tomar posição entre os manifestantes e a entrada principal. Depois apareceu o Tenente Ferreira, ali chegado sem ser notado.

“A multidão, conduzindo bandeiras, lanternas, varapaus, bloqueou e barricou as embocaduras das ruas e engrossando noite dentro subira já a cerca de 4 mil pessoas, criando um verdadeiro acampamento a estender-se pela Avenida Marginal, a alguns passos dos soldados a insultá-los e a apupá-los.”

Na manhã seguinte, segunda-feira dia 29 de Maio, vendo extenuada, à espera de ser rendida a cercada e isolada força ali postada e insultada toda a noite, o Capitão Cabaço pediu o envio de reforços por mar, que saíram da Praia Grande.

No Porto Interior “os chineses opuseram-se ao desembarque. O Ten. Gaudêncio Conceição tentou abrir alas, mas sem resultado e o Ten. Rogério Ferreira [que ali já estivera no dia anterior] quis também desembarcar, mas um mais atrevido lançou-se-lhe ao pescoço. Ele puxou da espada, mas foi-lhe arrancada e levada. [Nisto ouviu-se um tiro e um soldado da primeira linha] caiu varado. Os soldados levaram então as espingardas à cara e deram uma descarga sobre a multidão compacta; muitos caíram mortos ou feridos e o resto debandou logo. Agora nem alma viva se via pelas ruas”, MT.

As autoridades contaram oficialmente 78 mortos e mais de duzentos feridos. Era então encarregado do Governo de Macau o Comandante Luís de Magalhães Correia.

Hong Kong | Pequim pede a novo líder que resolva problemas sociais

DR

O primeiro-ministro chinês pediu ontem ao novo Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, para resolver os “problemas sociais” da cidade e desenvolver a economia, numa cerimónia, em Pequim.

Li Keqiang salientou que o novo governo de Hong Kong deve “melhorar a subsistência das pessoas” e “unir os vários sectores da cidade para resolver os problemas sociais”, de acordo com a imprensa local. Na cerimónia, Li apresentou a carta que formaliza a nomeação de Lee, que vai tomar posse em 1 de Julho.

O primeiro-ministro chinês garantiu que o governo central ia defender o princípio “um país, dois sistemas” – que tem governado Hong Kong desde o regresso à soberania chinesa em 1997 e permite um grau de autonomia e liberdades que não existem no continente – de uma “forma abrangente e precisa”, noticiou o jornal da região semiautónoma chinesa South China Morning Post (SCMP).

“Também exerceremos plena e precisamente a jurisdição abrangente do governo central sobre Hong Kong, bem como o princípio de que Hong Kong é administrada por patriotas”, acrescentou.

Segundo Li, Pequim vai “apoiar plenamente” o novo Chefe do Executivo de Hong Kong e o governo, “de acordo com a lei”, e salientou que a cidade devia “estudar os pontos fortes e as áreas em que se pode destacar”, e “compreender também o que o país precisa da cidade”, uma vez que “se integra” no desenvolvimento da nação.

“O novo governo da cidade precisa de melhorar a sua eficiência e reforçar o estatuto de Hong Kong como centro internacional de finanças, comércio e transportes”, acrescentou o primeiro-ministro chinês.

Com todo o gosto

Em resposta, Lee, de 64 anos, disse aceitar a responsabilidade “com lealdade”, depois de ter sido eleito, em 8 de Maio, por 1.416 dos 1.461 membros da comissão eleitoral.

Antigo inspector da polícia, Lee ocupava a pasta da Segurança quando Hong Kong foi palco de manifestações anti-governamentais, em 2019.

Foi também fundamental na implementação da lei de segurança nacional, imposta em Junho de 2020 por Pequim para pôr fim aos protestos, cada vez mais violentos. Em Junho do ano passado, foi nomeado “número dois” no Executivo.

A eleição do Chefe do Executivo foi adiada por seis semanas devido à pandemia da covid-19, e foi a primeira a realizar-se desde que Pequim impôs alterações ao sistema eleitoral da cidade, em 2021.

Literatura infantil | “Uma Casa com Asas”, de Andreia Martins, apresentado sexta-feira 

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Andreia Martins, professora do ensino básico, escreveu “Uma Casa com Asas” a pensar numa menina que brincava na rua e que, de repente, se viu obrigada a ficar em casa. Até que um dia a máscara lhe permite voltar a fazer a vida normal. A obra, dedicada aos filhos e alunos de Andreia Martins, é apresentada na sexta-feira no Café Oriente, no IPOR, e integra o cartaz oficial das celebrações do 10 de Junho

 

Não é um livro que fale directamente sobre a existência de um vírus, mas a história da protagonista acaba por remeter para o período especial que o mundo vive. Na sexta-feira, o Café Oriente, no Instituto Português do Oriente (IPOR), recebe o lançamento de “Uma Casa com Asas”, da autoria de Andreia Martins, docente do ensino básico na Escola Portuguesa de Macau (EPM), com ilustrações de Catarina Vieira.

O projecto nasceu no início da pandemia, quando Andreia Martins teve de começar a dar aulas online a partir de casa e, ao mesmo tempo, a tomar conta dos três filhos. “Numa dessas noites em que preparava as aulas para os meus alunos olhei para um desenho que a minha filha tinha feito, uma casa com umas asas, e escrevi sobre o que estávamos a passar”, contou ao HM.

Surgiu então a história de uma menina “que gostava muito de brincar na rua e, de repente, não pôde sair mais”. “Não falo de um vírus específico mas a história marca uma mudança de registo e de liberdade. Um dia a menina descobre uma coisa rectangular que mete nas orelhas com cuidado e que permite que volte a sair e a fazer algumas das coisas que fazia antes, que é a máscara. Este foi um livro escrito numa altura em que toda a Europa rejeitava o uso de máscara, ao contrário do que se passava aqui, o que é uma coisa cultural. Foi ver a possibilidade que a máscara nos deu [de fazer uma vida relativamente normal]”, adiantou a docente.

“Uma Casa com Asas” é uma obra dedicada aos filhos e alunos de Andreia Martins, bem como “para todas as crianças que têm de viver com a nova realidade”.

“A história é sobre o que cada criança experienciou e sobre o que elas inicialmente não puderam fazer, pois ficaram em casa, e de como a máscara possibilitou um regresso às rotinas. Acabo a história com a ideia de que ‘não pode tocar em tudo, mas aprendeu a esperar e a ter esperança’. Marca uma viragem e como professora penso que faz sentido, porque as crianças passaram a ver as pessoas de outra forma.”

No YouTube

Andreia Martins revela uma enorme paixão por contar histórias e acabou por recorrer ao YouTube para esse fim. Nos vídeos apenas se ouve a voz e se vêem as ilustrações do livro que se lê, um elemento que acabou por influenciar a escolha das ilustrações para “Uma Casa com Asas”.

“Fiz questão de descrever intensamente as minhas ilustrações à ilustradora para ela poder captar a realidade de Macau, e este canal de YouTube possibilitou aos meus alunos a continuar a ouvir as histórias. A mim possibilitou-me uma maior aprendizagem”, apontou.

“Uma Casa com Asas” esteve na gaveta durante muito tempo devido a contratempos com a selecção da editora. A escolha do trabalho de Catarina Vieira surgiu através de uma amiga. “Foi feito depois um trabalho de descrição, porque há muitos pormenores de histórias que leio que fui retendo e que gostaria de ver no meu livro.”

Acima de tudo, “esta história foi imaginada com o traço da Catarina, mas tudo o que está na história foi pensado e definido por mim”. “A minha experiência como professora e mãe faz com que perceba o que eles [filhos e alunos] gostam. Esta história é para eles, tem uma menina suja, descalça, que brinca com materiais de cartão. Há detalhes que quis que ficassem na história para segundas leituras”, concluiu Andreia Martins, para quem lançar um livro acabou por se revelar uma surpresa.

ARTM apoia oito reclusos toxicodependentes

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A Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau revelou estar a acompanhar oito reclusos através de sessões terapêuticas e apoio psicológico. Augusto Nogueira aponta que o nível de consumo de droga em Macau está “controlado”, apesar de ter havido um “pequeno aumento”. Metanfetamina é a droga mais consumida e heroína é “residual”

 

A Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM) está a prestar apoio psicológico a oito reclusos que se encontram detidos no Estabelecimento Prisional de Coloane por crimes relacionados com droga.

Segundo o presidente da ARTM, tal como já vem sido hábito nos últimos anos, semanalmente, uma equipa composta por voluntários, uma assistente social e uma enfermeira, vão ao encontro destes toxicodependentes para providenciar “sessões terapêuticas” e a companhia que quase sempre falta. Sobretudo, quando, na maioria dos casos, os reclusos não dominam a língua chinesa.

“Os voluntários aceites são acompanhados pela nossa assistente social e enfermeira e vão regularmente à prisão para se encontrar em com os reclusos que têm problemas de adição relacionados com droga ou foram detidos por problemas relacionados com estupefacientes. Falamos dos trigers e sobre prevenção, ou seja, tentamos ajudá-los a ultrapassarem e recuperarem do seu problema da droga enquanto estão presos”, começou por explicar Augusto Nogueira ao HM.

“É um grupo de pessoas que só tem estrangeiros e, muitas vezes, não domina a língua chinesa. Ao fim ao cabo, isto serve também para eles terem companhia já que (…) não têm visitas nem ninguém com quem falar. Através deste plano, a ARTM tenta colmatar esta lacuna”, acrescentou.

Augusto Nogueira lembra ainda que, em nenhum momento, a pandemia de covid-19 impediu a ARTM de prestar apoio psicológico aos reclusos e que, durante o período em que estes estiveram impedidos de receber visitas, a associação implementou a iniciativa “cartas de amor”, permitindo assim a correspondência com os toxicodependentes “sobre as suas preocupações e a recuperação”.

Aumento ligeiro

Questionado sobre a actual situação do consumo de estupefacientes em Macau, Augusto Nogueira traçou um cenário “controlado”, onde se regista um “pequeno aumento” em relação ao ano passado. Isto, apesar de a droga estar “muito mais cara”.

“Neste momento, o consumo de droga em Macau regista um pequeno aumento (…) mas diria que a situação continua controlada. Não há aumentos significativos no consumo. Quanto ao tráfico, os criminosos tentam arranjar formas de fazer entrar droga aqui em Macau, sobretudo através de encomendas, mas a polícia está a fazer um bom trabalho. Isto indica que existe consumo, senão os traficantes não se dariam ao trabalho de enviar droga para Macau”, apontou.

O responsável relativiza, contudo, as ilações, dado resultarem apenas da actuação policial e não na “situação real”.
“Houve um pequeno aumento a nível de consumo, mas isso está relacionado com a actuação da polícia. Não quer dizer que esse aumento [do consumo] seja real, mas sim que a polícia detectou mais casos”, explicou.

Quanto ao tipo de droga mais consumido, Augusto Nogueira não tem dúvida de que actualmente são as metanfetaminas que dominam o mercado em Macau.

“Pelo que sei através da nossa equipa de rua, a heroína é quase residual ou insignificante neste momento. O que há mais hoje é o consumo de metanfetaminas”, sublinhou.

Imobiliário | Sector apresentou 430 pedidos de apoio

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Desde o início da pandemia, em 2020, e o final de Abril de 2022, o sector imobiliário de Macau submeteu, no total, 430 candidaturas aos planos de apoio destinados às pequenas e médias empresas (PME) da Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT).

Respondendo a uma interpelação de Song Pek Kei, o presidente do Instituto de Habitação (IH), Kuoc Vai Han, revelou que o sector apresentou 290 candidaturas ao Plano de Apoio a Pequenas e Médias Empresa e 140 candidaturas ao Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários para as PME.

Do grupo de 290 candidaturas ao primeiro plano, 229 foram aprovadas, envolvendo uma verba de cerca de 20 milhões de patacas. Já das 140 candidaturas afectas ao segundo plano, 138 foram aprovadas, envolvendo 137 milhões de patacas para montantes dos créditos bancários bonificados e cerca de 8,47 milhões de patacas de montante concedido para a bonificação de juros.

Segundo o IH, os apoios têm contribuído para “a redução dos custos de financiamento do sector, bem como para dar continuidade ao sector de mediação imobiliária”.

Kuoc Vai Han revelou ainda que o Governo não planeia rever a “Lei da Actividade de Mediação Imobiliária” actualmente em vigor, dado que o actual diploma tem alcançado um “efeito positivo na regulação do exercício da actividade do sector”.

Função Pública | Salários congelados até 2023, o terceiro ano consecutivo

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Os trabalhadores da Função Pública vão permanecer sem actualização de salários em 2023, devido à “incerteza na conjuntura económica”. Pereira Coutinho compreende a posição do Governo, apela à união face à crise do desemprego e revela situações “dramáticas” de funcionários públicos que garantem a estabilidade financeira de familiares

 

Os salários da Função Pública não serão aumentados em 2023, marcando o terceiro ano seguido sem actualização salarial, de acordo com um despacho publicado ontem no Boletim Oficial que fixa as orientações e o calendário para propostas orçamentais de serviços públicos para o próximo ano.

Assim sendo, “o valor relativo às despesas dos orçamentos” dos serviços públicos, “não deve exceder o valor das referidas despesas constante no Orçamento do ano económico de 2022”, ou seja, não existe margem de manobra para aumentar despesas com salários.

“Por existir ainda incerteza na conjuntura económica, os serviços e organismos, na elaboração das suas propostas orçamentais, devem avaliar as diversas despesas orçamentais com prudência”, justificou Ho Iat Seng.

Em simultâneo, ficam também congeladas contratações, uma vez que “o número de trabalhadores dos serviços e organismos não deve ultrapassar o número padrão de trabalhadores autorizado e o número de trabalhadores a serem recrutados também não deve exceder o número de quota de trabalhadores disponíveis das entidades tutelares”, afirma o Chefe do Executivo no despacho divulgado ontem.

De mãos dadas

“Neste momento, não há condições em Macau para propor essas medidas [de aumento de salários] e os trabalhadores da Função Pública sabem disso muito bem. Agora temos todos de remar para o mesmo lado”, afirmou ao HM o deputado José Pereira Coutinho, também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM).

Na óptica do legislador, todos os esforços políticos devem ter como foco a redução da taxa de desemprego, realidade que está a originar “situações dramáticas”.

“Muitos trabalhadores da Função Pública têm familiares desempregados e os seus salários resolvem necessidades diárias, chegam mesmo a conceder empréstimos a familiares aflitos”, revelou o dirigente da ATFPM.

Com a contenção a continuar na agenda orçamental, Pereira Coutinho apela à união e ao combate ao desemprego. “Temos de dar as mãos e ver como podemos criar mais emprego”, apontou o deputado ao HM.

Emprego | Kaifong pedem mais apoios à contratação de residentes

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Os deputados da União Geral das Associações dos Moradores de Macau, Ho Ion Sang e Ngan Iek Hang, têm esperança de que o Governo lance mais medidas para incentivar a contratação de residentes desempregados.

Citado pelo jornal Ou Mun, Ho Ion Sang recordou que a pandemia dura há demasiado tempo e que muitas pequenas e médias empresas ficaram sem fluxo de capitais e estão num estado crítico, à beira da falência.

O novo membro da “bancada” dos Kaifong na Assembleia Legislativa, Ngan Iek Hang, apontou a via fiscal para aliviar as despesas das empresas, nomeadamente através do aumento do montante máximo de isenção do imposto profissional até 20 mil patacas.

O jovem deputado considera que o stress financeiro levou este ano ao aumento de suicídios e casos de violência doméstica e que as ramificações da crise económica afectam as famílias de múltiplas maneiras.

Neste contexto, a situação dos cuidadores de idosos ou de pessoas com problemas de saúde incapacitantes foram destacadas pelo deputado, que considera ser necessário atribuir um apoio específico. Além da ajuda financeira, Ngan Iek Hang sugere que o Governo trabalhe com as associações para aliviar estas pessoas fornecendo cuidados a idosos e pessoas com doenças incapacitantes.

Economia | Che Sai Wang alerta para nova vaga de recém-licenciados

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Num contexto de crise, o mercado de trabalho terá de acomodar “mais de quatro mil graduados”, que vão completar licenciaturas já em Junho, alertou o deputado Che Sai Wang, eleito no último sufrágio para a AL pela lista da ATFPM.

Che propôs a extensão do programa de estágios organizado pelo Governo e pela Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau, em Hengqin, que vai oferecer entre Julho e Dezembro “mais de 500 estágios” a estudantes entre os 18 e os 45 anos e a jovens com experiência profissional.

Estas formações profissionais, referiu, “distribuem-se por Xangai, Guangzhou, Zhuhai e Hengqin” e o “Governo deve incentivar a implementação de mais programas de estágio semelhantes para proporcionar aos jovens um novo modelo do acesso ao emprego”.

Neste sentido, José Pereira Coutinho perguntou ao secretário Lei Wai Nong porque não são alargadas as primeiras experiências profissionais dos jovens a outros locais, como Singapura, Hainão, Hong Kong ou mesmo os países de língua portuguesa. “Temos muitos estudantes que estão a estudar português, por que não faz algo para que esses estudantes tenham oportunidades de estágios nesses países lusófonos?”, perguntou. A questão ficou sem resposta do secretário para a Economia e Finanças.

Lei Wai Nong admite que inflação vai continuar a subir

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O secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong, admitiu ontem que a inflação dos preços dos combustíveis e bens essenciais vai continuar a subir nos próximos tempos e que “todos têm de estar preparados” para acondicionar as dificuldades.

Por seu turno, garantiu o secretário, o Governo vai manter contacto com todos os sectores para assegurar o nível dos preços, empolados pela pandemia e a guerra na Ucrânia.

Para Lei Wai Nong, o galopante aumento da inflação não é problema exclusivo de Macau, com a agravante de que os bens alimentares consumidos no território são “100 por cento importados”. No entanto, Lei Wai Nong acredita que as medidas de apoio lançadas pelo Governo, onde se inclui a terceira ronda do cartão de consumo e o subsídio à contratação de residentes desempregados, vão ser capazes de aliviar a pressão sentida pela população.

“Com o aumento do preço dos produtos e a manutenção em alta do ciclo dos juros, todos temos de estar preparados. Da nossa parte, vamos manter comunicação com todos os sectores para assegurar o nível e fiscalização dos preços. A partir do dia 1 de Junho, o plano do cartão de consumo vai entrar em vigor e esperamos que essa medida ajude a aliviar a pressão da população”, apontou Lei Wai Nong.

Navegar à bolina

A tomada de posição do secretário surgiu no seguimento de deputados como Leong Sun Iok, José Pereira Coutinho e Lei Leong Wong terem pedido uma maior intervenção do Governo na fiscalização dos preços dos bens alimentares e dos combustíveis, temendo que os estabelecimentos tirem partido da nova ronda de apoio para subir ainda mais os preços e que as gasolineiras combinem preços entre si.

“Quer o cartão de consumo, quer as outras medidas que temos vindo a lançar são para ajudar a população, mas a oscilação dos preços vai continuar. Acredito que, tendo em conta as necessidades do mercado, nem todos os que estão a cargo da sua exploração, irão transferir os custos para consumidores”, referiu Lei Wai Nong.

Quanto aos combustíveis, o Governo assegurou que os preços praticados em Macau são, não só inferiores ao preço de mercado, mas também aos praticados em Zhuhai e Hong Kong. Sobre a possibilidade de instalar novos postos de abastecimento, o Executivo admitiu que estes poderão surgir, por exemplo, nos novos aterros.

Sobre a proposta de Pereira Coutinho de criar uma “reserva estratégica de produtos alimentares, petrolíferos e energéticos, Lei Wai Nong disse que a reserva de “alimentos, óleos alimentares e bens de primeira necessidade encontra-se suficiente e o seu fornecimento está normal”, podendo suportar as necessidades da população durante mais de um mês.

Saída de TNR não resolve desemprego, afirma Lei Wai Nong

Rómulo Santos
Lei Wai Nong considera que, por si só, a saída de trabalhadores não-residentes não contribui para resolver o desemprego em Macau. Perante os pedidos de deputados para assegurar o emprego de locais, o governante admitiu que cortar quotas de TNR pode ser “maléfico para a sociedade” e “empurrar as PME contra a parede”

 

Apesar dos pedidos de vários deputados para que o Governo tome medidas para assegurar o emprego de residentes locais, o secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong vincou que a saída de trabalhadores não-residentes (TNR) não é a solução para resolver o problema do aumento da taxa de desemprego de Macau.

“A saída de TNR não resolve o problema do desemprego em Macau. Se agora cancelarmos todas as quotas, isto não quer dizer que os residentes ocupem os respectivos postos de trabalho, e isso seria uma perda para todas as partes. O Governo não vai cancelar todas as quotas de uma só vez, porque isso não vai resolver os problemas”, apontou ontem Lei Wai Nong, durante uma sessão plenária dedicada às respostas a interpelações orais. “A saída dos TNR não é difícil, mas depois quem ocupa esses postos de trabalho?”, acrescentou.

Lei Wai Nong falava na sequência das interpelações dirigidas por Lo Choi In e Ella Lei, com a última a pedir ao Governo a implementação de “medidas concretas para assegurar e promover o emprego dos residentes”, um pedido repetido por vários deputados ao longo das últimas sessões plenárias.

Na resposta às deputadas, Lei Wai Nong recordou que, entre Dezembro de 2019 e Abril deste ano, 29.927 TNR abandonaram os seus postos de trabalho. No entanto, após uma segunda ronda de intervenções que contou com as opiniões de Zheng Anting, Ip Sio Kai, Leong Hong Sai e Song Pek Kei sobre as consequências que um corte indiscriminado das quotas de TNR pode vir a ter para a sobrevivência das PME, o secretário mostrou-se concordante e sublinhou ser fundamental encontrar “equilíbrio” e compreender em que sectores os residentes querem trabalhar.

“Empurrar as PME contra a parede será maléfico para toda a sociedade porque estão numa situação muito difícil (…) e é preciso encontrar um equilíbrio”, começou por dizer. O governante acrescentou que “há sectores onde os residentes não querem trabalhar” e que os locais “precisam melhorar as suas capacidades”. “Os empregadores querem um trabalhador que tenha capacidade”, concretizou.

“As PME são elementos nucleares na nossa economia (…) por isso é preciso equilíbrio e, mesmo com o mecanismo de saída dos TNR (…) temos de ver se se trata de um sector em que os residentes querem trabalhar (…) antes da renovação das quotas”, rematou.

Dados divulgados na semana passada pela Direção dos Serviços de Estatísticas e Censos (DSEC) fixavam a taxa de desemprego dos residentes em 4,5 por cento, ou seja, 13.300 desempregados, a maioria exercia funções no ramo do jogo e da construção.

Menos ais

Durante a sessão de ontem, o secretário para a Economia e Finanças disse ainda que, perante o actual cenário de crise, é natural que as remunerações tenham decrescido e que, por isso, os trabalhadores devem também baixar as expectativas e “aceitar as actuais regalias e salários”. “Os empregadores têm de apresentar um salário de acordo com o mercado e os trabalhadores têm que aceitar as actuais regalias e salários. Isso é um ponto fulcral”, vincou.

Questionado por Ella Lei sobre as medidas a tomar para assegurar os salários e os postos de trabalho dos funcionários dos casinos-satélite, Lei Wai Nong, referiu tratar-se de uma área em que “o Governo não pode intervir” por ser uma “decisão comercial”. No entanto, explicou que, se se tratar de um croupier “as concessionárias (…) devem ter lugar para os seus próprios trabalhadores”.

No entanto, se o trabalhador pertencer à zona do hotel, “estamos a falar de outra situação”, disse Lei Wai Nong. “Se, de facto esse hotel tiver muitos TNR e se os residentes quiserem esses postos de trabalho, os TNR devem sair. O Governo tem as suas responsabilidades e vai fazer o seu trabalho”, acrescentou. Com Lusa 

Saúde mental | Profissionais portugueses recordam arranque dos serviços em Macau 

Tiago Alcântara
Na década de 80 eram parcos os recursos em matéria de saúde mental, sobretudo no capítulo da prevenção. Inês Silva Dias recorda o trabalho que foi feito com a comunidade e a persistência junto do Governo para que fosse criada uma lei da saúde mental, projecto que só se tornou uma realidade em 1999. Goreti Lima, psicóloga, destaca o facto de o panorama ter vindo a melhorar, embora se continue a apostar muito numa resposta farmacológica

 

Em 2005, foi inaugurada a Clínica Psiquiátrica da Taipa. Mas a verdade é que o trabalho da Administração em prol da criação de mais serviços de tratamento e prevenção na área da saúde mental havia começado cerca de 20 anos antes. Na década de 80, um grupo de psiquiatras viajaram de Portugal para Macau, tendo sido os responsáveis por criar um serviço integrado de consulta, internamento e acompanhamento comunitário praticamente do zero. À época, faltava uma lei de saúde mental e não havia sequer regime de internato para formar clínicos chineses.

Inês Silva Dias, psiquiatra e fundadora, em Macau, da associação Richmond Fellow, recorda ao HM os primeiros tempos quando percebeu que iria ter muito trabalho pela frente. “Cheguei em 1985 quando a saúde mental e a área da psiquiatria estavam nos primórdios em termos de existência e na forma como estava divulgada junto da população.”

“Estranhei imenso o ambiente que se vivia do ponto de vista da psiquiatria, porque, uns anos antes, tinham construído um edifício que, por falta de quadros difíceis de recrutar, funcionava para outros fins, e a psiquiatria estava lá num canto. Houve dificuldades em recrutar técnicos em Portugal e era tudo ignorado.”

No sector privado, o hospital Kiang Wu tinha encerrado o serviço de saúde mental, porque não dava lucro. As respostas para quem tinha problemas nesta área eram parcas ou nulas.

“Era um momento bastante crítico porque praticamente não havia assistência nessa área. O Governo recrutou então alguns psiquiatras que foram para Macau e começaram a dar os primeiros passos para organizar os cuidados e, numa fase posterior, ter atenção à saúde mental, no sentido da prevenção.”

Chegados a um território onde a maioria da população falava chinês, foi preciso recorrer a intérpretes para dar as consultas. Embora houvesse ainda preconceito em relação à doença mental, essa resistência à procura de aconselhamento médico reduziu-se nos casos mais graves. A partir daí, criaram-se situações de aceitação e laços que perduraram.

“Havia o desejo de melhoria sobretudo quando havia doentes graves nas famílias. Na comunidade chinesa, quem tinha familiares com problemas mentais quase que escondia os doentes. Mas quando a situação era disruptiva, no sentido do comportamento, as pessoas procuravam ajuda e tornavam-se receptivas em relação ao tratamento. Fiquei com ligações a doentes que me escreviam já depois de eu sair de Macau”, recordou Inês Silva Dias.

Apoio a toxicodependentes

A certa altura, os serviços de saúde mental viram-se obrigados a responder aos casos de toxicodependência, que na década de 80 eram mais visíveis no território. Numa recente entrevista ao HM, Helena Cabeçadas, formada em antropologia, recordou a fase em que viveu no território e fez trabalho na área da saúde mental e toxicodependência para os Serviços de Saúde de Macau (SSM). Helena, que deu também aulas na então Universidade da Ásia Oriental (hoje Universidade de Macau), recordou a época dos “consumidores de heroína, que era barata e de boa qualidade”, e quando o trabalho era cheio de desafios.

“Era um mundo muito masculino, e havia um registo mais prisional do que terapêutico, o que contrastava com aquilo que eu conhecia em Portugal e nos EUA. Éramos poucos terapeutas e funcionava como um grupo de guardas prisionais. Incomodava-me esse registo porque não estava de acordo com a minha visão [de abordar o problema], que defendia a reabilitação. Em Hong Kong, em contrapartida, tinha contactos muito interessantes do ponto de vista profissional, porque fazia-se ali um trabalho que tinha mais a ver com a minha maneira de encarar esses problemas.”

Augusto Nogueira, presidente da Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM), recorda um período do “boom da heroína e do haxixe”, onde o consumidor era visto como um criminoso. “Eram novas experiências e as pessoas não sabiam muito bem como lidar com elas, mesmo a nível terapêutico. Não havia muitos conhecimentos em termos de comunicação e terapia. A droga era vista como algo maquiavélico e a punição era a ferramenta para lidar com o consumo. Havia muitos tratamentos à base da religião e tentava-se ajudar as pessoas com o pouco conhecimento que existia”, contou ao HM.

Antes da chegada da associação Ser Oriente, em 1993, já existia, em Ka-Hó, Coloane, o Centro Desafio Jovem, que propunha um tratamento da toxicodependência com ligação à religião. “A Ser Oriente não tinha muitas relações com o gabinete de prevenção para a toxicodependência [dos SSM] mas depois de 1999 reunimos com o Instituto de Acção Social, onde mostrámos a nossa vontade de permanecer em Macau”, lembrou Augusto Nogueira.

“Depois, com um grande esforço do IAS em dar apoio a associações, conseguimos profissionalizarmo-nos mais na prevenção e ir ao estrangeiro, aprender com o que estava a ser feito lá fora. Desde 1999 passámos de amadores, à base da boa vontade, para algo mais profissional com cabeça, tronco e membros. Deixámos de ter de pedir dinheiro na rua para sobreviver”, disse o actual presidente da ARTM.

A importância da lei

Se faltavam recursos para dar respostas, a lacuna era ainda maior em matéria legislativa. Inês Silva Dias foi uma das vozes que mais lutou para a implementação do regime de saúde mental, que seria implementado a 12 de Julho de 1999.

“As autoridades percebiam que havia a necessidade de responder aos problemas da área, mas também eram capazes de ter preconceitos com a doença mental, como toda a sociedade. Foi preciso um trabalho árduo e persistente para conseguir alterar a situação. Tudo começou em 1985 e penso que tive um papel na sensibilização das autoridades para a necessidade desta lei, que depois ficou em preparação.”

O regime vigora hoje, em conjunto com uma Comissão de Saúde Mental, criada em 2005. No preâmbulo da lei lê-se que já eram prestados cuidados psiquiátricos em regime de ambulatório, internamento ou urgência, sendo que o hospital Kiang Wu havia encerrado “o serviço de psiquiatria e transferiu os doentes crónicos para a Unidade Psiquiátrica da Taipa”. Seria criada, mais tarde, a Unidade de Doentes Crónicos do Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar Conde S. Januário. À data, era “a única unidade prestadora de cuidados psiquiátricos” em Macau.

Pretendia-se, com esta lei, a “reformulação da filosofia da prestação dos cuidados psiquiátricos no Território a partir de uma visão cientificamente actualizada do tratamento e apoio à pessoa portadora de distúrbio mental”, onde os “cuidados psiquiátricos deixam de estar limitados às instituições hospitalares, cuja função primordial era a custódia do doente, e são reorientados para a reabilitação e inserção comunitária da pessoa portadora de distúrbio mental”.

O regime define também os direitos e deveres da “pessoa portadora de distúrbio mental”, tendo sido definidos os regimes de internamento compulsivo e de urgência.

O trabalho comunitário

Inês Silva Dias prefere recordar também o trabalho de campo feito entre 1985 e 1999, sobretudo na ligação com a comunidade. “Para implementar o tratamento e chamar a comunidade a participar nos cuidados, foi feita uma intervenção a nível das estruturas governamentais, mas na altura fundei uma associação, que ainda hoje existe, a Richmond Fellowship, que visava envolver a comunidade civil. Conseguimos criar uma série de estruturas intermediárias para que os doentes mentais não ficassem reduzidos ao espaço hospitalar e às famílias.”

Além disso, a médica psiquiatra ajudou também a fundar, no São Januário, o regime de internato para médicos chineses. “Foi possível criar um internato para a formação de médicos chineses em psiquiatria, que não havia. Isso foi inovador. Estávamos em pleno período de transição e a grande parte da comunidade portuguesa não iria ficar, pelo que era importante formar clínicos. Íamos [para Macau] em comissões de serviço e pareceu-me importante dar formação a médicos chineses.”

A última vez que Inês Silva Dias visitou Macau foi em 2006 e relata uma situação satisfatória em termos de resposta. “O meu desejo era que houvesse uma batalha diária para que a psiquiatria e saúde mental se possam manter visíveis e para que haja um alerta junto das autoridades em prol de um maior investimento em recursos para acompanhar as novas formas de actuação.”

O HM enviou também algumas questões aos SSM no sentido de compreender a evolução em matéria de saúde mental até aos dias de hoje, mas em cerca de dois meses não foi obtida qualquer resposta. A título de exemplo, os SSM criaram, em 2016, serviços ao domicílio na área da psiquiatria para os casos mais graves, além de existir uma consulta externa de especialidade no São Januário.

Medicamentos como resposta

Num debate na Assembleia Legislativa em Outubro de 2020, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong U, garantiu que havia um período de 18 dias de espera para se ter aceso a uma consulta de psiquiatria no hospital ou centros de saúde. A acessibilidade a estas consultas foi considerada “bastante elevada”. Neste debate, a secretária lembrou ainda os subsídios concedidos a associações para a prestação de serviços psicológicos na comunidade.

Goreti Lima, psicóloga e ex-residente de Macau, saiu do território em 2019, mas ainda hoje atende residentes via online. O fecho de fronteiras e a pandemia veio aumentar a procura por ajuda.

“Parte do meu rendimento em Portugal vem de pessoas que estão em Macau numa situação em que não podem sair e precisam de algum apoio psicológico e emocional. Agora sim, é que as pessoas vivem numa bolha.”

Hoje a resposta é maior e até existem mais cursos de psicologia no ensino superior. Mas a tendência, da parte de quem se sente doente, continua a ser, numa primeira fase, a busca pela medicação. “Por norma, quando as pessoas precisam de ajuda, a primeira pessoa com quem falam é com um psiquiatra, que depois medica para que a pessoa consiga dar a volta aos sintomas. Há alguns clínicos gerais que prescrevem alguns ansiolíticos. A abordagem é muito farmacológica”, destaca a psicóloga.

No entanto, “há cada vez mais a tendência para se procurar primeiro um psicólogo, e quando saí de Macau isso era cada vez mais visível”, inclusivamente no seio da comunidade chinesa, onde por norma existe um maior tabu em abordar problemas deste tipo.

“Não sei quais são as necessidades da população neste momento, mas acho que a saúde mental não tem de ser tratada, mas pode ser prevenida. Sinto, em qualquer parte do mundo, que há pouca prevenção na saúde mental. A medicação ajuda, mas não resolve a causa do problema. Se nas escolas, ou junto das famílias, tivéssemos mais apoio [as coisas poderiam ser diferentes].”

Goreti Lima acredita que o cenário hoje é de alguma desconfiança em relação aos serviços psicológicos disponíveis no território.

“Até eu sair, em 2019, procurava-se muito o psicólogo português ou de Hong Kong. Sempre achei que havia pouca resposta, e as pessoas não confiavam no que havia no território. Porque às vezes são pessoas recém-formadas numa universidade privada e não se sente tanta confiança.”

Goreti Lima, que chegou a dar aulas no curso de psicologia da Universidade de São José, relatou que há muitos licenciados que são depois inseridos em instituições sociais ou escolas, “mas não propriamente em hospitais e clínicas”. A medida está integrada na política de aconselhamento que a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude implementa nas instituições de ensino.