Ruínas de São Paulo | Incidente com drone não provocou danos

O Instituto Cultural (IC) emitiu ontem um comunicado onde garante que o incidente com um drone ocorrido esta quarta-feira não causou qualquer dano às Ruínas de São Paulo. Ontem foram enviados funcionários do IC para fazer uma “inspecção detalhada” ao local, onde se incluíram “uma vistoria, a comparação de fotografias e análise de dados através da digitalização 3D”.

Após a ocorrência do incidente, o IC “informou a Autoridade de Aviação Civil e irá comunicar com as autoridades relevantes no sentido de conduzir discussões adicionais, especialmente sobre o uso de drones junto de relíquias culturais importantes, a fim de decidir se é necessário formular medidas correspondentes”.

25 Jan 2019

Ruínas de S. Paulo vedadas para monitorização

As Ruínas de S. Paulo vão estar vedadas ao público nos dias 5 e 12 entre as 23h e as 6h da manhã do dia seguinte para monitorização, informou o Instituto Cultural (IC).

Em comunicado, o organismo indica que, a fim de assegurar a segurança da estrutura, utiliza anualmente um ‘scanner’ tridimensional para proceder ao exame geral da superfície da fachada do monumento e ao registo dos respectivos dados.

A monitorização começou na passada sexta-feira, dia em que a área do adro com pavimento em lajes de granito e a escadaria do monumento foram interditas ao público durante a noite.

3 Out 2018

Carrilho da Graça, autor da recuperação das Ruínas de São Paulo, homenageado no México

O arquitecto João Luís Carrilho da Graça, autor do projecto de recuperação e musealização das Ruínas de São Paulo, nos anos 90, vai ser homenageado no encontro de arquitetura da Feira do Livro de Guadalajara, no México, que se realiza de 24 de novembro a 02 de dezembro, com Portugal como país convidado.

O anúncio foi feito na noite de sexta-feira, no México, madrugada de sábado em Portugal, num encontro com a imprensa do reitor do Centro Universitario de Arte, Arquitectura e Design (CUAAD) da Universidade de Guadalajara, Ernesto Flores Gallo.

A trajetória de 30 anos do arquiteto português, “desenvolvida em estreita relação entre a prática profissional e académica”, assim como “a pureza, a elegância, as formas e as linhas da sua obra são alguns dos motivos pelos quais João Luís Carrilho da Graça será reconhecido com a Homenagem ArpaFIL 2018”, disse Ernesto Gallo, citado pelo comunicado da organização.

Nascido em Portalegre, Carrilho da Graça, de 65 anos, Prémio Pessoa em 2008, é autor, entre outros projetos, do Terminal de Cruzeiros de Lisboa, do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva, da Escola Superior de Comunicação Social, do Museu do Oriente, da musealização arqueológica da Praça Nova do Castelo de São Jorge e da Escola de Música da Escola Politécnica, na capital portuguesa.

Licenciado na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, em 1977, ano em iniciou a atividade profissional, Carrilho da Graça foi professor da Faculdade de Arquitetura da então Universidade Técnica de Lisboa, de 1977 a 1992, catedrático da Universidade Autónoma, de 2001 a 2010, e da Universidade de Évora, desde 2005, onde dirigiu o Departamento de Arquitetura.

Foi por várias vezes nomeado para o prémio europeu de arquitetura Mies van der Rohe (1990, 1992, 1994, 1996, 2009, 2011, 2013), distinguido com o Prémio Valmor pelo Pavilhão do Conhecimento dos Mares (1998) e pela Escola Superior de Música de Lisboa (2008).

Ao conjunto da sua obra foram atribuídos os prémios como o da Associação Internacional dos Críticos de Arte (AICA), em 1992, a Ordem de Mérito da República Portuguesa (1999), o título de Cavaleiro das Artes e das Letras da República Francesa (2010) e a Medalha da Academia de Arquitetura de França (2012).

O encontro ArpaFIL de arquitetura, património e arte é realizado pelo CUAAD desde 1995, no âmbito da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL Guadalajara), com o objetivo de partilhar e difundir a experiência de profissionais a jovens arquitetos e público em geral, segundo a apresentação da iniciativa.

A par da homenagem, que se realizará no dia 30 de novembro, a ArpaFIL organiza o Concurso para Jovens Arquitetos, aberto a estudantes de arquitetura, urbanismo, fotografia, artes visuais, “restauro ou afins”.

A participação portuguesa na FIL Guadalajara vai envolver mais de 40 escritores de língua portuguesa, como António Lobo Antunes, Mia Couto, Hélia Correia, Germano Almeida e Manuel Alegre, já distinguidos com o Prémio Camões.

Teolinda Gersão, Dulce Maria Cardoso, José Eduardo Agualusa, Ana Luísa Amaral, João de Melo, Lídia Jorge, Ondjaki, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz e Ricardo Araújo Pereira são outros autores já anunciados.

O programa estende-se à música, à dança, ao teatro, ao cinema e às artes, com participações de criadores como Tiago Rodrigues e Paulo Ribeiro, com a montagem de exposições dedicadas a Almada Negreiros e Ana Hatherly, espetáculos de músicos como Camané, Capicua e Dead Combo, e a exibição de filmes de cineastas como Manoel de Oliveira, Fernando Lopes, Salomé Lamas, Regina Pessoa e João Salaviza.

Durante a FIL Guadalajara será também entregue o Prémio Ibero-Americano de Literatura Infantil e Juvenil, ao qual é candidata a escritora Alice Vieira.

Organizada pela Universidade de Guadalajara desde 1987, a FIL Guadalajara é a maior feira do livro da América e a segunda maior a nível mundial, depois da feira de Frankfurt, na Alemanha.

Todos os anos, soma mais de 800 mil visitantes, durante os seus nove dias, e conta com mais de duas mil editoras de 47 países, e mais de 700 escritores de diferentes línguas.

9 Set 2018

Fotografia | Gonçalo Lobo Pinheiro ganha menção honrosa

O fotojornalista português Gonçalo Lobo Pinheiro conquistou uma menção honrosa na vertente profissional dos International Photography Awards (IPA), anunciou a organização.

A fotografia “Stay Tuned” foi distinguida na categoria “Architecture: Historic” (Arquitectura: Histórico), na vertente para fotógrafos profissionais, de acordo com o comunicado da organização.

No campo dos fotógrafos não profissionais, os portugueses Filipe Matos e Jorge Maia ficaram em terceiro lugar nas secções “People:Lifestyle” (Pessoas: Estilo de vida) e “Nature: Landscapes” (Natureza: Paisagem), respectivamente.

Para a edição de 2017, o IPA indicou ter recebido 14.270 trabalhos oriundos de 165 países.

Nascido em Lisboa, em 1979, Gonçalo Lobo Pinheiro colaborou com vários órgãos de comunicação social, tendo sido editor do Hoje Macau, e é actualmente coordenador fotográfico da Revista Macau, do Gabinete de Comunicação Social do Governo.

Na competição anual podem participar fotógrafos profissionais, amadores e estudantes de todo o mundo e todos os anos, o IPA atribui ainda os títulos de “Fotógrafo do Ano”, escolhido entre os vencedores de todas as categorias, e “Descoberta do Ano”, entre os vencedores de todas as categorias para amadores e estudantes.

Seis candidatos são ainda convidados para a competição “Deeper perspective photographer of the year”, onde as histórias das imagens também são avaliadas.

8 Out 2017

Três fachadas

18/09/17

Não se confessava há vinte e cinco anos. Estava em processo de divórcio, depois de um ano rocambolesco em que (achava ele) se portara indignamente com a mulher e a amante e os filhos, e com mais a terceira que arranjara no fito de se aliviar da pressão e do sarilho de saias em que se enfiou. Duma paixão assolapada com a amante, passara a ser uma relação a cinco na cama, ele, mais a mulher, mais a primeira amante, mais a segunda amante, mais a culpa, toda esta desordem assistida pelo fantasma que segundo Lacan existe “entre” e excita os dois travesseiros.

Foi confessar-se, sentindo-se uma nódoa, indigno, e após um relambório de meia-hora, declara o padre, “Que quer que lhe diga, acho que o senhor não tem espessura humana para pertencer à comunidade católica, aconselho-lhe uma igreja apostólica, os seus pecados são daqueles que prescrevem rapidamente e pelo menos aí com o dízimo continuado sentirá mais a fatalidade da culpa de que nitidamente precisa”.

Ele nunca soube interpretar esta reacção do padre, nem eu. Faltar-lhe-ia uma certa crueldade que dilatasse a extensão do mal, em primor do bem? Hesitávamos.

Até eu ter visto a fachada das ruínas de S. Paulo em Macau e ter entendido diante desse simulacro que as religiões nunca descolaram do oráculo, e que em todas elas o homem está sozinho com aquilo que “ouve” e com o modo como interpreta a mensagem que ouviu. Aquela fachada barroca não passa da simulação de um tímpano, embora a longa escadaria seja subida com veneração (mais que não seja museológica, turística).

Ir à igreja, um templo com miolo, púlpito e tecto, não passa de uma incubação. Como acontecia nalguns templos romanos em que se ia para a cura de uma doença e aquela era dada com o adepto a dormir tendo por almofada uma pedra de toque. Aquela que lhe permitia contactar em sonhos com quem lhe daria uma receita para o problema. Uma frase que se destacaria no seu sonho, a qual, dizia-o Heraclito, era mais um apelo à atenção dos sinais que uma prescrição.

O Matrix colocou os pontos nos is: ao contrário do que julgamos, dormimos. Só que não existe, como se supõe no filme, um único sulco – no caso, satânico – para a navegação onírica. Há sonhos que nos habilitam ao bem, no meio do aleatório e do caos mais adstringente, embora estejamos na plena “guerra dos sonhos”, de que nos fala o antropólogo Marc Augé, num livro de que gosto muito. 

19/09/17

Esta semana, no dia 22, às 18h30,terá lugar o lançamento do meu livro de poemas Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, na Fnac, em Lisboa. Estando em Moçambique enviei um depoimento em vídeo. Onde, para arranque, me socorri de uma coisa assombrosa que descobri em Macau. E cito, esse excerto:

“Pego no missal que é a Clépsidra, na belíssima edição que dela fez o Carlos Morais José, e vou para a banheira, gesto em que imito o Jean-Paul Belmondo que passa uma parte substantiva da acção nos filmes do Godard a ler na banheira – eis o único tique de cinéfilo que me ficou.

Tamborilo com os dedos dos pés na água tépida, descontraído, julgando que poucas surpresas me estarão destinadas e ao abrir ao acaso num soneto sou golpeado pela evidência de estar frente a frente com uma estrutura fílmica. Para que não haja dúvidas, passo a decompor o soneto numa découpage fílmica.

«Desce em folhedos tenros a colina/ – Em glaucos, frouxos, tons adormecidos»: temos um travelling de recuo em plano subjectivo e é fim de tarde; «Que saram frescos, meus olhos ardidos/ Nos quais a chama do furor declina»: passámos a contracampo, para apresentar o sujeito da acção, em GP (grande-plano), e interpõe-se uma sombra no olhar dele que confirma a gradação do poente; «Oh, vem do branco, do imo da folhagem!/ Os ramos, leves, a tua mão aparte»: voltámos ao plano subjectivo mas agora o plano supõe um movimento de câmara interno para fechar em detalhe, ou seja num GP da mão, antes de voltar a câmara a incidir em quem olha. E ouve-se: «Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,/ Reflectir-te virgem a serena imagem.», havendo agora a necessidade de mantermos o GP sobre o observador porque é mais forte que o que se segue seja sugerido na expressão do olhar de quem está de fora: «Da silva doida uma haste esquiva/ Quão delicada osculou um dedo/ Com um aljôfar cor de rosa viva.» E aqui a câmara volta à mulher que desce a colina: «Ligeira a saia!/ Doce brisa impele-a!/ Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo./Alma de silfo, carne de camélia.». E a carne da camélia aqui será reflectida na nódoa de sangue da saia sobre a qual o zoom fecha.”

Nunca se sabe o que um leitor e a sua circunstância podem extrair de um poema. Principalmente se atrás da fachada de um soneto havia um cineasta.

21/09/17

VI-O, ao pé que torna bamba qualquer medida. Bebia uma beer, absorto num ensaio viscoso como crude, e ao ouvir na tv do bar aquela canção com uma letra mais estúpida do que um carrapato quis ver o rosto do grotesco. E ao meu lado, acomodado numa cadeira de chanfuta, interpunha-se O PÉ. Baloiçava. Seria em negro o pé da mulher de Hércules, esta bisarma com ar de destino ou de foz e cuja genitália presumo ser um chamariz de atritos, forrada a papel de parede? É normal que cada pé modele uma sintaxe, à semelhança da vespa que galga a pé-coxinho a parede húmida da minha imperial, mas eis-me gago ou, pior, siderado. Que conexões, que deliciosas incorrecções se poderão fazer à sua sombra! A fachada para uma futura Igreja de Santa Madalena? Pior, o sorriso é-lhe tão abrasivo como o pé é longitudinal. Traga-me duas Laurentinas!

21 Set 2017