Três fachadas

18/09/17

Não se confessava há vinte e cinco anos. Estava em processo de divórcio, depois de um ano rocambolesco em que (achava ele) se portara indignamente com a mulher e a amante e os filhos, e com mais a terceira que arranjara no fito de se aliviar da pressão e do sarilho de saias em que se enfiou. Duma paixão assolapada com a amante, passara a ser uma relação a cinco na cama, ele, mais a mulher, mais a primeira amante, mais a segunda amante, mais a culpa, toda esta desordem assistida pelo fantasma que segundo Lacan existe “entre” e excita os dois travesseiros.

Foi confessar-se, sentindo-se uma nódoa, indigno, e após um relambório de meia-hora, declara o padre, “Que quer que lhe diga, acho que o senhor não tem espessura humana para pertencer à comunidade católica, aconselho-lhe uma igreja apostólica, os seus pecados são daqueles que prescrevem rapidamente e pelo menos aí com o dízimo continuado sentirá mais a fatalidade da culpa de que nitidamente precisa”.

Ele nunca soube interpretar esta reacção do padre, nem eu. Faltar-lhe-ia uma certa crueldade que dilatasse a extensão do mal, em primor do bem? Hesitávamos.

Até eu ter visto a fachada das ruínas de S. Paulo em Macau e ter entendido diante desse simulacro que as religiões nunca descolaram do oráculo, e que em todas elas o homem está sozinho com aquilo que “ouve” e com o modo como interpreta a mensagem que ouviu. Aquela fachada barroca não passa da simulação de um tímpano, embora a longa escadaria seja subida com veneração (mais que não seja museológica, turística).

Ir à igreja, um templo com miolo, púlpito e tecto, não passa de uma incubação. Como acontecia nalguns templos romanos em que se ia para a cura de uma doença e aquela era dada com o adepto a dormir tendo por almofada uma pedra de toque. Aquela que lhe permitia contactar em sonhos com quem lhe daria uma receita para o problema. Uma frase que se destacaria no seu sonho, a qual, dizia-o Heraclito, era mais um apelo à atenção dos sinais que uma prescrição.

O Matrix colocou os pontos nos is: ao contrário do que julgamos, dormimos. Só que não existe, como se supõe no filme, um único sulco – no caso, satânico – para a navegação onírica. Há sonhos que nos habilitam ao bem, no meio do aleatório e do caos mais adstringente, embora estejamos na plena “guerra dos sonhos”, de que nos fala o antropólogo Marc Augé, num livro de que gosto muito. 

19/09/17

Esta semana, no dia 22, às 18h30,terá lugar o lançamento do meu livro de poemas Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, na Fnac, em Lisboa. Estando em Moçambique enviei um depoimento em vídeo. Onde, para arranque, me socorri de uma coisa assombrosa que descobri em Macau. E cito, esse excerto:

“Pego no missal que é a Clépsidra, na belíssima edição que dela fez o Carlos Morais José, e vou para a banheira, gesto em que imito o Jean-Paul Belmondo que passa uma parte substantiva da acção nos filmes do Godard a ler na banheira – eis o único tique de cinéfilo que me ficou.

Tamborilo com os dedos dos pés na água tépida, descontraído, julgando que poucas surpresas me estarão destinadas e ao abrir ao acaso num soneto sou golpeado pela evidência de estar frente a frente com uma estrutura fílmica. Para que não haja dúvidas, passo a decompor o soneto numa découpage fílmica.

«Desce em folhedos tenros a colina/ – Em glaucos, frouxos, tons adormecidos»: temos um travelling de recuo em plano subjectivo e é fim de tarde; «Que saram frescos, meus olhos ardidos/ Nos quais a chama do furor declina»: passámos a contracampo, para apresentar o sujeito da acção, em GP (grande-plano), e interpõe-se uma sombra no olhar dele que confirma a gradação do poente; «Oh, vem do branco, do imo da folhagem!/ Os ramos, leves, a tua mão aparte»: voltámos ao plano subjectivo mas agora o plano supõe um movimento de câmara interno para fechar em detalhe, ou seja num GP da mão, antes de voltar a câmara a incidir em quem olha. E ouve-se: «Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,/ Reflectir-te virgem a serena imagem.», havendo agora a necessidade de mantermos o GP sobre o observador porque é mais forte que o que se segue seja sugerido na expressão do olhar de quem está de fora: «Da silva doida uma haste esquiva/ Quão delicada osculou um dedo/ Com um aljôfar cor de rosa viva.» E aqui a câmara volta à mulher que desce a colina: «Ligeira a saia!/ Doce brisa impele-a!/ Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo./Alma de silfo, carne de camélia.». E a carne da camélia aqui será reflectida na nódoa de sangue da saia sobre a qual o zoom fecha.”

Nunca se sabe o que um leitor e a sua circunstância podem extrair de um poema. Principalmente se atrás da fachada de um soneto havia um cineasta.

21/09/17

VI-O, ao pé que torna bamba qualquer medida. Bebia uma beer, absorto num ensaio viscoso como crude, e ao ouvir na tv do bar aquela canção com uma letra mais estúpida do que um carrapato quis ver o rosto do grotesco. E ao meu lado, acomodado numa cadeira de chanfuta, interpunha-se O PÉ. Baloiçava. Seria em negro o pé da mulher de Hércules, esta bisarma com ar de destino ou de foz e cuja genitália presumo ser um chamariz de atritos, forrada a papel de parede? É normal que cada pé modele uma sintaxe, à semelhança da vespa que galga a pé-coxinho a parede húmida da minha imperial, mas eis-me gago ou, pior, siderado. Que conexões, que deliciosas incorrecções se poderão fazer à sua sombra! A fachada para uma futura Igreja de Santa Madalena? Pior, o sorriso é-lhe tão abrasivo como o pé é longitudinal. Traga-me duas Laurentinas!

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