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O primeiro guia chinês de viagens para a Europa e para os Estados Unidos foi escrito entre 1926 e 1927, pela primeira chinesa a correr o mundo de mochila às costas. Chamava-se Lü Bicheng. Foi também a primeira mulher chinesa a trabalhar como editora num jornal e a última escritora de poesia Ci.

O seu guia de viagens dá conta de um desfile de Carnaval em Paris, de um motim em Viena, e conta-nos a história de um americano desconhecido que a tentou seduzir numa rua de Roma. Mais à frente leva-nos numa visita a Beverly Hills, onde quis olhar as fachadas das casas de todos os seus ídolos do cinema. A seguir goza consigo própria por causa do choque cultural de toda aquela situação. Toque pessoal aparte, o guia fornece uma enorme quantidade de informações úteis sobre reservas, alfândegas, bagagens, câmbios, hotéis, gorjetas etc., tudo a partir da sua experiência como mulher e como viajante. Onde é que se pode comer um hotpot japonês em Londres? Quanto custa um prato de tofu? Onde é que se pode encontrar um restaurante chinês em Berlim? Será possível partilhar a comida de um companheiro de viagem, num comboio em Itália? (Ela tinha medo de ser envenenada e roubada por uma família italiana). Qual é a multa por cuspir num eléctrico em Nova Iorque? De Veneza a Viena é mais rápido ir de avião ou de comboio? No guia constam também listas infindáveis de monumentos e outras atracções, bem como os seus historiais. Este manual é também um registo único do Ocidente, situado numa bolha do tempo, os anos 20 do século XX. E tudo isto sem o Lonely Planet, o Google map ou as câmaras digitais. O que lemos é o resultado das experiências em primeira mão de uma mulher viajante, que testemunhou o aparecimento dos filmes sonoros e assistiu em directo à conquista do direito de voto das mulheres com menos de 30 anos no Reino Unido.

Esta foi a mulher que correu o mundo sozinha há 90 anos atrás.

Nascida em 1883, Lü Bicheng rompeu o noivado por causa da morte do pai. Nessa altura decidiu fugir de uma vida convencional. Tornou-se professora e fundou uma escola para raparigas. Mais tarde viria a ser secretária de Yuan Shikai, um Senhor da Guerra, que se auto-proclamou Imperador traindo assim o sonho de uma China republicana. Nessa altura Lü Bicheng abandonou-o, desiludida. Acabou por tornar-se uma empresária de sucesso e fez fortuna. Depois disso, em 1920, deixou a China e rumou à Universidade de Columbia, onde estudou Arte e Inglês. Durante este período traduziu para chinês A História Concisa dos Estados Unidos da América. Voltou a casa por um breve período e voltou a viajar em permanência entre 1926 e 1933. Todas estas viagens deram origem ao seu guia. Mais tarde foi uma acérrima defensora dos direitos dos animais.

Morreu em Hong Kong em 1943. As suas cinzas foram lançadas ao mar, de acordo com a sua vontade.

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