Beat: mais do que um dizer

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Há uma passagem em “Pela Estrada Fora”, do Kerouac, em que os dois compinchas que estão à boleia, O Dean e o Sal, decidem que a partir desse troço mudarão não só de tópico como de estilo de conversa de cada vez que cruzarem um candeeiro, deixando «a mente saltar ao acaso do galho ao pássaro» (Kerouac).

Este método de exercitar a imaginação sempre me fascinou e vim reencontrá-lo aqui, nestes escritos poéticos cheios de surpresas e de curto-circuitos; este testemunho/testamento em forma de cântico devolve-nos essa “indeterminação quântica”, que julgávamos dissipada no horizonte da poesia. Aliás, espanta no livro a energia que sustenta um fôlego pouco habitual e se aguenta na maior parte destas trezentas e sessenta páginas.

Entretanto, uma das razões porque sempre nos demos bem, às tantas o Luís Filipe Sarmento, motivado pela alegria que lhe é inerente, vaticina: «Deixo os Apocalipses para os apóstolos da Derrota», o que é corroborado na página 251, onde se grafa: «A alegria é um repelente contra as ditaduras».

Para quem julgue que isto não passa de uma boutade, de um slogan poético, refira-se, está documentado pela neuro-ciência como o sentimento da alegria abre o espaço. Falamos de uma mutação da percepção, evidentemente. E quando se abre o espaço as coisas que nele estão contidas não se organizam de uma maneira diferente, REORGANIMAM-SE, para usar um dito do pintor Roberto Matta, significando que a alteração que se introduziu aí na relação entre o espaço e as figuras não é apenas de nível sintáctico e antes supõe uma translacção simbiótica ou uma plasticidade metamórfica: «E ao espelho vi Kafka no berço de Dante».

Daí que poucas páginas depois de nos ter falado da alegria, defenda o Sarmento: «O caos é a fonte poética da sublevação». Sim, o caos REORGANIMADO pela alegria que lhe dá a chave, uma pauta.

Este livro, escrito aos 64, 65 anos, na leitura mais linear que dele se tenha, tece uma homenagem aos ícones literários de uma geração – o Ginsberg, o Kerouac, o Ferlinghetti, a Diana de Prima, o Gregory Corso, o William Carlos Williams e o Jack Hirschman (com quem o Luís Filipe privou), sendo cada um deles o motor dos diferentes capítulos – , os quais, mais do que remeterem para as descobertas da sua juvenília aparecem como expoentes de uma linhagem que, muito para além do seu modismo epocal, imprimiram certas práticas de escrita e de vida que continuam a ser pregnantes para tantos.

Contudo, a densidade de “Beat”, com os vários estratos discursivos que se alternam e dialogam, polifonicamente, permite dilucidar outra leitura que é a do livro ser igualmente, como quem não quer a coisa, um ensaio sobre o tempo e a tensão que nasce das suas polarizações: «Tudo o que nos separa do dia seguinte é composto de ilusão e de desconfiança, de crença e luta infinita. Recuso as leis do manicómio. E o dia seguinte chega com diferentes repetições de expectativa» (pág.151)

Neste livro celebra-se a escrita, precisamente como um acto de luta contra a matéria temporal, colocando-a em contramão e obrigando o Tempo a situar-se fora de si, em novas transparências que originam poros no seu tecido; a pulsão poética instaura no Tempo esse gesto detonador que traz «a surpresa do minuto seguinte».

Levar o Tempo a surpreender-se a si mesmo é, em LFS, a luta contra o destino, o que gera inclusive o fantástico paradoxo descrito na pág. 198: «Escrever é ter o instinto do infinito, do inacabável (…) é o que nunca acaba (…) Quando se acaba continua-se a escrever na imaginação dos outros».
Bela vingança ontológica que subtrai ao Tempo os seus trunfos.

Creio surpreender outro motivo para que este “Beat” nos gratifique: tudo o que a geração beat nos ensinou – a imaginação que se gemina com a responsabilidade (numa perspectiva salvífica), os valores da dignidade do inaparente; a consonância entre a vida e a arte, num acordo entre a ética e a estética – isso que hoje se ensombra, em risco de dissipar-se, realça-se neste “Beat” com um inescapável furor político, o que o torna, além de contingente, necessário.

É um livro híbrido, como diz o autor, e de tal modo que a sua prefaciadora, Graça Capinha, o lê como “uma autobiografia-poema-ensaio-testemunho-panfleto” e contém, nos seus cerca de 500 fragmentos de prosa poética, o pulsar de uma geração; a que apanhou de chofre o 25 de Abril à saída da adolescência ou nas primícias de ser adulto, e que mergulhou nessa latejante simbiose (a que conjugava os surrealistas, os poetas beats, a pop arte e o pensamento libertário).

Uma geração de excessos, embora, uma das coisas que me agrada no livro, Sarmento não faça disso heroicidade, navegando pelo contrário numa margem ambivalente, que tanto sagra as euforias conquistadas (ao amorfo país que saía do fascismo) como critica algumas toxidades.

Este livro alegra-nos, além disso, por motivos pessoais. Diz o Luís Filipe: «A chegar aos sessenta e cinco anos de idade e ainda estou convencido de que só agora percorri metade do meu caminho», o que é muito animador.

Refira-se ainda um último aspecto do livro, as golfadas de humor que às vezes surpreendem o leitor e que o agarram. Demos dois exemplos: «Quando estou vestido questiono o espírito. Quando estou nu não há uma única oração que me eleve»; «O que resta é esse sentido abissal e cortante do humor, ferindo a paisagem repleta de homens de joelhos, em busca de uma eternidade ajardinada».

O resto é o amor que também ganha cidadania no livro: «Ganhámos a pele e friccionámo-la até o labor do fogo».

Poesia | Yao Jingming volta a traduzir Nuno Júdice em “O Peso do Mundo”

Yao Jingming, poeta, tradutor e académico, é o autor da segunda antologia de poemas de Nuno Júdice traduzida para chinês, intitulada “O Peso do Mundo”. O poeta português confessa-se emocionado por mais um projecto literário desta envergadura que prestigia não só a sua carreira como todo o universo da língua portuguesa

 

Do leque variado de autores portugueses traduzidos para mandarim, muitos deles clássicos, mas também contemporâneos, Nuno Júdice é o mais recente. Após a tradução para chinês de uma primeira antologia de poemas, em 2018, surge agora, também pela mão de Yao Jingming, poeta, tradutor e académico, uma segunda antologia, intitulada “O Peso do Mundo”. Este projecto literário nasce do 1573 – Prémio Internacional de Poesia atribuído em Sichuan a Nuno Júdice, tendo sido também patrocinada a edição do livro.

Em “O Peso do Mundo”, Nuno Júdice explicou ao HM que é feita “a perspectiva de toda a minha poesia”. “Tem poemas que vêm dos meus primeiros livros até aos mais recentes. Tentei que desse uma visão do meu universo poético nas suas várias fases, mas pondo um acento numa fase mais recente. A intenção foi que o leitor chinês me compreendesse como poeta na totalidade”, adiantou.

Confessando sentir muita emoção por ver mais uma obra sua editada com poemas traduzidos para mandarim, que traz consigo “um mundo cultural completamente diferente” do português, Nuno Júdice sente que este é também um passo importante numa carreira que começou em 1972, com “A Noção do Poema”.

“A China tem uma longa tradição poética e há uma curiosidade e interesse pela poesia do mundo. Neste momento calhou-me a mim ter este prémio, o que dá mais relevo à minha carreira, sendo também prestigiante para a mim e para toda a poesia portuguesa. Portugal tem uma longuíssima relação com a China, e tendo em conta que estamos afastados, ter esta difusão da nossa literatura volta a formar o interesse na relação entre Portugal e a China.”

O nome do livro foi uma decisão do autor e do tradutor e é também o título de um dos poemas, um dos preferidos de Nuno Júdice. “Foi escolhido devido à situação do mundo actual, em que sentimos o peso das coisas que estão a acontecer.”

O poeta-tradutor

Yao Jingming não respondeu em tempo útil às nossas questões sobre este trabalho de tradução, mas Nuno Júdice fala de uma relação cúmplice na hora de transformar palavras em caracteres chineses. “Há poemas [no livro] que são da primeira fase [da minha carreira], com imagens e uma linguagem mais complexa, mas sempre estabelecemos um diálogo para resolver todas as dúvidas. Tenho absoluta confiança no meu tradutor, que ainda por cima é poeta, e um poeta, ao traduzir poesia, tem uma maior sensibilidade para o entendimento da nossa língua e da musicalidade do português.”

O poeta português diz que “há também tradutores que não são poetas que conseguem ter essa sensibilidade, mas um tradutor ‘normal’, muitas vezes, tem mais dificuldades, sobretudo em fazer passar aquilo que é a música da nossa língua”. “É preciso que o poema chinês também tenha um ritmo que permita ver e ouvir o poema original”, confessou.

Assumindo que Bei Dao é um dos seus poetas favoritos, além de já ter feito algumas traduções de poesia chinesa para português, partindo da versão inglesa, Nuno Júdice continua também a publicar novos textos.
“Este ano saiu em Portugal uma antologia chamada ‘50 anos de Poesia’, em que escolho poemas que foram publicados em vários livros, e terminei também um livro de poesia que vai sair em Março, ‘Uma Colheita de Silêncios’”.

Este é um livro “com um certo lado de memória, sobretudo de poetas que conheci”, existindo, assim, uma “homenagem a alguns deles, como é o caso de Ruy Belo e Pedro Tamen”. “Há também uma lembrança desses anos 60 e 70 que eu vivi, mas depois há também uma série de poemas sobre a natureza, a pintura na natureza, a partir de quadros que trabalhei numa secção do livro. É uma obra ampla e várias temáticas, incluindo a do amor”, concluiu.

Pequim | Universidade sob confinamento após diagnosticar um caso

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As autoridades chinesas colocaram ontem uma das maiores universidades de Pequim sob confinamento, depois de diagnosticarem um caso de covid-19, ilustrando a insistência na estratégia de ‘zero casos’, apesar do crescente descontentamento popular.

Alunos e professores da Universidade de Pequim foram proibidos de sair do ‘campus’ e as aulas passaram a ser dadas via ‘online’, de acordo com um aviso emitido pela instituição. A universidade tem quase 50.000 estudantes, segundo o seu portal oficial.

A China diagnosticou cerca de 20.000 casos, entre segunda e terça-feira, dos quais 350 foram registados em Pequim que, embora represente uma pequena fracção da sua população de 21 milhões, foi suficiente para desencadear bloqueios e quarentenas localizadas, no âmbito da estratégia de ‘zero casos’ de covid-19.

As autoridades querem evitar bloqueios em toda a cidade, para tentar minimizar o impacto na actividade económica, mas sem abdicar da estratégia que visa eliminar surtos do novo coronavírus. Na Primavera passada, um bloqueio total de dois meses de Xangai, a “capital” económica da China, interrompeu as cadeias de fornecimento e o comércio, afectando a economia chinesa.

Directrizes nacionais publicadas na semana passada pediram aos governos locais que sigam uma abordagem científica e direccionada e que evitem medidas desnecessárias.

Xi Jinping diz para não se sobrevalorizar influência chinesa sobre Putin

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O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, pediu ontem ao Presidente da China, Xi Jinping, para convencer a Rússia a acabar com a guerra na Ucrânia, mas o líder chinês respondeu que o seu papel não deve ser sobrevalorizado.

Num encontro bilateral na Indonésia, à margem da cimeira do G20 (grupo das economias mais desenvolvidas e emergentes), Sánchez, como fizeram outros líderes nos últimos dias nas reuniões em Bali, “pediu para a China usar a sua influência para persuadir a Rússia a pôr fim à guerra”, lê-se num comunicado do Governo de Espanha, que não revela a resposta de Xi Jinping.

Segundo fontes da comitiva espanhola que está na Indonésia citadas pela agência de notícias EFE, o Presidente da República Popular da China reconheceu que tem uma boa relação com o líder da Rússia, Vladimir Putin, e destacou que são países vizinhos, mas afirmou que não deve ser sobrevalorizado o papel que Pequim pode ter nesta questão.

Assim, segundo as mesmas “fontes oficiais” citadas pela EFE, Xi Jinping sublinhou que a China não é um dos actores nesta guerra, iniciada com uma ofensiva militar russa no final de Fevereiro, e não quer alimentar a tensão no conflito.

Xi defendeu, ainda assim, segundo as fontes da EFE, que as sanções à Rússia ou as ameaças com julgamentos internacionais não contribuem para alcançar uma solução.

Bons negócios

No comunicado divulgado ontem, o Governo espanhol diz que Sánchez argumentou, perante Xi, que “a agressão da Rússia contra a Ucrânia é uma ameaça à paz e à estabilidade mundial que subverte os princípios de soberania e a integridade territorial que a China sempre defendeu”.

Segundo o mesmo comunicado, neste encontro, que decorreu em Bali, Sánchez e Xi abordaram também a presidência espanhola da União Europeia (UE), no segundo semestre de 2023.

“Sánchez destacou o desejo de seguir a impulsionar a cooperação entre a UE e a China em matéria comercial e de investimento”, lê-se no texto.

Ucrânia | Pequim pede contenção após míssil ter atingido a Polónia

O míssil de fabrico russo que atingiu ontem território polaco parece afinal ter sido disparado pela Ucrânia. Pequim pede tranquilidade a todas as partes envolvidas

 

A China pediu ontem “calma” a todas as partes na sequência das informações sobre o míssil de fabrico russo que atingiram a Polónia e que colocaram o exército polaco em estado de alerta.

“Na situação actual, todas as partes envolvidas devem manter a calma e a contenção para que seja evitada uma escalada”, disse Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, em Pequim.

Da mesma forma, o secretário-geral ONU defendeu na terça-feira à noite que é “absolutamente essencial” evitar o agravamento da guerra na Ucrânia, mostrando-se “profundamente preocupado” com a queda de um míssil de fabrico russo na Polónia.

Numa breve declaração transmitida pelo porta-voz da ONU, António Guterres apelou a uma “investigação exaustiva” sobre a queda do míssil que matou duas pessoas na Polónia.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia confirmou na noite de terça-feira que um “projéctil de fabrico russo” atingiu o território deste país da Nato junto à fronteira com a Ucrânia, causando a morte a duas pessoas.

“Na vila de Przewodów (…), um projéctil de fabrico russo caiu, matando dois cidadãos da República da Polónia”, salienta-se num comunicado do porta-voz do ministério, Lukasz Jasina.

Na mesma nota, acrescenta-se que o embaixador russo na Polónia foi convocado para prestar “explicações detalhadas”.

Entretanto, o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse que é improvável que o míssil que atingiu a Polónia e matou duas pessoas tenha sido disparado a partir da Rússia.

“Há informações preliminares que contestam isso”, disse Biden aos jornalistas quando questionado se o míssil foi disparado da Rússia.

“É improvável nas linhas da trajectória que tenha sido disparado da Rússia, mas veremos”, acrescentou.
Por outro lado, os líderes do G7 e da Nato (Organização do Tratado do Atlântico Norte) decidiram apoiar uma investigação sobre a queda do míssil de fabrico russo, disse o Presidente dos EUA.

Céu vigiado

Ontem, a estação de televisão norte-americana CNN noticiou que um avião da Nato, que sobrevoava o espaço aéreo da Polónia, rastreou o míssil que explodiu no país na terça-feira e matou duas pessoas.

“A informação com pistas de radar [do míssil] foi fornecida à Nato e à Polónia”, acrescentou a mesma fonte, que não foi identificada.

Os aviões da Nato têm realizado vigilância regular em torno da Ucrânia desde o início da invasão russa, a 24 de Fevereiro.

Mais tarde, o secretário-geral, Jens Stoltenberg, disse que a explosão que matou duas pessoas na Polónia “foi provavelmente causada” por um míssil ucraniano.

Covid-19 | Mais uma infecção e teste de 24 horas para passar fronteira

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Ontem foi anunciado mais um caso positivo de covid-19 cuja origem da infecção será o centro comercial subterrâneo de Gongbei. O indivíduo em causa é segurança no edifício dos Serviços de Solos e Construção Urbana. Elsie Ao Ieong U afirmou que o risco de surto é baixo, mas as autoridades reduziram para 24 horas a validade do teste para atravessar a fronteira

 

Durante a madrugada de ontem foi detectada mais uma infecção de covid-19. O Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus anunciou que um residente do Interior da China testou positivo no teste de ácido nucleico. O indivíduo de 40 anos trabalha como agente de segurança no edifício da Direcção Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU) no nº33 da Estrada de D. Maria II, é reside na Vila de Tanzhou em Zhongshan.

As autoridades de saúde adiantaram que o homem não apresenta sintomas e que foi encaminhado para o Centro Clínico de Saúde Pública no Alto Coloane.

Ao contrário do que vem sendo habitual, o edifício onde estão alojados múltiplos serviços públicos não foi decretado zona vermelha, mas a DSSCU ordenou a “desinfecção de todos os pisos das instalações da DSSCU, incluindo dos acessos públicos e elevadores” e suspendeu ontem os serviços públicos. A médica Leong Iek Hou defendeu que a prática é consistente com as orientações das autoridades de saúde, uma vez que o sujeito não reside no edifício onde também se situam a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego e a Direcção dos Serviços de Obras Públicas.

Além disso, os funcionários dos serviços foram instruídos a ficar em casa durante a parte da manhã de ontem e a fazerem testes rápidos antigénio diários e testes de ácido nucleico durante três dias consecutivos.

Depois do anúncio das medidas, a chefe da Divisão de Prevenção e Controlo de Doenças Transmissíveis, Leong Iek Hou, acrescentou que o indivíduo infectado é chefe de equipa de segurança, e que os funcionários e pessoas que passaram pelos mesmos pisos onde esteve o segurança terão o código de saúde convertido em amarelo. Além disso, terão de fazer quatro testes de ácido nucleico em cinco dias, assim como os respectivos testes rápidos, e assim sendo podem voltar ao trabalho.

Sem teste não passa

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong U, afirmou que como é conhecida a fonte de contágio “o risco para a comunidade é baixo”. Em declarações citadas pelo canal chinês da Rádio Macau, a secretária mencionou que o itinerário em Macau da pessoa em questão é relativamente simples, não obrigando ao aperto de medidas de prevenção, nomeadamente na organização de eventos de grande envergadura como o Grande Prémio de Macau e o Festival de Gastronomia.

Desde ontem à tarde, até ao dia 23 de Novembro, quem atravessar a fronteira, nos dois sentidos, entre Macau e Zhuhai, tem de apresentar o certificado de teste de ácido nucleico com resultado negativo emitido nas últimas 24 horas.

Do outro lado da fronteira, as autoridades de Zhuhai anunciaram ontem que na terça-feira foram detectados cinco novos casos positivos de covid-19.

O centro de coordenação e contingência revelou que desde ontem as pessoas com “itinerários de risco” vão continuar com o código de saúde verde, mas têm de realizar dois testes de ácido nucleico. Se não foram testadas passam a amarelo. A medida foi justificada com a necessidade de “manter a consistência das medidas antiepidémicas e reduzir as inconveniências para a vida diária de residentes”.

Grande Prémio | Pilotos de motos lamentam ausência, mas consideram quarentena proibitiva

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O piloto Lee Johnston considera que a edição de 2022 do Grande Prémio de Motos de Macau vai ficar marcada como “o ano em que ninguém foi”. Apesar de lamentar não estar presente, foi desta forma que o norte-irlandês comentou, à emissora a BBC, a prova que começa esta manhã.

“Só se pode superar os pilotos que estão em prova, mas, e sem querer faltar ao respeito aos participantes, é claro que mesmo que se ganhe, esta edição vai ser sempre lembrada como aquele ano em que ninguém foi”, afirmou Johnston.

O norte-irlandês correu vários anos em Macau e tem como melhor resultado os quintos lugares alcançados nos anos de 2014 e 2019. No currículo conta ainda com uma vitória na prova TT Ilha de Man, no ano de 2019.

Sobre as razões para a ausência, Johnston apontou a exigência de quarenta de sete dias e os custos associados. “Não é viável estar longe tantos dias”, afirmou o competidor de 33 anos. “Temos de pagar a todo o staff da nossa equipa, e pagar-lhes para que estejam sete dias num hotel sem fazer nada, ainda antes do evento começar, não faz qualquer sentido”, justificou.

“Adoro aquele lugar”

Outra das ausências mais notadas do Circuito da Guia vai ser a de Michael Rutter, recordista em vitórias, com nove triunfos na prova. A última vez que Rutter venceu foi em 2019, aquando a realização do último Grande Prémio de Motos, numa prova marcada por muitos acidentes e polémica, uma vez que a classificação foi feita com base numa única volta.

À BBC, Rutter justificou que a quarentena de sete dias tornou a participação proibitiva, apesar de admitir adorar Macau. “Eu adoro aquele lugar e desejava estar lá. Mas, não conseguia estar sentado durante sete dias num quarto. Foi uma decisão razoavelmente simples”, afirmou o piloto. “Espero regressar no próximo ano”, desejou.

A edição deste ano do Grande Prémio conta com a participação de 15 pilotos, num formato com duas corridas, cada uma com oito voltas, que são realizadas no sábado, às 10h35 e às 16h10.

Grande Prémio | Pun Weng Kun admite que organização enfrentou o “ano mais difícil”

Sofia Margarida Mota
O coordenador da Organização do Grande Prémio de Macau admite que foi difícil criar condições para a participação de pilotos internacionais na competição. Vários potenciais participantes desistiram devido à obrigação de cumprir quarentena de sete dias

 

“Foi o ano mais difícil”. Foi desta forma que o coordenador da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau, Pun Weng Kun, caracterizou a preparação do evento que começa hoje e se prolonga até domingo.

Em entrevista ao Jornal do Cidadão, Pun explicou que este ano a organização teve de lidar com vários obstáculos, até porque houve sempre a intenção de trazer pilotos internacionais para participar no evento desportivo.

De acordo com o líder da organização da prova, para os potenciais participantes internacionais é incompreensível que se possa entrar em Hong Kong sem necessidade de quarentena, mas que ao mesmo tempo em Macau seja pedido um período que consideram excessivo. Este aspecto terá levado a que pilotos que numa primeira fase se tinham mostrado interessados em correr na Guia optassem por cancelar a participação.

Ainda assim Pun Weng Kun mostrou compreensão face aos pilotos que abdicaram da participação. “Não é fácil para os pilotos internacionais virem para Macau, porque além de terem de entrar num avião em que lhes é exigido um teste de ácido nucleico com resultado negativo, ainda têm de atravessar a quarentena e não podem testar positivo”, admitiu. “Só depois deste período podem, finalmente, competir”, acrescentou.

Apesar dos convites recusados, Pun destacou que 15 pilotos internacionais se mostraram disponíveis para competir no circuito da Guia.

Medidas de prevenção

Até ontem, as pessoas envolvidas no Grande Prémio precisaram de ser testadas a cada dois dias. No entanto, no caso de haver um surto local, a organização não afasta a possibilidade de o período ser encurtado, com a obrigação de ser feito um teste a cada 24 horas.

Em relação às medidas de prevenção e a eventuais surtos, que poderão afectar a prova, Pun Weng Kun revelou, ao Jornal do Cidadão, que foram preparados vários planos alternativos, com diferentes condições, para garantir que a prova vai ser realizada.

Apesar das dificuldades, o também presidente do Instituto de Desporto deixou um voto de confiança e considerou que, apesar das adversidades, o Grande Prémio de Macau vai continuar a ser o maior evento local.

DSEC | Restauração e vendas a retalho com quebras

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Em Setembro, o volume de negócios dos restaurantes entrevistados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) desceu 4,1 por cento, face a Setembro de 2021. A informação foi revelada ontem com a publicação dos resultados do Inquérito de conjuntura à restauração e ao comércio a retalho referente a Setembro de 2022.

Os volumes de negócios dos proprietários entrevistados de todos os tipos de restauração desceram em termos anuais, salientando-se que o negócio dos restaurantes chineses diminuiu 6,8 por cento.

Quanto ao comércio a retalho, observou-se que o volume de negócios dos retalhistas entrevistados desceu 11,3 por cento, em termos anuais. Os negócios das mercadorias de armazéns e quinquilharias, do vestuário para adultos, bem como dos produtos cosméticos e de higiene diminuíram 34,0 por cento, 18,7 por cento e 10,8 por cento, respectivamente. Contudo, o volume de negócios dos automóveis aumentou 13,3 por cento.

Banco da China lança nova subsidiária em Macau

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A partir de segunda-feira surge uma nova subsidiária do Banco da China, a pensar nos clientes território. Ontem o banco realizou uma conferência de imprensa para apresentar as mudanças

 

Um projecto que foca a diversificação das necessidades financeiras dos residentes e o desenvolvimento do sector financeiro do território. Foi desta forma que Chan Hio Peng, presidente da futura subsidiária em Macau do Banco da China, apresentou a instituição que vai começa a funcionar na próxima segunda-feira.

Actualmente, o Banco da China está presente em Macau através de uma representação, o que significa que a sede da instituição está no Interior. Contudo, com a inauguração da subsidiária, que vai ter como nome Banco da China (Macau) S.A., é aberta uma nova instituição, controlada a 100 por cento pelo Banco da China, mas com sede em Macau.

A entidade bancária realizou ontem uma conferência de imprensa para apresentar a nova instituição e explicar os objectivos da mudança. Segundo Chan Hio Peng, uma das grandes apostas vai ser o mercado de obrigações, visto pelo Governo da RAEM como um dos motores da diversificação da economia local. “Vamos focar-nos, muito concretamente, no mercado de obrigações, na gestão financeira, compensação de renminbis, fundos de oferta privada, e ainda nas finanças verdes, uma área a que a RAEM presta atenção”, explicou.

A alterações não vão ditar o fim da representação de Macau do Banco da China que se encontra em funcionamento e que vai servir empresas. Ao mesmo tempo, a nova subsidiária, vai estar virada para os clientes individuais.

Actualizações e promoções

Por sua vez, Yu Jian, director-geral da nova subsidiária, explicou que antes de ser feita a transição é necessário actualizar o sistema informático e suspender alguns serviços que actualmente são prestados. Entre os serviços afectados estão a aplicação móvel do banco, os pagamentos por código QR e a página com os serviços online.

“Para minimizar o impacto da suspensão dos nossos serviços, o Banco da China reduziu ao máximo o tempo necessário para as mudanças e fizemos todos os esforços para anunciar junto dos nossos clientes que a suspensão vai decorrer apenas na manhã de sábado e tarde de domingo”, afirmou Yu Jian.

Como forma de celebrar as alterações, entre 21 a 25 de Novembro, o Banco da China vai lançar um programa de descontos para os utilizadores da aplicação. Já Leong Sio Hong, director-geral do banco, apontou que as cadernetas bancárias actuais vão ser substituídas por outras com a nova marca do Banco da China (Macau), quando chegarem ao fim da validade. Também os recibos comprovativos de transacções e contratos vão ter o novo logótipo.

Académicos do Centro de Estudos da Universidade de Macau elogiam LAG

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O Centro de Estudos de Macau da Universidade de Macau realizou ontem um seminário de análise à apresentação do relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o ano financeiro de 2023, com vários académicos e especialistas a demonstrarem apoio em relação aos planos traçados por Ho Iat Seng, em particular em termos económicos. O seminário foi conduzido pela directora do centro, a ex-deputada Agnes Lam.

Num comunicado, a instituição declara que o Governo “está a fazer um grande esforço para melhorar a vida das pessoas e para promover a recuperação económica durante os difíceis tempos de pandemia”. Ainda assim, foi indicado que o Executivo deveria implementar mais políticas viradas para o futuro e para reforçar a consolidação do desenvolvimento de Macau na era pós-pandémica.

Uma das personalidades que participou no evento foi o também ex-deputado Gabriel Tong, que preside ao Instituto de Gestão de Macau. O académico destacou a política económica “1+4”, que tem como objectivo diversificar o sector do turismo e lazer e promover as quatro indústrias de desenvolvimento prioritário: big health, indústria financeira moderna, convenções, exposições e comércio, e cultura e desporto. “A política ‘1+4’ é uma solução prática e apropriada aos problemas que Macau enfrenta nesta altura. Está alinhada com o desenvolvimento do turismo integrado e pode estimular a economia, criar emprego e melhorar a qualidade de vida da população.

Já o professor assistente da Faculdade de Ciência Sociais, Kwan Fung, enalteceu o facto de na apresentação das LAG Hot Iat Seng não ter feito grandiosas promessas, porque a situação pandémica não está totalmente controlada, mas antes ter procurado passar um sentido de estabilidade que abre lugar para a recuperação.

Feridas por sarar

Ao mesmo tempo que elogiou o equilíbrio das políticas anunciadas, o académico Ngo Tak Wing destacou a necessidade de estudar e dar resposta aos efeitos de longo-prazo do impacto da transformação económica em curso em Macau, assim como os diversos desafios que a população enfrenta em resultado da pandemia.

“A política ‘1+4’ exige quadros qualificados que o mercado de trabalho local pode não ter, sendo incapaz e absorver o desemprego gerado pela transformação das prioridades económicas. Isto pode levar à subida a curto-prazo do desemprego estrutural”, afirmou o académico.

A intervenção do professor Xu Jianhua foi mais focada nas sequelas de saúde mental resultantes da recessão económica. O docente sugeriu ao Executivo de Ho Iat Seng que tenha atenção à possível subida da criminalidade e à mudança de alvos preferenciais do crime organizado. A subida da taxa de suicídio foi outro dos pontos focado como prioritário e a merecer resposta urgente. Nesse sentido, o académico sugeriu que o Governo crie um mecanismo de resposta a problemas relacionados com doenças mentais em estudantes e professores.

UNESCO | Cooperação para elevar Rota da Seda a património cultural

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As autoridades nacionais e o Governo da RAEM querem aprofundar a colaboração internacional para a candidatura da Rota Marítima da Seda a património cultural da UNESCO. O compromisso foi ontem sublinhado no Fórum Cultural Internacional sobre a Rota Marítima da Seda

 

A China vai “intensificar a cooperação com outros países” para promover a candidatura da Rota Marítima da Seda a património cultural mundial das Nações Unidas, garantiu ontem um dirigente chinês no Fórum Cultural Internacional sobre a Rota Marítima da Seda.

O administrador adjunto da Administração Nacional do Património Cultural da China, Guan Qiang, disse esperar que cidades de outros países possam integrar uma aliança para preparar a nomeação da Rota Marítima da Seda para a lista do património mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Actualmente, a aliança conta com 28 cidades, incluindo Macau.

Na apresentação feita no fórum, Guan Qiang apontou como exemplos o estado de Malaca, na Malásia, onde existe ainda uma comunidade lusodescendente, e a cidade de Sofala, em Moçambique.

A posição de Macau

No mesmo fórum, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura de Macau, Elsie Ao Ieong U, disse que os trabalhos de protecção do património cultural e candidatura da Rota Marítima da Seda a património mundial “estão numa fase crucial”.

A governante sublinhou que a candidatura será um esforço “conjunto” das cidades membro da aliança e realçou a confiança dada pelas autoridades chinesas relativamente ao “posicionamento de Macau como ‘base de intercâmbio e cooperação que promova a coexistência de diversas culturas, sendo a cultura chinesa a predominante’”. Neste aspecto, a protecção da Rota Marítima da Seda e a sua candidatura para a “inscrição na Lista do Património Cultural da UNESCO constitui uma missão cultural importante”, indicou a secretária.

Também uma assessora para o património mundial do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS), Susan Denyer, defendeu que os países envolvidos na Rota Marítima da Seda devem “estabelecer um mecanismo de coordenação” para preparar a nomeação.

Já em 2019 o então administrador adjunto da administração estatal do património cultural da China, Gu Yucai, tinha dito esperar que “cidades de outros países possam também integrar” a nomeação da Rota Marítima da Seda. O Fórum Cultural Internacional sobre a Rota Marítima da Seda termina hoje no Centro de Convenções do Centro de Ciência de Macau.

Jogo | Participação de operadoras no concurso revela “confiança”, diz Chefe do Executivo

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Os deputados voltaram ontem a colocar questões sobre a crise económica e os problemas financeiros sentidos pelas operadoras de jogo. Mas o Chefe do Executivo, à semelhança do que disse esta terça-feira aos jornalistas, voltou a garantir que as concessionárias de jogo vão sobreviver à crise. Mais: a participação no concurso público para a atribuição de novas licenças é um bom sinal.

“Disse que a indústria do jogo está moribunda, mas penso que as concessionárias têm ainda muitas possibilidades de sobrevivência”, disse em resposta a uma questão colocada pelo deputado José Pereira Coutinho. “As concessionárias de jogo, ao participarem no concurso, demonstram confiança, pois a dimensão da indústria continua a aumentar”, adiantou.

Ho Iat Seng disse mesmo que é “anormal ter sempre lucros”. “As empresas estrangeiras, no início do investimento na China, já estavam preparadas para terem prejuízos para depois alcançarem lucros a longo prazo. Nunca há lucros permanentes e isso até as pequenas e médias empresas sabem. Temos ainda dívidas relativas a 88 mil metros quadrados de terrenos concessionados às operadoras. As concessionárias não vão abrir falência este ano e não podemos acreditar nos rumores falsos”, garantiu o Chefe do Executivo.

Pedindo aos deputados para acalmarem os trabalhadores do sector do jogo quanto a receios de despedimento, Ho Iat Seng voltou a garantir que essa questão será assegurada nos novos contratos. “Em relação aos trabalhadores podem estar calmos, pois as garantias estão definidas. Não vamos permitir qualquer retrocesso. Espero que as concessionárias possam cumprir, pois temos o nosso meio de fiscalização. Acredito que vão cumprir, pois têm o sentido de responsabilidade social. Más interpretações e conspirações não serão úteis”, avisou.

Imobiliário | Sem margem de manobra em casos de burlas no Interior

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Há vários anos que são divulgados casos de residentes de Macau burlados por adquirirem imóveis no Interior da China que não correspondem à realidade. Questionado ontem sobre esta questão, pela deputada Ella Lei, Ho Iat Seng afirmou que pouco pode fazer para resolver esses problemas.

“Tenho recebido várias queixas, mas posso apenas resolver os problemas segundo a lei. Como Chefe do Executivo não posso resolver os problemas que não são de Macau.” Ainda assim, Ho Iat Seng assegurou que o Conselho dos Consumidores “vai reforçar a fiscalização e a divulgação das informações sobre a venda de casas no Interior da China”. “Caso haja irregularidades vamos proceder a uma análise”, adiantou.

O governante não deixou de dar umas sugestões a quem adquire casas em construção. “Espero que a população, quando compra esses imóveis, tenha cuidado, dirigindo-se ao local. O barato sai caro e temos de ter cuidado na compra de imóveis porque isso poderá trazer muitos problemas.

Redução de casos de suicídio é possível com recuperação económica, diz Ho Iat Seng

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Exortado por Kou Kam Fai a comentar o crescente número de casos de suicídio no território, Ho Iat Seng admitiu que a situação é de facto grave mas que poderá haver uma redução com a recuperação gradual da economia.

“Sei que a economia prejudicou muito a vida das pessoas e penso que com uma recuperação gradual será possível diminuir os casos de suicídio. Este ano ocorreram de facto muitos casos de suicídio, o rácio subiu bastante. Nos primeiros nove meses do ano houve 65 casos, sendo que 59 são de residentes, sendo um aumento de 71 por cento face ao período homólogo do ano passado. São várias as razões para isso acontecer. Um dos casos diz respeito a um jovem e isso é uma dor profunda para a RAEM.”

Quanto a medidas para solucionar o problema, o Chefe do Executivo disse que têm sido feitos contactos com associações locais a fim de se criar redes comunitárias de apoio, tendo sido dados subsídios para a criação de programas de formação e abertura de linhas de apoio. “Apelo a quem cuidem das suas vidas. Já entramos em contacto com diferentes associações de diferentes níveis e instituições para que seja prestado o devido apoio”, rematou.

Terrenos | Governo sem planos para novos leilões

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O Chefe do Executivo afastou ontem a possibilidade de vir a realizar um novo leilão de terrenos além daquele que já foi anunciado. Recorde-se que o Governo anunciou um leilão de quatro terrenos em hasta pública, a realizar brevemente.

“Vamos lançar quatro lotes de terrenos e não temos um plano de um novo leilão a médio e longo prazo. Há 20 anos que não fazemos um leilão de terrenos e temos de atender às mudanças do mercado. Em qualquer território não pode haver um plano de longo prazo para leilões de terrenos, pois tem de haver uma ligação ao desenvolvimento do mercado.”

Sobre o desenvolvimento do Parque Industrial da Concórdia, Ho Iat Seng espera que as empresas se possam instalar em edifícios mais altos. “O limite agora é de nove metros, mas espero que possam ser construídos edifícios até 30 metros. O terreno é do Estado, mas foi concedido às empresas. Tendo como base o exemplo de Hong Kong, esperamos conseguir um maior progresso no desenvolvimento do parque da Concórdia.”

LAG 2023 | Indústria têxtil “não está condenada à morte”, diz Chefe do Executivo

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Grande parte das fábricas que outrora laboraram na zona norte de Macau estão hoje de portas fechadas, mas Ho Iat Seng acredita que o sector industrial ainda se pode revitalizar. “A indústria têxtil tem tradição em Macau desde os anos 80, tal como as fábricas de brinquedos. Será que a indústria têxtil está condenada à morte? Não.”

Ho Iat Seng deu mesmo o exemplo de uma fábrica têxtil na zona de Guangzhou que, ao fim de 14 anos, conseguiu voltar a laborar e entrar no mercado europeu. “Temos de aprender com a experiência desta empresa. As marcas europeias querem uma entrega de produtos em 14 dias e as fabricas têm de ser competitivas. Não vamos alcançar esta dimensão, mas temos de explorar mais mercados. Esperamos que as indústrias tradicionais se dediquem a esta experiência aprendendo com estes exemplos.”

LAG 2023 | Governo acredita que telecirúrgias serão uma realidade em Macau

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Com a chegada do novo hospital nas ilhas e a rede 5G ao território, o Governo está confiante de que será possível disponibilizar aos doentes consultas à distância ou até telecirúrgias. Esta foi a ideia deixada ontem pelo Chefe do Executivo, em resposta às questões colocadas pelos deputados Ho Ion Sang e Wong Kit Cheng sobre o sistema de saúde no futuro e a aplicação da rede 5G na vida quotidiana.

“Na área da medicina, e no Complexo Hospitalar das Ilhas, será possível a rede 5G em algumas consultas de doenças crónicas, que podem acontecer por vídeo conferência. Serão introduzidas novas técnicas de saúde e estaremos preparados para ter um serviço de oncologia e medicina estética, por exemplo.”

A ideia é que não haja uma sobreposição em relação aos serviços médicos já disponibilizados pelo Centro Hospitalar Conde de São Januário e Kiang Wu. Nestas entidades “a população consegue obter bons serviços de saúde” embora “nas doenças mais graves tenhamos de deslocar os nossos pacientes para fora de Macau”, admitiu Ho Iat Seng.

Passo a passo

Ainda sobre a aplicação da rede 5G, que será operada pela CTM e China Telecom, o arranque poderá fazer-se na área educativa, mas não só. “A aplicação da rede 5G no sector industrial, no Interior da China, tem sido bem-sucedida.

Em Macau podemos começar nas escolas e também nas contas únicas [de acesso a serviços públicos]. Neste momento a cobertura da rede ainda não é total, o seu desenvolvimento tem várias vertentes. Espero que, por exemplo, o sector da venda a retalho possa obter melhores resultados com esta rede, que também poderá ser aplicada na gestão da indústria hoteleira”, apontou o Chefe do Executivo.

LAG 2023 | Quarentena “3+3” não será suficiente para atrair visitantes, diz Ho Iat Seng

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O Chefe do Executivo admitiu que a fórmula de quarentena “3+3”, sugerida pelo deputado José Pereira Coutinho, não será suficiente para atrair mais turistas para Macau. Com a chegada de uma nova edição do Grande Prémio, Ho Iat Seng quer elevar a fasquia das entradas para mais de 25 mil turistas

 

José Pereira Coutinho sugeriu a adopção de uma quarentena de “3+3”, ou seja, três dias num hotel e três de auto-gestão de saúde, em vez dos actuais “5+3”. No entanto, o Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, admitiu que nem assim será possível atrair mais turistas para Macau, embora essa seja uma grande vontade das autoridades.

“Vamos persistir na política de zero casos covid, mas talvez não seja possível atrair mais turistas, mesmo com a política 3+3”, disse ontem o governante na Assembleia Legislativa. Na sua intervenção, o deputado pediu ao Governo para “implementar com urgência medidas concretas de alívio das regras da pandemia (3+3), destinadas à recuperação económica, principalmente na indústria do jogo, e em prol da atracção de mais turistas e investimentos estrangeiros”.

Mesmo com este cenário, persistem os diálogos com as autoridades chinesas para que o território possa receber mais visitantes. Ho Iat Seng disse ser necessária maior “flexibilidade” para atrair visitantes de outros locais da província de Guangdong além dos habituais. “Nunca pensei que em Outubro Guangdong tivesse problemas [devido à ocorrência de surtos pandémicos], bem como outros locais mais próximos. Caso não haja problemas vamos requerer luz verde [do Governo Central] para admitir excursões de três províncias e uma cidade. Muito rapidamente vamos receber informações do Ministério do Turismo da China sobre a vinda dos turistas”, prometeu.

O Chefe do Executivo referiu-se ainda às companhias aéreas, para dizer que “estão preparadas para a chegada de mais turistas, pois isso é um grande apoio ao mercado do sector do retalho. Com a retoma dos vistos electrónicos será melhor [para a recuperação do sector]”, acrescentou.

Falando das percentagens do volume de negócios este ano, que na área das vendas por grosso e retalho foi de 85 a 90 por cento, por exemplo, o governante reconheceu que os dados se devem, em grande parte, “ao consumo interno dos residentes”.

GP é oportunidade

Ho Iat Seng não deixou de fazer um apelo aos sectores ligados ao turismo, para que vejam “os locais de Guangdong que não têm problemas [com a pandemia] e desenvolvam os respectivos trabalhos [de divulgação turística]”.

Uma vez que uma nova edição do Grande Prémio de Macau está prestes a começar, o Chefe do Executivo deposita esperanças no aumento diário do número de turistas. “Temos de pensar em como dinamizar o turismo. Diariamente recebemos menos de 25 mil turistas e queremos recolher mais dados para convencer as excursões e as agências que organizam excursões para que haja mais visitantes no Grande Prémio, que começa no próximo fim-de-semana.”

MNE chinês revela detalhes da cimeira China-EUA

O Presidente Xi Jinping acabou de realizar uma reunião com o Presidente dos EUA Joe Biden, o que é motivo de grande preocupação para a comunidade internacional. Pode apresentar brevemente as principais circunstâncias da reunião?

Wang Yi: Esta tarde, por iniciativa do lado americano, o Presidente chinês Xi Jinping e o Presidente americano Joe Biden realizaram uma reunião presencial em Bali. Os dois chefes de Estado tiveram uma comunicação franca, aprofundada, construtiva e estratégica sobre as principais questões relacionadas com as relações China-EUA e o futuro da paz e do desenvolvimento mundial. A China emitiu um comunicado de imprensa sobre a reunião. Gostaria de descrever melhor a situação.
Em primeiro lugar, é de grande significado. Foi a primeira reunião presencial entre os chefes de Estado chineses e americanos em três anos, a primeira reunião presencial entre os dois líderes desde que o Presidente Biden tomou posse, e a primeira interacção entre os principais líderes da China e dos EUA desde que cada um deles completou as principais agendas internas este ano.
Em segundo lugar, a comunicação é profunda. Os dois líderes conhecem-se há muito tempo e tiveram muitas reuniões por telefone e vídeo durante este período, sempre com uma comunicação longa e profunda. Esta reunião é simultaneamente uma continuação do seu compromisso até à data e um prenúncio de um novo começo. A reunião durou mais de três horas, excedendo a duração pré-acordada, e foi conduzida utilizando interpretação simultânea. O intercâmbio entre os dois chefes de Estado foi abrangente, profundo, franco, construtivo e estratégico.
Em terceiro lugar, foi rico em conteúdo. Na sua reunião, os dois chefes de Estado abordaram cinco tópicos, incluindo as suas respectivas políticas internas e externas, as relações EUA-China, a questão de Taiwan, o diálogo e a cooperação em vários campos, e grandes questões internacionais e regionais, que podem ser consideradas como cobrindo os aspectos mais importantes das suas relações e as questões regionais e globais mais prementes da actualidade.
Quarto, liderar o futuro. A diplomacia entre os líderes é a “bússola” e o “volante” das relações sino-americanas e desempenha um papel de liderança estratégica insubstituível no desenvolvimento das relações entre os dois países. Actualmente, as relações Sino-EUA enfrentam sérias dificuldades e encontram-se num ponto crítico. O Presidente Xi Jinping apresentou os principais resultados e significado do 20º Congresso Nacional do CPC, enfatizando que as políticas internas e externas do partido chinês e do governo são abertas e transparentes, as suas intenções estratégicas são abertas e claras, e mantém um elevado grau de continuidade e estabilidade. O Presidente Xi disse que a relação entre a China e os Estados Unidos não deve ser um jogo de soma zero no qual “tu perde e eu ganho” e “tu sobes e eu caio”, e que o mundo do século XXI deve evitar a repetição dos erros da Guerra Fria. Os dois países devem ter uma visão correcta das políticas internas e externas e das intenções estratégicas um do outro, e estabelecer um tom de diálogo em vez de confrontação, e um compromisso de benefício comum em vez de soma zero. O Presidente Biden descreveu as eleições americanas intercalares e disse que os EUA respeitam as instituições da China, não procuram mudar o sistema chinês, não procuram combater uma nova Guerra Fria, não procuram reforçar alianças contra a China, e não têm a intenção de entrar em conflito ou sitiar a China.
Ambos os chefes de Estado atribuíram importância ao significado global das relações EUA-China, enfatizaram a importância de estabelecer princípios orientadores para as relações EUA-China, esperaram promover a estabilização das relações bilaterais, e concordaram em reforçar a comunicação e promover a cooperação prática. Isto proporciona uma orientação clara para o desenvolvimento das relações sino-estadunidenses no próximo período e será conducente à promoção do regresso gradual das relações dos dois países a uma via saudável e estável.

Todos os países estão preocupados com a direcção das relações China-EUA. Poderá este encontro alcançar estabilidade nas relações China-EUA, ou, segundo o lado americano, “estabelecer as bases” para as relações China-EUA?

Wang Yi: Esta reunião de Chefes de Estado não só foi de grande orientação prática, como também terá um impacto importante e de longo alcance nas relações China-EUA na próxima fase e mesmo a longo prazo. Em primeiro lugar, esclareceu uma direcção para evitar que as relações sino-americanas descarrilem fora de controlo e para encontrar o caminho certo para que as duas grandes potências se entendam. O Presidente Xi Jinping salientou que a situação actual das relações entre os EUA e a China não é do interesse fundamental dos dois países e povos, nem corresponde às expectativas da comunidade internacional. Ambos os lados devem tomar uma atitude responsável em relação à história, ao mundo e ao povo e garantir que a relação sino-americana avança no bom caminho, sem bocejar ou perder velocidade, e muito menos colidir. Durante a reunião, o Presidente Biden disse que uma China estável e em desenvolvimento é do interesse dos Estados Unidos e do mundo. Os EUA e a China deveriam mostrar ao mundo que podem gerir as suas diferenças e evitar deslizar para o conflito e o confronto devido a um erro de cálculo ou a uma concorrência feroz.
Em segundo lugar, foi estabelecido um quadro para explorar conjuntamente o estabelecimento de princípios orientadores, ou um quadro estratégico, para as relações entre os EUA e a China. O Presidente Xi Jinping disse que a China e os Estados Unidos são dois países tão grandes que não é possível sem um grande consenso sobre os princípios. Com princípios, haverá direcção, e com direcção, poderemos abordar devidamente as diferenças e expandir a cooperação. A proposta da China de que a China e os Estados Unidos devem aderir ao respeito mútuo, à coexistência pacífica e à cooperação vantajosa para ambas as partes baseia-se nesta consideração. Os dois chefes de Estado concordaram sobre a importância de estabelecer princípios orientadores para as relações EUA-China, discutiram-nos de forma construtiva, e encarregaram as equipas de trabalho de ambas as partes de acompanhar e consultar com vista a chegar a acordo o mais rapidamente possível com base no consenso alcançado até à data.
Em terceiro lugar, foi iniciado um processo para pôr em prática o importante consenso entre os dois chefes de Estado para controlar e estabilizar as relações EUA-China. A diplomacia entre líderes é a forma mais elevada de diplomacia, e a liderança estratégica da cimeira EUA-China em Bali sobre as relações bilaterais reflecte-se em todos os aspectos, incluindo uma série de importantes preparativos antes da reunião, bem como o seguimento e a implementação após a reunião. A gestão e estabilização das relações EUA-China é um processo contínuo e ininterrupto que é um trabalho em curso, e não um passado ou um fim. As equipas de ambos os lados irão manter o diálogo e a comunicação, gerir conflitos e diferenças, e promover o envolvimento e a cooperação de acordo com as prioridades estabelecidas pelos dois chefes de Estado, de modo a acrescentar energia positiva e uma válvula de segurança às relações EUA-China e injectar estabilidade e certeza num mundo turbulento e em mudança.
É de notar que a China tem os seus próprios princípios e resultados há muito defendidos, interesses legítimos e legais que devem ser firmemente defendidos, e não sucumbirá a qualquer intimidação hegemónica. O lado americano deve traduzir a declaração positiva do Presidente Biden em políticas e acções concretas, deixar de conter e suprimir a China, deixar de interferir nos assuntos internos da China, deixar de minar a soberania, segurança e interesses de desenvolvimento da China, avançar na mesma direcção que o lado chinês, construir conjuntamente os “quatro pilares” que são conducentes ao desenvolvimento saudável e estável das relações EUA-China, e solidificar conjuntamente os “alicerces sólidos” para a estabilidade das relações EUA-China. Trabalharemos com o lado americano para construir as “quatro vigas e os oito pilares” que são conducentes ao desenvolvimento saudável e estável das relações sino-estadunidenses, e trabalharemos em conjunto para reforçar os “alicerces sólidos” para as relações estáveis sino-estadunidenses.

A questão de Taiwan é certamente um foco deste encontro. Pode falar-nos sobre a comunicação entre os dois líderes em torno da questão de Taiwan?

Wang Yi: Taiwan é parte da China e a questão de Taiwan é um assunto interno da China. A razão pela qual a questão de Taiwan está a ser discutida entre a China e os Estados Unidos é porque os Estados Unidos têm interferido nos assuntos internos da China. A nossa exigência é muito clara e inequívoca: deixar de interferir nos assuntos internos da China e respeitar a soberania e a integridade territorial da China. Durante a reunião, o Presidente Xi Jinping informou o Presidente Biden sobre a história da colonização e invasão de Taiwan por forças externas ao longo dos últimos séculos, e salientou que a oposição da China à “independência de Taiwan” e à preservação da sua integridade territorial é salvaguardar a terra que pertence à China há gerações. Quem quiser separar Taiwan da China é contra a justiça nacional da China, e o povo chinês fará uma causa comum e nunca concordará com ela. O Presidente Xi salientou que a China aderirá à política básica de “reunificação pacífica e um país, dois sistemas” e lutará pela perspectiva da reunificação pacífica com a máxima sinceridade e esforço. No entanto, se as três situações graves estipuladas na Lei Anti-Secessão surgirem, a China agirá em conformidade com a lei. A China está mais interessada na paz e estabilidade no Estreito de Taiwan, e a “independência de Taiwan” é incompatível com a paz e estabilidade no Estreito de Taiwan.
O Presidente Xi salientou que a questão de Taiwan é o cerne dos interesses centrais da China, o fundamento da base política das relações EUA-China, e uma linha vermelha que os Estados Unidos não podem e não devem atravessar. A China exige que o lado americano seja coerente com as suas palavras e actos, adira à política de “uma só China” e às disposições dos três comunicados conjuntos EUA-China, cumpra o seu compromisso de “não apoiar a “independência de Taiwan”, deixe de deflacionar e esvaziar a política de “uma só China”, e restrinja a “independência de Taiwan”.
O Presidente Biden disse que os Estados Unidos aderem à política de uma só China e não apoia a “independência de Taiwan”, “duas Chinas” ou “uma China, uma Taiwan”, e não procura utilizar a questão de Taiwan como um instrumento para conter a China.

A China e os Estados Unidos são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A comunidade internacional espera geralmente que a China e os Estados Unidos trabalhem em conjunto para enfrentar vários desafios globais. Que progressos têm sido feitos na cooperação bilateral e multilateral entre a China e os Estados Unidos?

Wang Yi: A história do desenvolvimento das relações sino-americanas mostra que a China e os Estados Unidos juntos beneficiarão ambos os lados, enquanto que os combates prejudicarão ambos. Contra o pano de fundo de um século de epidemias e mudanças centenárias, e os desafios sem precedentes que a sociedade humana enfrenta, não é apenas do interesse da China e dos Estados Unidos, mas também da expectativa geral da comunidade internacional que a China e os Estados Unidos, como dois grandes países, reforcem a cooperação em campos bilaterais e multilaterais e trabalhem em conjunto com outros países para superar as dificuldades da época.
Durante a reunião, o Presidente Xi Jinping afirmou que a cooperação entre a China e os Estados Unidos é boa para ambos os países e para o mundo. A China e os Estados Unidos têm diferenças e divergências, as diferenças não devem ser um obstáculo ao desenvolvimento das relações sino-americanas, e as diferenças devem ser a força motriz para os intercâmbios e a cooperação entre os dois países. A cooperação requer uma boa atmosfera e uma relação estável, não pode ser uma lista de atracção unilateral, deve cuidar das preocupações de ambas as partes, e deve haver dar e receber. Independentemente da relação entre a China e os Estados Unidos, a vontade de ambos os países de cumprir as suas grandes responsabilidades de poder nos assuntos internacionais não pode ser reduzida.
O Presidente Xi Jinping observou que a China e os Estados Unidos deveriam trabalhar para tornar a lista de cooperação mais longa e não mais curta. Os dois chefes de Estado concordaram que as suas equipas podem dialogar sobre política macroeconómica, comércio e questões económicas entre os dois países, e trabalhar em conjunto para promover um resultado positivo da 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Coordenar a implementação dos dois documentos de cooperação formados nos domínios da saúde pública e agricultura, encorajar e apoiar o desenvolvimento do intercâmbio de humanidades EUA-China, expandir o intercâmbio de pessoas em vários domínios, e continuar as consultas do Grupo de Trabalho Conjunto EUA-China para abordar questões mais específicas.
Os factos têm demonstrado repetidamente que a competição não pode ser simplesmente utilizada para definir toda a relação EUA-China, e que a cooperação é sempre a melhor opção tanto para a China como para os Estados Unidos. A cooperação EUA-China é benéfica para todas as partes e abre um futuro vantajoso tanto para a China como para os Estados Unidos, e um futuro vantajoso para o mundo.

Sobre que outras preocupações importantes e comuns as duas partes trocaram opiniões?

R: O Presidente Xi Jinping clarificou a posição da China sobre uma série de questões importantes que preocupam o lado americano, bem como a comunidade internacional, e deixou clara a atitude da China.
Sobre a questão da democracia e dos direitos humanos. O Presidente Xi Jinping salientou que a liberdade, a democracia e os direitos humanos são a busca comum da humanidade e a busca consistente do Partido Comunista Chinês. Os Estados Unidos têm uma democracia ao estilo americano e a China tem uma democracia ao estilo chinês, ambas em conformidade com as suas respectivas condições nacionais. O processo completo de democracia popular da China baseia-se nas condições nacionais e na história e cultura da China, e reflecte a vontade do povo. As diferenças específicas que existem entre os dois lados podem ser exploradas, desde que haja um intercâmbio igualitário. Definir o próprio país como democrático e outro país como autoritário é em si mesmo um sinal de antidemocracia. A chamada “democracia contra o autoritarismo” é uma falsa proposta, não uma característica do mundo de hoje, e não está de acordo com a tendência dos tempos.
Sobre a questão dos caminhos institucionais. O Presidente Xi Jinping disse que os Estados Unidos estão empenhados no capitalismo, a China está empenhada no socialismo, os dois lados estão a tomar um caminho diferente. Esta diferença existe desde o primeiro dia em que os dois lados lidaram um com o outro, e continuará a existir no futuro. É importante que a China e os Estados Unidos se dêem bem um com o outro, reconhecendo esta diferença e respeitando-a. A liderança do Partido Comunista Chinês e do sistema socialista da China, abraçada e apoiada por 1,4 mil milhões de pessoas, são a garantia fundamental do desenvolvimento e estabilidade da China. Tentativas de subverter a liderança do Partido Comunista da China e do sistema socialista chinês iriam pisar os limiktes, atravessar uma linha vermelha e abalar os alicerces da relação entre os dois países.
Sobre questões económicas e comerciais. O Presidente Xi Jinping salientou que a essência das relações económicas e comerciais entre a China e os Estados Unidos é mutuamente benéfica, combatendo guerras comerciais, guerras tecnológicas, “construindo artificialmente muros e barreiras”, forçando “a dissociação e a quebra de cadeias”, completamente contrárias aos princípios da economia de mercado, minam as regras do comércio internacional, apenas em detrimento de outros. A China levará a cabo uma firme reforma e abertura, e colocará sobre si mesma a base do desenvolvimento e do progresso. A China tem uma gloriosa tradição de auto-aperfeiçoamento, e toda a repressão e contenção apenas estimulará a vontade e o entusiasmo do povo chinês. Se os EUA forem até ao fim na questão do “desacoplamento”, acabará por levantar uma pedra e esmagar os seus próprios pés.

Actualmente, a comunidade internacional está altamente preocupada com a crise na Ucrânia e na Península Coreana. Como é que os dois lados interagiram sobre esta questão?

Wang Yi: Os dois chefes de Estado procederam a uma troca de impressões aprofundada sobre questões internacionais e regionais, incluindo a questão da Ucrânia e a questão nuclear na Península Coreana. Sobre a questão da Ucrânia, o Presidente Xi reiterou os “quatro deveres” da China ao tratar da questão da Ucrânia e clarificou as “quatro respostas comuns” da China à mais recente evolução da situação na Ucrânia. Sublinhou que o diálogo e as negociações devem ser conduzidos para resolver a crise pacificamente, que as armas nucleares não devem ser utilizadas e que a guerra nuclear não deve acontecer, que uma crise nuclear deve ser evitada na Ásia e na Europa, e que devem ser feitos esforços conjuntos para assegurar a estabilidade da cadeia de abastecimento da cadeia industrial global e para evitar uma crise humanitária em grande escala, e que a China sempre esteve do lado da paz e continuará a insistir na paz e na negociação.
Sobre a questão nuclear da Península da Coreia, o Presidente Xi Jinping elaborou a posição estabelecida da China, sublinhando que o cerne da questão na península deve ser enfrentado de forma frontal e que se deve insistir numa solução equilibrada para as suas respectivas preocupações, especialmente as legítimas preocupações da RPDC.

Acaba de introduzir o significado da reunião e o consenso alcançado. Quais são os próximos acordos de seguimento para ambas as partes?

Wang Yi: Durante a reunião, os dois chefes de Estado concordaram em continuar a manter contactos regulares, enquanto encarregam as equipas diplomáticas e de segurança dos dois países de prosseguir a comunicação estratégica, dar seguimento às principais questões discutidas, e implementar o consenso alcançado.
O lado americano disse que o Secretário de Estado norte-americano Blinken visitará a China o mais rapidamente possível para dar seguimento à reunião. A China congratula-se com este facto. As equipas financeiras, económicas e comerciais dos dois países também comunicarão e coordenarão sobre questões como as políticas macroeconómicas e as relações económicas e comerciais EUA-China. Tudo considerado, a reunião alcançou o objectivo esperado de comunicação aprofundada, clarificando intenções, traçando linhas vermelhas, prevenindo conflitos, indicando direcções e explorando a cooperação.

Han Fei Zi e o legismo

Han Fei (280 -233 a.E.C.) nasceu na família real do País de Han, no centro da China, durante a fase final do Período dos Estados Combatentes. Na sua formação foi determinante a influência de Xun Zi um confucionista de grande relevo político à época. Para além deste mestre, a outra fonte para as suas teorias políticas foi, curiosamente, o “Dao De Jing” de Lao Zi, que Han Fei interpretava mais como um texto político do que como um guia místico, como pareceu ser prática subsequente e mesmo hodierna. Han Fei via o “Dao” como uma lei natural que todas as coisas e todos os homens estavam destinados a seguir. No entanto, o filósofo acabou por chegar a um pensamento em que o soberano era colocado no centro absoluto, controlando o Estado com a ajuda de três conceitos: poder (“shi”), técnica (“shu”) e as leis (“fa”). Este pensamento seria objecto de um radical refinamento ao longo da sua vida e obra.
Han Fei assistiu ao gradual, mas constante, declínio do Estado Han e, em diversas ocasiões, tentou persuadir o rei a seguir políticas diferentes, apesar do monarca nunca ter ouvido os seus conselhos (diz-se que Han Fei seria gago, o que se, por um lado, lhe dificultava a comunicação das ideias na corte, por outro, o terá levado a desenvolver aquele que ainda hoje é considerado como um dos mais brilhantes estilos escritos da China). Com um desespero crescente, via como os políticos do seu tempo eram levados pelos filósofos Ru (nome da escola confucionista) e pelos seguidores de Mo Zi (490-403 a.c. Filósofo de estatura equivalente à de Confúcio, que recusava a ordem aristocrática e preconizava uma certa noção de “Amor Universal”) que pregavam interminavelmente acerca das virtudes morais.
Para além desta influência, que considerava perniciosa em extremo, os estados da sua época estavam à mercê de bandos de cavaleiros mercenários que a cada passo escarneciam e agiam contra as leis, acrescentando à confusão da sociedade e dos regentes, como uma errante nuvem negra de anti-heróis pairando sobre todo um período histórico.
Por fim, as obras de Han Fei acabaram por chegar ao centro de poder do Estado de Qin, onde pontificava aquele que viria a ser o Primeiro Imperador (o imperador Huangdi). No entanto, na corte Qin o filósofo foi rapidamente vítima de uma teia de suspeitas relacionadas com a sua origem no país de Han e consequente incapacidade natural de servir a outro senhor. Este clima conspiratório acabaria por conduzir Han Fei ao suicídio.

O Legismo da Dinastia Qin

O ponto principal e básico de onde Confúcio e Mencius partiram assentava numa visão do homem como fundamentalmente bom. Cada ser humano nascia com “de” ou “virtude moral”. Curiosamente, um dos maiores confucionistas da antiguidade, e mestre de Han Fei, Xun Zi (298 -238 a.E.C.), acreditava exactamente no oposto: que todos os seres humanos nasciam fundamentalmente depravados, egoístas, gananciosos e cheios de luxúria. No entanto, esta não era uma visão inteiramente tenebrosa e pessimista da humanidade, pois Xun Zi acreditava, simultaneamente, que os homens poderiam ser tornados bons através da educação e da convivência social. O seu aluno Han Fei começou a pensar a partir do mesmo ponto, embora tenha chegado à conclusão de que os seres humanos são tornados bons pelas leis do Estado.
Para o filósofo, a única forma de contrariar o egoísmo humano e a sua depravação era através do estabelecimento de leis que recompensassem abundantemente as acções, que beneficiassem os outros (a comunidade, a sociedade; o próprio Estado, na figura do soberano) e punissem impiedosamente todas as acções que causassem mal aos outros ou ao Estado. Se, para Confúcio, o poder era algo para ser usado em benefício do povo, para Han Fei, o benefício do povo residia no controlo sem restrições do egoísmo individual.
Radical, Han Fei acrescentava que se não se puder confiar no próprio Imperador para se comportar à altura do interesse do seu povo, isto é, se se pode esperar egoísmo do próprio Imperador, é necessário que as leis tenham um carácter supremo acima mesmo do soberano. Idealmente, se as leis fossem suficientemente bem escritas e aplicadas com agressividade, não existiria necessidade sequer de liderança individual, pois as leis seriam só por si suficientes para governar o Estado. Mais um aspecto em directa oposição ao idealismo confucionista de uma condição social humana em que as leis não seriam necessárias.
Quando os Qin ganharam poder imperial ao cabo de décadas de guerra civil, adoptaram as ideias dos Legistas como a sua teoria política. Na prática isto significou apenas uma nova forma de totalitarismo uniforme. As pessoas eram obrigadas a trabalhar por períodos indefinidos em projectos do Estado, um dos quais foi a construção de secções de muralhas defensivas, parte da Grande Muralha. Todos os tipos de discórdia com o governo passaram a ser objecto de pena capital. Todos os modos de pensamento alternativo, que os Legistas entendiam como encorajando a tendência natural de fraccionamento da humanidade, foram banidos. Estas políticas acabariam por causar a queda da própria Dinastia Qin ao cabo de apenas catorze anos no poder. As revoltas locais não encontraram resistência por parte dos oficiais do governo, que temiam que os próprios relatórios sobre essas revoltas pudessem ser considerados como críticas ao governo e assim resultassem na sua própria execução. A corte só descobriu estes levantamentos quando era já demasiado tarde e, em termos gerais, os Qin caíram em descrédito por mais de dois milénios.
Apesar de tudo isto, não é de facto simples desacreditar o Legismo como apenas um curto, anómalo e desagradável período de totalitarismo na história da China. Os Legistas estabeleceram formas de governo que influenciariam profundamente o futuro. Em primeiro lugar, adoptaram e colocaram em prática o idealismo de Mo Zi acerca do utilitarismo: as únicas ocupações a que o povo se devia dedicar deveriam ser aquelas que beneficiassem materialmente os outros, em particular a agricultura. A maioria das leis dos Qin foram tentativas de demover as pessoas de certas actividades inúteis tais como as Letras e a Filosofia. Este utilitarismo haveria de sobreviver como uma das correntes mais dinâmicas da teoria política chinesa.
Em segundo lugar, os Legalistas inventaram aquilo a que podemos chamar “o primado da lei”, ou seja, a noção de que a lei é superior a cada indivíduo, incluindo governantes. É a lei que deve governar e não os indivíduos, cuja autoridade se limita à administração da lei.
Em terceiro lugar, os Legistas aplicaram, quase como conclusão lógica, uma padronização uniforme da lei e da cultura. De modo a ser eficaz, a lei deve ser aplicada com uniformidade, ninguém deve ser punido mais ou menos severamente por causa do seu estatuto social. Esta noção de igualdade perante a lei permaneceria, com algumas alterações (nomeadamente na questão religiosa, levantada sobretudo com o advento do budismo organizado na China), um conceito central nas teorias chinesas de governo.
Na sua busca de uniformização, os Qin levaram a cabo um projecto de padronização da cultura chinesa abarcando o sistema de escrita, o sistema monetário, os pesos e medidas, e os sistemas filosóficos (o que conseguiram sobretudo através da destruição de escolas de pensamento rivais). Tudo isto afectou profundamente a coerência da cultura chinesa e a centralização do governo. A dinastia que lhes sucedeu, a dos Han (202 a.E.C. – 9 a.E.C.), continuou esta tentativa de fusão de escolas rivais num processo conhecido por Síntese Han.

A solidão e a saudade na poesia de Wang Wei

Wang Wei(701-761), o poeta budista, nasceu no condado de Qi, província de Shanxi. É um dos grandes representantes da poesia paisagística e pastoril da dinastia Tang. Desde muito cedo, acreditava no budismo, pensava de uma forma inconvencional, ademais, fez uma carreira de oficial saliente. O núcleo da sua poesia é a beleza e solidão das montanhas e dos rios, carrega versos que refletem o panorama da montanha arborizada e o prazer da vida em seclusão, a tranquilidade da floresta de bambu e a beleza e solidariedade da lua. Muitas vezes, sua forma de expressar representa a combinação entre a poesia, a pintura e a música, e expressa o vazio do silêncio e o baço do indistinto sem separar do ambiente natural, seu estado de veemência e serenidade, a profundeza e a cordialidade da sua alma. Depois dos quarenta anos, passou a viver meio oficial e meio ermita. Em forma de jueju (composições poéticas belas e entoadas compostas por quatro versos), vamos viajar pelos recantos nostálgicos criados pelo Wang Wei:

鹿柴

空山不见人,
但闻人语响。
退影入深林,
复照青苔上。

Floresta dos cervos

Ravina vasta, desabitada,
Eco de voz se ouvia.
Raios do ocaso penetram na floresta profunda,
Sombra matizada, sobre o musgo verde, reflectia.

竹里馆

独坐幽簧里,
弹琴复长啸。
深林人不知,
明月来相照。

Recanto de bambus

Sozinho, sentado no meu recanto,
Toco, para o céu, assobio.
Nesse recanto profundo, ninguém sabe se existo
Só a lua com seu brilho e companheirismo.

送别

山中相送罢,
日暮掩柴扉。
春草年年绿,
王孙归不归?

Despedida na montanha

Depois de me despedir do velho amigo,
À noite, silenciosamente, fecho a porta do meu abrigo.
No próximo ano, quando as ervas voltarem a verdejar,
Será que nos voltaremos reunir, amigo?

相思

红豆生南国,
春来发几枝?
愿君多采撷,
此物最相思。

Ervilha de Rosário

A sua árvore cresce nas terras do sul,
Quantos ramos brotaram na primavera?
Colhe mais! colhe até encher sua mão,
Ela é o que mais representa a dor da sua solidão.

杂诗

君自故乡来,
应知故乡事。
来日绮窗前,
寒梅著花未?

Miscelânea

Paisano, vieste da nossa terra
Deves saber as notícias de lá!
Quando partiste, aquela agridoce à frente da janela,
Teria já florescido?

九月九日忆山东兄弟

独在异乡为异客,
每逢佳节倍思情。
遥知兄弟登高处,
遍插茱萸少一人。

Recordo meus amigos no monte Hua no dia do festival Yang

Solitário vagueando por terra desconhecida,
Saudade aperta nesta data festiva.
Lembro amigos no alto do monte, de cornisos na cabeça,
Distantes, sentem a falta da minha presença.

Som e sentido na escrita chinesa

Dando sequência à crítica aos ideogramas como ideologia — ou, no mínimo, à revisão do que costuma ser tomado como o mundo afônico dos ideogramas, convém que nos debrucemos sobre um caso e, por ele, busquemos algumas novas interpretações que ampliem o campo da linguística, no qual nos aventuramos em nossa última coluna. Tomemos Buda como exemplo. O caractere que o representa no extenso rol de ideofonogramas chineses é o seguinte: 佛. Fó, cuja pronúncia se dá no segundo tom.
Huo Datong, “o único psicanalista da China”, nos recorda de que a parte esquerda dos caracteres compostos (no caso de 佛, trata-se do radical para 人, rén, pessoa, ser humano) está, geralmente, relacionada com a imagem, numa conexão lacaniana com o significante que, concreto, encontra correspondência na realidade objetiva. Segundo essa compreensão, ao identificar 人, vejo uma pessoa em pé, e isso já imprimiria “ideogramicamente” o sentido do que hei de ver. A parte direita do caractere (弗, fú, no caso de Buda) seria então a atribuição fonética ao novo caractere, composto. Nesse caso, a origem etimológica perderia o significado ideal, “ideogrâmico”, e figuraria apenas como acessório sonoro à composição. Sendo o caractere 弗 um elemento de negação, poderíamos até aventar a hipótese de que buda, em última instância, seria um não-humano (o que não deixa de ser verdade, em certo sentido: os budas, isto é, os iluminados que nascem no reino humano — pois, em verdade, há budas em todas as direções, todos os reinos e todos os tempos, animais, espirituais, divinos — deixam de ser humanos sujeitos ao ciclo quase eterno de renascimentos e mortes, libertando-se por meio da iluminação. Chegam a ser algo como não-humanos, portanto…)
Mas não é isso que se dá, a menos que queiramos poetizar a não-humanidade (ou a suprema humanidade) de Buda. A composição do caractere ocorre por uma razão simples, nos diz Huo Datong: a visão do elemento à esquerda acionaria o hemisfério direito do cérebro, responsável pela compreensão mais abrangente e visual do contato sensorial, lidando com a totalidade orgânica dos dados percebidos e com sua conexão com elementos concretos.
A visão do elemento à direita acionaria, por sua vez, o hemisfério esquerdo do cérebro, responsável por funções fonadoras, racionalização, pela concretude e pela generalidade dos processos linguísticos.
E o psicanalista nos diz mais, a partir de bases que apenas reforçam que o mito do ideograma, como sugeriu John DeFrancis, é mesmo um mito: Datong afirma existir uma quebra entre a imagem e a realidade, com a primeira não mais remetendo à segunda, num processo de patologização da linguagem alienada:
“A ruptura que ocorre entre a figura do caractere chinês e o significado representa a ruptura do vínculo entre o imaginário e o real. A manifestação patológica dessa ruptura é a amnésia, cujo estado extremo é que o paciente não se lembra mais de nada. […] Podemos notar também que o pictograma do cavalo no ideofonograma da mãe desempenha apenas um papel fonético, enquanto sua figura como imagem visual do cavalo perdeu sua função de representação-coisa, ou seja, seu elemento da figura foi reprimido. O pictograma do cavalo agora não indica o cavalo, mas apenas o som, ma.” (Huo Datong em francês no original).
Explicando que o elemento cavalo do caractere para mãe (o 马 de 妈) cumpre apenas função fonética, o psicanalista diz algo semelhante ao que nos diz Jonathan Stalling quando critica a visão reificada, concreta e imagista que — sobretudo — Ezra Pound imprimiu à sua leitura da escrita chinesa.
Pound fazia parecer que a escrita ideogrâmica era sumamente fotográfica, com tudo sendo diretamente vinculado a um elemento do real, algo aproximado do mito que DeFrancis analisa. Stalling, sobre isso, percebe a constante “ruptura entre real e imaginário” que Huo Datong enunciou e desmente, assim, a ubíqua relação concreta dos poetas:
“A velha teoria quanto à natureza do caractere escrito chinês (que Pound e Fenollosa seguiram) é a de que o caractere escrito é ideograma — uma imagem estilizada da coisa ou conceito que representa. A teoria oposta (que prevalece hoje entre os estudiosos) é que o caractere pode ter suas origens pictóricas em tempos pré-históricos, mas que essas origens foram obscurecidas em todos, exceto em alguns casos muito simples, e que, em qualquer caso, os utilizadores nativos não têm o significado pictórico original em mente enquanto escrevem.” (Jonathan Stalling).
Há uma questão interessante que surge dessa sequência de críticas, e que pretendemos desenvolver no futuro, mas aqui a sumarizo: o tal mito ideográfico, ao sobrepor a visualidade à materialidade sonora da língua falada e, com isso, ignorar a dissociação que a história imprime entre caractere e sentido originário, faz com que os leitores — sobretudo — ocidentais da escrita chinesa, de sua poética própria, valorizem a pictografia em detrimento da sonoridade, a materialidade concreta dos traços em lugar da fluidez maviosa que o falar carrega consigo.

Bibliografia

Datong, Huo. (s/d). L‘inconscient est structuré comme l’écriture chinoise. Lacan et le monde chinois. Disponível em: http://www.lacanchine.com/Ch_C_HuoInc_Txt.html
Duarte-Plon, L. (2003). Psicanalista Huo Datong. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica [online], v. 6, n. 1. DOI: https://doi.org/10.1590/S1516-14982003000100009.
Durazzo, L.; Jatobá, J. (2014). Ensaiando uma tradução coletiva: Yao Feng e o som da poesia chinesa. Translatio, n. 7. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/translatio/article/view/50795
Stalling, J. (2011). Poetics of Emptiness: Transformations of Asian Thought in American Poetry. New York: Fordham University Press.

Cinemateca Paixão | Novembro com histórias no feminino

DR
A Selecção de Novembro da Cinemateca Paixão é marcada por uma lista eclética de cinco filmes que variam entre produções europeias, africanas e asiáticas. As obras escolhidas têm como epicentro personagens femininas e foram todas reconhecidas em festivais internacionais de cinema

 

Cannes, Palm Springs, Toronto, Hong Kong, Sundance e mais um rol de festivais de cinema reconheceram os seis filmes que fazem a Selecção de Novembro da Cinemateca Paixão.

A primeira película a ser apresentada na Travessa da Paixão é “1982”, do realizador libanês Oualid Mouaness, no próximo sábado às 19h30. Celebrado em Cannes, Hollywood e Singapura, “1982” tem como pano de fundo o início da guerra da Líbano. Protagonizado pela actriz Nadine Labaki, que atingiu um patamar mundial com o filme “Caramel”, e que em “1982” dá o corpo a uma professora de uma escola de Beirute. A docente vê-se envolvida numa cândida estória de amor entre dois alunos, que esparra em timidez infantil, enquanto as forças militares israelitas invadem o Líbano.

O filme reflecte a infância do realizador e a escola em que estudou, num cenário montanhoso e pitoresco. Escrito e realizado por Oualid Mouaness, “1982” levou oito anos a ser produzido, enquanto o autor trabalhava noutros projectos. “1982” volta a ser exibido na próxima terça-feira, às 19h30, na quinta-feira 25 de Novembro, às 21h, e depois no dia 27 de Novembro, às 19h.

A obra que se segue no cartaz da Cinemateca Paixão é “Anaïs in Love” da realizadora francesa Charline Bourgeois-Tacquet, que é apresentada no próximo domingo, às 19h30. A inquietação e extrema emotividade são os pilares da obra de Charline Bourgeois-Tacquet, que retrata a vertiginosa vida de Anaïs, um turbilhão de pessoa, que no fim de uma relação amorosa acaba por despertar o interesse de outro homem, comprometido. Adicionando gasolina ao fogo, a protagonista acaba por se envolver com a mulher do seu novo interesse amoroso.

O charme efervescente de Anaïs suaviza o comportamento narcisista e a busca incessante pela próxima nova excitação.

“Anaïs in Love” é um bom filme para ver no Inverno, pois faz brilhar um sol cinematográfico onde quer se seja projectado. Com uma cadência dramática suave, apesar das desventuras da protagonista, a produção francesa flui de uma forma estranhamente positiva para um filme repleto de circunstância dramáticas. A obra volta a ser exibida na próxima terça-feira, 21h30, no dia 24 de Novembro às 21h30 e no dia 25 de Novembro às 19h.

Corpos e sacrilégios

Também na próxima terça-feira, às 19h30, estreia “Gentle”, uma produção húngara que tem como epicentro a vida de Edina, uma das mais conceituadas culturista da Hungria, enquanto se prepara para competir num campeonato de culturismo.

O seu namorado, Adam, é também o treinador que a puxa até aos limites físicos e psicológicos, não aceitando outro resultado que não seja a vitória, apesar dos elevados custos económicos que a prática do culturismo implica.
Sem margem para erro, e com as despesas e sacrifícios a amontoarem-se, a desportista acaba por se prostituir para continuar a competir.

Realizado por László Csuja e Anna Nemes, “Gentle” volta a ser exibido no dia 26 de Novembro, às 21h, e no dia 2 de Dezembro, às 19h30. Da Hungria para o Chade, a Selecção de Novembro da Cinemateca Paixão propõe um drama familiar, que coloca uma jovem mulher no centro da discussão secular entre fé religiosa e autonomia e independência.

“Lingui, The Sacred Bonds” tem a primeira exibição agendada para o dia 23 de Novembro, às 21h30. Realizado pelo cineasta do Chade Mahamat-Saleh Haroun, este filme centra-se em torno da vida frágil de Amina, que vive sozinha com a filha de 15 anos na capital N’Djamena.

A gravidez inesperada da filha adolescente lança a já instável vida familiar numa espiral descendente cuja a mais óbvia solução é o aborto, caminho doloroso num país cujas leis e religião se opõem determinantemente contra a interrupção da gravidez.

A luta contra forças desmesuradamente superiores, a coragem de Amina, a intensidade dramática que se esbate na vastidão de planos de grande-angular, são alguns dos ingredientes que dão sabor a “Lingui, The Sacred Bonds”. A filme de Mahamat-Saleh Haroun volta a ser exibido no dia 26 de Novembro, às 19h, e no dia 1 e Dezembro às 19h30.

Finalmente, no dia 24 de Novembro, às 19h30, a tela da Cinemateca Paixão exibe “Rehana Maryam Noor”, uma produção do Bangladesh realizada por Abdullah Mohammad Saad. O título do filme é o nome da protagonista, uma professora de 37 anos de idade que lecciona numa faculdade privada de medicina. Apesar do cargo profissional, a vida de Rehana é um somatório de dificuldades. Um dia, vindo do nada, um facto aleatório coloca uma pedra na engrenagem existencial da Rehana: testemunha um colega de profissão a abusar de uma aluna.

O incidente muda a vida da protagonista, que decide denunciar o comportamento do colega, levando Rehana para uma batalha por justiça. O filme volta a ser apresentado no dia 27 de Novembro, às 21h, e no dia 30 de Novembro, às 19h30. Como é habitual, o preço dos bilhetes é 60 patacas.