Jogo | Início do mês confirma tendência de redução anual de receitas

Segundo o banco de investimento Citigroup, o Campeonato Mundial é o principal responsável pela menor disponibilidade para apostar em Macau. Com um calendário desportivo recheado, o foco passou das mesas de jogo dos casinos para as partidas de futebol

Nos primeiros 14 dias de Junho, os casinos registaram cerca de 9 mil milhões de patacas em receitas brutas do jogo. O número consta no relatório do banco de investimento Citigroup, divulgado na segunda-feira.

Segundo a instituição, citada pelo portal GGRAsia, a semana que terminou a 14 de Junho registou um abrandamento das apostas para uma média diária de 586 milhões de patacas de receitas. Este valor representa uma redução de 20 por cento face a Maio, quando a média diária das receitas atingiu 729 milhões de patacas.

Os números mais recentes revelam igualmente uma diminuição de 16 por cento em comparação com a primeira semana do próprio mês de Maio, quando as receitas estavam a entrar nos casinos a um ritmo médio de 700 milhões de patacas por dia.

Na perspectiva do Citigroup, este abrandamento das receitas “está provavelmente” ligado ao início do Campeonato Mundial de Futebol, que decorre até 20 de Julho no Canadá, Estados Unidos e México. Para os analistas, as apostas no campeonato estão a reduzir o orçamento que os jogadores normalmente reservam para as mesas do território.

Pela primeira vez o Mundial de futebol conta com a participação de 48 equipas, o que se vai traduzir num total de 104 jogos. Segundo o Citigroup, a expansão do torneio vai ter um impacto maior no jogo de Macau face às edições anteriores, que duravam menos tempo e tinham menos jogos. Como indícios desta tendência, os analistas apontam também que o segmento VIP está a ter maiores problemas para manter os jogadores nas mesas de jogo.

Previsão mantida

No relatório de segunda-feira, e apesar do cenário menos optimista, o Citigroup manteve a previsão das receitas de jogo em 19 mil milhões de patacas, como havia referido anteriormente. Este valor significa uma redução anual de 10 por cento.

Todavia, para que este valor seja efectivamente alcançado, os analistas estimam que as receitas médias diárias do jogo a partir de 15 de Junho têm de atingir os 625 milhões de patacas.

Este valor não é tido como inalcançável devido à realização de mais espectáculos nas propriedades das concessionárias na segunda metade deste mês, que se espera que contribua para um maior número de visitantes e apostadores.

O banco de investimento destaca em particular os espectáculos de Keung To, estrela de Hong Kong, membro do grupo Mirror, no Galaxy Arena, e Wakin Chau, cantor de Taiwan, com o espectáculo a ser organizado pela Sands China na Arena Londoner. “Acreditamos que estes espectáculos podem ajudar a atenuar o potencial da quebra das receitas brutas do jogo”, foi indicado.

Óbito | Morreu antigo dirigente da FAOM

O ex-vice-presidente da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM) e membro da Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo, Fong Ka Fai faleceu aos 69 anos. A informação foi divulgada ontem através de um comunicado, e a causa de morte foi apontada como “doença prologada”. A morte aconteceu na madrugada da passada sexta-feira.

No âmbito das ligações à associação tradicional, Fong Ka Fai foi um dos fundadores em 1998 da Escola Secundária Técnico-Profissional da Federação das Associações dos Operários de Macau, onde desempenhou as funções de reitor. Em 2010, no âmbito de uma procura crescente, foi também o responsável pelo desenvolvimento do ensino do ensino nocturno, para trabalhadores que procuravam desenvolver outras qualificações.

O funeral de Fong Ka Fai vai ser realizado amanhã, sendo o corpo transportado depois para ser cremado em Zhuhai.

APEC | Polícias da Grande Baía reforçam cooperação

As forças policiais de Macau, Hong Kong e Guangdong reuniram na passada quinta-feira em Hong Kong para “reforçar a cooperação e combater severamente todos os tipos de crimes transfronteiriços” tendo em conta a realização das reuniões da Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), em Guangdong, Hong Kong e Macau.

Segundo um comunicado divulgado ontem pelos Serviços de Polícia Unitários (SPU), as autoridades das três regiões estão empenhadas nos trabalhos de segurança, promovendo “a inovação da tecnologia policial e o intercâmbio de experiências, defendendo, em conjunto, a segurança e a estabilidade”.

A reunião serviu também para a partilha de experiências e dos resultados do combate à criminalidade transfronteiriça ao longo do ano passado.

A criminalidade organizada foi um dos temas mais debatidos, segundo os SPU, com foco nos crimes de branqueamento de capitais, droga, crimes económicos, organizações secretas, prostituição e jogo. O combate às burlas e salvaguarda da cibersegurança também foram temas abordados. Este foi o 29.º encontro entre as chefias das polícias das três regiões.

Branqueamento | Plano estratégico discutido

O Grupo de Trabalho Interdepartamental contra o Branqueamento de Capitais e Financiamento ao Terrorismo esteve reunido para discutir o Plano Estratégico da RAEM para o combate ao branqueamento de capitais, financiamento ao terrorismo e financiamento à proliferação de armas de destruição maciça.

O encontro aconteceu na semana passada, mas apenas foi divulgado ontem, num comunicado dos Serviços de Polícia Unitários.

O novo plano estratégico entrou em vigor este ano e vai prolongar-se até 2030. Na reunião da semana passada, foram ainda abordadas as recomendações de acompanhamento do último relatório de avaliação mútua da RAEM, assim como a recente sobre a proposta de lei sobre o combate aos actos de branqueamento de capitais e de financiamento ilícito.

Turismo | Fronteiras movimentadas no fim-de-semana

A Administração Nacional de Imigração estima que no fim-de-semana prolongado pelo feriado do Festival dos Barcos-Dragão as fronteiras de Macau registem, diariamente, cerca de 720 mil travessias nos dois sentidos. Sem surpresas, o posto fronteiriço com mais movimento previsto é o das Portas do Cerco

Com o fim-de-semana prolongado pelo feriado do Festival dos Barcos-Dragão na sexta-feira, são esperadas novas enchentes nas fronteiras. A Administração Nacional de Imigração emitiu ontem um comunicado em que estima que as quatro fronteiras com Macau mais movimentadas registem cerca de 720 mil travessias diariamente. Mais de metade dos movimentos fronteiriços diários, cerca de 370 mil, devem ocorrer na fronteira entre Gongbei e as Portas do Cerco.

As restantes travessias serão repartidas entre o posto fronteiriço da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, com 122 mil travessias diárias, Qingmao com 115 mil movimentos fronteiriços e a fronteira de Hengqin com uma estimativa de 105 mil travessias por dia.

A Administração Nacional de Imigração explica a previsível azáfama nas fronteiras nas regiões administrativas especiais com as “várias corridas de barcos-dragão e eventos de grande escala que se vão realizar em Guangdong, Hong Kong e Macau”. “A combinação do turismo transfronteiriço com as visitas familiares aumentará significativamente o fluxo de pessoas nos postos fronteiriços terrestres adjacentes a Hong Kong e Macau”, é acrescentado.

O quadro maior

A nível nacional, as autoridades estimam que o número médio diário de pessoas que atravessam fronteiras para entrar e sair da China atinja este fim-de-semana cerca de 2,2 milhões, o que representa um aumento de 11,7 por cento em relação ao feriado do Festival dos Barcos-Dragão do ano passado, com o volume diário mais elevado a ultrapassar os 2,35 milhões.

Do total de travessias fronteiriças em toda a China, é estimado que as fronteiras com Macau sejam responsáveis por quase um terço dos movimentos, ou seja, 32,7 por cento.

É também indicado que os principais aeroportos chineses deverão registar um ligeiro aumento no tráfego de passageiros de entrada e saída, com os aeroportos de Xangai Pudong, Pequim Capital, Guangzhou Baiyun, Shenzhen Bao’an, Pequim Daxing e Chengdu Tianfu, com previsões de um tráfego médio diário de passageiros de entrada e saída de 104 mil, 52 mil, 52 mil, 21 mil, 19 mil e 17 mil, respectivamente. Todos, ficam a menos de 100 mil movimentos do que é estimado para a fronteira das Portas do Cerco.

Face ao esperado fluxo de pessoas, as autoridades chinesas garantiram que vão reforçar a monitorização de entradas e saídas e abrir corredores de inspecção para aumentar a eficiência.

Impostos | Simplificada importação de bebidas espirituosas e tabaco

O Governo quer simplificar a importação de bebidas espirituosas e produtos de tabaco, propondo o pagamento do imposto do consumo na altura de desalfandegamento dos bens importados. A proposta foi apresentada ontem pelo porta-voz do Conselho Executivo, o secretário Wong Sio Chak.

Actualmente, segundo o regime em vigor, o imposto de consumo é pago “quando o operador opta pelo ‘regime de pagamento voluntário simultâneo’ no momento da importação dos mesmos para Macau, seguindo-se o pedido de restituição do imposto”. Processo que as autoridades consideram “relativamente complexo”.

As alterações propostas estabelecem a obrigação do operador, “aquando da obtenção da licença de importação, ter uma conta num banco designado pela Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT), com fundos para pagar o imposto de consumo. Além disso, os produtos só podem ser importados para Macau depois de, no desalfandegamento, serem verificados e aprovados pelos Serviços de Alfândega, e depois de a DSEDT confirmar a dedução do imposto.

A alteração ao regulamento do imposto do consumo foi justificada com a necessidade de “aliviar os encargos operacionais dos operadores e a elevar a eficiência administrativa, ajudando ainda o sector a reduzir o período de circulação de capitais e facilitando a actividade empresarial”.

Em comunicado, o Conselho do Executivo acrescenta que a medida se enquadra na meta de reforma da Administração Pública para “simplificar, descentralizar e optimizar” e melhorar o ambiente de negócios.

Reparação predial | Fundo atribuiu 740 milhões desde 2007

O presidente do Instituto de Habitação, Iam Lei Leng, revelou ontem que o Fundo de Reparação Predial atribuiu cerca de 740 milhões de patacas desde a sua fundação, em 2007, montante correspondente a 7.523 pedidos aprovados relativos a mais de 4.600 edifícios. O responsável acrescentou que ao longo deste ano foram submetidos cerca de 270 pedidos de financiamento para manutenção de edifícios, envolvendo aproximadamente 28 milhões de patacas.

As estatísticas foram avançadas ontem na conferência de imprensa do Conselho Executivo que apresentou alterações ao regulamento do Fundo de Reparação Predial.

O Governo propõe o alargamento do âmbito do apoio financeiro “às obras de inovação”, assim como “o aumento dos limites do apoio financeiro e do crédito”. Iam Lei Leng prevê que, a partir do momento em que as alterações entrem em vigor, o orçamento do fundo aumente em mais de 8 milhões de patacas.

Este apoio público foi criado para incentivar e apoiar os proprietários a cumprirem as suas obrigações de conservação e reparação das partes comuns dos edifícios privados, para melhorar a “segurança e salubridade ambiental”.

Habitação social | Isenção de renda de lojas alargada para três anos

O Governo quer alargar o período de isenção de rendas, de seis meses para três anos, para lojas em prédios de habitação social, mercado que “tem enfrentado vários desafios”. A proposta de lei prevê a atribuição de arrendamentos através de concurso público, em vez de licitações verbais

O Conselho Executivo concluiu a discussão sobre a proposta de lei relativa ao arrendamento e cedência dos espaços comerciais em edifícios de habitação social.

Uma das principais alterações trazidas pela actualização da lei é o alargamento do período de isenção do pagamento de rendas de espaços comerciais localizados em edifícios de habitação social, que segundo a proposta apresentada pelo Conselho Executivo irá passar de seis meses para três anos.

A mudança foi explicada pelo facto de, nos últimos anos, ter havido um “ajustamento estrutural do ambiente de negócios de Macau” e “alteração dos padrões de consumo dos residentes”. Esse panorama faz com que “o mercado de arrendamento dos espaços comerciais em habitação pública administrados pelo Instituto de Habitação (IH)” enfrente vários desafios.

A proposta de lei apresentada ontem tem como objectivo actualizar um diploma promulgado há mais de 34 anos, que traça um quadro legal discrepante face à realidade social. Além disso, o diploma que vai seguir para a Assembleia Legislativa pretende optimizar a afectação dos espaços comerciais, aperfeiçoar as funções sociais e serviços comunitários, ao mesmo tempo que apoia micro, pequenas e médias empresas.

Quem dá mais

Apesar das isenções de rendas, os arrendatários têm de prestar, “a título de caução definitiva, uma quantia correspondente a dois meses de renda”.

Outra alteração, prende-se com a atribuição dos espaços comerciais através de concurso público, em vez do actual método de licitação verbal. O diploma prevê a apresentação de propostas em cartas fechadas, mas mantem o critério de “adjudicação ao concorrente que proponha o valor mais elevado”.

Para já, o diploma estipula duas situações de dispensa de concurso público quando as lojas sejam atribuídas a “organismos ou entidades designadas pela Administração”, e em “casos de particular urgência, devidamente fundamentados”.

É também proposto que os contratos de arrendamento sejam renovados automaticamente pelo prazo de ano, com o valor da renda a poder ser actualizado “com base na variação registada nos últimos 12 meses do Índice de Preços no Consumidor, publicado pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos”.

O Governo quer também aperfeiçoar o mecanismo de actualização de rendas. Apesar de manter a actual forma de cálculo, é atribuído ao “secretário para os Transportes e Obras Públicas o poder discricionário de ponderar, em função da conjuntura económica, a necessidade de proceder à actualização das rendas”. Em casos excepcionais, sob proposta do IH, o secretário pode “determinar a isenção parcial ou total do pagamento das rendas por um período a fixar”.

Governo promete incentivos fiscais para renovação urbana

Sam Hou Fai prometeu ontem que a renovação urbana tomará um outro rumo e que estão a ser pensados mais incentivos fiscais, e não só, para que os proprietários se sintam atraídos a renovar os prédios mais antigos.

“Vamos fazer trabalho [de revisão] da legislação do reordenamento [urbano] para termos um maior suporte legal, e incentivos fiscais que possam atrair e facilitar a maior participação e envolvimento dos visados”, disse o Chefe do Executivo em resposta aos deputados.

O debate começou, precisamente, pela renovação urbana, com os deputados a chamarem a atenção para a existência de muitas edifícios degradados. Ella Lei disse que “há cerca de cinco mil edifícios com mais de 30 anos, e muitos representam um risco”. A deputada alertou ainda para o facto de muitos residentes dizerem que, “mesmo querendo fazer obras de reparação, existem problemas complexos, como procedimentos morosos ou a faltam de assembleias de condomínio”. Desta forma, Ella Lei frisou que “a sociedade espera mais acções do Governo”, pedindo um “planeamento global integrado com a questão comunitária”.

Sam Hou Fai respondeu que o Executivo pretende “utilizar as habitações temporária e para troca, ampliar as suas funções em benefício dos visados e para a renovação urbana”, bem como “incentivar os proprietários a envolverem-se mais na reparação das suas fracções e edifícios”.

O Chefe do Executivo adiantou que a ideia é estabelecer uma janela temporal em que “a cada cinco ou dez anos, quando haja deterioração dos edifícios, eles [donos] possam trabalhar no sentido da sua reparação e manutenção, com o apoio do Fundo de Reparação Predial”.

A aposta de renovação passa também pelos edifícios baixos, nomeadamente de classe P e M, “com mais de 30 anos”. “Oferecemos medidas que aliciem os donos a aderir à manutenção e reparação” dos prédios, rematou Sam Hou Fai.

Um novo modelo

O governante prometeu trabalhar em prol de uma “maior resiliência urbana”, apostando “numa atitude pragmática e assumindo uma atitude liderança”. Sam Hou Fai disse que a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana irá liderar todo o processo de renovação “após aprovação de obras e definição de planos”, defendendo também “potenciar o papel da Macau Renovação Urbana”.

Sam Hou Fai anunciou ainda o lançamento de “um novo modelo de paradigma de trabalho no âmbito da renovação urbana, com modelos de reabilitação por quarteirões”.

Anunciada reconversão do sistema educativo a pensar na IA

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, anunciou ontem que haverá uma reconversão de todo o sistema educativo, desde o ensino técnico-profissional ao ensino superior, a pensar na Inteligência Artificial (IA) e na necessidade de novos conteúdos e formatos. “Vamos implementar a educação em IA em todas as fases de educação e melhorar os cursos técnico-profissionais nas escolas, e no ano lectivo de 2025-2026 12 escolas já administraram cursos nesta matéria”, começou por dizer o governante.

“No ensino superior vamos aditar cursos de IA, na área do Direito ou gestão digital, e fazer com que as instituições do ensino superior possam organizar micro cursos para esse efeito”, acrescentou.

Sam Hou Fai, que foi ontem à Assembleia Legislativa (AL) fazer um balanço dos seis meses de Governo, respondeu, assim, às muitas perguntas colocadas pelos deputados sobre a necessidade de apoios ao emprego dos jovens e dos residentes.

Ngan Iek Hang disse que “os recém-graduados esperam maior diversificação dos postos de trabalho em cargos de base e médios nas indústrias emergentes”, enquanto Lam Lon Wai destacou que “o que mais preocupa os residentes continua a ser o emprego”.

“Muitos jovens são licenciados, mas não têm experiência, enquanto alguns trabalhadores de meia idade temem que as suas competências fiquem desactualizadas”, indicou o deputado dos Operários. Lam Lon Wai lembrou que “muitos cursos não correspondem às necessidades de mercado”.

Chan Hao Weng disse mesmo que “os resultados da transformação de indústrias continuam a não beneficiar os residentes”.

Estudo a caminho

Ainda em matéria de emprego e trabalhadores não-residentes (TNR), Sam Hou Fai revelou que será divulgado, “ainda este ano”, o relatório do estudo encomendado pelo Governo sobre a necessidade de quadros qualificados no futuro, nomeadamente sobre “as indústrias mais populares, como a educação e área jurídica”.

Face a dados no apoio ao emprego, o Chefe do Executivo referiu que entre os meses de Janeiro a Abril deste ano, houve 40 sessões de apoio a 3.370 residentes.

Sobre os TNR, ficou a promessa de “ajustar o número de quotas em conformidade com o desenvolvimento da RAEM”. Até Abril deste ano Macau tinha 182.815 TNR, dos quais cerca de 147 mil não tinham qualquer profissionalização. Apenas 6.887 TNR têm formação ou são qualificados, trabalhando no território 28.683 não-residentes que fazem trabalho doméstico, “o que representa um grande número”, disse o Chefe do Executivo.

Sam Hou Fai concluiu, assim, que “70 por cento dos TNR não profissionais fazem trabalhos que requerem força física, na área da segurança e das limpezas”.

UTM | Extintos cinco cursos

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, aprovou a extinção de cinco cursos de diploma da Universidade de Turismo de Macau.

Segundo a informação do Boletim Oficial, vão ser extintos os cursos de diploma de Gestão de Empresas Turísticas, curso de diploma de Gestão do Património Cultural, curso de diploma de Gestão Hoteleira, curso de diploma de Gestão e Programação de Eventos e curso de diploma de Gestão de Venda Turística e de Promoção de Marketing.

Todos estes cursos tinham uma duração de dois anos e foram aprovados a partir de 2010. Como parte da extinção, a Universidade de Turismo de Macau garante que os actuais alunos não são afectados e que serão conservados os registos académicos dos alunos que frequentaram as formações que vão ser descontinuadas.

Emprego | Sam Hou Fai diz que houve “melhoria eficaz”

Não obstante as críticas apontadas pelos deputados sobre as dificuldades do emprego jovem e necessidade de actualização de cursos tendo em conta o mercado laboral, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, considera que houve “uma melhoria eficaz da situação de emprego dos residentes”, referindo que até Maio deste ano foram apoiados 4.572 residentes na busca de trabalho.

O governante destacou também que “a percentagem de trabalhadores locais em cargos de gestão de nível médio e superior nas empresas de lazer é de 89,6 por cento”. Em relação à devolução do imposto profissional pago, beneficiam da medida “cerca de 169 mil contribuintes, num montante total de 1,04 mil milhões de patacas”, disse.

Zona de Cooperação | Registados mais de quatro mil candidatos

O Chefe do Executivo destacou no discurso de balanço da acção governativa que se registou “um número recorde de 4.550 candidatos jovens de Macau” ao concurso de recrutamento para funções públicas na Zona de Cooperação de Guangdong e Macau em Hengqin, em regime de pessoal contratado.

Além disso, entre Abril e Julho deste ano, houve duas fases de destacamento de funcionários públicos, levando “um total de 20 trabalhadores dos serviços públicos de Macau para exercer funções na Comissão Executiva da Zona de Cooperação”.

Função Pública | Reforma não elimina postos de trabalho

Sam Hou Fai garantiu ontem que a reforma da Administração Pública “não é para eliminar unidades de trabalho, mas para melhorar a eficácia”. “Durante a reforma vamos fazer com que alguns postos sofram alterações, e algumas pessoas que trabalham num serviço passem para outro”, disse.

O Chefe do Executivo destacou que, até ao início deste mês, foram reestruturados seis serviços, “resultando na redução de uma unidade ao nível de direção de serviços e de seis cargos de direcção, sete departamentos, 31 divisões, três sectores e quatro secções, com uma redução total de 324 vagas no quadro de pessoal”. Além disso, desde a implementação do regime de mobilidade, em Março de 2023, até início deste mês, registaram-se 386 casos de transferência ou destacamento de trabalhadores.

Cooperação | Sam Hou Fai diz que “mercado espanhol tem dimensão enorme”

O Chefe do Executivo, destacou no debate de ontem, na Assembleia Legislativa, que “o mercado espanhol tem uma dimensão enorme em termos económicos e de estrutura demográfica”. O governante anunciou que o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola “está a estudar a criação de instituições no México e em outros países estrangeiros”, para fomento da cooperação económica

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, foi ontem à Assembleia Legislativa (AL) com um discurso muito optimista sobre o panorama da economia local e os resultados da Zona de Cooperação de Guangdong e Macau em Hengqin.

Referindo-se à última visita realizada a Portugal e Espanha, em Abril deste ano, Sam Hou Fai voltou a destacar os países de língua espanhola como importantes parceiros, referindo, em resposta aos deputados, que “o mercado espanhol tem uma dimensão enorme em termos económicos e de estrutura demográfica”, existindo necessidade de “aperfeiçoar esta rede” e “consolidar os resultados obtidos na visita”.

Relativamente ao Instituto de Promoção do Comércio e Investimento (IPIM), Sam Hou Fai anunciou que “vai reforçar o papel orientador nos investimentos”. Já o Centro de Serviços Económicos e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa/Espanhola (CECPS) está a “estudar a criação de instituições no México e outros países estrangeiros”, sendo que, este mês e no próximo “haverá visitas ao Brasil, Argentina e Moçambique” realizadas pelo IPIM.

Relativamente ao CECPS, Sam Hou Fai referiu que “o número de projectos de investimento e financiamento aumentou para 58, e o montante total do Fundo [Fundo de Desenvolvimento Económico e Comercial entre a China e os países de língua portuguesa e espanhola] atingiu os 30.000 milhões de renminbis “.

Os contratos assinados chegaram ao valor acumulado de 8.138.000 milhões de renminbis até Junho deste ano, “tendo atraído 173 empresas para se estabelecer na Zona [de Cooperação]”, referiu.

Ainda no que diz respeito à Zona de Cooperação em Hengqin, o Chefe do Executivo falou do “alcance de resultados importantes e faseados”, com “os principais indicadores económicos a manterem uma tendência positiva”.

Assim, no primeiro trimestre deste ano “o Produto Interno Bruto da Zona de Cooperação atingiu 14.273.000 milhões de renminbis, apresentando um aumento homólogo de 5,5 por cento”.

Alerta PME

Vários deputados colocaram questões sobre a sobrevivência das Pequenas e Médias Empresas (PME) locais, mas Sam Hou Fai apenas referiu que o Governo “está muito atento à situação das PME”, tendo vindo “a lançar muitos programas de apoio para dinamizar o comércio comunitário e canalizar o fluxo de pessoas, a fim de dinamizar a economia a nível local”.

No seu discurso, Sam Hou Fai frisou o lançamento “dos serviços de apoio à digitalização de PME de 2026 e do plano de valorização inteligente do sector de restauração de Macau”, sempre com o objectivo de “aliviar os custos de financiamento das empresas e apoiar a modernização e transformação”.

Subsídios para espanhol

O Chefe do Governo afirmou ontem que está a ser ponderado o financiamento de exames de certificação de língua espanhola, de modo a responder às necessidades de “desenvolvimento social”. Sam Hou Fai indicou que na segunda metade deste ano o Governo irá adicionar uma nova lista de subsídios “alinhados com as necessidades de desenvolvimento nacional e social de Macau”, com a inclusão da “certificação em espanhol” nessa lista entre as opções “em análise”.

“Estamos a aumentar os montantes dos prémios para determinadas certificações profissionais, em função dos custos associados à realização desses exames”, disse. Actualmente, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau é a única universidade com uma licenciatura em espanhol do território, e a única onde é possível realizar o exame para obter uma certificação oficial de proficiência em espanhol do Instituto Cervantes.

EPM | Ministro promete “transição suave” na nova direcção

O ministro português da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, prometeu ontem fazer “tudo o que for possível” para que o novo director da Escola Portuguesa de Macau (EPM) esteja em funções no início do próximo ano lectivo.

Após uma reunião com o Conselho de Administração da Fundação EPM, Fernando Alexandre confirmou que o actual diretor, Acácio de Brito, aceitou o convite para assumir a liderança da Escola Portuguesa de Luanda já em 2026/27.

“Ele está disponível para ir para Luanda e aceder ao convite que eu lhe fiz”, disse o ministro. “A decisão está tomada”, acrescentou. Acácio de Brito “tem um conjunto de características e basicamente o que eu próprio estou a fazer, é essa avaliação”, explicou Fernando Alexandre.

Quando se tornou diretor da EPM, em Março de 2023, Acácio de Brito liderava a Escola Portuguesa de Díli-CELP-Ruy Cinatti em Timor-Leste, posto que ocupava desde Setembro de 2015. Em 2024, comunicou a pelo menos seis professores o fim do vínculo laboral, medida que gerou polémica, com uma petição pública contra críticas por parte do conselho regional das Comunidades Portuguesas.

Os docentes são detentores de bilhete de residente e encontram-se em Macau ao abrigo de uma licença especial de Portugal, com a tutela da Educação da região chinesa a instar na altura a EPM a respeitar as leis laborais locais.

A medida levou também a uma intervenção do Ministério da Educação português, que reverteu o afastamento. A mudança de Acácio de Brito para Angola “não tem a ver com promoção nem despromoção, ou seja, as escolas portuguesas no estrangeiro são todas importantes”, garantiu Fernando Alexandre.

Tutelada pelo Ministério da Educação de Portugal, a Escola Portuguesa de Luanda está a ser gerida por uma comissão administrativa provisória liderada por Alexandre Lima.

Em Novembro de 2025, os docentes dessa instituição ameaçaram realizar uma greve, alegando que o Ministério da Educação português não estava a cumprir diplomas legais que garantem subsídios de deslocação e instalação.

Seria a segunda paralisação do ano, depois de, em Março do mesmo ano, terem realizado uma greve de dois dias para exigir equidade salarial e melhores condições laborais. Quanto à nova direção da EPM, “obviamente faremos tudo o que for possível para que a transição seja o mais suave para o projecto educativo e que, estou certo, não será perturbado”, disse Fernando Alexandre.

No entanto, o ministro sublinhou que, depois da Fundação EPM propor um nome para novo diretor, “há um conjunto de autorizações, que são administrativas (…) e que dependem do executivo da RAEM [Região Administrativa Especial de Macau]”.

“Nós faremos tudo para manter a estabilidade deste excelente projecto educativo, que é um projecto importantíssimo para a língua portuguesa, para a cultura portuguesa, para esta ligação de Portugal ao território de Macau”, disse Fernando Alexandre.

Em expansão

A escola vai ser alvo de obras de ampliação, com vista a aumentar a capacidade para albergar entre 1.000 a 1.200 alunos, incluindo obras de melhoramento, aumento das salas, substituição dos elevadores, e renovação da fachada. A EPM foi constituída em 1998 como herdeira de três instituições de ensino em língua portuguesa: a Escola Primária Oficial, a Escola Comercial e o Liceu de Macau.

No mesmo ano foi criada a Fundação Escola Portuguesa de Macau, que gere a escola, resultado da colaboração entre o Estado Português, a Fundação Oriente e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses.

Filipinas | Novo sismo de magnitude 6,2 abala o país

Um sismo de magnitude 6,2 na escala de Ritcher atingiu ontem a costa sul das Filipinas, anunciou o Serviço Geológico dos EUA, uma semana depois de um tremor semelhante na mesma região ter feito pelo menos 65 mortos.

O sismo ocorreu na costa da ilha de Mindanao às 17:18 locais, a uma profundidade de 112 quilómetros, adiantou o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Não foi emitido um alerta de ‘tsunami’.

Até ao momento, não foram relatadas vítimas ou danos, afirmou o responsável do gabinete de catástrofes da província de Davao Oriental (Filipinas), Kaiser Cadiz, citado pela agência francesa de notícias AFP. “A nossa prioridade agora é monitorizar a costa para determinar se há sinais de que a água recuou”, o que indica um ‘tsunami’ iminente, explicou.

Há uma semana, a 08 de Junho, um sismo de magnitude 7,8 atingiu a costa da ilha de Mindanau, o ponto mais oriental do arquipélago filipino, provocando o colapso de vários edifícios, deslizamentos de terra e a deslocação de milhares de pessoas.

A agência nacional de catástrofes estimou ontem que o sismo da semana passada tenha provocado 65 mortos, sendo que pelo menos 36 pessoas continuam desaparecidas.

De acordo com informações avançadas no domingo pelo Ministério do Ambiente filipino, o sismo fez com que o fundo do oceano subisse até dois metros em algumas zonas costeiras. Localizadas no chamado “Anel de Fogo do Pacífico”, uma zona de intensa actividade sísmica, as Filipinas sofrem sismos quase diariamente.

O pecado mora ao lado – análise do carácter de um juiz

Recentemente, a imprensa online noticiou que o juiz de um tribunal federal dos EUA manteve durante dois anos um caso extra-conjugal com uma oficial superior da polícia, em funções na sua jurisdição. O par tinha habitualmente relações sexuais no escritório do juiz e a escrivã do tribunal que ocupava o gabinete ao lado podia ouvi-los distintamente e, em certa ocasião, encontrou umas manchas suspeitas no sofá.

Esta funcionária, que aparentemente ficou muito traumatizada com a situação, temia que a divulgação do incidente “prejudicasse seriamente a confiança pública no sistema judiciário”. Inicialmente, o juiz “negou firmemente” as acusações, classificando-as como “absurdas e infundadas”, mas foi forçado a admiti-las depois de as provas se tornarem esmagadoras.

O relatório da investigação salientava que o departamento a que pertencia a agente da polícia tinha a seu cargo inúmeros processos criminais e cíveis dessa região. A investigação não apurou que o juiz tenha presidido a esses casos, mas também verificou que não tinha solicitado o seu afastamento.

Por outro lado, a esposa do juiz desconhecia completamente o caso. Se estes factos fossem divulgados, por exemplo, para lhe fornecer provas do adultério do marido, o magistrado federal pode ser acusado de “o risco de chantagem”.

Por fim, o juiz recebeu uma reprimenda em privado e foi obrigado a enviar cartas com pedidos de desculpa a seis funcionários do tribunal. Também assumiu o compromisso de não voltar a presidir ao Tribunal de Última Instância nem a participar em qualquer comissão judicial no futuro.

As palavras e o comportamento de um juiz reflectem o seu carácter e os seus valores morais. Um carácter recto não é uma questão meramente pessoal; implica que se é capaz de assegurar julgamentos justos e de manter o apoio e a confiança do público nos tribunais — elementos indispensáveis para a preservação do estado de direito. Por isso se costuma dizer que “nenhum caso é pequeno demais para um juiz”.

Os juízes federais dos EUA têm mandatos vitalícios e são supervisionados e investigados por comissões da Conferência Judicial. Se ocorrer má conduta, que não constitua crime grave e que não exija destituição ordenada pelo Congresso, a punição geralmente envolve uma repreensão privada ou pública. Neste caso, o envolvimento entre o juiz e a agente era uma questão privada e não um crime de “solicitação ou recebimento de benefícios mediante abuso de posição e poder”.

A nível global, existem inúmeros casos de juízes acusados de má conduta. No início dos anos 2000, um juiz júnior de Singapura foi demitido por aceitar o convite de um litigante para uma refeição. Esta situação ilustra claramente que se um juiz aceitar um suborno estamos perante um caso de corrupção judicial.

Em 2018, um juiz de um tribunal distrital em Berlim, foi demitido por assédio sexual a subordinadas. O Tribunal Constitucional Federal Alemão enfatizou que a autoridade de um juiz não deriva da sua toga, mas da sua integridade; qualquer acto que ponha em causa essa integridade constitui um atentado à lei.

Nos casos em que não há injustiça significativa no julgamento, é inadequado impor penalidades severas aos juízes. A carta de desculpas mencionada no relatório da investigação foi endereçada à escrivã do tribunal. Proibir a promoção de um juiz a Grande Juiz e a sua participação noutras comissões judiciais é uma medida importante para evitar perder a confiança do público. Acredita-se que os juízes, após receberem estas punições, serão mais cuidadosos e poderão evitar condutas inadequadas no futuro.

Do ponto de vista social, o mais importante é estabelecer um sistema adequado para prevenir e lidar com a má conduta judicial, incluindo a solicitação ou aceitação de benefícios mediante abuso de posição e poder, evitando assim julgamentos injustos. No que diz respeito à prevenção, a Lei dos Juízes da República Popular da China estipula claramente os padrões éticos profissionais.

Hong Kong e Macau possuem actualmente sistemas de declaração de bens que exigem que os juízes os dêem a conhecer para garantir sua integridade. As Leis Básicas de Hong Kong e Macau estipulam que os juízes podem ser destituídos se a sua conduta for considerada imprópria.

Em relação à ética privada, Hong Kong e Macau possuem directrizes para a conduta judicial, fornecendo aos juízes padrões de actuação que contribuem para manter a confiança do público no sistema judicial.

Voltando ao caso do juiz federal, as relações extra-conjugais são uma questão privada, mas, como ocorreram no escritório, a linha divisória entre assuntos públicos e privados é de facto ténue e difícil de definir em poucas palavras. No entanto, uma coisa é certa: o escritório é propriedade do governo federal, usado para fins de trabalho; manter relações sexuais nesse local constitui uso indevido de recursos públicos.

Este caso ocorreu nos Estados Unidos e deve ser tratado de acordo com a legislação americana. Os princípios para lidar com casos semelhantes poderiam ser incorporados nas normas de conduta judicial, fornecendo a todos os juízes orientações sobre como tratar de questões relacionadas.

Esta notícia serve como um espelho, lembrando a cada juiz que “a má conduta no exercício da função inevitavelmente levará ao desastre”. Somente quando os juízes respeitarem escrupulosamente a ética pessoal e contarem com sistemas eficazes para prevenir e lidar com julgamentos injustos, a equidade e a justiça social poderão ser verdadeiramente preservadas. Os juízes são a alma do sistema judiciário.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

Escrita é “viagem inútil”, diz Camila Sosa Villada

A escritora argentina Camila Sosa Villada defende que a literatura “não serve para nada”, no sentido de uma função terapêutica ou utilitária da escrita, assumindo o ofício como prática “inútil”, mas essencial na relação silenciosa entre livro e leitor.

Em entrevista à Lusa, numa passagem por Lisboa, a propósito de “A viagem inútil”, obra agora publicada pela Quetzal, embora escrita anos antes, a autora explica que o próprio título traduz uma posição estética e ética.

Este livro constitui o relato cru da própria vida de Camila Sosa Villada, as suas origens, a sua dolorosa infância, a sua vivência como travesti que conheceu a prostituição, mas também o êxito no teatro e o exercício da escrita.

Como escreveu a própria autora, quis que a sua história se soubesse, a do seu travestismo, da família e da tristeza precoce que a marcou – o alcoolismo do pai, as carências da mãe, as mudanças que a afastaram de tudo o que lhe dava segurança -, da sua infância e da luta devastadora contra a pobreza, que virou todos contra todos, deixando-os doentes de “rancores, desamor e indiferença”.

“Que [a escrita] seja inútil, não significa que seja melhor ou pior. Uma tal viagem a lugares inúteis não precisa de defesa, nem de argumentação”, afirmou a autora, recusando a ideia de que a literatura tenha de justificar a sua existência.

Para Camila Sosa Villada, escrever é um gesto sem finalidade prática e prefere vê-lo como uma “coisa inútil, que não serve para nada, que não tem um objectivo na vida e que, no entanto, anda por aí a fazer companhia às pessoas, estas sentem-se menos sós ou descobrem algo sobre si próprias”.

Sem funções

Pegando nos ‘clichés’ frequentemente associados a quem escreve, sobretudo obras de cariz autobiográfico com pendor traumático ou doloroso, como é o seu caso – a escrita terapêutica ou que salva, que permite o autoconhecimento, que cura traumas ou sana feridas, entre outros -, a autora prefere não atribuir funções à literatura.

“Se atribuíssemos à leitura alguma capacidade farmacêutica, de ser um meio de descoberta pessoal, um instrumento para alguma coisa, estaríamos a dizer que a literatura é um instrumento de domesticação. Temos de ter lucro com tudo?”, questiona.

Apesar disso, reconhece o impacto que a leitura pode ter no leitor, como admite tiveram consigo as leituras de Sharon Olds ou de Marguerite Duras, que têm sido uma forma de aprender a ser quem é.

A “viagem” da escrita não tem destino definido, “vai para onde as palavras a levam”, e às vezes “acaba ao colo de um leitor numa viagem, num comboio ou em sua casa ou numa fila de hospital ou numa fila do banco, e começa a falar”.

Da honestidade

No caso de “A viagem inútil”, Camila Sosa Villada explica que o livro nasceu de um impulso de compreensão do seu próprio percurso enquanto escritora.

“Queria ser honesta sobre… como nasce um escritor por dentro”, afirma, descrevendo uma genealogia afectiva marcada pela família, pela importância que o pai e a mãe tiveram na sua descoberta da literatura e da escrita, uma origem que se liga também à construção da sua identidade.

“Tinha necessariamente de falar sobre este ritual: Um homem que ensinou o filho a escrever, uma mulher que ensinou o filho a ler, um filho que, a dada altura, decide ser travesti, e como a literatura e o travestismo acontecem no mesmo momento”, contou.

Questionada sobre até que ponto aquilo que escreve é uma forma de manter vivas as memórias ou é uma reinvenção daquilo que realmente viveu, a autora admite não controlar totalmente o processo narrativo.

“Algumas coisas são simplesmente imagens, recordações de algo, mas não necessariamente coisas que me tenham acontecido, por isso, para mim, foi algo do género de uma tese sobre o porquê de me ter tornado escritora, mas a partir daí o que surge como autobiográfico e o que surge como puramente ensaístico no livro, não sei como o fiz. Deixei-me levar”, revelou.

A dimensão autobiográfica da obra não implica, contudo, reconciliação emocional, sublinhou, reforçando que o livro não a ajudou a sarar feridas, antes pelo contrário.

“Foi pior porque o meu pai ficou zangado comigo. Disse qualquer coisa como: ‘nesse livro fazes-me parecer um filho da mãe’. Portanto, foi pior. De facto, tive crises profundas depois disso. Quando termino um livro, as crises são muito grandes, são muito difíceis de ultrapassar. No final dos livros, há um enorme luto. E sofro muito com isso, mais do que quando as estou a escrever, muito, muito mais”, confessou.

É por isso que a única coisa que pede a um livro “é que seja escrito, a partir daí, a dor mantém-se. O livro foi editado, traduzido, viajado. Viaja ainda mais do que eu, conheceu mais pessoas do que eu, pessoas gostaram mais dele do que de mim. E ele tem a sua vida”.

Essa transformação reflecte-se também no ritmo do livro, que “se demora até chegar a um final que é tremendo, que é terrível, que é como uma morte”, evocando episódios marcantes da vida da autora.

10 de Junho | David Mourão-Ferreira recordado hoje no IPOR

Faz hoje 30 anos que faleceu o poeta português David Mourão-Ferreira, e que agora é recordado numa palestra intitulada “Recordar David Mourão-Ferreira: A poesia de um amor feliz”, na Biblioteca Camilo Pessanha, do Instituto Português do Oriente. Pedro D’Alte e Lia D’Alte protagonizam uma sessão pensada no âmbito das comemorações do 10 de Junho

“E por vezes as noites duram meses / E por vezes os meses oceanos / E por vezes os braços que apertamos / nunca mais são os mesmos.” É assim que começa um dos poemas mais conhecidos de David Mourão-Ferreira, poeta português contemporâneo falecido há exactamente 30 anos e que hoje é recordado numa palestra que decorre na biblioteca Camilo Pessanha, do Instituto Português do Oriente (IPOR), a partir das 18h30.

Os académicos e docentes Pedro D’Alte e Lia D’Alte protagonizam a sessão intitulada “Recordar David Mourão-Ferreira: A poesia de um amor feliz”, que visa recordar “o especial contributo de David Mourão-Ferreira para as letras nacionais”, disse ao HM Pedro D’Alte.

O poema com que este texto se inicia, “E por vezes”, é, para Pedro D’Alte, “dos mais belíssimos poemas portugueses o que, por si, já diz muito da capacidade estética do autor”. Mas como recorda o responsável, Mourão-Ferreira não foi apenas poeta, tendo também escrito em prosa e exercendo crítica literária.

“David Mourão-Ferreira foi letrista para Amália Rodrigues, escrevendo fados icónicos que, hoje, são transversais tanto ao gosto popular como das elites. Tem a particularidade de ser um teórico, professor académico, conhecedor literário. Este conhecimento é plasmado nas suas composições, mesmo que aparentemente simples.”

Pedro D’Alte destaca que, na obra do poeta, “são relevantes as inúmeras referências intertextuais e os diálogos profundos com outros autores de renome”. “Numa perspectiva mais pessoal, é singular o ascendente sensorial na representação do erotismo e, também, de enaltecer a quantidade e a qualidade da produção e a incursão em diferentes esferas de produção que perpassam a música, a poesia e a estética romanesca”, acrescenta.

A sessão de hoje no IPOR “irá centrar-se na presença do Amor, do Erotismo, da figura feminina, e dos aspectos mais exploratórios deste ascendente sensorial” nos poemas deste autor.

Será dada “primazia a ‘Antologias Poéticas’, organizadas pelo próprio autor em vida, ou organizadas por outros teóricos já após o seu falecimento”, fazendo-se depois o cruzamento com uma “esfera narrativa”, com edições como “Os amantes e outros contos” ou “As quatro estações”.

Pedro D’Alte anunciou que no próximo ano deverá ser celebrado o centenário do nascimento do poeta português, pelo que a sessão de hoje não pretende “esgotar nem ampliar em demasia os conteúdos sobre este autor, de modo a não sobrecarregar o nosso público de Macau com demasiados tópicos ou linhas de leitura”.

Escrever “contra-corrente”

Pedro D’Alte recorda que David Mourão-Ferreira “não foi um autor estático”, mas sim “errático e, por vezes, em contra-corrente”.

“Basta lembrar-se o quão desafiante e contrária foi, para os poderes instalados e para a sua própria vida pessoal, a produção de letras para o fado, determinadas capas nas suas obras ou a maneira explícita como o Erótico se assume eixo central em determinadas composições. Creio que, neste sentido, David Mourão-Ferreira nos relembra a história e o sentido de ser-se português, pelo menos no seu viés mais salutar e celebrado”, defende o co-orador e organizador da sessão de hoje.

O poeta recusou “o conforto e o fácil e, em oposição, [procurou] a insurgência, a inquietação, o favorecimento e o prevalecimento da descoberta de novos caminhos, do êxtase e do gosto pela vida, do uso do tempo pessoal para a construção de um nome maior, nas mais diferentes esferas”.

David Mourão-Ferreira é, assim, mais um dos “bons nomes que Portugal tem para celebrar neste 10 de Junho”, remata Pedro D’Alte, que é pós-doutorado em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta e professor da Universidade Politécnica de Macau. Lia D’Alte é, por sua vez, mestre em Estudos de Língua Portuguesa pela Universidade Aberta e colaboradora da Escola Portuguesa de Macau.

Segurança alimentar | China convoca Walmart por alegados problemas

Os reguladores chineses convocaram representantes da cadeia norte-americana de supermercados Walmart devido a “vários problemas de segurança alimentar” registados nas lojas Sam’s Club, pertencentes ao grupo.

Num comunicado divulgado ontem no portal oficial, a Administração Estatal para a Regulação do Mercado (SAMR) informou que realizou recentemente uma “reunião formal de responsabilização” com dirigentes da Walmart, exigindo o cumprimento rigoroso das normas chinesas de segurança alimentar.

As autoridades determinaram que a Sam’s Club deve “colocar a segurança alimentar em primeiro lugar, cumprir rigorosamente as suas responsabilidades sociais corporativas, reduzir os riscos na cadeia de abastecimento e proteger a saúde pública”.

Segundo o jornal de Hong Kong South China Morning Post, a cadeia esteve envolvida em vários incidentes em diferentes regiões da China ao longo do último ano, tanto em lojas físicas como em entregas ao domicílio, incluindo denúncias de consumidores, que alegaram ter encontrado larvas ou ratos em produtos alimentares. No final do ano passado, a empresa contava com 63 lojas na China.

Finanças | Novo sistema de pagamentos reduz dependência do dólar

A China está a preparar o lançamento de uma plataforma de moeda digital destinada a facilitar pagamentos internacionais, reduzir a dependência do dólar e reforçar laços financeiros com vários países, avançou ontem o jornal Financial Times.

A plataforma, conhecida como mBridge, é apoiada pelos bancos centrais da China continental, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Segundo o jornal britânico, será criada uma entidade sediada em Hong Kong para supervisionar as operações.

Fontes citadas pelo FT indicaram que os preparativos estão numa fase avançada, embora a data de lançamento ainda não tenha sido divulgada. As mesmas fontes afirmaram que os custos das transações deverão ser cerca de metade dos cobrados pelos sistemas internacionais convencionais.

O projecto pretende oferecer uma alternativa a pequenas e médias empresas que consideram sistemas como o Swift demasiado caros ou complexos para operações internacionais.

O desenvolvimento da plataforma coincide com um aumento da utilização do sistema chinês de pagamentos transfronteiriços na moeda chinesa, o yuan, conhecido como CIPS, impulsionado pela guerra entre o Irão e os Estados Unidos.

Embora complementares, os dois sistemas têm funções distintas: o CIPS facilita pagamentos internacionais em yuan convencional, enquanto o mBridge foi concebido para promover a utilização do yuan digital, conhecido como e-CNY. “Há uma corrida silenciosa entre sistemas financeiros alternativos”, afirmou Tom Keatinge, director fundador do Centro para Finanças e Segurança do instituto britânico RUSI, citado pelo FT.

Segundo o especialista, a China pretende garantir um papel relevante para a sua moeda digital no sistema financeiro internacional através de plataformas como o mBridge. “Pode dizer-se que é uma versão digital da Nova Rota da Seda”, afirmou.

Posições reforçadas

O projecto teve origem numa iniciativa conjunta entre a Autoridade Monetária de Hong Kong e o Banco da Tailândia, tendo assumido a designação actual em 2021, com a participação do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) e dos bancos centrais da China, Emirados Árabes Unidos e Hong Kong.

Segundo o FT, o mBridge utiliza tecnologia ‘blockchain’ para permitir transacções directas entre bancos centrais através das respectivas moedas digitais, reduzindo o papel do dólar como moeda intermediária e diminuindo para segundos operações cambiais que actualmente podem demorar horas ou dias.

Fontes ligadas ao projecto indicaram que bancos comerciais poderão participar nas operações sob supervisão dos respectivos bancos centrais.

Até ao momento, o sistema processou cerca de 470 mil milhões de yuan em transacções. Analistas citados pelo jornal consideram que o mBridge poderá reforçar a posição da China no comércio internacional e aprofundar a integração financeira com parceiros regionais.

“Para os exportadores, acelera a circulação de caixa e reduz o risco de problemas de liquidez”, afirmou Wang Jian, analista do sector financeiro da Guosen Securities. “De forma mais ampla, pode reforçar a voz da China na ordem monetária global e apoiar a internacionalização do yuan”, acrescentou.

Uma fronteira no meio das montanhas de Fan Kuan

Cen Shen (715-770), o poeta da dinastia Tang reconhecido pelos seus «poemas da fronteira», biansai shi, quando esteve habitando num desses lugares de passagem olhando para o outro lado onde não se sabe ao certo o que lá está, ter-se-á apercebido de como é fácil fazer a travessia, como em tantas outras situações tudo pode subitamente ser outra coisa.

Como no poema que escreveu quando cumpria as suas funções de funcionário destacado na distante Luntai, perto da actual Urumqi (Xinjiang), para se despedir do ajudante de campo Wu, na altura em que este regressava a casa e deixou de o ver numa curva da montanha onde a estrada vira, ficando «na neve apenas as marcas dos cascos do seu cavalo».

Nessa Canção da neve branca notou como «Um vento selvagem do Norte açoitava a terra fazendo estalar a rija relva branca/ Já na oitava lua e o céu dos bárbaros enviava a neve rodopiante para o chão, / Como se a quente brisa primaveril tivesse regressado de súbito e, numa única noite,/ Fazendo despontar em milhares e milhares de pereiras as suas flores brancas (…)»

Pintores literatos contemplando a rudeza de escarpadas montanhas observaram como na sua aparente imobilidade, a pristina paisagem na sua lenta mudança era um limiar, um lugar onde se podiam espelhar e acompanhar com atenção as mais amenas mutações. Nas pinturas de montanhas monumentais de Fan Kuan (c. 950- c.1030), um dos três mestres da pintura da dinastia Song do Norte (960-1279) é notória a consoladora sensação de estar num lugar onde se pode morar ou passear despreocupadamente. Como se diz que seria o carácter descontraído de Fan Kuan, disponível para achar o desconhecido. Talvez não seja um acaso que na única pintura que lhe é indiscutivelmente atribuída, o rolo vertical Viajantes entre montanhas e regatos (tinta e cor sobre seda, 206,3 x 103,3 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) se vê, aninhado entre as copas das árvores junto de uma cascata, um abrigo para viandantes numa passagem de fronteira.

Fan Kuan utilizou para mostrar a ancianidade das montanhas pequenos traços de tinta chamados yudian cun, «rugas de textura de gotas de chuva», uma evolução das rugas em forma de grãos de arroz ou sésamo empilhados (zhima cun), usadas por pintores da dinastia Tang. Porém não é a chuva mas a neve que caracteriza outras pinturas atribuídas ao mestre de Huayuan (Shaanxi). Como o rolo vertical Cenário de neve, árvores de Inverno (tinta sobre seda, 160,3 x 193,5 cm, no Museu de Tianjin) atravessado na vertical por nuvens e neblinas, afectando inexoravelmente a vida das pessoas. Dir-se-ia ecoando a dor de uma despedida penetrando pelas soleiras das portas, como no poema de Cen Shen: «Flocos esvoaçando empapavam cortinas de pérolas e tecidos de seda,/ Casacos de pele de raposa não aqueciam e sob os finos edredãos bordados sentia-se o frio.»

Habitação | Mais empréstimos para compra

Em Abril, os novos empréstimos hipotecários para habitação (EHHs) cresceram 5,2 por cento face a Março, para o valor de 1,15 mil milhões de patacas. Os dados foram revelados ontem pela Autoridade Monetária de Macau.

Em relação ao período homólogo, os EHHs apresentaram um crescimento de aproximadamente 30 por cento, dado que em Abril de 2025 o montante de novos empréstimos tinha sido de 883 milhões de patacas. Ao mesmo tempo, os novos empréstimos hipotecários comerciais para actividades imobiliárias (ECAIs) foram de 1,62 mil milhões patacas, um aumento mensal de 332 por cento.

Em Abril de ano passado, os novos ECAIs tinham sido de 1,52 mil milhões de patacas. No final de Abril de 2026, o rácio das dívidas não pagas aos EHHs registou um ligeiro aumento para o nível de 3,6 por cento, face a Março, mas em termos anuais não sofreu alterações. O rácio das dívidas não pagas dos ECAIs atingiu 5,6 por cento, correspondendo a um aumento de 0,4 pontos percentuais em relação ao mês anterior e de 0,1 pontos percentuais face a Abril do ano passado.

Economia | Prevista estagnação em Junho

A Associação Económica de Macau acaba de divulgar o mais recente Índice de Prosperidade Económica de Macau que prevê um cenário de estagnação no crescimento económico este mês, com previsões de subida para os meses de Julho e Agosto.

Segundo o relatório de análise do Índice, a associação fala de incertezas do ambiente externo no que diz respeito à inflação em termos mundiais. O documento dá conta de que os últimos dados da inflação nos EUA ultrapassaram as expectativas de mercado, batendo recordes desde Abril de 2023. Trata-se de um cenário que, segundo a análise, continua a reduzir as possibilidades de corte de juros a curto prazo.

A associação apontou uma das razões para a estagnação de crescimento, já que este mês decorre o período de exames de acesso ao ensino superior na China, o “Gaokao”, pelo que as famílias têm pouca vontade de viajar; o campeonato do mundo de futebol, também pode desviar a vontade de consumo e de viagens dos turistas.

Taipa | Recuperação de terrenos leva a infestação de ratos

Um conjunto de terrenos recuperados junto ao empreendimento Nova Grand, em frente ao Parque Central da Taipa, levou a uma infestação de ratos, segundo relatos de residentes nas redes sociais. O Instituto para os Assuntos Municipais promete resolver o assunto

Vários residentes da Taipa queixam-se que a recuperação de terrenos junto ao empreendimento Nova Grand, em frente ao Parque Central da Taipa, levou a uma infestação de roedores. Segundo noticiou o jornal Ou Mun, as queixas dos moradores surgiram nas redes sociais, com publicações de vídeos onde se vê um grupo de ratos num dos terrenos.

“Actualmente, há muitos ratos na Taipa, nos terrenos recuperados junto ao Nova Grand. Quando é que o Governo pode prestar atenção a este assunto? Há muitas escolas nas proximidades, como a Escola Pui Tou, Escola Secundaria Pui Va, Escola das Nações e Escola dos Moradores de Macau. O Governo deve limpar a relva ou colocar um piso de cimento para que os residentes façam ali exercício. A relva está, actualmente, cheia de pragas e tenho medo que haja uma infestação na Taipa”, lê-se numa das publicações.

O jornal Ou Mun entrevistou alguns residentes que afirmam que os ratos andam frequentemente pelos terrenos já desocupados, queixando-se de que muitos invadiram as suas casas, entrando pelas frestas das portas ou pelos canos.

Um responsável de uma escola situada nas imediações, que não quis ser identificado, revelou que a instituição de ensino está a prestar muita atenção ao caso e se for necessário vai adoptar medidas em coordenação com as autoridades. O responsável afirmou também que outro problema grave é o panorama de infestação de mosquitos, e pediu o reforço dos trabalhos do Governo para a sua eliminação.

Promessas do IAM

Na mesma notícia, lê-se que o vice-presidente da Associação Promotora para o Desenvolvimento da Comunidade da Taipa, Lam Ka Chun, disse ter contactado o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) para o organismo acompanhar o caso. O dirigente associativo afirmou ter informado o IAM assim que soube da situação dos ratos, para que haja o menor impacto possível.

Entretanto, o IAM já terá enviado funcionários ao local para o tratamento e colocação de ratoeiras. Lam Ka Chun, também membro do Conselho Consultivo para os Assuntos Municipais do IAM, defendeu uma maior inspecção e gestão dos terrenos recuperados e vazios, nomeadamente através da organização corrente da recolha do lixo e corte de relva, a fim de prevenir a infestação de mosquitos e roedores.

Universidades lusófonas enfrentam “transformação profunda”

A presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) afirmou ontem em Macau que as instituições de ensino superior lusófonas enfrentam “uma época de transformação profunda”, marcada pela inteligência artificial e a digitalização.

“A inteligência artificial está a alterar a forma como produzimos, partilhamos e utilizamos o conhecimento, e a transformação digital redefine os processos de ensino, aprendizagem e investigação”, disse Astrigilda Silveira, na abertura do 35.º Encontro da AULP organizado no território.

Este encontro junta 36 reitores e presidentes de instituições de ensino superior dos Países de Língua Portuguesa (PLP) até amanhã, e coincide com o IV Fórum de Reitores da China, Macau e Países de Língua Portuguesa.

Espírito cooperativo

Sobre outro assunto, Silveira alertou também que as “alterações climáticas desafiam particularmente os pequenos Estados insulares, as regiões costeiras e as comunidades mais vulneráveis”, sublinhando que as universidades devem assumir-se como “líderes e promotoras da mudança”, formando profissionais “altamente qualificados e cidadãos comprometidos” com o desenvolvimento sustentável.

“Nenhuma universidade, por mais forte que seja, conseguirá responder sozinha aos grandes desafios globais. Precisamos da ciência colaborativa, da rede de investigação, de partilhar infra-estruturas, conhecimentos e talentos”, frisou.

A também reitora da Universidade de Cabo Verde destacou que os programas de mobilidade, as parcerias internacionais e projectos de investigação colaborativa já demonstraram o valor acrescentado da associação, mas advertiu que os próximos anos exigem “mais ambição”.

Entre as prioridades, apontou o reforço da colaboração científica entre os membros, a internacionalização da produção científica em língua portuguesa, a aceleração da transformação digital e da transição energética, bem como a criação de mais oportunidades para estudantes e investigadores.

“A nossa língua é um património comum, mas é também um activo estratégico, um instrumento de aproximação e uma plataforma para a construção de soluções globais a partir de realidades diversas”, afirmou, defendendo que o português deve continuar a afirmar-se como “língua da ciência, inovação e conhecimento”.

Apelou a que o “espírito de cooperação que caracteriza Macau” inspire os trabalhos e decisões da comunidade académica lusófona. “Que daqui surjam novas ideias, novos projectos, novas parcerias e uma renovada ambição para os 40 anos da nossa Associação”, concluiu.

EPM | Financiamento de Portugal aprovado, mas ainda não chegou

A poucos dias do fim do ano lectivo, a EPM ainda não terá recebido o dinheiro atribuído pelo Governo de Portugal. O montante ronda 1,12 milhões de euros, inferior aos 1,5 milhões de euros pretendidos

A semanas do fim do ano lectivo, o financiamento do Governo português à Escola Portuguesa de Macau (EPM) ainda está por ser recebido. A revelação foi feita pelo Canal Macau da TDM, após a autorização para libertar as verbas ter sido aprovada a 8 de Junho.

Segundo a televisão pública, o financiamento para o ano lectivo de 2025/2026 foi aprovado a 8 de Junho, nas vésperas do ministro da Educação, Fernando Alexandre, viajar para Macau, onde participou nas celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

No entanto, o dinheiro ainda não terá entrada nas contas da instituição de ensino, que este ano serviu como lugar da tradicional recepção do cônsul à comunidade portuguesa. Pelo menos desde o mandato de Vítor Sereno como cônsul-geral de Portugal em Macau que a recepção era realizada na residência oficial consular.

Além disso, aponta a mesma fonte que o valor que vai ser recebido é inferior em 300 mil euros (2,8 milhões patacas) ao pedido pela Fundação da Escola Portuguesa às autoridades portuguesas, em Novembro do ano passado. O valor do financiamento será assim de cerca de 1,12 milhões de euros (10,4 milhões de patacas).

Sobe e desce

No ano passado, depois de ter sido anunciado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, durante uma visita a Macau, o apoio do Estado português à EPM aumentou para 1,12 milhões de euros. De acordo com a TDM, em 2012 os 1,12 milhões de euros encolheram para 810 mil euros (7,6 milhões de patacas) e no ano seguinte sofreram novo corte para 766 mil euros (7,2 milhões de patacas).

As notícias sobre o financiamento da EPM surgem depois de na semana passada o ministro da Educação ter anunciado, durante a visita em Macau, que o director da EPM está a caminho da Escola Portuguesa de Luanda. A revelação apanhou de surpresa o Conselho de Administração da Escola Portuguesa de Macau, que semanas antes tinha votado a continuidade de Acácio Brito, numa decisão que não foi consensual.

O nome do sucessor ainda não é conhecido, mas existe a possibilidade de o escolhido ser João Miguel Gonçalves. Na viagem a Macau, Fernando Alexandre recusou comentar esta possibilidade.

Economia | Restrições à mão-de-obra atrasam diversificação

Reduzir a dependência dos casinos é uma prioridade para a nova secretária para a Economia e Finanças, Ng Wai Han, mas que poderá ser atrasada pelas restrições à entrada de trabalhadores do exterior, disseram analistas em declarações à Lusa, depois da nomeação para a pasta da Economia

“As expectativas (…) são elevadas e centram-se na capacidade de equilibrar (…) as prioridades locais de diversificação económica e as dificuldades do pequeno comércio”, afirmou Carlos Cid Álvares.

O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC) em Macau lembrou que reduzir a dependência do jogo faz parte dos “objectivos nacionais” da China. Recorde-se que os casinos representaram quase metade (47,3 por cento) do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Juntando o turismo ao jogo, o sector representou 74,1 por cento da economia local.

Sobre a meta da diversificação económica, Félix Pontes, antigo director da Autoridade Monetária de Macau afirmou que “não se afigura fácil e demora tempo (cinco a 10 anos), sendo que o jogo continuará a ser a principal fonte de receitas para o Governo”.

Os impostos sobre os casinos representaram 85,6 por cento de toda a receita pública corrente do território nos primeiros cinco meses do ano.

Cid Álvares espera que Ng Wai Han use fundos estatais e incentivos fiscais para “fomentar as pequenas e médias empresas [PME]” e promover indústrias como a dos serviços financeiros e a medicina tradicional chinesa.

Apostar em novos sectores é essencial para uma economia “pequena e aberta”, que Félix Pontes vê como “muito vulnerável às tensões geopolíticas e aos efeitos negativos derivados do abrandamento da economia da China”. O economista lamentou, no entanto, que “restrições irracionais para importar mão-de-obra qualificada” tenham vindo a “atrasar inevitavelmente” a diversificação da economia.

Sinais de fumo

Carlos Cid Álvares, também presidente do Banco Nacional Ultramarino, que pertence ao Grupo Caixa Geral de Depósitos, alertou que “muitos pequenos negócios de rua” correm o risco de fechar. Isto devido ao comércio através da Internet e à maior facilidade de deslocação à cidade vizinha de Zhuhai, onde os preços são mais baixos, lamentou Cid Álvares.

O Executivo apelou à digitalização das PME, à criação de plataformas agregadoras locais, assim como introduziu “isenções fiscais selectivas” e menos burocracia, para facilitar a venda online de “produtos únicos” de Macau no Interior da China.

Tendo em conta que Ng Wai Han esteve à frente da Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), desde Maio de 2025, o analista e fundador da consultora de jogo IGamix, Ben Lee, afirmou ontem à Lusa que esse período foi “marcado pela falta de qualquer desenvolvimento significativo”. “Dirigentes do sector crêem que a DICJ se tornou menos transparente e menos disponível para dar informação”, acrescentou Ben Lee.

Ng Wai Han deixou a entidade reguladora numa altura em que o investimento em elementos não ligados ao jogo é “o assunto mais urgente, que tem sido objecto de muitas perguntas por parte dos investidores”, sublinhou o analista.

Com mais de um terço do período das concessões de jogo já ultrapassado, “a falta de qualquer progresso significativo” na fixação de metas para “investimentos concretos” está a “incomodar muitos investidores e a criar incerteza”, alertou Ben Lee.