Hoje Macau Via do MeioO vazio na pintura e na estética chinesa Por Sun Weiqi Quando era criança, passava muitas tardes em casa da minha avó, diante de uma parede coberta de pinturas tradicionais chinesas, e havia nelas qualquer coisa que me inquietava profundamente: grandes extensões de papel permaneciam brancas, suspensas, intactas, como se o pintor tivesse interrompido o gesto antes de concluir a obra ou como se tivesse decidido abandonar metade do mundo ao silêncio. Na minha imaginação infantil, uma boa pintura deveria estar inteiramente preenchida, cada fragmento da superfície ocupado por uma montanha, uma árvore, uma ave, uma casa, uma figura humana ou qualquer sinal visível que justificasse a existência daquele espaço. O branco parecia-me falta, hesitação, incompletude. A minha avó, que aprendera caligrafia e pintura desde os sete anos, nunca me respondeu com uma explicação longa, nem tentou converter a minha curiosidade de criança numa lição formal de estética. Pegava simplesmente no pincel, deixava cair uma gota de tinta preta sobre a água e observava comigo a forma como essa mancha se abria, se dissolvia, se espalhava lentamente, até já não ser ponto nem linha, mas uma respiração escura dentro da transparência. Depois dizia-me: “O que não se vê é o que respira na pintura. O vazio é o lugar onde a alma da obra mora.” Durante muitos anos, guardei essa frase sem a compreender inteiramente. Hoje, quando estudo a estética chinesa e volto, pela memória, à parede da casa da minha avó, percebo que ela falava de uma das intuições mais profundas da arte chinesa: o vazio, ou kōng (空), ocupa o centro da experiência estética, porque abre a obra à circulação do sopro, da imaginação e do tempo. O espaço branco da pintura chinesa não corresponde a um intervalo morto, a uma zona abandonada ou a uma ausência de execução; pertence à própria estrutura espiritual da obra, como o silêncio pertence ao poema e como a pausa pertence à música. Este texto nasce, por isso, de uma dupla experiência: por um lado, a reflexão sobre uma tradição estética antiga, atravessada pelo taoísmo, pela pintura de paisagem, pela caligrafia e por uma conceção muito particular da relação entre forma e invisível; por outro, a memória íntima de uma aprendizagem familiar, feita sem tratados, sem definições rígidas, sem a arrogância das palavras que querem possuir aquilo que apenas se pode contemplar. Escrevo sobre o vazio como quem regressa a uma casa, a uma parede, a uma tarde lenta, a uma avó que ensinava através do gesto e que sabia, talvez melhor do que muitos livros, que a pintura começa precisamente onde a tinta se retira. Para compreender o vazio na pintura chinesa, é necessário abandonar a ideia de que a totalidade da obra coincide com aquilo que se oferece imediatamente ao olhar. Em muitas tradições pictóricas ocidentais, a superfície da tela tende a ser concebida como um campo a preencher: a moldura delimita um mundo, e o artista organiza dentro dela formas, volumes, cores, perspetivas, corpos e objetos, criando uma representação mais ou menos fechada da realidade. Na pintura chinesa de montanhas e águas, shān shuǐ huà (山水画), a lógica é outra: o vazio não encerra a obra, abre-a; não interrompe a paisagem, prolonga-a; não empobrece a composição, permite que ela respire para além dos limites materiais do papel. Recordo-me de uma tarde em que a minha avó me mostrou uma pintura atribuída a um antigo mestre da dinastia Song. No canto inferior esquerdo, via-se apenas um pinheiro, desenhado com traços secos, firmes e contidos. O restante espaço permanecia branco, amplo, quase vertiginoso. Perguntei-lhe o que havia ali, apontando para aquela extensão sem tinta. Ela respondeu: “Névoa. Ar. O silêncio da montanha ao amanhecer. Se o pintor tivesse desenhado a névoa, a névoa desapareceria.” Essa resposta acompanhou-me durante anos, porque continha uma verdade difícil de apreender: há realidades que a representação excessiva destrói, há presenças que só sobrevivem quando a mão aceita deter-se. O vazio, na pintura chinesa, constitui uma modalidade subtil de presença. Ele carrega o qì (气), o sopro vital que atravessa os seres, anima a paisagem e liga o visível ao invisível. Quando um pintor deixa uma área sem tinta, realiza uma escolha estética e espiritual, abrindo espaço para que a energia circule dentro da obra e para que o olhar do espectador participe na sua formação. Uma paisagem demasiado cheia torna-se imóvel, sufocada pelo excesso de informação; uma paisagem atravessada pelo vazio conserva o movimento secreto da água, do vento, da névoa, do tempo e da distância. Vi essa lógica na prática quando a minha avó me ensinou a pintar bambus. Eu queria desenhar todas as folhas, todas as nervuras, todos os detalhes do caule, como se a fidelidade dependesse da acumulação minuciosa de traços. Ela corrigia-me com paciência: “Se pintares tudo, o bambu morre. Deixa espaço entre as folhas. Deixa o ar passar. O bambu vive também no vento que não consegues pintar.” Nesse momento, comecei a perceber que a pintura chinesa não procura copiar a aparência exterior das coisas, mas captar a sua respiração interna, a tensão entre presença e retirada, a forma como cada ser existe em relação com aquilo que o envolve. Esta conceção encontra raízes profundas no pensamento taoísta. No Dao De Jing (道德经), Laozi afirma que a utilidade da roda depende do vazio do seu centro, a utilidade do vaso depende do espaço oco que pode receber, a utilidade da casa depende da abertura que permite habitar. A forma visível oferece contorno; o vazio oferece possibilidade. Aplicada à pintura, esta intuição significa que o branco do papel participa ativamente na construção do sentido, pois torna possível a respiração dos traços, a profundidade da paisagem e a liberdade do olhar. Sem o espaço vazio, a tinta perderia a sua ressonância; sem silêncio, a cor perderia a sua vibração. O vazio, porém, ultrapassa a esfera da teoria estética e inscreve-se numa maneira de ver, de estar e de aceitar o mundo. Durante a adolescência, vivi durante algum tempo como se todo o espaço disponível tivesse de ser ocupado: música nos ouvidos, telemóvel na mão, conversas contínuas, tarefas sucessivas, uma espécie de medo da interrupção e da pausa. Quando olhava para uma pintura chinesa, o espaço branco parecia-me monótono, demasiado silencioso, quase pobre. Hoje, estando longe da China, em Portugal, longe da casa da minha avó e da parede onde aquelas pinturas repousavam, sinto falta precisamente desse branco que antes me parecia vazio; sinto falta de uma lentidão que acolhe, de uma montanha quase invisível, de uma névoa que não precisa de se explicar, de um espaço onde o pensamento possa assentar sem ser imediatamente substituído por ruído. A pintura chinesa ensinou-me que o vazio pode ser um lugar de encontro. Diante de uma paisagem com grandes zonas brancas, o espectador não recebe uma imagem totalmente determinada; entra na obra, completa-a com a sua memória, com a sua solidão, com o seu próprio modo de sentir a distância. O branco torna-se uma zona de hospitalidade. Nele cabem a névoa vista pelo pintor, o silêncio imaginado pelo observador, a montanha que se ergue sem ser desenhada, o rio que corre fora do papel, o tempo que separa quem pintou de quem contempla. Assim, a obra atravessa os séculos porque conserva um espaço disponível para cada olhar. A estética chinesa distingue-se precisamente por essa confiança na participação do observador. A pintura não impõe uma leitura única, nem oferece uma realidade totalmente fechada sobre si mesma; deixa zonas de indeterminação onde a imaginação pode mover-se, como alguém que caminha numa paisagem envolta em bruma e descobre, a cada passo, a sua própria forma de ver. Lembro-me de ter levado uma amiga portuguesa a ver as pinturas da minha avó. Ela deteve-se diante da pintura do pinheiro e comentou que parecia faltar alguma coisa. Sorri, porque me reconheci imediatamente naquela observação, a mesma que eu própria teria feito em criança. Respondi-lhe que talvez faltasse apenas o olhar dela, a sua memória, a sua presença diante do branco. A pintura esperava por isso. Esse vazio estende-se a outras dimensões da cultura chinesa. Na caligrafia, a força de um carácter depende tanto da densidade da tinta como da distribuição dos espaços que o rodeiam; na música tradicional, o silêncio entre as notas permite que cada som se prolongue para dentro do ouvinte; na organização da casa, a sobriedade dos objetos cria uma atmosfera de repouso; na conversa, as pausas podem transmitir respeito, delicadeza ou pensamento. A cultura chinesa conhece, de modo profundo, o valor da suspensão. Falar menos pode significar escutar melhor; ocupar menos pode significar permitir mais; retirar pode ser uma forma de oferecer. Esta relação com o vazio implica também uma ética. Num mundo habituado ao excesso, à velocidade e à acumulação, a estética chinesa recorda que a plenitude pode surgir da contenção e que a beleza nem sempre coincide com abundância. A pintura de paisagem, quando deixa metade do papel sem tinta, afirma uma confiança rara: a confiança de que o invisível participa na construção do real. O artista não precisa de controlar tudo, nem o espectador precisa de receber tudo pronto. Entre ambos existe uma zona de respiração, um intervalo sensível onde a obra continua a acontecer. Há, portanto, uma sabedoria existencial no vazio. A vida humana, tal como a pintura, perde vitalidade quando todos os espaços são preenchidos por obrigações, ruídos, explicações, desejos e medos. Precisamos de margens interiores, de zonas brancas, de momentos sem função imediata, de silêncios onde as emoções possam decantar-se. A minha avó compreendia isto sem precisar de o formular como tese. Talvez por isso pintasse devagar, talvez por isso deixasse sempre espaço suficiente para que uma ave pudesse atravessar a paisagem sem ser desenhada, para que uma montanha pudesse permanecer escondida na névoa, para que a obra tivesse um lugar onde respirar. Hoje, a parede da casa da minha avó continua a existir na minha memória com uma nitidez quase física. Já não olho para aquelas zonas brancas como quem encontra uma falha. Vejo nelas a névoa da montanha, o vento no pinheiro, o silêncio do amanhecer, a mão antiga do pintor, a voz baixa da minha avó e a minha própria transformação: a criança que queria preencher tudo deu lugar a uma mulher que aprendeu a reconhecer a intensidade do que permanece suspenso. O vazio na pintura chinesa constitui uma forma de pensamento sensível, uma filosofia encarnada no gesto, uma maneira de compreender a relação entre mundo, olhar e interioridade. A sua força reside na capacidade de ensinar sem declarar, de abrir sem ocupar, de sugerir sem aprisionar. A lição da minha avó permanece comigo: aquilo que não se vê pode sustentar o que aparece; aquilo que se cala pode dar profundidade ao que é dito; aquilo que fica em branco pode guardar a respiração mais íntima da obra. Quando observo uma pintura chinesa, vejo tinta, papel, montanha, água, memória, cultura e família. Vejo também a minha própria aprendizagem do silêncio. O espaço branco que em criança me parecia monótono tornou-se o lugar onde tudo se reúne sem se confundir: a paisagem, a avó, a China, a distância, o tempo e a minha forma de olhar. O vazio não equivale ao nada. O vazio é a morada invisível da respiração.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioUm relutante coleccionador de arte na dinastia Song Zhao Heng (968-1022), o terceiro imperador, com o nome Zhenzong (r.997-1022) da dinastia Song, recebeu em 1013 o quarto, último e mais volumoso, volume intitulado Cefu yuangui, «Tartaruga primordial do departamento dos livros», de um extraordinário empreendimento visando registar mais do que de modo enciclopédico, porque abarcava por exemplo cópias completas de textos, todo o conhecimento disponível naquele tempo. Se é certo que já desde o século III existiam esses repositórios que incluíam compêndios e antologias, foi só durante a dinastia Song (960-1279) com esses quatro volumes que começaram a ser compostos no tempo do imperador Taizong, o pai de Zhenzong, então designados Songsi dashu, que esse género de compilação recebeu o título de leishu «categoria de livros». Foi também nesse tempo que mais se expandiu o culto da antiguidade entre literatos fora do palácio imperial, presente na expressão jinshi xue, «estudo de bronzes e pedras», em que estes se dedicavam a excavações e a catalogar e coleccionar objectos da cultura e da arte. Esse interesse pelo coleccionismo não se desenrolava sem alguma ambiguidade porque tanto o Daoísmo, o Confucionismo como o Budismo que influenciavam a cultura, pugnavam pela noção da superioridade do ser sobre o ter. Um caso evidente dessa heterodoxia é notório no percurso do poeta, pintor e homem de letras em geral, Su Shi (1037-1101). Seguindo o exemplo de seu pai para quem chegou a comprar objectos raros, o poeta valorizava em particular artefactos relacionados com as artes do pincel. Num famoso relato sobre o «Pavilhão dos tesouros da pintura», Baohui tang do pintor e poeta Wang Shen (c.1036-c.1093) alertava contra o perigo de se deixar ficar obcecado ou espiritualmente embaraçado pela posse de riquezas materias porque, escreveu: «Entre todos os objectos que nos podem dar prazer, nada se compara com caligrafias e pinturas na sua capacidade de deleitar os homens sem os fazer desviar do bom caminho.» Xiao Chen (c. 1645-c. 1715), um pintor e homem de letras que viveu num tempo em que os imperadores manchus buscavam exibir a legitimidade do mandato celeste através do reconhecimento da cultura, também seguiu esse propósito imperial. Numa pintura feita no formato de leque desdobrável (tinta e cor sobre papel, 51,6 x 18 cm, no Museu do Palácio, em Pequim) retrata Su Shi com o seu tradicional chapéu alto, Dongpo jin, sentado a uma mesa onde estão antigos objectos de bronze, recebendo um criado que chega com os braços cheios de rolos de pinturas ou caligrafias. À sua frente um literato exibe a outro um estranho objecto. Diz-se que num excesso de admiração diante de uma antiga pintura de um dragão feita por Huang Quan (903-965), que fazia pinturas com minuciosos detalhes que ele desprezaria, Su Shi acendia uma vela e rezava por chuva em dias de seca.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioUma fronteira no meio das montanhas de Fan Kuan Cen Shen (715-770), o poeta da dinastia Tang reconhecido pelos seus «poemas da fronteira», biansai shi, quando esteve habitando num desses lugares de passagem olhando para o outro lado onde não se sabe ao certo o que lá está, ter-se-á apercebido de como é fácil fazer a travessia, como em tantas outras situações tudo pode subitamente ser outra coisa. Como no poema que escreveu quando cumpria as suas funções de funcionário destacado na distante Luntai, perto da actual Urumqi (Xinjiang), para se despedir do ajudante de campo Wu, na altura em que este regressava a casa e deixou de o ver numa curva da montanha onde a estrada vira, ficando «na neve apenas as marcas dos cascos do seu cavalo». Nessa Canção da neve branca notou como «Um vento selvagem do Norte açoitava a terra fazendo estalar a rija relva branca/ Já na oitava lua e o céu dos bárbaros enviava a neve rodopiante para o chão, / Como se a quente brisa primaveril tivesse regressado de súbito e, numa única noite,/ Fazendo despontar em milhares e milhares de pereiras as suas flores brancas (…)» Pintores literatos contemplando a rudeza de escarpadas montanhas observaram como na sua aparente imobilidade, a pristina paisagem na sua lenta mudança era um limiar, um lugar onde se podiam espelhar e acompanhar com atenção as mais amenas mutações. Nas pinturas de montanhas monumentais de Fan Kuan (c. 950- c.1030), um dos três mestres da pintura da dinastia Song do Norte (960-1279) é notória a consoladora sensação de estar num lugar onde se pode morar ou passear despreocupadamente. Como se diz que seria o carácter descontraído de Fan Kuan, disponível para achar o desconhecido. Talvez não seja um acaso que na única pintura que lhe é indiscutivelmente atribuída, o rolo vertical Viajantes entre montanhas e regatos (tinta e cor sobre seda, 206,3 x 103,3 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) se vê, aninhado entre as copas das árvores junto de uma cascata, um abrigo para viandantes numa passagem de fronteira. Fan Kuan utilizou para mostrar a ancianidade das montanhas pequenos traços de tinta chamados yudian cun, «rugas de textura de gotas de chuva», uma evolução das rugas em forma de grãos de arroz ou sésamo empilhados (zhima cun), usadas por pintores da dinastia Tang. Porém não é a chuva mas a neve que caracteriza outras pinturas atribuídas ao mestre de Huayuan (Shaanxi). Como o rolo vertical Cenário de neve, árvores de Inverno (tinta sobre seda, 160,3 x 193,5 cm, no Museu de Tianjin) atravessado na vertical por nuvens e neblinas, afectando inexoravelmente a vida das pessoas. Dir-se-ia ecoando a dor de uma despedida penetrando pelas soleiras das portas, como no poema de Cen Shen: «Flocos esvoaçando empapavam cortinas de pérolas e tecidos de seda,/ Casacos de pele de raposa não aqueciam e sob os finos edredãos bordados sentia-se o frio.»
João Santos Filipe EventosPintura | Fernando Madruga Gomes estreia-se com exposição no Beco dos Artilheiros Mais de 100 quadros do artista de Macau estão em exibição na “Arkorigin Exposição a Solo”, até 12 de Junho, na escadaria de acesso à Fortaleza do Monte. A figura feminina é o principal tema da mostra Até 12 de Junho, mais de uma centena de pinturas de Fernando Madruga Gomes estão em exposição no Beco dos Artilheiros, na escadaria de acesso à Fortaleza do Monte, no evento denominado “Arkorigin Exposição a Solo”. A exibição marca a estreia do artista nascido em Macau. Entre os quadros com traços impressionistas, destacam-se os vários retratos femininos, muitos imaginados pelo artista, mas também de pessoas como a Princesa Diana ou Anita Mui, a actriz e cantora de Hong Kong. “Eu gosto de pintar retratos porque são as pinturas mais difíceis, e quando pinto gosto desse desafio, de nunca saber se vou conseguir fazer a pintura como quero ou se vou deixar o retrato por fazer, porque já não vou conseguir obter o resultado pretendido”, explicou Fernando Madruga Gomes, ontem, em declarações ao HM. Sobre a predominância da figura feminina, Gomes explica que a escolha se prende com o sentido estético: “Eu não vejo muita beleza nos homens para se traduzir em pinturas. Mas, nas expressões femininas acho que há ali muita beleza, que eu gosto de imaginar e de pintar, e também nas várias roupas que podem ser pintadas nos retratos, e que também são difíceis de desenhar. É uma beleza que se alia ao desafio de pintar elementos mais difíceis”, reconheceu. Os “modelos” utilizados nos retratos são provenientes de diferentes culturas exibindo roupas diversas. Em alguns casos a inspiração provém mesmo da animação, como o caso de um dos retratos em que surge uma mulher vestida como Navegante da Lua, uma inspiração da série de desenhos animados japoneses altamente popular. “No início utilizava modelos para as pinturas, só que nem sempre conseguia que as pessoas que estavam comigo fizessem as expressões que eu procurava. Por isso, com o tempo comecei a recorrer mais a imagens online para me inspirar e pintar”, admite o pintor. Os retratos surgem para Fernando também como uma forma de canalizar as suas emoções: “Quando estou a pintar as caras dos retratos, transmito algumas das minhas emoções, estou a lidar também com aquilo que sinto ou senti e que quero levar para a tela”, revelou. Pintar como cura Além de retratos femininos a exposição apresenta outros dois temas: gatos e flores. E os motivos destas temáticas na obra de Fernando Madruga Gomes têm propósitos opostos. “Pintar flores é algo mais fácil, algo que me sai de forma muito natural, e que tecnicamente não é assim difícil. É uma pintura quase de recuperação”, afirmou. “Não leva muito tempo, mas depois de pensar em como quero pintar as flores é fácil conseguir os resultados que pretendo, é uma pintura mais de recuperação, para relaxar”, reconheceu. No entanto, as obras com os gatos são mais pessoais, têm uma carga emocional maior, ligada à infância e ao crescimento, dividido entre Macau e o Pico, nos Açores. Os retratos de gatos são assim alguns dos animais com quem o artista partilhou parte da vida e dos quais guarda memórias. Filho do proprietário do restaurante Fernando, o pintor de 43 anos afirmou ao HM que a pintura surgiu na sua vida por acaso, depois de um acidente doméstico, por altura da covid-19. Quando fazia exercícios numa barra fixa, durante os confinamentos, Fernando caiu e partiu uma perna, depois da barra ter cedido. Internado no hospital, a pintura tornou-se uma forma de passar o tempo. “Antes de começar a pintar, uns 10 anos antes, tive alguma experiência, muito breve, no desenho de tatuagens. Só que não gostava da forma como desenhava, pelo que acabei por parar. Depois no hospital, para passar o tempo, comecei a desenhar, e percebi que era capaz de pintar”, confessou. Entre experiências e ímpetos, Fernando Gomes admite que em quase três anos pintou mais de 200 retratos. E muitos deles por impulso como aconteceu com o quadro da Princesa Diana. “Foi um quadro que resultou de um dia em que acordei e senti que queria pintá-la, não foi nada planeado. E durante dois dias estive à volta do quadro, sem dormir”, indicou. A exposição apresenta três pinturas de Diana, embora Gomes considere que não tem grande admiração pela figura. “Foram obras feitas por impulso, embora confesse que não são pinturas que me façam feliz, até me senti algo mal, devido à história trágica que a envolve”, contou. No entanto, um dos quadros, com o nome a Última Rosa, valeu Fernando Gomes um “Prémio de Ouro” na categoria de pinturas com óleo nos FADA – Future Art & Design Awards de 2025. Olhos no futuro A exposição “Arkorigin Exposição a Solo” marca a estreia do artista em Macau, e Fernando Madruga Gomes mostrou-se satisfeito por ter oportunidade de mostrar o seu trabalho, tão perto de uma das zonas mais icónicas da cidade, a Fortaleza do Monte. “Surgiu a oportunidade de mostrar os meus trabalhos neste espaço e achei que devia aproveitar a oportunidade. Tenho quadros mais do que suficientes para exibir, por isso, depois tive de fazer a escolha com base no local e no facto de saber que passam muitas pessoas aqui”, explicou sobre os trabalhos em exibição. “Acho que as pinturas em exposição são as mais interessantes para as muitas pessoas que passam por aqui, e foi esse o meu critério”, vincou. Em relação ao futuro, o pintor espera ter oportunidade de ter mais exposições, em diferentes locais, embora o foco esteja em pintar e fazer retratos. A exposição está disponível até 12 de Junho, entre as 7h e as 19h, com entrada livre.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioPor onde dançou o pincel de Zou Zhilin Huang Gongwang (1269-1354), o mestre da dinastia Yuan que viveu como um andarilho daoísta, um «convidado dos lagos e das montanhas», foi viver durante três anos entre 1347 e 1350, para junto do rio Fuchun (actual Qiantang) a Oeste de Hangzhou onde, com total desprendimento, sem contar com elogios, comentários ou críticas, foi criando um dos rolos horizontais mais prezados pela posteridade. Tinha setenta e oito anos quando começou a pintura conhecida como Retiro nas montanhas Fuchun, da «Primavera abundante», que respondia à urgência do seu método de capturar o espanto, apreço e admiração que sentia perante a natureza visível: “O pintor deve levar sempre consigo alguns pincéis numa sacola para que quando se lhe deparem árvores surpreendentes num belo cenário, ela possa de imediato fazer esboços delas para preservar as suas características naturais. Deve subir a altos edifícios, contemplar o qiyun, «o movimento do espírito», e diante das vistas abertas olhar as nuvens. Essas vistas chamam-se paisagens de cumes de montanhas. Tanto Guo Xi como Li Cheng praticaram este método e Guo Xi pintou mesmo pedras como nuvens.” Mas após Huang Gongwang terminar a sua pintura, ela própria se tornaria um objecto de intensa estima e assombro por aqueles que a possuíram. Um letrado no fim da dinastia Ming que teve o privilégio de a contemplar escreveu no rolo um comentário: «O seu proprietário vive com o rolo há dezenas de anos, coloca-o na mesa-de-cabeceira quando vai dormir, junto da sua cadeira quando vai comer, dia e noite, onde quer que vá a pintura vai com ele.» E justificou «A pintura de Huang é como as caligafias do grande Wang Xizhi – uma verdadeira obra-prima. Nesta pintura o pincel dança com vida, tal como a caligrafia do Prefácio do Pavilhão das orquídeas – divino e sublime.» Quem era esse conhecedor a quem foi concedida a honra de pousar o seu pincel sobre o inestimável rolo? Zou Zhilin (c.1585-c.1654) era amigo da família de Wu Zhiju que possuiu a pintura, depois de ela pertencer a egrégios pintores como Shen Zhou ou Dong Qichang, e era isso que lhe permitia a intimidade com o rolo. E a pintura era para ele também um modo de expressão. Passado o exame jinshi em 1606 por pouco tempo serviu a administração imperial, retirando-se para aquela peculiar forma de habitar solitário entre a gente, designado por vezes como yinshi, que era a via de tantos literatos insubmissos. Fazia parte dessa forma de relacionamento com os outros a troca de pinturas como uma, à venda na Sotheby’s, com caligrafias e pinturas contendo um leque montado num álbum de onze folhas a tinta e cor sobre papel dourado, onde numa das folhas escreve: «Para onde escapar? Suspeito que para lado nenhum senão para montanhas profundas ou florestas densas. E onde encontrar essas montanhas e florestas densas senão sob o meu pincel?»
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Rapaz Que Conduz o Búfalo na Paisagem de Outono Xiao Yan (464-549), o imperador Wu de Liang (r.502-549) que muito promoveu o Budismo, perplexo pela decisão do sábio Tao Hongjing (456-536) de se retirar da cidade em 492, com apenas trinta e seis anos, e ir viver para longe no meio das montanhas em vez de ficar na corte, onde a sua sabedoria e os seus conselhos seriam abundantemente reconhecidos e recompensados, enviou-lhe uma missiva perguntando-lhe porquê. Segundo a tradição, o sábio, que se dedicara ao estudo do Dao, não lhe respondeu, remeteu-lhe um desenho com dois bois; um livre a pastar o outro preso e com um freio. Xiao Yan compreendeu. O facto de Tao Hongjing ter escolhido o corpulento animal, que parece agir sem esforço nem pressa, para expôr a sua situação, ecoa a compreensão da vontade de união com a natureza que certos adeptos do Chan mostravam com a figura de Laozi (c.371-477 a.C.) montado num boi (niu) ou um búfalo (shuiniu) a caminhar em direcção ao pôr-do- sol, afastando-se da civilização, das suas inúteis guerras e confrontos. Anos depois, durante a dinastia Song do Sul (1127-1279), pintores usaram diversas vezes a figura do paciente boi, aproveitando o seu múltiplo sentido simbólico. O pintor da corte Yan Ciping (act. 1164-1187) seria autor de obras particularmente expressivas em que a figura do búfalo surge associada a rapazes jovens. Como na pintura em que se desprende a sensação da «paz dócil», como insinua o seu nome ciping, e a relação táctil com a terra mostrando dois rapazes sentados um a pentear o outro junto de uma árvore, atrás de dois búfalos, um grande e um pequeno também sentados, descansando (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, no Museu Sen-oku, Hakukokan, em Quioto). Noutra, feita num leque montado numa folha de álbum, um Rapaz e um búfalo numa paisagem de Outono (tinta e cor sobre seda, 23 x 21 cm, no Museu de Arte de Cleveland) vê-se, entre nevoeiros, enquanto se vai desenrolando o tempo da transformação outonal, um jovem sentado sobre um búfalo, conduzindo-o pela rédea, exprimindo na figura do búfalo o «verdadeiro eu» sendo o rapaz condutor, o praticante do Chan de aparência mais frágil, vai abandonando o mundo condicionado por ilusões. Yan Ciping, como outros da corte da dinastia Song, como o célebre Ma Yuan (c.1160-1225), provinha de uma família de pintores que apuravam o seu próprio estilo familiar. Em certas pinturas, como em Hospedaria numa falésia coberta de pinheiros (leque montado como folha de álbum, tinta e cor sobre seda, 21,4 x 23 cm, no Metmuseum) é dificíl distinguir qual dos dois irmãos, filhos do pintor Yan Zhong, Ciyu ou Ciping é o autor. Nela, uma grande parte do espaço da pintura é deixado em branco, sugerindo a concepção do Budismo Chan de que a matéria emerge do vazio. Olhando a pequena pintura, o observador podia partilhar o sentimento de retirada objecto da obra.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioA Substância da Primavera na Visão de Yin Hong Zhuangzi, no século IV a. C., entendia o tempo como um contínuo em transformação que não deve ser contrariado mas aproveitado numa «vadiagem feliz», xiaoyao you, fluindo com ele e para o comprovar não cessava de observar as mutações do mundo da natureza. Os letrados adeptos das artes do pincel que o leram não deixaram de testemunhar esse incessante olhar. Na dinastia Ming, por exemplo, uma das formas de expressar essa atitude, convocando o envolvimento do observador, pode ser vista em pinturas como no engenhoso rolo das Quatro estações (Sishi shanshui, rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 35,1 x 569,9 cm, de autor desconhecido, no Metmuseum) em que ao ser desenrolada da direita para a esquerda, a pintura vai revelando sucessivamente reconhecíveis cenários que distinguem as estações do ano. O pintor Japonês Sesshu Toyo (1420-1506), que durante dois anos foi conhecer a pintura da dinastia Ming, interpretou mais do que uma vez o tema da mudança das estações e de forma admirável em quatro rolos verticais (tinta e cor sobre seda, 149,5 x 75,6 cm, no Museu Nacional de Tóquio). Pintados no depurado estilo então muito admirado dos mestres da antiga dinastia Song, Ma Yuan e Xia Gui, tudo neles tem o sabor da nostalgia. No primeiro, o da Primavera por exemplo, mostra a reconhecível figura de um poeta sentado de costas sobre uma mula ao deixar a casa de um amigo. Desde o início da dinastia, pintores tratavam a grandiosidade da paisagem acentuando o que é particular a cada estação do ano, revivendo esse estilo chamado «escola de Ma-Xia». Outros, nesse tempo, exibiam de forma diferente a passagem das estações, detendo-se em meticulosas figuras de animais e plantas que são a distinta matéria de cada estação. Um membro de uma família de pintores ligados à corte, de quem hoje se conhecem poucas pinturas, numa delas figurou assim expressivamente a Primavera, quando porventura mais se sente um recomeço. Yin Hong (c.1430-c.1500) no grande rolo vertical Encontro de pássaros sob um salgueiro na Primavera (Chunliu juqi, tinta e cor sobre seda, 240 x 195,5 cm. no Museu de Arte de Cleveland) mostra, com minúcia, na margem de um rio sob um salgueiro e à volta de uma ampla gongshi, «pedra de literatos», uma variedade de flores e aves, onde se destaca pela dimensão e exuberância um casal de pavões. A pavoa, à frente, parece estar a empurrar um dente-de-leão pugong ying, sinal de determinação e boa sorte, assim como o salgueiro é de novos inícios, de renascimento e fertilidade. E com a água abundante do rio, são todas figuras apropriadas para representar a Primavera. Quem soubesse interpretar a cena poderia deixar-se embalar e, fluindo, dizer como o poeta Zhu Yunming (1461-1527): «Se há flores e há vinho para celebrar, cantando,/ Como é bom ser um literato e habitar a abundância preciosa do tempo!»
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO desassossego numa cena de rua em tempos de paz Zhang Hong (1577-1668), o singular pintor de Suzhou que ousava pintar a luz ou o vento, possuía uma especial habilidade na pintura de figuras, uma aptidão que utilizou em surpreendentes cenas cuja aparente naturalidade revelava afinal uma selectiva interpretação de factos ou histórias que tocaram o seu inquieto e inquisitivo espírito. Foi assim por exemplo em pinturas que fez no álbum Figuras em cenários (tinta e cor sobre seda, 28,6 x 20,3 cm no Museu AMAM, da Universidade Oberlin, Ohio), como por exemplo na página Disparando contra a maré que se refere à lenda que explica o nome de um rio na Província de Zhejiang, «a curva do rio». Na Primavera e no Outono, numa famosa curva a Norte de Hangzhou, as águas do rio Qiantang chocam com a força das marés provocando maremotos. Para combater as consequentes inundações, o rei Qian Liu (852-932) teria ordenado quinhentos dos seus melhores arqueiros que disparassem contra as ondas para que se pudesse terminar a construção de um dique, de onde o nome do rio Qiantang, «o dique de Qian». No mesmo álbum, numa cena calma mas insólita, um literato observa jovens empregados a lavar árvores tong, «tungue» (vernicia fordi, cujo óleo é usado para iluminação em lamparinas). Numa inscrição está escrito o nome Ni Yu, Ni, «o excêntrico», que se refere ao pintor Nizan (1301-74) e à lenda que o distingue como obcecado com a limpeza. Num rolo horizontal, Zhang Hong fez uma série de figuras populares entregues a Várias diversões (tinta sobre papel, 27,5 x 458 cm, no Museu do Palácio em Pequim) entre as quais contadores de histórias, videntes e músicos cegos. Como noutro rolo horizontal atribuído ao funcionário e pintor da dinastia Yuan, Zhu Yu (1293-1365) mas que datará do meio da era dos Ming, se vêem essas e outras figuras, retratando com aparente singeleza Cenas de rua num tempo de paz (tinta e cor sobre papel, 28 x 1092, 2 cm, no Instituto de Arte de Chicago). Zhu Yu é ainda nomeado como autor original de uma falsificação de uma composição, num rolo vertical de um Luohan e um dragão no estilo da dinastia Yuan (tinta e cor sobre seda, 91,5 x 33 cm, no Museu de Arte da Universidade de Princeton) o que indicia uma vocação para realizar obras de imaginação para além da realidade visível. Nas Cenas de rua num tempo de paz ou «Colecção de cenas em tempos de paz», Taiping fenghui, é notória a vontade de mostrar, nas suas mais de quatrocentas figuras, gente das mais diversas origens e ocupações, algumas das quais só eram vistas no espaço público, fora de casas. Entre elas grupos e situações raras ou cómicas causando alvoroços, despertam atenção de outras pessoas, como o grupo dos contadores de histórias que com palavras tornavam presente o que não está. Ausências que, desenrolando a pintura, também se tornavam presentes, admiradas no interior de moradias.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioAs Discípulas de Yuan Mei Li Longji (685-762), que seria recordado como o imperador Xuanzong de Tang (r. 712-56), regressava ao local de um crime para iniciar o doloroso processo a que o poeta Bai Juyi (772-842) chamaria o «longo remorso». Nesse lugar da colina Mawei onde por razões de Estado fora morta a concubina Yang Yuhuan, mais conhecida como Yang Guifei, diz o poeta: «ele e os seus ministros olharam-se nos olhos uns dos outros, as suas roupas molhadas de lágrimas». Mas quando os cavalos chegaram às portas do palácio, contrariando os seus sentimentos, «os lagos e os jardins permaneciam tranquilos;/ Os hibiscos nas águas do lago Taiye, os salgueiros do palácio Weiyang, «o que não acaba». / Mas os hibiscos eram a sua face, os salgueiros as suas sobrancelhas,/ Olhando para eles, como poderiam as lágrimas deixar de correr?» As palavras do poeta do Canto do eterno remorso (Changhen ge) ressoariam muitos anos depois, dando uma inolvidável forma a confusos sentimentos. No século XVIII, de repetidas, essas palavras eram já um lugar-comum e um poeta insubmisso ousou desafiá-las. No poema Mawei, regressando à fatídica colina, Yuan Mei (1716-1798) escreveu: «Não cantarei o Canto do remorso perpétuo de antigamente,/ Desde que existe a Via Láctea, esse rio de prata, que há pessoas separadas./ Nas suas aldeias com fossos de pedra, quando o marido se separava da esposa,/ Mais lágrimas se derramaram do que as que o imperador chorou no Pavilhão da longa vida.» Yuan Mei alardeava uma liberdade espelhada no espaço de um jardim que edificou como um auto-retrato, na tradição do que fizeram literatos como Wang Wei; «Se é o jardim que traz conforto aos nossos olhos, é também o jardim que oferece ao homem um refúgio de si mesmo.» Nascido em Hangzhou junto ao Lago do Oeste, levou para o terreno que adquiriu na área de Nanquim e que nomeou Suiyuan, «Jardim da Acomodação», aproveitando o nome Sui do anterior proprietário escrito porém de outro modo, certas características do celebrado Lago como as Vinte e quatro cenas com os respectivos poemas. A partir desse horto sem muros, o Senhor do Jardim da Acomodação, Suiyuan xiansheng, revelou uma ousadia que lhe permitia, por exemplo, superar as barreiras que separavam a educação de homens e mulheres. Como mostrou ao encomendar uma rara pintura. Wang Gong e You Shao foram os dois pintores solicitados por Yuan Mei para executar um inédito rolo figurando um convencional encontro de literatos mas que em que só participam, além de Yuan Mei, senhoras letradas. Em As discípulas do Mestre de Suiyuan (rolo horizontal, tinta e cor sobre papel, 41 x 308,4 cm, no Museu de Xangai) literatas, como a pintora Liao Yunjin (1766-1835) que por momentos levanta o pincel enquanto pinta um ramo de ameixieira conversam e convivem, atestando a ousadia de Yuan Mei que não aceitava preconceitos quanto à instrução de senhoras.
Hoje Macau Via do MeioComo Gu Bing Iluminou a História da Pintura Michal Piotr Boym (Bu Migé, 1612-1659), o missionário jesuíta polaco, no seu infatigável labor de mostrar à Europa a língua, os costumes, a fauna e a flora que encontrava no Império do Meio, incluiu entre as inumeráveis revelações que acompanhavam o inédito mapa da Magna Cathay, cinco figuras desenhadas por um autor local e impressas em xilografias. Entre ela a flor mu furong, o hibiscus mutabilis, ou rosa da China, que possui a admirável capacidade de, a cada manhã apresentar uma cor branca ou rosada e no fim do dia, ao entardecer, revelar a cor vermelha como se fora um prémio outorgado à sua existência sob a luz solar. O autor dessas figuras, o pintor de Hangzhou Gu Bing, activo entre 1594 e 1603, realizara uma proeza notável e inédita na história da arte em qualquer lugar do mundo, ao juntar à enumeração dos nomes e biografias breves de pintores, poemas, comentários e ilustrações exemplares do seu estilo e modo de proceder. Reproduzidas em xilogravuras, no formato portátil de 26,9 x 41,9 cm, tinham o potencial de mostrar a um muito maior número de observadores uma arte até então reservada a um número limitado de pessoas. A esse conjunto de cento e seis pintores, apresentados de modo cronológico, desde o lendário Gu Kaizhi à corrente dinastia Ming, editado em 1603, deu-lhe o nome de Lidai minggong huapu, «Álbum de senhores famosos através de sucessivas dinastias». De notar a palavra huapu, «registo de figuras» já usada antes para designar um tratado, uma colecção, um guia ou um manual. E o mais raro uso da palavra laudatória e reverencial gong, «senhores», para referir os pintores. O álbum alcançaria grande divulgação, chegando até às ilhas do Japão onde foi particularmente acarinhado pelos pintores proíbidos de viajar ao estrangeiro. Conhecido também como Gushi Huapu, «Álbum de pinturas do mestre Gu», mesmo quando a figura do seu autor, que seguiu um percurso incomum, foi por vezes esquecida. Gu Bing ficara orfão desde muito cedo mas tivera a sorte de ter um avô que o quis poupar ao fastidioso trabalho de decorar os clássicos, imprescindível para se apresentar aos exames imperiais e em vez disso lhe deu a ver os mais excelentes exemplos de caligrafias e pinturas. E depois, ele mesmo se deslocou às mais veneradas montanhas e visitou ilustres literatos, acabando por fixar a sua morada numa cabana no sopé da montanha Wu, a sudeste do Lago do Oeste. Em 1599 aceitou, brevemente, uma posição na Cidade Proíbida no Wuying dian, o «Pavilhão do valor militar», na altura usado pelo imperador para se reunir com literatos como pintores ou poetas e onde terá tido oportunidade de observar reconhecidas obras da história da pintura. Que depois usou na sua obra, onde os traços esquemáticos na madeira jamais poderiam imitar a complexidade das pinturas mas seriam um precioso auxiliar da memória.
Hoje Macau EventosMUST | “Abraço do Amor” e outras obras, de Leong Kit Man, em exposição A Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa) acolhe até domingo a mostra da autoria de Leong Kit Man, com diversas pinturas, onde se destaca a criação “Abraço do Amor”. Tratam-se de trabalhos financiados pelo Programa de Apoio a Jovens Talentos da Criação Artística do Fundo Nacional de Artes da China, na sua edição relativa a 2024, com curadoria de Julia Kwan Leong Kit Man, jovem artista local, expõe a sua obra “Abraço do Amor” até este domingo na Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa). Trata-se de uma pintura de grandes dimensões, com 4,8 por 4,8 metros, resultado de um projecto artístico financiado pelo Programa de Apoio a Jovens Talentos da Criação Artística do Fundo Nacional de Artes da China de 2024. Segundo um comunicado da MUST, esta é uma pintura onde flores e pássaros ganham destaque, rompendo “com a composição tradicional da pintura topográfica”. Segundo uma nota da curadora, Julia Lam Tsz Kwan, a artista “une [na pintura] paisagens humanas e uma árvore centenária numa visão através de blocos de cores segmentados, com elementos diversificados, incluindo a árvore ancestral que simboliza o ciclo da vida, ninhos que simbolizam lares, criação de crias que representam a adopção e a herança, e placas votivas que evocam preces”. Todos estes elementos “significam crescimento humano”, lê-se na mesma nota. Além deste grande quadro, o público pode ainda ver “seis pinturas originais de grande escala de flores e pássaros, a par de desenhos preparatórios, esboços e estudos de cor da artista”. A mostra inclui também “uma animação digital especial” enquadrada com a pintura “Abraço do Amor”. Este conjunto de trabalhos indica que “além da herança técnica, a evolução da pintura chinesa está em linha com o contínuo pioneirismo de novas expressões artísticas”. Todos estes trabalhos podem ser vistos de forma gratuita no quarto piso do Bloco R da MUST. Questão de estilo Na mesma nota, destaca-se que Leong Kit Man tem procurado, há mais de uma década, “fundir a pincelada meticulosa, ao estilo gongbi, com material com texturas, a fim de obter um estilo distinto, ao mesmo tempo que explora e expande infinitas possibilidades dos media [artísticos] orientais”. De frisar que o estilo gongbi é, na pintura chinesa, sinónimo de detalhe e precisão na forma como os diversos elementos são retratados, a fim de dar uma noção de grande realismo a quem olha para as obras. Para este estilo de pintura são usados pincéis específicos a fim de obter determinados tipos de linhas e contornos, conforme o objectivo que o artista quer alcançar. Mo Xiaoye, orientador da exposição e professor do Departamento de Belas Artes da Universidade de Ciência e Tecnologia de Zhejiang, afirmou que a peça “Abraço do Amor” representa “numa perspectiva única, a península de Macau vista de longe de Cotai”. Para o académico, esta pintura permite também “uma releitura altamente criativa e bem-sucedida do género de pintura topográfica de Macau, rompendo com os formatos convencionais”. A própria artista explica que esta obra “tem como pano de fundo a paisagem urbana de Macau dramaticamente transformada 25 anos após a transferência [de administração portuguesa de Macau para a China], com uma árvore centenária como peça central a olhar para nós, que passamos por ela”. Doutorada em Belas Artes pela Academia Nacional de Artes da China, artista, académica e curadora, Leong Kit Man é professora assistente de Belas Artes e supervisora de mestrado e doutoramento na Faculdade de Humanidades e Artes da MUST. A artista teve ainda obras seleccionadas para a Exposição Nacional de Arte da China em 2014, 2019, e 2024. Destaque para a obra “Esplendor Efémero”, que foi escolhida para integrar a Exposição de Obras Selectas da Exposição Nacional de Belas Artes de 2019 em Pequim. A artista ganhou vários prémios na Exposição Anual de Artes Visuais de Macau.
Hoje Macau EventosHorta da Mitra | Inaugurada nova escadaria com pinturas O Instituto Cultural (IC) convidou artistas locais para pintarem uma escadaria de pedra no Bairro Horta da Mitra, mais concretamente as escadas da rua de Tomás da Rosa, bem no centro da península de Macau. As pinturas integram a obra com o nome “A Roda do Tempo do Bairro Horta da Mitra” e, segundo o IC, “enriquece a paisagem urbana local com o retrato das mudanças históricas no bairro ao longo de um século”. Os artistas convidados são Lam Ka Hou, Jian Jun Cheng, Liang Jing Siang, Ng Ka Mei, Un Ut Keong e Ho Kon Pang, tendo este projecto sido desenvolvido em parceria com a Associação Cultural da Vila da Taipa. Além disso, esta iniciativa “recebeu o apoio de associações e representantes comunitários”. Este mural pintado nos degraus das escadas descreve “vários símbolos culturais icónicos e traços típicos” desta zona, como o bosque de bananeiras e pássaros no passado, explicando-se ainda as origens do nome “Bairro Horta da Mitra” ou eventos e espaços culturais, como o mercado e danças do leão no Templo de Foc Tac. O mural “aproveita o desnível dos degraus para criar um efeito tridimensional, em que cada espelho é adornado com coloridas flores e ilustrações, exibindo a vitalidade e o toque humano do Bairro Horta da Mitra”. O IC tem desenvolvido desde 2021 vários projectos de murais em parceria com artistas locais, destacando, desta forma, “a história das origens [destes lugares] através de uma fusão de criatividade cultural e arte”. Estes murais, situados em locais como a Travessa da Assunção, o Largo do Pagode da Barra, a parede exterior dos Armazéns da Nam Kwong na Rua do Almirante Sérgio, bem como a Travessa da Boa Vista e a Escada do Coxo na Taipa, “tornaram-se pontos de fotografia famosos nas redes sociais para o turismo cultural em Macau”, refere o IC.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioPara fazer um retrato, Gao Jian pensou num jardim Zhu Shuzhen (c.1135-1180), a preclara poeta da dinastia Song cuja biografia é conhecida apenas através do prefácio escrito por Wei Duanli (1130- c. 1184) na recolha dos seus poemas Duanchang shiji, «Coração partido», onde mesmo aí diz que a não conheceu pessoalmente citando apenas uma biografia dela feita por um tal Wang Tanzuo. E para confirmar a veracidade da sua existência, acrescenta que ouviu recitar os seus poemas em estalagens na área de Hangzhou. Alguns chegaram a sugerir que a poetisa seria uma fabricação de um ou vários literatos justificando assim o inexplicável desconhecimento da vida daquela que viveu num tempo que justamente celebraria Li Qingzhao (1084 – c. 1155), a inspirada literata de Jinan (Shandong). Entre as várias razões que explicariam uma tão diferente recepção tem sido referido o evidente ambiente literário e de conhecimentos pessoais de que beneficiava Li Qingzhao e que claramente não foi o caso de Zhu Shuzhen. Para lá das dúvidas biográficas, as palavras dela persistem mostrando um olhar surpreso da mutante e fugaz beleza que encontrou diante dos seus olhos. Como escreve no poema, Flores caídas: «Suspensas no alto dos ramos as primeiras flores despontam, puras,/ Invejando as flores, o vento e a chuva aceleram-se mutuamente, como lhes convém.» E, se nesse contar do seu olhar sobre a natureza se insinua uma personalidade sensível, quando um pintor da dinastia Qing quis fazer o retrato de um proeminente literato que ocupou importantes funções no governo imperial, pensou numa paisagem eleita num jardim. No rolo horizontal (tinta sobre papel, 34,8 x 90 cm, no Metmuseum) onde está trancrito o Discurso sobre a poesia de Song Luo pelo seu filho Song Zhi, o pintor fez a figura de um literato sentado num pavilhão aberto rodeado por duas pessoas, representando alguém que vive em comunidade. Mas são os altos pinheiros, um regato brando, uma profusão de bambus, metáforas de um carácter elevado e íntegro que ocupam a maior parte do espaço pintado. Gao Jian (1634-1707), o pintor de Maoyuan (Suzhou), mostra nessa pintura do Outono de 1698, o estilo que caracterizava a sua cidade, evocando nomeadamente Shen Zhou (1427-1509), o respeitado mestre da chamada «escola de Wu», nome alternativo da região de Suzhou. Numa outra pintura Gao Jian referiu-o pelo nome fazendo, como ele fazia, uma pintura de uma paisagem «à maneira de». No rolo vertical (tinta e cor sobre papel, 208,9 x 93,9 cm, no Museu de Arte de Indianapolis) escreveu «Em Maio o rio é profundo e o pavilhão é frio», citando um verso de Du Fu. Afinal inscrevendo a sua obra num contínuo de vozes singulares que se sucedem no tempo e às quais o leitor-observador é convidado a escutar, mesmo desconhecendo pormenores da biografia dos autores que se perdem como flores impelidas pelo vento e a chuva em plena Primavera.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioO Imperador Enamorado e a Nobreza Solitária do Eremita Zhu Jianshen (1447-1487), o imperador Xianzong ou Chenghua, «A mudança bem sucedida», reinou durante vinte e três anos (1464-87) que trouxeram prosperidade e relativa paz ao Império, espelhando o seu carácter fleumático e cauteloso. Essa sua branda disposição é sublinhada pela constância da relação que manteve com Wan Zhen’er (1428-87), que foi sua ama-seca desde que ele tinha três anos e ela, vinte. Os dezassete anos de diferença não foram obstáculo ao persistente afecto que durou até ao fim: quando soube da sua morte, o monarca passou um dia sem poder falar no fim do qual terá murmurado: «Zhen’er desapareceu, em breve serei eu». O que de facto sucedeu sete meses depois quando ele tinha apenas trinta e nove anos. A serena e firme personalidade do soberano está patente numa excepcional pintura, feita no Inverno de 1485 por um anónimo pintor da corte. No rolo horizontal Ming Xianzong apreciando a Festa das lanternas (tinta e cor sobre seda, 690 x 36,7 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Pequim) onde o imperador está representado três vezes: no princípio, no meio e no fim, numa plataforma elevada diante da escada do dragão esculpido na pedra, notamos com ele o que ele observa: Dentro dos muros púrpura da Cidade Proibida, pessoas vão usufruindo de actividades lúdicas que caracterizam os dias felizes. Como jogar, ouvir música, assistir a espectáculos de acrobacia, de ópera, magia ou ao lançamento de foguetes. Ou simplesmente passear em família na cidade decorada com as lanternas que distinguem a «festa da noite nobre» (yuanxiao jie) celebrada no décimo quinto dia da primeira lua, marcando na lua cheia o fim das festas do ano novo. Na última aparição do monarca no final do rolo, o seu olhar é acolhedor e em retrospectiva; dir-se-ia que é para e por causa desse seu olhar permissivo que tudo acontece. A pintura exuberantemente polícroma, narrativa, é exemplar de um dos caminhos que a arte adoptava no tempo da dinastia Ming. Uma outra via, na tradição da pintura dos letrados seguia paralela, fora dos muros da cidade imperial, exigindo a restrição própria da expressividade do traço caligráfico. Wu Boli, (activo no fim do século XIV- início do XV), sacerdote daoísta no templo Shangqing da montanha Longhu, «Tigre – dragão» (Jiangxi) seria lembrado como autor de um rolo vertical que pintou para Zhang Yuchu (1361-1410) o quadragésimo terceiro tianshi, o «mestre celestial» da Zhengyi Dao, a seita daoísta da «Unidade ortodoxa». Do Pinheiro-dragão (tinta sobre papel, 121,9 x 33,7 cm, no Metmuseum) em que figura um único pinheiro, de ritidoma escamoso como a pele do dragão, desprende-se uma sensação de energia vital correspondente à vocação do mestre daoista. Cujo olhar estava disponível para reconhecer o mundo da natureza como se este fora feito para ele, para o receber e acompanhar.
Hoje Macau EventosSão Lázaro | Galeria “Fantasia 10” apresenta pinturas Gongbi de Leong Kit Man A artista Leong Kit Man apresenta até ao dia 30 deste mês, na galeria “Fantasia 10”, situada no histórico bairro de São Lázaro, a exposição de pinturas ao estilo Gongbi. “Recanto Íntimo” é uma iniciativa da Associação Promotora para as Indústrias Criativas na freguesia de São Lázaro Intitula-se “Recanto Íntimo – Exposição de Pinturas Gongbi de Leong Kit Man” e é a nova mostra com trabalhos da artista exposta na galeria “Fantasia 10”, situada no bairro de São Lázaro. A iniciativa da Associação Promotora para as Indústrias Criativas na Freguesia de São Lázaro pode ser vista até ao dia 30 deste mês, apresentando “obras requintadas e com poder curativo em tranquila seda”, com recurso à técnica Gongbi, forma tradicional de pintura chinesa que se caracteriza por uma elevada precisão e detalhe, e que começou a desenvolver-se no período da dinastia Tang. “Recanto Íntimo” remete para o estúdio da artista, que em chinês tem o nome de “Xintian She”, “onde trabalha dia e noite, cultivando o seu espaço interior na profunda escuridão”, revela um comunicado da organização. Aqui a artista trabalhou em torno de “pequenas pinturas Gongbi”, revelando-se “o charme da dinastia Song, usando cores minerais para criar pinturas em seda de uma elegância antiga”. Tratam-se de pinturas que resultam “no esforço espontâneo da artista em retratar cenas e objectos da vida quotidiana que se adequam ao mundo meticuloso da pintura”, sendo dado aos trabalhos “um toque antigo”. Este processo criativo transforma-se em algo que dá conforto à própria artista, “acalmando a ansiedade, dissipando distrações e afastando o glamour superficial, permitindo um estado de auto-reflexão” a caminho da “tranquilidade e paz de espírito”, lê-se ainda. Artista e curadora Leong Kit Man, artista e curadora, é doutorada em Belas-Artes pela Academia Nacional de Artes da China, sendo professora assistente na mesma área na Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau. Citada pela mesma nota, a artista frisa que “é preciso tenacidade para conseguir os detalhes finos de cada linha ou pincelada, bem como tempo e paciência para adicionar aguadas de tinta e cor, camada por camada, a fim de atingir a ‘espessura e leveza” tão característicos de um estilo de pintura minucioso como é o caso da técnica Gongbi. Para Leong Kit Man, este estilo tradicional de pintura permite-lhe “ficar quieta e limpar a mente, cultivar um espaço interno e encontrar a ‘paz interior’ no meio do rebuliço urbano, para a cura pessoal”. Especialista em pintura ao estilo Gongbi, Leong Kit Man fez a sua tese de doutoramento sobre o tema do “Reconhecimento das Imagens Chui Yun como Pinturas”, desenvolvendo também muito trabalho de curadoria e ensino não apenas no ensino superior como também em diversas associações das quais faz parte, como a Associação de Artistas Chineses. É ainda directora da Sociedade de Artistas de Macau, da Associação de Calígrafos e Pintores Chineses Yu Un de Macau e vice-presidente da Associação de Arte Juvenil de Macau.
João Luz Eventos MancheteWorkshop leva crianças a encontrar estética de George Chinnery O espaço zero do Museu de Arte de Macau vai acolher uma série de workshops para crianças dedicados à pintura e desenho, com particular incidência em correntes artísticas dos séculos XVIII e XIX. As inscrições para as oficinas, que decorrem entre a partir Abril, abriram ontem Estão abertas entre hoje e o dia 15 de Março inscrições para a “Arte Sem Fronteiras – Oficina para Crianças”, que vão decorrer entre Abril e Junho no espaço zero do Museu de Arte de Macau (MAM). As oficinas serão divididas por faixas etárias, dos quatro anos aos 16, com um workshop pelo meio para pais e filhos. A participação é exclusiva a membros dos Amigos do MAM, cuja inscrição é gratuita e dá direito a descontos na loja do museu e nos eventos organizados pelo MAM. Ainda assim, o preço para participar nas actividades da “Arte Sem Fronteiras – Oficina para Crianças” é de 240 patacas. Uma das oficinas tem como objectivo explorar a técnica e estética de George Chinnery. “Na pegada de George Chinnery – Workshop Criativa de Arte Para Crianças” levará os participantes a “apreciar as obras de arte na exposição Foco, que oferece um relance de Macau e regiões vizinhas no século XIX, assim como da vida e práticas criativas de Chinnery com os seus amigos em Macau.” Com base na obra de Chinnery, os participantes serão desafiados a “aplicar a sua criatividade explorando vários meios, tais como o esboço e a aguarela”. Este workshop terá três turmas para crianças com idades entre os cinco e os sete anos, um deles será ministrado em inglês, nos dias 13 de Abril e 1 de Junho, em três períodos que começam às 09h30 (para a turma em inglês), às 14h30 e 16h30. Cada classe tem uma duração de uma hora e meia. Nos dias 14 de Abril e 2 de Junho será a vez de as oficinas serem ministradas a crianças entre os oito e 10 anos de idade, divididas em duas turmas com a actividade e iniciar-se às 11h30, também com um dos workshops a ser conduzido em inglês. Todas estas oficinas de pintura têm um limite de participação de 20 vagas. Arte em família A actividade “Criar com Arte – Workshop para Pais e Filhos”, dedicada a crianças com idades compreendidas entre os quatro e seis anos, será conduzida apenas em cantonense. Estas oficinas estão marcadas para os dias 14 de Abril e 2 de Junho, entre as 09h30 e as 11h, e estão limitadas a 12 pares. No âmbito deste workshop o MAM destaca a importância de dar espaço à imaginação dos mais novos. “Através da apreciação artística e sessões de criação dirigidas a diversos temas, as crianças e os pais podem aprender sobre as artes plásticas, experimentar com vários materiais e descobrir diferentes técnicas criativas. Liberte a criatividade das crianças em jogos em que se divertirão com os seus pais através da arte, aumentando a interacção e comunicação entre eles”, é indicado. Finalmente, a actividade “Personagens Anime Divertidos – Workshop Criativa para Jovens”, para jovens entre 11 e 16 anos de idade, será realizada nos dias 14 de Abril e 19 de Maio no Quadrado de Arte no Museu das Ofertas sobre a Transferência de Soberania de Macau, entre 11h30 e as 13h30. A oficina será conduzida em cantonense e está limitada à participação de 12 jovens. O MAM indica que este workshop “conduzirá os participantes na exploração do festim visual criado por artistas chineses e ocidentais nos séculos XVIII e XIX usando técnicas de desenho de personagens anime para compreender melhor as técnicas de pintura daquele tempo assim como o estilo de vida de Macau e regiões vizinhas”. Os jovens serão desafiados a criar “figuras usando técnicas de criação de divertidos personagens anime transferindo-os para cenas antigas e reinterpretando as obras expostas nas suas recriações”.
João Luz Eventos MancheteFRC | Exposição de pintura de Ada Zhang abre hoje ao público A galeria da Fundação Rui Cunha acolhe a partir da tarde de hoje a exposição individual de pintura de Ada Zhang intitulada “Facing the Sea”. As paisagens de Macau voltam a ser a musa da pintora, que ao longo de quase 40 obras reinventa ruas e lugares familiares do território É inaugurada hoje, às 18h30, a Exposição Individual de Pintura “Facing the Sea”, de Ada Zhang, na galeria da Fundação Rui Cunha (FRC). A mostra “reúne um conjunto de 39 pinturas em aguarela, óleo e acrílico, com imagens que partem do seu talento em observar e captar a essência do que a envolve”, descreve a organização da exposição. A mostra estará patente ao público até dia 2 de Março e tem entrada livre. As pinturas de paisagens e lugares de Macau voltam a ser o objecto de interesse da artista, que tem detalhado em tela múltiplas facetas da estética e atmosfera da cidade. Esta é a segunda exposição de Ada Zhang na FRC, depois de “Home’s Where The Heart Is” ter passado pelas paredes da galeria em 2022. No ano que se inicia, a artista volta com novos trabalhos e redobrada energia, justificando o título da exposição com o entusiasmo de quem recebe a inspiração e as ideias que chegam como ondas e brisa do mar. Casa e coração Ada Zhang, natural da província de Sichuan, no Interior ocidental da China, mudou-se para Macau “há quase uma década, e, com a sua pincelada impressionista, descreve a paisagem urbana e os costumes do território através do seu estilo único e olhar de imigrante”. Esta abordagem fresca a lugares que são mais do que familiares tem sido um dos trunfos da artista que tem exposto com regularidade em locais como o espaço a Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM) “Hold on to Hope Project”, na vila de Ká-Ho. Ada Zhang é directora da Associação dos Artistas de Aguarela Contemporâneos de Macau, e membro da Associação de Artes de Macau, da Associação de Arte da Juventude de Macau, da Associação de Pintura de Macau, e da Associação Yü Ün dos Calígrafos e Pintores Chineses de Macau. As suas obras ganharam o Prémio de Excelência do Concurso de Desenho Cheng Yang Bazhai em 2021 e foram seleccionadas para a Bienal de Aguarela da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau de 2021.
Hoje Macau EventosAMAGAO | Pintura de Nissa Kauppila no Artyzen Grand Lapa É inaugurada esta sexta-feira uma nova exposição de pintura no Artyzen Grand Lapa Macau, na galeria AMAGAO. Trata-se da exposição individual de pintura da artista americana Nissa Kauppila, que pode ser visitada até Março A galeria AMAGAO apresenta esta semana, a partir de sexta-feira, 26, uma nova exposição de pintura, desta vez da artista americana, residente em Hong Kong, Nissa Kauppila. A mostra, patente até ao dia 24 de Março na galeria AMAGAO, no lobby do empreendimento hoteleiro Artyzen Grand Lapa Macau, revela o trabalho da artista que nasceu na pequena cidade rural de Monkton, Vermont, nos EUA, e que se formou em Belas Artes na Escola de Design Rhode Island. Nissa Kauppila é ainda mestre na mesma área pela Universidade de Vermont. Segundo um comunicado da galeria, a artista recorre à pintura para “expandir o seu senso de curiosidade”, além de “explorar o inquietante e o concreto”. Nissa Kauppila “descobriu que pintar a natureza do voo e da vida é um exercício gratificante de redescoberta”, recorrendo a técnicas e materiais usados na pintura tradicional chinesa. Esta ligação ao lado oriental das artes despertou na artista americana “uma sensação de detalhe e fragilidade”, pelo que o seu trabalho explora também “o uso de linhas e cores como gavinhas de tensão, incorporando um sentimento de admiração pelo mundo natural”. Segundo a AMAGAO, Kauppila “vai além da percepção e desintegra os seus temas de formas quase irreais em trabalhos executados em aguarela e tinta tradicional chinesa sobre papel de arroz tradicional”. Viagens e inspiração Esta exposição inclui pinturas inspiradas na primeira viagem de Kauppila a Portugal, tratando-se de “uma experiência festiva de cor, história, cor e vida selvagem”. Contudo, a artista também encontrou inspiração em lugares como Hong Kong, China Continental ou Sudeste Asiático. “Cada pintura é intitulada usando coordenadas geográficas do próprio local em que a vida selvagem foi observada ou onde Kauppila estava a pintar na altura. Este esforço consciente em intitular cada obra desta forma permite que a pintura fale em termos de localização e observação”, pelo que “o espectador pode criar sua própria relação emocional com o tema sem influência ou sugestão inicial”, descreve o mesmo comunicado. Nesta mostra, que tem apenas o nome da artista, todas as obras são originais sobre papel de arroz chinês, montadas no estilo tradicional chinês. O público interessado poderá encomendar impressões de edição limitada. As pinturas de Kauppila já foram exibidas internacionalmente em Hong Kong, Nova Iorque, Atlanta, Londres, Singapura, Xangai, Guangzhou, Shenzhen, Hamburgo, Taipei e Seul. A artista tem ainda exposições e representações actuais em Vermont, Hong Kong e Singapura.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioCheng Xiuji, um Pintor, um Imperador e o Livro das Odes Tang Wenzong (809-840), o monarca que percebeu o grandeza do exemplo, mandou emitir um decreto apontando como Três maravilhas do grande império dos Tang, Sanjue webian, a poesia de Li Bai, a caligrafia de Zhang Xu e a arte da espada de Pei Min. Como que confirmando essa intuição imperial sobre o valor da poesia, Wang Yinglin (1223-96), o filósofo e ensaísta os Song do Sul, guardou em Kunxue Jiwen a memória de uma relação entre o imperador Wenzong, um pintor e o grande texto clássico Shijing, que reúne poemas e canções de várias tradições, cuja compilação é tradicionalmente atribuída a Confúcio (551-479 a. C.) e é traduzido entre outros, como Livro dos Cantares ou Clássico da Poesia. Aí se diz que, não estando satisfeito com a figuração «da vegetação, dos animais silvestres e dos retratos de antigas dignidades» de ilustrações anteriores, Wenzong pediu que fossem refeitas as pinturas relativas aos trezentos e cinco poemas. O pintor escolhido foi Cheng Xiuji (804-63) e, se o celebrado poeta dos Tang Du Mu (803-52) o menciona num Encómio como alguém que se distinguiu pelo modo admirável como refez as pinturas que ilustram o célebre texto e que lhe valeriam a promoção a Hanlin daizhao, «talento às ordens», parte do grupo criado pelos imperadores dos Tang como conselheiros eruditos, outras fontes referem-no primeiro como um alto funcionário militar, detentor de títulos de nobreza. É o caso, raro para um pintor, de um Epitáfio que detalha o seu percurso na hierarquia oficial desde que passou o Exame sobre a compreensão dos clássicos, em 826. Uma terceira fonte, que se interessa mais pela sua qualidade como artista, lê-se no texto de biografias de mais de cem pintores, Tangchao minghualu, que o descreve como «aluno durante vinte anos» do preclaro pintor Zhou Fang (c.730-800). Zhu Jingxuan (activo entre 806-46), o seu autor, escreve: «Desde a era Zhenyuan (785-805) ele foi o único indivíduo na capital cujo avanço [na hierarquia] se deveu apenas à sua mestria como pintor e foi continuamente agraciado pelo favor imperial.» O caso de Cheng Xiuji, com um imperador e o Shijing repetir-se-ia. Na dinastia Song do Sul, o imperador Gaozong (r.1127-62) ordenou que a sua própria caligrafia fosse utilizada para reescrever os poemas do Shijing e solicitou ao ilustre pintor Ma Hezhi (activo entre 1131-89) que fizesse as ilustrações, de que uma parte se pode ver no Museu do Palácio, em Pequim (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 27 x 383,8 cm). Qianlong (r.1736-95) também mandou que pintores da sua corte fizessem ilustrações para o texto, que ele próprio reescreveu. De modo característico, foi um projecto grandioso de trinta álbuns, um dos quais se pode ver no Museu do Palácio Nacional, em Taipé, que demoraram seis anos a ser terminados e brilhariam como uma das maravilhas do seu reinado.
João Luz Eventos MancheteExposição colectiva “MusicArt” abre hoje na Fundação Rui Cunha A galeria da Fundação Rui Cunha acolhe a partir de hoje a Exposição Colectiva “MusicArt”, uma mostra que reúne trabalhos de 17 artistas locais e do Interior da China. Com curadoria de Giulio Acconci, o conjunto de obras estabelece uma ponte entre sons e imagem através de várias expressões artísticas A Exposição Colectiva “MusicArt” vai estar em exibição na galeria da Fundação Rui Cunha (FRC) a partir de hoje, reunindo obras de 17 artistas de Macau e do Interior da China sob a batuta curadora do cantor, actor e artista local Giulio Acconci. Com a inauguração marcada para as 18h30 de hoje, a mostra apresenta uma colecção variada de trabalhos e expressões artísticas abrangendo “diferentes meios e formatos, incluindo a pintura – óleo, acrílico, aguarela, digital e técnica mista, fotografia, gravura, colagem, metal, cerâmica, animação 3D, instalação e vídeo”, revela a organização. A exposição está dividida em quatro partes: String Connections, Synesthesia, Imaging e Fusion. A segmentação conceptual da mostra tem como objectivo “transmitir as várias emoções da sociedade contemporânea e explorar as diversas possibilidades da arte interdisciplinar”, segundo a proposta do curador. “MusicArt” é um “projecto de arte interdisciplinar experimental que conecta os mundos da cor e das notas musicais através de interpretação mútua, inspirando-se reciprocamente para alcançar um estado harmonioso”, revela o memorando da exposição. Giulio Acconci acrescenta no documento que apresenta a exposição com o propósito de aliar as essências de formas de expressão diversas. “É do conhecimento comum que tanto a Música quanto a Arte podem ser explicadas ou decompostas em teorias. Os fundamentos desses dois mundos, aparentemente diferentes, são surpreendentemente semelhantes: existem sete notas básicas na música (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si), assim como existem sete cores básicas no espectro cromático (Vermelho, Laranja, Amarelo, Verde, Azul, Anil e Violeta). Uma experiência interessante poderia ser substituir as notas e cores por números e ver o que acontece”, sugere o curador. A exposição estará patente ao público até 22 de Julho. Entre telas Passando da teoria à prática, a FRC propõe alguns concertos, reunir as artes plásticas e a música no mesmo espaço. Assim sendo, o projecto irá contar com a colaboração da Associação Vocal de Macau e da Associação de Promoção do Jazz de Macau, que vão organizar dois concertos. O primeiro espectáculo, marcado para 8 de Julho às 17h, intitula-se “Bel Canto Saturday”, e o segundo, agendado para 15 de Julho também às 17h, será o “Saturday Night Jazz” O curador aponta a multiplicidade de meios artísticos como uma forma de integrar a complexidade da época. “No confronto cada vez mais intenso de diferentes culturas e ideias, esta experiência artística interdisciplinar pode ajudar-nos a compreender melhor a época em que vivemos, e promover o vigoroso desenvolvimento da arte local em Macau”, refere Giulio Acconci.
Paulo Maia e Carmo Via do MeioWang Jianzhang e as «Coisas Dos Tang» Feiyin Tongrong (1593-1661), o segundo abade do mosteiro Huangbo em Fuqing (Fujian), preocupado em preservar a sua interpretação e o modo de transmissão da suave alegria do budismo chan, escreveu num poema: Tenho praticado o chan até ao ponto Em que em mim mesmo o compreendo; E agora entendido com clareza A quem o devo passar? Tudo o que vejo é este luar de Outono, Enchendo todo o céu, Uma roda única, refulgente, Iluminando o riacho aqui à frente. O seu discípulo Yinyuan Longqi, (1592-1673) por razões ainda hoje controversas mas que acabaram na fuga a um território em convulsão e ao encontro com monges que em Kyushu desejavam conhecer a exegese do mosteiro Huangbo, partiria em direcção a Nagasaki onde chegou em 1654, com trinta discípulos e uma bagagem cheia. Para além do budismo animado pelo dao, praticado por Feyin Tongrong, nela vinham objectos que depois encheriam o mosteiro Mampukuji em Uji, na prefeitura de Quioto, criando um simulacro do esplendor da dinastia Ming, ao tempo em que no continente se receava o crepúsculo do seu brilho, fulgor de séculos de cultura ininterrupta. Entre essas peças das artes decorativas e do pincel, que os locais designavam karamono, «coisas da China» uma palavra escrita com os caracteres chineses tangwu, nesse caracter tang aludindo a uma outra cintilante dinastia com que no estrangeiro depois se identificariam os seus descendentes; tangrenjie, «pessoas da rua dos Tang», também vinham naturalmente rolos de pinturas. Algumas delas, obras de autores que não constariam das relações dos catálogos que registavam nomes e obras de pintores locais mas revelavam de maneira admirável essa percepção do homem criador, companheiro da natureza. Foi o caso de obras de um pintor de Quanzhou, em Fujian, que terão sido levadas pelos monges budistas que vinham dessa Província para o Japão. Wang Jianzhang (activo c. 1621-50) refez a sua experiência do Mundo entre a memória e a inquietação, em pinturas que reivindicavam a grandeza das actividades vãs ligadas ao daoísmo, como em Regresso a casa vindo de apanhar cogumelos (rolo vertical, tinta e cor sobre papel, 85,4 x 51,2 cm, na Galeria de Arte de Nova Gales do Sul, em Sydney). Aí escreveu o poema: Árvores na falésia enjaulam nuvens meio húmidas, O portão de madeira junto de um rio foi aberto há pouco, Diante do amanhecer, sozinho, busco um poema, Enquanto recolho cogumelos, o sol põe-se e eu regresso. Na pintura, Cores solitárias nas árvores do Outono (rolo vertical, tinta e cor sobre seda, 117,8 x 51,2 cm, no Museu de Arte de Cleveland) aludiu a um célebre diálogo sobre a felicidade dos peixes e os limites do conhecimento humano: Gelo frio cai sobre as cercas, Cores solitárias espalham os áceres Recitando o capítulo das Águas de Outono1 Não consigo acalmar as emoções no meu velho coração. Zhuangzi,17
Hoje Macau EventosExposição de Denis Murrell a partir de hoje na Fundação Rui Cunha A galeria da Fundação Rui Cunha (FRC) recebe a partir de hoje, às 18h30, a exposição “The Tai Heng Paintings”, do pintor australiano Denis Murrell, composta por 11 novas obras que vão estar patentes até 19 de Março. O pintor radicado em Macau regressa à galeria da FRC com “11 pinturas abstractas de grande dimensão e porte”. Segundo o próprio, “passaram-se dez anos desde que não pintava grandes telas, porque não tinha espaço para fazê-lo”. A FRC escreve que o projecto foi “possível com o apoio da sua amiga e agente Suzanne Watkinson, que disponibilizou uma fracção do Edifício Tai Heng – na zona dos Lagos Sai Wan da península de Macau – para ser usado como estúdio, de onde o pintor avista uma grande parte da cidade e onde revelou ter-se inspirado para criar as suas obras mais recente”. Os quadros que vão estar patentes a partir desta tarde resultam da “experiência contínua de quase 33 anos com técnicas de pintura abstracta, a partir de materiais e suportes diversos”. Passar conhecimento Além da criação artística, Denis Murrell tem dedicado o seu tempo a ensinar alunos locais as técnicas que aplica nas suas obras, nomeadamente através do uso da tinta acrílica, pigmentos naturais à base de água, tinta da China e papel absorvente sobre tela. Denis Murrell nasceu nos arredores de Melbourne, Austrália, a 2 de Março de 1947. Durante 14 anos foi professor de Inglês na Papua Nova Guiné e depois na Austrália, antes de se mudar para Macau em Fevereiro de 1989. Por cá desenvolveu uma carreira artística reconhecida e premiada, que viria a culminar numa extensiva exposição sobre a sua obra, realizada em Novembro de 2012 no Museu de Arte de Macau, que reuniu muitos trabalhos que Denis Murrell doara ao longo dos anos àquela instituição. Entretanto, em paralelo com a exposição “The Tai Heng Paintings”, o pintor irá realizar uma visita guiada e comentada, onde falará do seu trabalho e responderá às questões dos visitantes no próximo sábado, 17h na Galeria da FRC, antes do encerramento da mostra.
Pedro Arede EventosPintura | Antiga Leprosaria acolhe exposição de Bernardino de Senna Fernandes Uma das casas da antiga Leprosaria de Ká-Hó recebe a partir de amanhã uma exposição de pintura da autoria de Bernardino de Senna Fernandes. Ao todo, a mostra inclui 26 obras sobre Macau e Lisboa, onde os traços não procuram alinhar-se com a realidade. Para o filho do autor, esta foi a forma de cumprir a vontade de Bernardino de Senna Fernandes de voltar a expor em Macau A galeria de arte operada pela Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM) numa das casas da antiga leprosaria da Vila de Nossa Senhora de Ká-Hó acolhe a partir de amanhã, uma exposição de pinturas da autoria de Bernardino de Senna Fernandes. A mostra reúne 26 pinturas a óleo e aguarela, que colocam Macau e Lisboa, no centro da tela. Ao HM, Jorge de Senna Fernandes, filho do pintor conta que a ideia surgiu com o intuito de cumprir o desejo do pai de voltar a expor obras suas em Macau. Isto depois de ter realizado uma primeira exposição no território, ainda nos anos 90 do século passado. “O meu pai organizou uma exposição em Macau em 1992 e, desde aí, que ficou a vontade de realizar uma segunda exposição aqui, só que não teve oportunidade de o fazer em vida. Depois de ter deixado um certo legado artístico, aproveitei a oportunidade que a ARTM me deu para cumprir esse desejo do meu pai”, apontou. Para Bernardino de Senna Fernandes, explica o filho, pintar era um hobby que foi aprimorando ao longo do tempo ao seu ritmo e gosto, mas que, nem por isso, deixou de atrair a atenção de interessados e apreciadores da sua obra. “Para o meu pai, pintar era um hobbie, já que ele não fazia disto vida. Era apenas para se distrair. Havia muita gente que gostava do que ele fazia e, quando iam lá a casa, comprava-lhe uma série de quadros e ele sempre foi fazendo as obras a seu gosto. O meu pai não era um pintor consagrado, mas ao longo da sua vida foi designer, trabalhou em vários sítios e participava em várias exposições e feiras internacionais como a FIL”, partilhou. Macau no coração Quanto às 26 obras expostas, estas retratam ângulos, locais e paisagens de Macau e Lisboa, duas cidades em que viveu o pintor. Depois de ter crescido em Macau até aos 18 anos, Bernardino de Senna Fernandes rumou a Portugal para continuar os estudos. De malas e bagagens, mudou-se para Coimbra, casou-se e assentou arraiais, regressando a Macau apenas 30 anos depois. Contudo, de todas as vezes que visitou o território, fez questão de recolher material, fazer esboços e fotografar algumas zonas da cidade para depois pintar Macau a partir de Lisboa. “Estamos a falar de pinturas de locais específicos das duas cidades. Em Macau podemos ver várias zonas conhecidas e em Lisboa, bairros típicos, por exemplo. A zona de Alvalade, onde viveu, também aparece retratada. [Depois de partir do território], o meu pai veio a Macau três vezes, levou uma série de registos daqui. Às vezes levava o bloco para a rua e fazia os seus esquissos. Outras vezes utilizava fotografias, que é algo que se faz muito hoje em dia, pois já não há muitas pessoas a pintar na rua”, disse ao HM. Sobre o estilo de Bernardino de Senna Fernandes, Jorge de Senna Fernandes destaca o “traço muito típico” do pintor que, apesar de não primar pelo realismo, permite a quem vê a obra identificar o local retratado. “É uma série de obras que não são muito realistas, com um traço muito típico do meu pai, que permite identificar as zonas representadas. As obras não são tão realistas como uma fotografia, mas acho que as pessoas vão gostar, porque o que ele fez em vida, a meu ver, tinha qualidade e toda gente sempre gostou do que ele fazia”, sublinhou. A partir de amanhã, a exposição de pintura de Bernardino de Senna Fernandes pode ser vista na galeria da ARTM em Ká-Hó (Hold On to Hope Project) até dia 11 de Janeiro.
Hoje Macau EventosQuadro pintado por Churchill vendido por 7 milhões de libras O quadro mais célebre pintado pelo antigo primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) foi vendido na segunda-feira, num leilão da Christie’s, em Londres, por sete milhões de libras. “A torre da mesquita de Koutoubia”, quadro pintado em 1943 por ocasião de uma visita oficial de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, e que se encontrava na posse da família da atriz Angelina Jolie, foi à praça com estimativas entre 1,7 e 2,8 milhões de euros, mas acabou por ultrapassar esse valor. Com impostos, o quadro acabou por alcançar 8,285 milhões de libras, segundo a leiloeira internacional Christie’s. O óleo sobre tela do líder britânico conservador tinha sido colocado à venda pela atriz americana Angelina Jolie, sendo considerado “a pintura mais importante de Sir Winston Churchill” por causa de seu “entrelaçamento na história do século XX”, segundo o historiador da arte britânica Barry Phipps no catálogo do leilão. Churchill começou a pintar tarde, aos 40 anos, e gostava de fugir de Londres para a cidade de Marraquexe nos anos 1930, na época do protetorado francês, onde fez um total de seis viagens, em 23 anos. “Aqui, nestes vastos palmeirais que emergem do deserto, o viajante pode ter a certeza do sol eterno” e “contemplar com satisfação incessante o panorama majestoso e coberto de neve das montanhas do Atlas”, escreveu Churchill em 1936. O político gostava de se perder no labirinto de ruas da cidade velha, fazer um piquenique no vale de Ourika, nas alturas de Marraquexe, e armar o seu cavalete nas varandas do hotel La Mamounia, ou Villa Taylor – que se tornaria um marco do ´jet set` europeu na década de 1970. Foi desta vila que pintou a mesquita Koutoubia, após a histórica conferência de Anfa, organizada em janeiro de 1943, em Casablanca, com o presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt e o líder das Forças Francesas Livres, Charles de Gaulle, na presença do sultão Maomé V, para preparar a estratégia dos Aliados. Churchill ofereceu o quadro a Roosevelt, na época, depois vendido por um dos filhos nos anos 1950, e mudou de mãos várias vezes, antes de, em 2011, ir parar à coleção do casal Angelina Jolie e Brad Pitt, muito antes da separação de ambos. Durante as suas sucessivas renovações, o luxuoso hotel perdeu todos os vestígios desta passagem, ainda que uma ´suite´ e um bar ainda mantenham o nome do político britânico. Uma fotografia de imprensa da época mostra Roosevelt e Churchill juntos, a admirarem o pôr do sol sobre o panorama que inspiraria a pintura. Esta paisagem simples e sem adornos representa o minarete, símbolo do poder da dinastia Almóada, do século XII, entrelaçado pelas muralhas da cidade antiga e encostado nas montanhas cobertas de neve.