IA | Aconselhada cautela na substituição de funcionários

Mais de metade da população chinesa já é utilizadora de IA generativa e empregos como operadores de linhas de montagem, assistentes administrativos e profissionais de contabilidade correm cada vez mais riscos de serem substituídos por ferramentas tecnológicas

A China pediu cautela às empresas na substituição dos trabalhadores pela inteligência artificial (IA) e propôs medidas para reduzir o impacto da tecnologia no emprego.

O governo chinês propõe a introdução gradual da IA em sectores que exigem grandes quantidades de mão-de-obra, a notificação prévia dos funcionários afectados e o auxílio na requalificação profissional, de acordo com as orientações do Conselho de Estado (o Executivo chinês) publicadas na sexta-feira.

O documento, que apresenta 18 medidas, reconhece os riscos de deslocação de mão-de-obra associados à automatização e sugere a avaliação dos efeitos no emprego, incluindo através de mecanismos de alerta para possíveis cenários de desemprego em grande escala.

As recomendações surgem numa altura em que a expansão da IA começa a afectar ocupações como operadores de linhas de montagem, assistentes administrativos e profissionais de contabilidade em início de carreira, avançou a imprensa local.

Gong Piming, investigador da Academia Chinesa de Investigação Macroeconómica, alertou numa análise publicada no jornal oficial Study Times que a legislação e as políticas laborais avançam mais lentamente do que a tecnologia, o que cria lacunas na proteção dos trabalhadores.

O especialista apontou ainda problemas decorrentes da gestão algorítmica de pessoal, como a intensificação do horário de trabalho e a falta de garantias nas avaliações de desempenho.

Da expansão

Por sua vez, Pan Helin, conselheiro de um comité de especialistas do Ministério da Indústria, afirmou ao portal económico Jiemian que as fábricas tradicionais estão a eliminar determinados cargos, enquanto cresce a procura por profissionais especializados em IA e economia verde.

As orientações prevêem ainda medidas contra a discriminação algorítmica nos processos de contratação, bem como contra as violações da privacidade e do direito ao descanso. Contudo, não estabelecem obrigações gerais nem prazos específicos para as empresas.

A China ultrapassou a marca dos 700 milhões de utilizadores de IA generativa durante a primeira metade de 2026, mais de metade da população, no meio de uma rápida expansão destas ferramentas nas atividades empresariais e administrativas, segundo dados oficiais.

A iniciativa faz parte dos esforços de Pequim para sustentar o emprego e acelerar a modernização tecnológica da economia, ao passo que a concorrência com os Estados Unidos pela liderança em IA, somada às restrições norte-americanas à exportação de chips avançados, impulsiona a China a desenvolver as suas próprias capacidades.

26 Out 2026

Inteligência Artificial | China e EUA preparam acordo sobre IA antes de encontro

A China e os Estados Unidos estão a negociar um mecanismo de cooperação em inteligência artificial, que poderá ser anunciado no encontro entre os Presidentes Xi Jinping e Donald Trump, em Novembro, noticiou ontem a imprensa de Hong Kong.

Segundo o jornal South China Morning Post (SCMP), que cita várias fontes próximas das negociações, equipas técnicas dos dois países mantêm contactos regulares para definir os detalhes de um mecanismo de gestão de incidentes relacionados com a IA e institucionalizar o diálogo bilateral nesta área.

O objectivo é apresentar resultados concretos durante a cimeira do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), prevista para 18 e 19 de Novembro, na cidade chinesa de Shenzhen, onde Xi e Trump deverão reunir-se pela terceira vez este ano.

As negociações intensificaram-se após a visita de Estado do Presidente chinês aos Estados Unidos, em Setembro, durante a qual os dois países anunciaram a criação de um canal bilateral para gerir incidentes relacionados com a IA e de um mecanismo de diálogo sobre a tecnologia.

Segundo os comunicados divulgados pelos dois governos, os líderes concordaram em trocar opiniões sobre os “riscos e benefícios” da inteligência artificial e estabelecer um canal de comunicação para situações de crise. No entanto, as iniciativas continuam, por enquanto, limitadas a compromissos políticos, sem mecanismos operacionais definidos.

Uma das fontes citadas pelo SCMP afirmou que Washington e Pequim pretendem estabelecer um quadro básico para responder a crises relacionadas com a IA até à cimeira de Shenzhen, deixando os detalhes de funcionamento para uma fase posterior.

Outra possibilidade, é o anúncio de um mecanismo permanente de cooperação, envolvendo responsáveis governamentais, instituições de investigação e representantes da indústria tecnológica.

Nova oportunidade

As duas potências concordaram em iniciar negociações formais sobre a governação da IA após o encontro entre Xi e Trump, em Pequim, em Maio, mas as conversações foram sucessivamente adiadas devido a divergências sobre o seu âmbito e dificuldades de calendário.

O primeiro diálogo acabou por ser integrado nas negociações económicas e comerciais entre o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, realizadas em Nova Iorque, poucos dias antes da cimeira de Setembro.

“A reunião da APEC em Novembro proporciona uma boa oportunidade para dar ao diálogo sobre IA uma dimensão política e institucional mais substancial”, afirmou uma fonte familiarizada com as negociações.

Segundo a mesma fonte, a inteligência artificial tornou-se uma das áreas em que Washington e Pequim poderão demonstrar que a concorrência estratégica não impede uma cooperação razoável. Contudo, um acordo mais abrangente sobre cooperação económica em IA seria “consideravelmente mais ambicioso” do que o mecanismo de segurança e gestão de incidentes atualmente em discussão.

Outra fonte, alertou que a institucionalização do diálogo não será uma “tarefa fácil”, devido às diferenças entre os sistemas de regulamentação dos dois países e à crescente rivalidade tecnológica.

Corrida acesa

As negociações decorrem num contexto de intensificação da corrida pela liderança mundial da IA, com Washington preocupado com os rápidos avanços das empresas chinesas no desenvolvimento de modelos avançados.

Apesar dos receios relacionados com a segurança da tecnologia, a administração Trump tem rejeitado propostas para abrandar o desenvolvimento dos modelos de IA mais avançados, defendendo a necessidade de manter a vantagem norte-americana sobre a China.

As tensões agravaram-se também devido às acusações norte-americanas de que empresas chinesas utilizam capacidades de modelos desenvolvidos nos Estados Unidos para acelerar o treino dos seus próprios sistemas.

Bessent acusou, em Setembro, a China de recorrer à chamada “destilação” de modelos, uma técnica de treino em que um sistema mais pequeno aprende a partir das respostas de outro mais avançado.

Pequim rejeitou as acusações, classificando a destilação como uma “prática comum no sector da inteligência artificial”.

16 Out 2026

IA | Moonshot conclui ronda de financiamento antes de entrar na bolsa

A Moonshot, uma das empresas mais importantes do emergente sector chinês da inteligência artificial (IA), concluiu a última ronda de angariação de fundos privados e pretende entrar na bolsa de Hong Kong no primeiro trimestre de 2027.

De acordo com a agência Bloomberg, que cita fontes familiarizadas com o projecto, a empresa chinesa pretende lançar as bases para “avaliar o sentimento dos investidores”, através de reuniões preliminares que poderão ter início ainda este mês.

A empresa sediada em Pequim, criadora do Kimi K3 — um modelo aberto capaz de competir, em alguns aspectos, com as plataformas das empresas norte-americanas OpenAI e Anthropic —, concluiu a última ronda de angariação de fundos, que elevou a sua avaliação para cerca de 50 mil milhões de dólares e está a considerar angariar até cinco mil milhões de dólares com a sua primeira oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) em Hong Kong, de acordo com a Bloomberg.

A entrada em bolsa da Moonshot junta-se à de outro gigante chinês da inteligência artificial, a DeepSeek, que também está a finalizar uma ronda de financiamento que poderá elevar a sua avaliação prévia para mais de 74 mil milhões de dólares, segundo revelou no mês passado o jornal de Hong Kong South China Morning Post.

A DeepSeek estabeleceu como objectivo iniciar o processo de entrada na bolsa, nomeadamente no mercado STAR de Xangai — conhecido como o “Nasdaq chinês” devido ao foco em títulos tecnológicos —, ainda este ano.

7 Out 2026

China e EUA devem evitar “Guerra Fria” na inteligência artificial, diz especialista

China e Estados Unidos devem evitar que a competição na inteligência artificial evolua para uma nova “Guerra Fria”, afirmou ontem um académico chinês, defendendo que nenhuma das potências consegue gerir isoladamente os riscos da tecnologia.

“Cooperar é essencial para construir um quadro internacional. Não podemos ter dois sistemas separados, um norte-americano e outro chinês”, afirmou Zheng Yongnian, decano da Escola de Políticas Públicas da Universidade Chinesa de Hong Kong, na cidade de Shenzhen (sudeste da China), em entrevista ao jornal South China Morning Post.

“Se isso acontecer, acabaremos numa dinâmica de Guerra Fria ao estilo Estados Unidos – União Soviética, o que seria muito, muito terrível”, acrescentou. As declarações surgem no dia da reunião, em Washington, entre os Presidentes chinês, Xi Jinping, e norte-americano, Donald Trump, na qual a inteligência artificial deverá ocupar um lugar de destaque.

Os dois países realizaram esta semana o primeiro diálogo dedicado à IA no âmbito do mecanismo bilateral de consultas económicas e comerciais, após negociações nos Estados Unidos lideradas pelo vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng e pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent.

Segundo Bessent, Washington propôs um novo “mecanismo de notificação” para incidentes de alto nível relacionados com IA susceptíveis de afectar a segurança nacional, procurando ao mesmo tempo estabelecer uma “visão partilhada de objectivos e ameaças comuns”.

Zheng considerou que nem Pequim nem Washington conseguem gerir sozinhos os riscos associados à tecnologia e argumentou que estes podem superar os colocados pelas armas nucleares. Ao contrário dos arsenais nucleares, sujeitos a mecanismos internacionais de supervisão e que permanecem inativos durante longos períodos, a IA está a evoluir rapidamente num vazio regulatório, advertiu.

Modelos distintos

A aproximação ocorre num contexto de crescente rivalidade tecnológica entre as duas maiores economias mundiais e divergências sobre o desenvolvimento da IA. Os Estados Unidos têm privilegiado um modelo assente em sistemas avançados de elevado custo e procuram assegurar cadeias de abastecimento de semicondutores e minerais críticos menos dependentes da China.

Pequim tem defendido modelos de código aberto e de menor custo, apresentando-os como uma alternativa mais acessível para economias emergentes e países do chamado Sul Global. Zheng considerou, ainda assim, que a actual competição difere da rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria.

“Ao contrário da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética estavam completamente divididos em dois blocos isolados, os Estados Unidos e a China continuam a relacionar-se”, mas há um “baixo nível de confiança política” mútua.

As tensões agravaram-se este mês após a administração Trump ter acusado empresas chinesas de copiarem modelos norte-americanos através de campanhas de “destilação à escala industrial”. Pequim respondeu acusando Washington de procurar estabelecer um “monopólio” sobre a tecnologia e advertiu que poderá retaliar.

Zheng rejeitou a possibilidade de uma separação completa dos dois ecossistemas tecnológicos, argumentando que o desenvolvimento norte-americano da IA “não consegue separar-se da China”, nomeadamente devido à importância do talento tecnológico chinês.

O académico defendeu que regras internacionais eficazes terão de envolver as principais potências tecnológicas. “O mundo é realista: as regras têm de ser apoiadas por poder e capacidade reais. Sem força, quem vai ouvir as regras”, questionou.

“É por isso que regras reais e eficazes têm de ser construídas por países capazes, como a China e os Estados Unidos”, acrescentou, defendendo, no entanto, um sistema aberto à participação de outros países.

Na segunda-feira, 20 países e a União Europeia divulgaram uma declaração conjunta a pedir cooperação internacional para manter a IA sob controlo humano e propuseram a criação de uma nova entidade global para regular os sistemas mais avançados. China e Estados Unidos não subscreveram a declaração.

25 Set 2026

Casa Branca | Líderes da OpenAI e Nvidia presentes em jantar com Xi Jinping

Os responsáveis da tecnológicas OpenAI e da Nvidia vão participar na quinta-feira de um jantar oferecido em honra de Xi Jinping na Casa Branca, indicou um responsável norte-americano. “Será um evento muito concorrido, com lugares extremamente disputados”, declarou um responsável não identificado durante uma conversa com jornalistas, reportou a agência France-Presse.

Segundo a mesma fonte, numa altura em que a inteligência artificial (IA) estará no centro da visita do Presidente chinês a Washington, além de Sam Altman e Jensen Huang, outros grandes nomes do sector tecnológico, como Jeff Bezos e Elon Musk, também estarão presentes.

A IA deverá ocupar um lugar de destaque nas conversações entre Donald Trump e Xi Jinping, uma vez que os Estados Unidos e a China são as duas principais potências na corrida ao desenvolvimento desta tecnologia. Embora a China ainda não tenha confirmado oficialmente a visita do líder chinês aos Estados Unidos, esta está prevista para 24 de Setembro, segundo as autoridades norte-americanas.

Apesar dos crescentes apelos à moderação perante o risco de perda de controlo, o governo norte-americano considera que os principais intervenientes do sector, como a OpenAI, a Anthropic, a Google e a Meta, não se podem dar ao luxo de abrandar, receando que a China ganhe vantagem.

Durante muito tempo considerada atrasada no domínio da IA avançada, Pequim está a recuperar rapidamente o atraso em relação aos Estados Unidos. Apesar da rivalidade com Pequim, mantém-se a esperança de que as duas superpotências possam chegar a um acordo durante o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping.

21 Set 2026

Alerta errado de IA quase levou Estados Unidos a interceptar navio chinês

As Forças Armadas norte-americanas estiveram perto de interceptar um navio chinês no Médio Oriente com base num relatório de informações incorrecto, produzido com recurso à inteligência artificial (IA), reportou a emissora CNN.

Segundo a estação norte-americana, que cita quatro fontes não identificadas conhecedoras do caso, os serviços de informações dos Estados Unidos concluíram erradamente que a embarcação transportava componentes associados a armas nucleares, levando os militares a prepararem uma operação de intercepção.

A operação acabou por ser cancelada depois de se verificar que um sistema de IA conversacional utilizado por um analista tinha identificado incorrectamente a carga transportada pelo navio.

Uma das fontes citadas pela CNN afirmou que o relatório de informações era “completamente falso”, mas que “esteve perto de desencadear uma guerra”. A cadeia televisiva não revelou nem o conteúdo da carga nem o destino da embarcação.

Contactadas pela agência France-Presse, as autoridades militares norte-americanas não reagiram de imediato à notícia.

Riscos existenciais

O caso surge numa altura em que se multiplicam os alertas sobre os riscos associados à utilização da IA, em particular em áreas sensíveis como a defesa e a segurança nacional.

Apesar dessas preocupações, o Presidente norte-americano, Donald Trump, e vários membros da maioria presidencial têm defendido uma abordagem menos restritiva à regulação da IA, argumentando que um excesso de limitações poderá favorecer a China na corrida tecnológica.

Também na sexta-feira, o portal de notícias Politico revelou um incidente distinto envolvendo material militar norte-americano e a China.

Segundo a publicação, várias peças de aviões de combate furtivos F-35, incluindo uma cobertura de cockpit, foram desviadas para Hong Kong durante uma operação de transporte e encontram-se actualmente desaparecidas, suscitando receios de que tecnologia sensível dos Estados Unidos possa ter caído nas mãos de Pequim.

As peças tinham sido enviadas da Austrália para os Estados Unidos para reparação quando ocorreu o desvio, sendo desconhecidas as razões da alteração do trajecto e a localização actual do material.

Questionada pelo Politico, a Lockheed Martin, fabricante dos F-35, recusou comentar detalhes da operação por razões de segurança, mas garantiu cumprir todas as normas norte-americanas relativas ao transporte de componentes aeronáuticos.

A empresa assegurou ainda que aplica medidas rigorosas de segurança para proteger a integridade do programa F-35 e a segurança dos países aliados envolvidos.

Entretanto, Donald Trump anunciou na sexta-feira a proibição de acesso à Casa Branca para vários órgãos de comunicação social, entre os quais a CNN e o Politico. O Presidente justificou a decisão com o que classificou como uma cobertura constante de “notícias falsas”, sem indicar quais as informações que considerava incorrectas.

21 Set 2026

IA | PJ preocupada com possível ameaça à segurança nacional

O director da Polícia Judiciária alertou para os riscos da cibercriminalidade e para os métodos criminosos que são cada vez “mais inteligentes e automatizados”. A segurança nacional continua a ser a principal preocupação das autoridades em Macau

O director da Polícia Judiciária (PJ), Sit Chong Meng, manifestou preocupação com o facto de o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) poder ameaçar a ordem social e a segurança nacional.

Os riscos colocados “pela IA e pela ‘big data'” não só “ameaçam a ordem social e o interesse público, como representam uma ameaça directa à segurança nacional no seu todo”, afirmou o director da PJ, Sit Chong Meng, na sexta-feira, na cerimónia de abertura da Semana Nacional de Sensibilização para a Cibersegurança.

Sit reconheceu que as tecnologias emergentes “têm proporcionado um impulso poderoso” à inovação na governação, à modernização industrial e aos serviços públicos, “mas, ao mesmo tempo, deram origem a novos desafios de cibersegurança”.

“A cibercriminalidade continua a grassar e o rápido desenvolvimento da tecnologia de inteligência artificial levou a que os métodos criminosos se tornem cada vez mais inteligentes e automatizados”, acrescentou.

O responsável sublinhou que os hackers estão a realizar ataques a “um ritmo sem precedentes” – com “métodos cada vez mais dissimulados” – que as novas formas de fraude são cada vez mais enganadoras e que a gravidade do roubo de dados e dos ciberataques “aumentou significativamente”. “Estes riscos e desafios servem de alerta constante de que temos de fazer avançar a governação da segurança a par do desenvolvimento tecnológico, por forma a garantir que a tecnologia é utilizada para o bem e que o progresso tecnológico beneficia a sociedade”, defendeu.

Panorama mais exigente

Perante um cenário de cibersegurança e de segurança tecnológica “cada vez mais exigente”, o responsável sugeriu que a sociedade tem de reforçar a cooperação – “agora mais do que nunca” – para melhorar as defesas de cibersegurança e a protecção contra riscos e ameaças, como a fraude online, os ciberataques e as violações de dados.

Sit citou o Presidente Xi Jinping, afirmando que a salvaguarda da cibersegurança requer “cooperação reforçada”, “aprendizagem mútua”, “investigação e desenvolvimento conjuntos” e “benefícios mútuos e resultados vantajosos para todas as partes”.

O dirigente chinês vai visitar os Estados Unidos esta semana, e a administração norte-americana está a ponderar reunir os líderes das principais empresas de IA, informou a cadeia televisiva CNN.

21 Set 2026

IA | Huawei quer competir com Nvidia nas infraestruturas

A chinesa Huawei estabeleceu como objectivo competir com a Nvidia nas infraestruturas para inteligência artificial, recorrendo aos seus próprios chips e sistemas de computação para tentar compensar a desvantagem da China face aos Estados Unidos em capacidade de processamento.

Guo Ping, presidente do conselho de supervisão da Huawei, afirmou, num encontro com novos funcionários, que desenvolver agentes de IA competitivos a nível mundial representa uma “oportunidade importante” para a empresa.

O responsável reconheceu que a China está atrás dos Estados Unidos em capacidade de processamento, embora tenha considerado que o país possui vantagens na aplicação de dados e em cenários industriais e dispõe de uma reserva de talento aproximadamente ao mesmo nível da norte-americana, segundo noticiou ontem o portal económico Yicai.

A Huawei procura reduzir esta diferença através dos processadores Ascend e de uma arquitectura que permita agrupar grandes quantidades de chips em sistemas como os SuperPoD, em vez de tentar competir apenas pela capacidade individual de cada semicondutor.

Guo mencionou especificamente os Ascend 950 e afirmou que a empresa pretende obter vantagem através de inovações na arquitectura e de grandes aglomerados de computação, visando resolver problemas práticos e melhorar a experiência dos clientes.

A estratégia também não passa pelo desenvolvimento de um modelo próprio de IA, mas por fornecer a infraestrutura necessária para executar modelos de diferentes programadores através dos sistemas Ascend, Kunpeng e SuperPoD.

Lei da concorrência

Guo afirmou ainda que a Huawei “não tem planos para alargar as suas áreas de negócio” e pretende “oferecer opções diversificadas para o desenvolvimento da IA”.

A aposta assume particular relevância perante as restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso da China a chips avançados, que levaram Pequim a acelerar o desenvolvimento de alternativas nacionais. Os processadores Ascend da Huawei tornaram-se um dos principais concorrentes chineses dos processadores da Nvidia.

As declarações surgem ainda em pleno debate internacional sobre a IA, depois de responsáveis como Dario Amodei, da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, ou Elon Musk, da xAI, terem defendido nos últimos dias um abrandamento do desenvolvimento desta tecnologia por razões de segurança, enquanto o Presidente norte-americano, Donald Trump, rejeitou essa possibilidade, considerando que poderia favorecer a China na corrida tecnológica.

O debate voltou a colocar a competição entre Pequim e Washington no centro da discussão sobre o futuro da IA, tanto em relação à liderança tecnológica como à possibilidade de estabelecer mecanismos comuns para controlar os riscos associados à tecnologia.

17 Set 2026

IA | Fórum chinês defende controlo mas rejeita lógica de blocos entre China e EUA

Governação das tecnologias emergentes, estabilidade estratégica e competição entre grandes potências, são temas em debate a partir de hoje em Pequim na 13.ª edição do Fórum Xiangshan, principal encontro de diplomacia militar organizado pela China

Especialistas reunidos ontem em Pequim defenderam o reforço da supervisão humana, dos mecanismos de segurança e da cooperação internacional perante os riscos da inteligência artificial, rejeitando que outros países tenham de escolher entre China e Estados Unidos nesta tecnologia.

O debate decorreu no âmbito da 13.ª edição do Fórum Xiangshan, principal encontro de diplomacia militar organizado pela China, que será formalmente inaugurado hoje. A agenda deste ano inclui entre os principais temas a governação das tecnologias emergentes, a estabilidade estratégica e a competição entre grandes potências.

O antigo secretário-geral da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) Vladimir Norov afirmou que os riscos associados à IA são “sérios” e defendeu que os governos reforcem a capacidade de supervisão, em conjunto com empresas tecnológicas e centros de estudos.

Norov alertou que a tecnologia está a avançar mais rapidamente do que a capacidade das instituições para a regular, defendendo a criação de mecanismos de partilha de informação sobre riscos e incidentes graves relacionados com a IA.

O também antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Uzbequistão e presidente da Associação de Inteligência Artificial da Ásia Central afirmou que os sistemas de IA estão a evoluir rapidamente e que “nenhum país consegue geri-los sozinho”.

O general reformado dos Emirados Árabes Unidos Obaid Al Ketbi, antigo alto responsável do ministério dos Negócios Estrangeiros do país, afirmou que o avanço dos agentes de IA, capazes de planear, coordenar e executar tarefas complexas, obriga a colocar o controlo humano no centro das prioridades.

“Se deixarmos as coisas nas mãos da IA sem controlo humano, será realmente duro e difícil”, afirmou Al Ketbi, que defendeu uma regulamentação proporcional aos riscos.

Outra lógica

Os dois participantes rejeitaram também uma lógica de blocos entre Pequim e Washington. Norov afirmou que os países da Ásia Central não querem ser “consumidores passivos” de IA nem ser obrigados a escolher entre China e Estados Unidos, mas procuram uma “parceria, não dependência” e transferência de tecnologia.

Al Ketbi defendeu uma posição semelhante para o Médio Oriente, afirmando que a região deve poder cooperar com ambas as potências e, simultaneamente, desenvolver capacidades próprias.

O debate ocorre depois de responsáveis do sector tecnológico norte-americano terem defendido um abrandamento do desenvolvimento dos modelos de IA mais avançados devido aos riscos de segurança, posição rejeitada pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que considera que uma maior regulamentação poderá beneficiar a China.

Pequim tem defendido nos últimos dias uma IA “orientada para o bem”, ao mesmo tempo que acusa Washington de utilizar argumentos relacionados com a segurança para limitar o desenvolvimento tecnológico chinês.

16 Set 2026

Uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (3)

Chenyang Li (continuação do número anterior)

Uma diferença fundamental entre a virtude da IA e a virtude humana

Tentei contornar questões tão complexas como a consciência das máquinas e a subjetividade moral na nossa discussão sobre a ética das máquinas de IA. A minha investigação centra-se em como as máquinas de IA podem ser virtuosas, em vez de se questionar se podem ter consciência, livre arbítrio ou tornar-se agentes morais no sentido kantiano.

A visão de Aristóteles sobre a virtude, em relação à função própria de uma coisa, proporciona uma ponte útil entre a virtude humana e a virtude não humana, sendo que esta última categoria inclui a virtude das máquinas de IA. Para Aristóteles, a virtude (arete) de uma coisa baseia-se na sua função própria (ergon). Nesta perspetiva, uma coisa não tem de ser um ser consciente para ter uma função própria e ser excelente (arete) no seu desempenho. Na ética confucionista, o conceito de virtude (de) aplica-se tanto aos seres humanos como ao mundo não humano. Nestas perspetivas, os sistemas robóticos de IA podem, sem dúvida, ser virtuosos.

A função adequada de um aspirador robótico, por exemplo, é limpar o chão. Se possuir qualidades como forte sucção, limpeza minuciosa, durabilidade, etc., limpa bem o chão e, por isso, é um aspirador robótico de qualidade. Os robôs de cuidados são concebidos para ajudar idosos ou pessoas com deficiência.

Estão programados para demonstrar qualidades como compaixão, paciência e responsabilidade no seu papel de prestadores de cuidados. Dependendo dos objetivos específicos, também podem ser programados para se moverem devagar e com cuidado, garantindo segurança e conforto enquanto auxiliam em tarefas físicas, como ajudar o utilizador a levantar-se ou a andar. O Paro, por exemplo, é um robô terapêutico interativo avançado, concebido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada (AIST) do Japão com o objetivo de estimular doentes com demência, Alzheimer e outras perturbações cognitivas. É capaz de utilizar o reconhecimento de emoções para detetar o estado emocional de um utilizador, como a tristeza ou a ansiedade, e responder com palavras reconfortantes, um tom suave e ações de apoio. Funciona com virtudes como a paciência, a gentileza e a fiabilidade. O Paro tem sido utilizado em hospitais e instituições de cuidados como ferramenta terapêutica em cerca de 30 países.26

Alguns poderão argumentar que, embora os robôs com IA possam comportar-se de forma virtuosa, ainda assim não podem ser virtuosos porque não possuem agência moral — a capacidade de intenção, compreensão e raciocínio moral —, nem são capazes de envolvimento emocional.

Tal argumento, no entanto, é circular, pois define a virtuosidade de uma forma restrita que exige essas qualidades.27 Além disso, a questão de saber se os sistemas robóticos de IA podem ter consciência e razão tem sido alvo de um debate aceso, sendo improvável que se chegue a um consenso sobre o assunto num futuro próximo, se é que tal consenso alguma vez será alcançado.28 De acordo com a perspetiva funcional adotada neste ensaio, baseada numa interpretação restrita da visão de Aristóteles sobre função e virtude, estas máquinas de IA são virtuosas na medida em que cumprem adequadamente as respetivas funções para as quais foram concebidas. A verdadeira questão é até que ponto a virtuosidade das máquinas robóticas de IA difere da da humanidade.

Esta abordagem de incluir entidades não humanas como capazes de ser virtuosas levanta outras questões

desafios à singularidade da humanidade no mundo. A singularidade humana sempre ocupou um lugar especial no coração da espécie humana. Durante muito tempo, acreditámos ser especiais porque pensávamos que a Terra estava no centro do universo. Esta ideia sugeria que o nosso lugar no cosmos era de uma importância única. No entanto, essa crença foi desfeita. A Revolução Copernicana do século XVI dissipou esta noção, quando Nicolau Copérnico demonstrou que a Terra não é o centro do universo, mas simplesmente um planeta em órbita à volta do Sol.

A sua teoria enfrentou forte oposição por parte de grupos religiosos, que a viram como um desafio à importância atribuída à humanidade. Desde então, tivemos de aceitar que nunca fomos o centro do universo.

Outra fonte da nossa perceção de singularidade era a crença de que fomos criados à imagem de Deus. No entanto, no século XIX, Charles Darwin abalou esta ideia reconfortante com a sua teoria da evolução. Darwin propôs que os seres humanos evoluíram a partir de espécies anteriores, tal como todos os outros seres vivos, e que a nossa forma física é o produto da evolução e não de um desígnio deliberado por parte de um poder superior. Para alguns, o impacto psicológico desta constatação aprofundou-se quando o filósofo alemão do século XIX Friedrich Nietzsche proclamou a famosa frase: «Deus está morto!» Esta afirmação sugeria que a humanidade já não podia confiar na autoridade divina para justificar o seu estatuto especial. Em vez disso, somos responsáveis por criar o nosso próprio sentido na vida.

Durante algum tempo, a nossa capacidade de raciocinar pareceu ser a última característica definidora que nos tornava únicos. No entanto, até isso foi posto em causa. Sigmund Freud argumentou que a mente humana consiste em três camadas: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente.

Ele sugeriu que o pensamento racional, que reside na mente consciente, é apenas uma pequena parte de uma psique muito maior e mais complexa. Segundo Freud, o comportamento humano é em grande parte moldado por forças inconscientes, o que significa que a racionalidade desempenha um papel muito menor do que se supunha anteriormente. Consequentemente, ele questionou se os seres humanos poderiam realmente ser definidos como seres racionais. Quer aceitemos ou não a teoria de Freud, a sua perspetiva obriga-nos a reconsiderar o pressuposto de que a racionalidade é a nossa característica definidora — é algo que precisa de ser provado, em vez de ser dado como certo.

A moralidade também tem sido considerada uma característica distintiva da humanidade. O Livro do Génesis diz-nos que Adão e Eva adquiriram o conhecimento do bem e do mal através da perda da sua inocência. Mencius e outros pensadores antigos defenderam que apenas os seres humanos nascem com sementes éticas e podem tornar-se seres éticos. Agora, temos de aceitar que as máquinas robóticas com IA também podem ser éticas, pelo menos no sentido de que podem ser virtuosas.

Mas será que isso torna as virtudes das máquinas de IA indistinguíveis da virtuosidade dos seres humanos?

seres? Existem diferenças evidentes. Por exemplo, os robôs com IA são fabricados para serem virtuosos de determinadas formas específicas, tal como se pretende que sejam. Quando os clientes adquirem um iRobot com defeito, que não cumpre a função para a qual foi concebido e, por isso, não é virtuoso, podem devolvê-lo ao fabricante para obterem uma substituição. Os seres humanos, no entanto, têm de tornar-se virtuosos, independentemente de possuírem ou não sementes inatas de virtude. Os seres humanos tornam-se virtuosos por habituação (segundo Aristóteles) ou por autoaperfeiçoamento (segundo Confúcio).

No entanto, essa diferença pode não ser tão clara como parece. As máquinas robóticas com IA também podem aprender a ser (mais) virtuosas. Um novo aspirador robótico pode aprender e traçar um mapa do seu novo ambiente e, assim, melhorar o desempenho na limpeza do chão. Além disso, uma máquina robótica com IA pode até ser mais virtuosa no desempenho do seu papel do que os seres humanos. Os robôs equipados com IA, por exemplo, podem ajudar os cirurgiões a realizar tarefas com ainda mais precisão e consistência do que os próprios cirurgiões humanos, podendo também ajudar a evitar complicações. Estas fronteiras difusas, no entanto, não significam que não exista uma diferença fundamental entre os sistemas robóticos de IA virtuosos e os seres humanos virtuosos. A seguir, defenderei que uma diferença fundamental entre os sistemas robóticos de IA virtuosos, por um lado, e os seres humanos virtuosos, por outro, reside na capacidade distintiva dos seres humanos de se tornarem abrangentemente virtuosos.

Tal como foi abordado na Secção 2 deste ensaio, para Confúcio, a virtude de uma pessoa concretiza-se em dois níveis. Um deles diz respeito às virtudes específicas. Uma pessoa pode ser inteligente, corajosa ou diligente. O discípulo de Confúcio, Zilu, por exemplo, era conhecido pela sua bravura, enquanto outro discípulo, Yanhui, se destacava pela sua dedicação à aprendizagem. O objetivo último da vida humana, para Confúcio, não é meramente possuir virtudes específicas ou servir apenas a um propósito específico (Analectos 2.12).

Uma pessoa virtuosa, enquanto ser humano, não é virtuosa apenas numa dimensão da vida. O objetivo último da vida humana é, antes, tornar-se uma pessoa dotada da virtude abrangente do ren.29 Na perspetiva confucionista, ser humano, em última análise, significa ser ren (ren zhe ren ye 嬬簅嬣憟).30 Da mesma forma, para Aristóteles, viver a vida humana ideal não se resume a possuir virtudes específicas. Embora ser um bom flautista exija a posse de algumas virtudes específicas para tocar bem a flauta, e ser um escultor exija certas virtudes específicas para ser um excelente escultor, isso não faz deles seres humanos virtuosos. Ser um bom ser humano, alguém que leva uma boa vida humana, exige que se busque uma vida virtuosa de acordo com a razão.

Essa é a vida de eudaimonia. Tal vida requer não apenas uma ou algumas virtudes específicas, como se verifica num bom flautista ou num bom escultor. Para Aristóteles, uma vida de eudaimonia requer uma variedade de virtudes específicas (NE 1.10 1101a 15–17), 31mas é mais do que uma mera coleção de virtudes específicas. Estas virtudes devem assentar num fundamento racional, característico do funcionamento adequado da humanidade. Uma vez que uma vida de eudaimonia exige que uma pessoa alcance a excelência no desempenho da sua função humana própria, podemos muito bem chamar a essa excelência «virtude», com base na definição de virtude de Aristóteles, mesmo que o próprio Aristóteles se recusasse a rotulá-la assim. Entendidas desta forma, apesar das suas diferenças noutros aspetos, as teorias éticas de Confúcio e de Aristóteles partilham uma estrutura comum de virtude em duas camadas. Numa camada, as virtudes são específicas; na outra, existe uma virtude abrangente, o «ren» ou a eudaimonia.

Na perspetiva defendida neste ensaio, uma diferença fundamental entre os sistemas de IA robótica virtuosos, por um lado, e os seres humanos virtuosos, por outro, reside no facto de, embora ambos possam ser virtuosos de formas específicas, apenas os seres humanos poderem desenvolver a virtude abrangente. Um robô de IA é sempre concebido, desenvolvido e fabricado para um ou vários fins específicos. O seu objetivo é possuir virtudes específicas que lhe permitam funcionar bem de acordo com os fins para os quais foi concebido.

Os seres humanos também têm objetivos específicos na vida. Alguns desses objetivos são escolhidos voluntariamente: ser flautista ou escultor, por exemplo. Outros objetivos são constituídos socialmente: ser filho ou filha, membro de um determinado grupo social. Para desempenhar bem esses papéis, é necessário desenvolver as virtudes correspondentes. A este respeito, existe um paralelo claro com os sistemas robóticos de IA. Entretanto, um ser humano, enquanto ser humano, não se define apenas nem se limita meramente a esses papéis. Possui um objetivo comum e uma virtude comum a cultivar. Em contrapartida, não existe um robô de IA, enquanto robô de IA, que transcenda os seus papéis específicos. Aí reside uma diferença fundamental entre sistemas robóticos de IA virtuosos e seres humanos virtuosos.

Conclusão

Vamos fazer um balanço e resumir. Para além das abordagens baseadas em princípios à ética das máquinas de IA, podemos também adotar uma abordagem baseada na virtude. A este respeito, as teorias éticas de Confúcio e de Aristóteles proporcionam-nos perspetivas valiosas. O argumento funcional de Aristóteles a favor da virtude permite-nos considerar os sistemas robóticos de IA como inequivocamente virtuosos, sem ter de debater o seu estatuto em relação à consciência e as questões da sua subjetividade moral.

Seguindo esta linha de pensamento, uma coisa é virtuosa se desempenhar bem a sua função própria; os sistemas robóticos de IA podem desempenhar bem as suas funções e, por isso, podem ser virtuosos, tal como uma pessoa pode ser virtuosa de formas específicas quando desempenha bem o seu papel específico. Além disso, tanto para Confúcio como para Aristóteles, para além das virtudes particulares que os seres humanos desenvolvem ao desempenhar os seus respetivos papéis na vida, existe também a virtude abrangente a alcançar num nível superior. A virtude abrangente é designada por «ren» em Confúcio e por «eudaimonia» em Aristóteles. Enquanto os sistemas robóticos de IA podem possuir virtudes específicas em resposta às suas funções específicas, apenas os seres humanos podem desenvolver a virtude abrangente a um nível superior. Isto marca uma diferença fundamental entre os sistemas robóticos de IA virtuosos e os seres humanos virtuosos.32

Notas

Ver Chenyang Li, «The AI Challenge and the End of Humanity», em Intelligence and Wisdom: Artificial Intelligence Meets Chinese Philosophers, ed. Song Bing (Springer, 2021), pp. 33–47.

Por exemplo, Michael Anderson e Susan Leigh Anderson (orgs.), *Machine Ethics* (Cambridge: Cambridge University Press, 2011). https://doi.org/10.1017/CBO9780511978036 .

Num ensaio anterior, argumentei que uma série de avanços na autocompreensão humana tem vindo a minar, de forma gradual e contínua, a suposta singularidade privilegiada da humanidade — incluindo os avanços de Copérnico, Charles Darwin, Nietzsche e Sigmund Freud — e que o rápido avanço da tecnologia de IA, capaz de imitar as atividades humanas de uma vasta variedade de formas, está prestes a ser a gota de água que faz transbordar o copo. Ver Li, «The AI Challenge and the End of Humanity».

Michael Anderson e Susan Leigh Anderson, «Machine Ethics: Creating an Ethical Intelligent Agent», AI Magazine 28:4 (2007): 15–26; ver também Anderson e Anderson, Machine Ethics.

Brent Mittelstadt, «Principles Alone Cannot Guarantee Ethical AI», *Nature Machine Intelligence* 1 (2019), 501–7. https://doi.org/10.1038/s42256-019-0114-4

Mittelstadt, «Os princípios, por si só, não podem garantir uma IA ética», 501.

Ibid.

Thilo Hagendorff, «Um quadro baseado nas virtudes para apoiar a aplicação prática da ética da IA»,

Philosophy & Technology 35 (2022): 55. https://doi.org/10.1007/s13347-022-00553-z

Hagendorff, «Um quadro baseado nas virtudes para apoiar a aplicação prática da ética da IA», 55.

Ibid.

As leis surgiram pela primeira vez no conto de Asimov «Runaround» (1942) e, posteriormente, tornaram-se extremamente influentes no género da ficção científica. Ver https://www.britannica.com/topic/ .

Li, «O Desafio da IA e o Fim da Humanidade».

David J. Chalmers, «Enfrentar o problema da consciência», Journal of Consciousness Studies 2 (1995), 202.

Wendell Wallach e Colin Allen, «Moral Machines: Teaching Robots Right from Wrong»

(Nova Iorque: Oxford University Press, 2008), Capítulo 4.

Wallach e Allen, *Moral Machines*, p. 117.

Michael Constantinescu e R. Crisp, «Can Robotic AI Systems Be Virtuous and Why Does This Matter?» International Journal of Social Robotics 14:1547–1557 (2022), p. 1552. https:// doi.org/10.1007/s12369-022-00887-w ; Os sistemas robóticos de IA podem ser virtuosos e por que é que isso importa?

Constantinescu e Crisp, «Podem os sistemas robóticos de IA ser virtuosos e por que razão isso é importante?», 1555.

Christine M. Korsgaard, *The Constitution of Agency: Essays on Practical Reason and Moral Psychology* (Nova Iorque: Oxford University Press, 2023), 152.

Wing-tsit Chan, *A Source Book in Chinese Philosophy* (Princeton, Nova Jérsia: Princeton University Press, 1963), p. 22.

Fang Ying-hsien 菾褔嫻, «磭嬬紶——簏蓏裛繨侹磾蒢» e «瘁©歶雰» (Sobre as origens do Ren: a sua evolução desde a era Shi-Shu até Confúcio). Dalu Zazhi ▲» (1976: 52.3): 22–34.

Neng xing wuzhe yu tianxia, weiren ye“籗潛澼粹匽跦, 为嬬鋿”. A segunda parte da afirmação, «weiren», tem sido frequentemente traduzida como «é ren». Ver Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, 46. Defendi que «weiren» deve ser traduzido como «conduzir ao ren ou pode permitir ou fazer com que uma pessoa seja ren». Chenyang Li, «Li as Cultural Grammar: the Relation between Li and Ren in the Analects». Philosophy East & West 57:3 (2007), 311–29.

Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, 40.

Ibid., 104; alterado de «homem» para o termo neutro em termos de género «humanidade». A frase em chinês diz «ren zhe ren ye 嬬簅嬣憟», literalmente «ser ren é ser ren». O primeiro «ren» representa a virtude abrangente e o segundo representa os seres humanos. Assim, significa que possuir a essência do ren é o que define a humanidade.

Terence H. Irwin, Ética a Nicómaco (com Introdução, Notas e Glossário, segunda edição) (Indianápolis: Hackett Publishing Co., 1999), 14.

Irwin, Ética a Nicómaco, 10.

https://robotsguide.com/robots/paro . Acedido em 12 de fevereiro de 2025.

Ver Constantinescu e Crisp, «Os sistemas robóticos de IA podem ser virtuosos e por que é que isso importa?»

Ver David J. Chalmers, Reality+: Mundos Virtuais e os Problemas da Filosofia

(W. W. Norton & Company, 2022).

Defendi que o «ren», enquanto virtude abrangente, é orientado para o cuidado e assenta no cuidado (ver Capítulo 2 de Chenyang Li, «Reshaping Confucianism: A Progressive Inquiry». Nova Iorque: Oxford University Press, 2023).

Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, p. 104.

Irwin, Ética a Nicómaco, 14.

3 Set 2026

Uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (2)

Por Chenyang Li

(continuação do número anterior)

Duas categorias de virtude

No Ocidente, a tradição da ética da virtude remonta a Aristóteles. Adotando uma abordagem funcional da virtude, a teoria de Aristóteles salienta a utilidade da virtude para que o indivíduo leve uma vida boa. A teoria da virtude de Aristóteles pode ser interpretada tanto de forma «espessa» como de forma «fina». Numa interpretação «forte», para ser virtuoso, o sujeito deve (a) realizar as ações corretas, (b) pelas razões certas e (c) nas circunstâncias adequadas.16 Nesta perspetiva, Michael Constantinescu e R. Crisp estabelecem uma distinção entre ser virtuoso, por um lado, e comportar-se de forma virtuosa, por outro. De acordo com a sua análise, os robôs de IA podem ser capazes de se comportar de forma virtuosa, mas não podem ser virtuosos. Argumentam que:

Apesar da sua capacidade de imitar ações virtuosas humanas e até de se comportarem de forma equivalente aos seres humanos, os sistemas robóticos de IA não conseguem realizar ações virtuosas de acordo com as virtudes, ou seja, de forma correta ou virtuosa; nem pelas razões e motivações certas; nem, através da phronesis, ter em conta as circunstâncias adequadas. E isto tem como consequência que a IA não pode ser genuinamente virtuosa, pelo menos não com os avanços tecnológicos atuais que sustentam o seu desenvolvimento funcional.17

A interpretação de Constantinescu e Crisp sobre o que é ser virtuoso pode muito bem refletir o que Aristóteles afirmou quando discutiu a pessoa virtuosa. No entanto, não está de acordo com o que Aristóteles disse sobre a função e a virtude em geral. Também é possível fazer uma interpretação restrita da teoria da virtude de Aristóteles, uma interpretação que não se baseia na capacidade do sujeito de usar a razão.

Christine M. Korsgaard escreve:

Os filósofos gregos parecem, em geral, ter acreditado que uma virtude ou excelência é uma qualidade que permite que uma coisa desempenhe bem a sua função. Tanto Platão como Aristóteles estabelecem uma ligação conceptual entre ergon e arete. Uma arete não é meramente um dos pontos positivos de uma coisa; é, especificamente, uma qualidade que torna uma coisa capaz de desempenhar bem a sua função.18

Os termos gregos para «função» e «virtude», ergon e arete, aplicam-se tanto às pessoas humanas como aos seres não humanos. Aristóteles atribui estas características tanto às pessoas humanas como às «coisas» (NE 6.2 1139a17, NE 2.6 1106a15–23). Ele defende que «a virtude de uma coisa está relacionada com a sua função própria» (NE 6.2 1139a17) e que «toda a virtude, por um lado, coloca em bom estado a coisa de que é virtude e, por outro, faz com que a função dessa coisa seja bem desempenhada» (NE 2.6 1106a15–23). Aristóteles recorre aos exemplos de um flautista, de um escultor ou de um artista para defender o seu argumento de que «para todas as coisas que têm uma função ou atividade, considera-se que o bem e o “bem feito” residem na função; assim pareceria ser também para o homem, se ele tiver uma função» (NE I.7, 1097b24 e seguintes).

Numa interpretação restrita, as noções de função e virtude de Aristóteles podem ser aplicadas também aos sistemas robóticos de IA. Uma coisa pode ter muitas funções. Uma faca pode ser utilizada para cortar, para decoração e até mesmo como peso de papel. No entanto, a função própria de uma faca enquanto faca, segundo o raciocínio de Aristóteles, é cortar. Portanto, uma faca excelente, enquanto faca, é aquela que corta bem. É aí que reside a arete de uma faca, a sua excelência ou virtude. Como a função própria de uma faca é diferente da de, digamos, um martelo, a sua excelência ou virtude também é diferente da de um martelo. Para usar os próprios exemplos de Aristóteles, a função própria — a atividade característica — de um flautista é diferente da de um escultor. Um flautista, por exemplo, tem de ser capaz de soprar bem e de mover os dedos nas notas certas, enquanto um escultor cria esculturas esculpindo, modelando ou soldando os materiais adequados para transformá-los em obras de arte. Como têm funções diferentes, um excelente escultor pode ser muito mau a soprar ar num instrumento musical, e o inverso aplica-se a um excelente flautista. Por outras palavras, diferentes formas de ergon requerem diferentes tipos de arete.

Na perspetiva de Aristóteles, no entanto, para além dos papéis específicos das pessoas na sociedade, os seres humanos, enquanto seres humanos, partilham também uma função comum na vida, que é exclusiva da humanidade. Aristóteles defende que a alma humana tem várias funções. Ela mantém a vida vegetativa dos nossos corpos, a vida da nutrição e do crescimento. A alma também mantém as nossas funções animadas, que nos permitem movimentar-nos e ir ao encontro das coisas. Mas estas funções, argumenta Aristóteles, não são a nossa função própria. A vida vegetativa pertence até às plantas; as funções animadas pertencem também aos animais. Para Aristóteles, o uso da razão é a função própria da humanidade (NE 2.7 1197b35-1198a7). Portanto, a virtude dos seres humanos é o que os leva a desempenhar bem a sua função distintiva (NE 2.6 1106a15–23). Assim, uma vida que segue a razão conduz à eudaimonia («florescimento humano»), permitindo-nos viver bem enquanto seres humanos. Viver uma vida de eudaimonia é o objetivo supremo da humanidade.

Nas tradições filosóficas orientais, o conceito de virtude ocupa um lugar central na ética confucionista. A palavra para virtude em chinês é «de». O antigo dicionário chinês Shuowen Jiezi explica o seu significado através do seu homófono «», ou seja, adquirir, realizar. Explica ainda que isto significa «de shi yi ye» (謰燭鼫), nomeadamente, levar as coisas a bom termo de forma adequada. Trata-se de um poder ou capacidade que permite ao seu possuidor alcançar os seus objetivos. Tal qualidade é atribuída tanto aos seres humanos como aos objetos não humanos. O texto taoísta *Daodejing* afirma que tudo no mundo possui o seu *de* (*Daodejing*, Capítulo 51). Na tradição confucionista, *de* é aplicado principalmente às pessoas, mas também se aplica a objetos não humanos. Por exemplo, o Comentário Xi do Livro das Mutações afirma: «a maior virtude (de) do céu e da terra é gerar as coisas 蘢礜巃»»擯崵.» Confúcio disse: «um governante que governa o seu estado com virtude (de) é como a Estrela Polar do Norte, que permanece no seu lugar enquanto todas as outras estrelas giram à sua volta»

“Para o ‘Fan’ e o ‘Yi’, a luz do sol brilha sobre a multidão.” (19)Ao dizer isto, Confúcio sugeriu que é a virtude (de) da Estrela Polar que permite que as outras estrelas se movam em harmonia à sua volta. Confúcio também disse: «Um bom cavalo não é elogiado pela sua força, mas pela sua virtude (de): “骥嫄称剢淛, 称剢适憟”» (Analectos 14:33). A afirmação de Confúcio sugere que a verdadeira virtude de um bom cavalo não é (meramente) a sua força, mas as suas outras capacidades que lhe permitem correr bem, presumivelmente tais como resistência e fiabilidade. Nestas utilizações, o conceito de «virtude» é aplicável tanto aos seres humanos como aos sistemas robóticos de IA.

Pensadores clássicos como Confúcio, Mencius e Xunzi enfatizaram, todos eles, a necessidade de cada pessoa cultivar a virtude e tornar-se um ser humano virtuoso. A visão mais influente de Mencius na filosofia moral é o seu argumento de que as disposições inatas das pessoas podem transformar-se em virtudes morais através do autocultivo. Mencius defendia que todos os seres humanos nascem com quatro tipos de sentimentos inatos: o sentimento de compaixão, o sentimento de desdém, o sentimento de respeito e o sentimento de aprovação e desaprovação. Através do cultivo ativo, as pessoas podem transformar estes sentimentos naturais em disposições éticas, nomeadamente a virtude cardinal da humanidade (ren 嬬), da retidão (yi 义), da cortesia (li 礼) e da

sabedoria (zhi 簹) (Mencius 6A6). Xunzi defendia que as pessoas nascem com uma tendência para

fazem coisas egoístas e sem moralidade. Causarão o caos na sociedade. Ele defende que, através do estabelecimento de regras de decoro ritual (li) na sociedade, as pessoas podem alterar as suas disposições naturais e tornar-se seres humanos virtuosos. Ao praticar a correção ritual através do autocultivo, as pessoas desenvolvem virtudes como o respeito (gong jing 剉杶), a lealdade (zhong xin 蘙蝁), a civilidade e a retidão (li yi 礼义) e a preocupação com os outros (ai ren 爱嬣) (Xunzi, Capítulo 2).

As teorias da virtude de Mencius e Xunzi constituem o seu desenvolvimento da teoria da virtude de Confúcio, embora coloquem ênfase em aspetos diferentes. A contribuição mais fundamental para a teoria da virtude da ética confucionista foi dada por ninguém menos que o próprio Confúcio. A ética da virtude de Confúcio centra-se no desenvolvimento do conceito de ren 嬬. O significado original do caractere ren 嬬 refere-se a um sentimento de ternura para com os outros.20 Confúcio articulou o significado de ren em termos de «amar as pessoas» (ai ren 爱嬣, Analectos 12.22). Tanto Mencius como Xunzi, tal como apresentado acima, herdaram este significado de «ren» de Confúcio. No entanto, Confúcio não se limitou a isso na sua articulação do «ren». Ele alargou ainda mais o conceito como uma virtude abrangente da humanidade. Confúcio disse:

Quem conseguir praticar cinco coisas, em qualquer parte do mundo, pode tornar-se uma pessoa de ren.21 … Respeito (gong剉), tolerância (kuan宽), sinceridade (xin蝁), diligência (min睌) e bondade (hui). Se alguém for respeitoso, não será tratado com desrespeito. Se for tolerante, conquistará o coração de todos. Se for sincero, inspirará confiança. Se for diligente, alcançará os seus objetivos. E se for bondoso, poderá desfrutar do serviço dos outros. (Analectos 17.6)

Aqui, «ren» não é uma virtude específica de cuidado para com os outros, mas sim uma virtude abrangente que pode ser adquirida através da prática de várias virtudes específicas. Ou seja, alcança-se o «ren» praticando as cinco virtudes específicas: respeito, tolerância, confiabilidade, diligência e bondade (Analectos 17.6). Essa lista, no entanto, não é exaustiva. Confúcio também disse: «As pessoas com ren ajudam os outros a prosperar se desejam prosperar elas próprias, e ajudam os outros a ter sucesso se desejam ter sucesso elas próprias (da 达). Ser capaz de julgar os outros com base no que nos é próximo é o método para se tornar ren» (Analectos 6.30). Ser capaz de inspirar-se no que nos é próximo é estender o nosso coração aos outros, compreender os outros pensando no que nós próprios sentiríamos. Seguindo esta linha de pensamento, Confúcio afirmou que o ren exige que não façamos aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem (Analectos 12.2).

Para resumir a visão de Confúcio. O «ren», enquanto virtude, tem um significado específico e um significado mais amplo. Wing-tsit Chan afirmou: «Como virtude geral, o “ren” significa humanidade, ou seja, aquilo que faz do homem um ser moral. Como virtude específica, significa amor.» 22Para efeitos deste ensaio, gostaria de salientar que, na teoria de Confúcio, as virtudes dividem-se em duas categorias. A primeira é a das virtudes específicas. Esta categoria de virtudes inclui uma longa lista de traços morais específicos, tais como o respeito, a tolerância, a confiabilidade, a diligência, a bondade, etc. A segunda categoria é a da virtude abrangente da humanidade refinada. Uma pessoa dotada de «ren» neste último sentido, o da humanidade refinada, possui uma variedade de virtudes específicas. Neste segundo sentido, Confúcio afirmou, numa frase célebre, que «o “ren” é [a característica distintiva da] humanidade.»23

Na tradição confucionista, aqueles que possuem a virtude abrangente do ren podem ser chamados de junzi (珋磾, ver Analectos 4.5). Um junzi é uma pessoa virtuosa que possui uma variedade de virtudes. De acordo com os Analectos, essas pessoas não formam grupinhos (2.14); comportam-se com cavalheirismo quando competem (3.7); são cautelosas quando falam e diligentes quando agem (4.24); comportam-se com modéstia, tratam os superiores com respeito, são bondosas para com as pessoas e agem de forma adequada ao contratar pessoas (5.16); são cultas (6.27); são harmoniosas sem serem uniformizadoras (13.27); são corajosas (17.23). Entretanto, Confúcio também defendia que os junzi não são unidimensionais como um utensílio (junzi bu qi 珋磾嫄厞, 2.12). Ser como um utensílio é ser uma ferramenta destinada apenas a uma tarefa específica, fazer apenas uma coisa, ter apenas uma existência unidimensional. Um ser humano, na visão de Confúcio, deve desenvolver-se como uma pessoa completa e ser bom enquanto ser humano em si mesmo. Tais pessoas, ou junzi, possuem uma variedade de virtudes específicas, mas também não se limitam a essas virtudes específicas isoladas. São capazes de entrelaçar essas virtudes num todo equilibrado, alcançando a virtude abrangente do ren.

Assim, parece existir um paralelo entre Confúcio e Aristóteles. Para Aristóteles, uma pessoa que vive em eudaimonia «é aquela cujas atividades estão em consonância com a virtude plena, com um suprimento adequado de bens externos, não apenas por um período qualquer, mas ao longo de uma vida completa» (NE 1.10 1101a 15–17).24 Por outras palavras, uma vida de eudaimonia requer uma variedade de virtudes específicas na vida. Aristóteles não considerava a eudaimonia em si mesma como uma virtude, mas sim como uma atividade virtuosa. Defendia que se trata de «um certo tipo de atividade da alma em conformidade com a virtude» (NE 2.9 1099b25).

No entanto, Aristóteles aceitou que a sua visão é consistente com a ideia de que a eudaimonia «é a virtude [em geral] ou alguma virtude [particular]; pois a atividade em conformidade com a virtude é própria da virtude» (NE 1.7 1198b 30-32).25 Aristóteles reconhece que o conceito de virtude pode, por vezes, implicar a eudaimonia (NE 1.7 1198b 32-1099a 5). Se pudermos defender aqui uma interpretação de certa forma confucionista, podemos dizer que, na medida em que a função própria da humanidade é viver de acordo com a razão, e viver bem de acordo com a razão é eudaimonia, a eudaimonia encaixa-se na definição de virtude (arete) de Aristóteles.

Independentemente de Aristóteles ter ou não chamado a eudaimonia de virtude, num sentido lato, uma vida de eudaimonia, segundo Aristóteles, é análoga a uma vida de ren (virtude abrangente) para Confúcio. Para Aristóteles, uma pessoa dotada de uma virtude específica pode não ser um ser humano excelente se não agir de acordo com a razão e não possuir outras virtudes específicas. Confúcio defendia uma visão semelhante. Ele defendia, por exemplo, que uma pessoa dotada de ren tem necessariamente de ser corajosa, enquanto que uma pessoa corajosa pode não ser ren (嬬簅, 饡膧曏; 曏簅, 嫄饡膧嬬; Analectos 14.4). Ser corajoso é possuir uma virtude específica; ser «ren», no sentido de virtude abrangente, é possuir a virtude abrangente da humanidade.

2 Set 2026

A voz viva na era da voz fabricada

Por Zerbo Freire

Em outubro de 2025, uma canção gerada por inteligência artificial e publicada no YouTube fez milhares de ouvintes acreditarem que Adele gravara um tributo a Charlie Kirk, ativista conservador norte-americano assassinado em setembro daquele ano. Com o título “Heaven Gained an Angel”, o vídeo acumulou milhões de visualizações e centenas de comentários como “Obrigado, Adele, é uma canção magnífica” — apesar de a voz gerada por IA pouco se assemelhar à da cantora britânica. A plataforma removeu o vídeo após ser alertada pela AFP, mas a comoção, essa, já ocorrera. A voz fabricada fizera o que a voz viva não fizera: emocionar sem estar presente.

Há algo profundamente perturbador nessa voz fabricada que emerge de um alto-falante sem nunca ter atravessado uma garganta de carne. Não se trata aqui da voz mediatizada — aquela que, mesmo gravada, conserva o fantasma de um corpo, o rastro de um instante em que alguém, de fato, moveu os lábios. O inquietante, agora, é mais radical: uma voz gerada do zero por algoritmos, que nenhum ser humano pronunciou, e que, no entanto, soa como se pudesse tê-lo feito.

O medievalista e teórico da vocalidade Paul Zumthor já antecipava esse momento em 1986, numa passagem em que respondia à pergunta da revista italiana Linea d’Ombra sobre o impacto dos meios eletrônicos, auditivos e audiovisuais sobre a voz. Para ele, a distância entre a voz viva e qualquer mediação técnica era intransponível, justamente porque evidenciava “a diferença biológica entre o homem e a máquina”. Mas Zumthor não se detinha aí: ele via no computador — substituto eletrônico da escritura — o próximo passo de uma abstração vocal tão radical que “já não se tratará de gravação, mas de voz fabricada”. A pergunta que essa antevisão nos lega não é, portanto, meramente técnica, mas antropológica: o que resta da voz viva quando a fabricada se torna praticamente indistinguível da verdadeira?

A voz viva, nos lembra Zumthor, é um evento corporal. Mais precisamente: uma expansão do corpo. O som que emitimos não é algo acrescentado de fora; é o próprio corpo projetando-se para além de seus limites. Ao falarmos, tornamo-nos onda — tocamos o outro através do vazio, carregando nele o peso, o calor e o volume real da carne. Ouvir alguém ao vivo não é apenas processar informação linguística: é estar na presença de um outro. Sentimos sua fragilidade, seu risco iminente de gaguejar, de se emocionar demais. Essa vulnerabilidade é o que confere à voz viva sua força: ela é única, perecível, como um corpo.

A voz gravada já é outra coisa. Ela congela o instante, torna o efêmero repetível. Mas ali ainda resiste o traço de um corpo — ausente, é verdade, mas que um dia existiu.

Agora a voz fabricada — essa é uma expansão de nada. Não há corpo algum a ser expandido. A respiração que parecemos ouvir é simulada. A emoção que detectamos é calculada. O timbre foi montado estatisticamente a partir de milhares de vozes reais, desencarnadas e recompostas numa entidade que nunca existiu. Um significante sem significado existencial. Um som órfão.

Mas seria apressado concluir daí apenas um lamento. Não nos deixemos, contudo, cair num pessimismo fácil — há que se ter horror ao tom apocalíptico. A voz fabricada não é uma ruptura absoluta; ela apenas radicaliza um processo muito mais antigo: a progressiva desencarnação da vocalidade. Zumthor lembra que, por séculos, a voz foi reprimida pela hegemonia da escrita. Depois vieram a rádio, o disco, a televisão, apagando as referências espaciais da voz viva. A voz fabricada, agora, rompe o cordão da mediatização: já não há fantasma, já não há origem. Apenas simulação. É a desencarnação radical da vocalidade — preparada há séculos.

E, no entanto, algo inquietante acontece. Um ouvinte real pode escutar um poema recitado por uma voz sintética e chorar. A comoção é verdadeira? O corpo do ouvinte expande-se em resposta a algo que não é expansão de nenhum outro corpo? Uma primeira resposta, alinhada a Zumthor, seria o “não” categórico: o ouvinte chorou porque pensou estar diante de uma voz viva — foi ludibriado. Se soubesse da verdade, talvez não chorasse.

Mas há outra possibilidade, que Zumthor não teve tempo de contemplar. O corpo humano pode ser tocado por padrões sonoros mesmo na ausência de uma intencionalidade emissora. Assim como choramos com um filme de animação sabendo que os personagens não existem, podemos chorar com uma voz fabricada sabendo que aquele sopro não vem de ninguém. A diferença, porém, é que no filme há corpos humanos por trás — atores, animadores. Na voz fabricada, pode não haver ninguém. Apenas um algoritmo otimizado para maximizar a comoção. Se a comoção pode ser fabricada sem sujeito, então a escuta deixa de ser encontro e passa a ser resposta a um estímulo. E isso muda o estatuto da verdade na experiência estética.

Se é assim, o que acontece com a arte que sempre dependeu da voz como expansão do corpo — a poesia, por exemplo?

Para a poesia, as implicações são imensas. Zumthor definiu o poético como “uma arte da linguagem humana, independente de seus modos de concretização e fundamentada nas estruturas antropológicas mais profundas”. A poesia nasce do ritmo da respiração, da ressonância da caixa torácica, do gesto. Pensemos no griot da África Ocidental: ali, a voz não é um veículo do poema, mas o próprio corpo do poeta em ato. Sem esse corpo, o que resta da poesia? O movimento das mãos, o olhar que varre a audiência, a respiração que se suspende: tudo isso é o poema. O griot testemunha com seu corpo.

A poesia pode habitar uma voz que nunca respirou? Há quem diga que sim — que a voz fabricada pode criar novas vocalidades impossíveis para a garganta de carne. Mas essa resposta elide uma questão central: um instrumento requer um instrumentista. Na voz fabricada, quem é o sujeito da enunciação? O algoritmo? O programador? Nenhum deles, no momento da emissão, está expandindo seu corpo. Ninguém está ali, presente, assumindo aberta e responsavelmente a palavra.

A era da fabricação vocal nos obriga a repensar o lugar do corpo na experiência poética. A voz viva continua insubstituível — na intimidade de uma conversa, na força bruta de um protesto cantado, no silêncio que antecede a palavra de um poeta em cena. Ali, a presença carnal faz o que nenhum algoritmo pode: lembra-nos de que estamos juntos, frágeis, vivos e mortais, compartilhando o mesmo ar enquanto ele dura.

Mas a voz fabricada chegou para ficar. A sabedoria talvez não seja rejeitá-la, mas aprender a distingui-la da voz viva — sem deixar que sua perfeição nos faça esquecer o valor da imperfeição, da respiração ofegante, da palavra que hesita.

Ouvir uma voz fabricada e sentir-se tocado é, talvez, a mais estranha nostalgia que a técnica nos reservou: a nostalgia de um corpo que nunca esteve ali. Como se pudéssemos sentir saudade de um abraço que nunca aconteceu.

Porque, no fundo, não é a perfeição técnica que nos comove. É o sopro imperfeito. Se o sopro imperfeito ainda é nosso, cabe a nós decidir se queremos ouvi-lo como prova de humanidade ou como ruído a ser aperfeiçoado.

1 Set 2026

China | IA ameaça centenas de milhares de pessoas na indústria audiovisual

A rápida adopção de ferramentas de inteligência artificial (IA) na produção de vídeos e no comércio electrónico na China está a substituir actores e apresentadores humanos, num sector que emprega directamente centenas de milhares de pessoas.

No primeiro trimestre deste ano, foram lançadas na China cerca de 128.000 séries de episódios curtos para plataformas digitais, mais do triplo das produzidas durante todo o ano anterior, segundo dados da Associação Chinesa de Serviços de Difusão pela Internet.

Cerca de 95 por cento destas produções foram geradas através de IA, de acordo com a mesma organização. A transformação acelerou com o lançamento de modelos de geração de vídeo cada vez mais avançados, entre os quais o Seedance 2.0, desenvolvido pela ByteDance, proprietária da rede social TikTok e da sua versão chinesa, Douyin.

Em Maio, 89 das 100 séries de animação mais populares na Douyin tinham sido produzidas com recurso a IA, segundo a DataEye, empresa especializada em análise de dados e marketing.

O impacto potencial sobre o emprego é significativo num país onde a economia associada às plataformas digitais absorveu milhões de trabalhadores ao longo da última década. A indústria chinesa de séries de curta duração emprega directamente cerca de 690.000 pessoas, segundo um relatório de 2026 da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim.

Já cerca de 15 milhões de pessoas identificavam as transmissões em directo (‘livestreaming’) como principal profissão, segundo um relatório publicado em 2024 pela Associação Chinesa de Serviços de Difusão pela Internet.

Réplicas baratas

A utilização da IA está também a alastrar ao comércio electrónico através de apresentadores virtuais capazes de promover produtos durante 24 horas por dia por cerca de 10 por cento do custo de um trabalhador humano, segundo estimativas divulgadas pela imprensa estatal chinesa.

Em Março, mais de 70.000 comerciantes utilizavam já apresentadores digitais disponibilizados pela plataforma de comércio eletrónico JD.com, segundo o portal de notícias Yicai.

A tecnologia permite ainda criar réplicas digitais de apresentadores conhecidos. Uma versão virtual do influenciador chinês Luo Yonghao conseguiu vender 55 milhões de yuan em produtos durante uma transmissão de apenas sete horas, segundo dados da tecnológica chinesa Baidu. A queda dos custos de produção constitui um dos principais fatores por detrás da rápida adopção da tecnologia.

Em 2024, a produção de uma série com três a cinco minutos podia exigir uma equipa de cinco pessoas durante três meses. Actualmente, o mesmo trabalho pode ser realizado por uma única pessoa em apenas um ou dois dias, segundo dados citados pelo jornal britânico Financial Times.

O custo médio da produção recorrendo a IA caiu para entre 600 e 800 yuan por minuto, aproximadamente um décimo do custo de uma produção realizada com trabalhadores humanos. A Zeelin, empresa chinesa especializada em animação com IA, publicou, só em Maio, cerca de 8.000 episódios de séries curtas com aproximadamente um minuto cada.

Disputas laborais

A automatização está também a suscitar disputas laborais relacionadas com a utilização da imagem, voz e estilo de interpretação dos trabalhadores para criar réplicas digitais capazes de desempenhar posteriormente as mesmas funções.

Num dos primeiros processos judiciais conhecidos em Hangzhou, um dos principais polos tecnológicos chineses, envolvendo um trabalhador alegadamente substituído por IA, o tribunal determinou que a empresa pagasse uma indemnização superior ao funcionário.

A expansão da IA generativa ocorre numa altura em que Pequim procura acelerar a aplicação comercial da tecnologia, considerada pelas autoridades chinesas um dos principais motores para aumentar a produtividade e desenvolver novas fontes de crescimento económico.

1 Set 2026

Uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista (1)

Por Chenyang Li

Introdução

O grande avanço da tecnologia de Inteligência Artificial (IA) esbateu rapidamente as fronteiras entre a humanidade e o mundo não humano, tornando os dois cada vez mais indistinguíveis.1 Tradicionalmente, considera-se que apenas os seres humanos possuem virtudes morais, o que constitui uma característica única da humanidade; agora, as máquinas de IA também são consideradas moralmente virtuosas.2 Neste ensaio, procuro articular, numa perspectiva confucionista, uma diferença fundamental entre as virtudes humanas e as virtudes das máquinas de IA.3

A primeira secção deste ensaio aborda questões gerais sobre a ética da IA, a fim de estabelecer o contexto para a minha argumentação. Na segunda secção, defino e reconstruo duas categorias de virtudes — as virtudes específicas e a virtude abrangente —, numa perspectiva confucionista. Na terceira secção, defendo que uma diferença fundamental entre máquinas de IA virtuosas e seres humanos virtuosos reside no facto de, enquanto os objetivos dos robôs de IA são específicos e as suas virtudes também o são, de acordo com os objetivos para os quais foram concebidos, os seres humanos, independentemente dos papéis específicos que desempenham na vida — que exigem virtudes específicas —, também têm como objetivo alcançar uma vida virtuosa, o que requer a virtude abrangente da humanidade refinada.

Abordagens baseadas em princípios e na virtude

Com o rápido desenvolvimento da tecnologia de IA, a ética da IA tem vindo a tornar-se uma área em expansão da filosofia moral. A ética da IA, enquanto termo geral, pode referir-se a duas questões relacionadas, mas distintas. Em primeiro lugar, pode significar a ética profissional dos profissionais de IA, ou seja, das pessoas que criam e desenvolvem tecnologia de IA. Neste sentido, a ética da IA, tal como a ética médica ou a ética da engenharia, diz respeito ao código ético que os profissionais de IA devem seguir na criação de tecnologia de IA.

Podemos questionar-nos sobre que tipo de código de ética profissional os profissionais da IA devem seguir no seu trabalho, em contraste com os profissionais de outras áreas. Em segundo lugar, a ética da IA também pode referir-se ao código de ética para máquinas robóticas de IA, tendo as próprias máquinas robóticas de IA como sujeitos.4 Neste segundo sentido, a ética da IA diz respeito a «agentes morais artificiais», ou seja, às formas como a robótica de IA deve comportar-se eticamente. Para maior clareza, podemos designar a ética da IA no primeiro sentido por «ética profissional da IA» e, no segundo sentido, por «ética das máquinas de IA».

Em qualquer uma das áreas da ética da IA, em termos gerais, existem dois tipos de abordagens. Uma delas é a abordagem baseada em princípios, uma abordagem predominante neste campo. Na ética profissional da IA, por exemplo, a abordagem baseada em princípios procura definir princípios éticos relevantes para regulamentar o comportamento dos profissionais da IA. Um influente estudo de 2019, da autoria de Brent Mittelstadt, mostra que, até essa altura, pelo menos 84 iniciativas de ética da IA já tinham publicado relatórios que descreviam princípios éticos de alto nível, dogmas, valores ou outros requisitos abstratos para o desenvolvimento e a implementação da IA.5 De acordo com este estudo:

Uma análise recente revelou que muitas iniciativas de ética da IA convergiram para um conjunto de princípios que se assemelham estreitamente aos quatro princípios clássicos da ética médica. Esta conclusão foi posteriormente endossada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)⁹ e pelo Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Inteligência Artificial da Comissão Europeia, que propôs quatro princípios para orientar o desenvolvimento de uma IA «confiável»: respeito pela autonomia humana, prevenção de danos, equidade e explicabilidade.6

Mittelstadt argumenta, no entanto, que, ao contrário da medicina, o desenvolvimento da IA apresenta lacunas em quatro áreas importantes: (1) objectivos comuns e deveres fiduciários, (2) história e normas profissionais, (3) métodos comprovados para traduzir princípios na prática e (4) mecanismos robustos de responsabilização jurídica e profissional. Estas diferenças, segundo Mittelstadt, sugerem que «ainda não devemos comemorar o consenso em torno de princípios de alto nível que ocultam profundas divergências políticas e normativas.»7 Nas práticas de desenvolvimento da IA, a abordagem baseada em princípios é limitada, em parte porque os princípios exigem especificação e equilíbrio em diferentes contextos de tomada de decisão.

Um estudo mais recente de Thilo Hagendorff descreve uma viragem prática no desenvolvimento da ética profissional da IA, passando «do quê para o como».8 O autor defende que essa viragem prática, baseada no principialismo, é, no entanto, inadequada, porque «os quadros da viragem prática são, muitas vezes, apenas códigos de ética mais detalhados que utilizam conceitos mais específicos do que as orientações iniciais de alto nível».9

Como alternativa à abordagem baseada em princípios, Hagendorff defende uma abordagem baseada nas virtudes. Ele afirma: «Em vez de se concentrar apenas nos princípios, a ética da IA pode dar maior ênfase às virtudes ou, por outras palavras, às disposições de caráter dos profissionais da IA, a fim de se pôr efetivamente em prática.»10 Mais especificamente, Hagendorff propõe quatro «virtudes básicas da IA», nomeadamente justiça, honestidade, responsabilidade e cuidado, a serem complementadas por virtudes de segunda ordem, tais como prudência e fortaleza. Estas virtudes são importantes porque representam contextos motivacionais específicos que constituem a condição prévia para a tomada de decisões éticas no desenvolvimento da tecnologia de IA.

Estas duas abordagens, a baseada em princípios e a baseada na virtude, também são utilizadas na área da ética das máquinas de IA. A abordagem baseada em princípios remonta às três leis fundamentais do romancista futurista Isaac Asimov (1920–1992) para orientar o comportamento dos robôs. São elas:

Um robô não pode causar dano a um ser humano nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra dano.

Um robô deve obedecer às ordens que lhe forem dadas por seres humanos, excepto quando tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

Um robô deve proteger a sua própria existência, desde que tal protecção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.11

Num artigo de 2021, propus uma abordagem baseada em princípios à ética das máquinas de IA a partir de perspetivas confucionistas.12 Os pensadores confucionistas clássicos, Mencius e Xunzi, articularam diferentes interpretações sobre os fundamentos da ética. Mencius defende que os seres humanos são únicos, na medida em que nascem com um coração humano (xin 裶). Cultivar esse coração humano tornar-nos-á autenticamente humanos e conduzir-nos-á a uma vida humana moral. Assim, se seguirmos uma abordagem menciana em relação à ética das máquinas de IA, poderemos instalar nos robôs humanóides um princípio de «não causar dano» como mecanismo prioritário, garantindo que os robôs não possam realizar certas ações extremamente destrutivas que prejudiquem a humanidade ou outras formas de vida

formas e uns com os outros. Em contrapartida, Xunzi defende que os seres humanos se tornam morais ao adquirirem normas sociais da sociedade. Os seres humanos não possuem moral quando nascem; são posteriormente «programados» para agir moralmente. Se seguirmos Xunzi, poderemos estabelecer regras para orientar as ações da IA sem um único princípio superior que proteja a humanidade, outras formas de vida no mundo e outros robôs humanóides. Poderemos dar-lhes regras a obedecer, tal como os carros sem condutor obedecem às regras de trânsito. Seguindo tais regras, as máquinas robóticas com IA terão como objetivo cumprir as metas que lhes forem atribuídas, independentemente da natureza dessas metas.

As críticas à abordagem baseada em princípios da ética dos profissionais da IA aplicam-se também à ética das máquinas de IA. Pois, independentemente do tipo de princípios morais que imponhamos, há sempre a necessidade de os adaptar a contextos específicos. Por esta razão, são necessárias abordagens alternativas, pelo menos para complementar, se não para substituir, a abordagem baseada em princípios da ética das máquinas de IA.

Uma questão relacionada, e talvez mais profunda, é se as máquinas robóticas com IA podem ser verdadeiramente consideradas sujeitos morais. A complicar ainda mais a questão está a questão de saber se as máquinas robóticas com IA possuem consciência. Se as máquinas não podem ter consciência, presumivelmente não têm subjetividade, para não falar de livre arbítrio, e, por conseguinte, não podem tornar-se sujeitos morais. No entanto, as opiniões estão divididas quanto à questão da consciência. Algumas pessoas negam que as máquinas possam ter consciência. Defendem que as máquinas com IA podem simular comportamentos semelhantes aos humanos, mas nunca serão verdadeiramente conscientes. Outras acreditam que as máquinas com IA poderiam alcançar a consciência. Defendem que, se forem concebidas com complexidade suficiente e com os algoritmos certos, as máquinas com IA poderiam desenvolver consciência. O debate gira frequentemente em torno da questão de como a consciência deve ser definida. David Chalmers designou a questão da natureza da consciência como «o problema difícil»:

O que torna o «problema difícil» difícil e quase único é o facto de ir além dos problemas relacionados com o desempenho das funções. Para compreender isto, note-se que, mesmo quando tivermos explicado o desempenho de todas as funções cognitivas e comportamentais relacionadas com a experiência

—discriminação percetiva, categorização, acesso interno, relato verbal—, pode ainda subsistir uma questão por responder: por que razão o desempenho destas funções é acompanhado pela experiência? (ênfase no original)13

Se nunca pudermos conhecer a natureza da consciência, como sugere Chalmers, então nunca poderemos saber se as máquinas de IA possuem consciência. No entanto, presumivelmente, ser um agente moral requer uma tomada de decisões consciente; caso contrário, essa designação torna-se sem sentido. Se os robôs de IA, enquanto máquinas, por mais avançados que sejam, não possuem consciência, faz sentido considerá-los agentes morais? Se os sistemas robóticos de IA podem ser agentes morais, como é que os responsabilizamos moralmente pelas suas ações? Estas questões não podem ser resolvidas facilmente.

No seu influente livro *Moral Machines: Teaching Robots Right from Wrong*, Wendell Wallach e Colin Allen tentaram contornar a difícil questão da consciência adotando uma abordagem funcional.14 Defendem que as propriedades importantes da consciência são melhor compreendidas do ponto de vista funcional e que a equivalência funcional do comportamento é tudo o que pode realmente importar para as questões práticas da conceção de agentes morais artificiais. Esta funcionalidade pode ser observada no caso do voo.

O voo, enquanto propriedade funcional, argumentam eles, pode ser alcançado de várias formas, desde que se consiga levantar voo e permanecer no ar durante um período de tempo razoável. Na sua opinião, no que diz respeito à questão dos agentes morais artificiais, é irrelevante se as máquinas de IA possuem a propriedade fenomenológica da consciência humana. No seu livro, Wallach e Allen discutem como a ética das virtudes pode ser aplicada aos agentes morais artificiais. Argumentam que as virtudes constituem uma aplicação híbrida que integra abordagens de cima para baixo e de baixo para cima. Na medida em que as próprias virtudes podem ser descritas explicitamente, trata-se de uma abordagem de cima para baixo. Entretanto, a aquisição de virtudes como traços de caráter moral é essencialmente um processo de baixo para cima.15 O seu objectivo é desenvolver um sistema ético viável para máquinas robóticas de IA.

Neste ensaio, também adopto uma abordagem baseada na ética das virtudes para a ética das máquinas de IA, mas com um objetivo diferente. O meu objectivo é revelar uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e máquinas de IA virtuosas, e faço-o a partir de uma perspectiva confucionista.

(continua)

1 Set 2026

IA | Fabricante chinesa de chips Enflame prepara entrada em bolsa

A Enflame Technology, uma das principais ‘start-ups’ chinesas de semicondutores para inteligência artificial (IA), vai abrir em 02 de Setembro as subscrições para uma oferta pública inicial, visando captar 765 milhões de euros.

Num comunicado enviado ontem à Bolsa de Valores de Xangai, a empresa indicou que vai vender cerca de 43 milhões de acções, a um preço ainda por determinar, embora na documentação apresentada no pedido de admissão à bolsa em Xangai tenha avançado que pretende captar cerca de seis mil milhões de yuan.

A Enflame é conhecida como um dos “quatro pequenos dragões” chineses do sector dos semicondutores para IA, juntamente com a MetaX, Moore Threads e Biren Technology, sendo a última deste grupo a avançar para bolsa.

As restantes protagonizaram ofertas públicas de grande dimensão entre o final do 2025 e o início de 2026. A estreia da Enflame servirá também para avaliar o apetite dos investidores, depois de a Moore Threads ter disparado 425 por cento na primeira sessão em bolsa, a MetaX 693 por cento e a Biren 76 por cento.

27 Ago 2026

Manus | Pequim vai levantar proibição de viagem a fundadores de empresa de IA

Pequim planeia levantar a proibição de viagem imposta aos fundadores da empresa de inteligência artificial (IA) Manus, após a empresa cancelar a sua aquisição de 2 mil milhões de dólares pela Meta, reportou o jornal Financial Times.

Segundo o jornal britânico, Xiao Hong, presidente executivo e co-fundador da Manus, informou recentemente os colaboradores de que tenciona regressar em breve a Singapura, onde está sediada a plataforma.

Xiao e outros elementos da direcção da Manus, incluindo o cientista-chefe Ji Yichao, foram impedidos de sair da China após terem sido intimados a deslocar-se a Pequim em Março, devido a uma investigação iniciada pelas autoridades chinesas à venda da start-up à gigante tecnológica norte-americana Meta, com o objectivo de determinar se tinham sido violadas as regras de investimento.

Esta semana, a Manus anunciou que voltará em breve a operar como uma empresa independente. “Isto faz parte do nosso processo de separação da Meta; temos de dar este passo para cumprir os requisitos regulamentares em determinadas regiões do mundo”, esclareceu a empresa no seu portal na passada terça-feira.

No âmbito do acordo de anulação, a maioria dos antigos investidores da Manus — incluindo a Tencent, a ZhenFund e a empresa de equidade privada HSG —, juntamente com a equipa de gestão, irá recomprar a empresa à Meta com base na mesma avaliação de cerca de 2 mil milhões de dólares, avançou o Financial Times (FT) no mês passado.

Ainda assim, a Tencent terá apenas uma participação minoritária e a Manus continuará a operar de forma independente a partir de Singapura, em vez de ser integrada na tecnológica chinesa.

18 Ago 2026

Crime | Desmanteladas três redes por extorsão a celebridades

Os grupos criminosos criavam contas nas redes sociais onde angariavam milhões de seguidores que depois manipulavam para obter lucros de milhões

A polícia chinesa desmantelou três redes criminosas e deteve 24 indivíduos suspeitos de utilizarem inteligência artificial (IA) e contas com milhões de seguidores nas redes sociais para extorquir produtoras de televisão e celebridades, reportaram meios de comunicação estatais chineses.

Segundo a agência noticiosa estatal Xinhua, em Heyuan, na província de Guangdong, um suspeito de apelido Li estabeleceu e registou uma agência multimédia e operou várias contas em redes sociais com um total de mais de dez milhões de seguidores, com o objectivo de reunir e compilar rumores sobre celebridades.

Uma vez compilado o material, o grupo utilizava ferramentas de inteligência artificial (IA) para gerar e publicar conteúdos, “gerando intencionalmente discurso público negativo durante a transmissão de telenovelas e programas de entretenimento”, relatou a Xinhua.

Quando as equipas de produção ficavam sob pressão pública, abordavam a agência para negociar a remoção dos conteúdos. O suspeito exigia então que as empresas envolvidas adquirissem os chamados serviços de “protecção”, ameaçando manter as publicações negativas online caso contrário.

Os pacotes de “protecção” do grupo incluíam a publicação de conteúdo promocional positivo sobre as telenovelas, a remoção de publicações negativas anteriormente divulgadas sobre as celebridades envolvidas, e o compromisso de não publicar mais material negativo enquanto a produção estivesse a ser exibida. A polícia de Heyuan deteve um total de 12 pessoas pertencentes a este grupo.

Outras manipulações

Entretanto, em Hangzhou, província de Zhejiang, outra rede criminosa, estabeleceu uma empresa cultural e de media através da qual alegadamente manipulava a opinião pública online “de forma sistemática, deliberada e processual”, tendo sido detidos 10 suspeitos.

Segundo as reportagens, o grupo utilizava várias contas em redes sociais, cada uma com milhões de seguidores, “para compilar, fabricar e publicar sistematicamente grandes quantidades de informações negativas” dirigidas a filmes populares, telenovelas, programas de entretenimento de sucesso e celebridades de alta visibilidade durante um longo período.

“Criando pressão pública, forçavam as vítimas a contactá-los e a adquirir os chamados serviços de ‘protecção de espectáculos’, obtendo assim lucros ilegais”, afirmou a agência. A Xinhua comentou que as actividades criminosas deste grupo “perturbaram gravemente o ecossistema saudável” da indústria cultural e de entretenimento.

A polícia chinesa deteve também duas pessoas em Fuzhou, província de Fujian, acusadas de recolher “informações negativas” sobre novas telenovelas e celebridades “durante um longo período”, “manipulando contas em várias plataformas online populares para fabricar e difundir conteúdo falso”.

“Sempre que uma telenovela popular era transmitida ou um artista aparecia num evento público, o par utilizava as contas para publicar conteúdo negativo, inflaccionando artificialmente a popularidade das publicações e criando deliberadamente discurso público negativo”, acrescentou.

Preocupadas com o facto de a publicidade negativa poder prejudicar “as reputações e os interesses comerciais” dos artistas, as equipas de produção e as equipas de gestão contactavam proactivamente os suspeitos para solicitar a remoção das publicações, e o par eliminava então os conteúdos relevantes mediante o recebimento do pagamento.

“O ciberespaço não é uma zona sem lei. A utilização organizada de plataformas online para praticar extorsão, perturbando gravemente a ordem online, constitui um crime”, reportou a Xinhua, citando um comunicado do Departamento de Segurança Cibernética do país.

18 Ago 2026

IA | Pedida clarificação de regras para uso nas escolas

O deputado Ngan Iek Hang interpelou o Executivo, por escrito, sobre a necessidade de definir regras para o uso da Inteligência Artificial nas escolas. Ngan Iek Hang sugere também a implementação de um sistema que avalie a literacia digital dos alunos neste domínio

A chegada da Inteligência Artificial (IA) a todos as áreas da vida em sociedade é já uma realidade, incluindo o ensino, e para o deputado Ngan Iek Hang é imperativo que as autoridades definam regras para o seu uso nas escolas.

Numa interpelação escrita dirigida ao Governo, o deputado alerta para a necessidade de “optimizar a qualidade e eficácia da educação inteligente em Macau”, nomeadamente com a criação de “orientações e normas de supervisão para a utilização da IA nos diferentes níveis de ensino”.

Ngan Iek Hang pede que se tenha em consideração “as experiências internacionais e no interior da China”, sendo que essas novas normas iriam complementar “o actual quadro curricular e os requisitos de competências básicas” dos alunos.

O deputado destaca mesmo a importância de estabelecer regras para o ensino primário. “Tendo em conta as diferentes fases de desenvolvimento cognitivo das crianças do ensino primário, irá [o Governo] estabelecer princípios adequados para a utilização desta tecnologia?”, questionou.

Ao regulamentar a IA no ensino primário, o deputado espera que se possa “optimizar e consolidar as capacidades fundamentais dos alunos na leitura, expressão e raciocínio lógico”, bem como o “pensamento inovador”. Com o estabelecimento de regras, os alunos podem “utilizar melhor as ferramentas de IA com orientação dos professores e encarregados de educação, melhorando a sua literacia digital”.

Riscos a ter em conta

É certo que o deputado defende a regulamentação, mas alerta para os riscos, citando normas da UNESCO, nomeadamente quanto à “recomendação da definição dos 13 anos de idade como idade mínima para a utilização autónoma” da IA. Ngan Iek Hang referiu também que “com a crescente popularização e utilização da IA, vários países e regiões têm vindo a manifestar preocupação com a potencial interferência no desenvolvimento cognitivo das crianças mais jovens”.

O deputado pede ainda que o Governo considere “a criação de um mecanismo de avaliação da literacia dos alunos” nesta área, a fim de “avaliar, de forma objectiva, os resultados da implementação nas diferentes escolas e a situação da aprendizagem dos alunos”.

Desta forma, o deputado entende que, com mais regras para a utilização da IA, pode-se ajustar as “estratégias pedagógicas e medidas de apoio”, a fim de promover “um desenvolvimento mais sólido, estável e ordenado da educação em inteligência artificial em todos os níveis de ensino”.

17 Ago 2026

IA na China cresceu 40% em 2025 atingindo 153,9 mil milhões de euros

As autoridades chinesas anunciaram que o sector da inteligência artificial (IA) na China deverá ultrapassar 1,2 biliões de yuan em 2025, o que representa um aumento de 40 por cento em relação ao ano anterior.

“Até ao final de Junho, o número de empresas de IA ultrapassou as 6.600, representando 15 por cento do total mundial”, afirmou a Academia Chinesa de Tecnologia da Informação e Comunicações (CAICT) num comunicado publicado nas redes sociais na segunda-feira.

De acordo com a CAICT, a indústria de IA na China estabeleceu um “ecossistema industrial abrangente que inclui infraestruturas de base, estruturas de modelos e aplicações industriais”. A academia referiu que a cadeia industrial da IA se divide na camada de infraestruturas, na camada de estruturas de modelos e na camada de aplicações.

“Em 2025, a dimensão da camada de infraestruturas de IA da China cresceu 59 por cento em relação ao ano anterior, representando 38 por cento do total; a dimensão da camada de estruturas de modelos de IA cresceu 189 por cento, representando 7 por cento, e a dimensão da camada de aplicações de IA cresceu 22 por cento, representando 55 por cento”, acrescentou a CAICT.

Expansão em curso

A CAIC observou que a indústria de inteligência artificial da China é “altamente concentrada” em termos de distribuição geográfica. Pequim, Guangdong, Xangai, Zhejiang e Shandong lideram o desenvolvimento da IA, juntas, estas cinco províncias representam mais de 80 por cento da indústria de IA da China.

A academia descreveu o sector da IA na China como “em plena expansão”, com as inovações tecnológicas a alcançarem uma série de avanços, “marcando um período de vitalidade sem precedentes”.

A tecnológica chinesa Alibaba apresentou esta semana o Qwen3.8-Max, o seu modelo de inteligência artificial mais avançado até à data, num novo passo na competição entre os principais programadores chineses e norte-americanos de sistemas de raciocínio, programação e agentes autónomos.

O Qwen tornou-se um dos principais pilares da aposta da Alibaba na inteligência artificial e na computação em nuvem, áreas nas quais o grupo anunciou investimentos superiores a 52 mil milhões de dólares ao longo de três anos.

O lançamento ocorre numa altura de forte dinamismo do setor chinês da IA, após a apresentação de modelos como o Kimi K3, da Moonshot, ou o GLM-5.2, da Zhipu, e em plena competição tecnológica entre a China e os Estados Unidos por tecnologias consideradas estratégicas.

5 Ago 2026

Exército | Xi quer acelerar utilização militar da inteligência artificial

O Presidente chinês, Xi Jinping, instou a acelerar a utilização militar da inteligência artificial e de tecnologias não tripuladas no âmbito da modernização das Forças Armadas, visando avançar para um “sistema militar inteligente”.

Xi, que preside à Comissão Militar Central (CMC), o mais alto órgão de direcção das Forças Armadas chinesas, fez estas declarações durante uma sessão de estudo do Politburo do Partido Comunista Chinês (PCC), realizada na véspera do 99.º aniversário da fundação do Exército de Libertação Popular (ELP), que se assinalou no sábado, informou sexta-feira a agência de notícias oficial Xinhua.

O líder chinês afirmou que o principal critério para avaliar os progressos da modernização militar deve ser a capacidade de combate e apelou ao reforço da aplicação militar de tecnologias inteligentes e de sistemas não tripulados, ao aprofundamento do desenvolvimento de sistemas de informação em rede e ao avanço gradual para a criação de um “sistema militar inteligente”.

Xi defendeu ainda o reforço da integração das capacidades de combate, a intensificação dos testes e avaliações em condições reais e o avanço contínuo do treino e da preparação militar para salvaguardar a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento do país.

O Presidente chinês insistiu também no reforço da liderança absoluta do PCC sobre as Forças Armadas e no aprofundamento da campanha anti-corrupção no Exército, através de um maior controlo dos grandes projectos militares e dos mecanismos de supervisão.

As declarações surgem quando Pequim intensificou as medidas para reforçar a disciplina e o controlo político sobre a cúpula militar, após uma série de investigações por corrupção que atingiram responsáveis das Forças Armadas e antigos dirigentes da Defesa. Nos últimos meses, Xi promoveu novas normas de supervisão para oficiais superiores e reiterou a necessidade de reforçar a lealdade política no seio das Forças Armadas.

3 Ago 2026

IA | Governo quer formar quadros “médicos ‘mistos’”

O Governo anunciou ontem que vai reforçar a formação de profissionais de saúde com competências combinadas em Medicina e inteligência artificial (IA), aprofundando a cooperação com instituições de ensino superior.

“Para o futuro, prevê-se o aprofundamento da cooperação com as instituições de ensino superior no sentido de cultivar quadros qualificados médicos ‘mistos’ de integração entre a Medicina e a Engenharia, os quais combinem a prática clínica com capacidades em tecnologia de IA”, disse esta tarde na Assembleia Legislativa a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura.

O Lam, que respondia a uma interpelação de Lei Wun Kong e Kou Kam Fai – do grupo de deputados nomeados pelo chefe do Executivo – destacou que, como parte desta estratégia de formação de “quadros qualificados ‘mistos’ interdisciplinares”, planeia-se a criação, no ano lectivo 2027/2028, dos mestrados de Inteligência Artificial para Biologia e Engenharia Médica Inteligente.

Estes programas, notou, vão juntar-se a formações já existentes em áreas como a da “MTC [Medicina Tradicional Chinesa], de administração medicinal, de técnicas farmacêuticas, ciências biomédicas, bem como de descoberta de drogas impulsionada por IA”.

Lei Wun Kong e Kou Kam Fai interpelaram as autoridades sobre a necessidade de definir uma “estratégia de desenvolvimento saudável” da IA aplicada à saúde, questionando, por exemplo, se existe a intenção de investir em equipamento médico avançado ou exportar soluções digitais para os países de língua portuguesa.

31 Jul 2026

Anunciada reconversão do sistema educativo a pensar na IA

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, anunciou ontem que haverá uma reconversão de todo o sistema educativo, desde o ensino técnico-profissional ao ensino superior, a pensar na Inteligência Artificial (IA) e na necessidade de novos conteúdos e formatos. “Vamos implementar a educação em IA em todas as fases de educação e melhorar os cursos técnico-profissionais nas escolas, e no ano lectivo de 2025-2026 12 escolas já administraram cursos nesta matéria”, começou por dizer o governante.

“No ensino superior vamos aditar cursos de IA, na área do Direito ou gestão digital, e fazer com que as instituições do ensino superior possam organizar micro cursos para esse efeito”, acrescentou.

Sam Hou Fai, que foi ontem à Assembleia Legislativa (AL) fazer um balanço dos seis meses de Governo, respondeu, assim, às muitas perguntas colocadas pelos deputados sobre a necessidade de apoios ao emprego dos jovens e dos residentes.

Ngan Iek Hang disse que “os recém-graduados esperam maior diversificação dos postos de trabalho em cargos de base e médios nas indústrias emergentes”, enquanto Lam Lon Wai destacou que “o que mais preocupa os residentes continua a ser o emprego”.

“Muitos jovens são licenciados, mas não têm experiência, enquanto alguns trabalhadores de meia idade temem que as suas competências fiquem desactualizadas”, indicou o deputado dos Operários. Lam Lon Wai lembrou que “muitos cursos não correspondem às necessidades de mercado”.

Chan Hao Weng disse mesmo que “os resultados da transformação de indústrias continuam a não beneficiar os residentes”.

Estudo a caminho

Ainda em matéria de emprego e trabalhadores não-residentes (TNR), Sam Hou Fai revelou que será divulgado, “ainda este ano”, o relatório do estudo encomendado pelo Governo sobre a necessidade de quadros qualificados no futuro, nomeadamente sobre “as indústrias mais populares, como a educação e área jurídica”.

Face a dados no apoio ao emprego, o Chefe do Executivo referiu que entre os meses de Janeiro a Abril deste ano, houve 40 sessões de apoio a 3.370 residentes.

Sobre os TNR, ficou a promessa de “ajustar o número de quotas em conformidade com o desenvolvimento da RAEM”. Até Abril deste ano Macau tinha 182.815 TNR, dos quais cerca de 147 mil não tinham qualquer profissionalização. Apenas 6.887 TNR têm formação ou são qualificados, trabalhando no território 28.683 não-residentes que fazem trabalho doméstico, “o que representa um grande número”, disse o Chefe do Executivo.

Sam Hou Fai concluiu, assim, que “70 por cento dos TNR não profissionais fazem trabalhos que requerem força física, na área da segurança e das limpezas”.

UTM | Extintos cinco cursos

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, aprovou a extinção de cinco cursos de diploma da Universidade de Turismo de Macau.

Segundo a informação do Boletim Oficial, vão ser extintos os cursos de diploma de Gestão de Empresas Turísticas, curso de diploma de Gestão do Património Cultural, curso de diploma de Gestão Hoteleira, curso de diploma de Gestão e Programação de Eventos e curso de diploma de Gestão de Venda Turística e de Promoção de Marketing.

Todos estes cursos tinham uma duração de dois anos e foram aprovados a partir de 2010. Como parte da extinção, a Universidade de Turismo de Macau garante que os actuais alunos não são afectados e que serão conservados os registos académicos dos alunos que frequentaram as formações que vão ser descontinuadas.

17 Jun 2026

Gigantes tecnológicos reunidos em Taiwan na feira Computex

Os principais responsáveis de empresas tecnológicas como Nvidia, Intel, Qualcomm e SK Hynix reúnem-se esta semana em Taiwan para a Computex, num momento de intensa competição global pelo desenvolvimento da inteligência artificial (IA).

A Computex, uma das mais importantes feiras tecnológicas do mundo, arrancou oficialmente ontem em Taipé e decorre até sexta-feira, reunindo líderes da indústria num momento marcado pela corrida à inteligência artificial e pelas limitações na oferta de componentes críticos.

O destaque da edição deste ano foi a intervenção do director executivo da Nvidia, Jensen Huang, que antecipou a abertura do certame para anunciar a nova sede da empresa em Taiwan e reuniu-se com parceiros locais, incluindo a TSMC, principal fabricante mundial de semicondutores avançados para IA.

Durante uma apresentação de duas horas, Huang revelou várias novidades da empresa, entre elas o RTX Spark, um ‘superchip’ com o qual a Nvidia pretende entrar no mercado de processadores para computadores pessoais, actualmente dominado por empresas como Intel, Qualcomm, AMD e Apple.

Outro dos temas centrais da feira tem sido o chamado “agente IA”, uma nova geração de sistemas de inteligência artificial capazes não apenas de gerar respostas, mas também de tomar decisões e executar tarefas de forma autónoma.

O presidente executivo da Qualcomm, Cristiano Amon, previu que 2026 será “o ano dos agentes”, acrescentando que esta tecnologia deverá expandir-se a praticamente todos os dispositivos eletrónicos.

“É agora que a IA está verdadeiramente a evoluir e vai atingir uma escala incrível”, afirmou Amon num evento realizado antes da abertura da Computex. Também o diretor executivo da britânica Arm Holdings, Rene Haas, considerou que este tipo de inteligência artificial está a impulsionar a procura por unidades centrais de processamento (CPU) a um ritmo sem precedentes.

Ilha vital

A presença de alguns dos nomes mais influentes da indústria serviu igualmente para reforçar a importância de Taiwan na cadeia global de fornecimento tecnológico.

A maioria dos semicondutores avançados utilizados em aplicações de inteligência artificial é produzida na ilha, que também concentra uma parte significativa da produção mundial de servidores para centros de dados.

Recentemente, Jensen Huang anunciou que a Nvidia irá aumentar o investimento anual em Taiwan para 150 mil milhões de dólares, enquanto a AMD revelou planos para investir mais de 10 mil milhões de dólares no ecossistema taiwanês de semicondutores.

Neste contexto, o líder taiwanês, William Lai, afirmou ontem que o mundo necessita de “Taiwan estável, fiável e capaz de assumir responsabilidades” para sustentar o desenvolvimento da inteligência artificial.

3 Jun 2026

A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (II)

A semana passada, analisámos o impacto da ascensão da IA generativa nos planos de reforma. Ao longo da última década, a tendência da “Independência Financeira, Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se por todo o mundo, com muitos trabalhadores do sector de serviços ambicionando reformar-se cedo e viverem da aposentadoria.

No entanto, desde o aparecimento do ChatGPT em finais de 2022, a velocidade da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não só na remodelação das estruturas industriais, mas também ao abalar directamente a lógica fundamental do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

Confrontados com a transformação provocada pela IA, os trabalhadores administrativos podem proteger-se através de estratégias a três tempos: a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo. A estratégia a curto prazo consiste em desenvolver competências de colaboração com a IA, usando-a como uma ferramenta que potencia a eficiência reforçando assim a sua posição no local de trabalho e a sua Imprescindibilidade. A estratégia a médio prazo consiste em optimizar a alocação de bens e usar ferramentas financeiras profissionais para reduzir a dependência exclusiva do salário. A estratégia a longo prazo passa por reformular competências interdisciplinares, abraçando áreas onde a IA tem menos probabilidades de ser usada, como ligações interpessoais, tomada de decisões complexas e serviços que dependem sobretudo do lado emocional.

As áreas profissionais que neste momento são menos afectadas pela IA, como a medicina, o aconselhamento psicológico, o artesanato de alto nível, a advocacia, as políticas públicas governamentais e a consultoria privada especializada, dependem em grande escala do julgamento humano, da confiança interpessoal, da experiência e da adaptabilidade às situações. Embora seja pouco provável que a curto prazo estes sectores sejam completamente assumidos pela IA, enfrentam na mesma três grandes riscos no que diz respeito à reforma: inflação, envelhecimento da população e aumento dos custos da saúde.

As estratégias de aposentação para grupos profissionais estáveis também podem ter abordagens a curto, médio e longo prazo. As estratégias a curto prazo passam pela maximização das ferramentas de protecção estatutária, como o Fundo de Previdência Social da China, o Fundo de Previdência Obrigatório de Hong Kong (MPF, sigla em inglês), seguro de saúde opcional no local de trabalho, e o Fundo de Aposentação Opcional de Macau, que proporcionam diferentes opções de reforma e de protecção de saúde. O MPF de Hong Kong permite aumentar as contribuições mensais de acordo com as necessidades individuais, oferecendo segurança no período da reforma. As estratégias a médio prazo incluem a alocação de activos de rendimento passivo estável, como a aquisição de acções que pagam dividendos trimestrais ou a subscrição de obrigações com retorno fixo. As estratégias a longo prazo consistem na criação de planos de previdência e fundos fiduciários para garantir a cobertura de despesas essenciais futuras, como a compra de um seguro de vida com cobertura de renda vitalícia. Além disso, os colaboradores podem tornar-se consultores do seu sector de actividade, para apoiarem as empresas após a reforma e manterem as suas fontes de rendimento.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, procure um consultor profissional licenciado para todas as decisões financeiras.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

26 Mai 2026