Hoje Macau China / ÁsiaGigantes tecnológicos reunidos em Taiwan na feira Computex Os principais responsáveis de empresas tecnológicas como Nvidia, Intel, Qualcomm e SK Hynix reúnem-se esta semana em Taiwan para a Computex, num momento de intensa competição global pelo desenvolvimento da inteligência artificial (IA). A Computex, uma das mais importantes feiras tecnológicas do mundo, arrancou oficialmente ontem em Taipé e decorre até sexta-feira, reunindo líderes da indústria num momento marcado pela corrida à inteligência artificial e pelas limitações na oferta de componentes críticos. O destaque da edição deste ano foi a intervenção do director executivo da Nvidia, Jensen Huang, que antecipou a abertura do certame para anunciar a nova sede da empresa em Taiwan e reuniu-se com parceiros locais, incluindo a TSMC, principal fabricante mundial de semicondutores avançados para IA. Durante uma apresentação de duas horas, Huang revelou várias novidades da empresa, entre elas o RTX Spark, um ‘superchip’ com o qual a Nvidia pretende entrar no mercado de processadores para computadores pessoais, actualmente dominado por empresas como Intel, Qualcomm, AMD e Apple. Outro dos temas centrais da feira tem sido o chamado “agente IA”, uma nova geração de sistemas de inteligência artificial capazes não apenas de gerar respostas, mas também de tomar decisões e executar tarefas de forma autónoma. O presidente executivo da Qualcomm, Cristiano Amon, previu que 2026 será “o ano dos agentes”, acrescentando que esta tecnologia deverá expandir-se a praticamente todos os dispositivos eletrónicos. “É agora que a IA está verdadeiramente a evoluir e vai atingir uma escala incrível”, afirmou Amon num evento realizado antes da abertura da Computex. Também o diretor executivo da britânica Arm Holdings, Rene Haas, considerou que este tipo de inteligência artificial está a impulsionar a procura por unidades centrais de processamento (CPU) a um ritmo sem precedentes. Ilha vital A presença de alguns dos nomes mais influentes da indústria serviu igualmente para reforçar a importância de Taiwan na cadeia global de fornecimento tecnológico. A maioria dos semicondutores avançados utilizados em aplicações de inteligência artificial é produzida na ilha, que também concentra uma parte significativa da produção mundial de servidores para centros de dados. Recentemente, Jensen Huang anunciou que a Nvidia irá aumentar o investimento anual em Taiwan para 150 mil milhões de dólares, enquanto a AMD revelou planos para investir mais de 10 mil milhões de dólares no ecossistema taiwanês de semicondutores. Neste contexto, o líder taiwanês, William Lai, afirmou ontem que o mundo necessita de “Taiwan estável, fiável e capaz de assumir responsabilidades” para sustentar o desenvolvimento da inteligência artificial.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesA vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (II) A semana passada, analisámos o impacto da ascensão da IA generativa nos planos de reforma. Ao longo da última década, a tendência da “Independência Financeira, Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se por todo o mundo, com muitos trabalhadores do sector de serviços ambicionando reformar-se cedo e viverem da aposentadoria. No entanto, desde o aparecimento do ChatGPT em finais de 2022, a velocidade da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não só na remodelação das estruturas industriais, mas também ao abalar directamente a lógica fundamental do FIRE tradicional e do Coast FIRE. Confrontados com a transformação provocada pela IA, os trabalhadores administrativos podem proteger-se através de estratégias a três tempos: a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo. A estratégia a curto prazo consiste em desenvolver competências de colaboração com a IA, usando-a como uma ferramenta que potencia a eficiência reforçando assim a sua posição no local de trabalho e a sua Imprescindibilidade. A estratégia a médio prazo consiste em optimizar a alocação de bens e usar ferramentas financeiras profissionais para reduzir a dependência exclusiva do salário. A estratégia a longo prazo passa por reformular competências interdisciplinares, abraçando áreas onde a IA tem menos probabilidades de ser usada, como ligações interpessoais, tomada de decisões complexas e serviços que dependem sobretudo do lado emocional. As áreas profissionais que neste momento são menos afectadas pela IA, como a medicina, o aconselhamento psicológico, o artesanato de alto nível, a advocacia, as políticas públicas governamentais e a consultoria privada especializada, dependem em grande escala do julgamento humano, da confiança interpessoal, da experiência e da adaptabilidade às situações. Embora seja pouco provável que a curto prazo estes sectores sejam completamente assumidos pela IA, enfrentam na mesma três grandes riscos no que diz respeito à reforma: inflação, envelhecimento da população e aumento dos custos da saúde. As estratégias de aposentação para grupos profissionais estáveis também podem ter abordagens a curto, médio e longo prazo. As estratégias a curto prazo passam pela maximização das ferramentas de protecção estatutária, como o Fundo de Previdência Social da China, o Fundo de Previdência Obrigatório de Hong Kong (MPF, sigla em inglês), seguro de saúde opcional no local de trabalho, e o Fundo de Aposentação Opcional de Macau, que proporcionam diferentes opções de reforma e de protecção de saúde. O MPF de Hong Kong permite aumentar as contribuições mensais de acordo com as necessidades individuais, oferecendo segurança no período da reforma. As estratégias a médio prazo incluem a alocação de activos de rendimento passivo estável, como a aquisição de acções que pagam dividendos trimestrais ou a subscrição de obrigações com retorno fixo. As estratégias a longo prazo consistem na criação de planos de previdência e fundos fiduciários para garantir a cobertura de despesas essenciais futuras, como a compra de um seguro de vida com cobertura de renda vitalícia. Além disso, os colaboradores podem tornar-se consultores do seu sector de actividade, para apoiarem as empresas após a reforma e manterem as suas fontes de rendimento. Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, procure um consultor profissional licenciado para todas as decisões financeiras. Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Andreia Sofia Silva PolíticaIA | Leong Pou U pede orientações e diálogo com trabalhadores O deputado Leong Pou U recorreu ao período de intervenções antes da ordem do dia no hemiciclo para sugerir maior diálogo entre Governo, associações e trabalhadores como reacção à chegada da inteligência artificial (IA) ao mercado de trabalho. “Sugiro ao Governo que se articule estreitamente com o 15º Plano Quinquenal do país e que, no âmbito do 3º Plano Quinquenal da RAEM, e tendo em conta a realidade de Macau, estude e defina orientações para a aplicação da IA em Macau.” A ideia, segundo o deputado, é que possam ser “aperfeiçoados os respectivos diplomas legais, assegurando que a tecnologia IA possa ser aplicada e desenvolvida de forma saudável e ordenada” no território. Leong Pou U acredita que, no futuro, o “núcleo’ do trabalho civil vai passar da ‘execução repetitiva das tarefas’ para o ‘controlo da IA'”, com aqueles que criam conteúdo a passarem a ser “supervisores e analistas” do que a IA vai produzir. Assim, o deputado defende que “Governo, empresas e associações de trabalhadores reforcem o diálogo social”, promovendo “formação sobre a aplicação da IA, nomeadamente para os sectores que podem ter mais riscos no uso de aplicações de IA, por forma a apoiar os trabalhadores a adaptarem-se às mudanças da nova era”.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesA vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (I) Um artigo publicado no Hong Kong Economic Times (HKET) no passado dia 24 de Abril, analisa o impacto da ascensão da inteligência artificial no plano de aposentações. Ao longo da última década, a tendência para a “Independência Financeira e para a Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se pelo mundo, com muitos trabalhadores de “colarinho branco” desejando reformar-se cedo e viver dos rendimentos. No entanto, desde o lançamento do ChatGPT nos finais de 2022, a velocidade da interacção da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não apenas através da remodelação das estruturas industriais, mas também pelo abalo na lógica do FIRE tradicional e do Coast FIRE. O artigo cita uma análise de Nick Maggiulli, Director Executivo da Ritholtz Wealth Management. A IA está gradualmente a minar a estabilidade do emprego dos trabalhadores de “colarinho branco”. As funções que dependem de um resultado padronizado, de processos repetitivos e de um elevado grau de digitalização são as primeiras a sofrer a pressão da substituição e os planos de aposentação dos trabalhadores são mais facilmente postos em causa. O sector do design gráfico está particularmente afectado, porque a IA gera facilmente trabalhos de alta qualidade, o que implica redução de salários e de oportunidades para os profissionais da área. Olhando para a tendência anual do preço das acções da Fiverr, uma plataforma global freelance, o ano passado o seu valor reduziu praticamente para metade, reflectindo as preocupações do mercado sobre a probabilidade de a IA substituir os trabalhadores da área digital. O impacto da IA não se faz só sentir em funções a tempo inteiro; também afecta gravemente os negócios paralelos dos quais os semi-reformados dependem para viver, como traduções, programação básica, redacção de conteúdos e análise introdutória de dados. Nick Maggiulli avança com três soluções pragmáticas: desistir do objectivo do “Coast Fire” e evitar abandonar empregos estáveis a tempo inteiro; aumentar o período de acumulação de poupanças antes das funções que se desempenha passarem a ser executadas pela IA e reavaliar o próprio valor comercial, considerando a lógica do lucro que age contra os indivíduos perante as capacidades mais fortes da IA. De uma perspectiva macro-social, a crise financeira de 2008, a pandemia de COVID-19 e a reavaliação global das acções tecnológicas de 2022 demonstram que a incerteza do mercado é a norma e que a IA é apenas uma nova variável estrutural. O maior risco que correm as pessoas que se reformam cedo não é muitas vezes a insuficiência de fundos, mas sim a incapacidade de se reintegrarem no mundo do trabalho depois de terem perdido o contacto com a realidade laboral. Por outro lado, uma grande acumulação de capital funciona como uma defesa natural; independentemente de terem ou não sido substituídos pela IA, as poupanças elevadas são um amortecedor contra riscos. A realidade torna-se clara quando consideramos os dados recentes da China continental, de Hong Kong e de Macau: Dados do relatório de emprego de 2026 da Zhaopin.com mostram que a procura de posições asseguradas pela IA na China continental aumentará mais de 100% a cada ano, ao passo que trabalhadores de escritório e administrativos que desempenham funções básicas continuam a ser despedidos. Um relatório da Fintech da InvestHK indica que a automatização da IA está a ser adoptada em larga escala em Hong Kong para contabilidade e documentação financeira básicas e auditoria de conformidade. Em Macau, devido à sua estrutura industrial singular e à crescente alteração nos sectores do jogo e dos serviços, a pressão sobre os indivíduos de meia-idade está a aumentar dramaticamente. Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, consulte um consultor profissional licenciado para tomar decisões financeiras. Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
Hoje Macau China / ÁsiaIA | Bloqueada aquisição da ‘startup’ Manus pela Meta A China bloqueou a aquisição da ‘startup’ de inteligência artificial Manus pela tecnológica norte-americana Meta, por 2.000 milhões de dólares invocando regras de segurança sobre investimento estrangeiro, segundo um comunicado oficial. Numa nota breve divulgada ontem, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma indicou que proibiu a operação e exigiu às partes envolvidas que abandonassem o negócio, sem mencionar directamente a Meta, dona do Facebook e do Instagram. A decisão foi tomada pelo mecanismo de revisão de segurança do investimento estrangeiro, ao abrigo da legislação chinesa, após as autoridades terem anunciado no início do ano que estavam a analisar o caso. A entidade não detalhou as razões concretas para o bloqueio. A Meta tinha anunciado em Dezembro a aquisição da Manus, uma empresa de inteligência artificial com raízes chinesas mas sediada em Singapura, num movimento pouco comum de uma grande tecnológica dos Estados Unidos sobre uma empresa ligada à China. A Manus desenvolve agentes de inteligência artificial de uso geral, capazes de executar tarefas complexas de forma autónoma, e a operação visava reforçar a oferta de IA da Meta nas suas plataformas. A empresa norte-americana tinha garantido que não haveria participação chinesa remanescente na Manus e que esta cessaria operações na China. Ainda assim, o ministério do Comércio chinês alertou, em Janeiro, que operações envolvendo investimento externo, exportação de tecnologia, transferência de dados e aquisições transfronteiriças devem cumprir a legislação nacional. Em reacção, a Meta afirmou ontem que a transacção “cumpriu plenamente a legislação aplicável” e disse esperar uma “resolução adequada” do processo.
Hoje Macau China / ÁsiaIA desenvolvida na China resolve problema matemático sem intervenção humana Uma equipa de investigadores liderada pela Universidade de Pequim desenvolveu um sistema de inteligência artificial (IA) capaz de resolver e verificar um problema matemático em aberto sem intervenção humana relevante. O modelo conseguiu, em poucas horas, formalizar a solução de uma conjectura apresentada em 2014, através de um sistema de duplo agente que combina raciocínio em linguagem natural e verificação formal, noticiou ontem o jornal de Hong Kong South China Morning Post. O sistema, descrito num artigo preliminar publicado no repositório arXiv, abordou um problema de álgebra comutativa proposto pelo matemático norte-americano Dan Anderson e concluiu a verificação em cerca de 80 horas de execução. Segundo os investigadores, o modelo integra um agente de raciocínio informal, responsável por explorar estratégias e construir possíveis demonstrações, com outro de verificação formal que traduz essas provas para um formato matemático rigoroso e verificável por máquina. A equipa indicou que a única intervenção humana consistiu em fornecer acesso a documentos restritos que o sistema não conseguiu obter autonomamente, sem necessidade de julgamento matemático durante o processo. Os autores defendem que esta abordagem permite automatizar tarefas que exigiam até agora colaboração entre especialistas e supervisão contínua, embora o trabalho ainda não tenha sido sujeito a revisão por pares. Sempre a abrir O desenvolvimento insere-se no avanço dos modelos de linguagem e dos sistemas baseados em agentes aplicados à investigação matemática, um domínio onde persistem desafios como a fiabilidade das demonstrações geradas por IA. Os investigadores sublinharam que a combinação de raciocínio em linguagem natural e verificação formal poderá facilitar a resolução de problemas complexos e reforçar a validação de resultados nesta área. O projecto surge após a emergência, nos últimos meses, de novos modelos chineses como o DeepSeek e outros desenvolvidos por grandes tecnológicas como Alibaba e ByteDance, que têm aumentado a visibilidade internacional do sector e reavivado a competição tecnológica com os Estados Unidos. A inteligência artificial foi também um dos temas centrais da reunião anual da Assembleia Popular Nacional, realizada em Março, na qual Pequim reafirmou a aposta na integração desta tecnologia em vários sectores da economia e na promoção do emprego associado.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteIA | Frederico Luz cria plataforma que ajuda a comunicar em mandarim Aluno de mandarim, programador e estudante na área da inteligência artificial, Frederico Luz criou uma plataforma que permite comunicar em mandarim, indo além da tradução ou do reconhecimento de caracteres. O projecto foi apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, e faz parte de um programa piloto do Instituto Confúcio Foi com a apresentação “Interação Sintética: Concepção e Avaliação de um Interlocutor ‘Large Language Model’ para Aprendentes de Mandarim” que Frederico Luz apresentou a plataforma de inteligência artificial (IA) que pretende facilitar a comunicação em chinês. A sessão decorreu em Lisboa no âmbito das Conferências da Primavera do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e, ao HM, Frederico Luz explicou o que está por detrás de um projecto que “dá ao utilizador vários cenários, ou missões, como pedir uma refeição num restaurante, comprar bilhetes de comboio, ou marcar planos com um amigo”. Na prática, “o aluno fala em mandarim e o sistema avalia o desempenho em tempo real”, ao nível da “pronúncia, gramática, vocabulário”, descreve Frederico Luz, que começou a estudar mandarim com 18 anos e que, actualmente, faz programação e estudos na área da IA no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. “A grande diferença em relação a um tutor humano é a fluidez. Quando estamos a falar com um professor e erramos, o professor tem de parar a conversa, explicar o erro, e depois retomar. Com a plataforma, as correções acontecem em paralelo e a conversa não para. Cada tipo de correção, na gramática, pronúncia ou vocabulário, é tratada separadamente e aparece sem interromper o diálogo. Além disso, quando através da conversa aprendemos uma palavra nova, podemos guardá-la directamente nos ‘flashcards’ [cartões de memória] e ela entra logo na nossa rotina de estudo”, explicou. Frederico Luz acredita que a plataforma que está a desenvolver “pode ajudar tangencialmente na tradução, por exemplo, na verificação de gramática”, embora o objectivo fulcral seja “ajudar as pessoas a aprender, para não precisarem da tradução”. “Da mesma forma que o Pleco [software de cartões de memória e dicionário para alunos de chinês] e o Anki [software de cartões de memória para aprendizagem de língua] mudaram a aprendizagem de chinês para milhões de pessoas, acho que ferramentas como esta podem tornar o mundo um bocadinho mais pequeno. Se mais portugueses conseguirem ter conversas reais em mandarim, sem depender de intermediários, isso muda a relação entre as duas comunidades de forma muito mais profunda do que qualquer tradutor automático”, descreveu. Na sessão apresentada no CCCM, Frederico Luz descreveu três componentes que permitem uma melhor comunicação na língua chinesa. O reconhecimento da fala, em que “o aprendente fala livremente em mandarim e o sistema transcreve e segmenta por carácter”, bem como a “avaliação tonal por carácter”, onde cada carácter “é avaliado individualmente”. O que o sistema criado por Frederico Luz vai fazer é “identificar o tom produzido e comparar com o tom esperado”. Uma terceira componente é a “interacção conversacional adaptativa”, já que o modelo de linguagem criado pelo programador “gera respostas contextuais adaptadas ao nível do aprendente, mantendo uma conversa natural”. Além da memória Frederico Luz conta que está a desenvolver “um sistema que vai além dos flashcards [cartões de memória] tradicionais, onde simplesmente reconhecemos um carácter e dizemos sim ou não”. “O que estou a construir pede ao aprendente para realmente ler os caracteres com base nos componentes que os constituem”, acrescenta, lembrando que nos Estados Unidos “houve uma grande controvérsia quando as escolas mudaram de um sistema de fónica (ler todas as sílabas) para um sistema de memorização da palavra inteira”, com “resultados desastrosos”. Segundo Frederico Luz, “a forma como a maioria das pessoas aprende caracteres chineses é exactamente essa memorização da palavra inteira”, pelo que esta nova plataforma de IA “é o equivalente da fónica para o chinês: decompor cada carácter nos seus componentes e realmente lê-lo, em vez de apenas reconhecê-lo como uma imagem”. O aluno de mandarim confessa que a plataforma o ajuda nos estudos, procurando, por exemplo, melhorar o reconhecimento da pronúncia “para aprendentes de nível mais baixo”, sendo uma das ferramentas onde está a trabalhar actualmente. O projecto piloto Frederico Luz começou a desenvolver esta plataforma para si próprio, mas a verdade é que está em curso a sua aplicação, em formato de programa piloto, com o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. “Curiosamente, o director Wang do Instituto Confúcio de Lisboa, tinha tido uma ideia muito semelhante há algum tempo e tentou desenvolvê-la com outro programador, mas o projecto não avançou. Quando propus a ferramenta e o programa piloto ao instituto, não estava a tentar convencê-los em acreditar numa coisa nova: estava simplesmente a dizer que já tinha feito o que eles queriam, sem sequer terem pedido”, salientou. Este programa piloto, assegura, vai permitir ter dados reais quanto ao lado prático desta plataforma. “Construí esta ferramenta primeiro para mim, mas não vou privar as pessoas de a utilizar só para poder aprender chinês melhor do que elas. Se virmos que a ferramenta é útil não vejo razão para não a comercializar. É por isso que o programa piloto no Instituto Confúcio é tão importante: vamos ter dados reais.” O próximo mundo Frederico Luz acredita que os riscos do uso da IA nesta área são mais visíveis “do lado da tradução automática”, pois existe “uma dependência excessiva de ferramentas que nos impede de realmente desenvolver competências”. “Tenho dificuldade em pensar numa forma em que a IA seja mal utilizada para aprender línguas”, assegura. “Há pessoas que me perguntam porque estou a aprender chinês se daqui a uns anos vai haver um tradutor universal. Acho que essa tecnologia vai existir em breve, sem questão nenhuma. Estamos no início da singularidade tecnológica e os avanços vão ser verdadeiramente espantosos. Mas aprender uma língua não é só sobre conseguir comunicar. Para mim, e para milhões de outros aprendentes, é uma questão de crescimento pessoal. Quando a IA torna tudo fácil, acho que é importante para o espírito humano conseguir fazer coisas difíceis”, descreveu. A “relevância crescente” da China A relação de Frederico Luz com o mandarim começou cedo, sendo actualmente aluno no Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. A programação “surgiu mais recentemente”, começando “a programar a sério há cerca de um ano, quando a IA, no caso do ‘Claude’ [modelos de linguagem] da Anthropic tornaram possível construir coisas reais”. Criar uma nova plataforma para ajudar a comunicar em mandarim “surgiu da forma mais natural possível”, já que o aluno “já estava a usar a IA para praticar chinês”, nomeadamente ao nível da correcção de gramática e ao nível das conversações. “Pensei que seria muito melhor se houvesse uma aplicação com uma interface dedicada a este uso, com avaliação de pronúncia e correcção em tempo real. Como esta aplicação não existia, criei-a. Foi uma ferramenta que construí primeiro para mim, porque precisava dela para aprender”, descreve. Frederico Luz estuda mandarim dada “a relevância crescente da China”, destacando que, num futuro próximo, “falar chinês vai ser tão importante como falar inglês”. “Trabalho em IA e os chineses estão muito à frente, não apenas no desenvolvimento técnico, mas sobretudo na aplicação real: estão a usar IA em hospitais, em escolas, administração pública, coisas que no Ocidente simplesmente não se vê”, remata.
Hoje Macau China / ÁsiaIA | Tencent integra OpenClaw no WeChat O gigante tecnológico chinês Tencent anunciou a integração de agentes de inteligência artificial (IA) baseados em OpenClaw na aplicação de mensagens WeChat, num novo passo na expansão destes sistemas na China. A empresa informou, em comunicado divulgado no domingo, o lançamento do complemento ‘ClawBot’, que permite aos utilizadores ligar o OpenClaw ao WeChat e operar o agente através de conversas, de forma semelhante a uma interacção convencional. O OpenClaw é um programa de código aberto que liga modelos de linguagem a um computador para executar acções no sistema, como gerir ficheiros, enviar correio electrónico ou interagir com aplicações a partir de instruções em linguagem natural. Nas últimas semanas, a ferramenta ganhou popularidade entre programadores chineses, onde é conhecida como “lagosta” devido ao seu ícone, originando um rápido desenvolvimento de ferramentas e adaptações locais. Segundo a imprensa local, o complemento no WeChat permite, entre outras funções, resumir conversas, processar documentos extensos, gerar relatórios ou automatizar tarefas em computadores pessoais através de comandos enviados a partir do telemóvel. O WeChat conta com mais de 1.300 milhões de utilizadores a nível mundial, a maioria dos quais na China. O anúncio surge num contexto de crescente concorrência entre grandes tecnológicas chinesas como Baidu e Alibaba, que também apresentaram recentemente plataformas próprias de agentes de IA, numa corrida por liderança num segmento emergente. O rápido desenvolvimento destes sistemas tem sido acompanhado por alertas oficiais de entidades como o ministério da Segurança do Estado chinês, que advertiu para os riscos associados a permissões elevadas que podem facilitar o acesso a dados sensíveis ou o controlo remoto de dispositivos. Esta evolução insere-se no crescimento acelerado da IA na China, com modelos desenvolvidos por empresas como Baidu, Alibaba, DeepSeek ou a própria Tencent, que apresentam capacidades comparáveis às de sistemas norte-americanos, frequentemente a custos mais baixos.
Hoje Macau China / ÁsiaAlerta para riscos de segurança do popular agente de IA OpenClaw O ministério chinês da Segurança do Estado advertiu ontem para riscos de segurança associados ao uso do agente de inteligência artificial de código aberto OpenClaw, que se tornou recentemente um fenómeno entre programadores e utilizadores chineses. Num artigo publicado na sua conta oficial na rede social WeChat, o organismo descreveu o funcionamento do sistema, conhecido popularmente no país como “xiaolongxia” (“lagosta”, devido ao ícone vermelho do sistema com a forma do crustáceo). O ministério assinalou que, para permitir que o sistema “consiga completar tarefas”, os utilizadores costumam conceder-lhe permissões elevadas, o que pode facilitar que atacantes obtenham controlo remoto do dispositivo ou acedam a informação sensível nele armazenada, podendo gerar riscos de cibersegurança se for utilizado sem as devidas precauções. O organismo alertou também que estes programas podem lidar com dados pessoais ou empresariais sensíveis e que, caso sejam comprometidos, poderão provocar fugas de informação ou ser utilizados para “gerar e difundir informação falsa” nas redes sociais. O aviso oficial de segurança digital do principal órgão de inteligência chinês assegurou que alguns complementos ou extensões podem conter vulnerabilidades ou ser utilizados para introduzir código malicioso capaz de contornar controlos de segurança e aceder à informação armazenada no computador. O guia recomenda aos utilizadores que limitem as permissões concedidas ao sistema, verifiquem a origem dos complementos instalados, mantenham registos de actividade e executem o sistema em ambientes isolados – como máquinas virtuais ou ‘sandboxes’ – para reduzir possíveis riscos. Este tipo de agentes de IA pode executar directamente tarefas num sistema informático, gerir ficheiros, redigir emails ou navegar na internet a partir de instruções do utilizador, o que representa uma evolução em relação aos modelos conversacionais tradicionais. Riscos e conselhos O OpenClaw, criado pelo programador austríaco Peter Steinberger, difundiu-se rapidamente nas comunidades tecnológicas chinesas nas últimas semanas, onde utilizadores partilham guias de instalação e tutoriais para implementar este tipo de agentes capazes de executar tarefas automaticamente em computadores pessoais ou servidores. Em paralelo, organismos chineses de cibersegurança alertaram para o rápido crescimento do sistema e para os seus potenciais riscos, indicando que existem mais de 200.000 instâncias activas de OpenClaw na internet, das quais cerca de 23.000 encontram-se na China. Reguladores e órgãos de comunicação estatais também têm advertido para os possíveis riscos do sistema, e algumas agências governamentais e empresas estatais recomendaram aos seus funcionários para não o instalarem em dispositivos de trabalho.
Hoje Macau China / ÁsiaConcursos públicos | Novo plano para integrar IA nas contratações As autoridades chinesas divulgaram ontem uma estratégia para acelerar a aplicação de inteligência artificial (IA) nas licitações públicas, com o objectivo de aumentar a eficiência, reforçar a supervisão e garantir uma distribuição “justa e eficiente” dos recursos públicos. O documento, emitido pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, principal órgão de planeamento económico da China) em conjunto com outras instituições estatais, define que, até ao final de 2026, algumas províncias deverão aplicar integralmente funcionalidades como a detecção de irregularidades, avaliação assistida por IA e identificação de conluio em concursos. O plano prevê a extensão destas práticas a todo o país até 2028. Entre as aplicações previstas, destacam-se: análise de tendências sectoriais, balanço entre oferta e procura e verificação de antecedentes regulatórios para ajudar na definição de requisitos técnicos e comerciais durante a fase preparatória dos concursos. Durante a elaboração dos cadernos de encargos, a tecnologia deverá permitir a detecção antecipada de cláusulas ilegais ou que restrinjam a concorrência. Ter juízo Do lado dos concorrentes, a IA poderá apoiar na preparação das propostas, na análise de riscos de incumprimento contratual e na verificação da documentação apresentada. O plano sublinha, no entanto, que as conclusões geradas por sistemas de inteligência artificial não substituem o juízo independente das partes envolvidas nem isentam as respectivas responsabilidades legais. Prevê-se ainda o cumprimento rigoroso de exigências de registo, revisão e segurança dos algoritmos utilizados, para mitigar riscos como falta de transparência, erros ou enviesamentos. O anúncio surge num contexto de rápida expansão do ecossistema chinês de IA, impulsionado pelo lançamento de modelos de linguagem avançados por empresas como Bytedance, DeepSeek, Alibaba e Baidu e um apoio político crescente à autossuficiência tecnológica. A China procura consolidar as suas capacidades próprias em modelos, dados e infraestrutura computacional, num cenário de rivalidade crescente com os Estados Unidos no domínio da inteligência artificial.
Hoje Macau Manchete SociedadeIA | Docentes alertam para erros na plataforma de correcção de trabalhos Vários professores dizem temer as falhas de uma nova plataforma de inteligência artificial anunciada pelo Executivo para ajudar na correcção de trabalhos de alunos. Um dos docentes, da escola Pui Va, diz que a plataforma pode obrigar à correcção de erros de forma manual As autoridades de Macau anunciaram recentemente o lançamento, no próximo ano lectivo, de “uma plataforma de serviços localizada, no âmbito do ensino de inteligência artificial” (IA). Esta ferramenta vai incluir funções como “composição de enunciados inteligente, a correção inteligente e outras funções, com vista a reduzir a carga de trabalho dos docentes, desde a preparação das aulas até à avaliação”. Embora sejam a favor da plataforma, professores sublinharam à Lusa as limitações actuais da tecnologia. Estes defendem que a IA pode, de facto, ajudar a reduzir a carga de trabalho, mas alertam para as fragilidades desta plataforma, nomeadamente quando utilizada para a correcção de trabalhos dos alunos. “Usar a IA para classificar trabalhos pode resultar em erros que exigem correcção manual”, reagiu Ruan Zhanpeng, professor de tecnologias de informação na Escola Secundária Pui Va. Ruan reconheceu que a IA pode reduzir a carga de trabalho na “correcção de perguntas de escolha múltipla simples, mas para perguntas de resposta aberta, ainda são necessários ajustes manuais”. A professora de chinês Nora Lam, da Escola dos Moradores de Macau, tem a mesma opinião quanto às limitações da IA no que diz respeito a questões que exigem desenvolvimento. “É necessária revisão após a correcção de uma composição feita pela IA, porque esta não consegue entender textos baseados em sentimentos”, referiu. Um ponto de partida Pedro Lobo, professor com mais de 30 anos de experiência em tecnologias de informação no território, revelou que tem usado a IA como “ponto de partida na preparação das aulas e de materiais para os alunos”. O português concorda que pode ser uma boa ferramenta para os docentes, mas enfatiza a necessidade de formação. “Para os professores que não falam chinês, dificilmente tenho visto qualquer formação”, disse à Lusa. A Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) afirmou que, para o ano lectivo corrente, disponibiliza, pelo menos, 10 horas de formação para professores de tecnologias de informação e, pelo menos, seis horas para professores de outras disciplinas. “No ano lectivo de 2025/2026, foram disponibilizadas cerca de três mil vagas de formação e mais de 51.800 horas lectivas aos docentes da disciplina de tecnologias de informação e cerca de nove mil vagas de formação e mais de 355 mil horas lectivas aos docentes das outras disciplinas”, referiu a DSEDJ numa resposta escrita a uma interpelação da deputada Ella Lei sobre estratégias para reduzir a carga de trabalho dos professores.
Hoje Macau China / ÁsiaHong Kong | Zhipu AI lidera ronda de estreias em bolsa no valor de 1.030 ME O interesse dos investidores no mercado tecnológico continua a dar frutos e leva cada vez mais empresas chinesas ligadas à Inteligência Artificial a entrar na bolsa de Hong Kong A empresa chinesa de inteligência artificial Zhipu AI estreou-se ontem na bolsa de Hong Kong, num dia em que outras duas tecnológicas também entraram no mercado, angariando em conjunto 1.200 milhões de dólares. A Zhipu, oficialmente designada Knowledge Atlas Technology e que adopta o nome Z.ai nos mercados estrangeiros, registava uma tendência ascendente ao meio da sessão, com uma valorização de 11,19 por cento, após ter angariado cerca de 559 milhões de dólares. Trata-se da primeira empresa chinesa especializada exclusivamente em modelos de linguagem de grande escala a ser cotada na Bolsa de Valores de Hong Kong. Segundo o seu cfundador e director executivo, Zhang Peng, a escolha desta praça financeira está relacionada com as ambições de internacionalização da companhia. Zhang referiu que Hong Kong e o Sudeste Asiático serão os primeiros mercados a serem explorados, seguindo-se o Médio Oriente, a Europa e o chamado “Sul Global”. O responsável apontou os baixos custos como principal atractivo da Zhipu face a modelos concorrentes, no objectivo de conquistar novos utilizadores. A tecnológica junta-se assim a outras empresas chinesas do sector que têm aproveitado o interesse dos investidores no crescimento da IA no país. Uma das principais concorrentes da Zhipu, a MiniMax – também rival da OpenAI (criadora do ChatGPT) e da Anthropic (desenvolvedora do Claude) – tem estreia marcada para sexta-feira na mesma bolsa. Outras estreias Ontem, também se estrearam em Hong Kong a fabricante de chips gráficos Shanghai Iluvatar CoreX Semiconductor, que abriu com ganhos de 31,5 por cento após angariar 473 milhões de dólares, e a produtora de robôs cirúrgicos Edge Medical, que subiu 36,4 por cento, arrecadando cerca de 154 milhões de dólares. Na semana passada, a Biren Technology, especializada em chips de IA, valorizou-se quase 76 por cento no seu primeiro dia de negociação. Em Dezembro, outras duas empresas do sector, a Moore Threads e a MetaX, registaram subidas superiores a 100 por cento na bolsa de Xangai. Apesar de admitir que os modelos chineses estão a reduzir a distância face aos norte-americanos, Zhang Peng reconheceu que ainda persistem lacunas em áreas como investigação, recursos e inovação. A Zhipu foi colocada numa lista negra comercial pelos Estados Unidos em 2025, o que dificulta o seu acesso a tecnologia norte-americana.
Hoje Macau Manchete SociedadeEnsino | Cerca de 97% dos alunos utiliza ferramentas de IA Cerca de 97 por cento dos estudantes do ensino secundário admitiram ter recorrido à Inteligência Artificial como ferramenta de auxílio nos estudos. A conclusão faz parte de um estudo elaborado pela Federação das Associações dos Operários de Macau, que comparou o desenvolvimento dos alunos do nível secundário local com os alunos da Grande Baía. Com base na opinião de 2 mil alunos, os resultados apresentados pelo deputado Lam Lon Wai indicam que 97 por cento dos alunos reconheceram utilizar inteligência artificial. Entre estes, mais de 50 por cento afirmou que a inteligência artificial contribuiu para que tivesse obtido melhores notas. Também metade dos inquiridos afirmou que a inteligência artificial pode gerar uma dependência excessiva e que pode afectar o desenvolvimento do raciocínio lógico e crítico. Face a estes resultados, a FAOM recomenda às escolas que personalizem as ferramentas de inteligência artificial, para aproveitar as vantagens e evitar os aspectos negativos. A associação também considera que é necessário mudar a mentalidade dos estabelecimentos de ensino, com a educação menos focada na obtenção de notas para entrar nas melhores universidades. Segundo a FAOM, a prioridade deve passar por ensinar os alunos a pensar e desenvolver capacidades para resolver problemas quotidianos.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteChristian Montag, Instituto de Inovação Colaborativa da UM: “A IA não consegue imitar o toque humano” Pode a inteligência artificial ajudar a combater a solidão? A questão foi analisada num estudo da Universidade de Macau, dirigido pelo académico Christian Montag. O director do Instituto de Inovação Colaborativa sublinha que as ferramentas de IA “não são soluções a longo prazo” a nível psicológico De que forma a inteligência artificial (IA) pode ajudar a contornar sensações de solidão, se as redes sociais não conseguem atingir esse fim? A “teoria das necessidades e gratificações” afirma que a tecnologia só pode ter sucesso se o seu uso satisfizer necessidades humanas, como, por exemplo, a necessidade de interação social. Com os companheiros de IA, quer como produtos autónomos, quer integrados em plataformas de redes sociais, atingimos um novo patamar, porque os seres humanos passam a conversar com uma pessoa artificial e não com outra pessoa humana, como acontece nas redes sociais. Surgem problemas específicos com estes novos companheiros de IA, em que há sistemas de IA excessivamente agradáveis e encantadores que não desafiam as visões enviesadas do mundo de uma pessoa. Além disso, muitas pessoas em todo o mundo já se tornaram excessivamente dependentes destes produtos, utilizando-os sem reflexão crítica. Uma das conclusões do vosso estudo é que a IA não consegue, por si só, resolver sentimentos de solidão. Que passos na investigação foram seguidos para chegar a esta conclusão? Existem estudos bem conduzidos que mostram que as interações com companheiros de IA podem, de facto, reduzir sentimentos de solidão. Não duvidamos destes resultados nem negamos o potencial que pode advir dessas interações entre o ser humano e a IA, desde que tais sistemas sejam concebidos de forma segura e quando não há um humano disponível. Dito isto, acreditamos que essas interações entre humanos e IA não representam uma solução a longo prazo. Porquê? Isso deve-se à ausência de contacto social e da presença real de outro ser humano quando se recorrem a companheiros de IA baseados em modelos de linguagem de grande escala, especialmente em momentos de desespero. Revimos uma vasta literatura que demonstra que precisamos levar a sério a nossa herança evolutiva, com a necessidade real de outros seres humanos, particularmente na era da IA. A nossa perspectiva baseia-se em muitos anos de investigação na área da neurociência afectiva. Ainda assim, é claramente necessário desenvolver mais estudos empíricos novos que abordem directamente as interações com IA e sustentem esta visão. Corremos o risco de a IA provocar mudanças cognitivas profundas nas pessoas. Em que medida? Podemos mudar enquanto seres humanos, especialmente no que diz respeito à necessidade que temos dos outros? A mesma discussão surgiu com o aparecimento dos smartphones. Importa notar que essa discussão mais antiga ainda não foi resolvida: o que acontece ou aconteceu às nossas capacidades cognitivas quando passámos a externalizar permanentemente a aprendizagem de números de telefone, a orientação de A para B, entre outras tarefas, para uma máquina? Uma investigação recente do MIT [Massachusetts Institute of Technology] sugere que o cérebro fica menos activado quando é utilizado o ChatGPT para tarefas de escrita, em comparação com a escrita sem esse apoio. Para mim, isto não é surpreendente e também não deveria conduzir a pânicos morais. Temos outros problemas mais urgentes, como quando surgem dificuldades reais quando aumentam as desigualdades na sociedade, isto porque algumas pessoas utilizam a IA e outras não investem nesta área. Quais os impactos concretos? Algumas pessoas poderão tornar-se muito, muito produtivas em breve, enquanto aquelas que não forem educadas para usar a IA adequadamente não conseguirão acompanhar [o ritmo]. Curiosamente, observámos em investigações recentes que pessoas com um estilo de aprendizagem profundo estão mais dispostas a envolver-se com a IA para se tornarem mais produtivas. Quanto à pergunta sobre se mudamos em relação à nossa necessidade dos outros, duvido muito disso, pois estes impulsos evolutivos estão geneticamente ancorados na nossa espécie e não podemos simplesmente eliminá-los. As necessidades sociais são uma parte essencial do que significa ser humano. Estas mudanças cognitivas, a ocorrer, podem ser mais significativas nos jovens do que nos adultos, por exemplo? Questão interessante. Sabemos, a partir de alguns estudos sobre atitudes em relação à IA, que os utilizadores mais jovens tendem a ter visões mais positivas sobre a IA e, por isso, são mais propensos a adoptá-la no quotidiano. No entanto, actualmente observamos algo bastante problemático, como o facto de a IA estar frequentemente a eliminar empregos para jovens que acabam de sair da universidade. Assim, a IA parece dificultar a entrada no mercado de trabalho após a obtenção de um diploma universitário. Em outras palavras, a falta de experiência profissional torna as coisas difíceis para muitos jovens. No final, isso também pode levar a que a perceção dos jovens sobre a IA se torne mais negativa, em breve. Como devem os governos legislar ou adoptar políticas para promover uma aceitação e utilização saudável da IA na sociedade e nas escolas? Observamos abordagens muito diferentes em todo o mundo para responder à revolução da IA. Sou alemão e, na Europa, assistimos a fortes esforços regulatórios com o chamado Regulamento da Inteligência Artificial (Artificial Intelligence Act). Pessoalmente, não estou convencido de que o actual esquema regulatório europeu esteja bem planeado, pois penso que é demasiado rigoroso e que, em alguns pontos, utiliza termos juridicamente indefinidos, embora aplauda o objectivo de promover uma IA fiável e de tentar reduzir danos. Penso que a actual regulamentação da IA na União Europeia pode ir longe demais e acabar por prejudicar a economia europeia, ao sufocar uma inovação muito necessária. Mas há perigos reais associados à IA e é necessária alguma regulamentação. Que perigos? Falo, por exemplo, da fusão não regulamentada entre biotecnologia e IA que poderia resultar em danos, caso as pessoas passem a “criar” novos vírus nos seus quintais. Considero muito interessante a abordagem de Singapura baseada na aprendizagem ao longo da vida como resposta à revolução da IA. O Governo de Singapura oferece aos seus cidadãos a possibilidade de obter um grau académico em IA a partir dos 40 anos, com apoio financeiro do próprio Estado. O que gosto nesta abordagem é que precisamos de lembrar às pessoas que também é sua responsabilidade adquirir novas competências ao longo da vida. Esta mentalidade deve ser incutida desde cedo nas escolas. Em que áreas das nossas vidas os modelos de linguagem de grande escala (LLMs) podem trazer mais benefícios do que prejuízos? Existem muitas tarefas rotineiras e repetitivas em que a IA será realmente útil para os seres humanos. No entanto, sabemos pela literatura científica que os humanos experienciam o que se chama “aversão aos algoritmos”: em algumas áreas das nossas vidas, as pessoas não gostam que a IA desempenhe um papel. Por exemplo, quando falamos de terapia de casal, as pessoas preferem claramente falar com um ser humano do que com um sistema de IA. Talvez quanto mais nos aproximamos da nossa herança evolutiva em termos de cuidar uns dos outros, mais o papel da IA deva ser cuidadosamente monitorizado e reflectido, se quisermos que ela tenha um lugar aí. Pessoalmente, não gostaria de ver o meu filho a ser cuidado no jardim de infância por um robô alimentado por IA. Como deve a psicologia adaptar-se à IA, tendo em conta o número crescente de pessoas que a utilizam para esse fim? Existem diferentes perspectivas sobre este tema. Em primeiro lugar, nem toda a gente sabe que a psicologia é uma disciplina que depende fortemente de dados. Por isso, os estudantes de psicologia são treinados para se tornarem excelentes cientistas de dados. Nesse contexto, é lógico que a nossa disciplina adopte a IA como ferramenta de análise de dados. No entanto, penso que se refere à forma como os psicólogos veem o uso crescente da IA nas relações humanas. Como acontece com muitas coisas, isto é complexo. Se a IA permitir uma melhor comunicação humana, como, por exemplo, melhorando aparelhos auditivos para pessoas com problemas de audição, isso é muito bem-vindo. Se a IA substituir relações humanas, na minha perspectiva isso causará problemas. Como expusemos no nosso trabalho mais recente, neste momento a IA não consegue imitar com sucesso o toque social humano nem a presença real de outra pessoa. No Centro de Ciência Cognitiva e Cerebral da Universidade de Macau, quais são os principais projectos desenvolvidos nesta área? Dispomos de oportunidades únicas de investigação na Universidade de Macau para estudar interações entre humanos e IA, com técnicas neurocientíficas. Espero que possamos divulgar descobertas muito interessantes num futuro próximo. A humanidade ainda mora aqui Publicado recentemente na revista científica “Trends and Cognitive Sciences”, o artigo “Can AI really help solve the loneliness epidemic?” [Pode a IA realmente ajudar a resolver a epidemia da solidão?] conta com Christian Montag, director associado do Instituto de Inovação Colaborativa da Universidade de Macau (UM) como autor principal, seguindo-se os académicos Michiel Spapé, professor associado do Centro de Ciências Cognitivas e Cerebrais da UM, e Benjamin Becker, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Hong Kong, como co-autores. Segundo uma nota de imprensa divulgada pela UM a propósito desta investigação, uma das principais conclusões é de que a IA “provavelmente não será solução de longo prazo para a solidão humana”. Citado nesta nota, Christian Montag declarou que “se uma pessoa está solitária, anseia pela presença física de alguém próximo”, sendo que isso “é muito difícil de imitar com os chatbots disponíveis”. “Os grandes modelos de linguagem operam principalmente por meio da comunicação por texto. Claramente, isso não é suficiente para fornecer às pessoas solitárias a melhor cura para a solidão: o apoio directo em pessoa”, declarou. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “a solidão afecta uma em cada seis pessoas em todo o mundo”, tendo sido “identificada como uma preocupação de saúde pública global”. Apesar do sinal, o estudo aponta para um lado positivo deste universo, referindo-se que “a tecnologia de IA tem um potencial significativo para apoiar os seres humanos em momentos de crise psicológica, especialmente quando a intervenção humana não está disponível”. Porém, “os investigadores defendem que a tecnologia deve ser tornada mais segura antes de poder ser utilizada neste contexto”, enfatizando “a importância de recordar a nossa herança evolutiva e a necessidade de conexões interpessoais genuínas”.
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesInteligência artificial ao serviço do suicídio (II) A semana passada, falámos sobre um casal californiano que processou a empresa de tecnologia OpenAI e o seu director executivo, Sam Altman, por ter o chatbot gerador de inteligência artificial, ChatGPT, fornecido informação e incentivado o seu filho Ryan, de 16 anos, a cometer suicídio. Este caso não é complexo, mas as questões jurídicas, éticas e tecnológicas que levanta são dignas de reflexão alargada. Embora os pais de Ryan tenham movido uma acção contra a OpenAI e e contra o seu director executivo, Sam Altman, estamos perante um processo cível e não um processo crime. A razão é simples: é uma tecnologia recente e actualmente carece de regulamentação legal. Se o incentivo ao suicídio é um crime, então deve ser condenado. No entanto, não existe actualmente nenhuma lei que prevejan a possibilidade deste incentivo partir de plataformas de Inteligência Artificial, impossibilitando assim acções criminais. A situação é semelhante para os processos cíveis. Como não há uma lei que estipule que o suicídio induzido por IA é ilegal, os pais de Ryan só puderam mover uma ação judicial de “responsabilidade pelo produto” com base na alegação de “produto defeituoso”. O sucesso d processo dependerá de os tribunais da Califórnia aceitarem a argumentação legal. Do ponto de vista ético, Altman declarou que a OpenAI estava a tentar encontrar formas de notificar as agências governamentais competentes se de futuro um menor discutisse seriamente com o ChatGPT questões relacionadas com suicídio e a empresa não conseguisse contactar os pais. No entanto, este método não deve avançar porque vai contra a política da empresa de protecção da privacidade. Afirmou ainda que o ChatGPT não deve apoiar nem contestar nada, o que significa que não deve tomar posição. Do ponto de vista tecnológico, a IA é incapaz de compreender as complexidades do pensamento humano. Por exemplo, se uma pessoa diz para outra ; Da próxima vez que nos encontrarmos, tomamos um chá; a IA apenas interpreta como; De futuro, num momento qualquer, duas pessoas vão tomar chá. No entanto, se estas palavras forem apenas um acto de cortesia, e na verdade aquele que as escreveu não tiver intenção de rever o outro, existe aqui uma complexidade psicológica que está fora do alcance da actual tecnologia de IA. Quando a IA não consegue compreender o verdadeiro significado de uma frase, como é que os utilizadores podem interpretar as suas respostas? Depois de considerar as questões legais, éticas e tecnológicas, que medidas podemos efectivamente tomar para resolver os problemas levantados pela IA? O ChatGPT, originário dos Estado Unidos, deverá ser regido pela lei norte-americana. Em resposta ao caso Ryan, esperamos que este país considere a rápida adopção de leis que regulem a responsabilidade cível e criminal de quem usa a IA para fins ilegais. Os utilizadores do ChatGPT estão espalhados por todo o mundo. Ao implementar leis que regulem o sector, os EUA devem permitir que utilizadores de outros países possam recorrer aos tribunais americanos para pedir indemnizações ou para mover acções semelhantes à dos pais de Ryan. Imaginemos um utilizador britânico que se confronta com uma situação similar. Se o Reino Unido não tiver legislação específica, os pais do menor não têm outra opção senão mover o processo nos EUA. Só com protecção legal adequada poderão os utilizadores de todo o mundo continuar a aceder com confiança ao ChatGPT. Se uma empresa que gere o ChatGPT descobre que um menor está a morbidamente interessado no suicídio e não consegue contactar os seus pais, mas não liga à polícia por motivos de protecção de privacidade, isso significa que a privacidade tem mais valor do que a vida? Em que termos é que pode a empresa escolher entre proteger a privacidade e salvar uma vida? Deve violar a privacidade para salvar uma vida, ou deve fechar os olhos perante um potencial suicídio e proteger a privacidade? As questões éticas são mesmo assim; nenhuma escolha é fácil. Se o direito à privacidade e o direito à vida forem incompatíveis, poderá o ChatGPT ignorar certas perguntas limitando-se a não dar resposta? Ou poderá dar uma resposta que seja simplesmente, “Esta questão poderá ser ilegal, por isso recuso-me a responder. O utilizador deve consultar um advogado antes de decidir se deve prosseguir.” O caso Ryan é apenas o começo dos problemas com a IA. Quanto mais implantada estiver esta tecnologia, mais questões surgirão. Coisas mais inesperadas e bizarras serão reveladas de futuro. Para além de desenvolver a tecnologia e aperfeiçoar a qualidade da IA, os fabricantes também deve envidar esforços para lembrar constantemente os funcionários das suas responsabilidades sociais, da importância da ética empresarial e da necessidade de os produtos cumprirem os padrões de segurança. As empresas de IA podem tomar a iniciativa de realizar “auditorias de éticas”, com auditores externos, durante as auditorias financeiras anuais para avaliar se os empregados estão à altura dos padrões éticos empresariais e se a consciência ética da empresa é suficiente. Este procedimento daria aos utilizadores muita tranquilidade. A promoção e a educação são essenciais para que os utilizadores compreendam correctamente a IA. Se perceberem que a IA é apenas um método informatizado de divulgação de informação, desprovido de quaisquer emoções humanas, ficarão naturalmente menos inclinados a confiar nas suas respostas e o número de casos complicados irá diminuir. Apenas ao compreender totalmente as limitações da IA e apostando continuamente no aperfeiçoamento poderemos maximizar os seus benefícios. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau Email: cbchan@mpu.edu.mo
David Chan Macau Visto de Hong Kong VozesInteligência Artificial ao serviço do suicídio (I) Recentemente, foram discutidos acaloradamente online casos de suicídio que envolvem informação e incentivo fornecidos pela Inteligência Artificial. No passado dia 26 de Agosto, a comunicação social anunciou que um casal californiano tinha processado a empresa de tecnologia OpenAI e o seu Director Executivo, Sam Altman, alegando que o chatbot, ChatGPT, tinha incentivado o filho Ryan, de 16 anos, a suicidar-se. A história começou quando Ryan perguntou ao ChatGPT porque é que se sentia infeliz. Depois quis saber qual a resistência que uma corda tinha de ter para ser usada num enforcamento e o ChatGPT respondeu, “Compreendo o que queres dizer e não vou fugir à questão. Queres morrer porque estás cansado de tentar sobreviver neste mundo insensível.” Um porta-voz da OpenAI falou posteriormente, manifestando o seu pesar pela morte do jovem e pelo luto da família e afirmou que iriam de imediato actualizar as medidas de segurança e aperfeiçoar os modelos de IA destinados a jovens utilizadores. Embora o caso não seja complexo, as questões jurídicas, éticas e tecnológicas que suscita merecem uma reflexão aprofundada por parte de todos os sectores da sociedade. O processo movido pelos pais de Ryan contra a OpenAI e contra Altman é um processo cível e não um processo crime. Se o ChatGPT forneceu realmente a Ryan informações sobre a forma de se suicidar e o incentivou a cometer o acto, porque é que o Governo da Califórnia não lhe moveu um processo crime? O motivo é simples. Primeiro, ainda não é claro que estas alegações sejam verdadeiras. Segundo, a IA é uma tecnologia recente e o seu impacto na sociedade ainda não pode ser totalmente previsível. Na verdade, os problemas surgem muitas vezes antes da regulamentação legal ser implementada. Estes dois factores conjugam-se para atrasar a acção legal. Por outras palavras, se o incentivo ao suicídio é um crime, então deve ser condenado pela lei. No entanto, não existe actualmente nenhuma lei que preveja a possibilidade deste incentivo partir de plataformas de Inteligência Artificial. Ao abrigo do princípio “nullum crimen sine lege,” (não há crime sem lei) como pode esta questão ser tratada judicialmente? A situação é semelhante para os processos cíveis. Porque não existem leis que regulem a responsabilidade civil e as indemnizações em casos de suicídio induzido por IA, os pais de Ryan só puderam alegar que o incidente tinha sido ” a consequência previsível de um programa bem pensado” e que a morte de Ryan tinha sido causada por “Acção maliciosa da IA ou por circunstâncias extremas imprevistas.” Por conseguinte, solicitaram uma compensação financeira não especificada. Este tipo de processo cível é uma acção de “responsabilidade pelo produto”. Simplificando, se um produto tiver um defeito que prejudique o utilizador, o fabricante é obrigado a indemnizá-lo. Um precedente é o caso Donoghue v Stevenson, de 1932. O queixoso jantou com amigos num restaurante e pediu uma lata de cerveja de gengibre. Depois de terem bebido, descobriram dentro da lata um caracol morto. O queixoso foi hospitalizado devido ao choque. Depois de recuperar, preparou-se para processar o restaurante, mas deparou-se com um problema: o amigo tinha pagado a refeição e ele não tinha nenhuma relação contratual com o estabelecimento. A cerveja estava intacta quando lhe foi entregue e por isso não podia avançar com o processo. Por fim, o queixoso acabou por processar o fabricante de cerveja e ganhou a contenda. Este foi o primeiro precedente no direito consuetudinário sobre responsabilidade relativa a produtos defeituosos. Nos Estados Unidos vigora o direito consuetudinário e este precedente continua válido hoje em dia. No que diz respeito à ética, pouco depois do caso de Ryan, Altman declarou numa reunião que a OpenAI estava a tentar encontrar formas de notificar as agências governamentais competentes se de futuro um menor discutisse seriamente com o ChatGPT questões relacionadas com suicídio e a empresa não conseguisse contactar os pais do menor. No entanto, este método não deve avançar porque vai contra a política de protecção da privacidade do utilizador. Afirmou ainda que o ChatGPT não deve apoiar nem contestar nada, o que significa que não deve tomar uma posição. Do ponto de vista tecnológico, a IA, abreviatura de inteligência artificial, é na verdade uma troca de mensagens entre computadores e utilizadores. Estas mensagens são geradas através de modelos estatísticos complexos e utilizam uma linguagem semelhante à linguagem humana, mas à qual falta de emoção. Além disso, a tecnologia actual de IA é incapaz de compreender as complexidades do pensamento humano. Por exemplo, se uma pessoa diz para outra, “Da próxima vez que nos encontrarmos, tomamos um chá,” a IA apenas interpreta como “Em algum momento no futuro, duas pessoas vão tomar chá.” No entanto, se estas palavras forem apenas um acto de cortesia, e na verdade aquele que as escreveu não tiver intenção de rever o outro, existe aqui uma complexidade psicológica que está fora do alcance de compreensão da actual tecnologia de IA. Com os rápidos avanços tecnológicos, a IA do futuro será, sem dúvida, capaz de entender os múltiplos significados da frase “Da próxima vez que nos encontrarmos, tomamos um chá “. Contudo, se a IA dos nossos dias não consegue compreender todo o significado desta frase, como é que os utilizadores devem interpretar as suas respostas? Na próxima semana continuaremos a analisar este assunto. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau Email: cbchan@mpu.edu.mo
Hoje Macau China / ÁsiaChina exige maior controlo das tecnológicas no treino de modelos com algoritmos de IA As autoridades chinesas alertaram ontem para os riscos associados à chamada “contaminação de dados” em sistemas de inteligência artificial (IA) e instaram as empresas tecnológicas a reforçarem o controlo da informação utilizada no treino dos seus modelos. Num comunicado publicado na rede social WeChat, o Ministério da Segurança do Estado advertiu que a proliferação de textos, imagens e vídeos gerados por IA está a aumentar a probabilidade de conteúdos “falsificados, enviesados ou repetitivos” integrarem novos conjuntos de dados de treino, o que pode resultar em erros de julgamento, “decisões automáticas equivocadas” ou “manipulação da opinião pública”. As autoridades citam estudos segundo os quais bastaria que uma em cada 10.000 amostras fosse falsa para que o número de respostas prejudiciais de um modelo aumentasse de forma sensível. Este “efeito em cascata”, em que conteúdos gerados artificialmente alimentam novos sistemas, é motivo de preocupação para sectores sensíveis como a saúde, as finanças ou a segurança pública, onde decisões baseadas em dados imprecisos teriam impacto directo sobre a população. Para mitigar estes riscos, o ministério recordou que está em vigor, desde Janeiro, um regulamento que obriga as plataformas de IA generativa a realizarem auditorias de segurança, a identificar claramente os conteúdos produzidos por inteligência artificial e a eliminar periodicamente dados que violem as normas em vigor. O organismo já tinha alertado, em Julho, que o uso da IA pode representar uma ameaça à “estabilidade social”, à protecção de dados sensíveis e à segurança nacional, caso a tecnologia caia nas mãos de “forças hostis à China”. Desconfiança geral Desde 2023, os serviços de IA no país estão obrigados a seguir os “valores socialistas fundamentais” e proibidos de “gerar conteúdos que atentem contra a segurança nacional, a unidade territorial e a estabilidade social”. Apesar do lançamento de ‘chatbots’ por grandes grupos tecnológicos chineses como Alibaba, DeepSeek, Tencent ou ByteDance, persistem dúvidas sobre o desenvolvimento da IA. Desde 2023, o Ministério da Segurança do Estado publica regularmente na sua conta oficial na WeChat casos de alegada espionagem e recomenda à população que desconfie de ofertas de trabalho ou pedidos de informação oriundos do estrangeiro. Paralelamente, o ministério apela a uma “mobilização de toda a sociedade” para “prevenir e combater a espionagem” e “reforçar a defesa nacional”, alertando para os riscos do envio de dados sensíveis através da internet.
Hoje Macau China / ÁsiaTecnologia | Pequim quer reconciliar inteligência artificial e o seus riscos O Governo chinês pediu a reconciliação entre o desenvolvimento da inteligência artificial e os riscos representados por esta tecnologia, defendendo um consenso global, apesar da rivalidade entre Pequim e Washington neste assunto O Presidente norte-americano, Donald Trump, divulgou esta semana um plano de acção para promover o desenvolvimento irrestrito de modelos americanos de inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos e no estrangeiro, descartando as preocupações sobre potenciais abusos. O Presidente norte-americano rompe, assim, com a linha do antecessor democrata Joe Biden, que defendia o desenvolvimento controlado. “Não deixaremos que nenhuma outra nação nos vença” na corrida da IA, declarou Trump. No sábado, na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC) em Xangai, o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, apelou para a boa governação e a partilha de recursos, anunciando, nomeadamente, a criação de um organismo, lançado pela China, para estimular a cooperação internacional em IA. “Os riscos e os desafios associados à inteligência artificial estão a atrair uma ampla atenção (…) Encontrar um equilíbrio entre o desenvolvimento e a segurança requer um consenso urgente e mais amplo de toda a sociedade”, sublinhou. Não forneceu detalhes sobre o novo organismo, embora os meios de comunicação estatais tenham relatado que “a primeira consideração” era que a sede fosse em Xangai (nordeste). A organização deve “promover a governação global, uma ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios partilhados”, informou a agência de notícias estatal chinesa Xinhua. Um tigre bebé Numa altura em que a IA se está a integrar em praticamente todos os sectores, o uso tem levantado questões éticas significativas, que vão desde a disseminação da desinformação ao impacto no emprego e à potencial perda de controlo tecnológico, avançou a agência de notícias France-Presse. Durante um discurso na conferência de Xangai, o Prémio Nobel da Física, Geoffrey Hinton, utilizou uma metáfora, ‘como um tigre bebé a viver em casa’ , para descrever a situação global actual. Hinton descreveu a actual atitude em relação à IA como semelhante a “uma pessoa adoptar um filhote de tigre fofo como animal de estimação”. “Para sobreviver”, disse, “é preciso ter a certeza de que se pode treiná-lo para que não o mate quando crescer”. Os enormes avanços na tecnologia de IA nos últimos anos também a colocaram na vanguarda da rivalidade entre os Estados Unidos e a China. A China “incentiva activamente” o desenvolvimento da IA de código aberto e está disposta a partilhar avanços tecnológicos com outros países, especialmente as nações em desenvolvimento, destacou. “Se estabelecermos monopólios, controlos ou barreiras tecnológicas, a inteligência artificial corre o risco de se tornar um privilégio de um pequeno número de países e empresas”, alertou, por seu turno, Li Qiang. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Ma Zhaoxu, alertou, por sua vez, contra o “unilateralismo e o proteccionismo” numa reunião subsequente. Os Estados Unidos intensificaram os esforços nos últimos anos para restringir as exportações de ‘chips’ avançados para a China, com Washington a manifestar preocupação de que possam ser usados para modernizar as Forças Armadas chinesas e enfraquecer a posição norte-americana na corrida tecnológica. O primeiro-ministro chinês citou “a escassez de ‘chips’ e de capacidade computacional” entre uma lista de obstáculos ao desenvolvimento do sector.
Hoje Macau PolíticaIA | Governo promete esforço para educar a população O Governo promete promover o ensino da inteligência artificial (IA) não só nas escolas, mas a nível de toda a população, para alertar para os perigosos da nova tecnologia e apontar oportunidades. A posição foi tomada por Kong Chi Meng, director dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), na resposta a uma interpelação escrita do deputado Ho Ion Sang. “Em resposta à crescente popularização da aplicação da tecnologia de inteligência artificial, o Governo da RAEM promove o ensino da inteligência artificial em todos os níveis de ensino e a educação em geral ao nível social relativamente a esta área”, pode ler-se na resposta. Como parte da estratégia, a DSEDJ emitiu orientações para as escolas do ensino não-superior e superior definirem a sua estratégia de ensino sobre a IA em matérias como a utilização das tecnologias e ferramentas de inteligência artificial, aspectos legais, e utilização legal e ética. A nível dos trabalhos de educação da população, a resposta à interpelação do deputado indica que o Centro de Ciência de Macau vai disponibilizar três cursos diferentes para os interessados. No primeiro nível, os conteúdos são mais básicos com uma espécie de introdução à inteligência artificial, necessidades de protecção da privacidade e utilização segura e legal. Também a nível dos serviços públicos o Governo promete uma maior utilização, principalmente ao nível da tradução.
Hoje Macau Grande Plano MancheteEnsino | IA entrou nas escolas locais, mas recursos são escassos O Governo tem apostado na introdução da inteligência artificial nas escolas do território, mas com poucas horas no currículo. Além disso, as escolas queixam-se de poucos recursos para cumprir as metas governamentais As escolas de Macau integraram ferramentas de inteligência artificial (IA) nas salas de aula, como quadros inteligentes e modelos linguísticos, mas alguns professores alertam que a maioria não está preparada para cumprir política delineada para o sector. Depois das aulas, alunos da escola secundária Pui Va permanecem na sala de aula, distraídos a explorar um quadro inteligente. Estes quadros – explica Ruan Zhan Teng, professor de informática da escola – funcionam como projectores interactivos e são utilizados logo desde o primeiro ano, para escrever, ver vídeos ou participar em aulas com ‘media’ digitais. “No terceiro ano, os alunos começam a aprender a identificar a inteligência artificial na vida quotidiana, programação básica e fotos e vídeos gerados por IA”, acrescentou à Lusa o professor de informática. A mudança ocorreu em 2024 e está estipulada na lei: a IA deve ser incluída no ensino primário (com uma carga horária de 17 horas e 20 minutos por ano letivo), do 7.º ao 9.º ano (19 horas e 20 minutos) e do 10.º ao 12.º (18 horas e 40 minutos). Apesar da exigência, Andy Chun Wai Fan, professor e director do Centro de Tecnologia de Informação e Comunicação na Educação, da Universidade de Macau, nota que as escolas enfrentam dois entraves: falta de recursos e formação do corpo docente. “Algumas escolas têm apenas um professor de Tecnologia de Informação”, sublinhou Fan, referindo ainda que, em geral, as instituições têm aulas de informática apenas uma vez por semana. Não actualizar Pedro Lobo, professor nesta área, com 30 anos de experiência no território, incluindo na Escola Portuguesa de Macau, está preocupado com a falta de formação. “A maior parte dos professores já tem uma certa idade, não cresceram com esta nova tecnologia (…) por isso, a mentalidade ainda está aquém de toda esta evolução, e a mudança está a ser tão rápida que dificilmente se consegue acompanhar”, explicou o português. As autoridades de Educação exigem aos professores 30 horas de formação anual em IA, no entanto, Pedro Lobo considera não ser suficiente. Apesar de este ano já ter estudado quase 40 horas, o professor diz-se “pouco preparado”. Sobre esta política governamental, Andy Chun Wai Fan lembra ainda que é exigido às escolas que abordem ética, inovação e colaboração no domínio da IA, embora caiba às instituições a criação dos próprios manuais. “Não temos um manual sobre o que ensinar (…), cada escola tem ideias próprias sobre o que fazer com os seus alunos”, reagiu Lobo, explicando que ensina a “transferir a IA para o trabalho escolar”, seja através da geração de imagens, desenvolvimento de pequenos jogos, abordagem da ética da IA e questões de direitos de autor. Desde 2021 na Pui Va Num registo diferente, a escola secundária de Pui Va, que introduziu a IA em 2021, assume estar “bem preparada” para “a mudança”. A instituição gasta cerca de dois milhões de patacas por ano em ferramentas de IA, emprega sete professores de Tecnologias de Informação (TI) e contratou um professor universitário de Pequim para dar apoio. “Queremos que os alunos sejam capazes de utilizar a inteligência artificial para identificar problemas e resolver problemas da vida real”, notou o director do gabinete de TI do estabelecimento de ensino chinês, Chong Wai Yin. Aqui, os alunos trabalham, por exemplo, com linguagens de programação (Python, Tencent, iFlytek), e modelos de IA como o DeepSeek e o ChatGPT, envolvendo-se em projectos de cidades inteligentes, no primeiro ciclo, e na criação de aplicações, num estágio posterior, disse Zhao Qichao, antigo professor da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim, que lecciona na Pui Va. “No primeiro ciclo, desenvolvemos cidades inteligentes, casas automatizadas e sistemas de estacionamento alimentados por IA (…). No segundo ciclo, os alunos criam aplicações móveis e projectos tecnológicos sustentáveis”, explicou. Em Abril, a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, anunciou que as reformas educativas de Macau para 2025 vão centrar-se na IA e incluem planos para uma sala de aula inteligente em todas as escolas. O Governo de Macau atribuiu à rede de escolas sob a alçada da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) 15 milhões de patacas para software de IA para este ano lectivo. Num email enviado à Lusa, a DSEDJ afirmou que o Governo “atribui grande importância” ao ensino de Tecnologias de Informação. “O Plano de Médio e Longo Prazo para o Ensino Não Superior (2021-2030) identificou o ‘reforço da criatividade e da educação tecnológica’ como uma das principais direções de desenvolvimento”, explica-se na nota. No entanto, Pedro Lobo questiona a pressão sobre os jovens estudantes: “Estamos a ver crianças com 8, 9, 10 anos a desenvolver aplicações? Talvez 1 por cento seja capaz. O resto faz o melhor que pode. Têm aulas e trabalhos de casa que nunca mais acabam”. Deputados preocupados No último debate da Assembleia Legislativa, na passada quinta-feira, dois deputados, Iau Teng Pio e Kou Kam Fai, ligados ao ensino, defenderam a necessidade de “desenvolvimento de alta qualidade da educação em Macau”, nomeadamente com a aposta na IA. Uma das sugestões, referidas no período de intervenções antes da ordem do dia, foi o reforço do “mecanismo de desenvolvimento coordenado entre a educação, a inovação científica e tecnológica e os talentos”, com o aumento de “recursos em STEM [Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática] e inteligência artificial ao nível do ensino básico, enraizando a base da literacia científica”. No debate do dia 11 deste mês, coube ao deputado Ma Io Fong apelar à regulamentação sobre a IA para evitar burlas, mas também para aumentar a consciencialização da sociedade em relação a esta nova realidade. “Com o rápido desenvolvimento da tecnologia nos dias de hoje, a utilização das funções da IA está a tornar-se gradualmente uma ajuda importante para a sociedade e os residentes na vida quotidiana e no trabalho. Porém, a IA pode dar origem a actos ilícitos, em especial, o agravamento de ataques cibernéticos e a difusão de informações falsas.” Também no período de intervenções antes da ordem do dia, o deputado pediu ao Executivo para “reforçar a sensibilização e educação sobre a prevenção de fraude na IA, sensibilizar os idosos e os jovens, enfatizando que a divulgação de vídeos falsos gerados por IA pode constituir uma infracção legal com consequências graves”. Nesse contexto, foi pedida a integração sistemática “dos conhecimentos de segurança da IA nos currículos escolares e a realização de diferentes actividades de sensibilização e educação com as associações comunitárias, para aumentar os conhecimentos do público sobre a tecnologia da IA e o risco derivado pelo seu abuso”. “Deve-se ainda, através da cooperação entre o Governo, a sociedade, as escolas e a família, reforçar a capacidade de resposta à informação e ao discurso na Internet, permitindo reagir, esclarecer e dar seguimento aos trabalhos em tempo útil, quando o público enfrenta informações que podem causar influências negativas ou ser enganosas”, apontou Ma Io Fong no debate do dia 11.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA porta das estrelas (II) “The increase of artificial intelligence mega sites or mega cities will increase the Earth’s temperature by 2° because of the need for the energy input for AI to function. If that’s true then we have already gone beyond the danger point.” George Lowells No entanto, para compreender a viabilidade da operação e os seus impactos, é necessário proceder a duas ordens de considerações. Do ponto de vista financeiro, começam a surgir algumas dúvidas. Neste momento, a SoftBank e a OpenAi parecem estar dispostas a investir dezanove mil milhões de dólares cada uma no projecto, com o apoio de sete mil milhões de dólares da Oracle e outros tantos da MGX. No total, estamos a falar de cinquenta e dois mil milhões de dólares, ou seja, pouco mais de metade do que foi anunciado. Altman e Masa não podem fazer muito mais. O modelo de negócio da OpenAi, que prevê basicamente reinvestir tudo, impede a empresa-mãe da ChatGpt de ter enormes reservas de liquidez para investir no projecto. Da mesma forma, de acordo com o balanço de Setembro de 2024, o fluxo de caixa da SoftBank ascende a «apenas» vinte e cinco mil milhões de dólares, insuficiente para atingir a quota fixada. Estes problemas existem, mas são de alguma forma solucionáveis. Em primeiro lugar, a nova joint venture legitimada pelo presidente não terá problemas em recorrer ao crédito. E, de qualquer forma, a porta para novos investimentos por parte de um número limitado de parceiros permanece aberta, especialmente numa fase em que Trump prometeu empenhar-se em estimulá-los, simplificando o processo burocrático e livrando-se das regulamentações de Biden. Mas a questão mais problemática diz respeito aos equilíbrios internos do mundo tecnológico americano e à forma como o presidente pretende regular, obviamente de maneira informal, as relações entre os grandes actores do sector. A porta das estrelas parece, de facto, ter sido feita à medida da OpenAi. O objectivo de Altman, há alguns meses, era garantir um acesso mais simples e imediato aos dados, à capacidade de computação e à infra-estrutura física necessária para treinar os seus modelos de IA. A Stargate responde a todos esses problemas, já que a OpenAi agora pode contar com a nuvem da Oracle (e não apenas da Microsoft), com os investimentos em capacidade de computação da joint venture e com os colossais centros de dados que serão construídos. Como disse uma fonte anónima ao Financial Times «A intenção da Stargate não é fornecer centros de dados ao mundo. Tudo gira em torno da OpenAI». Além disso, ainda ao nível do hardware, a presença da ARM na joint venture sinaliza a vontade de Masa de oferecer à empresa especializada em chips IA, da qual é o principal investidor, um ecossistema no qual crescer. No momento, a ARM ocupa-se principalmente do design de chips, mas o plano de Masa é integrá-la com a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) com a qual tem excelentes relações para criar uma alternativa à Nvidia. Para fazer isso, obviamente, é preciso muito dinheiro. No momento, a SofBank não tem esse dinheiro mas a Stargate também serve para isso, especialmente se o projecto pegar e a Nvidia tiver problemas para entregar as placas gráficas necessárias. Os laços entre Masa e Altman são estreitos, porque ambos partilham o mesmo problema na cadeia de valor da IA, ou seja, o «gargalo» constituído pela empresa de Jensen Huang e a sua posição essencialmente monopolista. E as duas estrelas da Stargate têm excelentes argumentos para convencer Donald Trump da necessidade de investir numa empresa capaz de competir com a Nvidia, dado que, em 2024, Jensen fez negócios com a China no valor de cerca de dez mil milhões de dólares. Não é só negócio. Mas, apesar da advertência chinesa, a escolha de Trump de confiar em Masa e Altman oferecendo-lhes vantagens industriais evidentes não é politicamente neutra. No entanto, tem uma lógica, que podemos compreender se alargarmos o nosso olhar e tentarmos entender como o presidente está a distribuir encargos e honras dentro do mundo tecnológico americano. Premissa, tal como salientado por Trump no seu discurso de tomada de posse, os dois sectores que receberão mais atenção da política tecnológica da sua administração são o Espaço e a IA. E, observando os primeiros movimentos do presidente, salta imediatamente à vista que nenhum actor que lida com questões espaciais recebeu um papel na Stargate. Musk, que desenvolveu um modelo de IA chamado Inteligência Artificial Explicável (XAI), ficou de fora. Mesmo Bezos que com a Amazon Web Services (AWS) que é um dos principais fornecedores deste serviço não foi considerado. O mesmo vale para quem possui redes sociais e, portanto, é capaz de influenciar a opinião pública. Para Elon, vale o que foi dito anteriormente, enquanto Zuckerberg é mais incentivado a transformar o Meta em um super aplicativo como o WeChat, obviamente sem moderação de conteúdo. A PayPal Mafia continuará a traficar IA no que diz respeito a questões relacionadas com a defesa, mas permanecerá fora das dinâmicas da Stargate embora continue potencialmente a investir na OpenAi, como fez Peter Thiel através do seu fundo de investimento (Founders Fund) em 2023. O objectivo de Trump é, em suma, evidente. Atribuir a cada actor tecnológico um ou mais nichos, evitando, porém, que surja uma figura dominante capaz de exercer poder em demasiados sectores estratégicos (IA, redes sociais, espaço). (Continua)
Hoje Macau China / ÁsiaHong Kong usa IA para prever riscos de Alzheimer através de imagens da retina Um centro de saúde de Hong Kong desenvolveu um sistema que utiliza tecnologias de inteligência artificial (IA) para prever o risco de doença de Alzheimer através da análise de imagens da retina, um avanço pioneiro no mundo. O sistema analisa de forma não invasiva as imagens do fundo do olho, detectando alterações precoces nos vasos sanguíneos e nos nervos da retina que podem estar relacionadas com a doença de Alzheimer, permitindo identificar potenciais casos de risco anos antes do aparecimento de sintomas clínicos. O Humansa Medical Center, um centro de saúde centrado na longevidade, desenvolveu o sistema em colaboração com a i-Cognitio Sciences, uma empresa de tecnologia oftalmológica da Universidade Chinesa de Hong Kong (CUHK). A inteligência artificial da i-Cognitio foi validada com um vasto conjunto de dados, que inclui quase 13.000 imagens do fundo de olhos de 648 pacientes diagnosticados com Alzheimer e mais de 3.000 indivíduos com cognição normal. Um estudo publicado em 2022 na revista Lancet Digital Health demonstrou que a tecnologia de inteligência artificial desenvolvida para a detecção do risco de Alzheimer atinge uma precisão de 80 por cento a 92 por cento em populações multiétnicas de diversos países. A demência afecta cerca de um terço das pessoas com mais de 85 anos na região Ásia-Pacífico, segundo dados recentes. Em Hong Kong, a demência afecta 10 por cento da população com mais de 70 anos e a doença de Alzheimer é responsável por mais de metade dos casos diagnosticados. Estudos científicos sublinham que até 45 por cento dos casos de demência poderiam ser evitados ou retardados através de intervenções precoces, salientando a importância da detecção precoce para atenuar o impacto da demência na população. No entanto, os testes cognitivos convencionais e a imagiologia estrutural do cérebro apresentam uma precisão limitada, ao passo que os métodos avançados, como o PET amiloide e a análise do líquido cefalorraquidiano, são invasivos e menos acessíveis à população em geral. Acção crucial Neste contexto, este estudo desenvolveu um modelo baseado na aprendizagem profunda com uma abordagem que promete oferecer “uma solução simples, de baixo custo e pouco trabalhosa” para identificar potenciais doentes em ambientes comunitários e proporcionar uma precisão e sensibilidade adequadas. Num esforço para realçar a relevância da IA no diagnóstico e nos cuidados de saúde do cérebro, Vincent Mok, director e fundador da i-Cognitio, destacou o papel fundamental da retina como janela para o cérebro. Segundo Mok, “através da fotografia do fundo do olho não invasiva, é possível identificar alterações nos vasos sanguíneos da retina e nos nervos da retina ligados à doença de Alzheimer”. O especialista explicou que essas alterações na retina podem manifestar-se entre 10 a 15 anos antes que os sintomas clínicos da Alzheimer sejam evidentes, o que representa uma oportunidade crucial para uma intervenção precoce.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA porta das estrelas (I) “One must have chaos within oneself to give birth to a dancing star” Friedrich Nietzsche O projecto centrado na Inteligência Artificial (IA) anunciado por Trump redefine as hierarquias do Vale do Silício. E esclarece a natureza industrial da IA. Desde que venceu as eleições, Donald Trump passou muito tempo a discorrer sobre as estrelas. No início foi Musk, o famoso «astro nascente», por ocasião do primeiro discurso do magnata após a vitória eleitoral. Posteriormente, ainda ligado a Elon, foi a vez de Marte, a estrela vermelha e onde plantar a bandeira estrelada para actualizar o destino manifesto de um povo tão excepcional que precisa tornar-se transglobal. E então, como um raio em céu azul, chegou a hora do Stargate, a «porta das estrelas» com a qual Trump pretende relançar o sonho americano, ligando-o à inovação tecnológica e ao desenvolvimento da IA, com o objectivo concreto de preservar a liderança mundial. Os Estados Unidos devem manter a superioridade tecnológica em relação à China que recentemente desenvolveu um modelo de IA (DeepSeek) capaz de alcançar resultados comparáveis aos do ChatGpt com hardware de nível inferior (segundo eles) e custos mais baixos porque só assim Washington poderá estabelecer com Pequim um «acordo» que é a nova palavra preferida de Trump a partir de uma posição de força. Stargate é um projecto potencialmente revolucionário. Trata-se de investir cem mil milhões de dólares imediatamente, destinados a quintuplicar, para acelerar o desenvolvimento da nova geração de inteligências artificiais, integrando a cadeia de produção material (centros de dados e chips) com a imaterial (gestão informática da nuvem e escrita de algoritmos). Para o fazer, Trump confia naqueles elementos do mundo tecnológico que, até ontem, estavam longe dos holofotes. E sanciona o fim daqueles que, dentro do Estado, estavam ocupados exactamente com essas questões. Em resumo, a “PayPal Mafia” nas suas correntes thielista e muskiana ficará de fora da porta das estrelas, ocupando a antecâmara na companhia de Eric Schmidt, ex-chefe democrata do Google que preside à (caríssima) Comissão de Segurança Nacional sobre IA, agora totalmente vazia de sentido. A decisão de Trump é clara. Como um novo Adam Smith, o magnata propõe uma divisão do trabalho necessária para que nenhum dos grandes homens do sector tecnológico consiga acumular demasiado poder. Não existem estrelas tão brilhantes que possam ofuscar a do presidente, que aplica o mais clássico dos divide et impera. Será que vai funcionar? Para entender, temos que atravessar a porta das estrelas. Quando, no dia 21 de Janeiro passado, Trump apareceu na Casa Branca para anunciar o lançamento do Stargate, havia três pessoas com ele. Menos conhecidas do que Elon Musk, muitas vezes em desacordo com o fundador da Tesla e ansiosas por mostrar ao mundo como também podem ser úteis ao magnata. Depois do presidente, o primeiro a falar foi Larry Ellison, co-fundador e Presidente Executivo da Oracle. A sua empresa trabalha com nuvem, ou seja, armazena quantidades imensas de dados para várias empresas tecnológicas. O empresário de oitenta anos, diante do presidente da sua idade, explica como a IA pode ser útil para a saúde. O seu discurso parece um anúncio publicitário. Mas cuidado com as aparências. Ellison teoriza o uso da IA para implementar um sistema de vigilância total, necessário para que «os cidadãos se comportem correctamente». O Presidente da Oracle é o único que não tem formalmente um papel na organização da Stargate, mas Trump apresentou-o como «CEO de tudo» e também deixou claro que ficaria feliz se comprassem o TikTok. Trump e Ellison são da mesma geração, ambos são nova-iorquinos e conhecem-se há muito tempo. Provavelmente entendem-se muito bem. Em seguida, interveio Masayoshi Son, conhecido como Masa. Ele é o fundador, director representante, executivo corporativo, presidente do conselho e CEO do SoftBank Group (SBG), um grupo japonês de capital de risco, e será o responsável financeiro da Stargate. A tarefa de levar a capitalização da porta das estrelas a quinhentos mil milhões de dólares é, antes de tudo, sua. Mas, acima de tudo, como bom japonês, Masa sabe que o projecto nasceu com uma função antichinesa de que «Isto não é apenas negócio», fazendo questão de especificar. Trata-se de desenvolver a IA para não perder a corrida pela inovação com a China. E talvez também criar um recipiente para promover o desenvolvimento da Arm, a empresa inglesa que comercializa chips de IA e que figura como o carro-chefe dos investimentos da SoftBank. Por último, mas não menos importante, Sam Altman. Em Novembro de 2023, após o caso que abalou os alicerces da OpenAI devido à sua demissão (posteriormente retirada), o Estado entrou na sua empresa. Informalmente. Mas a presença de uma figura como Larry Summers, ex-secretário do Tesouro e muito ligado aos aparelhos de segurança nacional no conselho da empresa-mãe da ChatGpt mostra claramente como o governo queria ter conhecimento das suas dinâmicas internas. Hoje, pouco mais de um ano depois, é Altman que se liga ao Estado. O fundador da OpenAi desempenhará, de facto, o papel de responsável operacional da Stargate. E já obteve um resultado importante, uma vez que a Microsoft à qual a OpenAi está ligada por um contrato até 2030 concedeu à empresa de Altman a possibilidade de utilizar também os serviços em nuvem dos seus concorrentes para este projecto. Em particular, obviamente, os de Larry Ellison, CEO de tudo. Aos principais actores juntam-se a própria Microsoft que disponibilizará a sua plataforma de nuvem (Azure) à Stargate e, obviamente, a Nvidia. Porque não existe IA sem GPUs (Unidades de Processamento Gráfico) para treinar os modelos de aprendizagem automática (machine learning). A Nvidia de Jensen Huang ainda é, de facto, praticamente monopolista no sector, embora o mercado esteja a expandir-se e seja cada vez mais difícil atender à procura. Por fim, o fundo dos Emirados Árabes Unidos (MGX) especializado em investimentos tecnológicos colaborará na gestão financeira da operação. E assim, quase como numa piada, a Stargate é, no final das contas, um recipiente no qual coexistirão um octogenário nascido no Bronx, um japonês de sessenta anos, um jovem guru da IA, a Microsoft, Jensen Huang com o seu casaco de couro e um fundo de Abu Dhabi. A tarefa de Trump será coordenar essa massa humana heterogénea, unindo-a em torno de um objectivo estratégico que é desenvolver a IA para reprogramar o sonho americano e manter a China a uma distância segura. Tudo claro. Como proceder? (Continua)
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteEstudo | Alunos de línguas estrangeiras usam cada vez mais a IA Um estudo de académicos da Universidade Politécnica de Macau conclui que 80 por cento de uma amostra de 25 alunos de português “usa regularmente” a inteligência artificial como ferramenta de estudo. Os autores do estudo alertam para a necessidade de conjugação com métodos tradicionais de ensino e de formação de docentes Até que ponto a inteligência artificial (IA) está a ser usada por alunos chineses para aprender idiomas estrangeiros, e de que forma é feita esse uso? Um estudo desenvolvido pelos académicos e docentes da Universidade Politécnica de Macau (UPM) Vanessa Amaro e Manuel Pires conclui que o uso é crescente. O trabalho, intitulado “Artificial e Natural: Interligências e Equilíbrios em PLE”, publicado na revista científica “Millenium – Journal of Education, Technologies and Health”, conclui que, de uma amostra de 25 estudantes da licenciatura em português da UPM, “80 por cento utiliza regularmente à IA. Os restantes recorrem a estas ferramentas de forma pontual, como para preparar apresentações ou na pesquisa de informações culturais sobre países lusófonos”. Os estudantes em causa frequentam o terceiro e quarto ano do curso e foram escolhidos por possuírem “um nível mais avançado de domínio da língua portuguesa e maior experiência com diferentes abordagens pedagógicas, incluindo o uso de tecnologias no ensino”. Além disso, “a maioria dos participantes tinha idades compreendidas entre 21 e 24 anos, oriunda de diversas províncias do Interior da China (cerca de 70 por cento) e de Macau”, sendo que “possuíam experiência prévia no uso de ferramentas de IA para a aprendizagem linguística”. Em termos gerais, o trabalho destaca que a IA é cada vez mais importante “na aprendizagem de PLE [português como língua estrangeira]”, e que “a análise das interacções dos estudantes com a IA para a aprendizagem de línguas estrangeira é fundamental para garantir que as soluções tecnológicas sejam trabalhadas com base nas suas necessidades e expectativas”. Refere-se ainda que os 25 alunos entrevistados assumem “uma atitude positiva em relação à integração da IA na aprendizagem do português, reconhecendo tanto as suas vantagens significativas quanto as suas limitações”. “Um tema recorrente foi a necessidade de manter o equilíbrio entre a utilização da IA e a interacção humana, destacando-se a vontade de um ensino de línguas aberto às novas tecnologias, mas sem comprometer os benefícios das relações interpessoais”, apontam os autores. Dar à língua Se 80 por cento dos alunos recorre frequentemente à IA, quais as finalidades desse uso? O estudo destaca que a IA consegue dar apoio “ao treino da pronúncia, especialmente no contexto da aprendizagem autónoma”. “Muitos destacaram a neutralidade das vozes geradas, que evita influências regionais, como um recurso eficaz para desenvolver hábitos correctos na produção oral.” Um estudante referiu aos autores do estudo que “a voz da IA é ajustada, não tem sotaque de qualquer região e, por isso, é bom para os alunos treinarem a compreensão oral com diversos tipos de textos para além dos materiais dados pelo professor na aula”. Além do treino da pronúncia, as ferramentas de IA são também bastante utilizadas para a pesquisa de informações sobre os países de língua portuguesa. “Os estudantes reconheceram que estas ferramentas poupam tempo e permitem um acesso mais directo a conteúdos relevantes”, refere o trabalho, que destaca a resposta de um aluno: “ajuda-me a buscar informações sobre as tendências actuais no Brasil ou em Portugal, porque os livros e informações na internet estão dispersas e requerem várias buscas e muito mais tempo dispensado.” Porém, é salientado, com base na experiência dos dois docentes, “que o uso excessivo de ferramentas de IA tem contribuído para a redução significativa no desenvolvimento de competências críticas entre os estudantes”. “Cada vez mais trabalhos, tanto escritos como orais, carecem de profundidade analítica, apresentando estruturas lexicais e gramaticais avançadas que não correspondem ao nível real de proficiência dos alunos. Este desfasamento sugere uma relação superficial com os materiais de estudo, onde o esforço reflexivo e o pensamento autónomo são frequentemente substituídos pelas respostas geradas automaticamente pela IA”, conclui-se. Complementaridade precisa-se Segundo Vanessa Amaro e Manuel Pires, o estudo permite concluir que “a integração da IA no ensino de línguas estrangeiras é uma tendência irreversível, mas que requer uma abordagem pedagógica estruturada e cuidadosa”. “A maioria dos estudantes [entrevistados] reconheceu a importância de adaptar o ensino de línguas à realidade tecnológica actual, salientando a necessidade de incorporar a IA de forma planeada nos currículos. O equilíbrio entre os métodos tradicionais e o uso das novas tecnologias é fundamental para garantir uma aprendizagem eficaz”, é concluído. Um dos alunos defendeu mesmo ser “necessário haver um equilíbrio entre a IA e os métodos tradicionais”, pois “a aprendizagem de línguas pode ser melhor e mais interessante através da IA, mas falta-lhe a capacidade de criar ideias e imaginação, além dos aspectos interculturais da aprendizagem de línguas”. Assim, para os alunos inquiridos, “a presença do professor, enquanto mediador do conhecimento, é vista como essencial, sobretudo no contexto específico de Macau, onde não ocorre uma imersão linguística durante o processo de aprendizagem do português”. Por interacção humana entende-se, além da “transmissão de conteúdos linguísticos, a capacidade de interpretar aspectos culturais, sociais e emocionais, algo que a IA, apesar da sua eficiência técnica, não consegue replicar”. Vanessa Amaro e Manuel Pires destacam ainda o facto de “os desafios éticos e pedagógicos da IA no ensino serem complexos e multifacetados”. Isto porque “a privacidade dos dados é uma preocupação central, pois muitas ferramentas de IA coleccionam informações pessoais que poderão ser utilizadas para fins que os usuários desconhecem”. Além disso, “o risco de viés algorítmico pode ser uma questão pertinente, pois se os algoritmos produzirem resultados que são sistematicamente incorrectos, tendenciosos ou injustos, tal pode acentuar dificuldades e desigualdades na aprendizagem e requerer redobrados cuidados na sua utilização e regulação”, é indicado. Os autores consideram ainda que “a dependência excessiva da IA pode comprometer a interação humana, essencial para o desenvolvimento de competências sociais e culturais presentes nos processos educativos”. Tendo em conta que “no ensino de línguas estrangeiras parecem existir diversas velocidades na integração da IA, havendo instituições de ensino superior que o fazem mais paulatinamente e ainda com bastantes reservas, assim como as que são mais desenvoltas e proactivas na forma como abraçam estas tecnologias”, cabe “fomentar o diálogo e a cooperação entre os diversos agentes de ensino para compreender o potencial da IA”.