Uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista

Por Chenyang Li

(continuação do número anterior)

Duas categorias de virtude

No Ocidente, a tradição da ética da virtude remonta a Aristóteles. Adotando uma abordagem funcional da virtude, a teoria de Aristóteles salienta a utilidade da virtude para que o indivíduo leve uma vida boa. A teoria da virtude de Aristóteles pode ser interpretada tanto de forma «espessa» como de forma «fina». Numa interpretação «forte», para ser virtuoso, o sujeito deve (a) realizar as ações corretas, (b) pelas razões certas e (c) nas circunstâncias adequadas.16 Nesta perspetiva, Michael Constantinescu e R. Crisp estabelecem uma distinção entre ser virtuoso, por um lado, e comportar-se de forma virtuosa, por outro. De acordo com a sua análise, os robôs de IA podem ser capazes de se comportar de forma virtuosa, mas não podem ser virtuosos. Argumentam que:

Apesar da sua capacidade de imitar ações virtuosas humanas e até de se comportarem de forma equivalente aos seres humanos, os sistemas robóticos de IA não conseguem realizar ações virtuosas de acordo com as virtudes, ou seja, de forma correta ou virtuosa; nem pelas razões e motivações certas; nem, através da phronesis, ter em conta as circunstâncias adequadas. E isto tem como consequência que a IA não pode ser genuinamente virtuosa, pelo menos não com os avanços tecnológicos atuais que sustentam o seu desenvolvimento funcional.17

A interpretação de Constantinescu e Crisp sobre o que é ser virtuoso pode muito bem refletir o que Aristóteles afirmou quando discutiu a pessoa virtuosa. No entanto, não está de acordo com o que Aristóteles disse sobre a função e a virtude em geral. Também é possível fazer uma interpretação restrita da teoria da virtude de Aristóteles, uma interpretação que não se baseia na capacidade do sujeito de usar a razão.

Christine M. Korsgaard escreve:

Os filósofos gregos parecem, em geral, ter acreditado que uma virtude ou excelência é uma qualidade que permite que uma coisa desempenhe bem a sua função. Tanto Platão como Aristóteles estabelecem uma ligação conceptual entre ergon e arete. Uma arete não é meramente um dos pontos positivos de uma coisa; é, especificamente, uma qualidade que torna uma coisa capaz de desempenhar bem a sua função.18

Os termos gregos para «função» e «virtude», ergon e arete, aplicam-se tanto às pessoas humanas como aos seres não humanos. Aristóteles atribui estas características tanto às pessoas humanas como às «coisas» (NE 6.2 1139a17, NE 2.6 1106a15–23). Ele defende que «a virtude de uma coisa está relacionada com a sua função própria» (NE 6.2 1139a17) e que «toda a virtude, por um lado, coloca em bom estado a coisa de que é virtude e, por outro, faz com que a função dessa coisa seja bem desempenhada» (NE 2.6 1106a15–23). Aristóteles recorre aos exemplos de um flautista, de um escultor ou de um artista para defender o seu argumento de que «para todas as coisas que têm uma função ou atividade, considera-se que o bem e o “bem feito” residem na função; assim pareceria ser também para o homem, se ele tiver uma função» (NE I.7, 1097b24 e seguintes).

Numa interpretação restrita, as noções de função e virtude de Aristóteles podem ser aplicadas também aos sistemas robóticos de IA. Uma coisa pode ter muitas funções. Uma faca pode ser utilizada para cortar, para decoração e até mesmo como peso de papel. No entanto, a função própria de uma faca enquanto faca, segundo o raciocínio de Aristóteles, é cortar. Portanto, uma faca excelente, enquanto faca, é aquela que corta bem. É aí que reside a arete de uma faca, a sua excelência ou virtude. Como a função própria de uma faca é diferente da de, digamos, um martelo, a sua excelência ou virtude também é diferente da de um martelo. Para usar os próprios exemplos de Aristóteles, a função própria — a atividade característica — de um flautista é diferente da de um escultor. Um flautista, por exemplo, tem de ser capaz de soprar bem e de mover os dedos nas notas certas, enquanto um escultor cria esculturas esculpindo, modelando ou soldando os materiais adequados para transformá-los em obras de arte. Como têm funções diferentes, um excelente escultor pode ser muito mau a soprar ar num instrumento musical, e o inverso aplica-se a um excelente flautista. Por outras palavras, diferentes formas de ergon requerem diferentes tipos de arete.

Na perspetiva de Aristóteles, no entanto, para além dos papéis específicos das pessoas na sociedade, os seres humanos, enquanto seres humanos, partilham também uma função comum na vida, que é exclusiva da humanidade. Aristóteles defende que a alma humana tem várias funções. Ela mantém a vida vegetativa dos nossos corpos, a vida da nutrição e do crescimento. A alma também mantém as nossas funções animadas, que nos permitem movimentar-nos e ir ao encontro das coisas. Mas estas funções, argumenta Aristóteles, não são a nossa função própria. A vida vegetativa pertence até às plantas; as funções animadas pertencem também aos animais. Para Aristóteles, o uso da razão é a função própria da humanidade (NE 2.7 1197b35-1198a7). Portanto, a virtude dos seres humanos é o que os leva a desempenhar bem a sua função distintiva (NE 2.6 1106a15–23). Assim, uma vida que segue a razão conduz à eudaimonia («florescimento humano»), permitindo-nos viver bem enquanto seres humanos. Viver uma vida de eudaimonia é o objetivo supremo da humanidade.

Nas tradições filosóficas orientais, o conceito de virtude ocupa um lugar central na ética confucionista. A palavra para virtude em chinês é «de». O antigo dicionário chinês Shuowen Jiezi explica o seu significado através do seu homófono «», ou seja, adquirir, realizar. Explica ainda que isto significa «de shi yi ye» (謰燭鼫), nomeadamente, levar as coisas a bom termo de forma adequada. Trata-se de um poder ou capacidade que permite ao seu possuidor alcançar os seus objetivos. Tal qualidade é atribuída tanto aos seres humanos como aos objetos não humanos. O texto taoísta *Daodejing* afirma que tudo no mundo possui o seu *de* (*Daodejing*, Capítulo 51). Na tradição confucionista, *de* é aplicado principalmente às pessoas, mas também se aplica a objetos não humanos. Por exemplo, o Comentário Xi do Livro das Mutações afirma: «a maior virtude (de) do céu e da terra é gerar as coisas 蘢礜巃»»擯崵.» Confúcio disse: «um governante que governa o seu estado com virtude (de) é como a Estrela Polar do Norte, que permanece no seu lugar enquanto todas as outras estrelas giram à sua volta»

“Para o ‘Fan’ e o ‘Yi’, a luz do sol brilha sobre a multidão.” (19)Ao dizer isto, Confúcio sugeriu que é a virtude (de) da Estrela Polar que permite que as outras estrelas se movam em harmonia à sua volta. Confúcio também disse: «Um bom cavalo não é elogiado pela sua força, mas pela sua virtude (de): “骥嫄称剢淛, 称剢适憟”» (Analectos 14:33). A afirmação de Confúcio sugere que a verdadeira virtude de um bom cavalo não é (meramente) a sua força, mas as suas outras capacidades que lhe permitem correr bem, presumivelmente tais como resistência e fiabilidade. Nestas utilizações, o conceito de «virtude» é aplicável tanto aos seres humanos como aos sistemas robóticos de IA.

Pensadores clássicos como Confúcio, Mencius e Xunzi enfatizaram, todos eles, a necessidade de cada pessoa cultivar a virtude e tornar-se um ser humano virtuoso. A visão mais influente de Mencius na filosofia moral é o seu argumento de que as disposições inatas das pessoas podem transformar-se em virtudes morais através do autocultivo. Mencius defendia que todos os seres humanos nascem com quatro tipos de sentimentos inatos: o sentimento de compaixão, o sentimento de desdém, o sentimento de respeito e o sentimento de aprovação e desaprovação. Através do cultivo ativo, as pessoas podem transformar estes sentimentos naturais em disposições éticas, nomeadamente a virtude cardinal da humanidade (ren 嬬), da retidão (yi 义), da cortesia (li 礼) e da

sabedoria (zhi 簹) (Mencius 6A6). Xunzi defendia que as pessoas nascem com uma tendência para

fazem coisas egoístas e sem moralidade. Causarão o caos na sociedade. Ele defende que, através do estabelecimento de regras de decoro ritual (li) na sociedade, as pessoas podem alterar as suas disposições naturais e tornar-se seres humanos virtuosos. Ao praticar a correção ritual através do autocultivo, as pessoas desenvolvem virtudes como o respeito (gong jing 剉杶), a lealdade (zhong xin 蘙蝁), a civilidade e a retidão (li yi 礼义) e a preocupação com os outros (ai ren 爱嬣) (Xunzi, Capítulo 2).

As teorias da virtude de Mencius e Xunzi constituem o seu desenvolvimento da teoria da virtude de Confúcio, embora coloquem ênfase em aspetos diferentes. A contribuição mais fundamental para a teoria da virtude da ética confucionista foi dada por ninguém menos que o próprio Confúcio. A ética da virtude de Confúcio centra-se no desenvolvimento do conceito de ren 嬬. O significado original do caractere ren 嬬 refere-se a um sentimento de ternura para com os outros.20 Confúcio articulou o significado de ren em termos de «amar as pessoas» (ai ren 爱嬣, Analectos 12.22). Tanto Mencius como Xunzi, tal como apresentado acima, herdaram este significado de «ren» de Confúcio. No entanto, Confúcio não se limitou a isso na sua articulação do «ren». Ele alargou ainda mais o conceito como uma virtude abrangente da humanidade. Confúcio disse:

Quem conseguir praticar cinco coisas, em qualquer parte do mundo, pode tornar-se uma pessoa de ren.21 … Respeito (gong剉), tolerância (kuan宽), sinceridade (xin蝁), diligência (min睌) e bondade (hui). Se alguém for respeitoso, não será tratado com desrespeito. Se for tolerante, conquistará o coração de todos. Se for sincero, inspirará confiança. Se for diligente, alcançará os seus objetivos. E se for bondoso, poderá desfrutar do serviço dos outros. (Analectos 17.6)

Aqui, «ren» não é uma virtude específica de cuidado para com os outros, mas sim uma virtude abrangente que pode ser adquirida através da prática de várias virtudes específicas. Ou seja, alcança-se o «ren» praticando as cinco virtudes específicas: respeito, tolerância, confiabilidade, diligência e bondade (Analectos 17.6). Essa lista, no entanto, não é exaustiva. Confúcio também disse: «As pessoas com ren ajudam os outros a prosperar se desejam prosperar elas próprias, e ajudam os outros a ter sucesso se desejam ter sucesso elas próprias (da 达). Ser capaz de julgar os outros com base no que nos é próximo é o método para se tornar ren» (Analectos 6.30). Ser capaz de inspirar-se no que nos é próximo é estender o nosso coração aos outros, compreender os outros pensando no que nós próprios sentiríamos. Seguindo esta linha de pensamento, Confúcio afirmou que o ren exige que não façamos aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem (Analectos 12.2).

Para resumir a visão de Confúcio. O «ren», enquanto virtude, tem um significado específico e um significado mais amplo. Wing-tsit Chan afirmou: «Como virtude geral, o “ren” significa humanidade, ou seja, aquilo que faz do homem um ser moral. Como virtude específica, significa amor.» 22Para efeitos deste ensaio, gostaria de salientar que, na teoria de Confúcio, as virtudes dividem-se em duas categorias. A primeira é a das virtudes específicas. Esta categoria de virtudes inclui uma longa lista de traços morais específicos, tais como o respeito, a tolerância, a confiabilidade, a diligência, a bondade, etc. A segunda categoria é a da virtude abrangente da humanidade refinada. Uma pessoa dotada de «ren» neste último sentido, o da humanidade refinada, possui uma variedade de virtudes específicas. Neste segundo sentido, Confúcio afirmou, numa frase célebre, que «o “ren” é [a característica distintiva da] humanidade.»23

Na tradição confucionista, aqueles que possuem a virtude abrangente do ren podem ser chamados de junzi (珋磾, ver Analectos 4.5). Um junzi é uma pessoa virtuosa que possui uma variedade de virtudes. De acordo com os Analectos, essas pessoas não formam grupinhos (2.14); comportam-se com cavalheirismo quando competem (3.7); são cautelosas quando falam e diligentes quando agem (4.24); comportam-se com modéstia, tratam os superiores com respeito, são bondosas para com as pessoas e agem de forma adequada ao contratar pessoas (5.16); são cultas (6.27); são harmoniosas sem serem uniformizadoras (13.27); são corajosas (17.23). Entretanto, Confúcio também defendia que os junzi não são unidimensionais como um utensílio (junzi bu qi 珋磾嫄厞, 2.12). Ser como um utensílio é ser uma ferramenta destinada apenas a uma tarefa específica, fazer apenas uma coisa, ter apenas uma existência unidimensional. Um ser humano, na visão de Confúcio, deve desenvolver-se como uma pessoa completa e ser bom enquanto ser humano em si mesmo. Tais pessoas, ou junzi, possuem uma variedade de virtudes específicas, mas também não se limitam a essas virtudes específicas isoladas. São capazes de entrelaçar essas virtudes num todo equilibrado, alcançando a virtude abrangente do ren.

Assim, parece existir um paralelo entre Confúcio e Aristóteles. Para Aristóteles, uma pessoa que vive em eudaimonia «é aquela cujas atividades estão em consonância com a virtude plena, com um suprimento adequado de bens externos, não apenas por um período qualquer, mas ao longo de uma vida completa» (NE 1.10 1101a 15–17).24 Por outras palavras, uma vida de eudaimonia requer uma variedade de virtudes específicas na vida. Aristóteles não considerava a eudaimonia em si mesma como uma virtude, mas sim como uma atividade virtuosa. Defendia que se trata de «um certo tipo de atividade da alma em conformidade com a virtude» (NE 2.9 1099b25).

No entanto, Aristóteles aceitou que a sua visão é consistente com a ideia de que a eudaimonia «é a virtude [em geral] ou alguma virtude [particular]; pois a atividade em conformidade com a virtude é própria da virtude» (NE 1.7 1198b 30-32).25 Aristóteles reconhece que o conceito de virtude pode, por vezes, implicar a eudaimonia (NE 1.7 1198b 32-1099a 5). Se pudermos defender aqui uma interpretação de certa forma confucionista, podemos dizer que, na medida em que a função própria da humanidade é viver de acordo com a razão, e viver bem de acordo com a razão é eudaimonia, a eudaimonia encaixa-se na definição de virtude (arete) de Aristóteles.

Independentemente de Aristóteles ter ou não chamado a eudaimonia de virtude, num sentido lato, uma vida de eudaimonia, segundo Aristóteles, é análoga a uma vida de ren (virtude abrangente) para Confúcio. Para Aristóteles, uma pessoa dotada de uma virtude específica pode não ser um ser humano excelente se não agir de acordo com a razão e não possuir outras virtudes específicas. Confúcio defendia uma visão semelhante. Ele defendia, por exemplo, que uma pessoa dotada de ren tem necessariamente de ser corajosa, enquanto que uma pessoa corajosa pode não ser ren (嬬簅, 饡膧曏; 曏簅, 嫄饡膧嬬; Analectos 14.4). Ser corajoso é possuir uma virtude específica; ser «ren», no sentido de virtude abrangente, é possuir a virtude abrangente da humanidade.

2 Set 2026

A voz viva na era da voz fabricada

Por Zerbo Freire

Em outubro de 2025, uma canção gerada por inteligência artificial e publicada no YouTube fez milhares de ouvintes acreditarem que Adele gravara um tributo a Charlie Kirk, ativista conservador norte-americano assassinado em setembro daquele ano. Com o título “Heaven Gained an Angel”, o vídeo acumulou milhões de visualizações e centenas de comentários como “Obrigado, Adele, é uma canção magnífica” — apesar de a voz gerada por IA pouco se assemelhar à da cantora britânica. A plataforma removeu o vídeo após ser alertada pela AFP, mas a comoção, essa, já ocorrera. A voz fabricada fizera o que a voz viva não fizera: emocionar sem estar presente.

Há algo profundamente perturbador nessa voz fabricada que emerge de um alto-falante sem nunca ter atravessado uma garganta de carne. Não se trata aqui da voz mediatizada — aquela que, mesmo gravada, conserva o fantasma de um corpo, o rastro de um instante em que alguém, de fato, moveu os lábios. O inquietante, agora, é mais radical: uma voz gerada do zero por algoritmos, que nenhum ser humano pronunciou, e que, no entanto, soa como se pudesse tê-lo feito.

O medievalista e teórico da vocalidade Paul Zumthor já antecipava esse momento em 1986, numa passagem em que respondia à pergunta da revista italiana Linea d’Ombra sobre o impacto dos meios eletrônicos, auditivos e audiovisuais sobre a voz. Para ele, a distância entre a voz viva e qualquer mediação técnica era intransponível, justamente porque evidenciava “a diferença biológica entre o homem e a máquina”. Mas Zumthor não se detinha aí: ele via no computador — substituto eletrônico da escritura — o próximo passo de uma abstração vocal tão radical que “já não se tratará de gravação, mas de voz fabricada”. A pergunta que essa antevisão nos lega não é, portanto, meramente técnica, mas antropológica: o que resta da voz viva quando a fabricada se torna praticamente indistinguível da verdadeira?

A voz viva, nos lembra Zumthor, é um evento corporal. Mais precisamente: uma expansão do corpo. O som que emitimos não é algo acrescentado de fora; é o próprio corpo projetando-se para além de seus limites. Ao falarmos, tornamo-nos onda — tocamos o outro através do vazio, carregando nele o peso, o calor e o volume real da carne. Ouvir alguém ao vivo não é apenas processar informação linguística: é estar na presença de um outro. Sentimos sua fragilidade, seu risco iminente de gaguejar, de se emocionar demais. Essa vulnerabilidade é o que confere à voz viva sua força: ela é única, perecível, como um corpo.

A voz gravada já é outra coisa. Ela congela o instante, torna o efêmero repetível. Mas ali ainda resiste o traço de um corpo — ausente, é verdade, mas que um dia existiu.

Agora a voz fabricada — essa é uma expansão de nada. Não há corpo algum a ser expandido. A respiração que parecemos ouvir é simulada. A emoção que detectamos é calculada. O timbre foi montado estatisticamente a partir de milhares de vozes reais, desencarnadas e recompostas numa entidade que nunca existiu. Um significante sem significado existencial. Um som órfão.

Mas seria apressado concluir daí apenas um lamento. Não nos deixemos, contudo, cair num pessimismo fácil — há que se ter horror ao tom apocalíptico. A voz fabricada não é uma ruptura absoluta; ela apenas radicaliza um processo muito mais antigo: a progressiva desencarnação da vocalidade. Zumthor lembra que, por séculos, a voz foi reprimida pela hegemonia da escrita. Depois vieram a rádio, o disco, a televisão, apagando as referências espaciais da voz viva. A voz fabricada, agora, rompe o cordão da mediatização: já não há fantasma, já não há origem. Apenas simulação. É a desencarnação radical da vocalidade — preparada há séculos.

E, no entanto, algo inquietante acontece. Um ouvinte real pode escutar um poema recitado por uma voz sintética e chorar. A comoção é verdadeira? O corpo do ouvinte expande-se em resposta a algo que não é expansão de nenhum outro corpo? Uma primeira resposta, alinhada a Zumthor, seria o “não” categórico: o ouvinte chorou porque pensou estar diante de uma voz viva — foi ludibriado. Se soubesse da verdade, talvez não chorasse.

Mas há outra possibilidade, que Zumthor não teve tempo de contemplar. O corpo humano pode ser tocado por padrões sonoros mesmo na ausência de uma intencionalidade emissora. Assim como choramos com um filme de animação sabendo que os personagens não existem, podemos chorar com uma voz fabricada sabendo que aquele sopro não vem de ninguém. A diferença, porém, é que no filme há corpos humanos por trás — atores, animadores. Na voz fabricada, pode não haver ninguém. Apenas um algoritmo otimizado para maximizar a comoção. Se a comoção pode ser fabricada sem sujeito, então a escuta deixa de ser encontro e passa a ser resposta a um estímulo. E isso muda o estatuto da verdade na experiência estética.

Se é assim, o que acontece com a arte que sempre dependeu da voz como expansão do corpo — a poesia, por exemplo?

Para a poesia, as implicações são imensas. Zumthor definiu o poético como “uma arte da linguagem humana, independente de seus modos de concretização e fundamentada nas estruturas antropológicas mais profundas”. A poesia nasce do ritmo da respiração, da ressonância da caixa torácica, do gesto. Pensemos no griot da África Ocidental: ali, a voz não é um veículo do poema, mas o próprio corpo do poeta em ato. Sem esse corpo, o que resta da poesia? O movimento das mãos, o olhar que varre a audiência, a respiração que se suspende: tudo isso é o poema. O griot testemunha com seu corpo.

A poesia pode habitar uma voz que nunca respirou? Há quem diga que sim — que a voz fabricada pode criar novas vocalidades impossíveis para a garganta de carne. Mas essa resposta elide uma questão central: um instrumento requer um instrumentista. Na voz fabricada, quem é o sujeito da enunciação? O algoritmo? O programador? Nenhum deles, no momento da emissão, está expandindo seu corpo. Ninguém está ali, presente, assumindo aberta e responsavelmente a palavra.

A era da fabricação vocal nos obriga a repensar o lugar do corpo na experiência poética. A voz viva continua insubstituível — na intimidade de uma conversa, na força bruta de um protesto cantado, no silêncio que antecede a palavra de um poeta em cena. Ali, a presença carnal faz o que nenhum algoritmo pode: lembra-nos de que estamos juntos, frágeis, vivos e mortais, compartilhando o mesmo ar enquanto ele dura.

Mas a voz fabricada chegou para ficar. A sabedoria talvez não seja rejeitá-la, mas aprender a distingui-la da voz viva — sem deixar que sua perfeição nos faça esquecer o valor da imperfeição, da respiração ofegante, da palavra que hesita.

Ouvir uma voz fabricada e sentir-se tocado é, talvez, a mais estranha nostalgia que a técnica nos reservou: a nostalgia de um corpo que nunca esteve ali. Como se pudéssemos sentir saudade de um abraço que nunca aconteceu.

Porque, no fundo, não é a perfeição técnica que nos comove. É o sopro imperfeito. Se o sopro imperfeito ainda é nosso, cabe a nós decidir se queremos ouvi-lo como prova de humanidade ou como ruído a ser aperfeiçoado.

1 Set 2026

China | IA ameaça centenas de milhares de pessoas na indústria audiovisual

A rápida adopção de ferramentas de inteligência artificial (IA) na produção de vídeos e no comércio electrónico na China está a substituir actores e apresentadores humanos, num sector que emprega directamente centenas de milhares de pessoas.

No primeiro trimestre deste ano, foram lançadas na China cerca de 128.000 séries de episódios curtos para plataformas digitais, mais do triplo das produzidas durante todo o ano anterior, segundo dados da Associação Chinesa de Serviços de Difusão pela Internet.

Cerca de 95 por cento destas produções foram geradas através de IA, de acordo com a mesma organização. A transformação acelerou com o lançamento de modelos de geração de vídeo cada vez mais avançados, entre os quais o Seedance 2.0, desenvolvido pela ByteDance, proprietária da rede social TikTok e da sua versão chinesa, Douyin.

Em Maio, 89 das 100 séries de animação mais populares na Douyin tinham sido produzidas com recurso a IA, segundo a DataEye, empresa especializada em análise de dados e marketing.

O impacto potencial sobre o emprego é significativo num país onde a economia associada às plataformas digitais absorveu milhões de trabalhadores ao longo da última década. A indústria chinesa de séries de curta duração emprega directamente cerca de 690.000 pessoas, segundo um relatório de 2026 da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim.

Já cerca de 15 milhões de pessoas identificavam as transmissões em directo (‘livestreaming’) como principal profissão, segundo um relatório publicado em 2024 pela Associação Chinesa de Serviços de Difusão pela Internet.

Réplicas baratas

A utilização da IA está também a alastrar ao comércio electrónico através de apresentadores virtuais capazes de promover produtos durante 24 horas por dia por cerca de 10 por cento do custo de um trabalhador humano, segundo estimativas divulgadas pela imprensa estatal chinesa.

Em Março, mais de 70.000 comerciantes utilizavam já apresentadores digitais disponibilizados pela plataforma de comércio eletrónico JD.com, segundo o portal de notícias Yicai.

A tecnologia permite ainda criar réplicas digitais de apresentadores conhecidos. Uma versão virtual do influenciador chinês Luo Yonghao conseguiu vender 55 milhões de yuan em produtos durante uma transmissão de apenas sete horas, segundo dados da tecnológica chinesa Baidu. A queda dos custos de produção constitui um dos principais fatores por detrás da rápida adopção da tecnologia.

Em 2024, a produção de uma série com três a cinco minutos podia exigir uma equipa de cinco pessoas durante três meses. Actualmente, o mesmo trabalho pode ser realizado por uma única pessoa em apenas um ou dois dias, segundo dados citados pelo jornal britânico Financial Times.

O custo médio da produção recorrendo a IA caiu para entre 600 e 800 yuan por minuto, aproximadamente um décimo do custo de uma produção realizada com trabalhadores humanos. A Zeelin, empresa chinesa especializada em animação com IA, publicou, só em Maio, cerca de 8.000 episódios de séries curtas com aproximadamente um minuto cada.

Disputas laborais

A automatização está também a suscitar disputas laborais relacionadas com a utilização da imagem, voz e estilo de interpretação dos trabalhadores para criar réplicas digitais capazes de desempenhar posteriormente as mesmas funções.

Num dos primeiros processos judiciais conhecidos em Hangzhou, um dos principais polos tecnológicos chineses, envolvendo um trabalhador alegadamente substituído por IA, o tribunal determinou que a empresa pagasse uma indemnização superior ao funcionário.

A expansão da IA generativa ocorre numa altura em que Pequim procura acelerar a aplicação comercial da tecnologia, considerada pelas autoridades chinesas um dos principais motores para aumentar a produtividade e desenvolver novas fontes de crescimento económico.

1 Set 2026

Uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e sistemas de IA robótica virtuosos: uma perspectiva confucionista

Por Chenyang Li

Introdução

O grande avanço da tecnologia de Inteligência Artificial (IA) esbateu rapidamente as fronteiras entre a humanidade e o mundo não humano, tornando os dois cada vez mais indistinguíveis.1 Tradicionalmente, considera-se que apenas os seres humanos possuem virtudes morais, o que constitui uma característica única da humanidade; agora, as máquinas de IA também são consideradas moralmente virtuosas.2 Neste ensaio, procuro articular, numa perspectiva confucionista, uma diferença fundamental entre as virtudes humanas e as virtudes das máquinas de IA.3

A primeira secção deste ensaio aborda questões gerais sobre a ética da IA, a fim de estabelecer o contexto para a minha argumentação. Na segunda secção, defino e reconstruo duas categorias de virtudes — as virtudes específicas e a virtude abrangente —, numa perspectiva confucionista. Na terceira secção, defendo que uma diferença fundamental entre máquinas de IA virtuosas e seres humanos virtuosos reside no facto de, enquanto os objetivos dos robôs de IA são específicos e as suas virtudes também o são, de acordo com os objetivos para os quais foram concebidos, os seres humanos, independentemente dos papéis específicos que desempenham na vida — que exigem virtudes específicas —, também têm como objetivo alcançar uma vida virtuosa, o que requer a virtude abrangente da humanidade refinada.

Abordagens baseadas em princípios e na virtude

Com o rápido desenvolvimento da tecnologia de IA, a ética da IA tem vindo a tornar-se uma área em expansão da filosofia moral. A ética da IA, enquanto termo geral, pode referir-se a duas questões relacionadas, mas distintas. Em primeiro lugar, pode significar a ética profissional dos profissionais de IA, ou seja, das pessoas que criam e desenvolvem tecnologia de IA. Neste sentido, a ética da IA, tal como a ética médica ou a ética da engenharia, diz respeito ao código ético que os profissionais de IA devem seguir na criação de tecnologia de IA.

Podemos questionar-nos sobre que tipo de código de ética profissional os profissionais da IA devem seguir no seu trabalho, em contraste com os profissionais de outras áreas. Em segundo lugar, a ética da IA também pode referir-se ao código de ética para máquinas robóticas de IA, tendo as próprias máquinas robóticas de IA como sujeitos.4 Neste segundo sentido, a ética da IA diz respeito a «agentes morais artificiais», ou seja, às formas como a robótica de IA deve comportar-se eticamente. Para maior clareza, podemos designar a ética da IA no primeiro sentido por «ética profissional da IA» e, no segundo sentido, por «ética das máquinas de IA».

Em qualquer uma das áreas da ética da IA, em termos gerais, existem dois tipos de abordagens. Uma delas é a abordagem baseada em princípios, uma abordagem predominante neste campo. Na ética profissional da IA, por exemplo, a abordagem baseada em princípios procura definir princípios éticos relevantes para regulamentar o comportamento dos profissionais da IA. Um influente estudo de 2019, da autoria de Brent Mittelstadt, mostra que, até essa altura, pelo menos 84 iniciativas de ética da IA já tinham publicado relatórios que descreviam princípios éticos de alto nível, dogmas, valores ou outros requisitos abstratos para o desenvolvimento e a implementação da IA.5 De acordo com este estudo:

Uma análise recente revelou que muitas iniciativas de ética da IA convergiram para um conjunto de princípios que se assemelham estreitamente aos quatro princípios clássicos da ética médica. Esta conclusão foi posteriormente endossada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)⁹ e pelo Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Inteligência Artificial da Comissão Europeia, que propôs quatro princípios para orientar o desenvolvimento de uma IA «confiável»: respeito pela autonomia humana, prevenção de danos, equidade e explicabilidade.6

Mittelstadt argumenta, no entanto, que, ao contrário da medicina, o desenvolvimento da IA apresenta lacunas em quatro áreas importantes: (1) objectivos comuns e deveres fiduciários, (2) história e normas profissionais, (3) métodos comprovados para traduzir princípios na prática e (4) mecanismos robustos de responsabilização jurídica e profissional. Estas diferenças, segundo Mittelstadt, sugerem que «ainda não devemos comemorar o consenso em torno de princípios de alto nível que ocultam profundas divergências políticas e normativas.»7 Nas práticas de desenvolvimento da IA, a abordagem baseada em princípios é limitada, em parte porque os princípios exigem especificação e equilíbrio em diferentes contextos de tomada de decisão.

Um estudo mais recente de Thilo Hagendorff descreve uma viragem prática no desenvolvimento da ética profissional da IA, passando «do quê para o como».8 O autor defende que essa viragem prática, baseada no principialismo, é, no entanto, inadequada, porque «os quadros da viragem prática são, muitas vezes, apenas códigos de ética mais detalhados que utilizam conceitos mais específicos do que as orientações iniciais de alto nível».9

Como alternativa à abordagem baseada em princípios, Hagendorff defende uma abordagem baseada nas virtudes. Ele afirma: «Em vez de se concentrar apenas nos princípios, a ética da IA pode dar maior ênfase às virtudes ou, por outras palavras, às disposições de caráter dos profissionais da IA, a fim de se pôr efetivamente em prática.»10 Mais especificamente, Hagendorff propõe quatro «virtudes básicas da IA», nomeadamente justiça, honestidade, responsabilidade e cuidado, a serem complementadas por virtudes de segunda ordem, tais como prudência e fortaleza. Estas virtudes são importantes porque representam contextos motivacionais específicos que constituem a condição prévia para a tomada de decisões éticas no desenvolvimento da tecnologia de IA.

Estas duas abordagens, a baseada em princípios e a baseada na virtude, também são utilizadas na área da ética das máquinas de IA. A abordagem baseada em princípios remonta às três leis fundamentais do romancista futurista Isaac Asimov (1920–1992) para orientar o comportamento dos robôs. São elas:

Um robô não pode causar dano a um ser humano nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra dano.

Um robô deve obedecer às ordens que lhe forem dadas por seres humanos, excepto quando tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

Um robô deve proteger a sua própria existência, desde que tal protecção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.11

Num artigo de 2021, propus uma abordagem baseada em princípios à ética das máquinas de IA a partir de perspetivas confucionistas.12 Os pensadores confucionistas clássicos, Mencius e Xunzi, articularam diferentes interpretações sobre os fundamentos da ética. Mencius defende que os seres humanos são únicos, na medida em que nascem com um coração humano (xin 裶). Cultivar esse coração humano tornar-nos-á autenticamente humanos e conduzir-nos-á a uma vida humana moral. Assim, se seguirmos uma abordagem menciana em relação à ética das máquinas de IA, poderemos instalar nos robôs humanóides um princípio de «não causar dano» como mecanismo prioritário, garantindo que os robôs não possam realizar certas ações extremamente destrutivas que prejudiquem a humanidade ou outras formas de vida

formas e uns com os outros. Em contrapartida, Xunzi defende que os seres humanos se tornam morais ao adquirirem normas sociais da sociedade. Os seres humanos não possuem moral quando nascem; são posteriormente «programados» para agir moralmente. Se seguirmos Xunzi, poderemos estabelecer regras para orientar as ações da IA sem um único princípio superior que proteja a humanidade, outras formas de vida no mundo e outros robôs humanóides. Poderemos dar-lhes regras a obedecer, tal como os carros sem condutor obedecem às regras de trânsito. Seguindo tais regras, as máquinas robóticas com IA terão como objetivo cumprir as metas que lhes forem atribuídas, independentemente da natureza dessas metas.

As críticas à abordagem baseada em princípios da ética dos profissionais da IA aplicam-se também à ética das máquinas de IA. Pois, independentemente do tipo de princípios morais que imponhamos, há sempre a necessidade de os adaptar a contextos específicos. Por esta razão, são necessárias abordagens alternativas, pelo menos para complementar, se não para substituir, a abordagem baseada em princípios da ética das máquinas de IA.

Uma questão relacionada, e talvez mais profunda, é se as máquinas robóticas com IA podem ser verdadeiramente consideradas sujeitos morais. A complicar ainda mais a questão está a questão de saber se as máquinas robóticas com IA possuem consciência. Se as máquinas não podem ter consciência, presumivelmente não têm subjetividade, para não falar de livre arbítrio, e, por conseguinte, não podem tornar-se sujeitos morais. No entanto, as opiniões estão divididas quanto à questão da consciência. Algumas pessoas negam que as máquinas possam ter consciência. Defendem que as máquinas com IA podem simular comportamentos semelhantes aos humanos, mas nunca serão verdadeiramente conscientes. Outras acreditam que as máquinas com IA poderiam alcançar a consciência. Defendem que, se forem concebidas com complexidade suficiente e com os algoritmos certos, as máquinas com IA poderiam desenvolver consciência. O debate gira frequentemente em torno da questão de como a consciência deve ser definida. David Chalmers designou a questão da natureza da consciência como «o problema difícil»:

O que torna o «problema difícil» difícil e quase único é o facto de ir além dos problemas relacionados com o desempenho das funções. Para compreender isto, note-se que, mesmo quando tivermos explicado o desempenho de todas as funções cognitivas e comportamentais relacionadas com a experiência

—discriminação percetiva, categorização, acesso interno, relato verbal—, pode ainda subsistir uma questão por responder: por que razão o desempenho destas funções é acompanhado pela experiência? (ênfase no original)13

Se nunca pudermos conhecer a natureza da consciência, como sugere Chalmers, então nunca poderemos saber se as máquinas de IA possuem consciência. No entanto, presumivelmente, ser um agente moral requer uma tomada de decisões consciente; caso contrário, essa designação torna-se sem sentido. Se os robôs de IA, enquanto máquinas, por mais avançados que sejam, não possuem consciência, faz sentido considerá-los agentes morais? Se os sistemas robóticos de IA podem ser agentes morais, como é que os responsabilizamos moralmente pelas suas ações? Estas questões não podem ser resolvidas facilmente.

No seu influente livro *Moral Machines: Teaching Robots Right from Wrong*, Wendell Wallach e Colin Allen tentaram contornar a difícil questão da consciência adotando uma abordagem funcional.14 Defendem que as propriedades importantes da consciência são melhor compreendidas do ponto de vista funcional e que a equivalência funcional do comportamento é tudo o que pode realmente importar para as questões práticas da conceção de agentes morais artificiais. Esta funcionalidade pode ser observada no caso do voo.

O voo, enquanto propriedade funcional, argumentam eles, pode ser alcançado de várias formas, desde que se consiga levantar voo e permanecer no ar durante um período de tempo razoável. Na sua opinião, no que diz respeito à questão dos agentes morais artificiais, é irrelevante se as máquinas de IA possuem a propriedade fenomenológica da consciência humana. No seu livro, Wallach e Allen discutem como a ética das virtudes pode ser aplicada aos agentes morais artificiais. Argumentam que as virtudes constituem uma aplicação híbrida que integra abordagens de cima para baixo e de baixo para cima. Na medida em que as próprias virtudes podem ser descritas explicitamente, trata-se de uma abordagem de cima para baixo. Entretanto, a aquisição de virtudes como traços de caráter moral é essencialmente um processo de baixo para cima.15 O seu objectivo é desenvolver um sistema ético viável para máquinas robóticas de IA.

Neste ensaio, também adopto uma abordagem baseada na ética das virtudes para a ética das máquinas de IA, mas com um objetivo diferente. O meu objectivo é revelar uma diferença fundamental entre seres humanos virtuosos e máquinas de IA virtuosas, e faço-o a partir de uma perspectiva confucionista.

(continua)

1 Set 2026

IA | Fabricante chinesa de chips Enflame prepara entrada em bolsa

A Enflame Technology, uma das principais ‘start-ups’ chinesas de semicondutores para inteligência artificial (IA), vai abrir em 02 de Setembro as subscrições para uma oferta pública inicial, visando captar 765 milhões de euros.

Num comunicado enviado ontem à Bolsa de Valores de Xangai, a empresa indicou que vai vender cerca de 43 milhões de acções, a um preço ainda por determinar, embora na documentação apresentada no pedido de admissão à bolsa em Xangai tenha avançado que pretende captar cerca de seis mil milhões de yuan.

A Enflame é conhecida como um dos “quatro pequenos dragões” chineses do sector dos semicondutores para IA, juntamente com a MetaX, Moore Threads e Biren Technology, sendo a última deste grupo a avançar para bolsa.

As restantes protagonizaram ofertas públicas de grande dimensão entre o final do 2025 e o início de 2026. A estreia da Enflame servirá também para avaliar o apetite dos investidores, depois de a Moore Threads ter disparado 425 por cento na primeira sessão em bolsa, a MetaX 693 por cento e a Biren 76 por cento.

27 Ago 2026

Manus | Pequim vai levantar proibição de viagem a fundadores de empresa de IA

Pequim planeia levantar a proibição de viagem imposta aos fundadores da empresa de inteligência artificial (IA) Manus, após a empresa cancelar a sua aquisição de 2 mil milhões de dólares pela Meta, reportou o jornal Financial Times.

Segundo o jornal britânico, Xiao Hong, presidente executivo e co-fundador da Manus, informou recentemente os colaboradores de que tenciona regressar em breve a Singapura, onde está sediada a plataforma.

Xiao e outros elementos da direcção da Manus, incluindo o cientista-chefe Ji Yichao, foram impedidos de sair da China após terem sido intimados a deslocar-se a Pequim em Março, devido a uma investigação iniciada pelas autoridades chinesas à venda da start-up à gigante tecnológica norte-americana Meta, com o objectivo de determinar se tinham sido violadas as regras de investimento.

Esta semana, a Manus anunciou que voltará em breve a operar como uma empresa independente. “Isto faz parte do nosso processo de separação da Meta; temos de dar este passo para cumprir os requisitos regulamentares em determinadas regiões do mundo”, esclareceu a empresa no seu portal na passada terça-feira.

No âmbito do acordo de anulação, a maioria dos antigos investidores da Manus — incluindo a Tencent, a ZhenFund e a empresa de equidade privada HSG —, juntamente com a equipa de gestão, irá recomprar a empresa à Meta com base na mesma avaliação de cerca de 2 mil milhões de dólares, avançou o Financial Times (FT) no mês passado.

Ainda assim, a Tencent terá apenas uma participação minoritária e a Manus continuará a operar de forma independente a partir de Singapura, em vez de ser integrada na tecnológica chinesa.

18 Ago 2026

Crime | Desmanteladas três redes por extorsão a celebridades

Os grupos criminosos criavam contas nas redes sociais onde angariavam milhões de seguidores que depois manipulavam para obter lucros de milhões

A polícia chinesa desmantelou três redes criminosas e deteve 24 indivíduos suspeitos de utilizarem inteligência artificial (IA) e contas com milhões de seguidores nas redes sociais para extorquir produtoras de televisão e celebridades, reportaram meios de comunicação estatais chineses.

Segundo a agência noticiosa estatal Xinhua, em Heyuan, na província de Guangdong, um suspeito de apelido Li estabeleceu e registou uma agência multimédia e operou várias contas em redes sociais com um total de mais de dez milhões de seguidores, com o objectivo de reunir e compilar rumores sobre celebridades.

Uma vez compilado o material, o grupo utilizava ferramentas de inteligência artificial (IA) para gerar e publicar conteúdos, “gerando intencionalmente discurso público negativo durante a transmissão de telenovelas e programas de entretenimento”, relatou a Xinhua.

Quando as equipas de produção ficavam sob pressão pública, abordavam a agência para negociar a remoção dos conteúdos. O suspeito exigia então que as empresas envolvidas adquirissem os chamados serviços de “protecção”, ameaçando manter as publicações negativas online caso contrário.

Os pacotes de “protecção” do grupo incluíam a publicação de conteúdo promocional positivo sobre as telenovelas, a remoção de publicações negativas anteriormente divulgadas sobre as celebridades envolvidas, e o compromisso de não publicar mais material negativo enquanto a produção estivesse a ser exibida. A polícia de Heyuan deteve um total de 12 pessoas pertencentes a este grupo.

Outras manipulações

Entretanto, em Hangzhou, província de Zhejiang, outra rede criminosa, estabeleceu uma empresa cultural e de media através da qual alegadamente manipulava a opinião pública online “de forma sistemática, deliberada e processual”, tendo sido detidos 10 suspeitos.

Segundo as reportagens, o grupo utilizava várias contas em redes sociais, cada uma com milhões de seguidores, “para compilar, fabricar e publicar sistematicamente grandes quantidades de informações negativas” dirigidas a filmes populares, telenovelas, programas de entretenimento de sucesso e celebridades de alta visibilidade durante um longo período.

“Criando pressão pública, forçavam as vítimas a contactá-los e a adquirir os chamados serviços de ‘protecção de espectáculos’, obtendo assim lucros ilegais”, afirmou a agência. A Xinhua comentou que as actividades criminosas deste grupo “perturbaram gravemente o ecossistema saudável” da indústria cultural e de entretenimento.

A polícia chinesa deteve também duas pessoas em Fuzhou, província de Fujian, acusadas de recolher “informações negativas” sobre novas telenovelas e celebridades “durante um longo período”, “manipulando contas em várias plataformas online populares para fabricar e difundir conteúdo falso”.

“Sempre que uma telenovela popular era transmitida ou um artista aparecia num evento público, o par utilizava as contas para publicar conteúdo negativo, inflaccionando artificialmente a popularidade das publicações e criando deliberadamente discurso público negativo”, acrescentou.

Preocupadas com o facto de a publicidade negativa poder prejudicar “as reputações e os interesses comerciais” dos artistas, as equipas de produção e as equipas de gestão contactavam proactivamente os suspeitos para solicitar a remoção das publicações, e o par eliminava então os conteúdos relevantes mediante o recebimento do pagamento.

“O ciberespaço não é uma zona sem lei. A utilização organizada de plataformas online para praticar extorsão, perturbando gravemente a ordem online, constitui um crime”, reportou a Xinhua, citando um comunicado do Departamento de Segurança Cibernética do país.

18 Ago 2026

IA | Pedida clarificação de regras para uso nas escolas

O deputado Ngan Iek Hang interpelou o Executivo, por escrito, sobre a necessidade de definir regras para o uso da Inteligência Artificial nas escolas. Ngan Iek Hang sugere também a implementação de um sistema que avalie a literacia digital dos alunos neste domínio

A chegada da Inteligência Artificial (IA) a todos as áreas da vida em sociedade é já uma realidade, incluindo o ensino, e para o deputado Ngan Iek Hang é imperativo que as autoridades definam regras para o seu uso nas escolas.

Numa interpelação escrita dirigida ao Governo, o deputado alerta para a necessidade de “optimizar a qualidade e eficácia da educação inteligente em Macau”, nomeadamente com a criação de “orientações e normas de supervisão para a utilização da IA nos diferentes níveis de ensino”.

Ngan Iek Hang pede que se tenha em consideração “as experiências internacionais e no interior da China”, sendo que essas novas normas iriam complementar “o actual quadro curricular e os requisitos de competências básicas” dos alunos.

O deputado destaca mesmo a importância de estabelecer regras para o ensino primário. “Tendo em conta as diferentes fases de desenvolvimento cognitivo das crianças do ensino primário, irá [o Governo] estabelecer princípios adequados para a utilização desta tecnologia?”, questionou.

Ao regulamentar a IA no ensino primário, o deputado espera que se possa “optimizar e consolidar as capacidades fundamentais dos alunos na leitura, expressão e raciocínio lógico”, bem como o “pensamento inovador”. Com o estabelecimento de regras, os alunos podem “utilizar melhor as ferramentas de IA com orientação dos professores e encarregados de educação, melhorando a sua literacia digital”.

Riscos a ter em conta

É certo que o deputado defende a regulamentação, mas alerta para os riscos, citando normas da UNESCO, nomeadamente quanto à “recomendação da definição dos 13 anos de idade como idade mínima para a utilização autónoma” da IA. Ngan Iek Hang referiu também que “com a crescente popularização e utilização da IA, vários países e regiões têm vindo a manifestar preocupação com a potencial interferência no desenvolvimento cognitivo das crianças mais jovens”.

O deputado pede ainda que o Governo considere “a criação de um mecanismo de avaliação da literacia dos alunos” nesta área, a fim de “avaliar, de forma objectiva, os resultados da implementação nas diferentes escolas e a situação da aprendizagem dos alunos”.

Desta forma, o deputado entende que, com mais regras para a utilização da IA, pode-se ajustar as “estratégias pedagógicas e medidas de apoio”, a fim de promover “um desenvolvimento mais sólido, estável e ordenado da educação em inteligência artificial em todos os níveis de ensino”.

17 Ago 2026

IA na China cresceu 40% em 2025 atingindo 153,9 mil milhões de euros

As autoridades chinesas anunciaram que o sector da inteligência artificial (IA) na China deverá ultrapassar 1,2 biliões de yuan em 2025, o que representa um aumento de 40 por cento em relação ao ano anterior.

“Até ao final de Junho, o número de empresas de IA ultrapassou as 6.600, representando 15 por cento do total mundial”, afirmou a Academia Chinesa de Tecnologia da Informação e Comunicações (CAICT) num comunicado publicado nas redes sociais na segunda-feira.

De acordo com a CAICT, a indústria de IA na China estabeleceu um “ecossistema industrial abrangente que inclui infraestruturas de base, estruturas de modelos e aplicações industriais”. A academia referiu que a cadeia industrial da IA se divide na camada de infraestruturas, na camada de estruturas de modelos e na camada de aplicações.

“Em 2025, a dimensão da camada de infraestruturas de IA da China cresceu 59 por cento em relação ao ano anterior, representando 38 por cento do total; a dimensão da camada de estruturas de modelos de IA cresceu 189 por cento, representando 7 por cento, e a dimensão da camada de aplicações de IA cresceu 22 por cento, representando 55 por cento”, acrescentou a CAICT.

Expansão em curso

A CAIC observou que a indústria de inteligência artificial da China é “altamente concentrada” em termos de distribuição geográfica. Pequim, Guangdong, Xangai, Zhejiang e Shandong lideram o desenvolvimento da IA, juntas, estas cinco províncias representam mais de 80 por cento da indústria de IA da China.

A academia descreveu o sector da IA na China como “em plena expansão”, com as inovações tecnológicas a alcançarem uma série de avanços, “marcando um período de vitalidade sem precedentes”.

A tecnológica chinesa Alibaba apresentou esta semana o Qwen3.8-Max, o seu modelo de inteligência artificial mais avançado até à data, num novo passo na competição entre os principais programadores chineses e norte-americanos de sistemas de raciocínio, programação e agentes autónomos.

O Qwen tornou-se um dos principais pilares da aposta da Alibaba na inteligência artificial e na computação em nuvem, áreas nas quais o grupo anunciou investimentos superiores a 52 mil milhões de dólares ao longo de três anos.

O lançamento ocorre numa altura de forte dinamismo do setor chinês da IA, após a apresentação de modelos como o Kimi K3, da Moonshot, ou o GLM-5.2, da Zhipu, e em plena competição tecnológica entre a China e os Estados Unidos por tecnologias consideradas estratégicas.

5 Ago 2026

Exército | Xi quer acelerar utilização militar da inteligência artificial

O Presidente chinês, Xi Jinping, instou a acelerar a utilização militar da inteligência artificial e de tecnologias não tripuladas no âmbito da modernização das Forças Armadas, visando avançar para um “sistema militar inteligente”.

Xi, que preside à Comissão Militar Central (CMC), o mais alto órgão de direcção das Forças Armadas chinesas, fez estas declarações durante uma sessão de estudo do Politburo do Partido Comunista Chinês (PCC), realizada na véspera do 99.º aniversário da fundação do Exército de Libertação Popular (ELP), que se assinalou no sábado, informou sexta-feira a agência de notícias oficial Xinhua.

O líder chinês afirmou que o principal critério para avaliar os progressos da modernização militar deve ser a capacidade de combate e apelou ao reforço da aplicação militar de tecnologias inteligentes e de sistemas não tripulados, ao aprofundamento do desenvolvimento de sistemas de informação em rede e ao avanço gradual para a criação de um “sistema militar inteligente”.

Xi defendeu ainda o reforço da integração das capacidades de combate, a intensificação dos testes e avaliações em condições reais e o avanço contínuo do treino e da preparação militar para salvaguardar a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento do país.

O Presidente chinês insistiu também no reforço da liderança absoluta do PCC sobre as Forças Armadas e no aprofundamento da campanha anti-corrupção no Exército, através de um maior controlo dos grandes projectos militares e dos mecanismos de supervisão.

As declarações surgem quando Pequim intensificou as medidas para reforçar a disciplina e o controlo político sobre a cúpula militar, após uma série de investigações por corrupção que atingiram responsáveis das Forças Armadas e antigos dirigentes da Defesa. Nos últimos meses, Xi promoveu novas normas de supervisão para oficiais superiores e reiterou a necessidade de reforçar a lealdade política no seio das Forças Armadas.

3 Ago 2026

IA | Governo quer formar quadros “médicos ‘mistos’”

O Governo anunciou ontem que vai reforçar a formação de profissionais de saúde com competências combinadas em Medicina e inteligência artificial (IA), aprofundando a cooperação com instituições de ensino superior.

“Para o futuro, prevê-se o aprofundamento da cooperação com as instituições de ensino superior no sentido de cultivar quadros qualificados médicos ‘mistos’ de integração entre a Medicina e a Engenharia, os quais combinem a prática clínica com capacidades em tecnologia de IA”, disse esta tarde na Assembleia Legislativa a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura.

O Lam, que respondia a uma interpelação de Lei Wun Kong e Kou Kam Fai – do grupo de deputados nomeados pelo chefe do Executivo – destacou que, como parte desta estratégia de formação de “quadros qualificados ‘mistos’ interdisciplinares”, planeia-se a criação, no ano lectivo 2027/2028, dos mestrados de Inteligência Artificial para Biologia e Engenharia Médica Inteligente.

Estes programas, notou, vão juntar-se a formações já existentes em áreas como a da “MTC [Medicina Tradicional Chinesa], de administração medicinal, de técnicas farmacêuticas, ciências biomédicas, bem como de descoberta de drogas impulsionada por IA”.

Lei Wun Kong e Kou Kam Fai interpelaram as autoridades sobre a necessidade de definir uma “estratégia de desenvolvimento saudável” da IA aplicada à saúde, questionando, por exemplo, se existe a intenção de investir em equipamento médico avançado ou exportar soluções digitais para os países de língua portuguesa.

31 Jul 2026

Anunciada reconversão do sistema educativo a pensar na IA

O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, anunciou ontem que haverá uma reconversão de todo o sistema educativo, desde o ensino técnico-profissional ao ensino superior, a pensar na Inteligência Artificial (IA) e na necessidade de novos conteúdos e formatos. “Vamos implementar a educação em IA em todas as fases de educação e melhorar os cursos técnico-profissionais nas escolas, e no ano lectivo de 2025-2026 12 escolas já administraram cursos nesta matéria”, começou por dizer o governante.

“No ensino superior vamos aditar cursos de IA, na área do Direito ou gestão digital, e fazer com que as instituições do ensino superior possam organizar micro cursos para esse efeito”, acrescentou.

Sam Hou Fai, que foi ontem à Assembleia Legislativa (AL) fazer um balanço dos seis meses de Governo, respondeu, assim, às muitas perguntas colocadas pelos deputados sobre a necessidade de apoios ao emprego dos jovens e dos residentes.

Ngan Iek Hang disse que “os recém-graduados esperam maior diversificação dos postos de trabalho em cargos de base e médios nas indústrias emergentes”, enquanto Lam Lon Wai destacou que “o que mais preocupa os residentes continua a ser o emprego”.

“Muitos jovens são licenciados, mas não têm experiência, enquanto alguns trabalhadores de meia idade temem que as suas competências fiquem desactualizadas”, indicou o deputado dos Operários. Lam Lon Wai lembrou que “muitos cursos não correspondem às necessidades de mercado”.

Chan Hao Weng disse mesmo que “os resultados da transformação de indústrias continuam a não beneficiar os residentes”.

Estudo a caminho

Ainda em matéria de emprego e trabalhadores não-residentes (TNR), Sam Hou Fai revelou que será divulgado, “ainda este ano”, o relatório do estudo encomendado pelo Governo sobre a necessidade de quadros qualificados no futuro, nomeadamente sobre “as indústrias mais populares, como a educação e área jurídica”.

Face a dados no apoio ao emprego, o Chefe do Executivo referiu que entre os meses de Janeiro a Abril deste ano, houve 40 sessões de apoio a 3.370 residentes.

Sobre os TNR, ficou a promessa de “ajustar o número de quotas em conformidade com o desenvolvimento da RAEM”. Até Abril deste ano Macau tinha 182.815 TNR, dos quais cerca de 147 mil não tinham qualquer profissionalização. Apenas 6.887 TNR têm formação ou são qualificados, trabalhando no território 28.683 não-residentes que fazem trabalho doméstico, “o que representa um grande número”, disse o Chefe do Executivo.

Sam Hou Fai concluiu, assim, que “70 por cento dos TNR não profissionais fazem trabalhos que requerem força física, na área da segurança e das limpezas”.

UTM | Extintos cinco cursos

A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, aprovou a extinção de cinco cursos de diploma da Universidade de Turismo de Macau.

Segundo a informação do Boletim Oficial, vão ser extintos os cursos de diploma de Gestão de Empresas Turísticas, curso de diploma de Gestão do Património Cultural, curso de diploma de Gestão Hoteleira, curso de diploma de Gestão e Programação de Eventos e curso de diploma de Gestão de Venda Turística e de Promoção de Marketing.

Todos estes cursos tinham uma duração de dois anos e foram aprovados a partir de 2010. Como parte da extinção, a Universidade de Turismo de Macau garante que os actuais alunos não são afectados e que serão conservados os registos académicos dos alunos que frequentaram as formações que vão ser descontinuadas.

17 Jun 2026

Gigantes tecnológicos reunidos em Taiwan na feira Computex

Os principais responsáveis de empresas tecnológicas como Nvidia, Intel, Qualcomm e SK Hynix reúnem-se esta semana em Taiwan para a Computex, num momento de intensa competição global pelo desenvolvimento da inteligência artificial (IA).

A Computex, uma das mais importantes feiras tecnológicas do mundo, arrancou oficialmente ontem em Taipé e decorre até sexta-feira, reunindo líderes da indústria num momento marcado pela corrida à inteligência artificial e pelas limitações na oferta de componentes críticos.

O destaque da edição deste ano foi a intervenção do director executivo da Nvidia, Jensen Huang, que antecipou a abertura do certame para anunciar a nova sede da empresa em Taiwan e reuniu-se com parceiros locais, incluindo a TSMC, principal fabricante mundial de semicondutores avançados para IA.

Durante uma apresentação de duas horas, Huang revelou várias novidades da empresa, entre elas o RTX Spark, um ‘superchip’ com o qual a Nvidia pretende entrar no mercado de processadores para computadores pessoais, actualmente dominado por empresas como Intel, Qualcomm, AMD e Apple.

Outro dos temas centrais da feira tem sido o chamado “agente IA”, uma nova geração de sistemas de inteligência artificial capazes não apenas de gerar respostas, mas também de tomar decisões e executar tarefas de forma autónoma.

O presidente executivo da Qualcomm, Cristiano Amon, previu que 2026 será “o ano dos agentes”, acrescentando que esta tecnologia deverá expandir-se a praticamente todos os dispositivos eletrónicos.

“É agora que a IA está verdadeiramente a evoluir e vai atingir uma escala incrível”, afirmou Amon num evento realizado antes da abertura da Computex. Também o diretor executivo da britânica Arm Holdings, Rene Haas, considerou que este tipo de inteligência artificial está a impulsionar a procura por unidades centrais de processamento (CPU) a um ritmo sem precedentes.

Ilha vital

A presença de alguns dos nomes mais influentes da indústria serviu igualmente para reforçar a importância de Taiwan na cadeia global de fornecimento tecnológico.

A maioria dos semicondutores avançados utilizados em aplicações de inteligência artificial é produzida na ilha, que também concentra uma parte significativa da produção mundial de servidores para centros de dados.

Recentemente, Jensen Huang anunciou que a Nvidia irá aumentar o investimento anual em Taiwan para 150 mil milhões de dólares, enquanto a AMD revelou planos para investir mais de 10 mil milhões de dólares no ecossistema taiwanês de semicondutores.

Neste contexto, o líder taiwanês, William Lai, afirmou ontem que o mundo necessita de “Taiwan estável, fiável e capaz de assumir responsabilidades” para sustentar o desenvolvimento da inteligência artificial.

3 Jun 2026

A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (II)

A semana passada, analisámos o impacto da ascensão da IA generativa nos planos de reforma. Ao longo da última década, a tendência da “Independência Financeira, Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se por todo o mundo, com muitos trabalhadores do sector de serviços ambicionando reformar-se cedo e viverem da aposentadoria.

No entanto, desde o aparecimento do ChatGPT em finais de 2022, a velocidade da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não só na remodelação das estruturas industriais, mas também ao abalar directamente a lógica fundamental do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

Confrontados com a transformação provocada pela IA, os trabalhadores administrativos podem proteger-se através de estratégias a três tempos: a curto prazo, a médio prazo e a longo prazo. A estratégia a curto prazo consiste em desenvolver competências de colaboração com a IA, usando-a como uma ferramenta que potencia a eficiência reforçando assim a sua posição no local de trabalho e a sua Imprescindibilidade. A estratégia a médio prazo consiste em optimizar a alocação de bens e usar ferramentas financeiras profissionais para reduzir a dependência exclusiva do salário. A estratégia a longo prazo passa por reformular competências interdisciplinares, abraçando áreas onde a IA tem menos probabilidades de ser usada, como ligações interpessoais, tomada de decisões complexas e serviços que dependem sobretudo do lado emocional.

As áreas profissionais que neste momento são menos afectadas pela IA, como a medicina, o aconselhamento psicológico, o artesanato de alto nível, a advocacia, as políticas públicas governamentais e a consultoria privada especializada, dependem em grande escala do julgamento humano, da confiança interpessoal, da experiência e da adaptabilidade às situações. Embora seja pouco provável que a curto prazo estes sectores sejam completamente assumidos pela IA, enfrentam na mesma três grandes riscos no que diz respeito à reforma: inflação, envelhecimento da população e aumento dos custos da saúde.

As estratégias de aposentação para grupos profissionais estáveis também podem ter abordagens a curto, médio e longo prazo. As estratégias a curto prazo passam pela maximização das ferramentas de protecção estatutária, como o Fundo de Previdência Social da China, o Fundo de Previdência Obrigatório de Hong Kong (MPF, sigla em inglês), seguro de saúde opcional no local de trabalho, e o Fundo de Aposentação Opcional de Macau, que proporcionam diferentes opções de reforma e de protecção de saúde. O MPF de Hong Kong permite aumentar as contribuições mensais de acordo com as necessidades individuais, oferecendo segurança no período da reforma. As estratégias a médio prazo incluem a alocação de activos de rendimento passivo estável, como a aquisição de acções que pagam dividendos trimestrais ou a subscrição de obrigações com retorno fixo. As estratégias a longo prazo consistem na criação de planos de previdência e fundos fiduciários para garantir a cobertura de despesas essenciais futuras, como a compra de um seguro de vida com cobertura de renda vitalícia. Além disso, os colaboradores podem tornar-se consultores do seu sector de actividade, para apoiarem as empresas após a reforma e manterem as suas fontes de rendimento.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, procure um consultor profissional licenciado para todas as decisões financeiras.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

26 Mai 2026

IA | Leong Pou U pede orientações e diálogo com trabalhadores

O deputado Leong Pou U recorreu ao período de intervenções antes da ordem do dia no hemiciclo para sugerir maior diálogo entre Governo, associações e trabalhadores como reacção à chegada da inteligência artificial (IA) ao mercado de trabalho.

“Sugiro ao Governo que se articule estreitamente com o 15º Plano Quinquenal do país e que, no âmbito do 3º Plano Quinquenal da RAEM, e tendo em conta a realidade de Macau, estude e defina orientações para a aplicação da IA em Macau.”

A ideia, segundo o deputado, é que possam ser “aperfeiçoados os respectivos diplomas legais, assegurando que a tecnologia IA possa ser aplicada e desenvolvida de forma saudável e ordenada” no território. Leong Pou U acredita que, no futuro, o “núcleo’ do trabalho civil vai passar da ‘execução repetitiva das tarefas’ para o ‘controlo da IA'”, com aqueles que criam conteúdo a passarem a ser “supervisores e analistas” do que a IA vai produzir.

Assim, o deputado defende que “Governo, empresas e associações de trabalhadores reforcem o diálogo social”, promovendo “formação sobre a aplicação da IA, nomeadamente para os sectores que podem ter mais riscos no uso de aplicações de IA, por forma a apoiar os trabalhadores a adaptarem-se às mudanças da nova era”.

20 Mai 2026

A vaga da IA e os novos desafios: da reforma antecipada a uma transformação para a competitividade sustentável (I)

Um artigo publicado no Hong Kong Economic Times (HKET) no passado dia 24 de Abril, analisa o impacto da ascensão da inteligência artificial no plano de aposentações. Ao longo da última década, a tendência para a “Independência Financeira e para a Reforma Antecipada” (FIRE sigla em inglês) alastrou-se pelo mundo, com muitos trabalhadores de “colarinho branco” desejando reformar-se cedo e viver dos rendimentos. No entanto, desde o lançamento do ChatGPT nos finais de 2022, a velocidade da interacção da tecnologia de IA superou largamente as expectativas do mercado, não apenas através da remodelação das estruturas industriais, mas também pelo abalo na lógica do FIRE tradicional e do Coast FIRE.

O artigo cita uma análise de Nick Maggiulli, Director Executivo da Ritholtz Wealth Management. A IA está gradualmente a minar a estabilidade do emprego dos trabalhadores de “colarinho branco”. As funções que dependem de um resultado padronizado, de processos repetitivos e de um elevado grau de digitalização são as primeiras a sofrer a pressão da substituição e os planos de aposentação dos trabalhadores são mais facilmente postos em causa. O sector do design gráfico está particularmente afectado, porque a IA gera facilmente trabalhos de alta qualidade, o que implica redução de salários e de oportunidades para os profissionais da área. Olhando para a tendência anual do preço das acções da Fiverr, uma plataforma global freelance, o ano passado o seu valor reduziu praticamente para metade, reflectindo as preocupações do mercado sobre a probabilidade de a IA substituir os trabalhadores da área digital.

O impacto da IA não se faz só sentir em funções a tempo inteiro; também afecta gravemente os negócios paralelos dos quais os semi-reformados dependem para viver, como traduções, programação básica, redacção de conteúdos e análise introdutória de dados. Nick Maggiulli avança com três soluções pragmáticas: desistir do objectivo do “Coast Fire” e evitar abandonar empregos estáveis a tempo inteiro; aumentar o período de acumulação de poupanças antes das funções que se desempenha passarem a ser executadas pela IA e reavaliar o próprio valor comercial, considerando a lógica do lucro que age contra os indivíduos perante as capacidades mais fortes da IA.

De uma perspectiva macro-social, a crise financeira de 2008, a pandemia de COVID-19 e a reavaliação global das acções tecnológicas de 2022 demonstram que a incerteza do mercado é a norma e que a IA é apenas uma nova variável estrutural.

O maior risco que correm as pessoas que se reformam cedo não é muitas vezes a insuficiência de fundos, mas sim a incapacidade de se reintegrarem no mundo do trabalho depois de terem perdido o contacto com a realidade laboral. Por outro lado, uma grande acumulação de capital funciona como uma defesa natural; independentemente de terem ou não sido substituídos pela IA, as poupanças elevadas são um amortecedor contra riscos.

A realidade torna-se clara quando consideramos os dados recentes da China continental, de Hong Kong e de Macau: Dados do relatório de emprego de 2026 da Zhaopin.com mostram que a procura de posições asseguradas pela IA na China continental aumentará mais de 100% a cada ano, ao passo que trabalhadores de escritório e administrativos que desempenham funções básicas continuam a ser despedidos. Um relatório da Fintech da InvestHK indica que a automatização da IA está a ser adoptada em larga escala em Hong Kong para contabilidade e documentação financeira básicas e auditoria de conformidade. Em Macau, devido à sua estrutura industrial singular e à crescente alteração nos sectores do jogo e dos serviços, a pressão sobre os indivíduos de meia-idade está a aumentar dramaticamente.

Este artigo destina-se apenas à análise de tendências e referência conceptual e não constitui qualquer aconselhamento profissional sobre investimento, gestão financeira ou planeamento de reforma. Por favor, consulte um consultor profissional licenciado para tomar decisões financeiras.

Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau

19 Mai 2026

IA | Bloqueada aquisição da ‘startup’ Manus pela Meta

A China bloqueou a aquisição da ‘startup’ de inteligência artificial Manus pela tecnológica norte-americana Meta, por 2.000 milhões de dólares invocando regras de segurança sobre investimento estrangeiro, segundo um comunicado oficial. Numa nota breve divulgada ontem, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma indicou que proibiu a operação e exigiu às partes envolvidas que abandonassem o negócio, sem mencionar directamente a Meta, dona do Facebook e do Instagram.

A decisão foi tomada pelo mecanismo de revisão de segurança do investimento estrangeiro, ao abrigo da legislação chinesa, após as autoridades terem anunciado no início do ano que estavam a analisar o caso. A entidade não detalhou as razões concretas para o bloqueio.

A Meta tinha anunciado em Dezembro a aquisição da Manus, uma empresa de inteligência artificial com raízes chinesas mas sediada em Singapura, num movimento pouco comum de uma grande tecnológica dos Estados Unidos sobre uma empresa ligada à China. A Manus desenvolve agentes de inteligência artificial de uso geral, capazes de executar tarefas complexas de forma autónoma, e a operação visava reforçar a oferta de IA da Meta nas suas plataformas.

A empresa norte-americana tinha garantido que não haveria participação chinesa remanescente na Manus e que esta cessaria operações na China. Ainda assim, o ministério do Comércio chinês alertou, em Janeiro, que operações envolvendo investimento externo, exportação de tecnologia, transferência de dados e aquisições transfronteiriças devem cumprir a legislação nacional.

Em reacção, a Meta afirmou ontem que a transacção “cumpriu plenamente a legislação aplicável” e disse esperar uma “resolução adequada” do processo.

28 Abr 2026

IA desenvolvida na China resolve problema matemático sem intervenção humana

Uma equipa de investigadores liderada pela Universidade de Pequim desenvolveu um sistema de inteligência artificial (IA) capaz de resolver e verificar um problema matemático em aberto sem intervenção humana relevante.

O modelo conseguiu, em poucas horas, formalizar a solução de uma conjectura apresentada em 2014, através de um sistema de duplo agente que combina raciocínio em linguagem natural e verificação formal, noticiou ontem o jornal de Hong Kong South China Morning Post. O sistema, descrito num artigo preliminar publicado no repositório arXiv, abordou um problema de álgebra comutativa proposto pelo matemático norte-americano Dan Anderson e concluiu a verificação em cerca de 80 horas de execução.

Segundo os investigadores, o modelo integra um agente de raciocínio informal, responsável por explorar estratégias e construir possíveis demonstrações, com outro de verificação formal que traduz essas provas para um formato matemático rigoroso e verificável por máquina.

A equipa indicou que a única intervenção humana consistiu em fornecer acesso a documentos restritos que o sistema não conseguiu obter autonomamente, sem necessidade de julgamento matemático durante o processo. Os autores defendem que esta abordagem permite automatizar tarefas que exigiam até agora colaboração entre especialistas e supervisão contínua, embora o trabalho ainda não tenha sido sujeito a revisão por pares.

Sempre a abrir

O desenvolvimento insere-se no avanço dos modelos de linguagem e dos sistemas baseados em agentes aplicados à investigação matemática, um domínio onde persistem desafios como a fiabilidade das demonstrações geradas por IA. Os investigadores sublinharam que a combinação de raciocínio em linguagem natural e verificação formal poderá facilitar a resolução de problemas complexos e reforçar a validação de resultados nesta área.

O projecto surge após a emergência, nos últimos meses, de novos modelos chineses como o DeepSeek e outros desenvolvidos por grandes tecnológicas como Alibaba e ByteDance, que têm aumentado a visibilidade internacional do sector e reavivado a competição tecnológica com os Estados Unidos.

A inteligência artificial foi também um dos temas centrais da reunião anual da Assembleia Popular Nacional, realizada em Março, na qual Pequim reafirmou a aposta na integração desta tecnologia em vários sectores da economia e na promoção do emprego associado.

14 Abr 2026

IA | Frederico Luz cria plataforma que ajuda a comunicar em mandarim

Aluno de mandarim, programador e estudante na área da inteligência artificial, Frederico Luz criou uma plataforma que permite comunicar em mandarim, indo além da tradução ou do reconhecimento de caracteres. O projecto foi apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, e faz parte de um programa piloto do Instituto Confúcio

Foi com a apresentação “Interação Sintética: Concepção e Avaliação de um Interlocutor ‘Large Language Model’ para Aprendentes de Mandarim” que Frederico Luz apresentou a plataforma de inteligência artificial (IA) que pretende facilitar a comunicação em chinês.

A sessão decorreu em Lisboa no âmbito das Conferências da Primavera do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e, ao HM, Frederico Luz explicou o que está por detrás de um projecto que “dá ao utilizador vários cenários, ou missões, como pedir uma refeição num restaurante, comprar bilhetes de comboio, ou marcar planos com um amigo”.

Na prática, “o aluno fala em mandarim e o sistema avalia o desempenho em tempo real”, ao nível da “pronúncia, gramática, vocabulário”, descreve Frederico Luz, que começou a estudar mandarim com 18 anos e que, actualmente, faz programação e estudos na área da IA no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
“A grande diferença em relação a um tutor humano é a fluidez. Quando estamos a falar com um professor e erramos, o professor tem de parar a conversa, explicar o erro, e depois retomar. Com a plataforma, as correções acontecem em paralelo e a conversa não para. Cada tipo de correção, na gramática, pronúncia ou vocabulário, é tratada separadamente e aparece sem interromper o diálogo. Além disso, quando através da conversa aprendemos uma palavra nova, podemos guardá-la directamente nos ‘flashcards’ [cartões de memória] e ela entra logo na nossa rotina de estudo”, explicou.
Frederico Luz acredita que a plataforma que está a desenvolver “pode ajudar tangencialmente na tradução, por exemplo, na verificação de gramática”, embora o objectivo fulcral seja “ajudar as pessoas a aprender, para não precisarem da tradução”.

“Da mesma forma que o Pleco [software de cartões de memória e dicionário para alunos de chinês] e o Anki [software de cartões de memória para aprendizagem de língua] mudaram a aprendizagem de chinês para milhões de pessoas, acho que ferramentas como esta podem tornar o mundo um bocadinho mais pequeno. Se mais portugueses conseguirem ter conversas reais em mandarim, sem depender de intermediários, isso muda a relação entre as duas comunidades de forma muito mais profunda do que qualquer tradutor automático”, descreveu.

Na sessão apresentada no CCCM, Frederico Luz descreveu três componentes que permitem uma melhor comunicação na língua chinesa. O reconhecimento da fala, em que “o aprendente fala livremente em mandarim e o sistema transcreve e segmenta por carácter”, bem como a “avaliação tonal por carácter”, onde cada carácter “é avaliado individualmente”. O que o sistema criado por Frederico Luz vai fazer é “identificar o tom produzido e comparar com o tom esperado”.

Uma terceira componente é a “interacção conversacional adaptativa”, já que o modelo de linguagem criado pelo programador “gera respostas contextuais adaptadas ao nível do aprendente, mantendo uma conversa natural”.

Além da memória

Frederico Luz conta que está a desenvolver “um sistema que vai além dos flashcards [cartões de memória] tradicionais, onde simplesmente reconhecemos um carácter e dizemos sim ou não”.

“O que estou a construir pede ao aprendente para realmente ler os caracteres com base nos componentes que os constituem”, acrescenta, lembrando que nos Estados Unidos “houve uma grande controvérsia quando as escolas mudaram de um sistema de fónica (ler todas as sílabas) para um sistema de memorização da palavra inteira”, com “resultados desastrosos”.

Segundo Frederico Luz, “a forma como a maioria das pessoas aprende caracteres chineses é exactamente essa memorização da palavra inteira”, pelo que esta nova plataforma de IA “é o equivalente da fónica para o chinês: decompor cada carácter nos seus componentes e realmente lê-lo, em vez de apenas reconhecê-lo como uma imagem”.

O aluno de mandarim confessa que a plataforma o ajuda nos estudos, procurando, por exemplo, melhorar o reconhecimento da pronúncia “para aprendentes de nível mais baixo”, sendo uma das ferramentas onde está a trabalhar actualmente.

O projecto piloto

Frederico Luz começou a desenvolver esta plataforma para si próprio, mas a verdade é que está em curso a sua aplicação, em formato de programa piloto, com o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa.

“Curiosamente, o director Wang do Instituto Confúcio de Lisboa, tinha tido uma ideia muito semelhante há algum tempo e tentou desenvolvê-la com outro programador, mas o projecto não avançou. Quando propus a ferramenta e o programa piloto ao instituto, não estava a tentar convencê-los em acreditar numa coisa nova: estava simplesmente a dizer que já tinha feito o que eles queriam, sem sequer terem pedido”, salientou.
Este programa piloto, assegura, vai permitir ter dados reais quanto ao lado prático desta plataforma. “Construí esta ferramenta primeiro para mim, mas não vou privar as pessoas de a utilizar só para poder aprender chinês melhor do que elas. Se virmos que a ferramenta é útil não vejo razão para não a comercializar. É por isso que o programa piloto no Instituto Confúcio é tão importante: vamos ter dados reais.”

O próximo mundo

Frederico Luz acredita que os riscos do uso da IA nesta área são mais visíveis “do lado da tradução automática”, pois existe “uma dependência excessiva de ferramentas que nos impede de realmente desenvolver competências”. “Tenho dificuldade em pensar numa forma em que a IA seja mal utilizada para aprender línguas”, assegura.

“Há pessoas que me perguntam porque estou a aprender chinês se daqui a uns anos vai haver um tradutor universal. Acho que essa tecnologia vai existir em breve, sem questão nenhuma. Estamos no início da singularidade tecnológica e os avanços vão ser verdadeiramente espantosos. Mas aprender uma língua não é só sobre conseguir comunicar. Para mim, e para milhões de outros aprendentes, é uma questão de crescimento pessoal. Quando a IA torna tudo fácil, acho que é importante para o espírito humano conseguir fazer coisas difíceis”, descreveu.

A “relevância crescente” da China

A relação de Frederico Luz com o mandarim começou cedo, sendo actualmente aluno no Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. A programação “surgiu mais recentemente”, começando “a programar a sério há cerca de um ano, quando a IA, no caso do ‘Claude’ [modelos de linguagem] da Anthropic tornaram possível construir coisas reais”.

Criar uma nova plataforma para ajudar a comunicar em mandarim “surgiu da forma mais natural possível”, já que o aluno “já estava a usar a IA para praticar chinês”, nomeadamente ao nível da correcção de gramática e ao nível das conversações.

“Pensei que seria muito melhor se houvesse uma aplicação com uma interface dedicada a este uso, com avaliação de pronúncia e correcção em tempo real. Como esta aplicação não existia, criei-a. Foi uma ferramenta que construí primeiro para mim, porque precisava dela para aprender”, descreve.

Frederico Luz estuda mandarim dada “a relevância crescente da China”, destacando que, num futuro próximo, “falar chinês vai ser tão importante como falar inglês”. “Trabalho em IA e os chineses estão muito à frente, não apenas no desenvolvimento técnico, mas sobretudo na aplicação real: estão a usar IA em hospitais, em escolas, administração pública, coisas que no Ocidente simplesmente não se vê”, remata.

27 Mar 2026

IA | Tencent integra OpenClaw no WeChat

O gigante tecnológico chinês Tencent anunciou a integração de agentes de inteligência artificial (IA) baseados em OpenClaw na aplicação de mensagens WeChat, num novo passo na expansão destes sistemas na China.

A empresa informou, em comunicado divulgado no domingo, o lançamento do complemento ‘ClawBot’, que permite aos utilizadores ligar o OpenClaw ao WeChat e operar o agente através de conversas, de forma semelhante a uma interacção convencional. O OpenClaw é um programa de código aberto que liga modelos de linguagem a um computador para executar acções no sistema, como gerir ficheiros, enviar correio electrónico ou interagir com aplicações a partir de instruções em linguagem natural.

Nas últimas semanas, a ferramenta ganhou popularidade entre programadores chineses, onde é conhecida como “lagosta” devido ao seu ícone, originando um rápido desenvolvimento de ferramentas e adaptações locais. Segundo a imprensa local, o complemento no WeChat permite, entre outras funções, resumir conversas, processar documentos extensos, gerar relatórios ou automatizar tarefas em computadores pessoais através de comandos enviados a partir do telemóvel.

O WeChat conta com mais de 1.300 milhões de utilizadores a nível mundial, a maioria dos quais na China. O anúncio surge num contexto de crescente concorrência entre grandes tecnológicas chinesas como Baidu e Alibaba, que também apresentaram recentemente plataformas próprias de agentes de IA, numa corrida por liderança num segmento emergente.

O rápido desenvolvimento destes sistemas tem sido acompanhado por alertas oficiais de entidades como o ministério da Segurança do Estado chinês, que advertiu para os riscos associados a permissões elevadas que podem facilitar o acesso a dados sensíveis ou o controlo remoto de dispositivos.

Esta evolução insere-se no crescimento acelerado da IA na China, com modelos desenvolvidos por empresas como Baidu, Alibaba, DeepSeek ou a própria Tencent, que apresentam capacidades comparáveis às de sistemas norte-americanos, frequentemente a custos mais baixos.

24 Mar 2026

Alerta para riscos de segurança do popular agente de IA OpenClaw

O ministério chinês da Segurança do Estado advertiu ontem para riscos de segurança associados ao uso do agente de inteligência artificial de código aberto OpenClaw, que se tornou recentemente um fenómeno entre programadores e utilizadores chineses.

Num artigo publicado na sua conta oficial na rede social WeChat, o organismo descreveu o funcionamento do sistema, conhecido popularmente no país como “xiaolongxia” (“lagosta”, devido ao ícone vermelho do sistema com a forma do crustáceo).

O ministério assinalou que, para permitir que o sistema “consiga completar tarefas”, os utilizadores costumam conceder-lhe permissões elevadas, o que pode facilitar que atacantes obtenham controlo remoto do dispositivo ou acedam a informação sensível nele armazenada, podendo gerar riscos de cibersegurança se for utilizado sem as devidas precauções.

O organismo alertou também que estes programas podem lidar com dados pessoais ou empresariais sensíveis e que, caso sejam comprometidos, poderão provocar fugas de informação ou ser utilizados para “gerar e difundir informação falsa” nas redes sociais.

O aviso oficial de segurança digital do principal órgão de inteligência chinês assegurou que alguns complementos ou extensões podem conter vulnerabilidades ou ser utilizados para introduzir código malicioso capaz de contornar controlos de segurança e aceder à informação armazenada no computador.

O guia recomenda aos utilizadores que limitem as permissões concedidas ao sistema, verifiquem a origem dos complementos instalados, mantenham registos de actividade e executem o sistema em ambientes isolados – como máquinas virtuais ou ‘sandboxes’ – para reduzir possíveis riscos.

Este tipo de agentes de IA pode executar directamente tarefas num sistema informático, gerir ficheiros, redigir emails ou navegar na internet a partir de instruções do utilizador, o que representa uma evolução em relação aos modelos conversacionais tradicionais.

Riscos e conselhos

O OpenClaw, criado pelo programador austríaco Peter Steinberger, difundiu-se rapidamente nas comunidades tecnológicas chinesas nas últimas semanas, onde utilizadores partilham guias de instalação e tutoriais para implementar este tipo de agentes capazes de executar tarefas automaticamente em computadores pessoais ou servidores.

Em paralelo, organismos chineses de cibersegurança alertaram para o rápido crescimento do sistema e para os seus potenciais riscos, indicando que existem mais de 200.000 instâncias activas de OpenClaw na internet, das quais cerca de 23.000 encontram-se na China.

Reguladores e órgãos de comunicação estatais também têm advertido para os possíveis riscos do sistema, e algumas agências governamentais e empresas estatais recomendaram aos seus funcionários para não o instalarem em dispositivos de trabalho.

18 Mar 2026

Concursos públicos | Novo plano para integrar IA nas contratações

As autoridades chinesas divulgaram ontem uma estratégia para acelerar a aplicação de inteligência artificial (IA) nas licitações públicas, com o objectivo de aumentar a eficiência, reforçar a supervisão e garantir uma distribuição “justa e eficiente” dos recursos públicos.

O documento, emitido pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, principal órgão de planeamento económico da China) em conjunto com outras instituições estatais, define que, até ao final de 2026, algumas províncias deverão aplicar integralmente funcionalidades como a detecção de irregularidades, avaliação assistida por IA e identificação de conluio em concursos. O plano prevê a extensão destas práticas a todo o país até 2028.

Entre as aplicações previstas, destacam-se: análise de tendências sectoriais, balanço entre oferta e procura e verificação de antecedentes regulatórios para ajudar na definição de requisitos técnicos e comerciais durante a fase preparatória dos concursos.

Durante a elaboração dos cadernos de encargos, a tecnologia deverá permitir a detecção antecipada de cláusulas ilegais ou que restrinjam a concorrência.

Ter juízo

Do lado dos concorrentes, a IA poderá apoiar na preparação das propostas, na análise de riscos de incumprimento contratual e na verificação da documentação apresentada.

O plano sublinha, no entanto, que as conclusões geradas por sistemas de inteligência artificial não substituem o juízo independente das partes envolvidas nem isentam as respectivas responsabilidades legais. Prevê-se ainda o cumprimento rigoroso de exigências de registo, revisão e segurança dos algoritmos utilizados, para mitigar riscos como falta de transparência, erros ou enviesamentos.

O anúncio surge num contexto de rápida expansão do ecossistema chinês de IA, impulsionado pelo lançamento de modelos de linguagem avançados por empresas como Bytedance, DeepSeek, Alibaba e Baidu e um apoio político crescente à autossuficiência tecnológica.

A China procura consolidar as suas capacidades próprias em modelos, dados e infraestrutura computacional, num cenário de rivalidade crescente com os Estados Unidos no domínio da inteligência artificial.

13 Fev 2026

IA | Docentes alertam para erros na plataforma de correcção de trabalhos

Vários professores dizem temer as falhas de uma nova plataforma de inteligência artificial anunciada pelo Executivo para ajudar na correcção de trabalhos de alunos. Um dos docentes, da escola Pui Va, diz que a plataforma pode obrigar à correcção de erros de forma manual

As autoridades de Macau anunciaram recentemente o lançamento, no próximo ano lectivo, de “uma plataforma de serviços localizada, no âmbito do ensino de inteligência artificial” (IA).

Esta ferramenta vai incluir funções como “composição de enunciados inteligente, a correção inteligente e outras funções, com vista a reduzir a carga de trabalho dos docentes, desde a preparação das aulas até à avaliação”. Embora sejam a favor da plataforma, professores sublinharam à Lusa as limitações actuais da tecnologia. Estes defendem que a IA pode, de facto, ajudar a reduzir a carga de trabalho, mas alertam para as fragilidades desta plataforma, nomeadamente quando utilizada para a correcção de trabalhos dos alunos.

“Usar a IA para classificar trabalhos pode resultar em erros que exigem correcção manual”, reagiu Ruan Zhanpeng, professor de tecnologias de informação na Escola Secundária Pui Va. Ruan reconheceu que a IA pode reduzir a carga de trabalho na “correcção de perguntas de escolha múltipla simples, mas para perguntas de resposta aberta, ainda são necessários ajustes manuais”.

A professora de chinês Nora Lam, da Escola dos Moradores de Macau, tem a mesma opinião quanto às limitações da IA no que diz respeito a questões que exigem desenvolvimento. “É necessária revisão após a correcção de uma composição feita pela IA, porque esta não consegue entender textos baseados em sentimentos”, referiu.

Um ponto de partida

Pedro Lobo, professor com mais de 30 anos de experiência em tecnologias de informação no território, revelou que tem usado a IA como “ponto de partida na preparação das aulas e de materiais para os alunos”. O português concorda que pode ser uma boa ferramenta para os docentes, mas enfatiza a necessidade de formação. “Para os professores que não falam chinês, dificilmente tenho visto qualquer formação”, disse à Lusa.

A Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) afirmou que, para o ano lectivo corrente, disponibiliza, pelo menos, 10 horas de formação para professores de tecnologias de informação e, pelo menos, seis horas para professores de outras disciplinas.

“No ano lectivo de 2025/2026, foram disponibilizadas cerca de três mil vagas de formação e mais de 51.800 horas lectivas aos docentes da disciplina de tecnologias de informação e cerca de nove mil vagas de formação e mais de 355 mil horas lectivas aos docentes das outras disciplinas”, referiu a DSEDJ numa resposta escrita a uma interpelação da deputada Ella Lei sobre estratégias para reduzir a carga de trabalho dos professores.

15 Jan 2026

Hong Kong | Zhipu AI lidera ronda de estreias em bolsa no valor de 1.030 ME

O interesse dos investidores no mercado tecnológico continua a dar frutos e leva cada vez mais empresas chinesas ligadas à Inteligência Artificial a entrar na bolsa de Hong Kong

A empresa chinesa de inteligência artificial Zhipu AI estreou-se ontem na bolsa de Hong Kong, num dia em que outras duas tecnológicas também entraram no mercado, angariando em conjunto 1.200 milhões de dólares. A Zhipu, oficialmente designada Knowledge Atlas Technology e que adopta o nome Z.ai nos mercados estrangeiros, registava uma tendência ascendente ao meio da sessão, com uma valorização de 11,19 por cento, após ter angariado cerca de 559 milhões de dólares.

Trata-se da primeira empresa chinesa especializada exclusivamente em modelos de linguagem de grande escala a ser cotada na Bolsa de Valores de Hong Kong. Segundo o seu cfundador e director executivo, Zhang Peng, a escolha desta praça financeira está relacionada com as ambições de internacionalização da companhia.

Zhang referiu que Hong Kong e o Sudeste Asiático serão os primeiros mercados a serem explorados, seguindo-se o Médio Oriente, a Europa e o chamado “Sul Global”. O responsável apontou os baixos custos como principal atractivo da Zhipu face a modelos concorrentes, no objectivo de conquistar novos utilizadores.

A tecnológica junta-se assim a outras empresas chinesas do sector que têm aproveitado o interesse dos investidores no crescimento da IA no país. Uma das principais concorrentes da Zhipu, a MiniMax – também rival da OpenAI (criadora do ChatGPT) e da Anthropic (desenvolvedora do Claude) – tem estreia marcada para sexta-feira na mesma bolsa.

Outras estreias

Ontem, também se estrearam em Hong Kong a fabricante de chips gráficos Shanghai Iluvatar CoreX Semiconductor, que abriu com ganhos de 31,5 por cento após angariar 473 milhões de dólares, e a produtora de robôs cirúrgicos Edge Medical, que subiu 36,4 por cento, arrecadando cerca de 154 milhões de dólares.

Na semana passada, a Biren Technology, especializada em chips de IA, valorizou-se quase 76 por cento no seu primeiro dia de negociação. Em Dezembro, outras duas empresas do sector, a Moore Threads e a MetaX, registaram subidas superiores a 100 por cento na bolsa de Xangai.

Apesar de admitir que os modelos chineses estão a reduzir a distância face aos norte-americanos, Zhang Peng reconheceu que ainda persistem lacunas em áreas como investigação, recursos e inovação. A Zhipu foi colocada numa lista negra comercial pelos Estados Unidos em 2025, o que dificulta o seu acesso a tecnologia norte-americana.

9 Jan 2026