Sushi sobre rodas inspira inovação no sector do turismo

O primeiro autocarro de dois andares e tejadilho aberto a servir sushi estará disponível em Tóquio, no próximo dia 10 de Outubro. Este novo produto, que resulta de uma colaboração entre a empresa de turismo Sushi Bus Co. e a rede de transportes Willer Across, desencadeou discussões acaloradas entre os entusiastas de viagens de todo o mundo, desde que foi anunciado. Os passageiros podem consumir sushi à discrição enquanto apreciam as zonas mais emblemáticas de Tóquio como Shibuya Crossing, Kaminarimon e Ginza, a partir do segundo piso panorâmico do autocarro. A experiência tem a duração de 70 minutos.

O autocarro do sushi levou dois anos e meio a ser fabricado. A cozinha que se situa no primeiro piso permite que os chefes preparem os alimentos no momento e depois um elevador transporta-os para um tapete giratório colocado perto dos passageiros, no segundo piso.

A equipa responsável pela concepção deste veículo também criou um sistema de segurança para lidar com emergências como travagens bruscas, ultrapassando os desafios colocados quando se servem refeições num veículo em andamento. Cada bilhete custa 16.000 ienes, aproximadamente 790 dólares de Hong Kong (HKD) ou 814 patacas. De acordo com dados facultados, só existem actualmente no Japão cinco autocarros temáticos e este, dedicado ao sushi, é único no mundo. Apenas estão disponíveis 20 lugares para as primeiras reservas e espera-se que sejam rapidamente comprados por viajantes à procura de experiências inovadoras.

A indústria do turismo sempre valorizou a novidade e as experiências únicas são frequentemente a chave para atrair turistas. Combinar o serviço de sushi com uma viagem que permite apreciar as zonas mais emblemáticas da cidade, gera sem dúvida um grande entusiasmo no mercado. No entanto, também temos de reconhecer que um conceito inovador não significa necessariamente um sucesso comercial. Muitos projectos turísticos ganham inicialmente fama por serem criativos, mas muitas vezes acabam por se desvanecer após o entusiasmo inicial ter esfriado devido aos preços envolvidos, a experiências decepcionantes ou a elevados custos de manutenção.

Essencialmente, desenvolver novos produtos turísticos não é muito diferente de desenvolver novos produtos tecnológicos; ambos partilham o processo de comercialização de ideias que depois são lançadas no mercado, com o objectivo de aumentar as receitas e os lucros.

A inovação na indústria do turismo requer ideias apelativas; implica também investimento em investigação e desenvolvimento, custos operacionais e gestão de riscos. Tomemos o autocarro do sushi como exemplo. O período de dois anos e meio para investigação e fabrico, a modificação da cozinha e do equipamento à prova de derrames, requereram fundos consideráveis. Tudo isto combinado com uma lotação limitada e bilhetes caros, embora numa fase inicial possa atrair atenções devido à cobertura da imprensa, faz com que a sua manutenção a longo prazo permaneça questionável.

No mundo dos negócios, a inovação vem sempre acompanhada pelo risco. Uma ideia interessante é só um ponto de partida. A projecção de um produto depende do controlo de custos, da experiência do utilizador e da capacidade da empresa para suportar perdas quando a resposta do mercado ainda não é a ideal. Este princípio aplica-se à “inovação incremental” destinada a abrir novos mercados e também à “auto-disrupção” adoptada pelos gigantes tecnológicos quando penetram em mercados já estabelecidos.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

2 Set 2026

A voz viva na era da voz fabricada

Por Zerbo Freire

Em outubro de 2025, uma canção gerada por inteligência artificial e publicada no YouTube fez milhares de ouvintes acreditarem que Adele gravara um tributo a Charlie Kirk, ativista conservador norte-americano assassinado em setembro daquele ano. Com o título “Heaven Gained an Angel”, o vídeo acumulou milhões de visualizações e centenas de comentários como “Obrigado, Adele, é uma canção magnífica” — apesar de a voz gerada por IA pouco se assemelhar à da cantora britânica. A plataforma removeu o vídeo após ser alertada pela AFP, mas a comoção, essa, já ocorrera. A voz fabricada fizera o que a voz viva não fizera: emocionar sem estar presente.

Há algo profundamente perturbador nessa voz fabricada que emerge de um alto-falante sem nunca ter atravessado uma garganta de carne. Não se trata aqui da voz mediatizada — aquela que, mesmo gravada, conserva o fantasma de um corpo, o rastro de um instante em que alguém, de fato, moveu os lábios. O inquietante, agora, é mais radical: uma voz gerada do zero por algoritmos, que nenhum ser humano pronunciou, e que, no entanto, soa como se pudesse tê-lo feito.

O medievalista e teórico da vocalidade Paul Zumthor já antecipava esse momento em 1986, numa passagem em que respondia à pergunta da revista italiana Linea d’Ombra sobre o impacto dos meios eletrônicos, auditivos e audiovisuais sobre a voz. Para ele, a distância entre a voz viva e qualquer mediação técnica era intransponível, justamente porque evidenciava “a diferença biológica entre o homem e a máquina”. Mas Zumthor não se detinha aí: ele via no computador — substituto eletrônico da escritura — o próximo passo de uma abstração vocal tão radical que “já não se tratará de gravação, mas de voz fabricada”. A pergunta que essa antevisão nos lega não é, portanto, meramente técnica, mas antropológica: o que resta da voz viva quando a fabricada se torna praticamente indistinguível da verdadeira?

A voz viva, nos lembra Zumthor, é um evento corporal. Mais precisamente: uma expansão do corpo. O som que emitimos não é algo acrescentado de fora; é o próprio corpo projetando-se para além de seus limites. Ao falarmos, tornamo-nos onda — tocamos o outro através do vazio, carregando nele o peso, o calor e o volume real da carne. Ouvir alguém ao vivo não é apenas processar informação linguística: é estar na presença de um outro. Sentimos sua fragilidade, seu risco iminente de gaguejar, de se emocionar demais. Essa vulnerabilidade é o que confere à voz viva sua força: ela é única, perecível, como um corpo.

A voz gravada já é outra coisa. Ela congela o instante, torna o efêmero repetível. Mas ali ainda resiste o traço de um corpo — ausente, é verdade, mas que um dia existiu.

Agora a voz fabricada — essa é uma expansão de nada. Não há corpo algum a ser expandido. A respiração que parecemos ouvir é simulada. A emoção que detectamos é calculada. O timbre foi montado estatisticamente a partir de milhares de vozes reais, desencarnadas e recompostas numa entidade que nunca existiu. Um significante sem significado existencial. Um som órfão.

Mas seria apressado concluir daí apenas um lamento. Não nos deixemos, contudo, cair num pessimismo fácil — há que se ter horror ao tom apocalíptico. A voz fabricada não é uma ruptura absoluta; ela apenas radicaliza um processo muito mais antigo: a progressiva desencarnação da vocalidade. Zumthor lembra que, por séculos, a voz foi reprimida pela hegemonia da escrita. Depois vieram a rádio, o disco, a televisão, apagando as referências espaciais da voz viva. A voz fabricada, agora, rompe o cordão da mediatização: já não há fantasma, já não há origem. Apenas simulação. É a desencarnação radical da vocalidade — preparada há séculos.

E, no entanto, algo inquietante acontece. Um ouvinte real pode escutar um poema recitado por uma voz sintética e chorar. A comoção é verdadeira? O corpo do ouvinte expande-se em resposta a algo que não é expansão de nenhum outro corpo? Uma primeira resposta, alinhada a Zumthor, seria o “não” categórico: o ouvinte chorou porque pensou estar diante de uma voz viva — foi ludibriado. Se soubesse da verdade, talvez não chorasse.

Mas há outra possibilidade, que Zumthor não teve tempo de contemplar. O corpo humano pode ser tocado por padrões sonoros mesmo na ausência de uma intencionalidade emissora. Assim como choramos com um filme de animação sabendo que os personagens não existem, podemos chorar com uma voz fabricada sabendo que aquele sopro não vem de ninguém. A diferença, porém, é que no filme há corpos humanos por trás — atores, animadores. Na voz fabricada, pode não haver ninguém. Apenas um algoritmo otimizado para maximizar a comoção. Se a comoção pode ser fabricada sem sujeito, então a escuta deixa de ser encontro e passa a ser resposta a um estímulo. E isso muda o estatuto da verdade na experiência estética.

Se é assim, o que acontece com a arte que sempre dependeu da voz como expansão do corpo — a poesia, por exemplo?

Para a poesia, as implicações são imensas. Zumthor definiu o poético como “uma arte da linguagem humana, independente de seus modos de concretização e fundamentada nas estruturas antropológicas mais profundas”. A poesia nasce do ritmo da respiração, da ressonância da caixa torácica, do gesto. Pensemos no griot da África Ocidental: ali, a voz não é um veículo do poema, mas o próprio corpo do poeta em ato. Sem esse corpo, o que resta da poesia? O movimento das mãos, o olhar que varre a audiência, a respiração que se suspende: tudo isso é o poema. O griot testemunha com seu corpo.

A poesia pode habitar uma voz que nunca respirou? Há quem diga que sim — que a voz fabricada pode criar novas vocalidades impossíveis para a garganta de carne. Mas essa resposta elide uma questão central: um instrumento requer um instrumentista. Na voz fabricada, quem é o sujeito da enunciação? O algoritmo? O programador? Nenhum deles, no momento da emissão, está expandindo seu corpo. Ninguém está ali, presente, assumindo aberta e responsavelmente a palavra.

A era da fabricação vocal nos obriga a repensar o lugar do corpo na experiência poética. A voz viva continua insubstituível — na intimidade de uma conversa, na força bruta de um protesto cantado, no silêncio que antecede a palavra de um poeta em cena. Ali, a presença carnal faz o que nenhum algoritmo pode: lembra-nos de que estamos juntos, frágeis, vivos e mortais, compartilhando o mesmo ar enquanto ele dura.

Mas a voz fabricada chegou para ficar. A sabedoria talvez não seja rejeitá-la, mas aprender a distingui-la da voz viva — sem deixar que sua perfeição nos faça esquecer o valor da imperfeição, da respiração ofegante, da palavra que hesita.

Ouvir uma voz fabricada e sentir-se tocado é, talvez, a mais estranha nostalgia que a técnica nos reservou: a nostalgia de um corpo que nunca esteve ali. Como se pudéssemos sentir saudade de um abraço que nunca aconteceu.

Porque, no fundo, não é a perfeição técnica que nos comove. É o sopro imperfeito. Se o sopro imperfeito ainda é nosso, cabe a nós decidir se queremos ouvi-lo como prova de humanidade ou como ruído a ser aperfeiçoado.

1 Set 2026

Há crimes todos os dias

Acabei de enviar uma missiva ao director nacional da Polícia de Segurança Pública (PSP) perguntando-lhe se ele vive num barco no alto mar ou se trabalha no seu gabinete em Lisboa. Isto, porque a PSP difundiu um resultado sobre a criminalidade sublinhando que a mesma diminuiu no último ano. Não é essa a percepção do povo porque há crimes todos os dias.

E alguns, muito violentos e de cariz internacional. Os gangues proliferam em Portugal e, bem organizados, com conexão a outros países da Europa e da América Latina. Tráfico humano para exploração. Venda de armamento e de drogas. Carteiristas por todas as cidades. Assaltos a ourivesarias e casas de penhores, uma panóplia de crimes que na sua maioria obtém êxito e os criminosos conseguem fugir.

A semana passada foi pródiga em assaltos semelhantes ao que é normal no Brasil. Os novos ricos e exibicionistas de riqueza – muitos que levaram uma vida entrosada em actos ilícitos de corrupção – vão para as esplanadas dos cafés conversar com os amigos e exibem os relógios que valem mais de 100, 200 e até 300 mil euros. Ora, os gangues estudam esses exibicionistas, seguem-lhes o rasto e se os apanham parados num semáforo, apontam-lhes uma pistola e sacam o relógio de luxo e o que o novo rico mais possuir de valor.

Outros meliantes, sempre encapuzados, para que as câmaras de vídeo-vigilância não captem a sua identidade, estudam os hábitos de proprietários e de clientes de ourivesarias e casas de penhor, e com um carro roubado em Espanha ou em França, aproximam-se do local estudado e cá vai disto. Levam todos os valores em ouro, prata ou diamante.

O estudo dos gangues sobre as presas potenciais a atacar é de tal forma eficiente que o gangue consegue saber que um indivíduo vai com a sua mochila carregada de ouro no valor de cerca de 100 mil euros para depositar numa casa de penhores, como aconteceu em Lisboa no bairro de Alvalade, aproxima-se da pessoa e roubam-lhe a mochila e todo o ouro. Fogem em menos de um minuto e passados cinco minutos é o espectáculo ridículo: chegada de vários carros da PSP e de investigadores da PJ que se limitam a meter a viola no saco, porque provas nem vê-las.

O povo está preocupado. Os crimes aumentam diariamente. Na baixa lisboeta já os assaltos passam das marcas. Dezenas de indivíduos percorrem o Terreiro do Paço, a Rua Augusta e o Rossio a vender drogas falsas e se algum turista se nega a comprar poderá ir parar ao hospital baleado furtivamente ou esfaqueado. Nós próprios, quando estivemos uma semana e meia em Lisboa, fomos abordados na Rua Augusta por cerca de 10 fulanos que pretendiam vender droga. Os agentes policiais sabem bem o que sofrem devido à falta de meios e o seu director nacional devia preocupar-se em sensibilizar os intervenientes da Justiça que um agente policial quando dispara a sua arma não pode ser incriminado como um “criminoso negligente”.

Há muito, que as pessoas começaram a ficar preocupadas. Que o digam os vizinhos de jogadores de futebol que pertencem ao Benfica, Futebol Clube do Porto ou Sporting que têm assistido aos mais variados assaltos às suas casas e que ficam sem a totalidade dos valores que tinham em casa. Quase todos os casos não vieram a público, mas o país tomou conhecimento cabal do que aconteceu a dois jogadores do FC Porto.

E há casos muito mais graves que as autoridades policiais têm conseguido “abafar” do conhecimento público: carrinhas de transporte de dinheiro para as máquinas ATM ou de um banco para outro, que são assaltadas profissionalmente à bomba, sendo roubados milhões de euros e onde os assaltantes têm um avião a jacto privado, estacionado em Tires, de onde levantam voo para destino desconhecido.

A criminalidade está absolutamente associada à falta de segurança e não nos venham dizer que o país é seguro, porque não é verdade. Tivemos o exemplo de Albufeira, onde uma artéria repleta de turistas foi invadida por um carro a grande velocidade por um condutor embriagado e com carta de condução falsa. Na Rua da Oura ficaram prostrados no chão vários feridos e alguns estão hospitalizados em estado grave. Qual a razão da Rua da Oura, famosa já em vários países, pela quantidade diversificada de bares e discotecas, não estar completamente encerrada com barras de cimento ao trânsito rodoviário? Qual a razão de a mesma artéria não ser apenas de uso pedonal? Neste caso, já o presidente da Câmara Municipal, do Chega, não manda palpites de eficiência. Para o edil da extrema direita o mais importante é expulsar de Portugal os “bandidos” dos imigrantes. A criatura, no entanto, não explica quem é que depois trabalhava nos hotéis, restaurantes, bares, hospitais, construção civil e na agricultura.

Um conselho aos leitores de Macau que venham de férias a Portugal: não usem a mochila às costas, deve sempre estar pendurada junto ao peito, porque os assaltantes são peritos em abrir as mochilas e roubarem a carteira que normalmente é colocada na divisão mais exterior. É que em Portugal, o crime começou a compensar.

1 Set 2026

Depois da Reforma, um Melhor Associativismo para Macau

Opinião de Manuel Silvério – Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional – (Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

Depois de três artigos sobre a reformulação do Regime Jurídico das Associações, coloca-se agora uma questão mais prática: o que deverá esta reforma trazer ao associativismo de Macau?

A reforma responde a duas exigências fundamentais: por um lado, salvaguardar a segurança do Estado; por outro, introduzir maior ordem, coordenação e responsabilidade num universo associativo que cresceu extraordinariamente ao longo de décadas.

Macau tem hoje mais de 12 mil associações. Muitas continuam activas e prestam serviços importantes à sociedade. Outras viveram durante anos praticamente em torno de uma pessoa que tratava dos documentos, mantinha os contactos e assegurava o funcionamento quotidiano. Com o desaparecimento ou afastamento dessas pessoas, algumas associações perderam verdadeira continuidade.

Não se trata necessariamente de abuso. É também consequência de décadas de rápido crescimento associativo, sem que os mecanismos de acompanhamento tenham evoluído sempre ao mesmo ritmo.

A liberdade associativa é uma riqueza de Macau. Espero que a sociedade possa compreender esta reforma e, enquanto decorre a consulta pública, aproveitar a oportunidade para colocar questões concretas, esclarecer dúvidas e contribuir para melhorar o funcionamento das associações.

Exigências mais claras, melhor coordenação

Quem funda uma associação, ou aceita integrar os seus órgãos, deve compreender as responsabilidades que assume e as obrigações que terá de cumprir.

Preparar estatutos, definir objectivos, identificar responsáveis e conhecer as regras básicas de funcionamento, contas, financiamento e relações externas faz parte dessa responsabilidade. Criar uma associação é também aprender a dirigi-la.

O apoio de advogados ou de outros profissionais pode naturalmente facilitar esse trabalho, mas não substitui a responsabilidade dos fundadores e dirigentes. A questão não está, portanto, em saber se deve haver exigências, mas se são necessárias, claras, proporcionais e conhecidas desde o início.

A centralização prevista na Direcção dos Serviços de Identificação poderá constituir uma oportunidade para melhorar os procedimentos. Não apenas para fiscalizar, mas também para informar, orientar e coordenar. A pequena dimensão de Macau pode, neste aspecto, favorecer uma coordenação administrativa mais eficaz.

Exigente, mas não excepcional

Comparar outras realidades ajuda a colocar a reforma em perspectiva, desde que tenhamos presentes as diferenças de população, território e organização administrativa.

No Interior da China, a constituição de organizações sociais está sujeita a condições mais exigentes, nomeadamente quanto ao número de membros, sede, pessoal, fontes legais de financiamento e capacidade de funcionamento, para além da aprovação e do registo pelas entidades competentes.

Hong Kong segue um modelo diferente e administrativamente mais concentrado. As societies estão sujeitas a registo ou isenção de registo e devem comunicar alterações posteriores ao nome, objectivos, responsáveis ou sede. A legislação permite igualmente a intervenção das autoridades quando estejam em causa, entre outros valores, a segurança nacional, a segurança pública ou a ordem pública.

Macau não precisa de copiar Hong Kong nem o Interior da China. Pode aprender com ambos e encontrar uma solução adequada à sua dimensão, história e enquadramento jurídico.

Estará Macau a exigir demasiado? Outros sistemas são, em vários aspectos, igualmente ou ainda mais exigentes. O essencial é que aquilo que Macau decidir exigir seja necessário, claro e proporcional.

Uma lição da história do desporto

O desenvolvimento do desporto em Macau oferece um exemplo de como autonomia associativa e responsabilidade institucional podem coexistir.

O Diploma Legislativo n.º 1470, de 5 de Novembro de 1960, regulava as então chamadas actividades gimnodesportivas num quadro de forte intervenção administrativa. Comparativamente a Hong Kong, a autonomia do movimento desportivo de Macau desenvolveu-se mais tarde. Depois de 1974, a situação foi mudando. As associações ganharam maior autonomia e Macau foi construindo progressivamente a sua presença desportiva internacional.

O Decreto-Lei n.º 67/93/M, de 20 de Dezembro, revogou o diploma de 1960 e estabeleceu um novo regime das actividades desportivas, mas manteve um princípio importante: a participação em competições desportivas em representação de Macau continuava sujeita à respectiva autorização.

Conheço bem esse procedimento. Durante muitos anos preparei inúmeras informações e propostas à tutela para autorização de participação em representação oficial de Macau.

A autorização e a atribuição de subsídio eram duas decisões diferentes. Uma participação podia ser autorizada sem que fosse concedido o subsídio solicitado, ou recebendo apenas parte dele. A ausência de subsídio não significava falta de autorização. O contrário não faria sentido: não se deveria financiar com recursos públicos uma participação em representação oficial de Macau que não estivesse autorizada como tal.

Antes do subsídio estava a autorização. Antes do financiamento estava a responsabilidade de representar Macau. Este princípio deve ser claro. Houve também situações em que razões políticas, institucionais ou relacionadas com a segurança dos atletas e das delegações podiam desaconselhar determinada participação.

Hoje, no quadro da RAEM, o princípio mantém a sua lógica. Uma associação pode legitimamente relacionar-se com organizações internacionais e participar em actividades no exterior. Outra coisa é fazê-lo em representação oficial de Macau, China. A liberdade associativa permite relacionar-se com o mundo. A representação oficial implica uma responsabilidade diferente.

Conhecer melhor para apoiar melhor

É precisamente aqui que esta reforma oferece uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada. Conhecer melhor as associações não deve servir apenas para saber quais precisam de ser fiscalizadas. Pode também ajudar o Governo a perceber quem merece apoio, porquê e para quê.

Os recursos públicos são limitados. Saber quais as associações efectivamente activas, que trabalho desenvolvem, quem servem e que capacidade de execução demonstram pode contribuir para uma utilização mais eficaz desses recursos.

Isso não significa privilegiar as maiores. Uma pequena associação cultural, juvenil, social, recreativa ou desportiva pode desenvolver um trabalho de grande valor. O que deve contar é a actividade efectiva, a continuidade, a utilização responsável dos recursos e o benefício para a sociedade.

Uma Administração que conhece melhor a realidade associativa não tem necessariamente de fiscalizar mais. Pode fiscalizar onde é necessário, simplificar onde é possível e apoiar melhor onde o trabalho merece ser apoiado.

Segurança como princípio fundamental

Todas estas considerações devem ser entendidas dentro de um princípio fundamental: a salvaguarda da segurança do Estado.

No actual contexto internacional, é compreensível que a RAEM queira conhecer melhor quem constitui e dirige associações, as suas relações com entidades do exterior e os fluxos financeiros que recebem ou, quando aplicável, enviam para fora de Macau.

Esses movimentos podem corresponder a quotas de filiação internacional, inscrições, projectos de cooperação, donativos ou outras finalidades perfeitamente legítimas. Precisamente por isso, regras claras quanto à origem, finalidade e destino dos fundos protegem o interesse público e as próprias associações. Conhecer melhor não significa suspeitar mais. Pode também significar aumentar a confiança.

O importante é dispor de informação suficiente para distinguir aquilo que é normal e legítimo daquilo que, pelas suas características, possa exigir um grau diferente de atenção. Segurança como prioridade, coordenação como método e um melhor associativismo como resultado.

Depois da consulta

Continuamos em período de consulta pública. É precisamente agora que estas questões devem ser colocadas.

Dar uma opinião não significa estar contra a reforma. Uma consulta pública serve para esclarecer dúvidas, identificar problemas concretos e melhorar aquilo que ainda pode ser melhorado.

Depois de ponderadas as opiniões recebidas, será desejável que o Governo conclua oportunamente o novo regime, evitando prolongar a incerteza. As associações precisam de conhecer as novas regras, os períodos de adaptação e os procedimentos de regularização.

Não gosto particularmente da palavra «limpeza» para descrever aquilo que poderá acontecer. Prefiro falar numa actualização séria do universo associativo de Macau. É um pouco como actualizar a lista de contactos do telefone: perceber quais as associações que continuam efectivamente a funcionar, quais precisam de regularizar ou actualizar a sua situação e quais, na realidade, já cessaram a actividade.

Depois de décadas de rápido crescimento associativo, Macau talvez precise menos de controlar mais e mais de coordenar melhor.

A prioridade está claramente definida: salvaguardar a segurança do Estado. Mas existe também uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada: utilizar de forma mais inteligente os recursos públicos e apoiar melhor as associações que efectivamente trabalham e servem Macau.

Talvez seja esse o equilíbrio a procurar: segurança onde é indispensável, rigor onde é necessário, simplicidade onde é possível e apoio onde é merecido. O objectivo da reforma não deverá ser simplesmente reduzir o número de associações, mas contribuir para que Macau tenha um associativismo melhor, mais responsável e mais saudável.

31 Ago 2026

As associações desaparecidas

Há muitos anos, existiu uma popular série coreana chamada “Dae Jang Geum” também conhecida como “A Joia do Palácio”. Numa cena que mostrava o exame feito por oficiais da corte a raparigas estudantes de medicina, durante a Dinastia Joseon, os examinadores exibiam uma grande quantidade de ervas e perguntavam como se podia distinguir as medicinais das malignas. As estudantes aplicaram-se e separaram cuidadosamente umas das outras.

No final, os oficiais da corte anunciaram o resultado dos exames, afirmando que todas tinham chumbado. Alegaram que elas não tinham passado porque as ervas em si não são intrinsecamente benéficas nem prejudiciais. Quando usadas correctamente, podem ser um bom medicamento, mas usadas incorrectamente, podem ser veneno. Esta afirmação faz lembrar a frase de Deng Xiaoping, “Não interessa se um gato é branco ou preto, desde que cace ratos, é um bom gato”.

O que define uma boa associação? O que define uma má? Numa primeira análise depende das acções que desenvolvem, se servem interesses pessoais ou do grupo que representam, e, em última análise, se passam por cima dos interesses de terceiros e da comunidade.

A revisão do “Regime Jurídico das Associações” deve partir da perspectiva de salvaguarda dos direitos fundamentais e dos deveres dos residentes. O Artigo 27 da Lei Básica de Macau estipula o seguinte, “os residentes de Macau gozam da liberdade de expressão, de imprensa, de edição, de associação, de reunião, de desfile e de manifestação, bem como do direito e liberdade de organizar e participar em associações sindicais e em greves”. A liberdade nunca foi uma dádiva do céu. Ao analisar algumas das extintas associações de Macau, espero poder apresentar algumas perspectivas alternativas.

Antes do Incidente de 12 de Dezembro de 1966, havia frequentemente em Macau duas associações com posições completamente diferentes dentro do mesmo sector de actividade. Existiam as que eram próximas do Kuomintang (KMT) de Taiwan, e as que apoiavam o Partido Comunista da China. Todos os anos, estas diferentes associações colocavam as suas respectivas bandeiras nas ruas para celebrar os dias 1 e 10 de Outubro. No entanto, depois do Incidente de 12 de Dezembro de 1966, as associações pró-Kuomintang saíram de Macau. A maioria das associações políticas que permaneceram em Macau eram próximas dos governantes coloniais portugueses.

No documento de consulta do “Regime Jurídico das Associações”, é mencionado que “não foram constituídas associações políticas desde a entrada em vigor da Lei n.º 2/99/M, em 1999…. Por isso, sugere-se que não sejam criadas mais normas específicas sobre as associações políticas, criando-se apenas disposições transitórias para as associações políticas existentes, de modo a permitir a sua manutenção”.

Antes do regresso de Macau à soberania chinesa, muitos dos governadores e secretários-adjuntos portugueses tinham filiações políticas, por isso não é de estranhar que nesse período se estabelecessem em Macau associações políticas análogas. Além disso, os requisitos legais para criar associações políticas eram bastante rigorosos e os membros tinham de preencher todos os pressupostos e obrigações requeridos para pertencerem a uma associação política.

A responsabilidade política definida é muito pouco atraente para as associações locais em Macau, especialmente para as associações chinesas, porque desde que usassem um nome diferente para concorrer às eleições, podiam participar sem o incómodo de terem de formar uma outra associação para esse fim. Mas as coisas mudariam. Depois de a “Associação Amizade Alexandre Ho” ter conquistado uma vitória esmagadora nas eleições para a Assembleia Legislativa, surgiram, um após outro, vários grupos de comentário político.

A “União de Macau para o Desenvolvimento da Democracia” formada em 1989 para lidar com a turbulência política em Pequim durante a Primavera e o Verão desse ano, a “Associação de Novo Macau” criada em 1992 para propor a candidatura de António Ng Kuok-cheong às eleições para a Assembleia Legislativa e a “Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário de Macau”, uma associação fundada por alguns ex-membros da “Associação de Novo Macau” depois de 2013.

Destas associações, uma foi extinta devido à morte do seu fundador, enquanto as outras foram caindo uma após outra depois de 2021. Algumas associações independentes formadas em nome dos direitos dos trabalhadores também desapareceram silenciosamente. Os tempos mudam, as circunstâncias alteram-se, mas isso não significa que estas associações nunca existiram.

28 Ago 2026

O Crepúsculo Ocidental

“Civilizations now know that they are mortal.” Paul Valéry, “The Crisis of the Mind” (1919)

O que até ontem poderia servir de roteiro-base para um daquelas séries de consumo rápido, embalados pela estética saturada da Netflix, hoje assume a forma de alegoria demasiado próxima da realidade para ser confortável.

A aurora do crepúsculo ocidental expressão que, se não fosse trágica, seria apenas melodramática desenha-se diante de nós com a serenidade fatal das coisas que não precisam de provar nada. O velho sonho americano de um domínio eterno, vestido com o corte impecável do “modo de vida ocidental”, revela-se afinal uma peça de teatro que perdeu o protagonista, o enredo e o público. E, contudo, no caos que nos rodeia, descobrimos vestígios de uma ordem futura, como se o mundo, cansado de improvisar, começasse a ensaiar discretamente o próximo acto.

Uma fenomenologia sóbria, aquela que não se deixa seduzir por teorias conspirativas nem por entusiasmos patrióticos ensina-nos que as aparências raramente enganam. Basta observar com atenção o palco da “Grande Guerra” (conflito sistémico global em curso) para perceber que o cenário mudou e que a América perde, a Rússia resiste, a China ganha e a Europa afunda. Eis o resumo, tão brutal quanto exacto, da nova cartografia estratégica. Os americanos perderam a dissuasão estratégica, que é como perder quase tudo. Já ninguém confia neles, excepto aqueles que não têm alternativa. Os rivais tentam lucrar com a fraqueza, enquanto os “aliados” se apressam a reprogramar protocolos de segurança que julgavam eternos.

Washington, ao insinuar-se no teatro ucraniano com a astúcia de quem pretende desgastar Moscovo sem jamais correr o risco de o derrotar, acabou por se enredar na própria armadilha e arruinar-se com uma incompetência tão ruidosa quanto previsível. A ironia é que o americano médio, esse cidadão que, segundo Mark Twain, “nunca deixa que a verdade atrapalhe uma boa opinião” não sabe sequer localizar a Ucrânia no mapa. A Rússia, que arriscou o osso do pescoço, agora aproveita o marasmo americano com a paciência fria de quem viu impérios cair. O apoio dos Estados Unidos e dos atlânticos a Kiev permitiu a Putin transformar uma expedição punitiva numa guerra simbólica entre a Federação Russa e o Ocidente, da qual o Kremlin se apresenta como vencedor. Mas a vitória é ilusória porque Moscovo perde no seu eixo estratégico central, aquele que sempre temeu com a China.

O preço da ousadia russa contra a América, com quem nunca travou uma guerra aberta, será elevado. Os chineses contemplam vastidões inteiras a desdobrar-se diante deles como a Ásia Central outrora soviética, a Sibéria profunda e o Árctico silencioso como se o mapa do Norte lhes abrisse, sem resistência, um corredor de expansão que Moscovo não consegue vigiar nem reivindicar com a antiga altivez imperial. Ali, russos e americanos serão forçados a reencontrar-se, não por afinidade, mas por necessidade, para tentar impedir que Pequim controle a rota setentrional. E os japoneses, sul-coreanos, indianos e demais parceiros asiáticos dos Estados Unidos efectivos ou presumidos perceberam que terão de confiar sobretudo em si próprios. A Pax Americana, que nunca foi tão pacífica quanto o nome sugeria, está a dissolver-se como uma névoa ao sol.

Na escala ocidental, o espectáculo assume contornos ainda mais penosos. Os americanos, fiéis à velha arte de sacudir responsabilidades, tratam de despejar a derrota sobre os europeus e, por conseguinte, sobre nós. Perdemos a bússola, mas preservamos intacta a venerável tradição de varrer a realidade para debaixo do tapete, como quem acredita que o pó desaparece por decreto. A diferença entre eles e nós é quase cruel pois os americanos sabem que perderam e, por isso, iniciaram a sua revolução interna para mudar de pele e impor limites ao império; nós, pelo contrário, agitamo-nos em convulsões estéreis, sem compreender grande coisa deles e ainda menos de nós próprios. Somos simultaneamente frenéticos e apáticos, inertes na exacta medida em que gesticulamos. A Europa transformou-se numa figura secundária que insiste em ocupar o centro do palco, sem reparar que ninguém lhe acende os focos.

E depois há o terceiro Ocidente, o ex-Ocidente identitário que é Israel. Envolvido num prolongado e desnecessário ensaio de suicídio nacional, que dura apenas porque é alternativa à guerra civil latente, o Estado hebraico vê a sua raiz ocidental comprometida nos planos antropológico, cultural e institucional. Resiste o vínculo existencial com a América, mas Jerusalém já não dispõe de um cheque em branco de Washington. A tragédia é que Israel, outrora símbolo da resiliência, se encontra hoje numa encruzilhada que lembra a advertência de Hannah Arendt: “A violência pode destruir o poder; é totalmente incapaz de o criar.” (On Violence, 1970).

A única certeza trágica é a Ucrânia, que perdeu estrondosamente. Não apenas o Donbas e a Crimeia. Reduzidos à exaustão, espoliados, enfraquecidos até ao limite, deixados sem forças nem recursos pelos russos e agora também pelos americanos, diligentes na arte de rapinar os tesouros minerais alheios os ucranianos descobrem, com a amargura dos que já não têm ilusões, a distância abissal entre a retórica atlântica e os seus actos. Kiev depende de um Ocidente que deixou de existir com um corpo dilacerado, oportunista, hipócrita, que ainda se proclama guardião da liberdade enquanto tropeça nos próprios escombros morais. E é por isso que a Ucrânia arrisca perder-se a si própria, não apenas no mapa, mas na identidade. A pergunta que ressoa, como refrão de uma ópera medíocre e mal ensaiada, é de uma simplicidade devastadora de como chegámos a este ponto?

Chegámos aqui porque o Ocidente confundiu poder com virtude, influência com destino, hegemonia com eternidade. Porque acreditou que a História tinha terminado, como proclamou Francis Fukuyama em 1992, num optimismo que hoje parece quase infantil. Porque julgou que a globalização era uma avenida de sentido único, conduzindo inevitavelmente à vitória liberal. Porque se habituou a pensar que o mundo era um espelho, e que todos desejavam ser versões menores de si próprio. Porque ignorou que a China, paciente como uma dinastia, preparava o século XXI enquanto o Ocidente se entretinha com guerras de identidade e crises financeiras. Porque não percebeu que a Rússia, humilhada nos anos de 1990, aguardava o momento de recuperar o orgulho ferido. Porque não viu que o Médio Oriente, longe de ser um tabuleiro estático, era um laboratório de convulsões que cedo se tornariam globais.

Chegámos aqui porque a Europa, esse continente que produziu Kant, Goethe, Camões, Cervantes e Shakespeare, decidiu transformar-se numa burocracia sentimental, onde cada crise é resolvida com comunicados e cada ameaça com regulamentos. Porque os europeus confundiram paz com imobilidade, e prosperidade com anestesia. Porque acreditaram que a História era um fenómeno meteorológico que não lhes dizia respeito. Porque, como escreveu Paul Valéry, “as civilizações sabem agora que são mortais” (La Crise de l’Esprit, 1919), mas preferem fingir que não ouviram.

Chegámos aqui porque os Estados Unidos, exaustos de si próprios, entraram numa fase de introspecção turbulenta, onde cada eleição é uma batalha cultural e cada decisão estratégica é filtrada por cálculos domésticos. Porque a América, que outrora se via como farol, hoje se vê como fortaleza. Porque perdeu a capacidade de inspirar, e com ela a capacidade de liderar. Porque, como advertiu George Kennan, “nenhum país pode manter uma posição de liderança se não souber controlar os seus impulsos” (American Diplomacy, 1951).

Chegámos aqui porque o mundo mudou, e nós não. Porque a ordem internacional não é um edifício, mas um organismo. Porque a História não é linear, mas circular. Porque o poder não é estático, mas migratório. Porque a soberba é sempre punida, e o Ocidente confundiu soberba com missão.

E chegámos aqui, sobretudo, porque ninguém quis ver os sinais. Porque os relâmpagos da Grande Guerra iluminam apenas aquilo que já estava à vista de um Ocidente cansado, dividido, hesitante; uma América vulnerável; uma Europa perdida; uma Rússia temerária; uma China paciente e ambiciosa; um Médio Oriente em combustão; uma Ucrânia sacrificada; um Israel em vertigem e um mundo em reconfiguração.

O que resta, então? Resta observar, com a lucidez que ainda nos é possível, que o futuro começou e não espera por nós. Resta compreender que o Ocidente não está a morrer mas a transformar-se. Resta aceitar que a hegemonia americana não era destino, mas circunstância. Resta perceber que a China não é inevitável, mas preparada. Resta admitir que a Europa não é vítima, mas cúmplice da sua própria irrelevância. Resta reconhecer que a História não acabou, apenas mudou de narrador. E resta, finalmente, a pergunta que ninguém quer formular, mas que ecoa como um aviso: se o Ocidente está a terminar, o que começa?

27 Ago 2026

As Associações e o Futuro de Macau: Segurança e Responsabilidade



Por Manuel Silvério – Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional / Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo



Nos dois artigos anteriores sobre a reformulação do Regime Jurídico das Associações, procurei abordar duas questões naturalmente ligadas. Primeiro, a realidade associativa de Macau, que cresceu de menos de duas mil associações para mais de 12 mil. Depois, as relações que muitas dessas associações mantêm, há décadas, com organizações do Interior da China, de Hong Kong e do exterior.



Chegamos agora a uma terceira questão, talvez a mais sensível: a segurança. Macau é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China. A sua estabilidade, o seu desenvolvimento e o seu futuro estão necessariamente ligados ao quadro constitucional do País e à salvaguarda dos interesses fundamentais do Estado. Entretanto, o mundo mudou. As relações internacionais tornaram-se mais complexas, intensificou-se a competição geopolítica e surgiram novas formas de interferência. A segurança nacional tornou-se, por isso, uma preocupação cada vez mais presente nos diferentes Estados. Macau não pode estar à margem dessa realidade.

Segurança do Estado e associações


É neste contexto que deve ser compreendida uma parte importante da reforma agora em consulta.


Edmund Ho veio também sublinhar publicamente esta dimensão. O primeiro Chefe do Executivo da RAEM e actual Vice-Presidente do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês considerou que a revisão do Regime Jurídico das Associações visa defender a segurança do Estado e da RAEM, optimizar a afectação de recursos e promover o desenvolvimento saudável e sustentável das associações.

Estas três dimensões — segurança, utilização responsável dos recursos e desenvolvimento sustentável do associativismo — mostram que a reforma não deve ser entendida apenas como uma alteração de procedimentos administrativos.


A proposta prevê a intervenção da Comissão de Defesa da Segurança do Estado em determinadas situações relacionadas com a constituição ou cessação de associações. Para as associações já existentes, estão igualmente previstos mecanismos quando possam estar em causa situações susceptíveis de pôr em perigo a segurança do Estado.
Parece-me compreensível que assim seja.
A liberdade de associação é um direito legalmente reconhecido em Macau, mas, como qualquer direito, exerce-se dentro do ordenamento jurídico vigente. O mesmo princípio se aplica às relações externas das associações.
Não vejo, por isso, necessidade de colocar a salvaguarda da segurança do Estado e as relações externas legítimas em campos opostos.
A segurança é um princípio que deve ser preservado. Dentro desse enquadramento, a abertura, a cooperação e as relações internacionais legítimas podem continuar a desenvolver-se.


O mundo muda e Macau também deve acompanhar a mudança

Macau tem uma história muito própria. Durante séculos foi um lugar de encontro entre diferentes culturas e comunidades. Essa abertura permanece e continua a ser uma das características e riquezas de Macau.
Mas abertura não significa ausência de regras.
A realidade constitucional e política da RAEM é hoje clara. Diferentes períodos históricos tiveram circunstâncias próprias, que não devem ser automaticamente transportadas para a realidade actual.


Há uma velha expressão que traduz esta ideia com simplicidade:
«Em Roma, sê romano.»
Uma associação de Macau integrada numa organização internacional deve naturalmente respeitar as regras dessa organização. Mas deve, antes de mais, cumprir as leis de Macau e assumir as responsabilidades decorrentes da sua existência e actividade na RAEM.
Não há qualquer contradição entre as duas coisas.
Seja no desporto, no escutismo, na comunicação social, na solidariedade, na juventude ou nas associações profissionais e empresariais, participar em redes internacionais significa conviver com diferentes regras e responsabilidades. O importante é que os limites sejam claros e que todos saibam como devem actuar.


Segurança com proporcionalidade



A segurança do Estado deve ser salvaguardada com firmeza. Mas a aplicação das regras deve também permitir distinguir situações diferentes.
Uma associação que, há décadas, participa de forma aberta e regular nas actividades de uma organização internacional e cumpre as suas obrigações não pode ser simplesmente colocada no mesmo plano de uma organização utilizada para fins contrários à lei.
Distinguir diferentes níveis de risco pode tornar a própria supervisão mais eficaz. Quanto mais claras forem as regras, mais fácil será para as associações que trabalham de boa-fé cumpri-las e para as autoridades concentrarem a sua atenção onde existam riscos efectivos.
Segurança e proporcionalidade não são incompatíveis. Podem, pelo contrário, reforçar-se mutuamente.


Proteger também os voluntários



Por detrás de muitas associações de Macau estão dirigentes e colaboradores que dedicam voluntariamente anos das suas vidas ao serviço da sociedade.
Não são necessariamente especialistas em direito, segurança, contabilidade ou relações internacionais. Uma reforma que torne mais claras as suas responsabilidades pode, por isso, ser também uma forma de os proteger.


Saber o que deve ser comunicado, quais relações externas exigem determinados procedimentos, que documentos devem ser conservados e onde procurar orientação reduz a possibilidade de erros cometidos por simples desconhecimento. Isto também é boa governação.
Não se trata apenas de criar obrigações. Trata-se de permitir que as pessoas saibam claramente quais são essas obrigações e possam cumpri-las.


Preparar Macau para o futuro



Talvez seja aqui que esta discussão ultrapasse a própria reforma das associações.
Associações efectivamente activas, regras claras, dirigentes conscientes das suas responsabilidades, utilização criteriosa dos recursos públicos, relações externas desenvolvidas dentro da legalidade e mecanismos adequados de protecção da segurança do Estado são elementos de uma sociedade mais organizada e institucionalmente mais forte.
Esta dimensão ganha particular significado num momento em que Macau define as prioridades do seu desenvolvimento económico e social para o período de 2026 a 2030.
E instituições fortes não servem apenas para resolver os problemas de hoje.

Servem também para preparar o futuro.
Fala-se por vezes de 2049 como se fosse uma linha distante no calendário. Não me parece necessário antecipar interpretações jurídicas ou políticas sobre aquilo que acontecerá então. Há algo mais simples e útil que podemos fazer desde já: construir boas práticas.
Quanto mais sólidas forem as instituições de Macau, mais claras forem as regras e maior for a confiança entre Administração e sociedade, melhor preparada estará a RAEM para enfrentar qualquer etapa futura.
A melhor preparação para o futuro começa no presente.


Reformar para consolidar confiança



Foi esse o fio que procurei seguir nestas três reflexões.
Reformar o Regime Jurídico das Associações parece-me necessário perante uma realidade que mudou profundamente. Mas reformar não significa apenas fiscalizar mais. Significa também conhecer melhor, distinguir situações diferentes, orientar, proteger quem trabalha de boa-fé e assegurar que os recursos públicos são utilizados com responsabilidade.
Significa igualmente reconhecer que Macau continua ligado ao País e ao mundo, mas que essa abertura se exerce dentro do quadro constitucional e jurídico da RAEM e tendo como princípio fundamental a salvaguarda da segurança do Estado.


Uma sociedade pode ser aberta e segura. Pode manter relações internacionais e exigir transparência. Pode proteger a liberdade de associação e exigir responsabilidade. Pode reforçar a fiscalização e, ao mesmo tempo, proteger os muitos voluntários que dão vida às suas associações.
Talvez o verdadeiro valor de uma boa reforma esteja precisamente aí: transformar princípios em boas práticas quotidianas e, através delas, reforçar a confiança no funcionamento das instituições. É também através de instituições sólidas, responsabilidade, segurança e confiança que se pode continuar a consolidar, na prática, o princípio de «Um País, Dois Sistemas» em Macau. Porque o futuro de Macau não se prepara apenas quando o futuro chegar. Começa a preparar-se hoje.


*Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional 


(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)



26 Ago 2026

Meu querido robot: as linhas vermelhas da lei e da moral

A semana passada, debatemos a iminente disponibilização de robots accionados por IA utilizados como parceiros sexuais e também as suas vantagens e desvantagens. Hoje continuaremos essa análise. A adopção generalizada de robots, para além de influenciar os padrões emocionais dos indivíduos, traz profundos desafios estruturais à sociedade.

Em primeiro lugar, a mercantilização destes produtos transforma relações íntimas em serviços que podem ser comprados. O “outro”, indispensável numa relação intíma no mundo real—um indivíduo com vontade própria, emoções e defeitos—é eliminado por algoritmos. A longo prazo, o relacionamento com robots pode vir a reduzir a capacidade de lidar com as diferenças e a heterogeneidade, simplificando gradualmente o amor e o companheirismo através de um modelo consumista. Em segundo lugar, a adopção generalizada de robots terá impacto na indústria do entretenimento para adultos, na indústria do sexo e nas plataformas de encontros online.

Por um lado, pode reduzir os riscos que enfrentam os trabalhadores sexuais; mas, por outro lado, também pode provocar desemprego nestes sectores, conduzindo a uma complicada transformação destas indústrias e potencialmente levando a um ajuste das taxas governamentais. Em terceiro lugar, se a aparência e a inteligência dos robots continuar a evoluir, as pessoas podem facilmente estabelecer laços emocionais excessivos, deixando de perceber a diferença entre indivíduos reais e máquinas antropomórficas, o que coloca desafios ao enquadramento jurídico actual. Por exemplo, quando um robot se estraga, deve ser considerado um dano de propriedade ou algo semelhante a uma lesão pessoal? Quando um robot mostrar reacções que podem ser interpretadas como dor, devemos recorrer às leis de protecção dos direitos dos animais? As pessoas poderão incluir os robots nos seus testamentos?

Confrontada com o rápido desenvolvimento dos robots, a sociedade precisa de examinar e abordar seriamente uma série de questões não resolvidas quer a nível legal quer a nível ético. Em primeiro lugar, se os fabricantes aceitarem encomendas para criar robots com uma aparência específica, que pode ser inspirada em figuras públicas ou em pessoas comuns, como estabelecer as linhas vermelhas? Na Feira do Livro de Hong Kong de 2009, uma jovem célebre lançou um álbum de fotografias sensuais e, simultaneamente, vendeu almofadas com a sua imagem em tamanho real, atraindo multidões que formavam filas para as comprar. Na altura, já houve quem questionasse este produto por objectificar as mulheres, por ter conotações pornográficas e pela influência que poderia ter em adolescentes. Se uma almofada desencadeou controvérsia, o conflito será sem dúvida muito maior quando aparecerem robots com faces humanas. Além disso, sem o conhecimento ou consentimento do indivíduo retratado, o fabricante deve assumir responsabilidade legal por violar o direito à invulnerabilidade da sua imagem? Como podem as pessoas comuns proteger-se da sexualização e mercantilização inadequadas da sua imagem digital?

Em segundo lugar, se o mercado permitir a comercialização de robots que se assemelham a crianças, ou de robots pré-programados para recriar cenários de violação, de agressões indecentes, ou de qualquer acto de violência contra a vontade de terceiros, estaremos perante a materialização de um crime sexual? Deverá a produção de robots ficar sujeita a certas restrições? Deverão ser impostos imites morais através de legislação para garantir a manutenção dos bons costumes?

Além disso, os robots guardam dados pessoais sensíveis. Precisaremos de supervisão legislativa? Se as leis forem implementadas, quem terá o direito de armazenar dados privados, como devem ser usados e quando deverão ser apagados, são questões legais que requerem clarificação urgente.

Em quarto lugar, independentemente do nível de inteligência do robot, a supervisão e a intervenção humana devem ser mantidas em questões críticas, em acções de alto risco e nos mais importantes procedimentos operacionais. Por exemplo, quando se executam acções muito intensas que envolvem movimento dos membros e que roçam os limites da segurança, o sistema deveria requerer uma confirmação manual por parte do utilizador, assegurando assim a sua protecção. Só mantendo o controlo humano é que os robots podem ser seguros.

Em quinto lugar, se o utilizador levar o robot a praticar acções ou linguagem violentas, auto-mutilação, ou ilegalidades, o mecanismo de protecção do sistema HE deveria interrompê-las imediatamente, mudar para o modo de segurança pré-definido e notificar o servidor, se necessário. Isto deveria ser acompanhado de um mecanismo de emergência que desligasse o robot para impedir que ajudasse o utilizador a cometer actos ilegais ou a violar a ordem e a moral pública.

As mudanças trazidas pelos robots vão muito além da função de satisfação das necessidades fisiológicas e de companhia. Eles funcionam como um espelho, reflectindo a eterna busca dos humanos por amor, confiança, poder e identidade. Quando a tecnologia cria companhias virtuais sempre obedientes que são mais atraentes do que as interacções complexas com pessoas reais, a forma de atingir um equilíbrio entre a inovação tecnológica, a liberdade individual, a moral vigente e as normas legais vai ser um dos grandes desafios que os legisladores e a sociedade não poderão evitar.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

25 Ago 2026

Vender o filho de seis anos

Ao fim de 290 semanas de estar em contacto com os amigos leitores do ‘Hoje Macau’ escrevendo sobre este Portugal, nunca esperei que chegasse um dia em que algo de imensamente chocante viesse a lume como um episódio verdadeiro e exclusivo nas páginas de um jornal. Aviso prévio: que todos os pais que tenham filhos menores não lhe caiam as lágrimas pela face, tal como nos aconteceu, ao lerem o que vos vou divulgar.

Passei uma semana em Lisboa, em casa de um casal de sobrinhos e ao ir tomar café com um vizinho de longa data, a dado momento, ele disse-me: “Você que tem um blogue e que divulga o que se passa no nosso país e no mundo, vou-lhe contar um caso do mais chocante que tive conhecimento na vida”. Fiquei ansioso e aguardei por ouvir o que me tinha para contar.

Aconteceu que um filho de um amigo do meu interlocutor, um jovem de 30 anos, que é acompanhante de luxo profissional e tem anúncio dos seus préstimos num site de gays, um dia, recebeu uma mensagem de uma criatura perguntando-lhe se estava interessado em ganhar 150 euros por hora, para se deslocar a sua casa a fim de ter sexo anal com o seu filho de seis anos de idade. O jovem ficou chocado e respondeu que apenas fazia serviços com maiores de 18 anos. Nunca imaginou tal desplante.

A partir desse momento, começou a trocar mensagens com a criatura deplorável na tentativa de obter o maior número de informação para poder tomar uma posição sobre o que para ele era um crime infame. Numa mensagem, o pai da criança afirmou que não havia problema nenhum porque o seu filho “já estava acostumado” a ter sexo anal e oral com ele (pai) e inacreditavelmente com outros homens que já lá tinham ido a casa para o efeito e que não se importavam de abusar sexualmente do filho porque eram bem pagos.

O acompanhante de luxo insistiu na recolha de mais informação e conseguiu que o pai da criança escrevesse o seu nome, a morada e até o andar do prédio onde residia. Mensagens escritas e de voz, fotografias do pai e da criança, ficaram totalmente registadas no telemóvel do acompanhante de luxo, o qual durante dois dias nem conseguiu dormir só de pensar que um pai vendia assiduamente o corpo de um filho com apenas seis anos.

Agora, que os amigos leitores ficaram certamente chocados e perplexos, adiantamos algo de ainda mais surpreendente. O acompanhante de luxo ligou para a esquadra da PSP do seu bairro e contou ao agente que o atendeu, tudo o que tinha acontecido. O agente policial perguntou se tinha provas do que acabara de afirmar. O acompanhante de luxo salientou que estava na disposição de se deslocar à esquadra policial a fim de se identificar pessoalmente, de mostrar todas as mensagens, gravações e fotos trocadas com o pai criminoso. O agente limitou-se a responder que iriam averiguar o assunto.

Como o acompanhante de luxo, entretanto, tinha fornecido o nome do pai criminoso e a morada, o agente policial acrescentou que mais tarde se se confirmasse o descrito que contactavam o acompanhante de luxo para se deslocar à esquadra e abrir-se um processo para que o pai criminoso fosse presente à Polícia Judiciária.

Passaram seis meses e o acompanhante de luxo estranhou que não tivesse sido contactado pelas autoridades policiais. Ligou para a esquadra e ao abordar novamente o assunto gravíssimo do que se tratava, responderam-lhe que seria melhor contactar com a Polícia Judiciária, sem que tivesse sido informado das diligências que a PSP tinha realizado.

O acompanhe de luxo salientou ao meu interlocutor, quando descreveu o que tinha acontecido, ter ficado com a sensação que na esquadra policial não teriam dado muita importância ao caso por, talvez, ser já habitual receberem queixas semelhantes e que o facto de não o terem contactado poderia estar ligado à investigação que se teria deparado com alguma personalidade “importante”.

Não, meus amigos, isto não pode acontecer. Violação sexual contínua de um menor de seis anos, incluindo pelo tarado do próprio pai. Uma autoridade policial que não notifica o denunciante para que se abra um processo criminal. Não se saber se o pai criminoso foi detido e presente ao tribunal. Se a criança continua a sofrer os abusos de crápulas que por 150 euros à hora se deslocam a casa do menor e o violam. Se na realidade, existirão tantos casos semelhantes. Estamos perante uma panóplia de interrogações, todas de cariz gravíssimo e que acontece na capital do nosso país.

A depravação sexual direccionada para o abuso de menores tem sido divulgada na comunicação social. Mas, nunca houve conhecimento público de que um pai, certamente com perturbação mental, vendesse o corpo do seu filho com seis anos. Chocante, perturbador e surpreendente quando um denunciante ainda não conseguiu que um bandido fosse incriminado.

P. S. – Contactámos uma associação de defesa de menores que nos prometeu ir entrar em ligação com o meu interlocutor, a fim de obter um depoimento do acompanhante de luxo.

24 Ago 2026

A tenaz Russo-Americana

«The great nations have always acted like gangsters, and the small nations like prostitutes.»

Stanley Kubrick, Interview with Jeremy Bernstein, 1966

Há ideias que não deveriam ser pronunciadas em voz alta, nem sequer admitidas em confidência. São pensamentos que, se ganhassem forma, fariam estremecer os alicerces das chancelarias europeias, habituadas a viver de certezas herdadas, alianças fossilizadas e uma confortável ilusão de centralidade. Mas, como advertiu George Orwell em “Notes on Nationalism (1945)”, «to see what is in front of one’s nose needs a constant struggle». E o que está diante do nariz europeu, por mais que se tente disfarçar com comunicados, cimeiras e fotografias de grupo, é uma realidade desconfortável de que talvez o inimigo não esteja no Leste, nem no Sul, nem no espectro difuso do terrorismo.

Talvez o inimigo esteja sentado à cabeceira da mesa, com o sorriso branco de Hollywood e a sombra pesada do Kremlin. Talvez a Europa seja apenas a noz colocada entre duas pedras de moinho, destinada a ser triturada com a elegância burocrática que caracteriza o nosso tempo. Vivemos, o início do final da partida entre americanos e europeus. Uma partida jogada com bolas murchas, chuteiras rotas e árbitros que, se existem, estão ocupados a negociar palestras bem remuneradas. Os jogadores, outrora campeões da seriedade continental, surgem agora exaustos, nervosos, dispostos a faltas de obstrução que fariam corar os velhos mestres do fair play.

A Europa, essa entidade que outrora se imaginava farol da civilização, descobre-se sem equipa, sem treinador, sem táctica e, sobretudo, sem vontade. Os Estados, outrora orgulhosos das suas tradições diplomáticas, parecem hoje actores secundários num teatro onde o protagonismo se deslocou para fora do continente. A Alemanha, que acreditou durante décadas que a ordem internacional era uma extensão da sua racionalidade industrial, observa perplexa que o mundo não funciona a diesel. A França, que ainda se imagina herdeira de Richelieu, tenta manter a pose, mas tropeça nos próprios éditos. A Espanha, sempre dividida entre o mar e a montanha, hesita. E nós, portugueses, habituados a sobreviver entre tempestades, olhamos para este teatro com a resignação melancólica de quem viu impérios cair e sabe que o mundo não se comove com lágrimas lusitanas.

Nos bastidores, os magarefes da política acumulam camisolas de todas as cores, prontas para serem vestidas ao sabor das conveniências. A troca de casaca, outrora considerada acto de traição, tornou-se agora prática desportiva. O mercado e a partida coincidem em tempo real, como se a política fosse uma feira de vaidades onde cada um tenta vender a sua própria irrelevância ao preço mais alto. A cada mudança de vento, muda-se de camisola, de discurso e de fidelidade. A coerência tornou-se um luxo que ninguém está disposto a pagar. Fora do estádio, bancas improvisadas oferecem camisolas da NATO e da União Europeia, algumas falsificadas, outras apenas ridículas. São objectos de coleccionador, relíquias de uma era em que ainda se acreditava que o Ocidente era uma família, e não uma assembleia de primos afastados que só se reúnem para discutir heranças.

A política transformou-se num mercado de símbolos, onde cada bandeira é vendida ao preço da conveniência. Nas bancadas, olhos orientais observam a rixa com uma mistura de curiosidade e satisfação. A China, paciente como um escriba imperial, contempla o caos ocidental com a serenidade de quem sabe que o tempo trabalha sempre a seu favor. Mas também com a preocupação de quem teme que a loucura europeia e americana ultrapasse os limites do razoável. Como lembra Sun Tzu em “A Arte da Guerra”, «a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar». E Pequim, que domina essa arte com a elegância de um mandarim, receia que o Ocidente, enlouquecido, a arraste para um conflito que destruiria o seu plano de retorno gradual ao primado global. A confusão, quando atinge níveis europeus, deixa de ser excelente e passa a ser perigosa.

A loucura ocidental, se não for contida, pode transformar o planeta num tabuleiro de xadrez onde todas as peças se movem ao mesmo tempo, sem regras, lógica, rei e rainha. A Europa, que outrora se imaginava árbitro da história, descobre-se agora peça menor num jogo que não controla. Enquanto isso, os membros da chamada “Maioria Mundial” designação russa para o antigo Sul Global observam a disputa com inquietação. Perguntam-se se o Supremo Norte resolverá os seus conflitos dentro das suas muralhas ou se os descarregará sobre Caoslândia, essa vasta região do planeta onde as potências despejam os seus fracassos.

Talvez, pensam alguns, este seja o momento de ascender à primeira divisão. Talvez o colapso ocidental abra espaço para novos protagonistas. Ou talvez o Caos, esse deus pagão que nunca morre, se torne finalmente senhor da Terra. A Europa, entretanto, continua a debater-se com a sua insignificância. A guerra na Ucrânia, que deveria ter sido o momento de reafirmação da unidade europeia, tornou-se o espelho da sua fragmentação. Os Estados Unidos, que durante décadas foram o guarda-chuva estratégico do continente, mostram agora sinais de fadiga, impaciência e, sobretudo, egoísmo.

A Rússia, que deveria estar isolada, encontra-se paradoxalmente fortalecida pela desordem ocidental. E a Europa, que deveria liderar, limita-se a reagir mal, tarde e com hesitação. A pergunta proibida ecoa com força crescente: e se o inimigo fosse a América? Não o inimigo militar, mas o inimigo estratégico, o aliado que se tornou demasiado grande, imprevisível e interessado em si próprio. Como escreveu Henry Kissinger em “Diplomacy” (1994), «America has no permanent friends or enemies, only interests». E quando os interesses americanos deixam de coincidir com os europeus, a amizade transforma-se numa formalidade diplomática. Mas o pior cenário não é uma América adversária. O pior cenário é uma América aliada à Rússia, não por afinidade ideológica, mas por conveniência estratégica.

Washington e Moscovo como as duas mandíbulas de uma tenaz destinada a arrancar a Europa do seu pedestal, a desmontar a sua arquitectura política, a reduzir o continente a uma península irrelevante do grande continente euro-asiático. Uma Europa comprimida entre duas potências que, apesar das suas diferenças, partilham um interesse comum de redefinir o mundo sem pedir licença ao velho continente. Seria este cenário plausível? Os diplomatas dizem que não. Os analistas dizem que talvez. Os historiadores, mais prudentes, recordam que alianças improváveis já moldaram o mundo. Como escreveu Thucydides na “História da Guerra do Peloponeso”, «the strong do what they can and the weak suffer what they must».

E a Europa, neste momento, parece mais fraca do que nunca. O que resta, então, ao velho continente? Resta-lhe a ironia, essa arma subtil que sempre utilizou para disfarçar a sua impotência. Resta-lhe a diplomacia, que foi arte e hoje é apenas protocolo. Resta-lhe a esperança de que o mundo não enlouqueça completamente. E resta-lhe, sobretudo, a consciência de que o futuro será decidido por outros. Se o inimigo for a América, a Europa terá de reinventar-se. Se o inimigo for a dupla russo-americana, a Europa terá de sobreviver. Se o inimigo for o Caos, a Europa terá de rezar. E, enquanto isso, no Kremlin, alguém abre uma garrafa de champanhe.

21 Ago 2026

O caso do Tio Ho

Em 2024, o caso do “Tio Ho e da Srª. Ho (‘Hippo’ alcunha dada pelos internautas)” desencadeou em Hong Kong um alargado debate. O incidente envolveu conflitos a propósito de uma herança e dos direitos da família na sequência de um segundo casamento efectuado quando o noivo já era idoso.

O casamento aconteceu depois de um romance relâmpago entre o Sr. Ho de 76 anos e uma mulher da China continental de 46 anos, que ele tinha conhecido num mercado. A boda foi realizada dois ou três meses depois. O Sr. Ho e a filha mais nova tinham numa conta conjunta de cerca de 4,5 milhões de HK dólares. Quando ele pretendeu retirar 1 milhão para financiar o negócio da mulher, a filha antecipou-se e retirou o dinheiro todo porque suspeitava que o pai tinha sido defraudado.

Então o sr. Ho procurou ajuda junto da comunicação social, acusando a filha de deslealdade e exigindo a devolução dos fundos. No entanto, a opinião pública apoiou-a esmagadoramente porque diziam que ela estava a defender o direito à sua herança. À medida que as hipóteses de recuperar os activos diminuíam, começaram a surgir relatos de discórdias entre o casal. Este incidente reflecte claramente várias questões sociais, como os casamentos em idade avançada, a protecção dos bens dos idosos e os conflitos entre membros da família em torno do direito à herança.

De uma perspectiva jurídica, de acordo com o Capítulo 73 da Legislação de Hong Kong, Portaria dos Direitos Sucessórios dos Intestados(無遺囑者遺產條例), se o falecido não deixou testamento, os seus bens serão divididos entre a esposa e os descendentes directos. Assumindo que o casamento do sr. e da srª. Ho é legalmente válido, os 4,5 milhões são reconhecidos como património pessoal do marido. Na ausência de testamento, a esposa receberia primeiro o montante de 500.000 HKD, seguido de metade do património remanescente, ou seja, 2 milhões de HKD:
($4,500,000 – $500,000) / 2 = $2,000,000

A outra metade seria dividida entre os cinco filhos, recebendo cada um a quantia 400.000 HKD. No entanto, se o casamento fosse declarado inválido, os cinco filhos dividiriam os 4,5 milhões em partes iguais, recebendo cada um 900.000 HKD.

O que acima foi exposto é muito claro. Ao abrigo da legislação de Hong Kong, um cônjuge pode também ter direitos de herança sobre outros bens em determinadas condições. No entanto, para efeitos da análise, não consideraremos situações complexas.

A drástica queda dos 900.000 HKD, que cada filho receberia, para 400.00 HKD, foi naturalmente o que esteve na origem do conflito entre os filhos e a esposa actual. Quando pessoas idosas celebram segundos casamentos, enfrentam conflitos entre os direitos legais da nova esposa à herança e as expectativas dos filhos do primeiro casamento. A forma ideal de resolver estes conflitos é fazer testamento enquanto se está lúcido e comunicar as condições estipuladas aos membros da família. Contudo, devido ao conceito tradicional da sociedade chinesa que diz que “o chefe da casa gere as finanças” e ao tabu que impede conversas sobre morte e heranças, muitos idosos não planeiam a distribuição dos seus bens com antecedência, muito menos fazem testamento, o que leva a um aumento dos riscos e das disputas familiares.

Em discussões recentes nas redes sociais, algumas pessoas propuseram o modelo de “parceiros não casados” ou de “estar juntos, mas viver separados” para resolver este tipo de conflitos. Estas propostas apontam para um relacionamento a dois sem casamento, que pode proporcionar uma relação amorosa duradoura. Nenhum deles ambiciona a um estatuto formal, não interfere na vida do outro e não exige um futuro comum. Reservam um lugar para o outro nos seus corações, sorriem quando de vez em quando pensam no companheiro e sentem-se em paz. Oferecem apoio emocional quando necessário, preenchendo o vazio nos seus corações. A ausência de casamento não é lamentada, provoca sim outro tipo de realização.

Em casais de meia-idade ou em casais idosos que não se casaram, cada um ocupa um lugar no coração do parceiro. Sentem-se bem juntos, mas não precisam da certidão de casamento. Apenas garantem apoio emocional quando necessário, não interferindo na relação com os filhos nem com o seu direito à herança dos progenitores. Este modelo de relação evita que os membros da família tenham conhecimento da existência de um novo parceiro na vida dos pais e evita totalmente as disputas em torno dos seus direitos à herança.

No entanto, esta idealização de companheirismo acaba na verdade por ignorar as necessidades físicas e psicológicas dos idosos. As pessoas quando se reformam perdem grande parte dos seus contactos e enfrentam uma solidão crescente; o “companheirismo” que procuram é basicamente uma interacção diária, não uma relação que “só existe quando necessário.” Além disso, com o declínio do corpo e o aumento dos riscos de doenças, os idosos ficam extremamente dependentes de quem os cuida. É pouco provável que uma relação puramente espiritual venha a proporcionar cuidados estáveis. Este modelo poderá não ser o que os idosos verdadeiramente desejam.

Em resumo, nem o modelo dos parceiros que não se casam nem o das pessoas que estão juntas, mas vivem separadas, pode resolver as contradições que surgem nos segundos casamentos em idade avançada. Os conflitos entre os direitos dos idosos e a distribuição da herança têm de ser resolvidos através de um planeamento legal da distribuição de bens. O “caso do Tio Ho” dá-nos um aviso claro: só com um testamento onde a distribuição dos bens é declarada se pode garantir a dignidade e a protecção das relações próximas e evitar eficazmente as disputas familiares.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

20 Ago 2026

Arrumar a casa sem partir a loiça – Opinião sobre a nova Lei das Associações

Jorge Valente, presidente da Associação Sino-Lusófona da Indústria e Promoção de Intercâmbio Cultural (Macau)

Comecemos pelo princípio, e por desfazer um mal-entendido: o problema da actual lei das associações não é ter mais de duas décadas. Uma lei não perde validade por aniversário, tal como um bom vinho não se estraga só por envelhecer. O problema — esse sim, real — é saber se aquilo que foi pensado para outra época ainda serve a realidade de hoje. E aqui tenho de dar razão ao Governo: com mais de 12 mil associações registadas, claramente já não serve.

Dito isto, vale a pena um parêntesis de honestidade: se hoje temos mais de dez mil associações, uma parte considerável dessa explosão deve-se ao próprio Governo, que ao longo de décadas fomentou activamente a criação de associações — com apoios, subsídios, incentivos e, convenhamos, uma certa cultura de “uma causa, uma associação”. Não é inteiramente justo apresentar o número como sintoma de descontrolo do sector, quando foi em boa parte incentivado pelo próprio Executivo. Arrumar a casa, sim — mas sem esquecer quem ajudou a espalhar a roupa pelo chão.

Liberdade associativa: a linha que não se negoceia

Aqui não há meio-termo possível para mim: a liberdade de associação dos residentes tem de ser protegida, ponto final. É um direito garantido pela Lei Básica e um dos pilares de qualquer sociedade que se preze civilizada e madura. Toda a reforma deve ser lida, primeiro, à luz deste princípio — só depois se discute o resto.

Segurança nacional: sim, mas com bom senso

Defendo, sem hesitação, que a segurança nacional deve ser salvaguardada — é uma responsabilidade constitucional da RAEM, não um capricho. Mas há uma diferença enorme entre salvaguardar e exagerar. A esmagadora maioria dos dirigentes associativos em Macau trabalha de boa fé, muitas vezes voluntariamente, a somar valor à comunidade. Construir um aparelho de vigilância pesado para tratar uma minoria irrelevante como se fosse ameaça sistémica não é segurança — é desperdício de energia e de confiança. Usar um canhão para matar uma mosca não torna a casa mais segura; torna-a apenas mais desconfortável para quem lá vive.

Concentrar tudo na DSI: boa ideia, com condições

Sou a favor de concentrar a fiscalização num único organismo — faz sentido eliminar a actual peregrinação entre cartórios, DSAJ e Ministério Público. Mas concentração de poder sem transferência de conhecimento é uma armadilha. A DSI precisa de herdar não só as competências, mas também a experiência acumulada, as directrizes e os critérios já testados pelos departamentos que hoje partilham esta função. E, já agora, um único órgão a decidir tudo sobre a vida e morte jurídica de mais de 12 mil associações merece mecanismos internos de fiscalização robustos — para que um único ponto de decisão não se torne também um único ponto de fragilidade.

Associações adormecidas: sim, mas com prazo generoso e saída fácil

Concordo plenamente que é preciso resolver o problema das associações adormecidas — mas com um período de carência longo e humano, não um machado. Proponho, por exemplo: uma associação sem órgãos eleitos nos termos estatutários é notificada e classificada como “adormecida” por um prazo de cinco anos; se, no final desse período, não houver resposta nem esforço de regularização, é então dissolvida.

E já que falamos de dissolução: por favor, simplifiquem também a dissolução voluntária. Falo com conhecimento de causa — estive numa associação que já não fazia sentido manter viva e que os próprios sócios queriam dissolver. O processo revelou-se tão complicado que nem sequer ficámos a saber ao certo se a dissolução era, de facto, possível naquela situação concreta — e o próprio advogado consultado acabou por aconselhar a não fazer nada. No fim, a associação foi simplesmente abandonada, sem nunca chegar a ser formalmente dissolvida. Isto não beneficia ninguém: nem o Governo, que fica com mais uma “associação fantasma” nos registos, nem os sócios, presos a uma estrutura morta. Facilitar a saída devia ser tratado como um bónus desta reforma, não como um detalhe menor.

A filosofia de fundo: modernizar sim, sufocar não

Sou apologista de que, na dúvida, se deve sempre optar por mais liberdade para as associações — fiscalizar onde é preciso, sem abusar, e sem levantar obstáculos onde eles não fazem falta. “Modernizar” não pode ser sinónimo de forçar processos burocráticos que não acrescentam nada à vida real das associações. E defender o patriotismo — que defendo sem qualquer desconforto — não pode servir de desculpa para dispensar o trabalho sério, exigente e por vezes ingrato de governar bem.

Conformidade com a Lei Básica: aqui, durmo descansado

Ainda que a lei esteja em fase de consulta, não me preocupa particularmente a sua conformidade final com a Lei Básica. O Governo tem — e vai continuar a ter — juristas competentes para escrever e rever a versão final. Não é aqui que reservo as minhas dúvidas. A DSI e os restantes departamentos envolvidos têm gente capaz de implementar bem as mudanças que aí vêm. O que peço é que se pense bem antes de escrever: uma lei destas não se faz para durar uma legislatura, faz-se para durar os próximos 25 anos. Pensem bem primeiro, escrevam com essa visão de longo prazo — e depois deixem essas pessoas competentes fazer o seu trabalho, sem microgestão constante.

O limite de três associações por morada: uma pergunta simples

Aqui tenho as minhas reservas. A não ser que o Governo tencione passar a disponibilizar moradas para ajudar as associações a cumprir este novo requisito, não vejo grande lógica em limitar artificialmente o número de associações por endereço — sobretudo sabendo como é difícil e caro, em Macau, encontrar uma sede condigna. E fica a pergunta prática, que gostava de ver esclarecida: no caso de moradas partilhadas entre associações e empresas, o limite é cumulativo (associações e empresas juntas não podem ultrapassar três) ou contam-se separadamente? Isto muda tudo para quem partilha escritório com uma sociedade comercial.

Financiamento externo: caminho estreito entre transparência e caça às bruxas

Este é, para mim, um dos pontos mais delicados de toda a reforma — mas talvez também uma oportunidade que o Governo está a deixar em cima da mesa. Já que estão com a mão na massa a mexer no financiamento externo, porque não ir mais longe e rever a transparência de financiamento de todas as fontes, não apenas das estrangeiras? Com a excepção óbvia das associações de beneficência — que devem continuar a poder receber donativos anónimos, faz parte da própria natureza da caridade — creio que todas as outras associações deviam ser obrigadas a tornar público todo o seu financiamento: quem contribuiu, quanto, e quando, publicado num website onde qualquer pessoa possa consultar todas as transferências. Como se costuma dizer, “o ouro verdadeiro não teme o fogo” e “a luz do sol é o melhor desinfectante”. Não é preciso perseguir ninguém quando a própria transparência já faz sozinha o trabalho de limpeza — e isto, ao contrário de uma fiscalização centrada apenas no estrangeiro, tem a vantagem de tratar toda a gente da mesma forma, sem sugerir que o dinheiro de fora é automaticamente mais suspeito do que o de dentro.

Sanções administrativas por atraso na notificação: excessivo, e injusto para os pequenos

Não concordo com a proposta de sancionar administrativamente as associações que não notifiquem a DSI, dentro do prazo, sobre alterações de estatutos, mudança de dirigentes, adesão a organizações estrangeiras ou recepção de financiamento externo. Uma grande associação com departamento jurídico próprio talvez nem sinta o peso disto. Mas uma pequena associação de bairro, gerida por voluntários que já dão o seu tempo livre de graça, vai ser desproporcionalmente penalizada por um simples esquecimento administrativo. Se queremos associações saudáveis, começar por multar boa vontade não parece o caminho certo.

Associações políticas: uma preocupação que nem sequer existe

Sinceramente, à primeira vista este ponto pareceu-me quase despiciendo. Partidos políticos, ou associações que funcionem como tal, não existem em Macau — nunca chegaram a existir depois de 1999. Parece que subsiste apenas uma associação política formada antes dessa data, sem grande participação da população nem planos de maior. Percebo, no entanto, que para alguns sectores este não é um pormenor menor, mas antes um objectivo deliberado: eliminar antecipadamente o “terreno” onde a política partidária poderia um dia germinar. Para quem tem essa preocupação, é uma posição válida e compreensível — trata-se de uma escolha estrutural sobre o modelo de governação de Macau, não de um capricho passageiro. Ainda assim, as leis devem ser pensadas para o caso geral, e não construídas apenas à volta de uma excepção tão diminuta. Se o Governo quer garantir formalmente que isto nunca virá a ser um problema, azar o meu — não vejo grande mal nisso.

Já agora, deixo aqui uma nota que talvez mereça mais atenção pública do que tem tido: entre as propostas conhecidas está a de que as decisões de extinção de uma associação por motivos de segurança nacional não sejam passíveis de recurso — ao contrário de praticamente todas as outras decisões da DSI, que podem ser contestadas por via administrativa ou judicial. Sabe-se também que uma associação extinta perde automaticamente o estatuto de pessoa colectiva eleitora — o que é, em si, perfeitamente compreensível e uma consequência lógica de qualquer extinção. Mas é precisamente por a extinção acarretar consequências reais, e não apenas simbólicas, que a ausência de qualquer via de contestação pesa ainda mais.

Se defendo, como disse acima, que a segurança nacional deve ser tratada com seriedade mas sem exagero, este é exactamente o tipo de pormenor que merece mais debate do que tem recebido até agora. A minha proposta é simples: mesmo nos casos mais extremos, deve haver sempre uma via de contestação, administrativa e judicial. Não é para proteger quem age de má-fé — é para proteger os 99% de associações que agem de boa fé, que não deviam ficar todas debaixo da mesma suspeita, nem reféns de uma decisão sem retorno, só por causa de um punhado de casos — talvez 0,1% — que representem, esses sim, um problema real. Um bom sistema jurídico não se distingue pelo poder que atribui, mas pelos travões que impõe a esse poder — mesmo quando esse poder está a ser bem usado.

Em resumo

Sou a favor da reforma. Discordo profundamente de quem trata “modernizar” e “reforçar controlo” como sinónimos — não são, e esta lei só vai ser boa se conseguir distinguir os dois. Apoio o Governo onde a lógica é evidente: unificar a fiscalização, resolver as associações fantasma, simplificar a dissolução voluntária. Critico onde acho que se está a ir longe de mais: sanções para os pequenos, limites de morada pouco explicados, e uma ênfase de segurança que, aplicada sem medida, arrisca tratar toda a gente como suspeito para apanhar uma minoria que já seria facilmente identificável de outras formas.
No fundo, é uma questão de bom senso: arrumar a casa é sempre bem-vindo. Só não se pode fazer a arrumação a partir a loiça pelo caminho.

20 Ago 2026

Uma Janela Associativa para o Mundo

Responsabilidade, segurança nacional e relações externas na reforma do regime jurídico das associações

Por Manuel Silvério

No primeiro artigo sobre a reformulação do Regime Jurídico das Associações, expliquei por que considero esta revisão necessária. Resumi então a minha posição numa frase: não contra a reforma, mas a favor de uma boa reforma.

Ficou, contudo, uma dimensão para reflexão própria: as relações das associações de Macau com organizações do Interior da China, de Hong Kong e do exterior, incluindo as suas filiações regionais e internacionais.

É um tema que conheço sobretudo através do desporto e da juventude. Interessa-me olhar para situações concretas e perceber como algumas das novas regras poderão funcionar na prática.

A proposta prevê que as associações comuniquem à Direcção dos Serviços de Identificação (DSI) a adesão ou saída de organizações ou grupos constituídos no exterior de Macau, bem como o recebimento de financiamento de entidades situadas fora da RAEM.

A transparência é compreensível. Importa perceber como estas obrigações se irão articular com uma realidade que faz parte há muito da vida associativa de Macau.

Uma realidade prevista na Lei Básica

As relações externas das associações não resultam apenas da prática. A própria Lei Básica as contempla.

O artigo 133.º enquadra as relações entre associações de Macau e organizações congéneres das outras regiões do País. O artigo 134.º prevê que associações de diversas áreas, bem como organizações religiosas, possam manter e desenvolver relações com organizações congéneres de outros países e regiões e com organizações internacionais afins.

Esta dimensão externa está, portanto, prevista no próprio enquadramento da RAEM.

Basta olhar para Macau para perceber a sua diversidade. A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) está ligada à International Federation of Journalists (IFJ); a JCI Macao, China integra a Junior Chamber International (JCI); a Associação dos Escoteiros de Macau participa na World Organization of the Scout Movement (WOSM). A Cruz Vermelha de Macau, a Santa Casa da Misericórdia e a Associação do Desporto Universitário de Macau são outros exemplos de organizações com relações ou filiações externas.

Não interessa fazer um inventário. Estes casos mostram apenas que as relações externas fazem parte da realidade associativa de Macau.

Internacionalização também significa cumprir regras

Estar integrado numa organização regional ou internacional não traz apenas oportunidades. Implica também cumprir regras e assumir responsabilidades.

O recente problema do licenciamento dos clubes de Macau para participação nas competições da Asian Football Confederation (AFC) é um exemplo. O acesso ao futebol internacional não depende apenas dos resultados dentro do campo, mas também do cumprimento de critérios desportivos, administrativos, jurídicos, financeiros e organizativos.

A conclusão é simples: internacionalização significa direitos e oportunidades, mas também capacidade para cumprir as regras das organizações a que se pertence.

É precisamente aqui que vejo uma possibilidade interessante na reforma. A proposta coloca a DSI no centro do regime, podendo esta solicitar colaboração de outros serviços e entidades públicos e emitir orientações relativas às associações.

Uma melhor articulação administrativa poderá ajudar os dirigentes a perceber a quem devem recorrer perante obrigações mais complexas.

Fiscalizar melhor, mas também orientar melhor

Esta orientação é particularmente importante porque muitas associações funcionam graças ao trabalho voluntário. Nem todos os dirigentes têm formação jurídica, contabilística ou administrativa. Regras claras e mecanismos adequados de sanação podem evitar que erros cometidos de boa-fé se transformem em problemas maiores.

Uma boa reforma deve também ajudar quem trabalha de boa-fé a cumprir melhor.

O risco não é igual para todos

O documento de consulta refere igualmente as exigências relacionadas com o combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo e, nesse contexto, a Financial Action Task Force (FATF).

As recomendações internacionais apontam para uma abordagem baseada no risco: identificar as organizações sem fins lucrativos que, pelas suas actividades, fontes de financiamento ou outros factores, apresentem riscos significativos e adoptar medidas proporcionais.

A ideia é importante: não tratar necessariamente todas as associações da mesma maneira, mas identificar onde estão os riscos concretos. Em linguagem simples: fiscalizar onde exista risco, sem presumir que todas as associações ou todas as relações externas representam o mesmo risco.

Activas, adormecidas e representação

Segundo o documento de consulta, quase 40 por cento das associações de Macau não funcionam há muito tempo, existindo muitas apenas nominalmente. Uma associação que organiza actividades e serve a comunidade não está na mesma situação de outra que existe há anos apenas no registo.

Esta distinção pode ter importância no acesso a apoios públicos e em determinados mecanismos de representação.

Não seria justo sugerir, sem conhecer cada caso, que associações inactivas foram constituídas ou mantidas por razões eleitorais. Mas, sempre que uma associação tenha relevância nesses mecanismos, parece-me razoável que o seu registo e funcionamento efectivo correspondam à realidade.

Uma actualização rigorosa do universo associativo poderá favorecer uma utilização mais justa dos recursos públicos e reforçar a credibilidade dos próprios mecanismos de representação.

Segurança nacional como princípio

Há finalmente uma questão que deve ser colocada com clareza.

A segurança nacional é uma responsabilidade fundamental da RAEM e constitui um princípio essencial no enquadramento das relações das associações com o exterior.

A proposta prevê a intervenção da Comissão de Defesa da Segurança do Estado em determinadas situações relacionadas com as associações. Parece-me correcto que qualquer relação externa tenha de respeitar plenamente o ordenamento jurídico vigente na RAEM e não possa pôr em causa a segurança nacional, a ordem pública ou os direitos e liberdades de terceiros.

A abertura reconhecida pela Lei Básica deve ser entendida dentro do actual enquadramento constitucional e político da RAEM. Circunstâncias históricas e políticas de outros períodos pertenciam a contextos diferentes e não devem ser automaticamente transportadas para a realidade de hoje.

Há uma velha expressão que talvez traduza bem esta ideia: «Em Roma, sê romano.»

Uma associação integrada numa organização internacional deve naturalmente cumprir as regras dessa organização, mas deve, antes de mais, respeitar as leis e as responsabilidades que decorrem da sua existência em Macau.

Não vejo, por isso, necessidade de colocar segurança nacional e relações externas legítimas em campos opostos. A segurança nacional é o princípio a preservar. Dentro desse enquadramento, abertura, transparência, responsabilidade e relações externas legítimas podem coexistir.

Preservar a segurança nacional e garantir relações externas legítimas não são objectivos incompatíveis, desde que existam regras claras, responsabilidade e proporcionalidade. Talvez o verdadeiro valor de uma boa reforma esteja precisamente em conseguir transformar estes princípios em prática quotidiana.

• Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional

(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

19 Ago 2026

Meu querido robot: oportunidades e preocupações

No âmbito do novo desenvolvimento tecnológico, uma empresa da área sediada em Shenzhen, China, fundada por uma equipa de Hong Kong lançou recentemente robots de companhia, que também são parceiros sexuais, e que combinam o Grande Modelo de Linguagem com IA incorporada. O robot com forma feminina, feito de silicone, mede 1,75 metros e pesa 20 quilos. É revestido por pele biónica que reproduz a temperatura do corpo e desenhado para proporcionar contacto íntimo.

Os utilizadores podem escolher o rosto, o penteado, a cor da pele e as proporções do corpo a seu gosto. O robot incorpora reconhecimento de voz e um sistema que permite variadíssimas expressões, com base na conversação, e consegue ainda assumir 165 posições corporais. Uma memória a longo prazo permite que vá gradualmente conhecendo a personalidade do utilizador e as suas preferências e hábitos, proporcionando uma diversidade de desempenhos e companhia emocional.

Pode operar três horas consecutivas após ter estado a carregar durante uma hora e espera-se que esteja disponível para pré-encomenda no Verão de 2027. O preço de mercado de produtos similares é superior a 10.000 USD, mas estes fabricantes pretendem conquistar clientes estabelecendo um preço entre os 4.000 e os 5.000 USD. Também planeiam lançar mais tarde o modelo masculino.

Os robots satisfazem os desejos e as emoções mais íntimas dos seres humanos, marcando uma nova fase onde os algoritmos e a tecnologia incorporada dominam, provocando impactos complexos, positivos e negativos, nos indivíduos e na sociedade como um todo.

Aspectos positivos: Em primeiro lugar, através da flexibilidade corporal e da diversidade de desempenhos, os robots podem ir ao encontro das preferências do utilizador, proporcionando a companhia desejada que é difícil de encontrar no mundo real devido às normas sociais e às limitações pessoais. Em segundo lugar, para pessoas mais velhas que vivem sozinhas, ou para quem sofre de grave ansiedade social, ou tem alguma deficiência ou ainda para os solteiros que lutam para conseguir relações íntimas, os robots podem servir como uma válvula de escape emocional, ajudando a combater uma solidão prolongada ou a reduzir o risco de conflitos sociais derivados de privação emocional e repressão sexual.

Em terceiro lugar, para as pessoas transgénero e para quem está à procura da identidade de género, os robots proporcionam um espaço de baixo risco para experimentação. Em contextos clínicos da área da psicologia, robots especialmente concebidos para o efeito podem servir como ferramentas para trabalhar a intimidade e a dessensibilização em vítimas de traumas sexuais e em pacientes com transtorno de stress pós-traumático. Em quarto lugar, quando usados correctamente, os robots podem ajudar a prevenir doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas. Alguns académicos sugerem que a utilização alargada destes produtos poderia teoricamente reduzir o tráfico humano, o número de trabalhadores sexuais involuntários e certos crimes sexuais.

No entanto, os robots também podem ter alguns efeitos negativos: Em primeiro lugar, o contacto unilateral prolongado com uma entidade antropomórfica digital pode facilmente levar à dependência de uma companhia virtual. Esta experiência íntima, que não requer ajustes e não dá origem a conflitos, pode enfraquecer a empatia, a disponibilidade para o compromisso e a tolerância às interacções sociais do mundo real, exacerbando a desintegração social e aumentando a dificuldade de estabelecer relações íntimas genuínas. Em segundo lugar, perante uma companhia alternativa que nunca envelhece, que responde sempre e que não requer responsabilidade, os mecanismos da tolerância e a capacidade de resolver conflitos, necessárias nas relações do mundo real, podem ir gradualmente enfraquecendo.

A longo prazo, este cenário pode provocar mudanças nas atitudes do casal e potencialmente diminuir a já baixa taxa de natalidade. Em terceiro lugar, muitos dos actuais modelos robóticos são principalmente concebidos para satisfazer necessidades estéticas e de desejo de géneros específicos, aumentando potencialmente a objectificação do corpo feminino e reforçando as desigualdades já existentes.

Em quarto lugar, os robots retêm enormes quantidades de registos de conversas privadas, das preferências comportamentais e ainda de dados biométricos. Se ocorrer qualquer vulnerabilidade na segurança de dados, os utilizadores enfrentam riscos de violação de privacidade e de chantagem. Falhas de hardware, temperaturas anormais das baterias e o sistema de controlo remoto também podem provocar acidentes.

Os produtos tecnológicos nunca são meras ferramentas; o seu desenvolvimento tem inevitavelmente impacto nos padrões inter-pessoais, nos valores e nas estruturas industriais. A controvérsia em torno dos robots estende-se para lá do nível pessoal, afectando estruturas sociais, normas jurídicas, a ordem social e a moral pública.

No próximo artigo continuaremos a explorar o profundo impacto da mercantilização das relações íntimas e falaremos sobre a necessidade de a sociedade estabelecer um quadro regulatório correspondente.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

18 Ago 2026

Eclipse e Popoi

Dois fenómenos invulgares aconteceram em Portugal e mobilizaram milhares de pessoas. O eclipse solar total não era visto em território português desde 17 de Abril de 1912. Desta vez, mobilizou milhares de pessoas, de todas as idades, para ver um fenómeno que só volta a acontecer em 2144. Os óculos especiais para ver o eclipse esgotaram.

Em Rio de Onor, Bragança, o Sol desapareceu por completo para gáudio de centenas de curiosos que se deslocaram ao local incluindo os maiores especialistas de astronomia. Houve palmas, gritos de alegria e a festa prolongou-se pela noite fora a fim de observar uma chuva de estrelas que ocupou todo o firmamento.

O eclipse solar total ocorre quando a Terra, a Lua e o Sol estão perfeitamente alinhados, e a Lua oculta completamente o disco solar por alguns momentos. Ao longo dos séculos, os chineses dedicaram esforços consideráveis à previsão de eclipses, sendo a astronomia uma actividade governamental durante a China Antiga. O papel do astrónomo era acompanhar os movimentos solares, lunares e planetários e explicar o seu significado simbólico ao Imperador no poder.

Segundo dados históricos, o registo mais antigo de um eclipse solar provém do tempo em que os astrónomos chineses realizaram estudos. As datas estimadas estariam entre 2165 e 1948 a.C., mas a data mais aceite será em 2137 a.C. No entanto, foi no século XIX que as primeiras expedições científicas foram organizadas para observar eclipses na Europa. O eclipse total de 28 de Julho de 1851 atraiu observadores para o norte do continente europeu e foi responsável pelas primeiras fotografias bem-sucedidas de uma coroa solar.

Portugal conta com vários astrónomos e astrofísicos de renome mundial que se distinguem em investigação de ponta, quer a trabalhar em instituições nacionais quer em importantes centros internacionais e missões espaciais globais.

Há que distinguir nomes tais como Rui Agostinho, professor na Universidade de Lisboa e figura central na divulgação científica e na gestão do Observatório Astronómico de Lisboa; David Sobral, astrofísico e professor na Universidade de Lancaster (Reino Unido), reconhecido internacionalmente pelos seus estudos em evolução de galáxias e cosmologia e Hugo Messias, investigador associado ao Observatório ALMA (Chile), que integrou a equipa internacional responsável pela primeira imagem de um buraco negro. Uma coisa é certa, nenhum dos milhões de pessoas que em Portugal e Espanha observaram o eclipse solar total da semana passada irá cá estar em 2144 quando o fenómeno se repetir.

Um outro fenómeno peculiar, que foi notícia a nível mundial e que ocorreu no Zoo de Vila Nova de Gaia, foi o nascimento do Popoi, um hipopótamo-pigmeu, cuja espécie encontra-se em extinção. Para os amantes da defesa das espécies animais foi uma alegria estonteante. Todas as televisões acorreram ao zoo para filmar o “bebé” Popoi.

Este nascimento foi muito raro e importante porque apenas cerca de um em cada dez filhotes desta espécie nasce macho. Estes hipopótamos-pigmeus, encontram-se em perigo de extinção e restam apenas cerca de 2000 a 2400 animais em todo o mundo. A sua origem vem das florestas e pântanos da África Ocidental como na Libéria. A sua diferença para um hipopótamo comum deriva de ser muito mais pequeno, pesa até 270 quilos (em vez de toneladas) e tem hábitos mais solitários e terrestres. As tratadoras do zoo de Gaia, que vivem uma alegria imensa, já começam a pensar no dia triste em que o Popoi irá para outro zoo internacional a fim de continuar a reprodução da espécie.

Na verdade, numa só semana Portugal foi falado em todo o mundo por estes dois fenómenos da natureza. Valha-nos o eclipse e o Popoi, porque ultimamente as notícias sobre a vida dos portugueses apenas se têm baseado em casos e casinhos políticos que deixam a imagem do país pelas ruas da amargura.

17 Ago 2026

Ondas de calor

Um mundo cheio de radicalismos produz condições meteorológicas extremas. Então, será que um mundo tão extremo foi criado pelos homens ou determinado por Deus? O globo está actualmente assolado por temperaturas elevadas e, enquanto isso, alguém se lembra que o recuo e o adelgaçamento das calotes antárticas está a acelerar a subida do nível do mar? E que a perda contínua de gelo do Ártico ameaça a sobrevivência dos ursos polares. O aquecimento global aumenta a frequência do fenómeno “El Niño”, mas de quem é a responsabilidade? Com a prevalência de supertufões, inundações massivas e secas prolongadas, até que ponto estamos longe de outra Era do Gelo?

Inúmeros activistas ambientais, e também o “Laudato Si”, a segunda encíclica do falecido Papa Francisco, apelaram à humanidade para que preste atenção ao equilíbrio ecológico e à protecção ambiental. Mas será que os líderes mundiais ouviram estes apelos? A operação militar especial da Rússia contra a Ucrânia, que já dura há mais de quatro anos ainda não chegou ao fim, assim como o conflito entre os Estados Unidos e o Irão, que eclodiu no início deste ano. As ondas de calor afectam a vida das pessoas, e o calor do combate no campo de batalha causa a perda de muitas vidas. Enquanto as nações estão envolvidas em conflitos, as pessoas que vivem nesses países encontram-se naturalmente em dificuldades e desesperadas.

Embora em Hong Kong e Macau não tenham sentido o calor da guerra, as altas temperaturas são igualmente insuportáveis. O antigo director do Observatório de Hong Kong criticou duramente o Governo da cidade por não emitir avisos com eficácia suficiente durante os dias de muito calor, o que aumentou o risco de insolação para quem trabalhava ao ar livre. Em Macau, muitas obras rodoviárias estão em curso, com os trabalhadores e os polícias a manterem a ordem no trânsito debaixo de um sol escaldante. Mas em Macau manifestaram-se muito menos pessoas do que em Hong Kong a propósito deste problema.

Além das temperaturas significativamente altas que se fizeram sentir em Macau, a recente consulta pública do “Regime para a Regulação de Determinadas Actividades e Eventos” e do “Regime Jurídico das Associações” provocaram outra onda de calor e discussões acesas na comunidade. Durante a administração do ex-Chefe do Executivo Chui Sai On, foram promulgadas as “Normas para a Consulta de Políticas Públicas”, que pretendiam “regulamentar a consulta de políticas públicas, criar um bom ambiente de consulta, promover a participação do público, e auscultar plenamente as suas opiniões, de forma a contribuir para uma boa governação”.

No entanto, aqueles que têm acompanhado o processo de consulta pública nos últimos anos, terão notado que a sua dinâmica actual é geralmente mais fraca em comparação com o passado. Se os resultados das consultas forem pré-determinados antes mesmo do processo se iniciar, qual é o objectivo de as realizar?

Por exemplo, na secção sobre “Melhoria do Mecanismo para a Extinção de Associações” no documento de consulta do “Regime Jurídico das Associações”, propõe-se atribuir à DSI a competência para decidir a extinção de associações que se enquadrem em qualquer uma das três situações, sendo uma das situações “associações que, de acordo com o parecer de verificação da Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, sejam consideradas associações que põem em perigo a segurança do Estado”. O documento de consulta apenas faz sugestões relativas à situação atrás mencionada, mas os relatórios da imprensa indicam, nas outras duas situações, que as associações envolvidas podem apresentar recurso hierárquico facultativo ou recurso contencioso. Assim, só as associações que a Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM considere que possam pôr em risco a segurança do Estado não podem apresentar recurso hierárquico facultativo ou recurso contencioso. Em função destes critérios, como é que as associações que forem dissolvidas podem exercer os seus direitos cívicos e ficar a conhecer os motivos da sua dissolução? O documento de consulta não refere esta questão.

Macau é uma sociedade regida pelo Estado de direito, e a redacção de qualquer lei não pode violar a Lei Básica.

O número de associações existentes em Macau teve um crescimento exponencial das menos de 2.000 na altura do regresso da cidade à soberania chinesa para as mais de 12.400 actuais. Macau, enquanto “sociedade marcada pelas suas numerosas associações”, necessita efectivamente de alguma reestruturação que impeça o uso indevido dos fundos do Governo por estas associações. Os extremos tocam-se e as ondas de calor provocadas por condições meteorológicas extremas são um alerta precioso que a natureza dá à humanidade.

14 Ago 2026

O canto da Europa desencantada (III)

“History teaches us that men and nations behave wisely once they have exhausted all other alternatives.”

Raymond Aron, Peace and War: A Theory of International Relations (1962)

A integração europeia nasceu de um medo profundo que foi o receio de que a Alemanha, derrotada mas nunca irrelevante, pudesse novamente tentar dominar o continente. Logo após a II Guerra Mundial, o Departamento de Estado americano afirmava que, “para contrabalançar este perigo, os países ocidentais devem associar-se mais estreitamente e incluir a Alemanha na sua comunidade”. Era uma estratégia simultaneamente pragmática e psicológica, destinada a impedir que o país regressasse ao isolamento que tantas vezes precedera a catástrofe. Winston Churchill, em 1949, sintetizava o dilema europeu ao afirmar que “o problema alemão consiste em restaurar a vida económica da Alemanha sem que isso exponha os vizinhos a qualquer reafirmação do seu poder militar”. A Europa unida surgia, assim, como solução para um problema que não era apenas económico ou militar, mas civilizacional.

Robert Schuman, um dos arquitectos da integração, reforçava esta visão ao escrever que “a Alemanha nunca é tão perigosa como quando está isolada”. A frase, simples e incisiva, traduzia a convicção de que a integração funcionaria como uma espécie de terapia colectiva, capaz de salvar a Alemanha “dos seus demónios”. Mesmo dentro da Alemanha, figuras como Adenauer eram mal vistas por sectores nacionalistas, que o acusavam de separatismo renano por defender uma integração profunda com o Ocidente. A Europa acreditava que só poderia protegerse, ajudando também a Alemanha de si própria.

Este receio não desapareceu com o passar das décadas. Pelo contrário, regressou com força em 1989-1990, quando a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã reacenderam temores antigos nas chancelarias europeias. Mitterrand e Thatcher, em particular, viam na unificação um potencial desequilíbrio continental. Não surpreende, que esse momento tenha coincidido com um novo avanço da integração como o nascimento do euro, concebido, como “sempre em função antialemã”. A moeda única pretendia amarrar a Alemanha a um quadro institucional que limitasse a sua autonomia económica e, por extensão, política.

Ainda hoje, a chamada “questão alemã” paira sobre a Europa. Os Estados Unidos, aliados centrais do projecto europeu, receiam o neutralismo do continente e temem que os seus parceiros, “com a Alemanha à cabeça”, não resistam à penetração estratégica da China e da Rússia. Por isso mantêm presença militar em território alemão muito reduzida face ao passado, mas ainda significativa e estendemna até à Europa Central, com o objectivo de “separar fisicamente Moscovo de Berlim”. A geopolítica continua a ser moldada por esta preocupação estrutural de impedir que a Alemanha, pela sua força económica e posição geográfica, se torne o pivô de uma aproximação eurorussa.

Paradoxalmente, a Alemanha não quer liderar a União Europeia (UE). Embora seja extremamente influente no plano normativo e económico, evita assumir o papel de guia político. Os seus vizinhos aceitam integrar a cadeia produtiva alemã, mas rejeitam ordens vindas de Berlim; e os alemães, conscientes dos aspectos desagradáveis do poder, também não querem dálas. Preferem concentrarse no comércio e manter o excedente produtivo que sustenta a coesão interna de um país “historicamente propenso à centrifugação”. Esta relutância alemã em liderar, combinada com a dependência europeia da sua economia, cria uma tensão permanente entre expectativa e recusa e entre necessidade e desconforto.

O mito europeísta, construído ao longo das décadas, alimentou também a fantasia do fim do Estado nacional. Contudo, os fundadores da integração nunca pretenderam abolir o Estado. Schuman escreveu em 1963 que “os nossos Estados europeus são uma realidade histórica” e que seria “psicologicamente impossível fazêlos desaparecer”. A retórica federalista existia, mas era marginal e não representava os humores populares, divididos entre patriotismo e retraimento. A academia, porém, difundiu a ideia de que a integração europeia estava em antítese com o Estado, que as nações eram aberrações históricas destinadas a fundirse numa identidade superior e que as fronteiras eram barreiras anacrónicas. As teorias funcionalistas defendiam que a criação de instituições sucessivas educaria elites e massas para uma cultura comum, através do chamado efeito “spillover”. Esta visão ignorava uma constante histórica de que as colectividades humanas “fundamse e fundemse através da violência”, e mudar identidades não é uma operação de laboratório.

Ao longo das décadas, o Estado reforçouse e a democracia enfraqueceu. A integração permitiu aos Estados oferecer mais segurança e prosperidade, mas retirou poder às maiorias, criando um défice democrático desde o início. Os pais fundadores queriam proteger o sistema das distorções que tinham permitido a ascensão dos autoritarismos, retirando competências não aos Estados, mas à volubilidade das maiorias. O Parlamento Europeu ampliou a representatividade, mas também aumentou a distância em relação ao cidadão, contribuindo para a confusão sobre a soberania e para a sensação de perda de controlo num contexto económico longe de ser próspero.

A ausência de uma dimensão simbólica e emocional agravou este afastamento. Pascal Lamy reconheceu que “à integração europeia faltou uma dimensão simbólica e cultural capaz de consolidar um sentido de pertença”. Jacques Delors dizia que “não é possível apaixonarse por um mercado ou por uma moeda comum”. A Europa tornouse um projecto frio, racional, incapaz de gerar encantamento ou laços profundos. A falta de narrativa mobilizadora transformou a UE numa entidade tecnocrática, mais próxima de um cálculo administrativo do que de uma comunidade política. O resultado foi o regresso do nacionalismo, uma reacção ao receio de ver esbaterse a identidade e a soberania. O Eurobarómetro mostra que a UE suscita “neutralidade impassível em quase metade dos inquiridos”, sinal de que o mito não se consolidou.

O mito europeísta nasceu da vontade de fugir às violências do século XX, mas a Europa não pode recomeçar numa página em branco como os Estados Unidos, que só o conseguiram após o extermínio dos povos nativos. O continente europeu é demasiado fragmentado, denso de memórias e marcado por divisões profundas. Aqui, Estado e nação permanecem unidos por mais do que a simples experiência de existir ou de partilhar bemestar. A insistência da UE em apresentarse como única alternativa ao caos revela o medo profundo de ver regressar a história, os conflitos e os nacionalismos que foram empurrados para o inconsciente porque uma vez conduziram à catástrofe.

No fundo, desmontase o mito europeísta mostrando como ele nasceu de medos, ilusões e pressões externas, e como continua a revelar contradições estruturais. A integração foi concebida para neutralizar a Alemanha; o euro surgiu como resposta ao receio provocado pela reunificação; a Alemanha evita liderar; o Estado nacional permanece central; a democracia fragilizouse; a identidade europeia não se consolidou; e o nacionalismo regressa. A Europa não pode fugir da sua história, porque, “a história é a Europa”.

14 Ago 2026

Associações de Macau: uma reforma que merece ser bem discutida

Por Manuel Silvério*


Nos últimos dias, alguns dirigentes associativos têm-me perguntado o que penso sobre a reformulação do Regime Jurídico das Associações agora colocada em consulta pública pelo Governo da RAEM.

Não foram perguntas feitas apenas por curiosidade. Senti alguma preocupação, sobretudo entre pessoas que há muitos anos dedicam parte do seu tempo às associações, muitas vezes voluntariamente, e que agora procuram perceber o que poderá mudar e que novas responsabilidades lhes poderão ser exigidas.

Compreendo essa preocupação. Talvez também porque acompanhei de perto outra fase da história do associativismo em Macau.

Na sequência das transformações políticas e administrativas iniciadas com a Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974, o desporto de Macau foi adquirindo progressivamente maior autonomia organizativa. Vivi um período em que foi necessário criar associações desportivas territoriais representativas das diferentes modalidades, capazes de organizar a actividade local e permitir que Macau participasse, com identidade própria, em organizações e competições regionais, asiáticas e internacionais.

Essas associações não nasceram para aumentar números nem preencher registos. Nasceram porque eram necessárias.

Depois, Macau mudou e o associativismo mudou com Macau.

Multiplicaram-se as actividades, aumentaram os praticantes e as competições e intensificaram-se os intercâmbios com associações e clubes das cidades vizinhas. Foram surgindo muitos clubes e associações de natureza desportiva, recreativa, cultural, social ou semelhante.

Grande parte nasceu naturalmente dessa vitalidade. Muitos continuam hoje a desenvolver um trabalho útil. Outros foram perdendo actividade e alguns terão simplesmente deixado de funcionar.

Por detrás dessas associações estiveram — e continuam a estar — pessoas que aceitaram ser dirigentes sem receber nada em troca, organizaram actividades depois do trabalho, acompanharam jovens, promoveram cultura e desporto e ajudaram a manter vivas pequenas colectividades.

Esta dimensão humana não deve ser esquecida quando discutimos uma reforma jurídica.

Ao mesmo tempo, cresceram os apoios públicos ao associativismo e as associações passaram também a desempenhar um papel em diferentes mecanismos de representação social e política. Todo este universo se tornou progressivamente mais amplo e complexo.

Seria injusto generalizar ou pôr em causa o trabalho meritório de milhares de dirigentes. Mas também seria pouco realista olhar para todas as associações como se tivessem a mesma origem, dimensão, actividade ou função social.

É neste contexto que os números merecem atenção.

Das menos de duas mil associações existentes antes do estabelecimento da RAEM passámos para mais de 12 mil. Segundo o documento de consulta, apenas cerca de 60 por cento mantêm algum nível de funcionamento, enquanto aproximadamente 40 por cento estão inactivas há muito tempo ou nunca chegaram verdadeiramente a funcionar.

O próprio documento utiliza uma expressão particularmente elucidativa: “associações adormecidas”.

Há, portanto, razões objectivas para rever o sistema.

Uma reforma necessária

Considero a iniciativa do Governo oportuna e necessária.

E é precisamente por reconhecer essa necessidade que considero importante aproveitar a consulta pública para discutir não apenas os problemas que a nova legislação pretende resolver, mas também a forma como as soluções propostas poderão funcionar na prática. A minha posição é simples: não contra a reforma, mas a favor de uma boa reforma.

O documento de consulta apresenta como objectivos uma melhor garantia da liberdade de associação e dos direitos e interesses legítimos das associações, procurando simultaneamente promover o seu desenvolvimento ordenado e sustentável.

Parece-me igualmente razoável simplificar procedimentos actualmente repartidos por diferentes serviços e concentrar na Direcção dos Serviços de Identificação (DSI) competências relativas à constituição, registo e fiscalização das associações.

Menos burocracia, procedimentos mais claros e informação actualizada podem beneficiar tanto a Administração como as próprias associações. Mas estamos perante mais do que uma reorganização administrativa.

A DSI passará a dispor de poderes mais amplos sobre o funcionamento das associações. Poderá solicitar informações, determinar a sanação de irregularidades e, nas circunstâncias previstas no novo regime, decidir a extinção de uma associação. Importa, contudo, distinguir situações diferentes.

Perante determinadas irregularidades — como a falta de eleição ou designação de novos titulares dos órgãos ou a não realização da assembleia geral para aprovação das contas — está previsto um mecanismo de sanação. A associação será notificada e terá oportunidade de regularizar a situação antes de uma eventual extinção.

Regularizar não significa necessariamente extinguir. E uma boa lei deve saber distinguir um erro ou uma situação corrigível de uma realidade em que uma associação deixou efectivamente de funcionar.

Doze mil associações, realidades diferentes

Uma associação que organiza regularmente actividades para centenas de pessoas, um pequeno clube recreativo, uma associação de moradores, uma organização profissional, uma colectividade cultural e uma associação que deixou de funcionar há vinte anos podem ter a mesma natureza jurídica. Mas não representam a mesma realidade.

Uma legislação destinada a organizar mais de 12 mil associações deverá, tanto quanto possível, saber reconhecer essas diferenças. Resolver a situação das associações que apenas sobrevivem no papel é compreensível. Exigir a actualização dos órgãos sociais, o cumprimento dos estatutos e maior transparência também o é.

Mas modernizar não pode significar apenas fiscalizar mais. Uma verdadeira modernização mede-se também pela simplicidade dos procedimentos, pela clareza das regras, pela proporcionalidade das obrigações e pela segurança proporcionada a quem procura cumpri-las.

Vejo ainda uma possível vantagem nesta actualização do universo associativo, embora não decorra necessariamente da proposta actualmente em consulta. Saber com maior rigor quais são as associações que efectivamente funcionam poderá ajudar, no futuro, a tornar mais justa e criteriosa a atribuição de subsídios e outros apoios públicos.

Os recursos disponíveis não são ilimitados. Parece-me razoável que a actividade efectiva, a regularidade do funcionamento, o interesse dos projectos, as pessoas realmente beneficiadas e a boa utilização dos apoios anteriormente recebidos possam ajudar a orientar a aplicação das verbas públicas.

Não se trata de premiar associações grandes e esquecer as pequenas. Uma pequena colectividade pode realizar um trabalho extraordinariamente útil para um bairro, para jovens, para uma modalidade desportiva ou para preservar uma tradição cultural.

Trata-se de conhecer melhor a realidade para decidir melhor. Uma melhor organização do universo associativo poderá servir não apenas para fiscalizar melhor, mas também para apoiar melhor.

Segurança nacional

Há outra dimensão da reforma que não deve ser ignorada.

Macau é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China e a sua realidade deve ser compreendida dentro do quadro constitucional do País e num contexto internacional bastante diferente daquele em que o actual regime das associações foi concebido.

A segurança nacional tornou-se uma preocupação cada vez mais presente num mundo marcado por maior competição geopolítica e novas formas de interferência. É compreensível, por isso, que esta dimensão esteja também presente na revisão do enquadramento jurídico das associações da RAEM.

A proposta prevê a intervenção da Comissão de Defesa da Segurança do Estado em determinadas situações relacionadas com a constituição ou extinção de associações.

A salvaguarda da segurança nacional é uma responsabilidade fundamental da RAEM e não questiono a necessidade de mecanismos adequados quando esteja efectivamente em causa essa segurança. Também não vejo a liberdade de associação e a segurança nacional como princípios necessariamente opostos.

O importante será que as regras sejam claras e proporcionais, para que os dirigentes compreendam as suas responsabilidades e as associações que actuam legitimamente possam continuar a desenvolver normalmente as suas actividades.

Uma associação política por identificar

O documento contém ainda uma particularidade que talvez possa ser esclarecida durante a consulta pública.
O Governo refere a existência de uma associação política constituída antes da entrada em vigor da Lei n.º 2/99/M, prevendo para ela um regime transitório que permita a sua manutenção. O documento não identifica essa associação.

Não considero esta uma questão central da reforma. Mas, uma vez que a sua existência justifica uma solução específica no novo regime, parece-me natural perguntar de que associação se trata.

É também para isto que serve uma consulta pública: esclarecer dúvidas, ouvir preocupações e permitir que a sociedade compreenda melhor uma legislação que terá consequências para milhares de organizações e para muitas mais pessoas.

Reformar para fortalecer

Macau mudou profundamente e o seu movimento associativo mudou com ele. Passar de menos de duas mil para mais de 12 mil associações justifica naturalmente uma revisão do respectivo enquadramento jurídico.

Mas os números não contam toda a história. Por detrás deles estão associações com décadas de actividade e forte implantação social, pequenos clubes, organizações que trabalham com jovens, colectividades culturais, associações profissionais, entidades que prestam serviços à comunidade e também associações que há muito deixaram de funcionar.

Por detrás dos números estão, sobretudo, pessoas. Uma boa reforma deverá saber distinguir estas realidades: regular melhor as associações que efectivamente funcionam, dar oportunidade de regularização às que apresentam situações sanáveis, resolver o problema das que permanecem apenas no registo e evitar encargos desnecessários para quem procura cumprir normalmente as suas obrigações.

Se uma informação mais rigorosa sobre a actividade efectiva das associações puder também contribuir, no futuro, para uma utilização mais justa e eficaz dos apoios públicos, haverá aí um benefício adicional para toda a comunidade.

As associações tiveram um papel importante na construção da sociedade de Macau — no desporto, na cultura, na educação, na juventude, na solidariedade e em tantas outras áreas. A reforma não deve apagar essa história. Deve ajudar a dar-lhe continuidade em condições mais claras, responsáveis e adequadas ao Macau de hoje.

É por isso que considero esta reforma necessária. E é precisamente por considerá-la necessária que vale a pena discuti-la bem. Há, contudo, uma segunda dimensão que merece reflexão própria.

Muitas associações de Macau mantêm relações com organizações do Interior da China, de Hong Kong e do exterior, algumas através de filiações regionais e internacionais. As novas obrigações previstas nesta matéria levantam questões diferentes: transparência, cumprimento de regras, financiamento externo, segurança nacional e articulação com os serviços públicos.

Será esse o tema da próxima reflexão.

* Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional
(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

13 Ago 2026

Todos os dias morrem na estrada

Os condutores portugueses são considerados dos piores da Europa. As razões são múltiplas. Desde Janeiro, já morreram nas estradas portuguesas 300 pessoas. Os feridos são milhares. Estamos perante uma média de mais de uma pessoa que morre por dia nas estradas nacionais e autoestradas.

Este número é confrangedor porque os acidentes são diários e incluem motociclos. A GNR leva a cabo assiduamente campanhas de sensibilização e informação sobre o cumprimento do código da estrada. De nada servem essas campanhas. O mal tem início nas escolas de condução e nas mafias organizadas que conseguem vender licenças de condução sem que os condutores realizem exames. As escolas de condução, com excepção para a do Automóvel Clube de Portugal, limitam-se a levar os instruendos a percorrer as ruas onde já sabem que se vai realizar o exame.

Os futuros condutores tinham de aprender a controlar um carro a uma velocidade igual à que no futuro lhes é permitida. Numa auto-estrada a 120 km/h, em vias rápidas a 80 e a 100 km/h, em caso de problema repentino numa auto-estrada, 80 por cento dos condutores não sabem reduzir de 120 para 40 km/h manuseando competentemente a caixa de velocidades. E muito menos, não sabem que numa curva não se trava. A travagem é feita antes da curva e ao longo de uma curva tem de se manter uma aceleração controlada. Nada é ensinado em piso molhado. Os instruendos na sua maioria não sabem o que é um water planning e que, nesse caso, nem pensar pôr o pé no travão.

O que é que aprendem nas escolas de condução se depois aquilo a que assistimos é chocante. Raramente se vê um automobilista fazer pisca-pisca quando muda de faixa de rodagem ou vai virar à esquerda ou à direita. Constantemente observa-se um grande número de condutores a ultrapassar outro veículo onde na estrada encontra-se um risco contínuo, que proíbe terminantemente que seja pisado. Condutores que ultrapassam em lombas de estrada sem qualquer visão do que o trânsito contrário poderá trazer. Condutores que não fazem a mínima ideia de que nos semáforos o sinal amarelo é para abrandar e parar. O que vemos é centenas de condutores portugueses a passar o sinal vermelho.

A maioria dos condutores faz uma viagem e não se preocupa com a revisão do carro ou a calibragem dos pneus. Como é possível que seja concedida a carta de condução a um cidadão, sem que a entrega do documentos apenas seja concedida quando o futuro condutor apresentar o registo do carro que adquiriu e o respectivo seguro? Em muitas operações stop da GNR os militares detectam dezenas de condutores sem seguro obrigatório. E a falta de civismo leva muitos condutores a percorrer Portugal sem carta de condução.

Um outro aspecto que tem provocado dezenas de acidentes são os condutores que numa auto-estrada com três faixas de rodagem não respeitam o código e ao rolarem em velocidade reduzida serem obrigados a conduzir na faixa da direita. Não, antes pelo contrário, vão a 60 km/h na faixa do meio e a 80 km/h na faixa da esquerda. Mas, foi isto que aprenderam nas escolas de condução? Não acreditamos ou, então, os instrutores não mentalizaram os instruendos de que esse comportamento na estrada é grave e perigoso.

Por outro lado, temos agora incidentes graves nas ruas de Lisboa e Porto, porque a violência ao volante tem aumentado de uma maneira execrável. Condutores que apitam por tudo e nada. Ofendem o condutor da frente. Se se trata de uma mulher ao volante, o caso é indigno. Vociferam os impropérios mais rudes e insultam as condutoras com os palavrões mais graves. Esses, são os tais 80 por cento que nunca deviam ter tido carta de condução.

E mais: a tristeza de uma família que teve conhecimento que o seu idoso ou a sua criança foram atropelados numa passadeira de peões com a agravante de o condutor ter fugido. Há efectivamente razão para afirmar que em Portugal se conduz muito mal. E temos ainda a inconsciência de certos pais novos-ricos que ao menino de 21 anos oferecem um Ferrari e depois choram no velório porque o menino desfez o Ferrari contra uma árvore.

Não podemos deixar ainda de salientar o desrespeito da maioria dos condutores pelos ciclistas. O código da estrada obriga que a ultrapassagem a um ciclista seja efectuada com uma distância de 1,5 metros. Quase ninguém cumpre e os acidentes mortais de ciclistas têm sido uma constante lamentável.

Por seu turno, o maior “crime” que se verifica na condução automóvel actualmente são os condutores que vão ao volante a falar ao telemóvel ou a ler e a enviar mensagens. Essa distração tem provocado um número incalculável de acidentes.

As autoridades ligadas ao trânsito rodoviário têm a obrigação de mudar as regras com o intuito de diminuir o número de mortes nas estradas. Condutor que passa com o sinal vermelho; que não respeita uma passadeira de peões, atropela e foge; que ultrapassa numa estrada onde existe risco contínuo e os que rolam na faixa esquerda de uma auto-estrada a velocidade reduzida, a todos estes, tem de passar a ser-lhe retirada a carta de condução para sempre. Há mínimos exigíveis para se mudar o caos verificado nas nossas estradas e os agentes da Brigada de Trânsito não podem condescender em nada relativamente a condutores que apenas deviam andar de trotineta…

10 Ago 2026

Clima: Recurso natural em perigo

O clima pode ser considerado como um recurso natural perpétuo e inesgotável, que nos disponibiliza energia e condições para a vida, embora sujeito a mudanças devidas a causas naturais e humanas. Nada podemos fazer quanto às primeiras, pois não está nas nossas mãos alterá-las.

Assim, por exemplo, não podemos influenciar os ciclos de Milankovich, que consistem em alterações na órbita da Terra com periodicidades de milhares de anos. Estes ciclos estão na base da alternância dos períodos glaciares e interglaciares. Atualmente estamos num período interglaciar e há cientistas que apontam para a probabilidade de a próxima glaciação sofrer atraso devido ao aquecimento global causado pelos gases de efeito de estufa (GEE).

Esse atraso poderá atingir entre 50 000 e 100 000 anos. Estatisticamente deveria começar aproximadamente dentro de 10.000 anos. Segundo artigos científicos publicados nas revistas “Nature” e “Science”, modelos climáticos revelam que a concentração dos GEE alterou o ciclo natural climático da Terra.

A concentração na atmosfera destes gases tem aumentado constantemente desde o início da era industrial. Para ilustrar esta afirmação basta relembrar que a concentração do dióxido de carbono, um dos principais GEE, aumentou, desde o início da revolução industrial (1750) até 2025, de aproximadamente de 280 partes por milhão (ppm) para 427 ppm.

Além dos ciclos de Milankovich contam-se como as principais causas naturais das mudanças do clima, a atividade solar, as erupções vulcânicas, a deriva dos continentes e fenómenos designados por teleconexões, entre os quais o “El Niño” e “La Niña”. No que se refere à atividade solar há a considerar ciclos de aproximadamente 11 anos em que a intensidade da radiação sofre alterações significativas.

A influência destas variações sobre o tempo e o clima é praticamente desprezável, o que já não acontece em relação ao campo magnético da Terra, que sofre alterações significativas. As causas humanas das alterações climáticas são bem evidentes, das quais sobressaem o uso desenfreado de combustíveis fósseis, a desflorestação, a agropecuária intensiva, a poluição e a urbanização. A urbanização em grande escala altera localmente o clima, criando ilhas de calor.

O impacto ecológico de uma pequeníssima parte da biosfera, constituída pela humanidade, é tão intenso que há uma corrente científica que advoga que já entrámos no Antropoceno, ou Época dos Humanos. Uma das consequências consiste no degelo de parte das calotas polares, o que contribui para o aumento do nível do mar e a diminuição do poder refletor (albedo) da Terra. A fusão do gelo marinho também tem como consequência a diminuição do albedo e tem forte impacto na biodiversidade marinha.

Entretanto, o aumento da população mundial e, consequentemente, o consumo de recursos naturais, faz com que os sistemas socioecológicos sofram degradação cada vez mais acelerada. Segundo o “Stockolm Resilience Centre”, um prestigiado centro de investigação sobre a sustentabilidade e resiliência de sistemas socioecológicos, a pressão humana impõe riscos de segurança que incidem sobre nove processos críticos globais que regulam a estabilidade e a resiliência do nosso planeta.

Esta instituição desenvolveu o “Modelo das Fronteiras Planetárias”, através do qual se pretende monitorizar os 9 sistemas vitais que garantem a estabilidade da vida na Terra. Entende-se por fronteiras planetárias os limites científicos quantificáveis que não devem ser ultrapassados de modo a garantir que o nosso planeta permaneça estável, resiliente e habitável.

Segundo o relatório “Planetary Health Check”, publicado em 2025, os 9 sistemas vitais da Terra são os seguintes: Alterações Climáticas, Integridade da Biosfera, Alteração do Sistema Terrestre, Uso de Água Doce, Fluxos Biogeoquímicos, Introdução de Novas Entidades, Acidificação dos Oceanos, Carga de Aerossóis Atmosféricos e Destruição da Camada de Ozono. Destes nove sistemas apenas os dois últimos ainda não ultrapassaram o limite operacional, mas encontram-se em perigo.

O clima, como recurso natural, deve ser tratado com o cuidado necessário para a preservação das suas características. Veja-se o exemplo do combate à destruição da camada de ozono, que nos protege das consequências nefastas da ação de parte da radiação ultravioleta. Graças às medidas preconizadas no Protocolo de Montreal (1987), a deterioração da camada de ozono foi refreada, como resultado da proibição do fabrico e uso de “sprays” contendo clorofluorcarbonetos.

Este exemplo poderá servir de incentivo para que se apliquem as recomendações preconizadas no Protocolo de Quioto (2005) e Acordo de Paris (2016) para que se tomem medidas mais enérgicas para combater a possibilidade de os 7 sistemas que já ultrapassaram o limite operacional seguro, passarem ao patamar seguinte e atingirem o ponto de não retorno. Infelizmente, forças políticas retrógradas têm contribuído para travar as medidas preconizadas nos vários acordos e protocolos no âmbito das Nações Unidas, o que poderá causar graves consequências no que se refere à deterioração do recurso natural mais importante, o Clima.

7 Ago 2026

O canto da Europa desencantada (II)

“The most radical revolutionary will become a conservative the day after the revolution.”
Hannah Arendt, On Revolution (1963)

 

Quando a ameaça soviética desapareceu, acolheram com entusiasmo a proclamação que vinha dos Estados Unidos, mas que germinava em ideias filosóficas profundamente europeias de que a convicção de que a história tinha terminado, que não era necessário afirmar-se violentamente para satisfazer interesses e que a cooperação dominante na Europa nos últimos 75 anos podia ser eterna e universal.

A exclusão das heranças incómodas da história é visível na tentativa insistente de definir uma cultura e identidade europeias como se existisse uma única. É uma selecção histórica feita a golpes de machado, escolhendo apenas o que convém para legitimar a aspiração à unidade.

Esta operação é natural para um Estado ou império completo, mas muito menos para uma construção em curso que nunca será concluída. Veja-se a Marca do Património Europeu, atribuída pela Comissão a 38 locais que simbolizam os ideais e a história europeia. Entre eles está o Promontório de Sagres, de onde no século XV o príncipe Henrique, o Navegador, estudou técnicas de navegação que impulsionaram a expansão colonial portuguesa e o domínio europeu sobre o mundo.

No site da Comissão, Sagres é celebrado como o “lugar-chave da era das descobertas que marcou a expansão da cultura, ciência, exploração e comércio europeus”, uma descrição justa, mas selectiva. Outro exemplo são as notas de euro, sem rostos e decoradas com símbolos arquitectónicos neutros, porque o herói de uns pode ser o tirano de outros, e o combatente pela liberdade de uns o terrorista de outros.

Ou ainda a página dos pioneiros da UE, onde Winston Churchill surge ao lado de Schuman, De Gasperi e Spaak apenas por ter pronunciado a expressão “United States of Europe”, ignorando que no discurso de Zurique de 1946 Churchill mantinha distância, equiparando essa ideia à Commonwealth, que Londres ainda via como instrumento para preservar o seu estatuto mundial e não europeu. Não se pode pegar no Parténon, em Aristóteles, em Jesus Cristo, no Império Romano, em Montesquieu, Kant ou Einstein para proclamar uma cultura europeia comum. Como avisava Hannah Arendt “Já não podemos permitir‑ nos pegar apenas no que havia de bom no passado e dizer simplesmente que essa é a nossa herança, ignorar a parte má e considerá-‑ la apenas um fardo que o tempo relegará no esquecimento”.

Ignorar a história conduz a narrativas aberrantes, como a ideia difundida de que com a queda do Muro de Berlim a Europa se reunificou, como se alguma vez tivesse sido unificada algo que nem Roma, nem o Sacro Império, nem Carlos V, nem Napoleão, nem Hitler conseguiram. Ou a facilidade com que se considera europeia, válida para todos, a história da parte ocidental desde 1945, como se a parte oriental tivesse apenas de recuperar o tempo perdido durante a catividade soviética. Um mito construído sobre estas bases transforma-‑ se numa lenda de si próprio. Como escreve o historiador Mark Mazower ao sondar o coração de trevas do continente “A Europa da União Europeia pode ser uma promessa ou uma desilusão, mas não é uma realidade”.

A ruptura com a história e a sua reconstrução artificial não é a única distorção presente no mito fundador da União Europeia. Muitas vezes raciocina-‑ se como se a UE funcionasse num vazio, quando na verdade os seus destinos sempre foram moldados pelas influências das grandes potências. Isso é visível desde o início. Costuma atribuir‑ -se a integração europeia ao impulso voluntário e desinteressado de políticos como Robert Schuman e Jean Monnet, mas o impulso decisivo veio dos Estados Unidos. No final da guerra, Washington não tinha qualquer intenção de dominar com mão-de-ferro a metade do continente que ocupava pois custava demasiado e contrariava o espírito americano, avesso ao império.

A sua estratégia, porém, exigia impedir o surgimento na Europa de um novo hegemon. A administração Truman traduziu esse imperativo numa táctica de reerguer os Estados ocidentais prostrados, convencida de que um crescimento económico robusto impediria a difusão de ideologias subversivas e de revanchismos, enquanto a defesa militar ficaria a cargo do Pentágono através da NATO. Este esquema servia tanto para conter a Alemanha, preocupação imediata do pós‑guerra, como para enfrentar a União Soviética, que só a partir de 1948 e com urgência desde a guerra da Coreia em 1950 se revelou ameaça estratégica.

Independentemente de quem fosse o inimigo, a ideia mais popular na América para desarmar as rivalidades intra-europeias era obrigar as nações locais a federar‑se. Até na sociedade civil era forte o entusiasmo pelos “Estados Unidos da Europa”, promovido pelo influente senador James William Fulbright.

Embora ninguém no governo americano pensasse seriamente numa federação europeia, o espírito era claro de que os europeus derrotados deviam partilhar recursos económicos para reconstruir o continente, começando por franceses e alemães. Também Paris falava de cooperação, mas com o objectivo de se apropriar dos recursos industriais da Ruhr para financiar a sua recuperação e retirar à Alemanha os meios com que, acreditava após três guerras em setenta anos, voltaria a atacá-la.

Fala‑se muitas vezes da súbita conversão de Jean Monnet ao europeísmo, chegando a afirmar‑se que foi ele quem convenceu os americanos da necessidade de uma união europeia. A verdade é o contrário e Monnet percebeu os desígnios de Washington graças às suas amizades na capital americana. John J. McCloy, seu íntimo e vice‑ -rei dos Estados Unidos na Alemanha ocupada, explicou‑lhe que a única forma de legitimar a aspiração francesa à Ruhr era criar uma autoridade supranacional que gerisse também as indústrias de França e do Benelux.

Um memorando interno do Departamento de Estado de 1949 é emblemático desta mentalidade estratégica ao dizer que “a contínua intransigência francesa em relação ao povo alemão favoreceria os desígnios soviéticos”.

Assim nasceu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, progenitora da UE. Um documento oficial americano anotou mais tarde que “um dos aspectos mais constantes da política externa dos Estados Unidos no pós‑ -guerra foi o forte apoio à integração política e económica da Europa. A integração europeia no quadro de uma comunidade atlântica em expansão permanece a pedra angular da sua política para a Europa Ocidental”.

Em 1949, o administrador do Plano Marshall, Paul Hoffman, avisou de forma ameaçadora que a generosidade americana dependia dos planos de federação. Em 1950, os Estados Unidos forçaram a Organização para a Cooperação Económica Europeia a reduzir para metade os direitos aduaneiros e a criar a União Europeia dos Pagamentos, destinando 25% do Plano Marshall desse ano a esses fins. Washington ditou as primeiras linhas, não todo o texto.

Impôs a ideia de interdependência, não os passos seguintes, embora os visse com benevolência. Império pela integração, como sintetizou o historiador Geir Lundestad. Os Estados Unidos induziram a fé no economicismo, a convicção de que o bem-‑ estar devia ser um processo histórico imparável. Encontraram ouvidos mais do que dispostos a acolher esse credo. Mas tinham um motivo estratégico preciso de que o crescimento era a métrica da comparação com o bloco comunista. Para os europeus, era apenas o salvo‑ -conduto para se acomodarem fora da história.

Todo o mito identifica uma fortaleza, o bastião que protege a colectividade e cria o “outro” de quem se distingue. O problema do mito europeísta é que a fortaleza e o outro coincidem, porque a geopolítica europeia gira em torno da questão alemã e o seu espaço é simultaneamente o centro dos equilíbrios do continente e a fonte dos seus desequilíbrios.

Demasiado forte para não gerar contra-golpes, demasiado fraco para dominar a Europa. A integração europeia nasceu para desarmar a Alemanha, reflexo de uma germanofobia difundida. Mas é impossível construir um mito sobre isso pois seria uma demonização inútil. Por tal razão se expurga este dado fundamental, tal como se depuram as origens americanas do projecto. No imediato pós‑ -guerra, todas as potências queriam desmembrar a Alemanha.

Os americanos tinham o plano Morgenthau para reduzir o país a um estado pastoral. Churchill piscava o olho ao divide et impera e disse em Zurique, em 1946, que os antigos Estados alemães poderiam ocupar lugar individual nos Estados Unidos da Europa. De Gaulle reagiu dizendo que uma Europa unida não seria senão uma Alemanha alargada. Monnet queria devolver o espaço alemão ao estado gasoso anterior à unificação. Apenas a rivalidade entre soviéticos e americanos impulsionou a federação das zonas ocupadas.

6 Ago 2026

Casamentos tardios: alegrias e tristezas (III)

Como mencionámos no artigo publicado há duas semanas, com o aumento da esperança de vida, que actualmente se situa entre os 83 e os 87 anos, e com a crescente abertura dos costumes sociais, os segundos casamentos entre seniores estão gradualmente a tornar-se uma importante opção para encontrar apoio emocional e maior autonomia no ocaso da vida. No entanto, estes casamentos tardios não implicam apenas um reinício da vida afectiva; envolvem questões sociais complexas como, reestruturação familiar, divisão de bens, alterações nos direitos de herança e ajustes nas pensões de reforma.

Embora estes casamentos tragam renovação emocional e conforto aos idosos, escondem disputas familiares e riscos financeiros que não podem ser ignorados. Em geral, as pessoas acumulam na primeira metade das suas vidas bens pessoais como propriedades, poupanças, acções e fundos de previdência, que representam a riqueza conquistada com o seu trabalho. A divisão de bens que resulta da mudança de estado civil é muitas vezes irreversível, afectando nesta fase do percurso a sua qualidade de vida.

Para além das questões relacionadas com a divisão de bens, os segundos casamentos tardios têm uma grande probabilidade de desencadear conflitos entre pais e filhos. Legalmente, uma vez concluída a cerimónia de casamento, o novo parceiro passa a ser o principal beneficiário da herança. Isto significa que os bens da família, que previamente iriam integralmente para os descendentes, passam agora em grande parte para um estranho, o que conduz potencialmente a conflitos entre pais e filhos e a disputas familiares.

Confrontados com a dualidade dos casamentos tardios—”satisfação emocional, mas também preocupações financeiras”— os idosos têm de se libertar do pensamento binário. Não devem agarrar-se às restrições tradicionais e abdicar da felicidade, nem procurar cegamente o amor negligenciando a gestão de riscos. Aqueles que ainda conservam o primeiro casamento deverão reestruturar a comunicação com os parceiros bem como a dinâmica da relação, reacender a chama emocional e o companheirismo para combater desequilíbrios de longa data e reduzir a necessidade do divórcio e de voltarem a casar numa fase avançada das suas vidas. No entanto, para aqueles que estão em casamentos completamente desfeitos, que já não podem ser salvos, o planeamento financeiro e jurídico será a chave para um segundo casamento feliz.

Um planeamento sucessório sólido passa pela definição legal antecipada e clara dos direitos de cada membro da família. Em primeiro lugar, os seniores podem participar activamente em seminários sobre bens matrimoniais e planeamento da reforma, consultar advogados e desenvolver planos com base nos seus próprios atcivos. Fazendo testamentos, criando fundos fiduciários e designando beneficiários de seguros e bens financeiros, podem definir claramente quem serão os seus herdeiros e a parte que caberá a cada um, evitando a saída de activos do seio da família e litígios decorrentes da herança.

De todos os documentos necessários o testamento é o mais importante. As leis da China continental e de Macau incluem disposições para uma “porção reservada” (特留份), o que significa que uma parte do património do falecido será herdada pela sua família imediata. Se uma pessoa idosa quiser doar os seus bens a alguém que não é do seu sangue, tem de deixar essa vontade por escrito em testamento. Além disso, redigir um testamento implica fazer um inventário de todos os bens, o que ajuda a pessoa a rever sistematicamente o seu património evitando assim esquecer-se de algo menos evidente como os investimentos no Fundo de Previdência Obrigatório e apólices de seguro a longo prazo.

Em segundo lugar, a comunicação familiar transparente é a chave para a resolução de conflitos. O idoso pode informar o seu antigo cônjuge, o actual e os filhos do que planeia deixar em testamento, estipulando claramente os direitos de cada um: definindo que os filhos herdam os bens principais, assegurando o direito do novo parceiro à habitação e à segurança financeira básica e clarificando os direitos legais do ex-cônjuge. Desta forma estabelece-se um sistema transparente que pode eliminar as suspeitas e o antagonismo entre os membros da família, resolvendo fundamentalmente a confusão sobre direitos â herança e os conflitos de interesses que surgem com os segundos casamentos.

Pode simultaneamente, deixar por escrito instruções relativas a cuidados de saúde e autorizações, estipulando a sua vontade relativa a tratamentos e cuidados, bem como à gestão das despesas médicas, obtendo total autonomia na derradeira fase da sua vida. Em resumo, o crescimento dos segundos casamentos em idosos reflecte progresso social, valores que evoluíram e melhoria da qualidade de vida.

O divórcio em idades avançadas demonstra a coragem de abandonar relações insatisfatórias e os segundos casamentos representam o direito de encontrar a felicidade nas últimas etapas da vida; quer um quer outro merecem respeito e compreensão. A alegria e a felicidade para os idosos nunca passa por sentimentos românticos, mas sim pela harmonia espiritual e pela estabilidade financeira. Os seniores, que corajosamente procuram o amor, têm de manter a racionalidade em termos financeiros e a consciência jurídica. Só com o apoio das ferramentas legais, planeamento financeiro claro e comunicação familiar transparente, podem ser evitadas as disputas entre as pessoas que lhes são mais chegadas. Desta forma, poderão obter uma felicidade serena e gratificante na segunda metade das suas vidas.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

4 Ago 2026

Descontrolados

A palavra que mais se ouviu na semana passada foi “descontrolados”. Incêndios descontrolados por vários locais do país. O inferno das chamas e o sofrimento das populações é uma realidade anual assim que chega a época do calor. Bombeiros são aos milhares e não chegam para as encomendas. E Portugal tem bombeiros voluntários, o que não acontece em Espanha e França.

Imaginem se não tivéssemos esses soldados da paz que arriscam a vida somente por solidariedade. Existem as mais diversas instituições ligadas a catástrofes, mas as relacionadas com as nossas florestas andam o Outono, Inverno e Primavera a ver futebol. O que fazem para abrir caminhos na floresta? O que fazem para organizar a limpeza de terrenos? O que fazem para organizar o apoio logístico na época de incêndios? O que entende a Protecção Civil por meios adequados a facilitar o trabalho dos bombeiros e da GNR, nomeadamente no âmbito das telecomunicações?

O que se vê são hectares a serem dizimados por fogos completamente descontrolados. Muitos meios aéreos a não poderem actuar por falta de visibilidade. Casas a arder e pessoas desesperadas com uma mangueira ou um balde na mão como se isso fosse apagar chamas que chegam a atingir 10 metros de altura. Animais a morrer queimados. Plantações agrícolas que já foram. Bombeiros deitados no chão com uma sandes e uma garrafa de água oferecido por um morador. Estradas e autoestradas cortadas.

Um amigo nosso, com 83 anos, médico que cumpriu serviço militar numa das ex-colónias, vivia na sua bela quinta em Mirandela, uma pérola com mais de 300 anos que lhe ficou dos antepassados. A quinta tinha uma moradia maravilhosa, uma adega onde se produzia um vinho de excelência, um anexo onde se fabricava artesanalmente alheiras e outros enchidos, uma vinha excepcional, todas as árvores de fruto, oliveiras e um galinheiro com vários animais. O fogo chegou à quinta e os bombeiros não puderam passar. As chamas devoraram tudo. Ficou sem nada. Ligou-nos de casa de um irmão a contar o sucedido e a dizer que tinha morrido…

Os incêndios têm de ter um combate importante: a prisão por muitos anos de todos os pirómanos que são apanhados pelas autoridades e apresentados à justiça. O crime de fogo posto é hediondo e não merece qualquer perdão. As populações e as autoridades sabem que um incêndio que tem início às três horas da madrugada, com alguma humidade no ar, é um acto de mão criminosa.

A saga dos incêndios deixa milhares de portugueses em pânico, em dificuldades de alojamento e os mais idosos que são evacuados dos lares perdem alguns anos de vida que lhes restavam. A grande maioria dos incêndios registados em Portugal teve mão criminosa. É um facto real. O Governo tem de facilitar mais meios e melhor salário aos guardas florestais. Eles têm de trabalhar de noite e esse trabalho deve ser bem pago. Sem uma vigilância constante e profícua nunca mais terminará o flagelo dos fogos.

A lista de localidades atingidas pelos incêndios é quase inacreditável, mas o sofrimento das gentes esteve patente em Concelhos como Gouveia, Paredes, Torre de Moncorvo, Póvoa de Varzim, Vila Nova de Gaia, Porto de Mós, Chaves, Celorico da Beira, Penafiel, Pombal, Valpaços, Marinha Grande, Vouzela, Viseu, Pedrógão Grande, Ansião, Aveiro, Leiria, Guarda, Almeirim, Mirandela, Bragança, Vila Verde e tantos, tantos outros. É impressionante.

Que o Governo não cruze os braços e que o ministro da tutela deixe lá os atrelados e as piscinas e procure uma coordenação futura de modo a que o país não fique sem florestas e que não hajam mais portugueses a ficar apenas com as calças e as camisas…

3 Ago 2026

A propósito do mundial

O Mundial, realizado de quatro em quatro anos, chegou ao fim, e, em Macau, a paixão despertada pelo futebol já começa a esfriar. No entanto, depois de vários dias a ver partidas de futebol, percebemos que para além do prazer de assistir a um jogo, existem muitos aspectos a considerar.

A “Mão de Deus” irá sempre aparecer. Para evitar golos marcados pelas “Mãos de Deus” e assegurar que os jogos são equilibrados e justos, o sistema do VAR passou a ser implementado no Mundial. Embora exista ainda alguma controvérsia em torno das decisões, no geral, os jogadores têm de se submeter à tecnologia e ao julgamento dos árbitros. No entanto, o Presidente dos Estados Unidos chegou ao ponto de telefonar ao Presidente da FIFA para adiar a suspensão de um jogador americano que tinha visto o cartão vermelho, para que pudesse jogar contra a Bélgica. Se nesse jogo a selecção americana tivesse vencido, poder-se-ia dizer que Donald Trump também tinha usado a “Mão de Deus”. No entanto, a intervenção humana não pode, em última análise, superar a verdadeira mão de Deus. Perante a verdade e a justiça, a vitória está sempre na mão divina, e todas as acções que violem a justiça estão destinadas a ser derrotadas.

Actualmente, existem apenas dois países (a Índia e a China) com mais de mil milhões de habitantes. Embora a Índia tenha sido uma colónia britânica, não é especialista em futebol. Naquele país, o cricket foi sempre o desporto mais popular e o que gera mais receitas. Devido à ausência de um planeamento a longo prazo que aposte no crescimento do futebol, desde as escolas às ligas profissionais, e embora o seu desempenho futebolístico tenha melhorado nos últimos anos, a Índia tem ainda um longo caminho a percorrer antes de se vir a qualificar para um Mundial. Na verdade, a Índia qualificou-se por defeito em 1950, depois de várias equipas se terem retirado, mas a Federação Indiana de Futebol também acabou por tirar a equipa da competição para apostar nas Olimpíadas. Não foi um pouco lamentável?

A China, que se diz ter sido o berço do “futebol primitivo”, só viu a sua selecção ser qualificada para o Mundial uma vez, em 2022, perdendo os três jogos da fase de grupos, sem marcar qualquer golo. Embora o seleccionador nacional tenha manifestado a vontade de a equipa se vir a tornar em 2030 líder do futebol asiático, e o Governo tenha estabelecido o objectivo do país se tornar uma potência do futebol em 2050, sem reformas sistémicas e sem a erradicação da corrupção, mesmo que se encontre um jogador excepcionalmente talentoso no meio de cem milhões de pessoas, a realidade não pode ser mudada.

A Rússia foi outro grande país ausente do Mundial, não é o mais populoso, mas o maior em área geográfica. O futebol russo não é mau e a sua selecção qualificou-se várias vezes para o Mundial. No entanto, nos últimos anos, o futebol russo tem falhado a presença no Mundial e nas Olimpíadas devido à “operação militar especial” contra a Ucrânia desencadeada há quatro anos.

Se a vitória e a derrota forem as únicas medidas do valor, então das 48 equipas participantes só uma tem valor, a que vence a competição. Mas o desportivismo exibido em campo é ainda mais importante do que a possibilidade de perder ou de ganhar. As equipas de Cabo Verde, do Japão e da Noruega foram eliminadas, mas as suas actuações conquistaram os corações dos adeptos e de quem as viu jogar. Ver jogadores de ambos os lados reunir-se para rezar no final da partida, um símbolo de amizade e de paz, deveria ser um motivo de reflexão para quem luta incansavelmente pelos seus próprios interesses.

Cabo Verde, um nome familiar para muitas pessoas de Macau, é um país lusófono que tem estado presente em várias actividades desta cidade. O seu PIB per capita é inferior ao de Macau, mas o espírito de equipa que revelou neste Mundial foi o pilar dos seus excelentes resultados. O Japão almeja ganhar um Mundial e a China luta para ter a melhor equipa asiática em 2030. Este espírito visionário merece servir de exemplo, e as suas práticas, independentemente do sucesso ou do fracasso, merecem ser usadas como referência em Macau.

31 Jul 2026