Sexanálise VozesAs mulheres precisam de ser cuidadas e os homens precisam de ser desafiados? Tânia dos Santos - 4 Nov 2026 Anda a circular nas redes sociais uma ideia que não é nova: a de que homens e mulheres não amam da mesma maneira porque têm biologias distintas. Para explicar os desencontros amorosos, já não se recorre apenas às diferenças de personalidade ou às convenções sociais; fala-se de hormonas e de receptores cerebrais. A intimidade ganha uma explicação bioquímica e a diferença entre os sexos passa a parecer inevitável. Segundo esta versão, as mulheres criariam vínculos através da oxitocina, associada ao cuidado, à proximidade e à sensação de segurança, enquanto os homens dependeriam mais da vasopressina, que estaria envolvida na formação de vínculos através da lealdade, da protecção e da superação de desafios partilhados. A conclusão é que ela precisa de se sentir cuidada e ele de ter alguém com quem enfrentar o mundo. A ideia tem encontrado espaço em conteúdos de aconselhamento amoroso. Tenho ouvido podcasts e reels que apresentam a vinculação masculina como um processo de construção de lealdade através de desafios e experiências partilhadas, contrastando-o com uma vinculação feminina sobretudo associada à oxitocina e à segurança. A explicação parece simples e intuitiva. A oxitocina, a famosa “hormona do amor”, está envolvida no parto e na amamentação, mas também em diferentes aspectos da interacção social e da formação de laços. O rótulo é, aliás, discutível: promove laços com pessoas familiares, mas pode também provocar agressividade com estranhos. A vasopressina, produzida tal como a oxitocina no hipotálamo, tem funções conhecidas na regulação da água no organismo e da pressão arterial. No cérebro, participa também em processos relacionados com o reconhecimento social, a resposta ao stress e determinados comportamentos de vinculação. A investigação que tornou particularmente conhecida a relação entre estas hormonas e a vinculação romântica foi realizada em pequenos roedores que formam vínculos duradouros com os seus parceiros. Nestes animais, a oxitocina parece ter um papel mais proeminente nas fêmeas e a vasopressina nos machos, mas ambas actuam nos dois sexos e no mesmo circuito cerebral. Estes resultados abriram uma discussão importante sobre a neurobiologia da vinculação. Não demonstraram, contudo, que os homens precisam de enfrentar dificuldades para se apaixonarem, ou que as mulheres necessitam de receber cuidados para desenvolver intimidade. Entre a formação de uma preferência por um parceiro num roedor e a complexidade das relações humanas existe uma distância que não pode ser preenchida apenas com uma analogia. Nos humanos a evidência é bem mais frágil do que a narrativa sugere. Uma variante do gene do receptor da vasopressina, associada em 2008 a piores laços nos homens, não se confirmou numa tentativa de replicação com casais recém-casados, publicada em 2025, onde os efeitos significativos surgiram em sentido contrário. As experiências com oxitocina em spray nasal foram criticadas por utilizarem amostras pequenas, sendo provável que a maioria dos resultados publicados não represente efeitos reais. E quando surgem diferenças entre os sexos, dependem do contexto: numa experiência conhecida, a oxitocina fez com que homens em relações monogâmicas, mas não os solteiros, mantivessem uma distância maior de uma mulher atraente; noutra, facilitou comportamentos de aproximação social nas mulheres. Isto sugere que a hormona amplifica aquilo que o contexto torna relevante, e não que traça um destino para cada sexo. Também não é correcto imaginar a oxitocina como uma hormona exclusivamente feminina e a vasopressina como uma hormona exclusivamente masculina. Em ambos os sexos, os efeitos dependem dos receptores envolvidos, dos circuitos cerebrais, do contexto e da interacção com outras hormonas. E é neste ponto que entra a testosterona. Já ouvi nestes podcasts que esta hormona reduz ou trava a acção da oxitocina, oferecendo uma explicação adicional para a suposta dificuldade masculina em estabelecer intimidade através do cuidado e da proximidade emocional. Existe investigação sobre a influência das hormonas sexuais nos sistemas da oxitocina e da vasopressina. Mas a relação é complexa: não se pode concluir que a testosterona bloqueia a oxitocina nos homens, muito menos que os torna biologicamente menos capazes de estabelecer vínculos profundos. A questão não é negar que as hormonas influenciam o comportamento. É perceber o que estamos a fazer quando passamos de uma influência fisiológica para uma explicação geral de como homens e mulheres se vinculam. Há uma diferença entre compreender um comportamento e justificá-lo como expressão da natureza. Nem todas as pessoas têm os mesmos perfis hormonais, nem todas as mulheres procuram segurança da mesma maneira, nem todos os homens encontram intimidade através da adversidade. Quando transformamos a neurociência em aconselhamento amoroso, perde-se complexidade. A investigação procura compreender como diferentes sistemas biológicos participam no comportamento; a divulgação simplificada converte esses mecanismos em instruções sobre como devemos relacionar-nos. E essas instruções dirigem-se, sobretudo, às mulheres. Ela tem de gerir a disponibilidade, esperar, não ceder demasiado depressa, criar distância e desafio para que ele se aproxime. É curioso que a suposta força feminina, o cuidado, passe a ser algo a racionar. As mulheres não devem cuidar para serem amadas; devem tornar-se menos acessíveis para que eles se sintam mais próximos. É mais reconfortante acreditar que existe uma chave biológica para compreender o outro do que reconhecer que as pessoas aprendem a amar em condições diferentes, que transportam histórias distintas e que nem sempre sabem como transformar o desejo de proximidade numa relação segura. A biologia pode ajudar-nos a compreender a intimidade. Mas não deveria servir para determinar antecipadamente quem cuida, quem protege, quem procura segurança ou quem precisa de ser desafiado. Afinal, quando dizemos que os homens precisam de ser desafiados e as mulheres precisam de ser cuidadas, estamos a descrever a diversidade das relações humanas — ou a ensinar homens e mulheres a continuar a desempenhar os papéis que já esperávamos deles?