O namoro dos solteiros

Se uma coluna dedicada ao sexo se esquece de escrever sobre o namoro em plena semana de dia de namorados… dá que desiludir. Em vez de reflectir sobre o namoro, saiu-me sobre a prostituição! Não deixa de ser um tema relevante para o dia dos namorados também, mas algo irónico que tenha sido publicado no dia dos amores  uma perspectiva sobre a instrumentalização sexual. O amor vem depois.

Claro que o dia dos namorados pode dizer mais a uns que outros, depende da vossa propensão para celebrar festividades que justificam a compra de prendas ou organização  de pequenas surpresas. O Natal é todos os dias, o dia dos namorados é todos os dias, já bem sabemos. Mas parece que há uma tendência para haver cada vez mais dias mundiais de qualquer coisa para, enfim, pensarmos em certos produtos, práticas ou desgraças. O namoro foi no dia 14, por isso, pronto, ok, tudo bem, vou pensar nisso! Não fosse o dia dos namorados (por mais céptica que fosse) um dia um tanto ao quanto causador de ansiedade durante a minha adolescência. Não, eu não recebia milhares de cartas de amor, nem me eram entregues poemas de admiradores anónimos, muito menos tinha milhares de namorados por onde escolher. O dia dos namorados era vivido como uma desgraça social e uma conquista pessoal por estar ‘parcialmente’ nas tintas.

Na minha adorável adolescência (note-se que adorável está carregada de puro sarcasmo, nenhuma adolescência é adorável) eu construi uma ideia de namoro que permitia tornar séria a ideia de compromisso. Se se gostava ‘mais ou menos’ de pessoas, o namoro parecia a última escolha possível. As outras opções são amizades coloridas, as curtes ou as brincadeiras sem compromissos. O namoro, na minha cabecinha pré-adulta era uma coisa séria, nada tinha que ver com corações e rosas a serem oferecidas no dia 14 de Fevereiro. Muito maduro da minha parte, não é? À primeira vista, até parece que sim, mas era muito fácil cair em assumpções de que a seriedade nada tinha que ver com nada. Pois, na verdade, era a minha impossibilidade de conseguir um namorado que justificava a ausência de companhia amorosa, e pronto.

Será que isto vos soa familiar? O dilema amoroso que vagueia entre ‘a pessoa ideal ainda não apareceu’ e ‘a culpa é minha se eu não consigo encontrar ninguém’? A verdade é que a procura amorosa vive deste equilíbrio mesmo (nunca das extremidades), entre ter a sorte de encontrar alguém e estar disponível para receber alguém. Contudo, e infelizmente, vivemos numa sociedade que de alguma forma ou de outra nos pressiona a sermos não-solteiros. Não ter um namorado, uma esposa, uma companhia para o agora (já nem digo para a vida, porque bem sabemos que nada é para a sempre) é problematizado, como se tivéssemos uma deficiência relacional qualquer. Pois guess what? Não vivemos numa sociedade muito cooperante de qualquer forma, cada vez somos mais individualistas e senhores do nosso umbigo (ai que tragédia que é sermos responsáveis por outros seres humanos!). Por isso é muito natural que ter um relacionamento não seja a prioridade número 1 de muitas gentes por esse mundo fora.

Acontece que o dia dos namorados relembra-nos que estamos/somos solteiros e isso aparentemente pode ser mau, mas não se apoquentem. As iniciativas por uma vida solteira com dignidade são mais que muitas. E existem soluções provisórias para não nos termos que nos preocupar com as desnecessárias pressões para arranjar uma cara metade, por alguma razão que há agora namorados de aluguer para enganar os pais no ano novo chinês. Ou existem websites onde procuramos desde o amor até alguém com quem possamos divertirmo-nos. O amor, o desamor e a solteirice acontece todos os dias de formas diversas e complexas. Corajoso de quem vive a sua intimidade e preferência, mesmo no dia dos namorados.

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