Black Athena

“Athena” foi uma revista de arte que Fernando Pessoa dirigiu com o pintor Ruy Vaz, em Lisboa, entre 1924 e 1925. Durou apenas cinco números, mas foi lá que apareceram em letra de forma as primeiras odes de Ricardo Reis e os primeiros poemas de Alberto Caeiro, ao lado de textos de Mário Saa, Raul Leal, Luís de Montalvor, entre outros.

Abria com um editorial de Pessoa sobre a herança grega no Ocidente e apresentava-se como a voz de um suposto movimento neopagão, que hoje em dia identificamos meramente como invenção pessoana. O que me interessa nesta revista é a imagem da Grécia que – se não no conjunto dos seus textos, pelo menos neste editorial – propõe.

Para a ler, ponho lado a lado duas histórias que o século XIX contou e que se parecem muito: a da invasão, in illo tempore, da Índia dravídica pelos arianos e a da origem ariana da Grécia, esta última desmontada pelo classicista Martin Bernal.

No século XIX, os «arianos», que começaram por ser apenas os falantes hipotéticos do também hipotético indo-europeu, foram rapidamente transformados numa raça branca e conquistadora, a quem se atribuía a origem de todas as grandes civilizações, e foi esta ficção racial, passada por autores
como Gobineau e Houston Stewart Chamberlain, que teve as consequências que sabemos.

À primeira vista, «Athena» (pelo menos na apresentação de Pessoa) oferece-nos uma Grécia inteiramente europeia, talvez ariana. Olhando melhor, descobrimos uma Grécia levemente orientalizada, de algum modo não-branca, para lá daquela imagem contrafeita da Grécia ariana.

Quando falo de orientalismo e de orientalização, falo, como Edward Said, das imagens que a Europa construiu do chamado «Oriente», sempre ligadas ao seu projeto imperial e colonial. Voltando a Bernal, em «Black Athena» (1987), mostra que houve duas maneiras de imaginar a Grécia antiga. Uma é o modelo ariano, que a vê como totalmente europeia, ariana e branca, e que não passa de uma invenção romântica, imposta apenas na primeira metade do século XIX. A outra é o modelo levantino, que era o dos próprios gregos e que os via em continuidade com o Egito e o mundo semita.

De acordo com a narrativa ariana, teria havido uma invasão vinda do Norte que subjugara e assimilara as culturas do Egeu, sendo a civilização grega o resultado da mistura entre os invasores indo-europeus e os seus escravos indígenas. Ora, isto recorda fortemente outra narrativa tida por certa no orientalismo académico europeu de Oitocentos: a da invasão do subcontinente indiano pelos arianos do Norte, que teriam submetido os negros e toscos drávidas.

É certo que ambas as narrativas — sendo o que são, ficções — já não têm hoje lugar na ciência. Em contrapartida, Martin Bernal propõe uma revisão do modelo levantino, aceitando como históricas e factuais as narrativas que falam de uma colonização egípcia, semita e fenícia da Grécia — sendo, assim, a cultura clássica grega que Pessoa pretende fixar e representar de forma aparentemente estática com a sua Athena, não mais do que o resultado dessa colonização e das trocas constantes com o mundo afro-asiático, do
qual a Grécia, até certo ponto, faz parte (Bernal, 1987: 1).

Grécia clássica, essa periferia da Ásia. Daqui deriva uma leitura diferente do próprio “orientalismo grego” — que também o havia —, isto é, do permanente interesse dos gregos pela cultura egípcia, entendido não como orientalismo, mas antes como um gesto de respeito em direção aos seus maiores, mais ou menos diretos.

Um sintoma desse, melhor dizendo, filo-orientalismo grego encontra-se nas «Bacantes» de Eurípides, onde se manifesta de modo seminal a influência dos cultos mistéricos vindos do Levante, ao contrário do que sucede nos Persas de Ésquilo, onde, como diz Edward Said, se desenha já uma fronteira clara entre Grécia e Ásia, à maneira orientalista, que supõe uma cisão ontológica e epistemológica total e completa.

Em ambos os casos, contudo, é sempre do Leste que Dioniso vem para presidir às suas festas, codificadas na tragediografia. «Athena», e sua apresentação pessoana, são, à primeira vista, um bom exemplo
dessa Grécia ariana. No editorial, Pessoa diz que tudo no mundo, tirando as forças cegas da natureza, vem da Grécia, e que é aos gregos que o homem civilizado deve a parte espiritual da sua alma. É uma Grécia vista como origem pura e europeia de tudo.

Podemos chamar a isto um modernismo olímpico: há o gosto pelo clássico, claro, mas também uma certa altitude, uma distância que torna tudo abstrato. Isto não quer dizer que a revista vire as costas ao modernismo, como sugere Richard Zenith. O neoclassicismo é ainda uma máscara do modernismo.

O pormenor mais revelador talvez seja quando o próprio Pessoa chama aos gregos, na apresentação da revista, «um povo infantil e triste». Infantilidade e melancolia eram precisamente os traços que o discurso orientalista atribuía aos orientais, e que também colou aos povos da Península Ibérica. Ao descrever assim os gregos, Pessoa estará talvez também a falar dos portugueses, esse estranho tipo de orientais, ou de fenícios.

A Grécia ariana de «Athena» deixa ver, por dentro, traços daquilo que o modelo ariano queria expulsar. É nestes desvios e ligações escondidas (vários outros existem ao longo da revista, não apenas estes) que a revista mostra a sua verdadeira pluralidade no que toca a uma ideia de Grécia e, por consequência, uma ideia de Europa, e até de Portugal.

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