Ai Portugal VozesTendas metem medo ao Governo André Namora - 26 Out 2026 Portugueses com 18, 25, 35, 50, 70 e 80 anos de idade saíram à rua para se manifestarem contra a falta de habitação. Um partido com assento na Assembleia da República, o CDS, chamou-lhes “arruaceiros”. Ofender desta forma quem vive na rua, na casa dos pais com 40 anos de idade, num quarto que custa 700 euros, com uma renda de 300 euros tendo uma reforma de 500, jovens obrigados a emigrar por impossibilidade de pagar um arrendamento e com o custo de vida, inflação, medicamentos, educação e preço de vendas de casas a aumentar todos os anos, é verdadeiramente uma atitude política dos democratas-cristãos que merece a maior repulsa e revolta. “Arruaceiros”, pessoas que sofrem no dia-a-dia a falta de dinheiro para viverem minimamente com dignidade, é uma posição política que devia obrigar o CDS a deixar de pertencer aos partidos que são financiados pelo Estado com o dinheiro dos “arruaceiros”. Durante quase toda a semana passada, especialmente no último sábado, em Lisboa, Porto, Coimbra e Évora, milhares de manifestantes protestaram contra a política do Governo Montenegro por nada fazer para que a habitação pública seja uma realidade com rendas acessíveis e contra a nova Lei das Rendas que o Governo quer aprovar com o apoio do Chega. Manifestantes que resolveram montar as suas tendas nos locais de manifestação, com o significado de que as tendas são a sua casa. Tendas com um significado muito profundo: demonstram a puberdade dos jovens e de portugueses com qualquer idade que não conseguem ter uma casa, com a agravante de os despejos serem cada vez em maior número. O povo está a acordar depois de constatar que os seus filhos e netos sofrem radicalmente. Que os seus filhos e netos vão-se embora de Portugal por não conseguirem namorar, casar e ter filhos debaixo de um tecto. Politicamente assistimos a uma posição governamental de total demagogia e de hipocrisia. Vários ministros, particularmente o da Administração Interna, vieram a público com afirmações que magoaram os corações dos portugueses. Luís Neves, que já devia ter sido demitido pela indecente e má figura que demonstrou à frente da Direcção Nacional da Polícia Judiciária, chegou ao ponto de afirmar que “acabaram as acampadas” e que “a polícia actuará sempre que for necessário cumprir a lei”. Mas será cumprir a lei quando se actua de maneira muito pior do que no tempo do fascismo, como aconteceu no Porto, onde a carga policial sobre os pacíficos manifestantes provocou vários feridos? Não, senhor ministro! O senhor está a viver num patamar completamente antidemocrático. O governo de Montenegro está com medo das tendas. Medo do seu significado. Medo do descontentamento dos portugueses que já estacionam os seus carros por falta de dinheiro para encher os depósitos de combustível. Medo porque o povo está à beira da revolta, da greve geral, da violência à semelhança do que acontece em França, na Bélgica e na Albânia. Medo do sofrimento dos pobres que recebem uma reforma de 200 euros e que que se veem despejados das suas casas. Medo de quantos patriotas vivem com um salário mínimo dos piores da Europa. Medo dos trabalhadores que chegam ao fim do mês e nem podem comprar um gelado aos filhos. Medo dos que sofreram com a ditadura de Salazar/Caetano e que não admitem que as políticas prepotentes regressem às suas vidas. Medo dos intelectuais que cada vez mais escrevem artigos nos jornais reprovando uma política despesista para projectos megalómanos, enquanto nem se constroem residência e lares para os jovens e idosos. Vergonhosamente no meio desta situação precária de milhões de portugueses, veio a lume que o primeiro-ministro Montenegro é proprietário de 55 imóveis e que a totalidade dos governantes, os mesmos que se decidiram pela nova e deplorável Lei das Rendas, possuem mais de 430 imóveis avaliados em mais de 20 milhões de euros. Isto, é chocante num país em que os pobres já são quatro milhões. A demagogia do Governo bateu no fundo quando o seu discurso constante é acusar os socialistas por não terem construído habitações ao longo de nove anos de governação. O actual governo esqueceu-se foi de dizer que António Costa instituiu um subsídio de renda aos portugueses pobres, por cinco anos, no valor de 200 euros. Que interessa o passado para o que se passa no presente? Em causa estão, nos protestos dos manifestantes, o que se passa nos dias de hoje e num futuro que se espelha sombrio. A preocupação dos milhares de manifestantes diz respeito ao presente quando um governo não tem competência para projectar um plano de construção de uns milhares de habitações públicas que diminuam o sofrimento de quem não vê o cumprimento da Constituição portuguesa, que insere o direito à habitação de todos os portugueses. Ou, como alternativa ao betão, não permitir que centenas de milhares de casas continuem fechadas sem serem arrendadas ou vendidas. As manifestações de protesto por mais habitação não vão parar enquanto não for revertida a Lei das Rendas, travada a aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários, os quais nem pagam impostos ao contrário de qualquer cidadão, e o fim dos despejos de pessoas sem habitação alternativa. Recorde-se que, apesar de os protestos pelo acesso à habitação serem uma realidade já com alguns anos, a situação ganhou novos contornos em Portugal, depois de, em Espanha, Maricarmen Abascal, de 87 anos, ter sido despejada da casa onde vivera praticamente toda a vida e depois de esta ter sido adquirida por um fundo imobiliário. No nosso país existem muitas Maricarmen que vivem em pânico de irem dormir para a rua. É por tudo isto, que o governo Montenegro tem medo das tendas.