VozesO Enigma de Nagoya e a Grande Baía 2038 Hoje Macau - 7 Out 2026 Por Manuel Silvério Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional Antigo dirigente público A presença do Imperador Naruhito na cerimónia de abertura dos 20.º Jogos Asiáticos Aichi-Nagoya deu continuidade à tradição de elevado nível institucional que acompanha os Jogos Asiáticos. De Pequim a Busan e de Hangzhou a Aichi-Nagoya, os anfitriões têm tratado esta grande competição multidesportiva asiática ao mais alto nível, reflexo da posição e da importância que os Jogos construíram ao longo de décadas. Na noite da cerimónia de abertura, encontrava-me próximo da tribuna de honra à espera da passagem da delegação de Macau, China, mas uma alteração de percurso levou a delegação a sair antes de chegar à nossa zona. Foi apenas um pequeno episódio. Nos dias seguintes, porém, à medida que as competições avançavam, algumas questões de organização e logística acabaram por suscitar reflexões mais importantes. O preço de poupar Perante o aumento dos custos dos grandes eventos desportivos, Aichi-Nagoya procurou aproveitar infra-estruturas existentes e evitar os chamados “elefantes brancos”. A lógica é compreensível. Nesta edição não existe, porém, uma Aldeia dos Atletas nos moldes tradicionais. Cerca de 17 mil atletas e oficiais ficaram distribuídos por hotéis, instalações temporárias e um navio de cruzeiro. O número acabou por ultrapassar em cerca de dois mil a previsão inicial da organização, colocando pressão adicional sobre o alojamento, os transportes e outros serviços. Em 26 de Setembro, o secretário-geral da Comissão Organizadora, Satoshi Murate, pediu publicamente desculpa pelos problemas de alojamento e transporte, assumindo que, independentemente das causas, cabia à organização assegurar esses serviços. Quatro dias depois, a 30 de Setembro, o presidente da Câmara de Nagoya, Ichiro Hirosawa, que exerce interinamente as funções de presidente da Comissão Organizadora, voltou a pedir desculpa aos atletas e restantes envolvidos. Reconheceu que ocorreram situações que não deveriam ter acontecido e apontou, entre as causas, erros humanos e insuficiências de comunicação com as delegações. Questionado sobre uma eventual relação entre os problemas e a redução de custos, considerou não ser ainda possível estabelecer essa ligação de forma conclusiva. Ao mesmo tempo, afirmou entender que, no conjunto, os Jogos estavam a ser bem-sucedidos. Houve também episódios concretos que obrigaram a organização a rever procedimentos. Antes de um encontro de hóquei masculino foi tocado por engano o hino da Coreia do Norte em vez do da Coreia do Sul; registaram-se igualmente problemas no transporte de equipas, incluindo autocarros que não chegaram ou seguiram para locais errados. Nada disto significa que a ideia de sustentabilidade esteja errada. Significa apenas que reduzir custos não é o mesmo que reduzir capacidade operacional. É precisamente aí que se revela o valor das pessoas com experiência de organização e gestão. Os atletas não precisam de luxo. Precisam de dormir, alimentar-se, recuperar, deslocar-se e competir em boas condições. O verdadeiro desafio é encontrar formas mais racionais de manter a qualidade. Uma geografia em mudança Os Jogos Asiáticos reflectem também a transformação da própria Ásia. Doha voltará a receber os Jogos em 2030 e Riade será anfitriã em 2034. O Conselho Olímpico da Ásia começou igualmente a estudar possíveis alterações ao ciclo dos Jogos, incluindo uma eventual aproximação ao ano anterior aos Jogos Olímpicos, permitindo uma maior articulação entre competições asiáticas e processos de qualificação olímpica. A ideia tem lógica, mas a Ásia tem características próprias. É vasta, diversa e reúne sistemas desportivos, calendários competitivos e tradições culturais muito diferentes. A articulação com o movimento olímpico internacional é importante, mas os Jogos Asiáticos não devem ser concebidos apenas em função dos Jogos Olímpicos. Modalidades como o wushu, kabaddi ou sepak takraw fazem parte de uma identidade asiática própria. Do resultado ao sistema O desporto moderno de alto rendimento é profundamente internacional. Atletas treinam e competem no estrangeiro, enquanto selecções e equipas recorrem cada vez mais à circulação internacional de treinadores, conhecimentos e métodos de preparação. Durante estes Jogos surgiu na China continental uma reflexão que merece atenção: o basquetebol chinês não precisa de uma “narrativa do esforço”. O esforço é indispensável e merece respeito. No alto rendimento, porém, não constitui por si só um resultado. Da mesma forma, uma medalha isolada não demonstra a qualidade de todo um sistema desportivo. A pergunta mais importante é outra: o que fica depois do resultado? Macau voltou a demonstrar capacidade para competir a elevado nível asiático em modalidades como o wushu e o karaté. Mais importante do que uma posição momentânea no quadro de medalhas é perceber o que existe por detrás dos resultados: tradição técnica, desenvolvimento das modalidades, continuidade, preparação sistemática e intercâmbio externo. Esta reflexão, porém, não deve concentrar-se apenas em Macau. Guangdong, Hong Kong e Macau possuem recursos, experiências e capacidades diferentes. A questão é saber como transformar essas vantagens complementares numa plataforma regional de desenvolvimento desportivo mais forte. Grande Baía 2038 A corrida a 2038 já começou. Ahmedabad, na Índia, apresentou formalmente a sua candidatura. Não estou a defender hoje uma candidatura da Grande Baía aos Jogos Asiáticos de 2038. Estou a defender que vale a pena estudar seriamente essa possibilidade. A Grande Baía já possui muitas das condições que uma cidade anfitriã normalmente teria de construir ao longo de vários anos: instalações desportivas, hotéis, aeroportos, caminhos-de-ferro de alta velocidade, grandes redes de transporte e experiência na organização de eventos internacionais. Guangdong dispõe de escala e infra-estruturas. Hong Kong possui ligações internacionais. Macau dispõe de uma enorme capacidade hoteleira, experiência no turismo e nos grandes eventos e condições singulares de ligação entre diferentes culturas e mercados. A indústria do desporto contemporânea inclui também televisão, produção digital, tecnologia, dados, marketing, turismo, entretenimento e gestão. Pensar a Grande Baía como um todo permitiria explorar um novo modelo de organização de uma grande competição multidesportiva regional. Ahmedabad já avançou. Se a Grande Baía considerar que tem condições e ambição para acolher os Jogos, o momento para estudar essa possibilidade não será depois de 2038 estar decidido. Naturalmente, uma ideia desta dimensão exige estudos rigorosos sobre custos, governação, transportes, circulação transfronteiriça, instalações e divisão de responsabilidades. Estudar não significa candidatar-se. Significa perceber primeiro se faz sentido fazê-lo. Depois de modelos assentes em investimentos gigantescos e perante uma edição em Nagoya marcada por uma contenção de custos mais visível, talvez exista uma terceira via: procurar a excelência com racionalidade. Preservar o nível Enquanto escrevo estas linhas, os Jogos ainda decorrem. Seria, por isso, injusto fazer uma avaliação definitiva de Aichi-Nagoya. Aliás, o próprio Hirosawa, ao reconhecer os problemas em 30 de Setembro, considerou que os Jogos, no seu conjunto, estavam a ser bem-sucedidos. Esse equilíbrio também importa. Reconhecer falhas não significa negar tudo o que funciona, da mesma forma que valorizar uma opção de contenção financeira não obriga a ignorar as suas dificuldades. Mas, até este momento, Nagoya permite pelo menos duas reflexões: poupar não é necessariamente ser eficiente; esforçar-se não significa necessariamente progredir. A Ásia levou décadas a elevar o nível dos Jogos Asiáticos. O futuro não exige aumentar indefinidamente a despesa, nem competir para saber quem constrói mais. Sustentabilidade, racionalidade financeira e qualidade organizativa podem coexistir. Se um dia a Grande Baía entrar nesta discussão, talvez seja precisamente esse o equilíbrio a procurar: Jogos de elevada qualidade, financeiramente racionais, tecnologicamente avançados e verdadeiramente asiáticos. No futuro dos Jogos Asiáticos, a verdadeira medida continuará a ser a qualidade. 2038 ainda está longe. Mas talvez já não seja cedo demais para começar a estudar.