Perspectivas VozesO cérebro na caixa de autoatendimento Jorge Rodrigues Simão - 29 Out 2026 “The real problem is not whether machines think but whether men do.” B. F. Skinner, Contingencies of Reinforcement (1969). Há qualquer coisa de profundamente cómico na forma como a humanidade se convenceu de que está prestes a ser substituída por máquinas ao mesmo tempo que continua incapaz de fazer funcionar uma impressora à primeira tentativa. O debate contemporâneo sobre a inteligência artificial transformou-se numa espécie de religião secular onde profetas tecnológicos anunciam o paraíso da eficiência absoluta, investidores financiam milagres digitais e multidões deslumbradas aguardam a segunda vinda da produtividade, enquanto o cidadão comum continua a perder meia hora para recuperar uma palavra-passe esquecida. A imagem que emerge da discussão pública é frequentemente caricatural, pois de um lado, entusiastas que acreditam que algoritmos resolverão problemas que a humanidade não conseguiu resolver em milhares de anos; do outro, apocalípticos convencidos de que um chatbot é apenas a fase preparatória para uma rebelião de máquinas digna de uma produção cinematográfica de baixo orçamento. Nenhum dos lados parece particularmente interessado na realidade. Como observou o filósofo Michael Sandel em “The Tyranny of Merit” (2020), as sociedades modernas desenvolveram uma perigosa tendência para confundir competência técnica com sabedoria moral. A inteligência artificial pode gerar textos, imagens e previsões estatísticas impressionantes, mas continua incapaz de substituir algo mais raro do que qualquer processador avançado que é o julgamento humano. O cérebro humano permanece, para utilizar a expressão de António Damásio em “O Erro de Descartes” (1994), uma máquina biológica inseparável das emoções, da experiência e da consciência. Os defensores do determinismo tecnológico gostam de falar do cérebro como se fosse apenas um computador orgânico antiquado, uma espécie de máquina a vapor cognitiva prestes a ser enviada para um museu. O problema é que os computadores não criaram Shakespeare, não compuseram Mozart, não escreveram José Saramago nem formularam a teoria da relatividade. O cérebro não é apenas um mecanismo de processamento; é também um gerador de significado. E significado continua a ser uma matéria-prima escassa numa era inundada por informação. A ironia torna-se ainda mais evidente quando observamos os supermercados modernos, autênticos templos da automatização onde caixas automáticas substituem trabalhadores sob a promessa de eficiência superior. O consumidor transforma-se simultaneamente em cliente e empregado não remunerado. Transporta os produtos, regista os códigos, resolve erros do sistema e ainda agradece pela experiência inovadora. O que antes era trabalho pago passou a constituir um privilégio gratuito oferecido ao comprador. David Graeber, em “Bullshit Jobs” (2018), teria provavelmente apreciado esta evolução extraordinária do capitalismo contemporâneo, onde a inovação consiste frequentemente em convencer as pessoas a desempenhar gratuitamente funções anteriormente remuneradas. O discurso empresarial apresenta estas mudanças como inevitáveis, quase naturais, como se estivessem inscritas nas leis da física. No entanto, como recorda Mariana Mazzucato em “The Entrepreneurial State” (2013), a maioria das grandes inovações tecnológicas resultou de investimentos públicos de longo prazo. O mercado gosta muito de reivindicar os lucros da inovação, mas demonstra uma memória selectiva quanto à origem dos seus financiamentos. Enquanto isso, as discussões sobre imigração, trabalho e tecnologia prosseguem envoltas numa nuvem de simplificações que faria corar qualquer académico sério. A retórica política contemporânea parece ter sido concebida para impedir a reflexão. Tudo é reduzido a slogans, hashtags e indignações instantâneas. O imigrante converte-se num símbolo, o trabalhador numa estatística e o cidadão num consumidor de narrativas pré-fabricadas. Hannah Arendt advertiu em “The Origins of Totalitarianism” (1951) para os riscos de sociedades que substituem o pensamento pela repetição mecânica de fórmulas ideológicas. Setenta e cinco anos depois, a advertência parece assustadoramente actual. As redes sociais amplificaram a velocidade da comunicação sem melhorar a qualidade do raciocínio. Produzem opiniões em massa com a eficiência de uma linha de montagem industrial. Nunca foi tão fácil falar; raramente foi tão difícil pensar. O paradoxo da inteligência artificial reside precisamente aqui. Quanto mais sofisticadas se tornam as máquinas, mais valioso se torna aquilo que as distingue dos seres humanos. Criatividade, empatia, discernimento ético, imaginação e capacidade de interpretar contextos complexos não diminuem de importância; aumentam. Klaus Schwab, em “The Fourth Industrial Revolution” (2016), argumentou que a fronteira decisiva do futuro não será tecnológica, mas humana. O verdadeiro desafio não consiste em construir máquinas mais inteligentes; consiste em formar cidadãos mais inteligentes numa época dominada por sistemas automatizados. Contudo, essa tarefa revela-se menos lucrativa do que lançar aplicações com nomes futuristas e apresentações repletas de gráficos coloridos. A educação continua a ser tratada como uma despesa quando deveria ser encarada como investimento estratégico. A consequência está diante dos nossos olhos com sociedades tecnologicamente avançadas e intelectualmente frágeis. A obsessão contemporânea pela inovação criou uma curiosa inversão de valores. Pergunta-se incessantemente o que a tecnologia pode fazer, raramente o que deveria fazer. A diferença entre capacidade e legitimidade desaparece sob camadas de marketing corporativo. Byung-Chul Han, em “A Sociedade do Cansaço” (2010), descreve uma civilização exausta pela pressão constante para optimizar tudo como o trabalho, o lazer, as relações pessoais e até o descanso. O resultado é uma população permanentemente ocupada e crescentemente vazia. A inteligência artificial surge então como a promessa de libertação definitiva, embora frequentemente se limite a acelerar processos que já eram absurdos. Automatizam-se burocracias em vez de eliminar burocracias. Digitalizam-se formulários inúteis. Multiplicam-se plataformas para gerir problemas criados por outras plataformas. A modernidade tecnológica assemelha-se por vezes a uma pessoa que compra uma máquina caríssima para organizar uma garagem onde guarda objectos de que não necessita. O fascínio pela eficiência tornou-se tão intenso que esquecemos uma pergunta elementar que é a de saber para quê? John Maynard Keynes imaginou, no ensaio “Economic Possibilities for our Grandchildren” (1930), uma sociedade onde o progresso tecnológico reduziria drasticamente o tempo de trabalho. Quase um século depois, a tecnologia multiplicou a produtividade, mas o lazer prometido continua misteriosamente ausente. Trabalha-se através do computador, do telemóvel e das plataformas digitais. O escritório acompanha o trabalhador para casa. O tempo livre converte-se em extensão informal do tempo laboral. A prometida libertação transformou-se numa ligação permanente. Eis uma das maiores ironias do nosso tempo de que máquinas criadas para poupar esforço humano coexistem com níveis históricos de ansiedade, exaustão e burnout. Talvez o problema nunca tenha sido tecnológico. Talvez tenha sido político, económico e cultural. A inteligência artificial não é um destino inevitável. É uma ferramenta. E ferramentas reflectem as intenções de quem as utiliza. Como observou Yuval Noah Harari em “Homo Deus” (2015), a questão decisiva não será o que os computadores conseguem fazer, mas quem controla os dados, os algoritmos e as decisões que moldam a sociedade. Enquanto multidões discutem se as máquinas substituirão as pessoas, um grupo consideravelmente menor decide quem programará essas máquinas e com que objectivos. Essa é a conversa que muitos preferem evitar. É menos espectacular do que imaginar robôs conscientes, mas muito mais relevante. No final, a maior ameaça ao cérebro humano talvez não seja a inteligência artificial. Talvez seja a preguiça intelectual alimentada pela ilusão de que alguém, ou algo, pensará por nós. O perigo não reside na existência de algoritmos poderosos, mas na tentação de abdicar do esforço de compreender o mundo. Uma sociedade que delega o pensamento corre o risco de perder precisamente aquilo que a tornou capaz de criar ciência, arte, filosofia e progresso. O cérebro humano continua a ser o recurso mais valioso da economia contemporânea não porque processa informação mais rapidamente do que uma máquina, mas porque atribui significado ao que processa. E enquanto existir essa capacidade de questionar, duvidar, imaginar e desafiar consensos convenientes, continuará a haver espaço para esperança num mundo cada vez mais fascinado por ecrãs que calculam tudo, excepto aquilo que realmente importa.